Tio Arthur que não era Arthur da Távola, mas tão Herói quanto aquele!
... ou ... Tio Arthur de Favos, Risos e Histórias!
A cor dourada dos cachos de cabelos caindo sobre a testa, a todo instante; escondendo
seus olhos azul-celeste que espiavam entre as mechas douradas que insistiam em lhe ofuscar
a visão; o seu jeito de jogar a cabeça para trás, demonstravam que já fazia algum tempo que
não cortava as suas madeixas, as quais combinavam com a pele bronzeada, que realçava a
sua beleza e o vigor da idade.
Com um sorriso sempre estampando o semblante, sua beleza masculina tornava-se
ainda mais resplandecente.Era assim que ele chegava em n Tio Arthur que nossa casa, onde
vinha constantemente; e sempre bem recebido por todas nós, devido à sua alegria contagiante
e ao seu carisma. Meu tio Arthur, além de possuir uma beleza física invejável, possuía,
também, uma beleza interior que, penso, ser o que o tornava ainda mais belo. Muitas vezes
fiquei admirando-o e pensava:
- Puxa como eu tenho um tio bonito!
Eu vivia comparando a cor de seus olhos com o céu. Era através dos mesmos que eu
procurava fazer alguma leitura, na tentativa de desvendar o mistério do seu carisma inigualável.
Nele conheci a alegria, o respeito e o amor ao próximo; pois o mesmo sempre relevava as
brincadeiras de mau gosto. Realizava as suas tarefas com carinho e zelo; respeitava as
pessoas; coisas que aprendera com a sua mãe, minha avó, a qual não conheci e que, dizia ele;
perdoava as ofensas alheias com mansidão e complacência.
Contava histórias para quem quisesse ouvir. Era assim que eu o via; era assim que eu o
enxergava e admirava; essa era a minha leitura, pois sabia que dentro dele pulsava um
coração bondoso e amoroso. Eu o amava! Muitas e muitas vezes ele chegava de mansinho e
nos pregava aquele susto. Era aquela correria; todas queríamos abraçá-lo ao mesmo tempo.
Com ele aprendi a olhar uma árvore enquanto ele descrevia a beleza da...
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Tio Arthur que não era Arthur da Távola, mas tão Herói quanto aquele!
... ou ... Tio Arthur de Favos, Risos e Histórias!
A cor dourada dos cachos de cabelos caindo sobre a testa, a todo instante; escondendo
seus olhos azul-celeste que espiavam entre as mechas douradas que insistiam em lhe ofuscar
a visão; o seu jeito de jogar a cabeça para trás, demonstravam que já fazia algum tempo que
não cortava as suas madeixas, as quais combinavam com a pele bronzeada, que realçava a
sua beleza e o vigor da idade.
Com um sorriso sempre estampando o semblante, sua beleza masculina tornava-se
ainda mais resplandecente.Era assim que ele chegava em n Tio Arthur que nossa casa, onde
vinha constantemente; e sempre bem recebido por todas nós, devido à sua alegria contagiante
e ao seu carisma. Meu tio Arthur, além de possuir uma beleza física invejável, possuía,
também, uma beleza interior que, penso, ser o que o tornava ainda mais belo. Muitas vezes
fiquei admirando-o e pensava:
- Puxa como eu tenho um tio bonito!
Eu vivia comparando a cor de seus olhos com o céu. Era através dos mesmos que eu
procurava fazer alguma leitura, na tentativa de desvendar o mistério do seu carisma inigualável.
Nele conheci a alegria, o respeito e o amor ao próximo; pois o mesmo sempre relevava as
brincadeiras de mau gosto. Realizava as suas tarefas com carinho e zelo; respeitava as
pessoas; coisas que aprendera com a sua mãe, minha avó, a qual não conheci e que, dizia ele;
perdoava as ofensas alheias com mansidão e complacência.
Contava histórias para quem quisesse ouvir. Era assim que eu o via; era assim que eu o
enxergava e admirava; essa era a minha leitura, pois sabia que dentro dele pulsava um
coração bondoso e amoroso. Eu o amava! Muitas e muitas vezes ele chegava de mansinho e
nos pregava aquele susto. Era aquela correria; todas queríamos abraçá-lo ao mesmo tempo.
Com ele aprendi a olhar uma árvore enquanto ele descrevia a beleza da variedade das cores;
vários tons de verde; os tipos de folhas e os nomes de algumas árvores frutíferas, etc. Aprendi
a ler debaixo dos pés de aipim e a fazer daquele um lugar de meditação. Lá ele sempre dormia
à tarde. Com o meu tio aprendi a amar a natureza.
