IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Vivaldo Fernandes das Neves, brasileiro, natural de Salvador, Bahia. Do bairro mais famoso, chamado de Bairro do Tororó, onde tem o famoso dique do Tororó. Nasci sob a ordem do sino da Igreja da Piedade, onde tinha os grandes capuchinhos da Bahia, que cantavam no coral da igreja. Às seis horas vim ao mundo, décimo quinto filho, da dona Maria Amélia Fernandes das Neves e senhor Antônio Fernandes das Neves. Em 21 de agosto de 1936, às seis horas da tarde, nascia aquele jovem, aquela criança, que não teve necessidade de chorar. Porque a parteira colocou ele de cabeça erguida, e ele mijou a cabeça da parteira. Isso está registrado na família. Então, é bom vocês gravarem, porque daí vai começar a história do Vivaldo. UNIDADE - UN-BA Entrei na Petrobras numa história, que vocês talvez vão entender como surgiu a Petrobras. Meu pai era de origem portuguesa, daquele que veio no colo, que não viu Portugal, não viu nada. Simplesmente, viu o porão do navio e, do porão do navio, se criou e deu essa família maravilhosa, que é a família Fernandes das Neves, da Bahia. Onde todos estudaram, tiveram a oportunidade de alcançar o nível superior. Sendo meu pai muito religioso, ele visitava anualmente os seus amigos, na cidade de Candeias, Recôncavo da Bahia. Hoje é município. Naquela década de 1930, 1940, 1950, aquilo ainda era município de Salvador. Lá, daquele outeiro de Candeias, avistávamos, exatamente, aquela enseada de Mataripe. Na enseada de Mataripe, avistávamos aqueles canaviais. Dos tempos ainda coloniais, que vinha explorando a cana-de-açúcar, com resíduo ainda de escravos. Aqueles cidadãos, aquelas criaturas de cor bem escura, ainda trabalhando, naqueles alambiques, ali mesmo morando. Mas, a gente via os gringos, como era chamado, americano, pesquisando petróleo. Encontrou petróleo de Lobato, que é mais para cá para a cidade, encontrou petróleo de Candeias. Daí surgiu a...
Continuar leituraIDENTIFICAÇÃO Meu nome é Vivaldo Fernandes das Neves, brasileiro, natural de Salvador, Bahia. Do bairro mais famoso, chamado de Bairro do Tororó, onde tem o famoso dique do Tororó. Nasci sob a ordem do sino da Igreja da Piedade, onde tinha os grandes capuchinhos da Bahia, que cantavam no coral da igreja. Às seis horas vim ao mundo, décimo quinto filho, da dona Maria Amélia Fernandes das Neves e senhor Antônio Fernandes das Neves. Em 21 de agosto de 1936, às seis horas da tarde, nascia aquele jovem, aquela criança, que não teve necessidade de chorar. Porque a parteira colocou ele de cabeça erguida, e ele mijou a cabeça da parteira. Isso está registrado na família. Então, é bom vocês gravarem, porque daí vai começar a história do Vivaldo. UNIDADE - UN-BA Entrei na Petrobras numa história, que vocês talvez vão entender como surgiu a Petrobras. Meu pai era de origem portuguesa, daquele que veio no colo, que não viu Portugal, não viu nada. Simplesmente, viu o porão do navio e, do porão do navio, se criou e deu essa família maravilhosa, que é a família Fernandes das Neves, da Bahia. Onde todos estudaram, tiveram a oportunidade de alcançar o nível superior. Sendo meu pai muito religioso, ele visitava anualmente os seus amigos, na cidade de Candeias, Recôncavo da Bahia. Hoje é município. Naquela década de 1930, 1940, 1950, aquilo ainda era município de Salvador. Lá, daquele outeiro de Candeias, avistávamos, exatamente, aquela enseada de Mataripe. Na enseada de Mataripe, avistávamos aqueles canaviais. Dos tempos ainda coloniais, que vinha explorando a cana-de-açúcar, com resíduo ainda de escravos. Aqueles cidadãos, aquelas criaturas de cor bem escura, ainda trabalhando, naqueles alambiques, ali mesmo morando. Mas, a gente via os gringos, como era chamado, americano, pesquisando petróleo. Encontrou petróleo de Lobato, que é mais para cá para a cidade, encontrou petróleo de Candeias. Daí surgiu a década forte de 1950, e veio a confirmação. De que existia petróleo, em condições de ser explorado.O Conselho Nacional de Petróleo contratou alguns técnicos americanos e alguns técnicos brasileiros. Começaram, então, a prospecção. Conseguiram tirar petróleo em Candeias e criou-se a Unidade de Mataripe, com uma pequena refinaria de três unidades. Eu estava crescendo, vi