Deslocações – Lugar, Memória e Identidade Social na Cidade do Porto
Entrevista 1, 23 de janeiro de 2025
Zeferino dos Santos
E - O Sr. Zeferino está com que idade?
e - Vou fazer 70 este ano.
E - Vai fazer 70.
e - Portanto, não quero dizer 69.
E - Vai fazer 70. O Sr. Zeferino nasceu aqui no Porto?
e - Sim, sou natural de Cedofeita, é a minha freguesia.
E - E viveu lá em Cedofeita na sua infância?
e - Não, não vivi lá. Eu fui morar para o a Rua São João Novo. Depois fui viver com a minha mãe... ela comprou uma casa em Vila Nova de Gaia, em Santa Marinha. Estivemos lá pouco tempo... como a minha mãe tinha um negócio de venda de roupa, viemos, arranjámos uma casa alugada no Barredo. Travessa do Barredo, número 1.
E - Quando veio para o Barredo tinha que idade?
e – Devia ter uns oito anos, nove anos... Depois lá, ainda estive cinco ou seis anos e só depois é que regressei para o bairro do Aleixo.
E – Vamos, ainda antes... Tem alguma memória da Ribeira Barredo nessa altura, quando era criança, quando viveu lá?
e - Tenho muitas memórias.
E - Fale-nos um pouco sobre essas memórias.
e - A situação, quando vivi na Ribeira...
E - Vivia com a sua mãe?
e - Vivia com a minha mãe, vivia com uma irmã minha, também, que ainda hoje vive lá à minha beira, atualmente. E vivia também com um irmão, que já faleceu, chamava-se Vítor. E depois a situação que se passou...
E - Vieram de Gaia para a Travessa do Barredo.
e - Exatamente.
E – E esteve lá, disse-me, quantos anos mais ou menos?
e - Não, não, não, pare aí. Eu não vim de Gaia logo. Eu primeiro estive na Rua de São João Novo. Primeiro na Rua de São João Novo, depois passei para lá, para Gaia, onde a minha mãe comprou tipo uma casa térrea, que era para a gente cultivar qualquer coisa lá. Era uma casa muito boa, foi lamentável... foi, prontos. Eu era novo, também não tinha decisão, era a minha mãe que mandava e a minha mãe optou: "Ó filho, eu tenho a minha vida no...
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Entrevista 1, 23 de janeiro de 2025
Zeferino dos Santos
E - O Sr. Zeferino está com que idade?
e - Vou fazer 70 este ano.
E - Vai fazer 70.
e - Portanto, não quero dizer 69.
E - Vai fazer 70. O Sr. Zeferino nasceu aqui no Porto?
e - Sim, sou natural de Cedofeita, é a minha freguesia.
E - E viveu lá em Cedofeita na sua infância?
e - Não, não vivi lá. Eu fui morar para o a Rua São João Novo. Depois fui viver com a minha mãe... ela comprou uma casa em Vila Nova de Gaia, em Santa Marinha. Estivemos lá pouco tempo... como a minha mãe tinha um negócio de venda de roupa, viemos, arranjámos uma casa alugada no Barredo. Travessa do Barredo, número 1.
E - Quando veio para o Barredo tinha que idade?
e – Devia ter uns oito anos, nove anos... Depois lá, ainda estive cinco ou seis anos e só depois é que regressei para o bairro do Aleixo.
E – Vamos, ainda antes... Tem alguma memória da Ribeira Barredo nessa altura, quando era criança, quando viveu lá?
e - Tenho muitas memórias.
E - Fale-nos um pouco sobre essas memórias.
e - A situação, quando vivi na Ribeira...
E - Vivia com a sua mãe?
e - Vivia com a minha mãe, vivia com uma irmã minha, também, que ainda hoje vive lá à minha beira, atualmente. E vivia também com um irmão, que já faleceu, chamava-se Vítor. E depois a situação que se passou...
E - Vieram de Gaia para a Travessa do Barredo.
e - Exatamente.
E – E esteve lá, disse-me, quantos anos mais ou menos?
e - Não, não, não, pare aí. Eu não vim de Gaia logo. Eu primeiro estive na Rua de São João Novo. Primeiro na Rua de São João Novo, depois passei para lá, para Gaia, onde a minha mãe comprou tipo uma casa térrea, que era para a gente cultivar qualquer coisa lá. Era uma casa muito boa, foi lamentável... foi, prontos. Eu era novo, também não tinha decisão, era a minha mãe que mandava e a minha mãe optou: "Ó filho, eu tenho a minha vida no Porto e eu, para vender a roupa…” – que era o estado dela, pronto, profissão, que ela tinha nessa altura, arranjou uma casa na Ribeira que era um acesso mais apropriado para ela. Porquê? Porque já na altura, não é como agora, mas já na altura iam lá muitos estrangeiros, já na altura que a gente vivia lá. Agora há mais afluência. Antigamente, era menos, isso é uma verdade. Mas vivia-se muito bem com isso. A moda também era outra. Tínhamos outros poderes económicos para viver nessa altura, razoavelmente, também não digo que era toda a gente muito bem, havia também já muita dificuldade em certas pessoas que viviam, por exemplo, na Ribeira. Vou-lhe contar, por exemplo: eu, na casa onde a minha mãe vivia na Ribeira, nós tínhamos que fazer as necessidades num balde. Já por aí você vê que já havia dificuldades nessa altura. Está a compreender? Portanto, o que acontece? Portanto, depois fomos para a Ribeira, conforme eu lhe estive a dizer... e ali o ambiente era bom, tínhamos ali, por exemplo...
E - A sua mãe também já era conhecida lá, não era?
e - Era muito conhecida, era a Mariazinha. Era mais conhecida pela Mariazinha... eles chamavam Mariazinha porque… o nome da minha mãe é Maria Ferreira Soares Santos, mas eles entendiam e, portanto, toda a gente - aquelas pessoas de idade que se davam bem com ela e aquelas pessoas jovens também que compravam, raparigas, por exemplo, que compravam saias, já naquela altura - não é como é agora, não é? Eram outros farrapos, que é assim mesmo [que se deve] dizer. E depois a minha mãe, a partir daí, dessa situação... que ainda era o tempo da PIDE. O que é que aconteceu? A minha mãe mudou de ramo.
E - A sua mãe tinha estudado?
e - Não, não, não. Ela tinha só a quarta classe e mais nada. No entanto, tinha uma capacidade mental que era uma coisa formidável. Já pensava no futuro ela... para mim, deu-me muito incentivo. A minha mãe, enquanto foi viva, deu muito incentivo ao filho, para eu seguir alguns passos que ela realmente me incutiu na minha cabeça. Acontece que, depois, a minha mãe deixou de ficar nesse ramo na Ribeira e fomos vender de porta em porta: grelhas e torradeiras, aquelas coisas normais, para assar o bacalhau e para pôr o pão com manteiga. E era o meu falecido pai que fazia isso em casa... O meu pai é que fazia, com essa profissão, fazia isso, e a gente andava a vender. Até porque aconteceu uma vez que, nessa altura, era, por exemplo, proibido andar descalço, e essas coisas todas. E eu uma vez vim com a minha mãe vender e eu...
E - Andava com a sua mãe com que idade, mais ou menos?
e - Não percebi.
E - Com que idade é que andava com a sua mãe a vender?
e - Já tinha para aí uns 10 anos.
E - 10 anos?
e - Sim, sim, sim, nessa altura. E possivelmente foi até aos 12.
E - E andava na escola também ao mesmo tempo?
e - Sim, claro, claro, sim, sim, sim. Depois também, a partir daí, conforme eu estava-lhe a dizer, vendi essas coisas de porta em porta com a minha mãe. E então o que eu ia dizer, a peripécia que aconteceu nessa altura, que era o tempo da PIDE, que eu desconhecia leis... agora, atualmente, já sei muitas leis, mas antigamente eu desconhecia…
E - Claro, como criança…
e - E então peguei, exatamente, e peguei e fui brincar naquele espaço de tempo que a minha mãe me deu para: "Ó filho, agora vai-te entreter um bocado enquanto eu vou cozinhando e tal". Nós tínhamos ali um rinque de jogar à bola na Ribeira... e fomos jogar à bola para ali, descalços. É evidente que fomos descalços para ali jogar e calhou... fomos uma vez lá para cima para... Como é que chama aquilo, Renato?
e2 - Aljube?
e - Aljube, exatamente. Aquilo fica agora cá em cima, não é?
e2 – Batalha?
e - Não, não é aí. Aquela antiga cadeia.
E - Na Cordoaria.
e - Cordoaria, exatamente. Agora aquilo é uma coisa de fotografias…
E – O Centro Português de Fotografia.
e - Eu fui aí. E sabe que eu tive que subir, aquilo tem umas escadas muito grandes, até lá acima.
E - Chamaram-no lá.
e – É, tive que lá ir porque antigamente era tudo aí julgado nessa altura. E a minha mãe, coitada, estava a chorar, vi a minha mãe assim. "Ó mãe, não vale a pena estar a chorar, que isto para mim, eu não quero saber para nada…”. Olha, eu quis ir jogar a bola com os meus amigos, eles desafiaram-me e eu fui. Não me castigaram, mandaram-me logo embora, mas repreenderam-me. Sabe que, naquela altura, havia umas repreensões muito severas e era complicado. Nessa altura da PIDE, a gente nem podia falar, mesmo que a gente já tivesse um bocado de desenvolvimento, nessa altura, de inteligência, certas coisas, para eles, eram mal interpretadas. E não eram, para mim não eram.
E - Eram perfeitamente inocentes, mas eram...
e - Exatamente, éramos um país totalmente diferente. Depois de passar dessa fase, eu fui crescendo.
E - Os seus irmãos eram mais velhos ou mais novos?
e - Eram mais novos. Eu sou o mais velho deles. Eles eram mais novos. O meu Vítor já faleceu. Esta minha irmã que mora quase à minha beira está muito mal. Até sou eu que a ajudo, pois, atualmente… o senhor Renato sabe perfeitamente quem é. Ajudo-a, sou eu que vou buscar as comprinhas lá para casa, porque ela não tem, agora não pode sair de casa, toma muita medicação, está numa situação muito debilitada. Uma vez até fui lá à casa dela para lhe entregar umas encomendas que eu arranjei, uma coisa que é da Igreja de Cristo Rei, para lhe dar uns certos alimentos para ajudar essas pessoas mais necessitadas. Não arranjei só para ela, foi para várias que andam lá, já tive a conversa com o senhor Renato em relação a isso. Felizmente, eles ainda continuam lá, ainda vejo essas pessoas a ir lá buscar essas coisinhas. É pouco, mas é de bom agrado, e faz-lhes muito jeito... são aquelas coisas básicas que é para a pessoa aguentar um pouco na vida. Depois, a partir daí, então, estávamos a falar...
