Embora este texto nãa seja uma história, conta algo da história de toda mulher. O eu poético é coletivo!
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VOZES QUE REEXISTEM
Minhas palavras foram tolhidas.
Calei-me contra o meu querer;
aprendi cedo a mantê-las escondidas.
Mas guardei-as no âmago do seu ser,
fiz delas plantio
e as cultivei,
como quem sonha o jardim
mesmo sem terreno para cultivá-lo.
Já quis dizer o que sentia, mas não disse.
Havia uma mordaça velada
e, quando falava,
a sociedade pedia medida,
apresentava-me o molde
Mulher comedida.
Não falar me enlouquecia.
Meu lugar de fala
sempre foi por outros lapidado.
Repreenderam meu excesso,
minhas urgências
chamaram de desatino,
minha voz sufocaram
com um peso patriarcal.
Desde cedo me ensinaram
a ser fina e cortês,
a suavizar meu português,
a dobrar a voz, sem jamais erguê-la.
Ensinaram-me a esconder
minhas palavras atrevidas,
a sufocá-las,
a suprimi-las.
Para onde foram minhas palavras silenciadas?
Ficaram presas ao meu corpo.
Entaladas na garganta,
no coração,
correndo vivas em minhas veias,
circulando em espiral,
somaram-se às de outras vidas,
um fardo ancestral
um silêncio intergeracional.
Há palavras em meus ossos.
Outras eclodem na pele,
dançam por dentro do meu ser,
pedindo passagem.
São palavras silenciadas as que ouso escrever:
as não ditas pelas mulheres de ontem,
que calaram para sobreviver,
e também as das que falaram
e pagaram o preço
com o corpo,
com o nome,
com a vida.
Eu as carrego no meu DNA.
Trago-as aqui versando com leveza,
mas elas pesam.
Mesmo escritas sem dureza,
são palavras que latejam,
recusam esquecimento
clamam por livramento.
Expressão represada há gerações…
Onde jazem as palavras da mulher?
Ecoam em seu âmago,
se não as disser?
Diluem-se nos olhos marejados
Ou modelam o perfil de um novo ser,
traçando um rio subterrâneo
que,...
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Embora este texto nãa seja uma história, conta algo da história de toda mulher. O eu poético é coletivo!
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VOZES QUE REEXISTEM
Minhas palavras foram tolhidas.
Calei-me contra o meu querer;
aprendi cedo a mantê-las escondidas.
Mas guardei-as no âmago do seu ser,
fiz delas plantio
e as cultivei,
como quem sonha o jardim
mesmo sem terreno para cultivá-lo.
Já quis dizer o que sentia, mas não disse.
Havia uma mordaça velada
e, quando falava,
a sociedade pedia medida,
apresentava-me o molde
Mulher comedida.
Não falar me enlouquecia.
Meu lugar de fala
sempre foi por outros lapidado.
Repreenderam meu excesso,
minhas urgências
chamaram de desatino,
minha voz sufocaram
com um peso patriarcal.
Desde cedo me ensinaram
a ser fina e cortês,
a suavizar meu português,
a dobrar a voz, sem jamais erguê-la.
Ensinaram-me a esconder
minhas palavras atrevidas,
a sufocá-las,
a suprimi-las.
Para onde foram minhas palavras silenciadas?
Ficaram presas ao meu corpo.
Entaladas na garganta,
no coração,
correndo vivas em minhas veias,
circulando em espiral,
somaram-se às de outras vidas,
um fardo ancestral
um silêncio intergeracional.
Há palavras em meus ossos.
Outras eclodem na pele,
dançam por dentro do meu ser,
pedindo passagem.
São palavras silenciadas as que ouso escrever:
as não ditas pelas mulheres de ontem,
que calaram para sobreviver,
e também as das que falaram
e pagaram o preço
com o corpo,
com o nome,
com a vida.
Eu as carrego no meu DNA.
Trago-as aqui versando com leveza,
mas elas pesam.
Mesmo escritas sem dureza,
são palavras que latejam,
recusam esquecimento
clamam por livramento.
Expressão represada há gerações…
Onde jazem as palavras da mulher?
Ecoam em seu âmago,
se não as disser?
Diluem-se nos olhos marejados
Ou modelam o perfil de um novo ser,
traçando um rio subterrâneo
que, sorrateiro,
desenha um novo curso rumo ao entender?
Eu não morrerei calada.
Minha voz sai nos gestos,
nos meus passos ritmados,
no meu jeito sutil de incomodar,
Sobretudo com meus versos.
Empresto-a
às que hesitam,
por medo.
Há um sistema velado
que decide o que nos é adequado,
que tem regras que limitam.
Quando silencio é prudência,
é excesso de contenção.
Eloquência comprimida,
estratégia de expressão,
também é forma de resistência.
Silêncio não é expressão morta!
Às vezes, estratégia de sobrevivência
que o corpo não comporta
e a represa, de tão cheia,
um dia racha;
não há conserto que a refaça.
Minhas palavras já não pedem licença.
Elas saltam inteiras no meio da sala,
trazendo a memória das que foram silenciadas
e dando fôlego às que virão ser voz.
Sou um fio
a tecer meu lugar de fala
no tecido gasto da história.
Se expressar é direito
Me fazer ouvir é cidadania.
Meu brado, então,
não é ousadia.
É restituição.
Meu dizer é pedra bruta
lançada à vereda poética
com ele devolvo ao mundo
o que foi arrancado da mulher.
Hoje eu sou voz
com um grito que não é só meu.
Sou um coro
feito por todas que foram silenciadas,
que aprenderam a gemer suas dores
e sussurrar suas coragens.
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