BRINCANDO de BONECA
Nos “Anos Dourados” eu já contava com nove primaveras quando minha tia Vânia casou-se com Luís e foi morar no morro que já era velho conhecido meu. Lá era um lugar muito bom para se morar. Agora havia mais uma casa para eu passear. Aquele lugar já me era bem familiar: a venda do Sêo Nasso, Dona Carmem; Dona Jorgina, a costureira; Dona Morena com suas filhas e seu filho bonitão, Sêo Inácio; Sêo Sizinando; Dona Teresa; etc.
Por coincidência a casa era quase ao lado do Salão de Danças do Sêo Inácio; apenas separado pela casa do Sr. Sizinando, só que era do lado direito. A casa de madeira escurecida pelo tempo, ficava na esquina, bem no início de um pequeno morro.
Pelo fato de nunca ter sido pintada, possuía um aspecto romântico, porque contrastava com o verde das árvores e flores variadas que alguém plantou e cuidou até então, com esmero e carinho, deixando fluir uma energia gostosa que emanava daquele local; parecia estar preparada para o novo casal que ali iniciava a sua vida matrimonial e que, um dia, iria enriquecer suas vidas e sua família, com a chegada dos filhos abençoados por Deus. Das árvores frondosas que ali existiam, uma era a minha predileta: um pé de sinamão, com muitos galhos fortes, demonstrando ser bem antigo. Lá eu subia em seus galhos, apanhava as bolinhas, (sementes) e jogava nas pessoas que por ali passavam. Era meu refúgio e esconderijo; cantava minhas músicas preferidas e assobiava ”fiufiu” para o moço bonitão, filho da costureira Dona Morena (se ele fazia para as moças, eu também podia fazer para ele). Naquela casa, dois detalhes aguçavam por demais a minha curiosidade: um quarto fechado e um poço. No pé de sinamão eu me escondia e minha tia me procurava, fingindo não me ver, compactuando comigo; eu queria e precisava brincar. Minha tia era uma mulher sábia! Na sombra do sinamão meu tio construiu um banco de madeira que circulava toda a árvore, e, muitas vezes, vi meus...
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BRINCANDO de BONECA
Nos “Anos Dourados” eu já contava com nove primaveras quando minha tia Vânia casou-se com Luís e foi morar no morro que já era velho conhecido meu. Lá era um lugar muito bom para se morar. Agora havia mais uma casa para eu passear. Aquele lugar já me era bem familiar: a venda do Sêo Nasso, Dona Carmem; Dona Jorgina, a costureira; Dona Morena com suas filhas e seu filho bonitão, Sêo Inácio; Sêo Sizinando; Dona Teresa; etc.
Por coincidência a casa era quase ao lado do Salão de Danças do Sêo Inácio; apenas separado pela casa do Sr. Sizinando, só que era do lado direito. A casa de madeira escurecida pelo tempo, ficava na esquina, bem no início de um pequeno morro.
Pelo fato de nunca ter sido pintada, possuía um aspecto romântico, porque contrastava com o verde das árvores e flores variadas que alguém plantou e cuidou até então, com esmero e carinho, deixando fluir uma energia gostosa que emanava daquele local; parecia estar preparada para o novo casal que ali iniciava a sua vida matrimonial e que, um dia, iria enriquecer suas vidas e sua família, com a chegada dos filhos abençoados por Deus. Das árvores frondosas que ali existiam, uma era a minha predileta: um pé de sinamão, com muitos galhos fortes, demonstrando ser bem antigo. Lá eu subia em seus galhos, apanhava as bolinhas, (sementes) e jogava nas pessoas que por ali passavam. Era meu refúgio e esconderijo; cantava minhas músicas preferidas e assobiava ”fiufiu” para o moço bonitão, filho da costureira Dona Morena (se ele fazia para as moças, eu também podia fazer para ele). Naquela casa, dois detalhes aguçavam por demais a minha curiosidade: um quarto fechado e um poço. No pé de sinamão eu me escondia e minha tia me procurava, fingindo não me ver, compactuando comigo; eu queria e precisava brincar. Minha tia era uma mulher sábia! Na sombra do sinamão meu tio construiu um banco de madeira que circulava toda a árvore, e, muitas vezes, vi meus tios sentados naquele mesmo banco, abraçadinhos, trocando carinhos e juras de amor eterno; eles namoravam aproveitando, assim, aquele cenário aconchegante, formando um quadro de rara beleza, emoldurado pelo cintilar dos doirados raios de sol, os quais banhavam aquela cena, naquela tarde primaveril, gravada por mim, num dos meus postos da árvore, e que ficaram registrados para sempre em minha mente infantil e curiosa, que já admirava o belo e o natural.