E - Estávamos ainda na Ribeira.
e - Na Ribeira. Depois daí, nós, da Ribeira, fomos para o Aleixo.
E - Nessa altura o senhor tinha que idade?
e - Na altura, quando fui para o Aleixo, já tinha 17 anos.
E - 17 anos. Já trabalhava nessa altura ou ainda não?
e - Ainda não, depois comecei a trabalhar. Eu vou já chegar lá.
E - Já vai chegar, já vai chegar.
e - Exato, eu vou chegar lá e eu vou dizer. Fomos, então, para o Aleixo. A partir daí...
E - Como é que foi esse processo de mudança?
e - Esse processo de mudança para o Aleixo... Então, eu era solteiro, não é, na altura, quando fui para lá. Eu depois arranjei uma rapariga, que era de lá, do Aleixo. E nem sabia eu, tampouco, que ela tinha família que já me conhecia da Ribeira. Como ela também veio da Ribeira, já havia pessoas concretas da família da parte dela que já me conheciam. Um irmão dela, que já faleceu, que era pescador. Sabe que andar no mar era um bocado complicado para eles. É tudo complicado, os trabalhos em si são todos eles complicados. E acontece que, depois, eu antes de casar com essa rapariga, que eu conheci lá no Aleixo, vivi com a minha falecida mãe ainda, na primeira torre, no 11.º andar, tipo 2.
E - A primeira casa foi na primeira torre, 11.º andar.
e – 11.º andar, a primeira casa no Bairro do Aleixo.
E - Com os seus irmãos também? Foram todos para lá.
e - Sim, sim, sim, sim, com os meus irmãos, que saíram da Ribeira diretamente para lá. Depois tivemos que arranjar, é claro... o meu pai e a minha mãe ainda eram vivos nessa altura. Estava eu, estava a minha irmã e estava o meu irmão. Portanto, aquilo... eu, por exemplo, não tenho vergonha de dizer que dormia na sala. Porque havia ali uma mulher, que era a minha irmã, e eu não ia dormir com a minha irmã, quando havia uma hipótese de dormir com o meu irmão. E como aquilo era um T2, era muito pequeno, só tinha dois quartos... Portanto, a minha mãe vivia num quarto com o meu pai, e a minha irmã, sozinha, vivia num quarto, e eu dormia na sala. Nós tínhamos uma camazinha ali, não havia o que há agora, que são os sofás. Não havia, nessa altura não havia, não é?
E - Mas foi uma mudança grande entre as condições que tinham e as condições do Aleixo?
e - Claro, claro, muito grande. Sim, sim, sim. E depois, entretanto, eu conheci essa rapariga, comecei a namorar e casei. E ela tinha a mãe dela. Como a mãe dela, que era a senhora Maria do Céu, já falecida, tinha uma casita que era um T2 no Aleixo, eu pedi... tive uma conversa com a mãe dela e disse: "Ó, isto é assim” – pus os pontos nos Is – “eu estou com a minha mãe, e, quer dizer, não vamos estar separados, se nós vamos casar, não vai ficar um de um lado, porque eu não tenho condições, eu tenho uma solução para si: como você tem um T2 e tem 2 quartos, e você só está a viver com o seu marido, e eu vou casar, você podia-me suspender aquele quarto para eu ir viver para a vossa beira". Portanto, e ela aceitou - a mãe da minha falecida esposa.
E – Passou a viver com os seus sogros.
e – Já agora, os meus sogros, ela já faleceu e ele também faleceu, tanto um como o outro, infelizmente. E acontece que, depois daí, portanto fui para a terceira torre, para um T2, para o 1.º andar. A partir daí, o que é que me aconteceu? Aí, arranjei logo um emprego. Eu andava lá, ainda na fase ainda de construção…
E – Ainda não estava tudo completo.
e - Não estava tudo completo. Estava só a primeira torre e a segunda e mais nenhuma. Exatamente, a primeira e a segunda. Faltava a terceira, a quarta e a quinta. Portanto, eu comecei a trabalhar a partir daí, a ajudar nessas torres. O que é que era a minha profissão lá? Era variadíssima. Nós éramos... naquela altura não havia ainda um específico... Naquele caso, era indiferenciado. Quer dizer, havia habilidade para tudo, mas era considerada indiferenciado...
E - Então o senhor Zeferino esteve envolvido em acabar o Bairro do Aleixo?
e - Isso, isso, isso. Exatamente, acabar o Bairro do Aleixo. Então, o que é que eu fazia lá? Eu fazia tudo, tudo. Pintava as casas por dentro, ajudava os trolhas a levar massa ainda na gamela, na cabeça, e, portanto, andava lá. E depois fazia muito serviço ali, dava-me muito bem com o senhor José Ribeiro, que era o proprietário da empresa implicada nessa altura, e eu depois sindicalizei-me. Portanto, comecei de cedo a sindicalizar-me. Porque disse assim para mim: "Não, eu tenho que precaver, sou novo, mas vou-me já precaver da minha situação, logo do que pode acontecer daqui para a frente". E aconteceu logo naquele momento. Ainda bem que eu fiz uma situação dessas. E porquê? Porque esse senhor José Ribeiro, que eu estou a falar, que o senhor Renato deve de estar recordado ainda dessa pessoa... Acontece que esse senhor José Ribeiro, e eu a trabalhar na empresa, houve um dia que nos faltou com o dinheiro. Ora bem, havia muita gente casada lá, com filhos e tudo. Era preciso haver uma sustentabilidade para essas pessoas. Para mim não, porque eu nessa altura ainda não tinha filhos, estava casado, sim, mas ainda não tinha filhos, então tinha uma vida mais ou menos estabilizada. O que é que acontece? Uma vez eu tenho uma reunião com ele porque eu, como era sindicalizado, tinha acesso a essas situações e eu disse ao senhor José Ribeiro: "Atenção. Eu vou dar um prazo. Eu não vou já confrontá-lo, já, já, a dizer que quero isto, quero aquilo. Não. É assim.… eu vou dar um prazo de 15 dias para ver se você se safa para ter o dinheiro para os trabalhadores. Porque isto, quer dizer, ao passar de 15 dias eles começam já a ter pressão sobre a família. Como é que vão sustentar a casa, estar a trabalhar e não ter dinheiro para entregar em casa, para ter uma sustentabilidade para viver na minha residência?". Ora bem, eu dei-lhe espaço, para ele também… precavendo-o de uma situação muito grave. Então, o que é que eu fiz? Seguindo… para que os trabalhadores tivessem as suas regalias, eu disse: "Olhe, eu dei um prazo de 15 dias e você nada, não quer saber de nada, não quer saber se as pessoas estão a morrer à fome, se os filhos deles estão a morrer à fome. Você não quer ver, senhor Zé Ribeiro... Eu vou-lhe dizer uma coisa, todo o camião que vai entrar com mercadoria aqui dentro vai ficar aqui amarrado no Aleixo. Depois você tem que se desenrascar. Daqui não sai ninguém". Portanto, eu reuni com eles... um senhor também que era sindicalizado, que era da Afurada, vivia na Afurada e assim, também trabalhava lá comigo, e arranjei outro companheiro que também morava lá - não no Aleixo, fora do Aleixo, mas morava ali na zona - estava lá a trabalhar e também era sindicalizado, como eu era. E fomos os três. E todo o camião que chegava lá, eu ia ter com o camionista: "Olhe, vá dormir, o camião fica aqui, não descarrega nada, desculpe lá. Vá ter lá com o senhor que ele está aí no escritório e resolva o problema com ele". E então eles iam lá, faziam o papel deles, iam lá... e ele a dizer: "Olha, o que é que quer que eu faça? Os operários...”. “Sim, mas você é que está em conta com eles, não somos nós", diz o motorista. E acaba por ter razão. Só que nós também temos, como trabalhadores, a nossa razão, não é? E ficaram ali, três ou quatro camiões ali, que era o mais sustentável para nós, como trabalhadores, para que houvesse o ordenado quando ele quisesse. Para nós termos uma segurança. O que é que acontece? Então, ele fez um estratagema para que arranjassem o dinheiro, nem quis saber onde ele foi buscar. Eu reuni todos os trabalhadores e disse: "Amigos, há aqui o dinheiro para este mês, mas eu não vos garanto” - fui eu que lhes disse – “que haja dinheiro para o outro mês. Mas eu não quero, não vos estou a incentivar para que vocês reduzem o trabalho. Vocês fazem o trabalho normal. Não vamos estar agora também a dizer assim “este mês já estamos seguros, para o mês que vem não sabemos se há dinheiro, vamos já começar... em vez de uma coisa, vamos supor, uma pintura que demora duas ou três horas, vamos demorar cinco horas. Não, nisso também não estou de acordo”.
E – Perdiam a razão…
e - Se há umas regalias, nós temos de cumprir. Acontece que levantámos essa tal sanção que eu dei, e os meus colegas... depois houve uma assembleia, não é? Entre todos os trabalhadores, para ver quem é que estava a favor e quem não estava.
E - Havia outros trabalhadores que também residiam no Aleixo?
e - Não, ali só estava eu. Não havia mais ninguém.
E - A maior parte das pessoas nessa altura trabalhavam noutros...
e - Olhe, são coisas que eu vou-lhe dizer, não sei, não tenho conhecimento... mas há outros que eu conheço, nesta altura, sim, tinham outros ramos.
E - Também havia muitos que trabalhavam nas atividades portuárias, no Porto de Leixões.
e - Sim, exatamente, sim, sim. Na doca de Leixões. Ia muita gente trabalhar lá, eu tenho conhecimento. Na obra não, você sabe perfeitamente o que é a obra de trolhice, mas é mesmo assim.
E - O engraçado é ter havido pessoas a trabalhar lá na própria construção do sítio onde viviam, não é?
e - Pois, foi o meu caso. Eu fazia aquelas tampas de saneamento, tudo completo que era preciso para ali. E depois, o que acontece? Eu levantei os camiões e eu vi logo que ele era esperto, o senhor, o tal Magalhães. O que é que ele fez: um dia, vira-se para mim, chamou-me e disse assim: "Olha, eu vou dizer uma coisa. Eu estou de acordo consigo com aquilo... aquilo que você fez, mas eu queria que você não me fizesse isso. Sim, você faz isso comigo, mas eu faço um acordo consigo também. Não é só você fazer um acordo comigo. Eu, para garantir que há dinheiro para que os trabalhadores ao fim do mês, você tem que me dar garantias para isso". E o que é que ele fez? Chamou a esposa, que ele era casado, não é, para vir dormir com ele dentro do escritório, que era um escritório extenso. Eu disse: "Está bem, queres-me lixar, mas não vais lixar”, porque aqui tinha uma janela por trás que era o motivo de ele fugir. E a partir daí eu já não tinha hipótese nenhuma de o apanhar, não sei se você está a compreender, de apanhá-lo para os trabalhadores terem dinheiro. Eu disse: "Não, não me vais comer assim".
