Quando eu tinha uns vinte anos, durante as férias universitárias,trabalhei numa agência imobiliária. Os corretores deveriam falar inglês. Eu falava. Mostrávamos apartamentos de luxo para alugar a famílias estrangeiras que vinham morar no Rio, por um período de tempo, enquanto o engenheiro da família executava os projetos de uma firma americana.
Numa da visitas, mostrei um apartamento no Jardim de Alá. Os pretendentes ficaram encantados com a parcial vista que tiveram da praia de Ipanema. Acharam os aposentos pequenos, mas o incômodo maior foi o tamanho da cozinha: "nos Estados Unidos, preferimos uma cozinha grande, porque é onde a família se reúne para cozinhar, bebericar e comer." Concordei. Em seguida, mostrei o quarto e o banheiro da empregada doméstica. Foi aí que eles mais se surpreenderam: "não cabe nem uma cama!!!" Verdade. Só um pequeno estrado.
Se a família alugou o apartamento, não sei. Só sei que o impacto me atingiu em cheio. Como eu nunca havia percebido que o quarto da empregada era minúsculo? Quanta desumanidade, quanta falta de respeito pela privacidade do outro.
A partir daí comecei a entender o abuso das classes mais abastadas, não só no tamanho do cômodo, mas também nas condições de trabalho oferecidas.