Assim íamos todos passando pelo tempo ... Um dia, estando no meu posto, em cima da árvore, percebi que minha tia tricotava ...
-Tia, é sapatinho de neném?
Ela não respondia nada. Eu enão insistia:
- Tia se a senhora está fazendo um sapatinho de neném é porque vai ”ganhar” um neném!
Aí sim ela respondeu: sua confiada (folgada), quando desceres daí vou te mostrar o neném; vou te pegar! Naqueles tempos as crianças não podiam falar nestes assuntos; era estritamente proibido. Minha tia era como uma segunda mãe para mim. Falava em prosa e versos; aprendi com ela o que se chamava de ”modinha”. Era toda poética, bondosa e dona de um carisma invejável; quem a conheceu pode confirmar estas verdades. Trabalhava cantando os cantos de sua infância e me contava historinhas de seu tempo, de todas as irmãs e de seus irmãos na roça. Ela era faladeira e eu muito boa ouvinte; o que nos tornava amigas e cúmplices. Com ela aprendi muitas brincadeiras, cantos e até “trovas”. Dona de uma alegria imensurável, eu me deleitava em sua companhia. Ganhei vários apelidos dela, dos quais ríamos demais sem parar; não se sabendo, assim, quem era a mais criança ali. Pois bem; aprendi a por apelidos também.
Ela me dava corda e eu gostava da atenção que ela me dispensava. Nenhum dos apelidos ”pegava”, pois nem dava tempo de gravar um, já ganhava outro; nem havia tempo de ”guardar raiva”, pois eu gostava demais dessa tia por entender que não era por “maldade” e, sim, para poder rir; e por ser tão bondosa e extremamente carinhosa ...
Eu sabia muito bem reconhecer quem gostava de criança e quem não gostava; era uma questão de sentir, de sintonia, de afinidade ...
Um dia ela ganhou de meu tio uma máquina de costura; lembro-me até da marca: KROSLEY. Quando ela saia era a minha vez de costurar. Ela saiu e ... tantarantantan ... imediatamente eu ila lá para a máquina de costura. Ela precisou sair, mas voltou e tive que guardar a máquina rapidamente. Na pressa quebrei a tampinha que fechava a caixa da lançadeira ou bobina de linha ... o pânico foi total! Minha tia foi maleável mas meu tio nem tanto; brigou muito comigo e eu pedi para ir embora. Chorei muito, mas havia desobedecido, e se minha mãe soubesse ia “ter mais” ...
Fiquei ”arisca” por um tempão; dessa vez o corridão foi forte.
Assim íamos todos nós passando pelo tempo, passando ... passando ...
E o neném nasceu! Era uma linda menina de olhinhos azuis que mais pareciam duas continhas de um colar de cristal; a boca, muito vermelha, realçava ainda mais as suas faces de porcelana; e os cabelinhos da cor do sol brilhante formavam aquela cabecinha de boneca para eu brincar, que eu vi crescer e que ajudei a cuidar como se fosse um brinquedo.
Ela crescia muito bem; aprendeu a andar e já falava algumas palavras: ma ...ma ... minha tia dizia:
- É Mamãe!
Eu dizia:
- Ela quer falar Nelma, Nelma!
Assim íamos passando pelo tempo ... passando e passando. Agora nossa menininha já falava e andava e corria bem. Minha tia quando costurava um vestidinho deixava que eu a vestisse; assim era um presente, um privilégio eu dar banho na menininha e vesti-la com o vestidinho novo na primeira vez em que ia ser usado. Eu então era a primeira a admirá-la. Fazia isso de bom grado e minha tia confiava totalmente em mim. Como sempre, minha tia precisava ir às compras e eu ficava cuidando da casa; agora eu era a “dona da casa“. Ela saiu e recomendava sempre, muitas e muitas vezes:
- Deixei bastante água dentro de casa, não precisas ir no poço ...