E - Nessa altura havia muitos empreiteiros a fugirem.
e - E o que é que eu fiz? Então pedi a esse rapaz que era sindicalizado comigo, que era da Afurada, e disse a ele: "Agora, cada um de nós - que eramos três, só - vamos ficar aqui uma noite a tomar conta dele. Fazer de guarda. Porque isto há qualquer coisa aqui que não está bem". Portanto, calhou a um, calhou a outro... e um dia calhou-me a mim e ele teve azar. Porque ele estava a abrir a porta da janela para fugir. A mulher dele trouxe um colchão e tudo, para ele dormir, a sério. Trouxe um colchão para dormir lá... Ela ia-se embora e trazia a comida para ele. E eu disse: "A senhora que traga. Mas atenção, quem vai levar lá dentro sou eu. A senhora aqui para dentro do escritório, a senhora não entra. Ok? Você até aqui à porta pode vir. A partir daqui sou eu". Portanto, eu vim lá e ele... pronto, normal, um homem normal podia querer ir comer com a esposa e não podia, porque também errou, não é? Também meteu o pé na poça, costuma-se dizer, e tem que pagá-las. Portanto, eu como vi que ele ia fugir, disse: "Eh lá, para aí!". Telefonei logo para o senhor da Afurada: "Olha, vem cá imediatamente que a pessoa em causa quer dar à sola, pá". E ele então veio rapidamente, que ele tinha carro. Vamos lá dentro, tivemos uma intensa conversa com ele e acabou a dizer: "Não, desculpe lá, então posso dizer uma coisa: a partir de agora vou fechar a empresa". Até porque o Bairro do Aleixo, ao ser construído na altura, havia lá muita matéria-prima que ele comprava, a firma, já na altura, que ele dizia que era bom, mas não era, não era, não me venham cá atirar com areia para os olhos. Aquilo que ele comprava era o mais barato e, claro, dava para pôr ali, como era um bairro e tal... E, claro, também eram muitas casas, eram 60 e tal casas que tinham uma torre. E ele, claro, aproveitava-se de uma situação dessas. A partir daí o bairro acabou, não é?
E – Ele acabou a obra ou veio outro?
e - Não, não, não, ele acabou a obra. E ele comprometeu-se - salvo eu - com a Câmara Municipal do Porto, a cumprir o contrato que tinha com a Câmara para terminar a obra do Aleixo, até os moradores serem todos encaminhados para lá. Porque a vontade dele não era essa. Como já estava a primeira torre ocupada, a segunda como, você já deve saber, foi de assalto. Mas acabam por ter razão, aquelas pessoas que fizeram isso acabam de ter razão. Se está com a casa já... E, quando a gente fomos interpelados, na Ribeira, para sermos transferidos para ali, nós já tínhamos o contrato para ir para ali. Portanto, não era assim do pé para a mão que nos iam deixar?! Quer dizer, cinco torres, a erguer ali... E o pessoal teve uma conversa connosco... ora bem, o que acontece: acabámos a obra.
E - A obra já acaba para aí uns três ou quatro anos depois dos primeiros…?
e - Exatamente.
E – O senhor foi dos primeiros a ir...
e - Eu fui logo dos primeiros, da torre um, a minha mãe, neste caso a minha mãe, mas eu fui com ela, mas é verdade aquilo que você está a dizer, eu fui dos primeiros a ir para a obra.
E - E depois isto ainda demorou 3 ou 4 anos?
e - Com pressa, porque também a Câmara começou a apertar um bocadinho, porque havia prazos para entregar aquilo. Você sabe como é que funciona. Depois, a partir daí, quando o bairro já estava todo completo, eu fui trabalhar para a Fosforeira, que era na Rua do Progresso, que era por trás do Aleixo. E fui trabalhar para aí. Foi logo a primeira empresa que eu tive quando saí do Bairro do Aleixo.
E - E já tinha uns 20 e pouco, certo?
e - Tinha 21 anos, na verdade. Eu fui para lá trabalhar com uma máquina, que era de fazer fósforos... e o engenheiro meteu-me logo na máquina que era mais certificada, que havia na empresa. E eu como fui para lá trabalhar, queria ganhar dinheiro. E ganhava-se bem, já naquela altura. Aquilo era uma empresa alemã, que estava lá e havia dinheiro para tudo. Eles pagavam horas e tudo. Eu fazia horas com todo o gosto, mas eram pagáveis. No outro dia já andava lá um senhor com aqueles tabuleirinhos, com o dinheiro ali em bloco, para cada um dos operários receber as suas horas. Isso sim, isso é uma empresa que é compatível para uma situação dessas. Portanto, eu ao trabalhar ali... gostei, gostei muito. Mas agora você repara uma coisa: ao trabalhar ali, eu assistia a cada uma... As mulheres eram proibidas de trabalhar com o cabelo solto, aquilo era uma fábrica de fósforos e aquilo incendeia. Ao meter a mão assim, que elas faziam... o serviço das mulheres era este, bater com as mãos e sobre a mão há o aquecimento. O meu trabalho era: havia uma "analista" para fazer a massa, que era para a cabeça dos fósforos, e ela fazia a massa. E eu só colocava a massa no prato da máquina e depois a máquina trabalhava, levava o palito que vinha de outra secção para aquela máquina onde eu trabalhava. Que era uma máquina muito extensa, muito comprida, era das piores... havia mais fáceis lá, mas pronto, era o meu trabalho, eu tinha que o cumprir. E bem, mas é o que acontece... assistia a cada peripécia, já nessa altura, com 21 anos, em que eu não aceitava haver um certo número de determinadas coisas. A mulher, pronto, não podia trabalhar com o cabelo solto, tinha que ser amarrado. Mas nós, como seres humanos, temos de ter a plena consciência que ao trabalhar numa firma como essa - eu já falo nessa, que eu ainda vou a seguir falar noutras que trabalhei -, mas nessa, principalmente, em que eu trabalhei, eu assisti a casos que é inadmissível. Já naquela época, deixar uma mulher que ficou presa... Por exemplo, ela estava a trabalhar numa máquina que era um tapete assim pequenino, de levar o fósforo. E a mulher, coitada, naquele dia, lá está, naquele dia facilitou: foi com o cabelo solto e foi-se de todo, e ficou amarrada. Agora, o que me custa é eu estar numa empresa a trabalhar, daquela dimensão que é... e nós, quando entrámos para lá, todos nós tivemos uma formação: pegar no extintor, saber apagar o fogo, que nós não tínhamos, fomos cada qual aprender. Mas há casos, que não é preciso ninguém dizer nada, a nossa consciência é que tem que trabalhar. E então a mulher estava ali aos trambolhões e toda a gente aos gritos e toda a gente a fugir da fábrica. Ou seja, porra, não há ninguém que chegue ali ao botão vermelho e que desligue o caraças da máquina? Ó pá, por amor de Deus, está tudo maluco aqui? Quer dizer, deixa essa mulher ali aos trambolhões para quê? Há uma coisa que, para mim, não tem cabimento isso. Se há um botão e a máquina tem que parar... Isso é a mesma coisa na máquina onde eu trabalhava: quando qualquer coisa passava-se mal, ou com a cabeça de fósforo não ia bem, eu chegava ali e parava a máquina. Chamava a analista: "Ó, desculpe lá, a massa está mal, porque está a sair assim o fósforo...”. Pronto, estava ali resolvido. Quer dizer, tanta gente ali a trabalhar, mais de mil e tal trabalhadores, havia uns que estavam na secção do palito, que estavam na outra parte, que é onde faziam os palitos. A gente chama-lhe palito, não é?
E - Sim, sim, sim. A parte de madeira.
e - E pronto, eu trabalhei aí também durante três anos.
E - Também era sindicalista aí?
e - Também, também, também. Em todas as áreas que vou citar aqui eu fui sempre sindicalista, até sair da última empresa. E acontece, então saí dessa empresa, passados 3 anos. […] Já nessa altura havia muita cambalagem, e acontece que houve uma rutura daquilo. “Vou ter que despedir toda a gente!”. Desde o momento que haja indemnização para cada um, a gente vai-se embora à nossa vida. Conforme os anos que cada um estava ali a trabalhar. Os trabalhadores reuniram-se, aceitaram, foram-se embora e toda a gente levou o seu dinheirinho, que lhes dizia respeito nessa altura. Daí, saí, fui trabalhar para a Tabaqueira da Avenida Fernão de Magalhães. Não sei se sabe de onde era. Aquilo é quem vai para as Antas, lá para cima, para o... Trabalhei aí. Aí a minha função era outra. Era conferente de tabaco. Conferente de tabaco. O que era isto de conferente de tabaco? Eu conferia o camião que vinha de Albarraque, que era lá para cima de Lisboa, e vinha para aqui para o Porto. Era a única empresa que havia de distribuição de tabaco, era aquela. E o que é que acontecia? A minha função era só contar o tabaco que estava a sair do camião. Nessa altura, veja lá, ganhava-se cada pessoa, à cabeça, levar duas caixas, 25 escudos. E isso sucedeu em 1990... eu não tenho bem a certeza, mas penso que era 1990. E então, trabalhavam 3 pessoas, 2 mulheres e 1 homem. E esse homem era defeitozinho numa vista, que eu tinha pena dele. Mas pronto, eram pessoas que ganhavam ao dia, não eram da empresa, trabalhavam só para aquele trabalho específico. Só quando viesse o camião, aqueles eram os chamados para vir descarregar o camião. Entretanto, eu, como era sindicalizado, um dia o patrão chega à minha beira: “Precisava de si. Precisava que você fosse” - não sei bem o que ele disse – “à Alemanha, para ver como é que funciona um tapete rolante”. E eu disse: “Ei lá!”. Avisei os trabalhadores… “Vem aí, cuidado, que muita gente vai-se embora”. Avisei-os logo que “Cuidado, eu vou lá, vou lá ver, mas já vos ponho a pau. Porque se for realmente aquilo que eles querem, eu não posso dizer nada”.