isso de perto. Mas, era uma coisa, que eu só tinha prazer de ver, quando chegava a época da Aleluia. Quando meu pai visitava Candeias, que levava toda família para pagar as célebres promessas, de Nossa Senhora das Candeias. Então, garoto, via aquela atitude do Padre Antônio, de dizer que o petróleo iria libertar a Bahia, ele ia libertar o Brasil. O Padre Antônio era português, mas era uma criatura muito interessada, na abolição da escravatura e na independência para aquele povo, que era tratado ainda como escravo, naquelas fazendas de cana. Então, escutei tudo isso e fui me desenvolvendo com um ideal. CAMPANHA “O PETRÓLEO É NOSSO” Veio a década de 1950 e no seu meado, assim 1955, tínhamos os movimentos de rua em Salvador. Era o movimento “O Petróleo é Nosso”. Meus irmãos entendiam aquilo, como trabalho de comunista, aí diziam, constantemente. Eu estava em formação, adolescente, via aquilo, escutava e ia ver para crer. Nesse meu contato, eu já estava no ginásio e via exatamente nos livros, nos professores, a intenção boa de que o Brasil deveria ser isso que é hoje, progressista. Na medida que vai crescendo, a gente vê que o Brasil é progressista, realmente. Então, resolvi ir no movimento estudantil, participar da campanha “O Petróleo é Nosso”. Daí, vi que a Petrobras tomou um vulto, quando Getúlio Vargas assinou a Lei 2004, no dia 3 de outubro de 1953. Então, a Petrobras começou a existir e a se desenvolver. Um belo dia, eu estava num cinema na Praça da Sé, chamado Cinema Excelsior, em Salvador, Bahia. Vi um cidadão estirado no chão, com muito sangue. Perguntei o que foi aquilo e me disseram que foram os comunistas, que estavam fazendo agitação em favor da Petrobras. Então, eu cheguei em casa apavorado e disse: “tenho que fazer alguma coisa pelo Brasil” Como filho rebelde, comecei a participar ativamente do movimento “O Petróleo é Nosso”, pichando todas as paredes. Como, hoje, os grafiteiros fazem. Aí, tomei muita porrada dos irmãos, muito puxão de orelha, mas não parei. INGRESSO NA PETROBRAS Em 1958, embarquei para o Rio de Janeiro, fiz um teste na avenida Rio Branco, na avenida Presidente Vargas, no Edifício Barcelos, onde funcionava o setor de pessoal da Petrobras. Lá datilografei, respondi uns textos, fiz umas cartas, umas coisas. Então, fui considerado apto, para exercer uma atividade de auxiliar de escritório. Mas, como saí da Bahia para o Rio de Janeiro, eu precisava sobreviver às custas do meu trabalho. Então, me mandaram ir a procura de um cidadão no Cenap, hoje é o Cenpes, que precisava de uma pessoa, para poder movimentar as máquinas que tinha. Daí, fui introduzido como auxiliar de escritório, fazendo atividade de máquinas de escritório, que eram máquinas reprodutivas, etc. Nesse espaço de tempo, me foi dito que não tinha, ainda, a lotação aprovada. A presidência da Petrobras funcionava na Candelária, era o General Jonari Nunes, nacionalista ferrenho, nascido no Acre, empolgado com a Petrobras. Então, eu tive a honra de carregar um aparelho de gravação, com o doutor Antônio Seabra Mogi, que era o dinâmico superintendente do Cenap. Este senhor me levava para gravar a conferência, que ele ia fazer para os membros da diretoria, da Petrobras. Então, muito novinho, com sangue na goela, comecei a escutar as dificuldades, que a Petrobras tinha. E, todo assunto ventilado, vinha a minha Bahia à tona. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Tomei conhecimento, que a Petrobras estava investindo na Bahia, para crescer as unidades. O petróleo estava sendo explorado e o Cenap tinha que formar mão-de-obra, porque precisavam da mão-de-obra nacional. Como bom ouvinte que sou, comecei a sentir, que estava dentro de uma trincheira e que deveria participar, ativamente. Aí veio a movimentação do trabalhador. Consegui, com um bom papo com o superintendente, uma transferência para a Bahia. Chegando na Bahia, encontrei meus colegas de ginásio e curso colegial. Naquela época, fiz o curso científico, depois tranquei, passei para o curso clássico. Então, encontrei essa turma na Petrobras. SINDICATO - SINDIPETRO BAHIA - TRAJETÓRIA SINDICAL Logo de primeira, comecei a me integrar ao movimento sindical, juntamente com nomes que, não quero faltar aos demais, mas vou citar o Mário Soares