O Dia em que Pai Morreu na Feira
_ Esperando seu pai, dona Cícera? - perguntou a freira, enquanto passava por Cícera, que esperava o pai, sentadinha na escada, com os pertences amarrados numa trouxa colorida, que sua mãe fizera com as sobras de pano do vestido.
_ Sim, Senhora - respondeu com arzinho alegre e meio acanhado, achando a freira muito simpática, pois nem franzira a testa, nem parecia enraivada, como era seu jeito de sempre viver pelos corredores do orfanato, botando medo nas crianças.
Embora com a cara boazinha, irmã Eliana passou apressada, como de costume, fazendo brisa com o hábito cinzento. Que alívio que era quando ela passava sem bater. Mais do que um alívio era um quase um milagre. Quando as crianças topavam com ela, baixavam a cabeça e entrevavam de corpo e alma, já se aprontando para terem as orelhas puxadas até ficarem em brasa ou para apanharem com o fio preto, que a freira carregava no bolso do hábito. Quando ela batia com o diabo do fio, as pernas ficavam ardendo sem fim, cheias de vergões roxos, quase cortadas. Mas a irmã passara sem lhe dar muita atenção e Cícera se acalmara. Tomava-lhe a alegria de saber que seu pai viria para a feira e que depois da feira iria lhe buscar, e que antes do fim do dia, querendo Deus, estaria no sítio, correndo com o cachorro, por cima de pau e pedra, até sua mãe brigar e mandar pra dentro. Esperava.
Os dias no orfanato eram cinzentos como o hábito das freiras. Era como se o céu estivesse sempre para chover. Ali, ninguém nunca sorria e todo mundo, que era criança, tinha sempre vontade de chorar. Era como uma espécie de purgatório, em que crianças pagavam pecados a um Deus impossível de ser agradado: “Você apanhou porque desagradou a Deus”, “Está de castigo porque Deus não gosta de gente desobediente”, “Tá com dor de barriga porque deixou Deus triste” - diziam as freiras.
Fazia seis anos que Cícera morava no orfanato, com outras quarenta meninas, que...
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O Dia em que Pai Morreu na Feira
_ Esperando seu pai, dona Cícera? - perguntou a freira, enquanto passava por Cícera, que esperava o pai, sentadinha na escada, com os pertences amarrados numa trouxa colorida, que sua mãe fizera com as sobras de pano do vestido.
_ Sim, Senhora - respondeu com arzinho alegre e meio acanhado, achando a freira muito simpática, pois nem franzira a testa, nem parecia enraivada, como era seu jeito de sempre viver pelos corredores do orfanato, botando medo nas crianças.
Embora com a cara boazinha, irmã Eliana passou apressada, como de costume, fazendo brisa com o hábito cinzento. Que alívio que era quando ela passava sem bater. Mais do que um alívio era um quase um milagre. Quando as crianças topavam com ela, baixavam a cabeça e entrevavam de corpo e alma, já se aprontando para terem as orelhas puxadas até ficarem em brasa ou para apanharem com o fio preto, que a freira carregava no bolso do hábito. Quando ela batia com o diabo do fio, as pernas ficavam ardendo sem fim, cheias de vergões roxos, quase cortadas. Mas a irmã passara sem lhe dar muita atenção e Cícera se acalmara. Tomava-lhe a alegria de saber que seu pai viria para a feira e que depois da feira iria lhe buscar, e que antes do fim do dia, querendo Deus, estaria no sítio, correndo com o cachorro, por cima de pau e pedra, até sua mãe brigar e mandar pra dentro. Esperava.
Os dias no orfanato eram cinzentos como o hábito das freiras. Era como se o céu estivesse sempre para chover. Ali, ninguém nunca sorria e todo mundo, que era criança, tinha sempre vontade de chorar. Era como uma espécie de purgatório, em que crianças pagavam pecados a um Deus impossível de ser agradado: “Você apanhou porque desagradou a Deus”, “Está de castigo porque Deus não gosta de gente desobediente”, “Tá com dor de barriga porque deixou Deus triste” - diziam as freiras.
Fazia seis anos que Cícera morava no orfanato, com outras quarenta meninas, que não tinham pai, ou não tinham mãe, ou não tinham pai nem mãe. Não era órfã como as outras meninas. Tinha pai e mãe que lhe pegaram para criar quando ela ainda contava dois anos. Tinha as pernas enfraquecidas pela desnutrição e não dava conta de andar seis quilômetros, do sítio até a cidade para estudar no colégio das freiras, por isso, seus pais tinham concordado com a madre superiora – irmã de sua mãe de criação – que ela passaria a semana no orfanato e o pai lhe buscava no sábado.
Com nove anos, Cícera começara a dar trabalho. Não fazia as coisas direito, não cantava na missa, brincava de “irmã Eliana”, batendo nas outras meninas, fugia das tarefas. As freiras castigavam e surravam, dizendo que ela era obra do cão. Ela chorava com medo de um cão que tinha visto na Bíblia. Sua própria tia, às vezes, era quem lhe punia pelos malfeitos, para dar o exemplo. Gostava de bater na bunda limpa, com as sandálias franciscanas. E como doía, apanhar de alpercata. A freira não tinha dó. Cícera defendia a bunda, com as duas mãos, mas era pior, pois a tia batia também nas mãos e tudo ficava dolorido, queimando como tição. Cícera se consolava, pensando no dia em que seu pai lhe tiraria dali de uma vez, pra nunca mais voltar.
Sábado era feira na cidade. Seu pai chegava, guardava a faca na venda do homem e seguia para feira, a fim de fazer compras que sua mãe pedia e vender o pouco do que plantava no sítio - farinha, feijão, rapadura, manga, laranja... Quando a feira acabava, ele ia buscar sua cria no orfanato.