Meu Tio Arthur gostava de cozinhar. Chegava fora da hora para almoçar e sempre trazia
a sua carninha, a qual ele mesmo preparava usando muito limão. Quando ia para a cozinha já
falava com antecedência: minha louça eu lavarei. Como tinha bom papo, eu ou uma de minhas
irmãs sempre se dispunham a ajudá-lo e ficávamos conversando e aproveitando assim a
conversa; uma vez que tinha um bom nível intelectual e, com seu bom humor presente, nunca
lhe faltava companhia.
Contava de sua vida de aventureiro naquela época de sua vida, quando, no meio das
matas, ia a colher mel e depois o distribuía aos amigos e parentes. Numa dessas vindas foi
chegando com uma lata de tinta, reciclada, cheia de mel, trazida no ombro; sem contar os
favos que acomodava em uma caixa e que carregava nas costas dentro de um saco. A
meninada - sempre tinha crianças das vizinhanças em nossa casa - aproximou-se para ver o
que ele trazia. Formamos uma roda ao redor da lata de mel; então ele repartiu em quantidades
e partes iguais; cada criança recebeu uma xícara pequena de mel e um pedaço de favo
amarelinho e fresquinho. Inesquecível. Aquela cena me lembrava alguma coisa; foi como umafesta, pois naquele anos próximos de 1958 não tínhamos tantos doces como hoje em dia.
Em seguida ele nos chamava e nos mostrava o fundo da lata ainda com restos de mel e
de pequenos favos. Mais uma vez repartiu aquela beleza de doce, quando alguém lembrou de
ir buscar uma colher para raspar até o fundão da lata; aí todos queriam colheres e foi aquela
correria para pegar primeiro a dita colher e conseguir raspar a maior quantidade possível
daquele mel nativo saudável. Acredite quem quiser: demos conta de limpar aquela lata com os
dedos mesmo (risos) enquanto nos deliciávamos com aquela comunhão apiária adocicada.
Enquanto isso meu tio ia falando de como fazia para retirar o mel e dos tipos de abelha
existentes: as africanas eram as mais agressivas. Contava-nos, ainda, dos perigos que
enfrentava. Certa feita uma jararaca o atacou; porém ele estava calçado com botas e aquele
ofídio peçonhento ficou com as presas presas na borracha (risos). No final recolheu a lata e foi
lavá-la com água e sabão, no tanque. Então ele disse:
- Ainda tenho que ir na casa de outro irmão. Por uns bons tempos eu não podia ouvir a
palavra mel.
Meu Tio Arthur, fora das aventuras, era por demais vaidoso. Andava sempre bem
alinhado. Pedia licença para usar o tanque de lavar roupas e sempre usava sabão de côco.
Enquanto lavava a sua roupa dizia:
- A pessoa não precisa usar as roupas mais caras; mas, sim, as mais limpas!
E esfregava com muito gosto; colocando-as, em seguida, também, para \\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\"quarar\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\". A roupa
ficava no pastinho - leia-se grama - apanhando sol com bastante espuma de sabão, até clarear.
E repetia-se aquilo várias vezes. Se fosse roupa branca colocava anil (um tabletinho azul que
parecia aqueles de Caldo Knorr) na água, em uma bacia e, mais uma vez, a roupa era
enxaguada e torcida para depois ir para o varal secar. Ato seguinte passava a ferro aquelas
roupas, tão competentemente lavadas.
Não gostava de incomodar ninguém. Sistematicamente, uma de nós, 7 irmãs, estávamos
ao seu lado rindo e aproveitando o seu papo, sempre recheado com o seu refinado bom humor.
Ficava totalmente à vontade em nossa casa, uma vez que já havia morado conosco.
E assim nós fomos passando pela vida.
Um dia, já casada, em passeio, chegamos em Capivari. Quem encontrei na casa de meus
pais? Acertaram: o nosso querido Tio Arthur! Ficamos conversando até de madrugada: ele, eu,
meu marido e outra irmã. Depois de muito tempo nossa mãe chegou na porta da copa e falou:
- Gente já são três horas! Arthur se tu continuares a dar conversa prá elas ninguém
dormirá hoje nesta casa!
Sabe quando ficamos descontrolados nos risos? Aí qualquer coisa se tornava engraçada.