Lima, um companheiro, que ainda está na ativa da Petrobras, juntamente comigo. O Oswaldo Marques, Wilton Valença. Essas criaturas eram realmente a nata do sindicalismo no Brasil. Isso, começando a década de 1960. Foi nessa época que fui delegado sindical, até 1964, na época do golpe. Então, nessa minha atividade no sindicato, eu tive conflitos. Fui barrado em Mataripe, que falei anteriormente, fica perto de Candeias. De Candeias a gente vê Mataripe, lá embaixo na enseada. Candeias fica no alto, Mataripe depois. Então, a Refinaria Landulpho Alves, já estava ampliada e estava inaugurada a sua parte. Com o movimento nosso, teria que ser inaugurada a ampliação na refinaria. Juscelino Kubitschek era o Presidente da República. Ele chegaria ali em Mataripe, no campo de treinamento de trabalhadores, para poder inaugurar a ampliação. Nós, trabalhadores, já tínhamos consciência de que o trabalhador, da Petrobras, era uma atividade nova no Brasil. Precisávamos, urgentemente, de uma legislação que se adequasse às nossas necessidades. Existia uma proposta no Senado de reformular a Lei de Previdência Social. Nós mandamos publicar em folhetos, em cadernos, para distribuir a toda a população. Para tomar consciência do nosso movimento, que era reivindicando a reforma da Previdência Social. Isso, que vocês estão vendo aí, naquela década nós já estávamos brigando, em 1960. Então, quando Juscelino Kubitschek saltava do helicóptero, invadimos a segurança dele. Chegava lá, o Vivaldo, e entregava uma carta a ele, pedindo que desse atenção à nossa reivindicação. Tomei uma porrada do segurança, mas tomei muita porrada na vida. No final, você vai ouvir o resto. Então, ele recebeu, me pegou pelo braço. Acompanhei o Kubitschek até a inauguração. Muita gente ficou com a orelha coçando e o nariz torto. Então, veio todo esse movimento nosso, eu participando. Em 1964, o exército, impregnado de Quinta Coluna Fascista, invadiu a refinaria. Poderia invadir a sua casa e de qualquer cidadão, porque eles queriam fazer alguma coisa, que tivesse repercussão. Na refinaria Landulpho Alves, fez barbaridades. Aí entra o caso Vivaldo. Eu fui secretário da campanha de alfabetização. Por um decreto do senhor Jânio Quadros, que mandava que alfabetizasse o trabalhador no local de trabalho. Quando o exército invadiu a refinaria em 1964, fui apontado como um subversivo, um agitador. Não deixei de ser nada disso, continuo comunista, continuo subversivo, continuo defensor da Petrobras, doe em quem doer. Estou com 66 anos de idade e com garra para isso. Vou ficar o tempo que quiser, na Petrobras, a não ser que tenha um golpe no País. Eu vou, depois eu volto. Então, nesse período, de avançarem na Empresa, pegaram pessoas inocentes, que estavam prestando serviço às Forças Armadas. Sargento, tenente, passageiro, cabo e soldado. Doze militares me pegaram no alojamento 200. Tiraram minha roupa, quebraram minha boca, tenho osso aqui quebrado, arrancaram dez unhas minhas, quebraram meu testículo. Tenho duas cirurgias, meu testículo ficou todo esfolado. Depois, fiz uma filha maravilhosa, que hoje é médica, aí com esse testículo esfolado. Então, depois de me torturar, juntamente com outros companheiros, tinha, inclusive, um padre franciscano chamado Padre Lourenço. Foi torturado também. Tiraram a batina dele, era cearense. Hoje, está bem casado, deixou a batina de lado e foi viver uma vida. Então, essa tortura durou de oito horas até as seis horas, quando levaram a gente para uma corveta, para transportar para Fernando de Noronha. De manhã, quando a corveta ia em alto mar, que já estava perto de Recife, foi pedido, que voltasse. Aí, me conduziram, eu e mais os companheiros, para o quartel 19 BC. Lá, eu estava todo quebrado, como os outros companheiros, também, estavam. Isso aí, em resumo, foi o período da ditadura. Ficamos presos 90 dias. Depois prenderam mais 90. Depois soltaram a gente. Entramos com todos os requisitos na Justiça. Resultado, Vivaldo Fernandes das Neves - que tinha uma mamãe muito boa, tinha uma irmã aqui no Amazonas, um irmão no Amazonas. Por sinal, um irmão que também foi militar no tempo da guerra, foi capitão, passou para a reserva, médico - veio para cá. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Aqui em Manaus, me tornei um empresário. Ganhei dinheiro, que eu não merecia ganhar. Conheci aqui outros empresários. Tinha uma olaria, depois tinha uma firma de topografia, ganhei muito dinheiro aqui. Devo ao Amazonas tudo isso, em termos de bens, que tenho hoje. Casei com uma amazonense, segundo casamento. E a gente aqui, na hora que a ditadura foi para o brejo. Vivaldo passou adiante, sua empresa de topografia. Veio para a trincheira, porque aqui, em 1964, ninguém teve quem chorasse por eles, o pessoal de Nova Olinda do Norte. Teve os poços todos fechados, famigerado, safado Jarbas Passarinho, que dominava a Petrobras aqui, mais a família dele, um irmão. Então, esse pessoal eu resolvi trazer de volta à Petrobras. Consegui. Fomos reincorporados a partir do dia 1º de setembro de 1985. Aí, eu volto à atividade sindical, aqui na Reman. Volto a agitar pela ampliação da refinaria, porque queriam transformar isso, aqui, num porto só de produtos e de armazenamento de produtos.Então, participei aqui de diversas greves, diversas passeatas, para dar força aos verdadeiros brasileiros, para poder a Petrobras fazer algo mais aqui, em Manaus. Hoje estamos aqui completando 19 anos, praticamente, 18, já vai entrar para os 19, com uma satisfação muito grande. Porque surgiu o petróleo de Urucu, com a força do trabalho do brasileiro, particularmente, do amazonense. Na Reman, cheguei aqui, com cinco mil barris, passou para 15. Hoje, nós estamos numa faixa de 45 mil barris diários. Então, eu estou participando da história da Petrobras no Amazonas com muito prazer. Só tenho uma postura: não gosto de mentiroso. Todo mentiroso que passou, aqui na Reman, eu denunciei. Como fiz, recentemente, com o senhor Francisco Raimundo, que acabou de ser superintendente aqui. Guardava as pessoas acidentadas, para ganhar brinquedinho de plástico, dizer que ele era o bom, que aqui não tinha acidente. Essa foi a última investida, que fiz e farei outras e outras. Não tenho medo de morrer como brasileiro, não tenho medo de morrer como defensor intransigente da Petrobras. Você, que está me entrevistando, se você está viva hoje, fazendo esse trabalho, agradeça à Petrobras. É a única coisa, que fez a soberania nacional ser consolidada. ENTREVISTA Acho que esse projeto de memória, se você não jogar no lixo, como jogaram outros, se você não botar essa verdade que estou relatando... No dia 3 de outubro, vocês vão ver meu livro ser lançado lá,no Edise. Eu conto tudo da Petrobras, as virtudes e as podridões da Empresa. As virtudes são maiores, mas as podridões também são grandes. Porque muitas banalidades foram praticadas dentro da Petrobras, com consentimento de altos dirigentes. Mas também conto as injustiças, que muitos fizeram com a Empresa, quando ela não poderia perder o monopólio estatal, porque o monopólio estatal é uma coisa exclusivamente do Brasil, dos brasileiros. A Petrobras é para agüentar a soberania. Então, o que eu vejo desse depoimento, é que as pessoas que vocês estão entrevistando sejam divulgadas. Se não for divulgada, a mim não vai surpreender. Olhe bem, vou exigir, de quem me pediu para eu dar esse depoimento, que seja divulgado, o que eu estou dizendo aqui. Se não divulgar, vou meter o pau em vocês. Já tenho o endereço da firma de vocês. Esse camarada, que está aí segurando essa máquina vai perder o emprego. Esse outro, que está lá atrás, também, vai perder o emprego. Eles não vão querer perder o emprego, vão aporrinhar para poder ser divulgada a minha entrevista. Muito obrigado a vocês. Você está gravando ainda, rapaz? Não pára isso não, viu? Agradeço a vocês, por terem me suportado esses minutos, porque todo mundo tem que suportar. Minha idade é 66 anos, duas veias entupiu, mão não foi, porque eu não bebo, não fumo, não me empolgo com álcool, nem com fumo e sou contra a quem tem vício. Não sou evangélico, sou católico, comunista e capitalista, porque não falta dinheiro em minha casa. Não posso dizer, graças a Deus, porque Ele disse: “faça da tua parte Vivaldo, porque o resto eu lhe salvo” Então Ele já me salvou de uma, de duas, de três. Agora botei aqui um esteio, aqui no coração, lá em São Paulo. Estou para o que der e vier. Viva a Petrobras e viva o Brasil
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