E - Descarregamento automático, já não é preciso...
e - Exatamente. Os trabalhadores já eram menos. Por exemplo, havia uma palete... nessa altura, quando não havia o tapete, as mulheres levavam diretamente ao local do lote. Eu chegava ali e dizia: “Olha, traga-me para ali, SG gigante; traga-me para ali, Três Vintes”, que ainda existia na altura. Havia outro tabaco também. E eu conferia, então, conforme acabei de poder dizer, nessa altura, o tabaco. E depois, o cliente, que havia muitas firmas, cafés, tabacarias, que iam lá buscar o tabaco logo de manhã... aquilo para mim, logo às 9 horas da manhã – eu até pegava às 8 e meia, porque já sabia o trabalho como era –, e eles iam para lá e... “Ah, o quê? Só este tabaco para mim?”. “Ó meu, o tabaco que eu tenho aqui em stock é só este. E eu para toda a gente levar um bocadinho, para que vocês tenham um bocadinho de tabaco para cada um dos vossos clientes, pá, desculpe lá, você não venha aqui por ser muito rico que quer levar... quer dizer, os lotes todos? Os outros vão deixar de fumar? Não, não, não, comigo é assim que funciona. É um bocadinho para cada um. Você quer quantas? 50? Vai levar 25. E amanhã se você quiser vir cá, ou ao fim da tarde, ainda de hoje, eu já tenho mais, já vou fazer”. E ao fim do dia eu tinha que fazer um mapa para dizer o stock que ficava para o outro dia, para eu saber - lá está - para eu saber jogar com os clientes que chegavam lá nessa altura logo de manhã, que queriam o tabaco. Para eu saber jogar aquilo que eu tinha dentro do armazém. Acontece que eu então fui para lá, foi ver a tal máquina rolanteira e veio a máquina passado um certo tempo, veio para cá, e assim foi, aquilo que a gente estava a falar, foi sete trabalhadores embora. Porquê? Porque, quando veio esse tapete rolante, eu tive a ideia - porque ali praticamente também já eram pessoas de idade, eu era o único novo que estava lá a trabalhar.... Ganhava-se ainda - não sei se você se lembra - daqueles tickets, que era para comer. Dava para eu comer, ainda sobrava troco. Dava para eu comprar roupa, para eu comprar sapatos. Naquele tempo, não é? Dava para isto tudo. E ainda ficava com o dinheiro. Ah, e outra coisa: benefício que a gente tinha como trabalhador, mesmo que não fumasse, tinha direito a um volume de tabaco, em que eu podia fazer dinheiro. Está a perceber? E, portanto, foi uma firma também muito boa onde eu trabalhei. Ah, mas eu, seguindo o rumo que estava a chegar, era que ao meter o tal tapete rolante, eu disse: “Oub’lá, eu vou meter aqui uma palete”. Lá está, ninguém tinha pensado nisso, não é? “Eu vou meter aqui uma palete” – sabe o que é uma palete? E já não é preciso ter as três pessoas a acartar. Porque a caixa, ao vir para baixo, vocês vão estar aqui dois, é o suficiente. O que é que eu expliquei? Um tira uma caixa, o outro já está aqui, ao pé do tapete, para tirar a outra. Que é para não deixar cair nenhuma no chão. Isto também é preciso ter cabeça. Lá está. Eu disse-lhes logo: "Quando vocês tiverem dificuldade, está aqui um botãozinho, é só… pá! E assim vocês metem e não deixam machucar o tabaco”. Porque depois vem o cliente e começa a resmungar com razão. Basta só um toquezinho numa caixa daquelas para eles reclamarem logo. E com razão. Portanto, a partir daí, também teve aí... Também fechou, essa firma também fechou. Porque depois foi para ali, para o pé dos transitários, para a zona do Freixieiro. E eles arranjaram lá uns armazéns e depois esticaram... portanto, mandaram retirar metade do pessoal que trabalhava lá. Levaram talvez, penso eu, os mais antigos. Por isso é que eu fui dos primeiros a vir embora, porque eu era ainda muito novo lá a trabalhar. Embora tivesse mais capacidades que outros, mas isso não conta para nada. O que conta é mais a antiguidade da pessoa na casa. E nessa firma também tive bons momentos com eles, com os patrões, gostavam de mim. Pagaram-me uma vez para eu ir a Lisboa, porque nunca fui a Lisboa, e, por conta deles, fui. Fui dormir no Hotel Fénix - não sei se vocês conhecem -, fiquei lá duas noites. Havia um fundo de maneio da entidade patronal para eu gastar lá em Lisboa naquilo que eu quisesse; o que eu tinha que trazer eram as faturas. Nunca comi uma santola na minha vida, comi lá, com todo o gosto. Deu-me para estar a beber e tudo, não é? Santola... aquilo foi maravilha. Mas trouxe tudo limpo, mesmo faturas do táxi, que andei lá, a dar umas voltas, e tal. E depois tínhamos uma camionete que nós fomos para lá, da empresa... fomos para lá doze pessoas, para Albarraque. E o que é que o patrão me disse? “Vocês vão a Albarraque” - mas é para todos, não foi só para mim, para todos - vão saber como é que se faz o tabaco”. É que todos nós que trabalhávamos lá, recebíamos o tabaco, mas não tínhamos nenhuma noção de como é que se fazia o tabaco. Portanto, tínhamos uma camioneta apropriada, 12 pessoas, daquelas pequenas, iam lá ao hotel, iam buscar-nos e depois levavam-nos novamente ao hotel. Portanto, eu fui ver como... Qual é o meu espanto? Que eu nunca vi aquilo na minha vida, e peguei numa folha. Aquilo era de folha. Eu não sabia de onde a parte vinha. E aquilo tinha um cheiro assim um bocado pró esquisito. Veio um guarda fiscal e disse: “Olhe, desculpe, meta aí isso dentro que nisso não se pode mexer”. Eu virei-me para ele: “Ó, está a olhar para aqui [aponta para o peito]? Eu venho do Porto, sou sindicalizado e venho aqui por autorização do patrão do Porto, ok? Eu não venho para aqui… eu não assaltei nada. Eu para estar aqui dentro tenho aqui isto, venho do hotel para aqui. Portanto desculpe lá, você está-se a meter, eu não estou a roubar nada, tenho alguma coisa nos bolsos, pelo amor de Deus!...”. Quer dizer, estive a ver aquilo, eu e eles e tudo. Acontece que depois viemos embora, não é? Ele perguntou se tudo correu bem em Lisboa. “Correu. Então, correu tudo bem, foi espetáculo”. Depois, saí daí da Tabaqueira, fui trabalhar para a Alfândega, como despachante. Era eu que fazia… em transitários, conheci muitos transitários, um certo número de transitários. Eu fazia despachos, fazia na Alfândega, no Porto, e fazia também na TERTIR - já havia a TERTIR, aqui no Freixieiro. Os camiões iam para lá e havia umas guias especiais que eu tinha que tratar. Essas guias especiais, específicas, eram... você é proprietário de uma casa que precisava, sei lá, aquelas coisas de enrolar os tubos, de não sei o quê para fazer roupa... ia muita coisa para lá, para cima, para Guimarães, para Santo Tirso, onde tem muita fábrica disso, mesmo de fazer lençóis e essa coisa toda. E então eu mandava para lá os camiões e desalfandegava. Agora, claro, que ali também havia estipulado uma lei que, quando passasse das 5 e meia, havia uma faturação acima da média. Por exemplo, você, como cliente: “Não, não, desculpe lá, eu quero hoje a mercadoria aqui. Porque as máquinas estão paradas”. Muitas vezes, havia pessoas que diziam isso. E então, o que é que eles diziam? “Olha, desenrasca-me isso. Eu pago o que tiver a pagar”. E ‘tá, pronto, tudo bem, até aí tudo certo. Mas, claro, havia também complicações nisso. Quais eram as complicações? Eu... nem eu tinha a obrigação disso: saber a localidade das empresas e saber qual era, como é que eu hei de dizer, as localidades... se o camião podia ou não podia entrar lá. Porque havia acessos em que eles se queixavam que era muito difícil ir lá descarregar a mercadoria. Agora a culpa não era minha, a culpa era do próprio dono da empresa que estava a trabalhar com as coisas. Portanto, trabalhei aí durante 4 anos. Depois fui trabalhar para outra empresa.
E - E isto sempre vivendo no Aleixo?
e - No Aleixo, sempre.
E - E sempre na mesma [habitação], ainda na Torre 3?
e - Na Torre 3. Sempre. A minha vida foi sempre - até sair, para onde eu estou agora atualmente – sempre lá, na Torre 3.
E - Então foi despachante; e depois?
e – Depois, fui trabalhar para uma empresa de transportes, fazer entregas na cidade do Porto. Eu já estava dentro do urbano, quando era despachante, era mais fácil para mim trabalhar. Era Transportes Torrão e Filhos, chamava-se a firma. Na altura, também faleceu o senhor, a filha dele também faleceu, que eram os proprietários da empresa. E eu, aí, a minha função era ajudante de motorista, não tinha carta de condução e fazia uma situação dessas. Só ajudava o motorista a fazer a carga, pronto. Trabalhei aí. Depois daí foi a última. Aí foi a última, exatamente. Aí foi a última onde eu trabalhei. Trabalhei sete anos. Estou reformado, é por todas essas atividades que eu exerci, graças a Deus, não tenho razão de queixa.
E - Agora a questão era voltarmos mesmo ao Aleixo...
e - Sim, o Aleixo, faça a pergunta.
E - Passou para a Torre 3, tinha a sua vida profissional, que foi lá também, começou ali e ganhou ali um conhecimento certamente muito grande das pessoas. Como é que era a vida nessa altura, nos primeiros tempos? Como é que se recorda?
e - No Aleixo?
E - Sim, sim.
e - Era bom. Não vou dizer que era mau, tinha vizinhos que eram educados, não tenho razão de queixa.
E – O senhor foi vendo as pessoas a chegarem também, não foi?
e - Eu fui vendo as pessoas a chegarem. As pessoas iam sendo...
E - Conforme as torres iam sendo construídas…
e - Exatamente, conforme as torres estavam construídas.
E - Veio gente que conhecia?
e - Sim, sim, sim. Muita gente que conhecia, que trabalhava na doca. O meu próprio irmão, o Emílio, que hoje está a viver no outro lado, também vivia na quarta torre. A minha cunhada, nessa altura, não era casada, também vivia lá. Portanto, já tinha muito conhecimento de muita pessoa mesmo. Aquilo veio... metade delas vinha da Ribeira. Metade daquilo era conhecida de toda a gente. O que acontece é depois, ali na Torre 3, onde eu vivia, a minha falecida esposa, como se dava muito bem com uma vizinha, ela ficou abandonada. Abandonada e tinha problemas de saúde. E a minha mulher veio ter comigo e disse: “Olha, como é, podemos tratar dessa senhora?”. Eu disse: “Poder, podemos, mas para isso tens de pedir um alargamento à câmara. Tens de sair do tipo 2, que é onde a gente vive, e vamos para um tipo 4”. Agora, eu sabia também que esse tipo 4 ia ficar desocupado. Eu disse: “Vais aguardar, sim senhor, vais tratar das coisas que são necessárias, mas vais aguardar enquanto a casa ainda não estiver livre, que as pessoas depois saiam de lá”.