Devíamos ter amanhecido conversando. Foi nosso ultimo contato; nossa despedida. Aquele
encontro ficaria marcado para o resto das nossas vidas. Na próxima vez que fui em nossa
casa, minha mãe, depois de muitos rodeios, assim disse:
- Sei que tudo que tenho para te dizer não vai ser o suficiente para te preparar e te falar
sobre teu Tio Arthur, porque a pessoa maravilhosa que foi, nesse momento, só pode estar no
Céu.
Encerrara-se, assim, aquela existência primorosa e eivada de bons feitos. O seu
caminhar terreno foi pontilhado por centenas de alegrias distribuídas, que a todas nós
contentou na mais pura essência.festa, pois naquele anos próximos de 1958 não tínhamos tantos doces como hoje em dia.
Em seguida ele nos chamava e nos mostrava o fundo da lata ainda com restos de mel e
de pequenos favos. Mais uma vez repartiu aquela beleza de doce, quando alguém lembrou de
ir buscar uma colher para raspar até o fundão da lata; aí todos queriam colheres e foi aquela
correria para pegar primeiro a dita colher e conseguir raspar a maior quantidade possível
daquele mel nativo saudável. Acredite quem quiser: demos conta de limpar aquela lata com os
dedos mesmo (risos) enquanto nos deliciávamos com aquela comunhão apiária adocicada.
Enquanto isso meu tio ia falando de como fazia para retirar o mel e dos tipos de abelha
existentes: as africanas eram as mais agressivas. Contava-nos, ainda, dos perigos que
enfrentava. Certa feita uma jararaca o atacou; porém ele estava calçado com botas e aquele
ofídio peçonhento ficou com as presas presas na borracha (risos). No final recolheu a lata e foi
lavá-la com água e sabão, no tanque. Então ele disse:
- Ainda tenho que ir na casa de outro irmão. Por uns bons tempos eu não podia ouvir a
palavra mel.
Meu Tio Arthur, fora das aventuras, era por demais vaidoso. Andava sempre bem
alinhado. Pedia licença para usar o tanque de lavar roupas e sempre usava sabão de côco.
Enquanto lavava a sua roupa dizia:
- A pessoa não precisa usar as roupas mais caras; mas, sim, as mais limpas!
E esfregava com muito gosto; colocando-as, em seguida, também, para \\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\"quarar\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\". A roupa
ficava no pastinho - leia-se grama - apanhando sol com bastante espuma de sabão, até clarear.
E repetia-se aquilo várias vezes. Se fosse roupa branca colocava anil (um tabletinho azul que
parecia aqueles de Caldo Knorr) na água, em uma bacia e, mais uma vez, a roupa era
enxaguada e torcida para depois ir para o varal secar. Ato seguinte passava a ferro aquelas
roupas, tão competentemente lavadas.
Não gostava de incomodar ninguém. Sistematicamente, uma de nós, 7 irmãs, estávamos
ao seu lado rindo e aproveitando o seu papo, sempre recheado com o seu refinado bom humor.
Ficava totalmente à vontade em nossa casa, uma vez que já havia morado conosco.
E assim nós fomos passando pela vida.
Um dia, já casada, em passeio, chegamos em Capivari. Quem encontrei na casa de meus
pais? Acertaram: o nosso querido Tio Arthur! Ficamos conversando até de madrugada: ele, eu,
meu marido e outra irmã. Depois de muito tempo nossa mãe chegou na porta da copa e falou:
- Gente já são três horas! Arthur se tu continuares a dar conversa prá elas ninguém
dormirá hoje nesta casa!
Sabe quando ficamos descontrolados nos risos? Aí qualquer coisa se tornava engraçada.
Devíamos ter amanhecido conversando. Foi nosso ultimo contato; nossa despedida. Aquele
encontro ficaria marcado para o resto das nossas vidas. Na próxima vez que fui em nossa
casa, minha mãe, depois de muitos rodeios, assim disse:
- Sei que tudo que tenho para te dizer não vai ser o suficiente para te preparar e te falar
sobre teu Tio Arthur, porque a pessoa maravilhosa que foi, nesse momento, só pode estar no
Céu.
Encerrara-se, assim, aquela existência primorosa e eivada de bons feitos. O seu
caminhar terreno foi pontilhado por centenas de alegrias distribuídas, que a todas nós
contentou na mais pura essência.Tio Arthur, sei que você está distribuindo a sua alegria aí em cima e, junto com os anjos,
colhendo muitos favos de mel celestial. A você a nossa eterna gratidão por ter brilhado e
tornado a nossa infância reluzente e plena de alegrias!
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