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Por: MARLUCE BEZERRA DO NASCIMENTO, 25 de fevereiro de 2024

O Dia em que Pai Morreu na Feira

Esta história contém:

O Dia em que Pai Morreu na Feira

O Dia em que Pai Morreu na Feira

_ Esperando seu pai, dona Cícera? - perguntou a freira, enquanto passava por Cícera, que esperava o pai, sentadinha na escada, com os pertences amarrados numa trouxa colorida, que sua mãe fizera com as sobras de pano do vestido.

_ Sim, Senhora - respondeu com arzinho alegre e meio acanhado, achando a freira muito simpática, pois nem franzira a testa, nem parecia enraivada, como era seu jeito de sempre viver pelos corredores do orfanato, botando medo nas crianças.

Embora com a cara boazinha, irmã Eliana passou apressada, como de costume, fazendo brisa com o hábito cinzento. Que alívio que era quando ela passava sem bater. Mais do que um alívio era um quase um milagre. Quando as crianças topavam com ela, baixavam a cabeça e entrevavam de corpo e alma, já se aprontando para terem as orelhas puxadas até ficarem em brasa ou para apanharem com o fio preto, que a freira carregava no bolso do hábito. Quando ela batia com o diabo do fio, as pernas ficavam ardendo sem fim, cheias de vergões roxos, quase cortadas. Mas a irmã passara sem lhe dar muita atenção e Cícera se acalmara. Tomava-lhe a alegria de saber que seu pai viria para a feira e que depois da feira iria lhe buscar, e que antes do fim do dia, querendo Deus, estaria no sítio, correndo com o cachorro, por cima de pau e pedra, até sua mãe brigar e mandar pra dentro. Esperava.

Os dias no orfanato eram cinzentos como o hábito das freiras. Era como se o céu estivesse sempre para chover. Ali, ninguém nunca sorria e todo mundo, que era criança, tinha sempre vontade de chorar. Era como uma espécie de purgatório, em que crianças pagavam pecados a um Deus impossível de ser agradado: “Você apanhou porque desagradou a Deus”, “Está de castigo porque Deus não gosta de gente desobediente”, “Tá com dor de barriga porque deixou Deus triste” - diziam as freiras.

Fazia seis anos que Cícera morava no orfanato, com outras quarenta meninas, que...

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Palavras-chave: pai, feira, freiras
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Papai e Eu - Sítio Mata Redonda - Triunfo - PE - 1970

Dados da imagem No dia em que papai me adotou, as freiras pararam o carro para tirar uma foto. papai me levou no colo e posou ali, frente ao mandacaru. Sítio Mata Redonda - Triunfo - PE

Período:
Ano 1970

Local:
Brasil / Pernambuco / Triunfo

Imagem de:

História:
O Dia em que Pai Morreu na Feira

Crédito:
Freiras do Lar Santa Elisabeth - Triunfo

Palavras-chave:
pai, sítio, eu

No dia em que papai me adotou, as freiras pararam o carro para tirar uma foto. papai me levou no colo e posou ali, frente ao mandacaru. Sítio Mata Redonda - Triunfo - PE

Complementos

O documentário interliga de forma poética os textos da escritora nordestina Marluce Bezerra do Nascimento com suas vivências e a relação com seu já falecido pai. Um filme de Rebeca Angelo. Diegese | Produção Multimídia www.diegese.wixsite.com/ptbr

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