P - Valdemar, para começar, eu queria pedir para você dizer o teu nome completo, data e local de nascimento? R - Valdemar Gontijo Soares, nascido em 21/05/1963, na cidade de São Gonçalo do Abaetê, Estado de Minas Gerais. P - E foi lá em Minas que você começou a trabalhar no Aché? R - É, em Minas no setor de clínicas e hospitais do Centro de Belo Horizonte, em junho de 1987, como propagandista. P - Como é que foi essa tua entrada na empresa? R - Eu trabalhava na área de turismo e hotelaria. E convivia muito em Belo Horizonte com viajantes de vários setores e tinha curiosidade e bom relacionamento com os viajantes e uma vez, um colega, um viajante me falou que o Laboratório Aché dava muita oportunidade para as pessoas se iniciarem. Eu procurei pelo escritório. Tive a oportunidade de ser atendido. Fiz a entrevista e, em pouco tempo, eu já estava dentro do Aché. P - Você começou trabalhando na área de Belo Horizonte? R - No Centro de Belo Horizonte era o meu setor de trabalho. P - E como é que era o dia-a-dia de trabalho naquela época? R - Naquela época, eu era responsável pela maior cota de vendas do Estado de Minas, que tinha os maiores clientes. Além de visitação médica no Centro, eu tinha os clientes e a carteira de cobrança da empresa e de uma boa parte dos clientes também. Foi uma época de, às vezes, iniciar trabalhando às 7:00 da manhã e ir até 23:00 calculando os pedidos que eu tinha tirado dos clientes durante o dia para entregar no outro dia de manhã. Além da visitação, eu trabalhava ainda toda parte de socializar e de contato com os acadêmicos na UFMG e nas Ciências Médicas, duas universidades de Minas Gerais, de Belo Horizonte. P - Então, tinham os médicos, as farmácias e os acadêmicos? R - A venda, a cobrança, a visitação aos médicos e a visitação às faculdades, normalmente no período da manhã, eu fazia essa visita antes de iniciar as aulas, entre 6:30 e 7:00 e no horário de...
Continuar leituraP - Valdemar, para começar, eu queria pedir para você dizer o teu nome completo, data e local de nascimento? R - Valdemar Gontijo Soares, nascido em 21/05/1963, na cidade de São Gonçalo do Abaetê, Estado de Minas Gerais. P - E foi lá em Minas que você começou a trabalhar no Aché? R - É, em Minas no setor de clínicas e hospitais do Centro de Belo Horizonte, em junho de 1987, como propagandista. P - Como é que foi essa tua entrada na empresa? R - Eu trabalhava na área de turismo e hotelaria. E convivia muito em Belo Horizonte com viajantes de vários setores e tinha curiosidade e bom relacionamento com os viajantes e uma vez, um colega, um viajante me falou que o Laboratório Aché dava muita oportunidade para as pessoas se iniciarem. Eu procurei pelo escritório. Tive a oportunidade de ser atendido. Fiz a entrevista e, em pouco tempo, eu já estava dentro do Aché. P - Você começou trabalhando na área de Belo Horizonte? R - No Centro de Belo Horizonte era o meu setor de trabalho. P - E como é que era o dia-a-dia de trabalho naquela época? R - Naquela época, eu era responsável pela maior cota de vendas do Estado de Minas, que tinha os maiores clientes. Além de visitação médica no Centro, eu tinha os clientes e a carteira de cobrança da empresa e de uma boa parte dos clientes também. Foi uma época de, às vezes, iniciar trabalhando às 7:00 da manhã e ir até 23:00 calculando os pedidos que eu tinha tirado dos clientes durante o dia para entregar no outro dia de manhã. Além da visitação, eu trabalhava ainda toda parte de socializar e de contato com os acadêmicos na UFMG e nas Ciências Médicas, duas universidades de Minas Gerais, de Belo Horizonte. P - Então, tinham os médicos, as farmácias e os acadêmicos? R - A venda, a cobrança, a visitação aos médicos e a visitação às faculdades, normalmente no período da manhã, eu fazia essa visita antes de iniciar as aulas, entre 6:30 e 7:00 e no horário de almoço também para o início ou término das aulas do período da manhã, de 12:00 à 13:00. P - Como é que era essa visita aos acadêmicos? R - Era um contato que a gente fazia e trabalhava com uma linha de produtos mais tradicional, mais conhecida. Visitava, às vezes, de primeiro e segundo ano de Medicina, eles não conheciam a substância, não conheciam marcas e era aquele o primeiro trabalho. Era um trabalho gostoso e