E - Mas então ficou também com essa senhora, acolheu-a em casa.
e - Exatamente, e eu, claro, para ter o alargamento da casa, tive de tomar conta dessa pessoa que foi abandonada.
E – Os senhores tinham filhos na altura?
e - Não, não, não. Era ela e o irmão. O irmão depois acabou por falecer ainda.
E - E o senhor e a sua esposa tinham filhos?
e - Aí já tínhamos. Tínhamos dois filhos. Sim, sim, sim.
E - Por isso é que precisavam também do T4.
e - Do T4, exato. Foi bom. Foi bom que fizéssemos essa organização. Portanto, a senhora foi acompanhar-me para o T4, o T4 tinha quatro quartos e eu meti a senhora num quarto sozinha, porque ela estava numa caminha sozinha e a minha esposa é que lhe dava a comida, à boca, e tal. Eram as coisas que você sabe que é preciso fazer...
E - Era na mesma torre?
e - Era na mesma torre. Eu vivia no tipo 2, aqui, e ela vivia no tipo 3, aqui deste lado [faz um gesto]. Portanto, no mesmo andar. Essa casa, claro, também depois foi para outras pessoas. Foi encaminhada e muito bem. Foi ocupada por outras pessoas.
E - Assim acabaram por ficar duas libertas e...
e - Exatamente, exato. Em relação à minha casa, também ficou liberta, mas também foi para lá outra pessoa da mesma família dali, do primeiro andar, que é onde a gente morava... que era da mesma família, não é? E, portanto, depois, quer dizer, lá está.
E - Nessa altura, o ambiente como é que era? Amigos, vizinhos…?
e - Os vizinhos eram...
E - Já se vê que havia umas relações fortes, inclusive até recolheram essa senhora…
E – Claro, claro, sim, sim, sim. Aí não havia o que ver. Havia, talvez, em certos... talvez alguns desavindos, não é? Por causa de muitas famílias muitos grandes. Grandes e havia muita... Mas isso não era da minha permanência de lá, da parte de baixo, costuma-se dizer, não é? Porque a minha torre toda dava para o rio e, claro, isso é como em todo o lado, não era só no Aleixo que podia haver o que houve. Não é… Passou-se lá muita coisa que se passa assim em qualquer lado. Isso não vamos agora estar a discriminar quem viveu no Aleixo. Porque o que há no Aleixo ainda hoje é falado... Ainda hoje eu vou no autocarro, tenho o passe para ir para o autocarro, e eu ouço as pessoas a falar… Já há quanto tempo a gente saiu dali?! Eu vivi ali 30 anos. 30 anos que vivi ali! Não foi brincadeira. Portanto, eu, a viver 30 anos, é porque me senti bem ali. Agora, não percebo que ainda hoje o Aleixo seja falado em certos bairros - se me faço entender -, em que o Aleixo ainda venha à baila. O que é que o Aleixo tem a ver com isso? Por exemplo, o que é que eu tenho a ver, eu, como morador que fui do Aleixo, em que aquilo está abandonado? O que é que eu tenho a ver com isso? Abandonado, não sou eu o culpado. O culpado é alguém, é. Mas não fui eu. Tomara eu ainda estar lá a viver, gostava daquilo. Está a perceber? E, como eu, havia muitas pessoas que, depois, quando saíram de lá, muitas pessoas, por causa daquele trauma que tiveram, do convívio que havia no Aleixo, entre todos, começaram a falecer. Porque aqueles que não souberam meter na cabeça... são muitos anos, 30 anos é uma vida inteira. E as pessoas metem aquilo na cabeça e começaram a falecer. Faleceu, que eu tenho conhecimento, um rol de pessoas, ‘tá a perceber? Um monte de pessoas, em que eu fui com todo o gosto ao funeral delas. É lamentável que eles ficaram traumatizados com aquilo tudo. Para já, quando foram as casas destruídas, até para mim... até para mim, a casa foi mal distribuída. Eu vou dizer porquê: se eu estou a viver num T4, conforme eu disse, já a senhora que eu tomei conta tinha falecido, se eu estive a viver nesse tipo 4, com as condições que me deram, eu cheguei a uma conclusão de que havia pessoas que parece que não me entendiam, às vezes, o facto de uma pessoa querer uma casa e não a ter, nessa altura. Porque também houve, talvez... Na altura, quando a gente foi embora, por exemplo, dali, do Bairro do Aleixo, quando a gente foi embora, fomos distribuídos pelos [outros] bairros. Eu vou falar no meu caso, no meu. Eu até mandei muitas entrevistas para o Jornal de Notícias, para o Correio da Manhã, chamei-os lá à minha casa para ver o que era. Porquê? A minha esposa, nessa altura, estava, portanto, com doença, que ela tinha muitos problemas de saúde, e eu, acauteladamente, eu, como marido, cheguei ao pé da Câmara e disse: "Cuidado, que é preciso ter muita atenção”. Antes, quer dizer, que eu comecei a ouvir o burburinho com o Aleixo ir abaixo, comecei a precaver a situação da minha esposa. E disse: “Olhe, vocês tenham em atenção, eu estou a pedir uma casa agora, para a localidade de Lordelo do Ouro, que é a opção”... deram-me três, mas eu escolhi aquela e eu ia dizer depois que resolvessem comigo. Mas eu, antecipadamente, cinco anos, tratei disso. Antes do Aleixo ir abaixo. Mandei toda a documentação que me pediram na Domus Social, qual é a doença, qual é o problema que ela tem. Acontece que, para ela, tem que ser um rés-do-chão. Porque depois eu, ao pedir um rés-do-chão… eu ainda vivia no Aleixo. Eu ainda vivia no Aleixo com ela. E ela ficou acamada. Por causa de um AVC grave que lhe deu. E eu acautelei. Pronto, a Domus Social... Quer dizer, a Domus Social não quis saber de nada. Os documentos que eu meti... eu perguntei onde é que eles estão, ninguém me soube dizer. E eu disse: "Então, as gavetas estão vedadas, do gabinete? Para onde foi encaminhado isso? Pelo amor de Deus, vá! Vocês estão a brincar!". E depois você repara como é que eu sou recebido na Domus Social. Eu chego lá, exponho esse problema, que a minha esposa não podia ir... chegam lá e as primeiras chaves que me dão é para, salvo erro, Aldoar, agora não sei especificar, uma casa tão pequena como um T1. Eu pergunto... eu, no meu pensamento, pensava que era um T4, foi aquilo que eu pedi. E com as condições... Tudo bem, sim senhor, que era casa de rés-do-chão.
E - Era só para a senhora e a sua esposa? Os seus filhos já não estavam lá?
e - Não, não, não, estavam lá os meus filhos. Estavam no agregado familiar. E estes dois que ainda hoje vivem comigo estavam lá. E a minha mulher... estava 1, 2, 3, 4.
E - Pelo menos T3 teria que ser…
e - Exatamente. O que é que aconteceu? Não, não, não era T3. Aí é que está o engano. Tinha que ser T4. Porquê? Porque a minha mulher, agora estando numa cama articulada, tem que ser um quarto só para ela. Um quarto para mim. E um quarto para cada filho, que eles já são de maior idade. Está a perceber? Portanto, mas a conclusão não está aí. A conclusão está na dificuldade de mobilidade da minha falecida. O problema está aí. O problema todo está aí. Como é que eu me acautelei de uma coisa na Domus Social e eles não tratam das coisas antecipadamente, analisando o processo, para saber como é que está? Quer dizer, eu quando vejo as torres a serem destruídas... eu também sei que a minha vem a seguir... começo-me a acautelar. Quer dizer, quando chegou ao dia, quando eu recebo a carta que me vou embora do Aleixo e que a casa que me é atribuída é para certo sítio, eu estive lá a falar com essa pessoa em causa e fiquei um bocado exaltado - mas também não insultei ninguém -, mas disse o que me ia na alma. Foi: “Senhor, desculpe, mas, se você quer a casa que atualmente não existe... atualmente não existe, quer o rés-do-chão, por causa da mobilidade, não existe. Vamos-lhe arranjar um primeiro andar”. Eu: “Sim, eu vou para o primeiro andar, até que vocês me arranjem um rés-do-chão”. E a minha mulher, coitada... iam os bombeiros lá a casa buscá-la, fazia fisioterapia, que eu ainda tentei durante um ano, em que ela ainda pudesse vir a andar. Mas, infelizmente, eu vi que a coisa era gravíssima. O médico teve uma extensa conversa comigo no Hospital de Santo António, e fez-me ver a situação dela, estava preparado para isso. Portanto, não foi por aí que eu fiquei. Agora, o que eu fiquei um bocado revoltado foi: “Não, desculpe, aqui temos uma solução”. “Diga lá qual é a solução”. “A sua mulher vai para a casa da sua filha” – que é a minha filha, Áurea, que está a viver em Pinheiro Torres. Eu falo assim: “Como? Mas o que é? Eu também vou para lá, eu tenho que ir para o pé da minha mulher!”. E eu estava a dormir no chão, ao lado da cama articulada da minha mulher. Porque o meu genro tinha que estar com a minha filha, num T3, em Pinheiro Torres. As condições... aí sim, você veja as condições que me arranjaram... a viver aí, eu a viver no chão, as dificuldades que tenho. O meu genro trabalhava nessa altura no mar. Ela, a minha filha, já tinha dois filhos, duas meninas. Aquilo também era um bocado...
E – E aí ainda tinha os seus filhos consigo?
e - Não, os meus filhos depois foram para outra casa, foram todos separados. O ridículo a que isto chega: os meus filhos foram também para Pinheiro Torres. Que eu, nesse caso, estava a ajudar a minha filha e estava a pagar uma renda de casa dos meus filhos. Isto, por favor, é de loucos. Isto é de loucos, é uma coisa que não entendi na altura e continuo a não entender. Mas espere aí, vamos lá. Eu vou... “Ó menina... eu vou pôr os pés ao caminho e vou saber se há ou não há rés-do-chão apropriados para isso”. Até que os bombeiros vão à minha casa, à casa da minha filha... as casas eram boas, podia-se andar à vontade. As casas eram boas, as escadinhas eram largas, a cadeirinha de rodas andava à vontade. Depois, então, dos meus filhos e da minha filha, e eu já ter a casa... mas aí eu, para ter a casa, tive que andar sempre, sempre em cima deles, porque eu ia lá, via os trabalhadores lá, não faziam nada. Eu chegava lá: "Ó amigo, eu tenho aqui um papel escrito pela Câmara Municipal do Porto em que eu estou à espera desta casa. Vocês estão a brincar com a minha cara e com a saúde da minha esposa?!”. “Ah, nós não temos culpa…”.
E – E essa era onde?
e - É onde estou agora.
