Projeto Memória dos Trabalhadores Petrobras
Depoimento de Elisabeth Serra
Entrevistado por Márcia de Paiva
Rio de Janeiro, 12/11/2004
Realização Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB624
Transcrito por Susy Ramos
P/1 – Gostaria de começar a entrevista pedindo que a senhora nos diga seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Elisabeth D’Angelo Serra, nascida no Rio de Janeiro no dia – me deu branco o dia de aniversário – 5 de julho de 1946.
P/1 – Elisabeth, conta para a gente um pouco da sua trajetória profissional e do seu trabalho atual.
R – A minha trajetória profissional começa um pouco mais tarde do que o habitual porque eu me casei muito cedo e já casada, então toda a formação voltada para o casamento, eu me casei ainda necessitando da autorização dos pais para me casar, e depois do casamento é que, muito com o estímulo do meu marido, eu comecei a me dedicar a um trabalho profissional, que foi ter uma loja de roupas, e isso pela dimensão que ele sempre teve e tem da questão da participação da mulher na produção. Tive uma loja de roupas que logo depois se transformou em uma loja de arte popular brasileira a partir de uma viagem que fizemos ao Chile no período em que era presidente o Aliende, fomos de carro até o Chile com o desejo de ver o Chile naquele momento e, ao voltar, transformei a loja em uma loja de arte popular brasileira, e mais uma amiga, nós trabalhamos durante um período e eu tive cinco filhos, sempre gostei muito de educação, paralelamente militando no movimento feminista, quer dizer, por contraditório que pareça acabei chegando no movimento feminista, participei também durante o período do partido comunista com o movimento de mulheres durante a ditadura, e esse conjunto de coisas, artes, ser mãe, filhos, educação, cultura, meio que se mesclava na busca de uma coisa que não estava muito clara ainda, até que eu encontrei uma escola que eu me identifiquei muito, Instituto Nazaré,...
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Depoimento de Elisabeth Serra
Entrevistado por Márcia de Paiva
Rio de Janeiro, 12/11/2004
Realização Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB624
Transcrito por Susy Ramos
P/1 – Gostaria de começar a entrevista pedindo que a senhora nos diga seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Elisabeth D’Angelo Serra, nascida no Rio de Janeiro no dia – me deu branco o dia de aniversário – 5 de julho de 1946.
P/1 – Elisabeth, conta para a gente um pouco da sua trajetória profissional e do seu trabalho atual.
R – A minha trajetória profissional começa um pouco mais tarde do que o habitual porque eu me casei muito cedo e já casada, então toda a formação voltada para o casamento, eu me casei ainda necessitando da autorização dos pais para me casar, e depois do casamento é que, muito com o estímulo do meu marido, eu comecei a me dedicar a um trabalho profissional, que foi ter uma loja de roupas, e isso pela dimensão que ele sempre teve e tem da questão da participação da mulher na produção. Tive uma loja de roupas que logo depois se transformou em uma loja de arte popular brasileira a partir de uma viagem que fizemos ao Chile no período em que era presidente o Aliende, fomos de carro até o Chile com o desejo de ver o Chile naquele momento e, ao voltar, transformei a loja em uma loja de arte popular brasileira, e mais uma amiga, nós trabalhamos durante um período e eu tive cinco filhos, sempre gostei muito de educação, paralelamente militando no movimento feminista, quer dizer, por contraditório que pareça acabei chegando no movimento feminista, participei também durante o período do partido comunista com o movimento de mulheres durante a ditadura, e esse conjunto de coisas, artes, ser mãe, filhos, educação, cultura, meio que se mesclava na busca de uma coisa que não estava muito clara ainda, até que eu encontrei uma escola que eu me identifiquei muito, Instituto Nazaré, da (Regina?) Yolanda Werneck, educadora também bastante