o mais interessante disso foi depois de muitos anos eu encontrar a maior parte dos que tive contato, quando estava na escola, eu encontrar eles depois médicos, fazendo sucesso em várias cidades de Minas. P - O trabalho nos corredores da faculdade? Na sala de aula? Como é que era? R - A maior parte na entrada, no hall principal, entrando para as salas de aula. Poucos os contatos dentro da sala de aula. A maior parte nos corredores. P - E depois de passar na faculdade, então você ia para os consultórios? R - Era. Saía no período da manhã, eu fazia o ponto de encontro. Iniciava esse contato lá e saía para os consultórios. Visitava médico, às vezes, até 21:30, 22:00 e ia para as farmácias. Deixava folha para depois passar porque o sistema não era informatizado. Então, o comprador tinha que levantar todo estoque da farmácia para fazer os pedidos. P - Tudo isso a pé, Valdemar? R - É como eu trabalhava no Centro, não tinha local para deixar carro, a empresa não pagava sistema de estacionamento, o meu carro ficava muito distante e eu descia com a pasta e duas sacolas tudo cheio. Deixava, às vezes, sacola na entrada do hall, na entrada da recepção dos prédios, que eu tinha maior concentração de médicos. Tinha muito contato com os porteiros e deixava para depois reabastecer minha pasta, porque só dava para voltar no carro na hora do almoço. Não dava para reabastecer o material. P - E o almoço onde é que era? Lá no Centro mesmo? R - O almoço era p.f em qualquer botequim, aonde a fome e o tempo permitisse. P - E aí, depois, no período da tarde, mais visita? R - Às vezes, mais visita médica e farmácia também até às 19:00, enquanto houvesse possibilidade de produção ou contato com farmácias, estava visitando. P - Você ficou em Belo Horizonte muito tempo? R - Não, eu tive oportunidade de com pouco tempo de empresa, ser promovido. Com dois anos, eu fui promovido à supervisão e deixei Belo Horizonte. Assumi metade do Estado de Minas e a história muito interessante é que eu não sabia para que lado ficava as cidades. E o cara: “Você foi promovido. A sua equipe é tal. A metade do Estado de Minas. Segunda-feira, você vai trabalhar em Porteirinha” Aí, eu peguei, comprei um Guia Quatro Rodas e foi olhar aonde é que era essa cidade. Eram quase 600 quilômetros de Belo Horizonte. Eu nem costumava viajar, tinha pouco hábito de dirigir em estrada. Era um sufoco no início. P - E como é que era isso? Vocês tinham que sair percorrendo as cidades? R - Como eu não tinha setores próximos de Belo Horizonte, todas cidades eram muito distantes. Eu saía de casa na segunda-feira, entre 2:00 e 3:00 da manhã. Isso foram muitos e muitos anos. E retornava para casa na sexta, 22:00, 21:00, até 00:00. P - E tinha roteiro fixo? R - Tinha o roteiro. P - Que mudava a cada semana? R - Porque como eu trabalhava na metade do Estado, cada semana eu estava numa região. Ia para o Norte, ia para a Zona da Mata, ia para o Leste Mineiro, pegando divisa da Bahia, do Rio de Janeiro, Espírito Santo, indo para o lado de Goiás. Então, era tudo... Era o sistema. P - E cidadezinhas pequenas? Que tipo de cidades você visitava? R - Como na época todo o nosso sistema era de visitação médica, venda e cobrança, muitas cidades que nem médico tinha, mas tinha uma farmacinha, um botequim que vendia medicamento, a gente ia lá e vendia para ele. Tinha que ir nessas cidades, nesses arraial vender e depois receber a duplicata também. P - Teve alguma cidade que te marcou de forma especial, dessas que você nem conhecia, que você foi descobrindo? R - Olha, a passagem mais complexa que eu já tive no interior foi na região de Montalvânia, que está perto de Cocos, Guanambi, Urandi na Bahia, que numa época de campanha política, eu cheguei lá. O interessante é que são dois fatos nessa mesma cidade. Eu cheguei e fui procurar pelos médicos e eles tinham ido para Cocos porque tinha tido um crime político na cidade e depois que o médico retornou, ele contou que eles tinham queimado três pessoas em praça pública e que eles foram chamados para identificar os corpos, mas só tinha cinzas. Eu fiquei assustado eu já tinha medo da região. E Cocos estava muito perto de Montalvânia. E essa mesma cidade depois, quando o meu representante que morava em Montes Claros divisa da Bahia, sofreu um