Cícera mal dormia de sexta para sábado, de tão afoita pela hora de ver seu pai, entrando de chapéu preto, com um pacotinho na mão. Já conhecia a cena de cor. Toda vez era assim – Ela corria e estancava diante do homem. Seu pai não era de abraço, então ela esticava a mão, para o “bença, pai”. Ele respondia “Deus lhe abençoe, mia fia!”, e já emendava:
_ Tome aqui, que seu pai trouxe, pra mia fia ir comeno no camin. – A alegria vinha, que vinha derramando. O pai era uma espécie de anjo, queimado do sol e muito forte, com o poder de amansar os bois, as vacas, as cabras. Até cobra o pai matava.
Na viagem para casa, sentada na sela do cavalo, tudo lhe parecia doce – as balas, as cocadas, até a poeira da estrada era doce. O sol afastava as nuvens cinzas e brilhava orvalhado, no rosto do pai, que andava a pé, ao lado do cavalo, segurando as rédeas. “Pai não quer montar aqui no cavalo também não?”, perguntava Cícera, com dó do pai, suando, cansado ao sol do sertão. Ele respondia com calma:
_ Não, mia fia. Duas pessoas e mais a mercaduria é muito peso pro cavalo carregá. Se segure direito que já já nóis chega.
Naquele sábado, Cícera esperava o pai desde cedo. Irmã Eliana tinha passado para lá, tinha voltado, e até tinha lhe dado sorriso - bem pouquinho, mas tinha - e seu pai não chegava. Já sentia a bunda dormente de tanto esperar sentada. Ela entendia a hora pelo sol. Sua mãe, a que lhe pegara para criar, já tinha tentado lhe ensinar a ver as horas, mas ela não aprendia, então, olhava o sol correndo no céu e sabia que o pai estava demorando. Começava a sentir um peso grande nos ombros franzinos, mas ficou ali, cada vez mais quieta. O sol caminhou mais pelo céu e Cícera começou a sentir medo. Começou a pensar “coisa ruim”. O pai tinha morrido na feira, algum homem tinha matado ele, que andava sem faca e não podia se defender...
Cícera pensava, quando irmã Eliana passou novamente, muito calma, quase parando perto dela – “Ainda esperando seu pai?” - Desta vez, enquanto falava, a freira esboçara um sorriso quase inteiro. Cícera baixou a cabeça, esfregando as mãos que suavam. Estava com medo e o coração na carreira. Não disse palavra. “Ele tá demorando hoje, não é? Mas fique aí, quietinha, tenha paciência que ele chega já”, disse a freira, se afastando devagar. Cícera não respondeu nada. Obedeceu. Fazia agora, um esforço para afastar os pensamentos que lhe chegavam aterradores, mas não conseguia: “Teve tiro na feira e pai foi baleado Pai caiu no açude e morreu afogado O touro matou pai no curral” – começou a suar frio e a chorar, com toda força. Gritava bem alto, soluçava em desespero, com as lágrimas lhe banhando o rosto e escorrendo peito abaixo.
O sol baixava na linha do horizonte e anunciava o anoitecer. “Pai morreu e me deixou aqui.” Irmã Cilene aparecera no corredor e quis saber que zoada era aquela. Entre soluços, Cícera respondera:
_ “É que pai morreu e me deixou aqui”.
_ Que conversa é essa, menina “bexta”? Quem disse que teu pai morreu?
_ Eu tô esperando pai desde cedo, já tá anoitecendo e pai não chega. Ele morreu na feira. E caiu de novo num choro inconsolável, como se o mundo todo tivesse acabado. Com raiva, Irmã Cilene mandou Cícera se calar e ir desmanchar a trouxa. Ela obedeceu, soluçando baixinho. Subiu a escada com as pernas pesadas, como se caminhasse para o sacrifício. As lágrimas lavavam seu corpo em luto. Nunca mais iria para casa... Os soluços lhe balançavam o corpo mirrado. Desatou, com dificuldade, o nó apertado da trouxa. Voltou, devagar os pertences para o lugar no armário. Tinha anoitecido. Dobrava o pano florido – que sobrou do vestido, quando irmã Roberta chegou. Irmã Roberta era boazinha, nunca lhe dera um tapa sequer. Muito pelo contrário, botava até no colo, quando via uma das internas em agonia.
_ Que é que está acontecendo, filha de Deus? Por que esse chororô danado?
_ Eu tô chorando porque mataram pai na feira. Eu esperei o dia todo e pai não veio me buscar.
Irmã Roberta se aproximou de Cícera, se ajoelhou diante dela para ficar igualada, segurou seus dois bracinhos pesados e lhe apertou contra o peito. A freira tinha cheiro de rosas... Com o afago, Cícera voltou a chorar sacudido, enquanto a freira tentava lhe acalmar.
_ “Sch... Sch... Enxugue o rosto! Eu tenho uma coisa para lhe contar, mas só vou lhe contar se você parar de chorar.
Cícera obedeceu, parou de chorar e ficou só soluçando, com as lágrimas teimando. Passou as mãos pelos olhos, já inchados pelo sal das lágrimas. Olhou para a freira, sem controlar o açoite dos soluços no corpo pequeno.
_ Preste atenção! Seu pai não morreu, coisa nenhuma. Ele esteve aqui pela manhã para buscar você, mas irmã Eliana estava esperando por ele na entrada. Disse a ele que você estava de castigo e que não ia para casa. Ele pediu pra lhe ver. Queria lhe abençoar e entregar suas cocadas e balas, mas irmã Eliana disse que “quem está de castigo, tem que fazer sacrifício para Deus perdoar”. Então seu pai foi embora, mas ele prometeu que sábado vem lhe buscar.
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