conhecida pelo trabalho de arte e educação, e comecei a me envolver, coloquei filho pequeno, depois coloquei o que estava em uma outra escola, que era o São Vicente, tirei para colocar lá e fui me envolvendo de tal maneira com esse lado que depois as filhas mais velhas acabaram sendo professoras e eu fui me encaminhando por essa mistura entre educação e cultura, formação de professores, era uma escola muito especial, e o movimento de mulheres. Depois acabei terminando a loja, que era uma loja no Largo do Machado, aqui no Rio de Janeiro, intitulado O Artesão, que teve muito de influência do Chile, e então eu resolvi um dia entrar para a escola, larguei a outra e me dediquei à escola. Resolvi fazer pedagogia, em um corte, voltando um pouco atrás, casada ainda que eu faço o que era na época o exame de madureza, que eu me casei eu estava fazendo o curso de secretária no segundo grau, e interrompi esse curso para casar como era comum do meu grupo sócio-econômico-cultural. Tive esse movimento e sempre muito apoiada pelo meu marido, quando eu vou, faço pedagogia, enveredei por esse caminho com esse projeto bastante arrojado dessa educadoras, (Regina?)Yolanda Werneck, que trabalhava com literatura, com arte de maneira integrada sem, por outro lado, ter uma postura de le sais faire, que era muito comum na época, quer dizer, a arte pela arte sem disciplina, sem correlação e a nossa proposta, a proposta dela, sempre foi uma coisa que combinava as duas coisas até porque, ao contrário do que tenta se passar, o artista tem uma disciplina também, só que é diferente da tradicional, então não existe a criação do nada, existe a criação por meio de muito esforço, de muito contato com a arte, com a literatura, com as notícias, enfim, e isso foi se desenhando lentamente e através do Instituto Nazaré que era essa escola, eu passei a conhecer a Fundação Nacional do Livro Infantil Juvenil e que eu fui me envolvendo com esse outro lado, é uma longa história que culmina em um determinado momento em que eu vou trabalhar primeiro, teve um pequeno momento em que eu fiz um ano trabalhando na Funabem, participei como secretária de educação da Funabem, e isso também foi muito importante para mim porque eu passei a ver um lado que a gente vê de fora, eu vivi dentro de uma instituição como essa e pude ver o absurdo que é e que continua sendo até hoje, não se conseguiu ainda mudar, acho que é um lado muito hipócrita da sociedade de marginalizar essas crianças e de criar soluções que não oferecem o que elas têm direito. O Estatuto da Criança foi uma coisa muito importante, eu cheguei inclusive, o artigo 58 que fala do direito à educação e cultura, há uma publicação do Unicef em que você tem um jurista falando sobre o artigo e uma pessoa da área daquele artigo e eu faço comentário sobre esse direito à educação e cultura. Aí eu me envolvo com a Fundação do Livro Infantil Juvenil e passo, isso foi em 87, estou até hoje lá, e nesse ínterim a Fundação em um determinado momento apresentou ao governo federal, foi em 91, na época do Collor, um projeto de que tinha que se criar uma política de leitura para o país, e isso a partir de uma pesquisa feita pela Fundação do Livro, sob a coordenação da professora Eliana _______, que foi quem me convidou para ir para a Fundação do Livro Infantil e, então, havia na Biblioteca Nacional naquele momento Afonso Romano de Santana como presidente, que conhecia bem o trabalho da Fundação do Livro Infantil e amigo de Eliana, e nós conseguimos mostrar a importância de se criar uma política nacional de leitura baseada na pesquisa financiada pela Finep e desenvolvida pela Fundação do Livro Infantil Juvenil, sob a coordenação dela, então isso acabou criando uma situação política em 1992, por um decreto do presidente foi criado o Programa Nacional de Incentivo à Leitura, sugerido pela Fundação. Depois o projeto continuou, a Fundação se afastou ligeiramente e em 96 quando assume a presidência da Biblioteca Nacional o