acidente e fraturou as duas pernas. Era ponta de setor. E eu fiquei durante sete meses com a minha equipe cobrindo esse setor. Eu visitava os médicos, eu vendia e voltava para receber as duplicatas. E em um final de ano um cliente de Montalvânia fez um pedido e a duplicata foi via bancária, em função das dificuldades lá. Foi via Bradesco. Ele não pagou. Eu entrei em contato, pedia para mandar ordem de pagamento, pedi para mandar cheque. Não houve alternativa de recebimento, a não ser me deslocar até lá. Choveu muito no fim do ano, no Norte de Minas nesse ano e a estrada foi interditada entre Januária e Montalvânia, eram 180 quilômetros. E o meu gerente disse que se eu não recebesse a duplicata, não poderia sair de férias.Eu me desloquei de carro até Januária. Chegando lá eu falei com o dono de uma farmácia, muito conhecido que eu estava indo a Montalvânia. Ele disse que tinha cinco dias que não passava nenhum carro na região, que estava interditado. Eu falei que eu ia no outro dia de qualquer jeito, nem que fosse num burro, num jegue, mas eu ia arrumar uma forma de chegar até a cidade. Levantei às 5:00 e peguei estrada rumo a Montalvania. E realmente eu cheguei até a cidade de Manga sem conseguir pôr uma terceira marcha no carro, de tanto barro. Na cidade de Manga, eu encontrei um cara da EMATER numa Toyota e convenci o cara a ir para Montalvania comigo. Larguei o carro em Manga e foi aonde eu consegui receber a duplicata. O cara foi e depois voltou comigo porque realmente o único carro que poderia passar naquela região era uma Toyota. P - Muita estrada de chão você percorreu? R - Eram 180 quilômetros de chão e na época choveu muito. O rio São Francisco transbordou para ver a idéia da complexidade do volume de água. O rio São Francisco subiu 12 metros. A cidade de Januária fica 15 quilômetros retirado do local, de travessia da balsa e o rio São Francisco chegou até dentro da cidade. P - Qual era a tua viagem preferida? Qual o caminho, a estrada que você achava mais bonita? Tem alguma? R - Eu gostava muito de trabalhar na região Norte, eu achava facilidade nos acessos e na movimentação das estradas retas. Eu tinha muito restrição quanto a descer para o Vale do Aço, em função da estrada possuir muita curva, e muito acidente. Eu tinha muito medo dessa região. E foi uma época que eu tinha carros possantes da empresa. Eu viajava de Kadett e gostava muito de velocidade. E acho que não morri porque Deus andou me salvando algumas vezes. Eu corria.Andava no limite do perigo. P - E nesse dia-a-dia das viagens, como é que resolvia a questão do almoço, onde dormir? Tinha restaurante certo? Hotel certo para dormir ou ia mudando a cada cidade? Como é que era? R - O representante, normalmente, tem... A gente que fazia supervisão variava muito em hotel e restaurante. No início foi muito difícil porque os valores estabelecidos limitava muito os pontos melhores. P - Alguma história com hotel, com restaurante que você lembra? R - Não, a história foi na cidade de Bocaiúva, próximo de Montes Claros, nesse período o meu representante ficou sete meses sem trabalhar, no início do ano de 1990, ou 1991.Eu fui comer um p.f correndo num botequim. Iniciei e achei um objeto estranho. Não sabia identificar se era meia barata, empurrei num canto do prato. E continuei comendo, na segunda garfada, eu encontrei uma bucha de cabelo ... Eu tenho estômago forte, mas não houve condição nem de engolir o que estava na boca, que a bucha era muito grande. (risos) P - E nos hotéis você não encontrava com os outros propagandistas dos outros laboratórios? Tinha, assim, um ponto de encontro nas cidades? R - Tinha, mas a gente não ficava, no início, nos mesmos hotéis com os outros laboratórios.Os valores estabelecidos eram diferentes. Então, eles ficavam em hotéis de classe B para A e a gente de B para C. O meu recorde foi o dia que saí de Belo Horizonte às 3:00 e quando eu cheguei na cidade para dormir, que eu terminei o giro, eu tinha rodado 1180 quilômetros trabalhando no dia e tinha comido dois salgados só. Era 23:00, que eu cheguei na cidade, porque eu estava tentando fazer metade do roteiro num dia, em função desse representante afastado. P - E são cidadezinhas pequenas que você acaba ficando conhecido? Quer dizer, a pessoa falava: “Ah, lá vem o moço do Aché” tem isso? R - O representante cria esse vínculo mais do que o supervisor porque ele está há cada 30 dias na cidade. Mas eu fiquei conhecido em muitas cidades. P - E os médicos aproveita para mandar recado de uma cidade para outra, tem isso? R - A gente, às vezes, carregava muito é material de exame de médicos, de hospitais de um para outro, para cidade pólo, a cidade maior. P - Como é que era isso? R - O exame preventivo feminino, é feito nos laboratórios das cidades maiores a gente passava, o médico pedia para entregar no laboratório lá. Depois o resultado vinha correio. P - Nesses anos de trabalho teve um médico ou algum colega de trabalho que tenha te marcado de forma especial? R - Não, fiz ótimas amizades, só bons relacionamentos. Todos altamente saudáveis. P - E em relação aos produtos e a campanha, você de algum que você gostou mais de trabalhar? Quando foi lançado, que a equipe recebeu melhor? R - Eu fiz uma campanha no Centro de Belo Horizonte que foi a que mais me marcou. Foi quando nós lançamos o Brondilat, eu fiz a propaganda por duas vezes para um médico e, na terceira vez, quando eu entrei, ele falou: “Eu queria receitar seu medicamento, mas eu esqueci o nome.” Eu falei: “Doutor, eu estou aqui para lembrar novamente da marca do nome Brondilat. E depois que eu fiz, forcei bastante o nome, falei muitas vezes para ele, eu saí e lembrei onde ele deixava o carro estacionado. Eu peguei uma fita crepe, fui lá e colei as literaturas com o nome de Brondilat em todos os vidros do carro dele e ficou o trem mais estranho na rua. Todo mundo passava, ficava olhando o carro. Um dia, eu estou passando no cruzamento principal de Belo Horizonte, que é a avenida Afonso Pena com Amazonas, ele passou dirigindo e gritou “O Brondilat desgraçado” (risos) Ele não lembrou o meu nome, mas não esqueceu o nome do produto. Então, foi o negócio que mais me marcou, que eu fiquei no meio da rua rindo dele. Ele me xingava pelo nome do produto. Quer dizer, a minha estratégia funcionou. P - E o teu dia-a-dia depois de supervisor da região Norte, você mudou para a região Sul? Qual que foi o passo seguinte? R - Depois, houve muitas mudanças aceleradas nas empresas. Eu passei por todas as divisões. Fui para o Sul cobrir um colega que foi demitido e a equipe estava problemática. . Fiquei bom período no Sul de Minas mais a Zona da Mata. Depois retornei para o Norte. Eu saía da Novoterápica, ia para a Prodome. Saía da Prodome ia para a Parke Davis e para o Aché. Então, fiquei um período cobrindo o interior de Minas Gerais que tinha uma divisão Norte e Sul. Mas quando se falava Norte, compreendia Norte de Minas, Leste mineiro, Zona da Mata, Oeste, Noroeste e os vales; Mucuri, Vale do Jequitinhonha, Vale do Aço. Compreendia isso tudo e o Sul de Minas compreendia a região Sul mais a região de Juiz de Fora e vertentes de Minas. P - Você conheceu o Estado inteiro? R - Todo o Estado de Minas. P - Quantas cidades? R - Conheço das 800 e poucas cidades de Minas, umas 800 eu conheço. Eu me considero um privilegiado. Eu tive essa oportunidade. Esse prêmio o Aché me deu. Foi muito trabalho, mas teve um benefício, que foi a oportunidade de conhecer todo o Estado e a oportunidade de conviver com os contrastes do Estado, que em Minas é muito forte, tanto em condições sociais, como regionais. P - Você podia dar algum exemplo? R - Tipo o sotaque, o estilo do povo. Região que você tem um povo de boa cultura, boa educação, de conhecimento. Outras pobres, com sotaque forte. P - A gente já está finalizando, eu queria te perguntar,você falou essa oportunidade que o Aché te deu, o que mais te agrada no Aché? R - Eu me identifiquei com o Aché, talvez pelo meu sistema de criação, pelo meu berço, pelos meus princípios de moral, de disciplina. Foi muito rigoroso na minha criação. Então, quando eu entrei no Aché, que eles mostravam que tudo era muito rigoroso, para mim aquilo era normal. Fazia parte dos meus princípios. Eu nunca tive problema de relacionamento dentro do Aché com chefia. Eu me relacionei, sempre me dei bem, nunca tive grandes atritos. Me identifico muito com as normas de procedimentos da empresa, em função, acredito que seja, do meu berço, dos meus princípios, da minha moral, da minha ética. P - A tua família