- Nelma, cuide muito bem da Rosinha; não a deixes chegar perto do poço! Cuidado com o poço!!!
O poço ficava numa elevação de terra “morreba“ do quintal, aumentando assim o trabalho de subir e descer com os baldes cheios de “águas dançantes“, chegando os mesmos, dentro de casa, quase sempre vazios; digo: os meus baldes (risos ...) O poço, por se localizar bem no alto, representava ser ainda mais profundo do que os outros poços que eu conhecia. Ele possuía uma armação de madeira tosca, parecendo uma enorme mesa quadrada e, no centro, uma tampa que abria e fechava e que era a entrada do balde com a corda. A meio metro de altura dessa mesa existia uma alça, também de madeira, em forma retangular. Naquela alça, existia uma roldana, por onde deslizava uma corda enorme com o balde amarrado na ponta, o qual descia até lá embaixo, na água límpida e transparente. A roldana, de tanto ser roçada pela corda, tinha um brilho devido ao metal bronzeado e na qual, batendo os raios de sol, brilhava muito e muito; ofuscando os nossos olhos. A proteção de madeira, em formato de mesa, estava totalmente desgastada e podre, bem como sua tampa de proteção e entrada do balde. Era aí o meu brinquedo predileto. Era um verdadeiro fascínio por poço. Muito me debrucei naquela mesa de madeira, a olhar os baldes descendo e subindo. Eu ficava olhando os reflexos na água, muitas vezes imaginando uma maneira de ir até lá naquela “agüinha“ limpinha e brilhante; e só não arranjei uma amiguinha para segurar a corda enquanto eu descia dentro do balde, devido às recomendações dos meus tios. Em virtude de tais recomendações, adquiri medo; mas planejei descer lá, muitas e muitas vezes.
A tia saiu e a Rosinha foi dormir; eu fiquei livre, então. Vesti um vestido da tia, meias finas, salto alto, batom, pó de arroz, perfume, brincos, pulseiras, anéis e bolsa; eu me senti exuberante. Nesse ínterim lembrei de Rosinha, a menina dos olhos azuis, de contas de colar de cristal, boca vermelha, cabelinhos dourados ... não fui na cama, fui direto no poço. Lá estava ela em cima da mesa de madeira podre, bem centralizada na porta de entrada podre, a brincar na roldana brilhante e ofuscante, tentando puxar a corda e assim desprender a roldana brilhante atrativa. Também subi, peguei-a no colo com o coração aos pulos, ainda com as roupas da tia, salto alto, fechei a porta da cozinha, pois assim , por ali, ela não passaria mais, sendo impedida a sua ida naquele poço que, como eu, ela também se sentia atraída, fazendo toda a escalada que eu fazia, usando o mesmo banquinho que eu usava ... Durante muitos anos tive pesadelos com a Rosinha caindo no poço e eu me jogando para tirá-la. Na idade adulta isso ainda me perseguia.
Eu tentei apagar isso de minha memória, pois foi um fato que nunca compartilhei com ninguém, uma vez que sabia da gravidade do que poderia ter acontecido.
O quarto trancado, misterioso, que me incomodava, também era muito atrativo. Consegui entrar no dito quarto, por cima, sem precisar usar a chave que ninguém possuía; arrastei uma escada de madeira e pulei para dentro. Nada havia lá guardado, somente armários e gavetas vazias. Decepcionei-me, pois esperava encontrar muitos livros, roupas, sapatos, brincos, pulseiras, etc. A dona da casa havia reservado aquele quarto para guardar alguns móveis e era só isso. Para minha surpresa, agora não mais no banco do jardim, embaixo do sinamão, sentada em sua própria cama ao lado da cama de Rosinha, que dormia o sono dos anjos, minha tia tricotava.
Eu então perguntei:
- Tia vai ganhar outro neném? ...
Ela não respondeu. Minha bonequinha agora está casada; tem um filho e mora em Florianópolis.
E agora, minha gente, a história terminou; quem quiser que conte outra porque esta se acabou e e e tra la la la e e e tra la la la.
(Deixo aqui uma sugestão para outras pessoas fazerem narrativas pitorescas de sua infância, também).
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