Já parou para pensar em quantos rios correm debaixo das ruas de São Paulo?

Coleção “Rios e Ruas – Memórias das Águas”, do Museu da Pessoa, reúne dez histórias de vida e convida o público a descobrir os rios que seguem atravessando a cidade.

São Paulo é uma cidade que cresceu, nos últimos cem anos, sobre um imensa trama de rios e riachos, embora muitas vezes nos esqueçamos disso. Ao longo do tempo, muitos deles foram canalizados, cobertos pelo asfalto ou deixaram de ser percebidos na paisagem urbana. Mas um rio não deixa de existir quando desaparece das nossas percepções. Ele continua correndo sob

É a partir dessas relações que o Museu da Pessoa, em parceria com o Instituto Rios e Ruas, apresenta “Rios e Ruas – Memórias das Águas”, uma coleção virtual que reúne dez histórias de vida de pessoas que, de diferentes formas, construíram vínculos com os rios, córregos, nascentes e águas de São Paulo. 

Nunca perguntamos ao rio o que ele quer. Porque a gente se pergunta, quando chega ao pé do rio: o que será que ele sente? O que será que ele deseja?” afirma José Bueno, personagem da coleção. 

A pergunta atravessa uma das histórias da coleção e propõe uma mudança de perspectiva: e se, em vez de olharmos para os rios apenas como parte da paisagem ou da infraestrutura da cidade, passássemos a reconhecê-los como parte das vidas e dos territórios que habitamos?

O Instituto Rios e Ruas promove e inspira inúmeras ações pelo Brasil para as pessoas descobrirem, verem e quererem os rios limpos e livres. Foto: Museu da Pessoa.

Rios que continuam correndo

Entre os personagens da coleção está a da arquiteta Luciana Cury, integrante do coletivo Ocupe e Abrace. Sua trajetória se aproxima das águas a partir de experiências de infância, memórias familiares e, mais tarde, do envolvimento com ações de cuidado e preservação da Praça da Nascente, na Pompeia.

Entre mutirões, hortas, pesquisas e mobilização comunitária, Luciana construiu uma relação com o território que transformou também a sua forma de viver na cidade.

“As pessoas não passavam por ali [Praça da Nascente], e era muita água. Algumas pessoas diziam: ‘É o cano da Sabesp furado’. A gente ligou para a Sabesp, e eles nos responderam que não. Então, chamamos a CETESB [Companhia Ambiental do Estado de São Paulo]. Eles fizeram uma análise da água e, nove meses depois, recebemos a informação de que a água não estava contaminada, mas não poderia ser bebida porque tinha coliformes fecais”, explica Luciana. 

Luciana complementa informando que, a partir disso, eles iniciaram uma campanha, onde produziram cada placa para por na praça e orientar as pessoas a recolherem os lixos e as fezes dos cachorros. Após um mês, o perímetro do coliforme fecal baixou. “A solução dos problemas são bem mais simples do que imagina, né?”, encerra Luciana.

As histórias reunidas em “Rios e Ruas – Memórias das Águas” atravessam diferentes bairros, gerações e experiências. São lembranças de rios que já foram limpos, de peixes que chegavam perto das casas, de nascentes descobertas no meio da cidade e de pessoas que decidiram cuidar das águas que seguem correndo ao seu redor.

Somos todos ribeirinhos

Os rios estão desaparecendo da paisagem urbana. Reunimos histórias de pessoas que reconhecem essas águas como entidades da natureza que acolheram a população em suas margens e que merecem ser tratadas com maior dignidade e respeito.

A frase que atravessa a coleção “acredite, somos todos ribeirinhos”, parte exatamente dessa ideia de que, mesmo quando não vemos os rios, eles continuam fazendo parte da cidade, e alguma forma, também das nossas vidas.

Expedição pelo Córrego das Corujas: observando o território, reconhecendo a presença das águas na cidade e refletindo sobre caminhos para construirmos espaços urbanos. (Foto: Museu da Pessoa)

Cartografia de histórias e águas

Além das dez histórias de vida, a exposição virtual apresenta um mapa interativo das bacias hidrográficas e convida o público a percorrer as relações entre os personagens e os rios.

Cada história abre uma nova possibilidade de olhar para a cidade. Talvez, ao acompanhar esses caminhos, seja possível reconhecer um rio que passa perto de casa. Uma lembrança da infância. Um córrego escondido sob uma avenida. Ou perceber que, mesmo vivendo entre concreto e asfalto, a água continua fazendo parte da história que compartilhamos.

Mapa Hidrográfico, onde mostra que a menos de 300 metros de qualquer ponto na cidade de São Paulo, passa um corpo d’água. (Imagem/Museu da Pessoa)

A coleção e a exposição virtual estão disponíveis online para acesso do público.

Acesse:

Coleção: Rios e Ruas – Memórias das Águas

Exposição virtual: Exposição virtual  

Este projeto é financiado por meio de emenda parlamentar do vereador Nabil Bonduki, realizado pelo Museu da Pessoa em parceria com o Instituto Rios e Ruas e com o apoio da Cidade de São Paulo.