professor Eduardo Portela, acadêmico, ele nos convida a fazer parte de uma outra coordenação do programa, então éramos cinco representantes de trabalhos e ele, com a experiência que teve como ministro da educação e cultura, porque na época educação e cultura eram juntos, quando ele era ministro, e com a experiência da Unesco ele entendeu por bem que esse programa tinha que ter uma coordenação variada entre a cultura e a educação. Convidou o ministério da educação para fazer parte também dessa coordenação, que ficou a meu encargo a coordenação da coordenação, e eu fiquei desde setembro de 96 até o final do governo Fernando Henrique, 2002, e o Pró-Ler tem na verdade uma importância enorme porque se constituiu como uma rede, até hoje, é uma rede basicamente de voluntários porque ninguém recebe para trabalhar nessa rede. Tem 80 comitês, ou mais um pouco, em todo o país que no fundo são bibliotecários, professores ou da rede constituída pública ou da universidade, ou outras situações em que as pessoas aderem à proposta e incorporam essa tarefa desse projeto que sempre teve muito pouco recursos. Nesse governo agora, o ministro desse ano finalmente, ou no ano passado, não lembro bem, na reforma do ministério da cultura se consolidou o programa, não mais como um programa, mas como departamento dentro da Biblioteca Nacional, o que é um ganho muito grande que a gente vinha já batalhando no outro governo e que não foi possível, esse governo consolidou, o que é uma coisa muito importante. Então, durante um longo período, seis anos, eu mantive as duas funções porque eu nunca deixei de ser secretária geral da Fundação do Livro Infantil Juvenil, a Fundação é uma instituição privada, sem fins lucrativos, tem um conselho curador, tem um conselho diretor e eu exerço a função executiva, sou contratada, as coisas foram se desenhando para esse caminho de pensar soluções para essa instituição que vive com muita dificuldade, o apoio que a gente tem de governo é muito importante, mas ele não é suficiente para dar conta do recado todo porque, desde a sua criação em 1968, a Fundação do livro sempre esteve abrigada em uma casa do governo federal, no início era na Voluntários da Pátria onde era o antigo Inep, e desde 74 no prédio do então ministério da educação, hoje palácio, Gustavo Capanema, isso evidentemente nos desobriga de uma série de responsabilidades como aluguel, como água, isso é possível porque não existe no governo na área da educação nem na área da cultura ninguém que exerça o papel que a Fundação tem, mas nós não temos nenhuma subvenção, então é por meio de projetos, por meio de algumas contribuições bastante pequenas dos editores mensalmente mas que permitem um mínimo. Então a minha trajetória profissional, eu diria que ela começa com um respeito muito grande pelo futuro e, principalmente, acreditando nas crianças, começa até como uma questão pessoal, de querer muitos filhos – tinha o nome de todos os filhos antes de casar – e, por essa dedicação, a questão da educação dos pequenos, depois a própria Funabem, a questão sempre voltada para a criança, e nesse universo, considerando a educação e a cultura como duas coisas, como verso e reverso da mesma medalha, e aí culminando então com a questão da literatura e do livro para as crianças como um bem cultural de valor inestimável e fundamental numa sociedade como a de hoje.
P/1 – (Elisabeth?), vamos falar então um pouco da Fundação, do seu trabalho lá da Fundação. Vocês tiveram sempre esse lado dessa dificuldade? Vocês conseguiram o apoio da Petrobras quando?
R – O apoio da Petrobras surge em 2001 e é interessante porque foi um presidente da BR Distribuidora, funcionário da Petrobras, o Júlio – que eu conheço ele por intermédio de um amigo, Júlio Bueno, por intermédio de um amigo – e nós conversamos muito sobre Monteiro Lobato e ele atribui a carreira dele, uma das coisas que ele atribui pelo sucesso da carreira dele é ter sido leitor de Monteiro Lobato.
P/1 – Ele e muitos, né?