é toda mineira, né? R - Toda. P - Me disseram que você cozinha bem. Queria que você desse uma receita mineira, o que é que você gosta de preparar? R - A minha esposa diz que estou andando preguiçoso na cozinha porque eu ensinei ela a cozinhar e agora ela está cozinhando muito bem eu parei de cozinhar. Mas eu gosto... Cada época de um prato diferente. Eu gostava muito de fazer frango caipira e pratos variados. Antes do frango, minha especialidade era preparar leitoa caipira, ou assar ela ao vinho no forno, ou pururucar a leitoa. P - E o que acompanha a leitoa? R - Olha, você faz um tropeiro para acompanhar a leitoa à pururuca, com arroz branco, uma salada fria. E frango caipira, eu gosto de muito de fazer frango na fazenda, onde eu tenho as minhas panelas de pedra, panela de ferro para fazer frango caipira com quiabo e angu de milho verde. Eu gosto muito, entendeu? P - E é fogão à lenha? R - Fogão à lenha, com panela de pedra ou de ferro para você fazer o frango caipira. P - E angu de milho verde. P - Mas muitas situações, eu já fui cozinheiro. Quando eu namorava, chegava Dias das Mães, eu ia para a casa da minha noiva, ia para a cozinha e fazia e servia a mesa para todas as pessoas que estavam na casa, sozinho. E quando eu termino de cozinhar, você não encontra um talher sujo. Está tudo limpo na cozinha. P - E sobremesa também? R - Não, doce nunca foi minha especialidade, não. Mas eu iniciei na cozinha, ajudando a minha mãe no interior a preparar os pratos e, às vezes, uma coisa que a minha mãe faz até hoje, ela faz muita quitanda no forno de barro. P - O que é quitanda? R - É biscoitos, aquela broas, biscoito de queijo, biscoito de nata, Pão de queijo, broa de fubá, aquelas tradicionais fazendas. Então, eu me especializei e fui tomando gosto pela cozinha, ajudando a minha mãe. Então, quando ia matar frango, eu pegava, matava, depenava, eu que limpava, abria e picava. Aí fui pegando gosto e também porque com 11 anos de idade, o meu pai tinha trabalhadores na fazenda e não era a que a gente morava, e eu que era o cozinheiro da turma. Às vezes, tinha 15, 20 homens trabalhando e eu que ia para a cozinha fazer comida para isso tudo. E uma vez foi interessante que um falou para mim. “ você com 11 anos, que cozinha melhor do que a minha esposa”. (risos) O cara falou que ia ensinar a mulher dele, eu cozinhava melhor. São alguns pontos... P - O que é que você preparava para essa moçada? R - Eu trabalhava com o que tinha à disposição ali na roça. Dependendo da época, eu colhia algumas coisas na roça; abobrinha, quiabo, algumas folhas, ia fazendo os pratos de acordo com o que tinha disponível. Pegava milho verde, fazia frito, às vezes com uma linguiça. Ia fazendo aqueles pratos diferente. Eu inventava, eu criava alguma coisa com o que eu tinha disponível. P - Estamos finalizando, eu queria te perguntar o que você achou de ter contado um pouquinho da tua história? R - O que que eu achei? Eu acho muito interessante, isso é rico para gente. Às vezes, são pontos que algumas empresas não valorizam e a gente não valoriza. Porque eu falo o seguinte; eu não vivo do passado no Aché, Para mim, hoje é o dia mais importante da minha vida e não foi ontem. Estou completando 15 anos de empresa e eu falo para todo mundo que eu desenvolvo um trabalho como se fosse o meu primeiro dia, porque hoje que é o importante, não é ontem. Se eu estou trabalhando hoje é porque eu fiz alguma coisa ontem que me deu sustentação para trabalhar hoje e eu só vou trabalhar amanhã e fazer parte desse grupo e desenvolver um trabalho, ter oportunidade se eu fizer alguma coisa hoje que me dê sustentação para levar para o amanhã. Eu falo que essa é a arte de viver. Até certo ponto, frio, mas é real. Quem vive preso ao passado deixa e perde as oportunidades de construir e realizar no presente e garantir o futuro porque fica no passado. P - Mas lembrar um pouquinho do passado é ruim? R - Não, relembrar é viver, mas não viver preso a ele.“Ah, eu tenho 15 anos de Aché, eu tenho 13 anos...” Eu não digo isso não importa. Faz parte de uma história, mas o importante agora é hoje. Hoje é importantíssimo para estabelecer o amanhã. P - Muito obrigado. R - Eu que agradeço a oportunidade da entrevista.
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