Ao longo de 2025, o Museu da Pessoa concluiu importantes projetos de memória em parceria com povos indígenas detentores de patrimônios culturais imateriais reconhecidos pelo Iphan. Entre eles, o trabalho desenvolvido com o povo Iny Karajá evidenciou o papel central das bonecas Karajá, também conhecidas como Ritxoko.
Mais do que objetos artesanais, essas bonecas são símbolos vivos de memória, identidade e transmissão de saberes. A iniciativa, portanto, fortaleceu laços entre gerações e reafirmou a memória como parte indissociável do território.
🔗 Povo Iny Karajá registra suas histórias com o Museu da Pessoa
Bonecas Karajá, território Iny e ancestralidade às margens do Araguaia
Os Iny Karajá vivem às margens do rio Araguaia, entre os estados de Tocantins, Mato Grosso e Goiás, ocupando principalmente a Ilha do Bananal, a maior ilha fluvial do planeta. As bonecas Karajá ocupam um lugar central nesse universo. Produzidas pelas mulheres artesãs, elas representam cenas do cotidiano, fases da vida e relações com o mundo espiritual. Além disso, carregam valores cosmológicos transmitidos entre gerações. Por essa razão, em 2012, as Ritxoko foram reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan.
Portanto, falar da memória Iny Karajá é também falar dessas bonecas. Ou seja, é falar de cuidado, ensino e continuidade cultural.

Jovens Iny registram os saberes dos anciões
O projeto teve início em novembro de 2024, em parceria com o Instituto Krehawa. Desde então, promoveu um processo de formação de jovens indígenas voltado ao audiovisual e a Tecnologia Social da Memória, metodologias do Museu da Pessoa.
Ao todo, cerca de 25 jovens participaram da formação. Durante o processo, aprenderam a entrevistar, filmar, captar áudio e editar conteúdos. Exercitaram, sobretudo, a escuta atenta às histórias narradas pelos anciões.
Como relata Kairi Mahuederu Karajá (Bel), jovem da aldeia Hawalo:
“O que eu mais gostei de ouvir das histórias dos anciões foi a luta pela demarcação.”
Assim, cada entrevista se transformou em um ato de escuta profunda. Ao mesmo tempo, tornou-se um gesto de afirmação territorial e cultural.

Memória do povo Iny Karajá: aprender com os anciões
Ao longo das etapas, os jovens registraram histórias de vida e narrativas tradicionais contadas por anciões e anciãs, sempre nas línguas nativas. Em seguida, traduziram os conteúdos para o português, preservando sentidos, contextos e afetos.
Inywenona Karajá, da aldeia Teribré, destaca:
“Eu aprendi coisas que eu não sabia, sobretudo as histórias da infância.”
Da mesma forma, o projeto despertou novos interesses. Myreawi Koizaru Karajá (Bela), da aldeia Hawalo, afirma:
“O projeto me despertou esse interesse pelas histórias do meu povo.”
Dessa maneira, a memória deixou de ser apenas herança. Passou, então, a ser prática viva e compartilhada.

Documentário e Floresta de Histórias: memória em continuidade
Na quarta e última etapa, realizada em dezembro de 2025 na aldeia Krehawa, os jovens finalizaram o documentário Guardiões dos Saberes Iny (Iny Ijyy Itxesedu), construído a partir das histórias registradas ao longo do projeto.
Além disso, foi criada a Floresta de Histórias. Nela, cada árvore plantada simboliza a vida de uma pessoa entrevistada. Junto às mudas, placas de madeira trazem textos poéticos escritos à mão pelos jovens, homenageando os anciões.

Culminância do projeto e reconhecimento coletivo
A culminância reuniu moradores das aldeias participantes, lideranças locais e autoridades institucionais, como a Coordenadora Técnica Local da Funai, Ahuera Karajá. Durante o evento, os jovens receberam certificados de conclusão da formação.
Do mesmo modo, os anciões entrevistados foram homenageados. Cada certificado simbolizou o reconhecimento de sua contribuição para a cultura Iny e para a memória do Brasil.
Emocionado, Iwyraru Karajá afirmou:
“Esse trabalho que vocês fizeram é muito louvável. Isso vai ficar na história.”
Por fim, o encontro contou com visita à Floresta de Histórias, exibição do documentário e um banquete de comidas tradicionais, preparado pelas cozinheiras Iny.

Memória viva e futuro compartilhado
Em breve, as histórias registradas no território Iny Karajá e o documentário estarão disponíveis na plataforma do Museu da Pessoa. Assim, essas memórias poderão circular, educar e inspirar novas gerações.
Enquanto isso, a iniciativa Memória, Território e Patrimônios Imateriais segue ativa. Em 2026, novos projetos serão desenvolvidos com o povo Wajãpi e comunidades do Boi Bumbá do baixo Amazonas e de Parintins.
Preservar memória não é apenas guardar o passado. É, sobretudo, construir futuro.
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O projeto Memória, Território e Patrimônios Imateriais, realizado pelo Museu da Pessoa em parceria com associações indígenas dos territórios, é viabilizado pelo Programa Nacional de Apoio à Cultura (PRONAC 222467), por meio do Ministério da Cultura. Conta com o apoio financeiro do BNDES, patrocínio da Tecban e cooperação técnica da UNESCO e do Iphan.