R – Ele e muitos que muitas vezes não se explicitam, mas como é importante esse background do leitor, se eu não me engano, ele não foi um menino rico, na verdade batalhou muito, mas pôde ler Monteiro Lobato, e nós nos encontramos em Brasília uma vez por intermédio desse amigo e depois quando ele soube do projeto do salão e da dificuldade que a gente tinha porque nós iniciamos o salão meio na cara e na coragem, escolhemos o Museu de Arte Moderna, tivemos um apoio importante na época, Maria Regina Nascimento Brito era a presidente, o museu estava numa fase, em 99, até difícil e ela nos fez um aluguel muito barato, nos ofereceu o Galpão das Artes, o aluguel que até hoje é barato comparativamente ao que se cobra a qualquer evento e um crédito muito importante das editoras de literatura infantil que se dispuseram a pagar mais caro durante um período para investir na idéia e assim a gente fez o primeiro salão que não tinha ar-condicionado, que era em novembro, para coincidir com o Dia da Cultura e com ______ do (governo?) do Rio de Janeiro e com muita determinação, muita clareza do que a gente queria enquanto projeto, a questão do livro, a questão da leitura e isso ocorreu em 99 e 2000. em 2001 – eu havia tido esse contato durante o ano de 2000 – então foi possível chegar ao Júlio Bueno, que então nós trouxemos o projeto e aí, claro, teve que passar pelos trâmites normais, nós apresentamos um projeto, na época havia o comitê que selecionou o projeto, enfim, e foi assim fundamental para nós porque ele pôde trazer, primeiro desafogar essa contribuição que os editores davam, inteiramente atípica, muito maior do que uma bienal, durante dois anos eles investiram, e é claro que a atividade dos editores é uma atividade comercial, há também a Prefeitura do Rio de Janeiro, desde o primeiro momento a Prefeitura do Rio de Janeiro, por intermédio da Secretaria de Educação principalmente, acreditou muito no projeto porque há um trabalho na Secretaria Municipal de Educação voltado para a questão da leitura que a gente já conhece e que trabalha mais ou menos juntos. Então, com a entrada da Petrobras, possibilitou inúmeras coisas, possibilitou um conforto maior, possibilitou nós fazermos móveis para a biblioteca, tanto que a biblioteca que a gente apresenta no salão é Biblioteca Fundação do Livro/Petrobras porque, aliás, é uma novidade, em feiras de livros você não tem biblioteca, é uma batalha antiga nossa de dizer, as feiras de livro oferecem um dos caminhos para chegar ao livro que é a compra, mas o outro caminho, o democrático, é a biblioteca, que atende a maioria das pessoas porque embora as Bienais sejam um sucesso, o público que pode comprar livro ainda é muito pequeno, então a grande compra tem que ser, ainda não é, mas cada vez mais se torna, está ainda muito aquém daquilo que deveria ser, é a compra do governo para as bibliotecas, seja no nível municipal, estadual ou federal ainda não há uma política para isso, lentamente a gente por exemplo na Fundação é muito contra a campanha de doação porque, na verdade, o governo é que tem que assumir isso, a doação tem um valor simbólico, mas ela não constitui bibliotecas porque sempre dá um trabalho danado, no geral os livros são velhos, você tem que tratar isso, então o correto é comprar livros e eu aliás, na minha trajetória, tive uma experiência no passado de dirigir a Biblioteca Pública do Estado do Rio de Janeiro e pude comprovar a tragédia que é o sistema de bibliotecas Do país, se você imaginar que o Rio de Janeiro é o Rio de Janeiro, não precisa de, o maior cartão de visitas que nos temos é a Biblioteca Pública do Estado do Rio de Janeiro, é na verdade, na minha opinião, uma vergonha, isso está escrito nos documento que eu deixei porque não há um sistema, isso reflete mais ou menos o Brasil inteiro, com algumas diferenças pequenas, você não tem concurso há 30 anos de bibliotecários, é uma carreira que não se investe para a biblioteca pública porque o salário é muito baixo, então ao próprio profissional não interessa, ele é só por amor mesmo à arte, não se comprava livros já há 14 anos, o setor de empréstimos que nós tivemos a possibilidade de conseguir a informatização porque eu conhecia a pessoa da ___ (Corp?) que tem o sistema de software e que pedi para ela vir dar o fecho, não houve nenhum investimento do governo, então os livros que estão à disposição dos usuários da biblioteca pública que, na verdade, tem povo sim, o povo quer ler, só é composto de livros de doação das editoras que se dispõem – porque não há uma obrigação – a colocar livro lá, então não é uma coisa, do ponto de vista democrático, porque você para ser democrático tem que oferecer a totalidade ou pelo menos uma representação dessa totalidade, no fundo, o que se tem é uma parcela porque só são aqueles editores, em geral do Rio de Janeiro, que dispõem o seu acervo para empréstimo, então a situação de acesso democrático é muito ainda, está muito aquém, se tentou fazer muito no governo Fernando Henrique, eu participei disso, abri o Programa Uma Biblioteca Por Município, agora esse governo está tentando fazer mas, quer dizer, deveria ser uma prioridade absoluta.