E - Estavam a remodelar a casa para poderem...
e - Exatamente, exatamente. Mas agora você vai ver outra coisa. Eu, quando fui ver, era uma engenheira que estava lá comigo, que eu apanhei-a lá e estive a falar com ela. Quando a apanhei lá, eu disse-lhe: “Desculpe, acha que isto é uma habitação apropriada para a minha mulher?”. E ela diz: “Ó amigo, isso não é comigo, a minha profissão, sou engenheira da Câmara, não tem nada a ver com isso. Se você fez um pedido e se mandou à Domus...”. E veja lá, a essa senhora, eu mostrei - já estava aí na casa onde estou agora atualmente - e disse: “Olhe, está a ver como a minha mulher está numa cama articulada? Olhe as escadas, tipo caracol, os bombeiros já caíram com ela nas escadas”. Por ser assim um primeiro andar... quer dizer, era um primeiro andar, sim senhora, mas aquilo tem seis escadas, ou sete, ou dez... é o que faz. Até chegar ao primeiro andar. E eles uma vez quase que caíram com a cabeça. E eles então passaram uma declaração e disseram: “Eu digo à Câmara, através deste documento, que a casa onde a sua esposa vive consigo atualmente não tem condições para nós transportarmos a sua esposa”. Foi quando eu fiz o tal alarido aos jornais. E veio logo na primeira página. Mas ninguém quis saber disso, não é? Se já se põe um pelo dinheiro, se calhar era capaz de ser mais ressarcido com isto. Agora, como é uma pessoa que está numa cama articulada... cada qual é que sabe, não é? Mas é mesmo assim. Acontece que, então, eu fui para lá, para esse primeiro andar, e eu vim a ter conhecimento de que havia duas raparigas novas - que não tenho nada contra elas, até tive uma grande conversa com elas - que viviam no rés-do-chão. E o que é que elas faziam no rés-do-chão? Mas isso foi feito por mim, não pela Câmara. Fui perguntar: "Ó desculpe, vocês vivem... Não se importam de fazer uma transferência para a parte do primeiro andar?. E vêm...”. Aquilo é tudo T4, tudo T4, onde eu vivo é tudo T4. O que é que acontece? Acontece que essas senhoras, essas raparigas, vieram de uma faculdade qualquer e a senhora na Câmara disse-me que há um protocolo para essas pessoas... é para alojar ali. Eu disse: “Tudo bem. Mas como é que não é compatível de, sabendo você o caso que eu tenho hoje atualmente, não é possível fazer uma troca?”. “Aí isso você fale com elas, não somos nós, poder pode, mas você fale com elas”. Eu fui lá falar com as raparigas, estava lá a mãe delas, “Ah, desculpe, nós estamos a pagar o aluguer, estamos a pagar a dívida”. Está bem, minha senhora, fui ver outra casa, também T4, com rés-do-chão, com pátio, ainda era melhor. O que era esse T4 lá também, onde eu moro? Era do padre. O que é que o padre fazia ali? Conferências. O padre não estava a usufruir da casa para nada. E lá vinha o protocolo outra vez. “Temos um protocolo com a igreja”, ou não sei o quê. Tantos protocolos e aquelas pessoas... Mas eu não morro de amores por estas coisas. Você já viu... há certas coisas que não entendo. Não dá para entender. Então uma pessoa com dificuldades, que era o caso da minha falecida esposa, se calhar tinha mais saúde se tivesse uma casa mais digna e até vivia melhor.
E - Já vamos regressar a essa questão. Voltando ainda à questão da sua vida no Bairro do Aleixo e para nos aproximarmos do assunto relativo à Associação, também à sua participação... O senhor viveu lá cerca de 30 anos, foi para lá relativamente novo, esteve lá a trabalhar, conhecia muita gente lá…
e - Já trabalhava com o senhor Renato [atual presidente da Associação de Promoção Social da População do Bairro do Aleixo].
E - Como é que foi essa ligação ao movimento associativo, à participação associativa? Também tinha a sua experiência enquanto sindicalista, não é? Enquanto delegado sindical…
e - Sim, sim, sim.
E - E teve alguma relação? Como é que foi chegar a essa vida associativa também?
e - Já foi dito aqui que eu arranjava muita gente que estava lá no Bairro do Aleixo... Ainda vivíamos no Bairro do Aleixo, e o Fernando então fazia parte do ATL. E havia muita gente que já lá vinha por dizer que precisava de um certo número de determinados documentos, que era necessário dar. Eu disse: “Olhe, dê-me os documentos que é necessário dar... ou então eu encaminho para o senhor Renato e a senhora vai lá”.
E – Sabia que o senhor dava conta do recado…
e - Sabiam. Elas contavam umas às outras, quando elas sentiam dificuldades, contavam umas às outras: “Olha, pergunta ao senhor Santos” – que não era senhor Zeferino, era senhor Santos –, “fala com o senhor Santos, que ele trata disso tudo. Segurança Social... trata com a Associação, que ele tem lá conhecimento”. E havia, e era, tinha lá conhecimentos. Ainda os tenho, ainda há serviços também que ainda passo para lá pessoas. E, portanto, encaminhavam para o ATL. Essas pessoas também gostavam de ir ao ATL, porque também têm lá ainda netos e netas, lá no ATL. E eu queria saber as condições do ATL, como é que se vivia lá dentro, como é que se passava. E gostei. Gostei muito de estar nas instalações do ATL e dá-me a mim, como morador de lá, do Bairro do Aleixo, uma boa estadia para as crianças estarem ali. Porque era um entretenimento para as crianças estarem ali, praticamente na sua bolhinha. E bem... porque escusavam de estar, num certo momento, em determinados ambientes que já existiam no Bairro do Aleixo. E o ATL era favorável para uma situação dessas. Havia pessoas que, se calhar, não queriam meter lá as crianças... Não sei porquê, não me interessa, cada qual é cada qual. Mas eu sempre que fui ao ATL nunca vi as pessoas a serem maltratadas, a serem, sei lá, agredidas. Nunca. Sempre houve muito respeito ali. Até porque os pais muitas vezes iam ter com o senhor Renato: “Olha a minha filha não deixou ficar um casaco? Olha isto e mais aquilo...”. E o senhor Renato dizia assim: “Olha, está ali pendurado, pronto, está a ver?”. Tudo isso, há uma organização, ou havia na altura, e como há aqui. Eu também represento o que é esta situação... então aqui ainda melhor, as instalações são diferentes, não tem nada a ver com aquilo que era no Aleixo, não é? Agora, a partir daí, eu só tenho bem a dizer. A partir daí, depois eu e o senhor Renato tivemos uma reunião e assinámos documentos…
E - Já está há quanto tempo?
e - Já estou desde 2013, exatamente. Já vim de lá, exatamente.
E - Como é que viveram esta transição aqui para...?
e - Bem, espetacular. Está a falar no caso do ATL?
E - Sim, sim, sim.
e - Está muito bom. Tem outras condições, não tem nada a ver. O senhor Renato, naquela altura, vivia numas condições um bocado precárias. Quando havia, por exemplo - eu tenho conhecimento -, quando havia entupimentos, a nível de canos de esgoto, aquilo tinha que passar mesmo por lá, por o ATL e aquilo… Por amor de Deus! Lá está, é a tal formação que eu tinha quando trabalhei no Aleixo... Porque é que não subiam o cano por fora? Em vez de ser por dentro do ATL, porque é que não subiam para fora?. Como há aquelas caleiras. Está a ver? As coisas são muito mal feitas. São os engenhocas, vão para ali... depois vocês não sabem as consequências que uma pessoa - que é o caso do ATL –, que teve naquela altura, e eu falo por mim, que vivia no primeiro andar, quantas vezes iam chatear o Renato: “Renato, olha, por amor de Deus, amanhã vê se vens mais cedo, porque vêm os gajos desentupir, porque está tudo” – desculpe lá – “tudo cheio de merda no meu corredor. Isto é impossível!". Eu chamei uma vez lá os bombeiros e disse-lhes. “Ó pá, isto não é da nossa competência. Isso é da competência das Águas. As Águas é que têm que vir aqui ver, tratar disto. Isto não é da nossa competência”. Eu até pensava que era deles, como eles traziam aquelas canas fininhas para desentupir, podia ser da coisa, mas não, ele disse-me logo: “Não, não!”. Ia ter de ir ao tal departamento das Águas. E quando eles iam a minha casa, e depois tinham que ir ao ATL também, porque vocês lá - não sei se sabe - tinha uma... ainda tem aquela fossa, está a ver? Tem não, agora já não tem, porque aquilo foi abaixo. Tinha, na altura, aquela fossa em que toda a porcaria saía por ali. Quer dizer, tu tinhas ali crianças e tudo, era uma coisa inadmissível. Havia ali crianças ali dentro e passava aquela porcaria, por amor de Deus! E porquê? Porque aquilo não foi bem estruturado. Foi aquilo que dizia há bocado, se aquilo é um cano que vem de cima...
E - Desde o início, havia ali problemas estruturais.
e - Estruturais, isso, estruturais. Porque se o cano fosse logo feito para fora, não se incomodava o ATL para nada. Quem tinha que vir à rua eram os próprios senhores das Águas, tinham aqueles camiões grandes com aquelas mangueiras de grande pressão e então, a partir daí, já não era preciso eles andarem em minha casa lá com a coisa na retrete, ó, por amor de deus, isso é….
E - Mas diga-me uma coisa: ainda antes de assumir aqui mais responsabilidades, nos órgãos sociais, e enquanto era mais jovem, também participou em algumas atividades? Porque havia desporto, havia atividades recreativas... Participava ou a sua vida era mais...?
e - Ah, eu jogava à bola com eles, lá no rinque e tudo, não tinha problemas.
E - Também foi...
e - Sim, também frequentei, sim, sim.
E - Havia lá muita essa dinâmica, sobretudo...
e - Havia isso, tínhamos jogos de bilhar também, que era uma coisa interessante. Havia umas certas ocupações que eram... Ah, e também fazíamos passeios para fora. Muito bons também. Todos os moradores que se arranjavam lá eram pessoas educadas, nunca houve qualquer problema a nível de... […] Arranjava sempre as pessoas mais adequadas para ir com nós, que era para... aquelas pessoas que a gente sabia que não havia qualquer… Havia pessoas que não interessavam, não valiam a pena estar. Mesmo com a camionete, não pagavam nada, não é? Só pagavam o que tinham de comer e o que tinham de beber, e o resto não pagavam nada. Mas fizemos grandes passeios, e com pessoas muito educadas. Até as próprias crianças, que chegaram a ir crianças com os pais, gostavam daquilo. Para elas, era uma liberdade, saíam daquele rumo em que estavam a viver, iam para outro mundo. Por exemplo, quando fomos a Braga, tem lá aqueles cavalos... uma pessoa a alugar, não sei por quanto, e uma pessoa andou um bocadinho, para saber como é que é. Mas há uma pessoa lá à frente, uma pessoa não sabe andar… Mas havia passeios, São Bento da Porta Aberta. Chegámos a ir a Fátima, chegámos a ir à Nazaré, que é muito, muito lindo. E já chegámos a ir também a uma cidade que a gente foi que é… São Bento da Porta Aberta? É São Bento da Porta Aberta? Eu já disse isso. E aquela ponte com o rio?... Ponte de Lima. Enfim, é aquilo que é um espetáculo. […] Nunca tive pessoas, ninguém de uma empresa, ou ninguém que possa dizer [que] houve qualquer coisa que deixaram ficar rasgado na camionete. Nunca, nunca houve nada disso, nunca houve uma queixa contra nós. Aliás, com os camionistas que iam a conduzir, eu arranjava sempre uma panelinha, um euro ou dois euros, e chegávamos ali ao motorista e dávamos a ele, e ficava todo confiante.
