Um movimento feito de histórias: o encerramento de Vidas, Vozes e Saberes em um Mundo em Chamas

Entre 2025 e 2026, o Museu da Pessoa colocou em movimento uma pergunta: o que as histórias de vida podem nos ensinar diante de um mundo em transformação? Com a programação Vidas, Vozes e Saberes em um Mundo em Chamas, essa pergunta atravessou territórios, encontros, exposições, oficinas, pesquisas e diferentes formas de contar e escutar histórias.

Inspirada pela perspectiva biocêntrica proposta por Ailton Krenak, a programação partiu da ideia de que memória não diz respeito apenas aos seres humanos. Ela também pode nos aproximar dos territórios onde vivemos, dos outros organismos, dos elementos da natureza e dos saberes que atravessam gerações. Foi um convite para imaginar outras formas de estar na Terra e para reconhecer que nossas histórias também fazem parte dessa trama.

O resultado foi uma programação organizada em oito movimentos pelo país. Mas, olhando para trás, talvez o mais importante não seja a quantidade de ações realizadas, mas as conexões que elas produziram.

O movimento começa quando alguém conta

Tudo começou em São Paulo, em maio de 2025, com o lançamento da programação. Durante três dias, a Casa Museu da Pessoa recebeu oficinas, rodas de conversa, encontros e um estúdio aberto para que novas histórias pudessem ser registradas. No Dia Internacional das Histórias de Vida, pessoas de diferentes comunidades, educadores, artistas e pesquisadores se encontraram para pensar sobre memória, escuta e os desafios do presente.

A partir dali, a memória ganhou estrada. Cabines, oficinas e entrevistas levaram o convite para contar histórias a outros territórios provocando o público a reconhecer que o que cada um viveu pode ajudar outra pessoa a imaginar o mundo de outro jeito.

Foi assim que a programação registrou milhares de histórias, em expedições pelos biomas brasileiros e por meio de cabines interativas. Ao todo, mais de 2 mil novas histórias de vida passaram a integrar esse movimento de construção do acervo.

Quando a memória encontra novos territórios

Nos territórios Karajá e Enawenê Nawê, jovens participaram de processos de formação e oficinas de memória, sendo responsáveis por entrevistar seus anciãos e eternizar suas próprias histórias no acervo do Museu da Pessoa.

Ao longo do caminho, a programação também se voltou para histórias e saberes indígenas. A Mostra Audiovisual Vidas Indígenas convidou realizadores a criar curtas-metragens a partir de histórias presentes no acervo do Museu da Pessoa. Mais de 2 mil pessoas se inscreveram, vindas de diferentes regiões do Brasil. A Mostra Educativa Vidas Indígenas ampliou esse movimento ao convidar educadores a criar novas formas de trabalhar histórias de vida em contextos educativos.

Histórias que viram exposições e encontros

Enquanto novas histórias entravam para o acervo, outras ganhavam novas formas de chegar ao público.

Vida, Morte, Fé, exposição digital construída a partir de histórias do acervo, aproximou narrativas de lideranças religiosas e espirituais de questões profundamente humanas, como fé, luto, amor e resistência.

Vidas em Cordel levou histórias de vida para a literatura de cordel, aproximando memória, oralidade, poesia e cultura popular.

E Você Já Escutou a Terra? ampliou a pergunta central da programação ao propor uma experiência de escuta sobre nossa relação com a Terra, seus territórios e seus modos de vida.

Em diferentes formatos e lugares, as histórias circularam. São Paulo, Pará, Espírito Santo, Pernambuco, Porto Alegre, Rio de Janeiro e outros territórios fizeram parte desse percurso. Ao todo, as exposições e ações reuniram mais de 120 mil visitantes presenciais e 380 mil visitantes digitais.

Por trás de cada visita existiu alguém que parou para ouvir. Uma pessoa que se reconheceu em uma narrativa. Um grupo que descobriu uma história. Um educador que encontrou uma nova possibilidade para sua prática. Um visitante que saiu de uma exposição levando consigo uma pergunta.

De muitas histórias, um manto

O manto foi um importante elo dessa grande programação. Um manto é feito de partes. Fragmentos únicos se juntam sem deixar de ser diferentes. Cada pedaço carrega sua própria marca, mas, quando reunidos, passam a formar algo maior.

Foi assim que a programação chegou a Belém, durante a COP30: reunindo fragmentos de histórias, resíduos e memórias em uma exposição-processo. O manto tornou visível aquilo que estava sendo construído desde o primeiro movimento: uma narrativa coletiva feita de muitas vozes.

Não se tratava de encontrar uma única resposta para um mundo em crise. Tratava-se de escutar. Escutar as pessoas. Os territórios. Os saberes. As memórias. As diferenças. Aquilo que resiste. Aquilo que se transforma. E, a partir dessa escuta, imaginar outras possibilidades.

A memória também é uma forma de futuro

O movimento não ficou restrito às exposições e aos territórios onde as ações aconteceram. A 1ª Conferência Internacional de Tecnologias Sociais da Memória, realizada em parceria com o StoryCenter e o Sesc São Paulo, reuniu pesquisadores, educadores, artistas e profissionais de diferentes países para pensar como narrativas, tecnologias sociais e práticas de memória podem contribuir diante das crises contemporâneas.

Esse encontro reforçou uma dimensão essencial da programação: histórias de vida não são apenas registros do que passou. Elas também são ferramentas para pensar o presente e construir possibilidades de futuro.

Ao longo do percurso, chegamos ao marco de mais de 100 mil seguidores no Instagram e mais de 2,5 milhões de contas alcançadas nas redes sociais.

São números que ajudam a dimensionar o alcance do movimento. Mas talvez o seu legado mais importante seja outro: as histórias continuam disponíveis no acervo do Museu da Pessoa para serem escutadas, revisitadas, compartilhadas e transformadas em novas perguntas.

O que fica quando um movimento termina?

Ficam as histórias, as pessoas que as contaram e as que pararam para escutá-las. Ficam os encontros que não estavam previstos, os saberes compartilhados, as perguntas que permaneceram abertas, os territórios que passaram a fazer parte da nossa memória e as novas histórias que agora também pertencem ao acervo do Museu da Pessoa. Fica um grande manto feito de muitas vidas. E fica também a certeza de que uma programação pode terminar sem que o movimento termine.

O Museu da Pessoa existe justamente para isso: para manter histórias vivas, acessíveis e em circulação, reconhecendo que toda pessoa é parte da história e que, quando muitas histórias se encontram, elas podem nos ajudar a enxergar o mundo de outras maneiras.

Vidas, Vozes e Saberes em um Mundo em Chamas chega ao fim como programação. Mas aquilo que ela colocou em movimento continua.

Em breve, uma nova programação no Museu da Pessoa.