P/1 – Há muitos anos atrás, já!
R – Há muitos anos nós temos, cada ano que se perde, cada ano que se discute, agora mesmo se interrompeu o programa de compra de livros no MEC por uma discordância e não se colocou nada, espero que ano que vem se resolva, enfim, como a gente considera que o acesso à leitura, e principalmente a bons livros, é básico e essa é a grande diferença, diferença de oportunidade que existe entre o que se chama de educação de qualidade e a falta de qualidade, você tem um professor que atende a maioria da população que não tem um entorno cultural tão rico quanto um professor, rico no sentido da oferta, dança, música, livro, literatura, arte, viagem, que é o professor que na verdade vai trabalhar na escola da elite. Eu agora estou indo para a Espanha, participar de um simpósio sobre programas de leitura, a convite da Fundação Sanchez Rui Perez, que é uma fundação, um simpósio híbrido latino-americano e o título da minha palestra, que eu escolhi, é “Ser leitor no Brasil ainda é um privilégio da elite”, porque ainda é, embora tenha mudado.
P/1 – Pois é, aí deixa eu te perguntar uma coisa também. O mercado editorial do livro infantil teve um crescimento notável nesses últimos anos.
R – Há muitos anos!
P/1 – Já há algum tempo ele vem crescendo...
R – Desde os anos 80.
P/1 – E a última década então, eu acho...
R – É verdade.
P/1 – É espantoso, numa livraria, uma quantidade, você fica quase sem saber o que escolher de tanta coisa boa que tem. A própria Fundação tem um programa dirigido a... uma política...
R – De quê?
P/1 – Ligada às editoras, como é que vocês ____ isso?
R – Não, a Fundação embora tenha no seu conselho alguns editores, ela tem uma autonomia que ela não tem nenhuma interferência direta no mercado, mas indireta tem. Ela tem porque, há 30 anos, foi criado um prêmio da Fundação, por exemplo, a história da Fundação, quando ela se constitui, ela faz na época, as três fundadoras, Maria (Luiza?) de Oliveira, Laura Sandroni e dona Ruth Vilela, que faleceu recentemente, bibliotecária, elas se organizam a partir de uma sugestão internacional, de um órgão internacional que a Fundação faz parte desse órgão, o IBB, seria o International Board on Books for Young People, que é o bureau do livro para crianças e jovens e é consultor da Unesco, então essa organização já tem 50 e tantos anos, 53 anos, e naquela época em 64, 65 começa a vir uma demanda, uma sugestão para que o Brasil se organizasse nesse sentido, tinha que ser uma instituição, não podia ser do governo, tinha que ser uma instituição privada. Em 68 se constitui essa organização com o apoio dos editores, com o apoio dos gráficos, enfim, e com o apoio do governo federal porque ele deu a casa para morar, e a primeira coisa a fazer foi um levantamento bibliográfico do que havia de produção cultural para crianças no período, então tudo o que tivesse transformado em livro foi levantado, essa bibliografia foi feita durante alguns anos e para sobreviver era muito difícil sem trabalho voluntário, até que em 73, a Fundação propõe ao então Instituto Nacional do Livro a criação de um prêmio para estimular a produção porque àquela altura, a maioria dos livros, ou você tinha Monteiro Lobato, que é o nosso grande orgulho, ou você tinha alguns autores, um ou outro, mas não uma coisa que quebrasse mesmo um certo padrão conservador até, e sem muita novidade, porque tinha Monteiro Lobato e depois tinha um conjunto já mais ou menos estabelecido sem nenhuma expressão de originalidade, então o que acontece? Naquele momento se sugere, porque a nossa instituição internacional visa exatamente a questão da qualidade, e se tem um padrão sobre isso, alguns conceitos internacionais, então naquela altura em 73 se sugere que se