E – […] Há ainda duas questões que eu acho que são importantes. Uma é falarmos um pouco também... O Sr. Zeferino já nos contou um pouco sobre como foi gerindo o seu caso e como foi interagindo também para a transição para a nova casa. Tinha esta situação da sua esposa também, e antecipou, como disse, um pouco a saída para preparar a sua vida futura. Como é que, enquanto fazia isso, também via o que é que estava a acontecer? O anúncio da demolição, depois o início da demolição, a saída das pessoas... Ainda esteve lá há algum tempo antes de sair, não é?
e - Estive, estive. Aliás, que fui o último - o último - a sair da minha torre.
E - Foi o último?
e - Foi. Por causa das condições.
E - Pois, exatamente. Por causa das condições. E estava à procura da melhor situação, não é?
e - Exatamente.
E - Como é que foram esses últimos tempos? Como é que viu também a maneira como os moradores e os seus vizinhos foram lidando com a questão?
e - Os vizinhos foram, e muito bem, foram lidando muito mal com toda essa situação. Porque foi tudo feito em cima do joelho. Na altura, foi tudo sempre feito em cima do joelho, não deram espaço nenhum aos moradores para realmente se precaverem antecipadamente com essas situações que podiam vir. Porque houve muito pouco tempo de espaço para essas pessoas, principalmente aquelas pessoas de idade que viviam sozinhas lá. Eu já não falo por mim, mas principalmente aquelas pessoas de idade que viviam lá. Porquê? Porque você sabe perfeitamente que uma pessoa com essa idade deixa os papéis muitas vezes atrasados. “Não vamos ligar a isto”... não é bem assim. Lá está, depois as coisas, quando acontecem, já vem tarde de mais. E eu depois... Quer dizer, eu, mas vou falar no meu caso, já que está a falar nisso na habitação; eu fui o último a sair da terceira torre. Porquê? Porque, conforme disse, a minha falecida mulher estava nessa instabilidade. E eu disse: Ó, ó, ó, eu para essa casa não vou”. Eu já conhecia a casa. Eu disse: “Então eu vou viver com a minha filha e tal…”. Elas disseram logo o formato, qual era a casa mais adequada para mim naquela altura. Eu então disse: “Eu não estou de acordo com isso”. Porque a minha preocupação, quando vim ali à Domus Social, para mim, eu tratei disso antecipadamente 10 anos. Portanto, eu já estava a prever que o Aleixo, mais tarde ou mais cedo, que iria abaixo. Derivado de quê? Do ambiente que era estipulado cá fora...
E - Sim, foi anunciado e depois a primeira torre foi demolida em 2011.
e - Exatamente.
E -Já começaram a ter uma ideia do que era…
e - Do que era, exatamente. E agora, o que é que acontece? Eu fui o último a sair porque... Eu virei-me lá para a senhora que estava lá da Câmara e disse-lhe: “Eu não vou sair daqui enquanto vocês não me arranjarem uma casa apropriada para esta senhora que você está a ver aqui. Faça o favor, eu não estou a dizer nada de mal. Estou a dizer para você ver com os seus próprios olhos”. Qual é o meu espanto? Essa senhora lá da Domus Social, que devia ser alguma doutora – que agora não sei o nome –, vira-se para mim e diz assim: “Se vocês não saírem, eu vou chamar a autoridade e vocês têm que ir embora”. Isso, para mim, foi uma ameaça, principalmente com a pessoa que estava lá dentro. Foi a partir daí que eu... ainda me deram um tempo... e foi a partir daí que eu chamei os jornais para irem lá ver a situação. Que eu fui para eles, tive contacto com eles: “Quando é que você vai sair de casa? Qual é o horário mais apropriado?”… Eu também... eles foram, vieram, e, se você quiser ver alguma notícia dessas, eu tenho no meu arquivo em casa. Guardei tudo. Tudo o que... Se você, para a próxima vez, quando vier aqui, se quiser que eu comprove isso, eu comprovo isso com fotografias. Não é eu estar a dizer assim para si: “Você vê aquilo que vem nos jornais”. E é lamentável que naquela altura tantos partidos que iam lá, quando havia eleições, aproveitavam-se do povo lá no Aleixo, só por causa das campanhas, mas, quando eles ganhavam as eleições, eles eram postos de parte. Isso é que é inadmissível. E havia pessoas naquela altura, se calhar que não tinham a capacidade que eu tinha. “Olha, atenção, eu vou votar, sim senhor, numa opção que me faz bem”. Não vou, quer dizer, estar aqui, “Ah, porque eu sou este, porque eu sou aquele…”. Porque havia muita gente lá, começavam a influenciar as pessoas: “Não, que tal é bom homem, e não sei o quê”. A qualidade não quer dizer isso. Lá por ser bom homem não quer dizer nada. Está a compreender? E havia essas situações também lá. Quando havia... que eles iam para lá todos, bandidinhos assim, e eles até distribuíam ao povo lá, e tudo. E depois, quando foi a altura - não sei se você ainda está com essa memória na cabeça, que até deu na televisão -, em que foram todos para a Câmara, e em frente à Câmara fazer aquela manifestação, e muito bem feita. E eles estão lá. Porquê. Está a perceber? Quer dizer, a coisa já estava destinada, já estava tudo assinado, e, a partir daí, só nós, moradores, é que tínhamos que movimentar e ver a melhor localidade que a gente pudesse entrar.
E - Depois acabaram de ter que ir por aí, não é? Cada um tentar…
e - Exatamente. Mas você vê algo ridículo que eu não cheguei a contar. Voltando atrás, quando eu disse que me mandaram para uma casa que é um T1, lá para cima, para Aldoar... Eu vou meter as chaves, vejo um T1, telefonei logo para a doutora: “Olhe, você está a gozar com a minha cara? Então você não viu o meu processo? Como é que está o meu processo?”. “Ei, desculpe, achámos que foi mal… enganada”. Quer dizer, há sempre desculpas para tudo. Quer dizer, então o que é que elas estão lá a fazer? Estão a dar uma chave de um T1? Para ir ver? Elas não sabem... não sabem que aquilo é um T1? Por amor de Deus! Quer dizer, lá fui eu, tive que pedir ainda a uma pessoa, de família, que se disponibilizou para me levar lá de carro, porque aquilo era um bocado distante. E aconteceu […]. Eu até tirei fotografias com o meu telemóvel: “Olhe, o que é isto?”. “Ai, desculpe, foi engano, foi engano na chave”. Foi engano?! E agora pagar a gasolina ao meu genro... que fui-lhe pedir. É, as coisas são assim.
E - E, portanto, depois, só sai... se foi o último a sair, só sai em 2019, não é?
e - Sim, fui o último a sair de lá. Só saí em 2019. Sim, sim, sim.
E - E aí já passa…?
e - Aí já passo para Pinheiro Torres.
E - Para Pinheiro Torres e depois para a Pasteleira Nova.
e - Depois passo, passado um ano, passado um ano é que passo para a Pasteleira Nova. Porquê? [Intervenção] Da minha parte, porque senão era só passado dois ou três anos. E eu não sei se ia ter aquela casa que tenho hoje atualmente. Porque, se eu não andasse em cima da arquiteta para que o processo andasse, e eu a confrontasse com um documento que eu tinha da Câmara... Fui eu que mandei eles escreverem aqui… “Desculpe, que esta casa tem que ser entregue para mim”. Porque eu depois vim a saber que já havia pessoas do Bairro do Aleixo, havia pessoas do Bairro do Aleixo que já andavam lá a tirar as fotografias para ter aquela casa. Eu disse: “Não, não, eu tenho que me acautelar. E eu tenho que me acautelar para ela me escrever um papel e dizer: “Esta casa não pode ser para mais ninguém, a não ser para fulano assim e assim”. […] Aquilo tinha que ir abaixo e tinha, já estava decidido, e a gente tinha é que ser realojado em casas dignas. Não era ir para a mesma situação em que estávamos a passar na altura. Quer dizer, o mesmo caso, você agora deve ter conhecimento. Eu, por acaso, não falo por mim, mas eu vejo muita gente a falar que quando havia aqui a droga... Quer dizer, cá em baixo na Pasteleira, parece que é... Eu moro na parte de cima, não tem nada, ali é um sossego absoluto. Mas, na parte de baixo…
E – Mais aqui…
e - Exatamente, em frente aos semáforos. O meu irmão, o Emílio, vivia lá […].
E - Também tinha vivido no Aleixo?
e - É, vivia na quarta torre, exatamente. E a minha cunhada, uma vez, veio à janela… Ó pá, os gajos começam logo a insultar a rapariga... “Não sei, não sei quê, ‘tá aqui a tirar fotografias”. Lá foram obrigados a ir para a Mouteira. Lá foram pagar mais um bocado, mas agora estão sossegados. Mas, está a ver, quer dizer, as pessoas tanto mal falaram do Bairro do Aleixo nessa altura, que ali em baixo foi a mesma coisa. E depois, lá está, aquilo que eu acabei de lhe dizer há bocado. Havia aquele vocabulário que havia nos autocarros. “Quer dizer, agora a droga veio toda do Aleixo para aqui”. Aí, nós é que somos os culpados? Nós é que somos os culpados?! Já não havia…? Agora, que me possam dizer que o fluxo das pessoas foi daqui do Aleixo para lá? Se se juntaram foi porque arranjaram casa para eles ali. Porque, se eles quisessem, a Câmara, se quisesse dispersar todas essas pessoas, havia localidades para essas pessoas todas... não era pôr ali naquele centro.
E - A questão de dispersar também era complicada, porque queriam ficar perto dos seus e perto do [que lhes era] conhecido…
e - Sim, sim, até aí…
E – O senhor ali tem vizinhos que conhece, que vieram também dali?
e - Não, no meu andar não tem.
