Maio é um mês em que a maternidade ocupa muitos espaços. As homenagens aparecem nas redes sociais, nas campanhas publicitárias, nas escolas e nas memórias afetivas. No entanto, nem toda experiência de maternidade cabe nas imagens que costumamos ver. Existem maternidades atravessadas pelo cuidado coletivo, pela ausência, pelo trabalho duro, pela urgência de sustentar uma família e pela responsabilidade de garantir o amanhã. Existem histórias de maternidades que quase nunca são contadas, e é justamente por isso que elas precisam ser ouvidas.
Por isso, o Museu da Pessoa convida pessoas de todo o Brasil a compartilharem suas histórias por meio do projeto Conte Sua História. Afinal, toda experiência importa! Ao longo de mais de 30 anos, o Museu da Pessoa construiu o maior acervo de histórias de vida do Brasil, reunindo milhares de relatos que ajudam a preservar memórias individuais e coletivas. Dessa forma, quando uma pessoa registra sua trajetória, ela não compartilha apenas uma lembrança pessoal. Ela também ajuda a contar a história do nosso tempo a partir da própria vivência.

Maternidade também é memória coletiva
É o que acontece, por exemplo, na história de Vanuza da Conceição Cardoso, liderança do Quilombo do Abacatal, no Pará. Ao narrar sua trajetória ao Museu da Pessoa, Vanuza também registra saberes ancestrais sobre maternidade, comunidade e pertencimento.
“Grande parte da minha geração nasceu de parteira”, relembra. Na comunidade onde cresceu, os partos aconteciam em casa e envolviam um processo coletivo de cuidado. As parteiras chegavam dias antes nas casas das gestantes, preparavam banhos, organizavam a alimentação e permaneciam ao lado das mães mesmo depois do nascimento dos bebês.
Assim, a maternidade, naquele território, nunca foi vivida de forma isolada. Pelo contrário: ela acontecia na relação entre mulheres, famílias e comunidade. Mais tarde, aos 16 anos, Vanuza se tornou mãe. “Eu percebi que eu era responsável por uma outra vida”, conta. A partir dessa experiência, ela começou a participar dos grupos de mulheres da comunidade e, pouco a pouco, passou a enxergar novas possibilidades de transformação social.
Sua história mostra que a maternidade também pode ser um caminho de liderança, participação política e defesa do território. Além disso, ao falar sobre o presente do Quilombo do Abacatal, Vanuza conecta cuidado e ancestralidade à luta pela permanência da memória e pela proteção das próximas gerações.

Existem muitas formas de viver a maternidade
Existem muitas outras histórias que ampliam o jeito de olhar para a maternidade. Algumas delas aparecem, por exemplo, no relato de Tião Santos, também presente no acervo do Museu da Pessoa. Ao lembrar da própria mãe, Tião fala sobre uma maternidade atravessada pelo trabalho extremo e pela responsabilidade de sustentar oito filhos praticamente sozinha.
“Minha mãe passava três, quatro dias trabalhando dia e noite para poder sustentar a gente”, recorda. Dessa maneira, sua memória ajuda a romper idealizações e lembra que, para muitas mulheres, ser mãe também significa enfrentar limites diários, lidar com ausências e continuar mesmo quando tudo parece impossível.
Histórias como essas mostram por que compartilhar uma memória é tão importante. Quando alguém registra sua experiência, outras pessoas podem se reconhecer nela. Além disso, vivências que antes permaneciam apenas no ambiente familiar passam a integrar um patrimônio coletivo de memória e escuta.

Por que contar sua história?
Contar uma história é uma forma de reafirmar a existência. É preservar lembranças, valorizar trajetórias e deixar marcas para o futuro. Da mesma forma, ao compartilhar uma experiência de maternidade, uma pessoa ajuda a ampliar o entendimento sobre diversos outros temas, como cuidado, família, trabalho, afeto, resistência e transformação social.
No Museu da Pessoa, cada história enviada se torna parte de um acervo público e vivo, acessível para pesquisadores, estudantes, educadores e para qualquer pessoa interessada em conhecer diferentes experiências humanas. Por isso, neste mês de maio, o Museu da Pessoa convida pessoas de diferentes gerações a compartilharem suas histórias de maternidade do próprio jeito, com as próprias palavras e sem precisar caber em um modelo único. Porque existem muitas maternidades. E todas elas têm valor.