crie, o Instituto Nacional do Livro, crie um prêmio para a literatura infantil. Em 74 a própria Fundação começa a criar o seu prêmio, tem 30 anos de prêmio da Fundação que até hoje não remunera, lamentavelmente não pode oferecer nenhum prêmio em dinheiro, a gente inclusive a algum tempo vem buscando até, talvez a Petrobras, ter o prêmio Fundação Petrobras, já apresentamos há alguns anos atrás um aporte nesse sentido, os votantes não são remunerados, tem todo um trabalho voluntário em que a Fundação oferece, sedia a estrutura de organização disso, é o nosso maior trabalho, mais importante, que é receber os livros dos editores ano a ano, hoje a gente tem mais, quase 40 mil livros, é o maior acervo da América Latina nesse setor porque também tem internacional, mais uns 10 mil internacional, então o prêmio da fundação que começa com o livro para crianças, ele foi definindo um conceito do que é o livro de qualidade, e Laura Sandroni, criadora da Fundação, sempre diz, de uma maneira didática, você dividiria em três grandes décadas sobre o livro infantil, você tem o momento da aparição do texto, texto de qualidade e aí são todos os nossos grandes autores, depois você começa nos anos 80 com uma preocupação com a ilustração e nos anos 90 com o projeto gráfico e hoje nós temos um produto indiscutivelmente de excelente qualidade com algumas coisas a serem melhoradas sem dúvida nenhuma em comparação com o mercado internacional, capa dura para todos os livros, isso encarece muito o livro, mas para a criança a durabilidade é muito maior, no primeiro mundo você só tem livros de capa dura e alguns outros detalhes que não caberiam aqui ficar detalhando, explicando. Então a Fundação tem sim uma interferência, na medida em que ela prestigia um determinado tipo de livro, todos os autores e escritores e editores esperam essa seleção, hoje nós temos 12 categorias porque também fomos adequando, ao mesmo tempo que estimulávamos o mercado também adequávamos ao que vinha sendo surgido, surgindo com a globalização nos anos 90, começa a surgir muito a questão da tradução que é fundamental mas que nós não tínhamos boas traduções e para ser democrático o acervo tem que ter livro traduzido e ainda com uma questão ainda da ditadura, durante todos os anos 70, 80, basicamente só se tinha livro de autor brasileiro – que aí também daria uma outra entrevista sobre isso – e aí então a tradução começa a entrar nos anos 90, a gente prestigia, quando foi em 98 nós fizemos uma seleção para o MEC e que foi a primeira vez se introduziu livros traduzidos na compra de livros do ministério, então nós sugerimos que numa representação de 100, 20% teria obrigatoriamente que ser, porque são os clássicos, (Green?), Perrault e todos os outros. Aí criamos, estimulamos o premio de teatro, há ate já uma ou duas pesquisas nesse sentido de como é que o prêmio da Fundação, que repito, não tem nada em dinheiro, só é o papel e o carimbo da fundação, foi interferindo no mercado editorial e é toda uma conjuntura muito complexa, você vai ver que tem momentos da ditadura que se proíbe os livros estrangeiros, o mercado brasileiro passa – e há uma prioridade para levar livros para as escolas – o mercado brasileiro passa a ter esse apoio que na verdade o motivo não foi nada positivo porque foi uma certa censura, né? Mas, de certa forma, estimula, e os autores brasileiros, Ziraldo, Ana Maria, Ruth, eles então começam a escrever para crianças, até porque a censura realmente existia com o livro para adulto, você encontra um mercado que não tinha o olhar, na época, da ditadura e que começa a crescer, se você pega toda a faixa do período de 70 e pouco a 80, é toda uma história que vem de reis, rainhas, de animais que se contesta a autoridade...