E – E como é que está agora? Como é que se adaptou?
e – Aqui, nesta zona, eu adaptei-me bem. E depois, o café onde eu paro, que é a Dona Marta, também veio de lá do Aleixo, já antes daquilo vir abaixo. E, portanto, essas pessoas estão lá, e ao meu redor, na Pasteleira Velha, por exemplo, tenho uma filha a viver no Bloco 8.
E - Também teve obras ali, na Pasteleira Velha, não?
e - Na Pasteleira Velha teve, teve, teve. E são boas, as obras que fizeram lá. Muito, muito bem. Porque eu fui visitar a casa dessa minha filha, que lhe estou a dizer agora, e tem outras condições das que tinham anteriormente. Tem, sim senhor. Mas tem um... tem muito... Algumas pessoas que saíram do Bairro do Aleixo também ainda moram ali à minha beira, mais acima um bocado, naquelas casas térreas, e eles ainda vivem lá. Pessoas que saíram do Aleixo também ainda vivem aí também, nessa situação. Ainda falo com eles, de vez em quando vamos visitá-los. E eles vêm à minha casa, eu vou à casa deles.
E - E ainda continuam também a pedir-lhe uns favores e umas ajudas?
e - Ah, sim. Isso pedem sempre. Isso é verdade. Então ainda agora, há pouco tempo, faleceu um [senhor e a esposa já] está farta de me chatear a cabeça: “Como é que eu vou receber agora a reforma do meu marido?”. “Ó pá, esquece isso, a reforma do teu marido acabou”. Ó pá, tenho que dizer... sabe o que é? Ela estava a contar, que não é de lei... elas não sabem bem. Quando uma pessoa falece, faleceu do agregado familiar, marido ou mulher, que é o caso dela, automaticamente a reforma dele é logo deitada abaixo na funerária, porque há contactos diretos com a Segurança Social e acaba logo ali a remuneração que ele tinha da sua reforma. Portanto, ela só fica com uma pequena reforma. Agora, ela pode ter benefícios. Foi aquilo que eu disse a ela, que eu tenho conhecimento das leis: pode haver uns benefícios para ela. Tudo depende - agora que ainda não estou bem informado da parte dela, só com documentos, só vendo documentos, ver quanto é que ela recebe atualmente, sozinha, agora. E ver se é possível o Complemento Solidário para Idoso. Pode ser possível, lá está, isso depende da lei. Pode ser possível. Eu tenho que ver o documento direito dela, saber quanto é que ela ganha. Porque, se ela ultrapassar os 600 euros, acabou, esquece. Agora, aí já pode ir a outro meio, que é o meio de ela ter uma... como é que se diz... uma Pensão de Sobrevivência. Quer dizer, ela pode alegar perante a Segurança Social que a reforma dela atualmente não dá para cobrir as despesas que tem atualmente, hoje, na residência onde está a habitar. Está a compreender? E é o que se pode fazer. Mas também é pouca diferença. É para aí 150 euros, não é mais que isso. Se fosse o Complemento Solidário para Idoso, podia... podia, que fiz a muita gente isso, até 350 euros. Mas isso depende de caso para caso. Eu fiz isso no caso de uma senhora, mas era sozinha, era viúva. Vivia numa casa que a água corria pelas paredes abaixo, não havia condições para essa senhora estar lá a viver, que era na Arrábida. Ela trabalha num café [aqui perto], essa senhora de quem estou a falar, é a cozinheira lá. E ela, quando me explicou este caso, eu ajudei […].
E - O senhor vai mantendo essa relação?
e - Eu vou mantendo essa linha, porque conheço as pessoas. Vocês ainda agora falaram no bairro de... este que foi abaixo, Rainha Dona Leonor. Fui visitar [uma senhora], fui lá à casa dela, no sábado. Ela começa a queixar-se […]: “Esta senhora que mora aqui de cima tem três cães”. “Não, isso não é permitido, perdoe-me. Ter três cães não é permitido”. Eu tenho um documento em casa, da Câmara, só pode ter um gato ou um cão. Ou então tem que ter dois cães, é o que diz a lei. Agora, três cães... Depois, é como ela diz, “Sacodem a porcaria toda dos cães”. E depois outra coisa. A mulher tem toda a razão que não pode... aquilo tem assim uma cancela para tu saíres de casa dela, a mulher quer-se sentar lá e ter a sua privacidade e não pode ter. Sabe porquê? Porque ela tem medo aos cães. Que saltam lá para dentro. Mas é verdade. Podem até ferrar a mulher… Quem é o responsável?... Ninguém. Então, o que é que eu disse: “Eu a única coisa que posso fazer aqui é uma exposição à Domus Social, e fazer-lhe ver o que é que se passa”. “Veja lá, você não minta, porque não conheço a pessoa, também não vou pôr a pessoa em causa!...”. Mas filha disse-me que é verdade […].
E - Isto é o associativismo real, é o associativismo real, todos os dias, ali…
e - Aí, ali é. Ali é.
E – Ir tratando destes casos.
e - Casos e às vezes casos complicados...
E - É curioso, porque uma das coisas que nós já temos comentado ...
e - E com a justiça? E com a justiça, que eu trabalho também? Ui, este então é que se passa… Se lhe contasse metade daquilo que eu tenho… Eu compro os livros, Decreto-Lei X, compro o Código Penal, que é um bocado caro, o Processo do Código Civil, compro essas coisas todas, para estar atualizado. Portanto, sabe que isto, de três em três anos, ou de cinco em cinco anos, as leis estão sempre a aumentar. E se você for para um tribunal apresentar um livro não sei de quando… O juiz começa logo a atrofiar a cabeça… “Como?!”. […] Por exemplo, a morte do meu neto, que foi morto aqui, lá... ainda não contei essa peripécia, mas foi morto a tiro lá, ao ir para a Escola Leonardo Coimbra. Eles tinham o vício de ir jogar a bola para lá, ao fim da tarde, seis horas da tarde. E eles, entre todos, ao ir lá... Há um gajo que trabalha dentro da obra, atira com dois tiros ao miúdo. Mataram o miúdo ali, o meu neto. O meu neto, mataram o miúdo ali. Eu, quando me chamaram... quando me meteram essa advogada a tratar de tudo... A minha filha acho que recebeu uns 50 mil euros. Mas isso não paga uma vida. Uma vida, um jovem, com 17 anos… Eu vou lá ver... Até me custa, quando vou ao cemitério de Lordelo, custa-me olhar para a fotografia dele, até parece que fico um bocado... Mas eu assisti a isto tudo. […] Conheci muito advogados lá.
E - O senhor fez escola até...?
e - Eu não fiz escola. Aprendi por mim próprio. Comprava livros, comprava livros para eu estudar. Eu comprava livros.
E - Fez a quarta classe, até à quarta classe?
e - Eu não, eu fiz o quinto ano, que, na altura, quando fiz o quinto ano, era representado [como] o primeiro ano industrial. Na altura que eu fiz isso, fiz isso num colégio, em Vila do Conde, no Colégio de Santa Clara. E´, a partir daí, fui expandindo.
E – Autodidata, como se costuma dizer.
e - Exatamente.
E - E então, estava lá no tribunal [a acompanhar um caso], ouviu a conversa…
e - Eu expliquei depois à rapariga, que eu já tinha ouvido a conversa toda, “Isto vai ficar em águas de bacalhau, tu vais já embora”. “Ah, é nada”. “Tem fé, tem calma”. Ela sentou-se lá no banco dos réus... O juiz aplicou uma pena suspensa durante um xis tempo. É adequado para a pessoa se precaver, para não se meter mais naquelas situações. É um alarme para a pessoa em causa. Mas até aí foi tudo resolvido.
E – Portanto, as pessoas continuam, perante esses casos, a falar consigo?
e - Continuam, continuam. Ainda há pouco tempo um rapaz também pediu, por intermédio de uma pessoa de família: “Tem calma que o meu pai trata-te disso, ele sabe”. Veio precisamente ter comigo por causa do meu filho. Quem é que o mandou vir aqui? Foi o César, que ele não mora aqui, mora na Travessa da Póvoa, lá para cima, para as Antas. Mas também saiu do Aleixo, curioso. Esse saiu do Aleixo para lá.
E – Saiu de livre vontade?
e - Saiu de... Não, foi quando casou com a senhora, com quem ele está agora, que até tem três filhos, os meus três netos. Saiu de lá para lá e fez muito bem, saiu daquela confusão, aquela casa também onde ele estava, também já não era agradável. E acontece que... E esse meu filho, o César, arranjou um cliente que estava com uma dificuldade de sair da droga. E então eu fui lá, vi especificamente. Eu sabia a doença que esse rapaz tinha, que era inimputável, foi dado como inimputável. Isso quer dizer, não se pode prender uma pessoa com essa inimputabilidade. Depende agora do grau de incapacidade. Eu sabendo que ele tinha 90% de incapacidade, que até estava a ganhar um subsídio qualquer em relação a isso - uma pensão social, que agora até tem outro nome, passou agora a ser Rendimento de Inserção Social… não, Inclusão Social. A Prestação Social para a Inclusão. Eles passaram de uma pensão para isso. Mas é a mesma coisa. Eles ainda estão a ganhar... Que essas pessoas deficientes não estão a ganhar mais. Nem têm aumentos nem nada, como nós reformados. Não têm. Que é uma coisa inadmissível. Uma pessoa que tem 90% ou 80% de incapacidade, como é que é possível essa pessoa, por amor de Deus...?! Um deles uma vez foi ao... Mas, antes disso, vou acabar em relação a isso. Eu apresentei ao juiz um documento que eu fui buscar ao [Hospital] Magalhães Lemos, que ele andava lá em tratamentos com uma doutora. E eu apresentei-lhe o documento e lá, nesse documento, redigia tudo, a incapacidade que a pessoa em causa tinha. Que era cognitivo, 90%, que não sabia o que dizia… No colégio ele andou internado, fazia asneiras... ele andou internado num colégio em Aldoar [...]. E eu, como estava ali, no colégio, fui falando com umas doutoras lá, comecei a interagir. Era um colégio espetacular, isso não há dúvida nenhuma com aquilo. E depois havia umas carrinhas para ir buscar umas pessoas, por exemplo ali do Aleixo. Havia lá uma carrinha específica que ia buscar, por exemplo, três ou quatro, quando andava lá. Depois iam apanhando os outros - se calhar apanham todos, penso eu - aquilo que havia aqui para o Aleixo. Depois encaminhá-los para lá […]. Eles ali, durante aquelas aulinhas, os familiares sabiam que eles estavam resguardados ali. E depois, à noite, já eram os pais que tinham que tomar conta deles. Está a perceber? Há muita situação…
E - Muito bem. Vamos terminar. É óbvio que tínhamos muito para continuar a conversar, mas...
e – Sim, sim, quando você quiser.
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