Sou PRETA e daí?
Quando eu entendi que sou uma mulher negra
Nasci com muitos traços negroides: a pele parda, olhos grandes, nariz largo, lábios grossos, gengiva escura... Desde criança, algumas coisas me deixavam confusa… Porque eu era o \"patinho feio\" no mundo dos brancos, ao qual estava inserida e classificada por meu cabelo não ser crespo. Pois, há um tempo, ser negro no Brasil se resumia apenas a ter muita melanina e o chamado \"cabelo ruim\", como se o cabelo tivesse feito mal a alguém. Coitado do cabelo!
Com o tempo passei a tentar disfarçar meus traços: nada de prender o cabelo no modelo \"rabo de cavalo\", isso destacava meu nariz e era motivo de chacota entre colegas. Hum… Pintar a boca com batom escuro? Jamais! Isso deixava minha boca enorme e era apontado como horrível. E quando eu sorria... Ah! Meu Deus! Diziam que eu tinha alguma doença porque a minha gengiva é escura e eu nem tinha ideia que era só melanina.
Eu não sabia quem eu era, minha certidão de nascimento tem escrito \"PARDA\", os brancos me apontavam como feia por ter traços negroides e os negros me apontavam como branca por ter a pele parda e o cabelo que eles diziam ser \"cabelo bom\". Bom para quem? Sempre me perguntei isso! Mas enfim…
Havia algo muito errado comigo! Eu diferia das pessoas que eu queria ser e era rejeitada pelas pessoas com quem eu convivia. Como resolver isso? Eu não sabia.
Fiquei adulta, ainda sem identidade. Fiz faculdade de História, passei a enxergar o mundo diferente… Mas o reconhecimento não veio de forma imediata. Minha família saiu de um bairro popular e foi morar num dito \\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\"bairro nobre\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\", aí a sociedade dizia que eu não podia ser negra, porque eu não era pobre. Gente, para ser negro no Brasil, tem que ser pobre? Ladrão? E o que mais?
Faça-me uma garapa. Existe uma inversão aí… Porque pobreza não é traço negroide, e sim resquícios de um...
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Sou PRETA e daí?
Quando eu entendi que sou uma mulher negra
Nasci com muitos traços negroides: a pele parda, olhos grandes, nariz largo, lábios grossos, gengiva escura... Desde criança, algumas coisas me deixavam confusa… Porque eu era o \"patinho feio\" no mundo dos brancos, ao qual estava inserida e classificada por meu cabelo não ser crespo. Pois, há um tempo, ser negro no Brasil se resumia apenas a ter muita melanina e o chamado \"cabelo ruim\", como se o cabelo tivesse feito mal a alguém. Coitado do cabelo!
Com o tempo passei a tentar disfarçar meus traços: nada de prender o cabelo no modelo \"rabo de cavalo\", isso destacava meu nariz e era motivo de chacota entre colegas. Hum… Pintar a boca com batom escuro? Jamais! Isso deixava minha boca enorme e era apontado como horrível. E quando eu sorria... Ah! Meu Deus! Diziam que eu tinha alguma doença porque a minha gengiva é escura e eu nem tinha ideia que era só melanina.
Eu não sabia quem eu era, minha certidão de nascimento tem escrito \"PARDA\", os brancos me apontavam como feia por ter traços negroides e os negros me apontavam como branca por ter a pele parda e o cabelo que eles diziam ser \"cabelo bom\". Bom para quem? Sempre me perguntei isso! Mas enfim…
Havia algo muito errado comigo! Eu diferia das pessoas que eu queria ser e era rejeitada pelas pessoas com quem eu convivia. Como resolver isso? Eu não sabia.
Fiquei adulta, ainda sem identidade. Fiz faculdade de História, passei a enxergar o mundo diferente… Mas o reconhecimento não veio de forma imediata. Minha família saiu de um bairro popular e foi morar num dito \\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\"bairro nobre\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\", aí a sociedade dizia que eu não podia ser negra, porque eu não era pobre. Gente, para ser negro no Brasil, tem que ser pobre? Ladrão? E o que mais?
Faça-me uma garapa. Existe uma inversão aí… Porque pobreza não é traço negroide, e sim resquícios de um sistema escravista, de falsas leis ditas abolicionistas, de governos extremamente racistas, de falta de oportunidade, de um discurso de meritocracia e de democracia racial… Enfim… Vamos falar disso em outro momento.
Eu sofria por isso, passei longos anos da minha vida odiando o que via no espelho, principalmente o meu nariz e minha boca.
Li em alguns lugares que “a gente não nasce negra, se torna”. Ler isso me fez repensar sobre a minha trajetória de vida e me deu força para enfrentar uma sociedade, que ainda, insiste em me classificar. Tem pouco tempo, que me senti segura para gritar alto e em bom-tom, bom não, excelente… E com todas as letras, que EU SOU NEGRA SIM, talvez você ache isso uma bobagem, mas não foi simples para mim.
Essa certeza que tenho hoje não aconteceu de um momento a outro, como num passe de mágica, foi algo bem gradativo, que começou a partir dos estudos dos meus antepassados, da minha ancestralidade, da força negra que explodiu dentro de mim e me deu coragem para mandar à merda, quem não me enxerga. Eu iniciei a minha própria revolução.
Fui descobrindo que sou uma mulher negra. A cada centímetro do meu corpo, a cada traço, a cada crença… Passei a me sentir forte, viva, completa… A primeira vez que repeti para mim a frase: (Nós) negras… Senti uma energia inexplicável que brotava em mim. Não consigo descrever a sensação de saber quem a gente é de verdade.
Eu sei que alguns ou até muitos, não se sentirão confortáveis ao ouvir eu dizer, e vou dizer: EU SOU NEGRA SIM.
E quem é você para dizer que eu não sou?
Sou uma mulher negra, não só por fora mas também por dentro. Eu me sinto livre, como se as correntes que no passado aprisionaram os meus ancestrais, e que hoje disfarçadas prendem aos padrões estéticos apontados como perfeitos, tivessem sido destruídas. Percebi que o problema não estava em mim, e sim nessa cultura que exalta as características eurocêntricas em detrimento das de origem afro.
Hoje a minha imagem fala por mim, meu cabelo trançado, que reforçou a minha revolução e mudou a minha forma de enfrentar o mundo. Todos os meus traços negroides, representam o orgulho que eu tenho da minha ancestralidade e ecoa aos quatro cantos do mundo que eu sou uma mulher negra. Não moreninha, nem branquinha com traços estranhos e nem nada que você queira criar para mim.
Eu sou Daniela Torres, mulher negra, brasileira, nordestina, baiana, soteropolitana, barril dobrado… Sou isso tudo aí.
E quem é você?
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