P/1 – Interessante.
R - ...que vai refletir exatamente aquele momento que a gente vivia, em que as coisas estavam represadas e que tinham que ser questionadas e que abertamente não se podia questionar, então a arte nesse momento de maneira não-didática, porque o incrível é que não se faz isso como a gente vê em algum ou outro país mais ditatorial em que se tem uma direção, não, há uma criação e o dado muito interessante, Ana Maria Machado, quando ganhou o prêmio Andersen, ela citou isso em Bolonha, que é uma feira que a gente vai sempre, o primeiro agradecimento que ela fez foi aos editores porque no mundo em geral os editores dirigem a produção para crianças e no Brasil os editores respeitam a criação do artista e nossos artistas, todos leitores do Lobato, tiveram essa capacidade de poder, que é o trabalho do artista, vai pegar o trabalho dos adultos, dos grandes escritores, eles estão sempre questionando a realidade mas por intermédio da linguagem, da arte que não é didática, que é artística, esse é o grande patrimônio que nós temos, Monteiro Lobato e os seus filhos, como se chamam, que agora já tem até outra geração.
P/1 – Uma escola, né?
R – É uma escola.
P/1 – (Elisabeth?), infelizmente a gente tem um tempo curto, adoraria conversar e saber mais, adorei essa parte mesmo da... mas eu gostaria de perguntar se você gostaria de deixar mais alguma coisa registrada também.
R – Olha, é o seguinte, quer dizer, um pouco sem tempo mas tentei pensar alguma coisa, eu acho que a gente está prestando depoimento em relação à memória da Petrobras, a gente tem que ressaltar primeiro a importância dessa empresa que na verdade acreditou e acredita, a história já é longa, que é importante a questão da cultura ter um suporte, isso em qualquer país de primeiro, mundo você tem tanto o apoio de empresas, sejam públicas ou privadas e muito da privada, que aqui até tem muito pouco, começa agora com as leis de incentivo, mas a importância desse entendimento da cultura, porque não se vai ter uma educação de qualidade nesse país para a maioria – nossa preocupação não é a minoria, é a maioria – sem a oportunidade de acesso a cultura de maneira democrática e a base disso é a leitura e nós que tentamos convencer a várias empresas, a várias outras, enfim, órgãos de governo, da importância de se investir em acervos de qualidade, não se trata só de dar livro, de investir em biblioteca, e tem sido a trajetória da Fundação do Livro, não é muito fácil perceber a importância de um trabalho desse, então eu atribuo à Petrobras esse pioneirismo de acreditar em um trabalho que não é imediato porque a grande diferença nesse investimento na cultura é que, em geral, o investidor quer um resultado imediato, espetáculo de música, um espetáculo de teatro, você vê, investir em formação de leitores não é para uma geração, é uma coisa que nós temos, enfim, que recuperar o tempo perdido gravíssimo, de exclusão e que ainda tem que ter mais, tem que ter muito mais e acho que a Petrobras teve esse pioneirismo de acreditar nisso e investir e é interessante que se registre o perfil de um leitor que na época dirigia a Petrobras Distribuidora e eu tenho encontrado isso, momento que ela é uma holding agora nas pessoas que têm um carinho enorme aqui da Petrobras, funcionários da Petrobras, pelo salão porque eles visitam o salão com seus filhos, não são só os funcionários. Então, sem dúvida, a gente tem o maior agradecimento por esse apoio e sabe do carinho que a Petrobras tem com o projeto do salão e o nosso sonho é que o salão possa se reproduzir em vários locais do Brasil com esse modelo de ênfase da literatura porque no salão não tem livro didático, só tem livro de literatura e livro informativo, então registrar o nosso agradecimento realmente por esse apoio que é fundamental.
P/1 – Obrigada pela sua participação.
(fim da fita__________).
Elisabeth
Regina
Orlando
Governo
Corp
Luiza
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