Nova coleção reúne 17 histórias de vida, incluindo 11 relatos já pertencentes ao acervo do Museu da Pessoa e seis entrevistas inéditas, com cocuradoria do jornalista esportivo José Trajano.
Muito além dos grandes estádios e das competições internacionais, existe um futebol que acontece todos os fins de semana nos bairros, periferias e comunidades do Brasil. É o futebol de várzea, uma das maiores expressões da cultura popular brasileira.
O lançamento da coleção “Memorias do Futebol de Várzea” acontece no dia 14 de agosto, às 19h30, no Auditório Armando Nogueira, no Museu do Futebol, em São Paulo. O evento terá uma mesa de debate sobre memória, território e futebol de várzea, com entrada gratuita. É necessário retirada de ingresso pelo Sympla. O encontro reunirá os jornalistas esportivos José Trajano, cocurador da coleção, e PVC, além das historiadoras Aira Bonfim e Diana Mendes, com mediação do jornalista Dudu Monsanto.
Será uma oportunidade para conhecer a coleção, refletir sobre o papel do futebol de várzea na construção da memória e da identidade da cidade de São Paulo e conhecer diferentes perspectivas sobre as histórias que mantêm viva essa tradição nos territórios paulistanos.
Com cocuradoria do jornalista esportivo José Trajano, a coleção reúne 17 histórias de vida, sendo seis entrevistas inéditas produzidas especialmente para o projeto e 11 relatos selecionados do acervo do Museu da Pessoa.
Os relatos conectam experiências pessoais às trajetórias da várzea e percorrem a formação de clubes e ligas, as disputas pela preservação dos campos, o protagonismo de mulheres e da cultura negra e as transformações provocadas por novas formas de comunicação, financiamento e organização do esporte.

Onde nasceu e por que registrar as memórias do futebol de várzea?
Na cidade de São Paulo, o nome “várzea” remete aos primeiros campos instalados nas áreas planas próximas aos rios e córregos. No início do século XX, times, ligas e campeonatos se multiplicaram a partir de agremiações de bairro, fábricas, sindicatos e clubes sociais. Alguns se profissionalizaram e ganharam projeção nacional; outros permaneceram no circuito amador ou semiprofissional, preservando uma dinâmica própria e profundamente conectada aos territórios onde surgiram.
“Na várzea, o futebol não se resume ao que acontece dentro das quatro linhas. Ele está ligado à história dos bairros, às relações entre as pessoas e ao esforço coletivo de manter um clube e um campo vivos. As histórias reunidas mostram a profundidade desse universo e ajudam a compreender por que a várzea continua sendo uma das bases da cultura do futebol brasileiro”, afirma José Trajano, curador do projeto.
Essa ligação se expressa no trabalho cotidiano de famílias, moradores, dirigentes, jogadores, comerciantes e torcedores. São pessoas que doam recursos, produzem uniformes e bandeiras, cuidam dos campos, organizam campeonatos e garantem equipamentos e estrutura para os jogos. Em torno de cada clube, constroem-se relações de pertencimento capazes de transformar a defesa de uma camisa na defesa da identidade e do orgulho de uma rua, de um bairro e de uma coletividade.
“Meu campo é conhecido como campo de família. Sou conhecida como mãe, eu sempre cuidei de todo mundo. Meu sonho é ter um campo para que eu consiga montar um time e o prefeito reconheça o futebol feminino”, relata Soraia Marques, dirigente do Aliança Casa Verde.
Em torno dos campos se formaram amizades, redes de solidariedade, coletivos, famílias e comunidades inteiras. Registrar essas histórias significa preservar uma memória que faz parte da história do futebol brasileiro e da população paulistana.

Quem conta as histórias da várzea
Entre as histórias registradas está a de Soraya Marques Trindade, dirigente do time Aliança da Casa Verde e responsável pela gestão de um dos campos do complexo do Campo de Marte, espaço que se tornou referência para o futebol feminino de várzea na capital.
Sua trajetória também demonstra os desafios enfrentados por esses territórios. O campo foi recentemente desapropriado, tornando sua história um importante registro sobre a preservação desses espaços.
Outra entrevistada é Sidineia Chagas, fundadora, técnica e jogadora dos times Perifeminas e Perifemanos, no extremo sul de São Paulo. É com sua história que ela demonstra como equipes lideradas por mulheres ampliam e transformam os espaços historicamente masculinos do futebol.
Além delas, também estão presentes na coleção: Uilson Oliveira de Sá, presidente do Esporte Clube Comercial de Pirituba, representa uma várzea mais tradicional, onde começou a jogar pelo clube aos 11 anos e permaneceu em campo até os 40. José Roberto Andrade, fundador e presidente do Negritude F.C., de Artur Alvim, conecta futebol, cultura negra, bailes black e identidade comunitária. Guilherme Estevão, narrador, comentarista e repórter esportivo há mais de 15 anos, acompanha a incorporação de contratos, ligas e tecnologias da informação. Já Makson Rangel de Jesus, que disputou a Copa São Paulo em 2007, transformou a várzea em sua principal fonte de renda e hoje atua por diferentes clubes, agenciado pela esposa.
“O Museu da Pessoa parte da ideia de que toda história de vida tem valor e de que essas histórias também são patrimônio. Ao registrar as trajetórias de quem constrói o futebol de várzea, o projeto preserva memórias que ajudam a compreender não apenas o esporte, mas as comunidades, os territórios e as formas de organização coletiva que existem ao redor dele”, afirma Lucas Torigoe, coordenador de Pesquisa do Museu da Pessoa.
Ao reunir essas histórias de vida, o Museu da Pessoa amplia o acesso a um patrimônio construído por dirigentes, jogadores, torcedores, famílias e comunidades que mantêm vivos seus clubes, campos e tradições. A coleção convida o público a conhecer, valorizar e preservar às histórias que fazem parte da memória coletiva da cidade e da cultura do futebol brasileiro.
O projeto é financiado por meio de emenda parlamentar do deputado estadual Donato, realizado pelo Museu da Pessoa, apoio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo.
