A menina que era cuidada pelas estrelas
Eu sempre gostei de histórias. Minha avó materna me contava muitas histórias, hoje tenho dúvidas, se ela sabia impregnar as histórias com muitos detalhes ou se era minha mente, neurodivergente que imaginava cenários com impressionantes cores, formas, profundidades e, em alguns casos, até mesmo sabores. Cada história contada em poucas palavras, na minha cabecinha de criança, virava uma megaprodução cinematográfica. Agora adulta, estudiosa e curiosa de muitas coisas, tenho refletido sobre a importância de imaginar e re-imaginar ambientes, situações e histórias.
Uma das coisas que sempre me recordo da minha infância é que eu costumava subir no telhado que tinha na nossa casa, ficava lá por horas, entre o final da tarde e o início da noite. Eu ficava esperando que diante dos meus olhos se descortinasse o espetáculo da noite. Surgiriam aqueles magníficos pontos brilhantes que costumamos chamar de estrelas, eu devia ter 8 ou 9 anos. Enquanto estava no telhado, eu pensava sobre quantos mundos existiam, como seriam estes outros mundos, inventava a que distância eu poderia estar daqueles pontos brilhantes. Ansiava por crescer e conhecer outros mundos, com suas linguagens, eu queria “comer” o mundo.
Na minha imaginação as estrelas me cuidavam, todas as noites eu ia lá, para ficar deitada no telhado, porque eu sabia que elas queriam saber como eu estava. E em silêncio aquela menina desenhava no ar muitas casas, coisas, histórias, pessoas e deixava que sua imaginação fluísse livremente.
Naqueles momentos de ausência de sons ruidosos, sentia como se eu existisse no meu próprio mundo, povoado de curiosidades, imaginações. Era uma sensação acolhedora para mim, ali eu sentia que pertencia, já que podia exercer ao máximo minha capacidade de criar outros mundos, com personagens que dialogavam comigo.
Quando lembro destes tempos, eu recordo de experimentar uma espécie de solidão e de não...
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A menina que era cuidada pelas estrelas
Eu sempre gostei de histórias. Minha avó materna me contava muitas histórias, hoje tenho dúvidas, se ela sabia impregnar as histórias com muitos detalhes ou se era minha mente, neurodivergente que imaginava cenários com impressionantes cores, formas, profundidades e, em alguns casos, até mesmo sabores. Cada história contada em poucas palavras, na minha cabecinha de criança, virava uma megaprodução cinematográfica. Agora adulta, estudiosa e curiosa de muitas coisas, tenho refletido sobre a importância de imaginar e re-imaginar ambientes, situações e histórias.
Uma das coisas que sempre me recordo da minha infância é que eu costumava subir no telhado que tinha na nossa casa, ficava lá por horas, entre o final da tarde e o início da noite. Eu ficava esperando que diante dos meus olhos se descortinasse o espetáculo da noite. Surgiriam aqueles magníficos pontos brilhantes que costumamos chamar de estrelas, eu devia ter 8 ou 9 anos. Enquanto estava no telhado, eu pensava sobre quantos mundos existiam, como seriam estes outros mundos, inventava a que distância eu poderia estar daqueles pontos brilhantes. Ansiava por crescer e conhecer outros mundos, com suas linguagens, eu queria “comer” o mundo.
Na minha imaginação as estrelas me cuidavam, todas as noites eu ia lá, para ficar deitada no telhado, porque eu sabia que elas queriam saber como eu estava. E em silêncio aquela menina desenhava no ar muitas casas, coisas, histórias, pessoas e deixava que sua imaginação fluísse livremente.
Naqueles momentos de ausência de sons ruidosos, sentia como se eu existisse no meu próprio mundo, povoado de curiosidades, imaginações. Era uma sensação acolhedora para mim, ali eu sentia que pertencia, já que podia exercer ao máximo minha capacidade de criar outros mundos, com personagens que dialogavam comigo.
Quando lembro destes tempos, eu recordo de experimentar uma espécie de solidão e de não pertencimento, sensações que sempre me acompanharam ao longo da vida.
Eu tinha 5 anos e no jardim da infância não costumava brincar com as outras crianças por considera-las muito “infantis”. Lembro de certo dia, estar sentada na escadaria da escola, olhando para meus sapatos que eram brancos de verniz, nos quais dava para ver o céu e as nuvens refletidos. Estava ali, absorta no meu universo particular, quando soou próximo a mim, a voz da professora, que me perguntava por que eu estava ali sozinha, sem brincar com os outros. Lembro de ter tido dificuldade em articular algumas palavras para responder, como poderia explicar para a professora como eu me sentia.
Bom, posso dizer que minhas primeiras experiencias de isolamento e não pertencimento foram as cinco anos de idade, não foram na adolescência, muito embora, tenham aumentado neste período. Eu me sentia completamente a parte, tempos difíceis, porque não conseguia compreender e nomear meus sentimentos, me refugiava na leitura e na música e nos meus projetos de estudos futuros.
Demorei algum tempo para juntar as partes desta pequena história que podem até parecer tolas, mas não são para mim, o sentimento de solidão, de não pertencimento sempre me acompanhou.
Hoje na vida adulta consigo compreender um pouco melhor meus sentimentos, tem dias que eu queria voltar naquele telhado e dizer para aquela menina, o quanto ela é especial e que sim, ela vai conhecer outros mundos, outras linguagens e que mesmo que os outros não a compreendam, ela consegue se compreender e se abraçar.
Janete Schubert
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