Cultura Adestrada. Nasci no município de Potirendaba num bairro chamado Coqueiral em uma colônia de italianos. Ali existiam duas colônias que eram separadas por um pequeno rio. Do lado oeste residiam os portugueses e do lado leste residiam os Italianos. E foi neste lado que nasci. Sou o segundo de cinco filhos e tendo como caçula uma única irmã, Maria José. O primeiro é Luiz Carlos, que nasceu em 27/07/1957, depois eu, que nasci em 28/01/1959, o terceiro foi Edmar, que nasceu em 05/06/1960, o penúltimo é o Carlos Alberto que nasceu em 21/07/1963 e por fim a caçula, a rapinha do útero, ou chamada também de espermatozóide perdido. Estou falando de Maria José, que nasceu em 09/05/1966. Meus pais se casaram e enquanto não encontravam trabalho, continuaram morando na casa de meus avós paternos, na colônia italiana, onde nasceram três de seus cinco filhos, Luiz Carlos, Eu (Jorlando) e o Edmar. No final de 1962 eles foram morar na colônia dos portugueses, um sítio que pertencia a meu avô materno Abel Aguiar, do lado oeste, e lá nasceu o Carlos Alberto. Maria José nasceu no bairro da Guajuvira, na fazenda dos Pereiras, cujo patriarca era João Pereira, também italiano. Vocês percebem que filho naquela época era como pescar lambari; um seguido de outro. Mas existe uma explicação sociológica e antropológica para que as famílias tivessem tantos filhos. Há especialistas em família que explicam este fenômeno, argumentando que o motivo era a falta de planejamento familiar. Creio estarem todos enganados. As famílias se planejavam e muito bem e com uma forte razão e objetivo: como não havia tecnologia na agricultura, não havia máquinas agrícolas à disposição dos pequenos agricultores, a única técnica usada era a força de trabalho, isto é, braços fortes, e muitos braços. Cada filho que nascia, era garantia de em pouco tempo em média de seis anos uma criança já era contada como força de trabalho. Eu...
Continuar leituraCultura Adestrada. Nasci no município de Potirendaba num bairro chamado Coqueiral em uma colônia de italianos. Ali existiam duas colônias que eram separadas por um pequeno rio. Do lado oeste residiam os portugueses e do lado leste residiam os Italianos. E foi neste lado que nasci. Sou o segundo de cinco filhos e tendo como caçula uma única irmã, Maria José. O primeiro é Luiz Carlos, que nasceu em 27/07/1957, depois eu, que nasci em 28/01/1959, o terceiro foi Edmar, que nasceu em 05/06/1960, o penúltimo é o Carlos Alberto que nasceu em 21/07/1963 e por fim a caçula, a rapinha do útero, ou chamada também de espermatozóide perdido. Estou falando de Maria José, que nasceu em 09/05/1966. Meus pais se casaram e enquanto não encontravam trabalho, continuaram morando na casa de meus avós paternos, na colônia italiana, onde nasceram três de seus cinco filhos, Luiz Carlos, Eu (Jorlando) e o Edmar. No final de 1962 eles foram morar na colônia dos portugueses, um sítio que pertencia a meu avô materno Abel Aguiar, do lado oeste, e lá nasceu o Carlos Alberto. Maria José nasceu no bairro da Guajuvira, na fazenda dos Pereiras, cujo patriarca era João Pereira, também italiano. Vocês percebem que filho naquela época era como pescar lambari; um seguido de outro. Mas existe uma explicação sociológica e antropológica para que as famílias tivessem tantos filhos. Há especialistas em família que explicam este fenômeno, argumentando que o motivo era a falta de planejamento familiar. Creio estarem todos enganados. As famílias se planejavam e muito bem e com uma forte razão e objetivo: como não havia tecnologia na agricultura, não havia máquinas agrícolas à disposição dos pequenos agricultores, a única técnica usada era a força de trabalho, isto é, braços fortes, e muitos braços. Cada filho que nascia, era garantia de em pouco tempo em média de seis anos uma criança já era contada como força de trabalho. Eu comecei trabalhar na lavoura (arroz e café) com cinco anos. Esta era a idade média que as crianças iniciavam no trabalho. Todas as famílias da época viviam e se reproduziam sob o mesmo manto cultural. Um sistema fechado, arcaico, atrasado, monoteísta assim como todo ocidente pós-império Romano. Neste manto cultural, o sexo e a hipocrisia ditavam as ordens. Tanto que hoje depois de quarenta anos estudando os passos da sociedade ocidental, cheguei à conclusão que somos avaliados pelo sexo. Mas isto é outra história que contarei nos próximos capítulos. Não estou aqui para perder tempo, memória e telefonemas e mais telefonemas com culturas milenares. Estou apenas fazendo uma reflexão histórica para tentar explicar como esta gente que chegou de um continente tão avançado - o continente Europeu - e trazendo consigo uma mentalidade tão atrasada, mentalidade da Idade Média mesmo. E tudo isto tem explicação: O Clero. Todas as religiões ao perderem influência e espaço político na Europa após o Iluminismo seguido pela Revolução Francesa no final do Sec. XVIII, mais precisamente em 1779, embarcaram nas mesmas embarcações dos imigrantes, trazendo consigo aquelas culturas desprezadas pelos europeus. Viam nestes imigrantes um campo fértil de dominação para impor a cultura divina acima de tudo e de todos, e o pior: os sacerdotes, padres e outras lendas mais, se diziam interlocutores de deus, por isso que os imigrantes se submeteram aos caprichos da Igreja católica, afinal, eles não tinham onde e nem a quem recorrer. Todos diziam amem a tudo e a todos. E a igreja católica soube aproveitar e tirar proveito desta gente sem amparo. Até mesmo o dízimo cobrado aqui no continente Americano, é diferente do dízimo cobrado no continente Europeu, isto é: quanto mais pobre e abandonado mais fácil de ser domado. Este era o lema imposto pelas religiões aqui na América. É esta cultura que de agora em diante, do primeiro até o último capítulo, chamarei de cultura adestrada. O pensador alemão Friedrick Nietzsche se dedicou a vida toda para dar vida a esta cultura. O próprio termo adestrado que uso, aparece eem sua obra “O Eterno Retorno”, onde chamava de sociedade de dominação e adestramento. O mesmo procedimento que as religiões usavam para adestrar os imigrantes foi usado para adestrar os filhos dos imigrantes. E eu fui um de tantos filhos adestrado como se fosse animal. Aos 14 anos eu não sabia se falava, rinchava, latia, mugia, ou berrava. Eu me sentia um animal completo. E a única maneira de me “socializar” era dizendo adeus a meus pais. Perceberam que coisa mais sem nexo? Se eu quisesse adquirir um pouquinho mais de conhecimento, teria que fazer o que todos jovens faziam: se autoemancipar da família. E todos os jovens sonhadores, com um pouquinho a mais de raciocínio escolhiam como alternativa, mudar para a cidade. E eu aos 17 anos tomei o mesmo rumo: cidade grande como diziam antigamente. Hoje todas as cidades mesmo que não sejam grandes, tem estrutura de grande. É isso que conta para um jovem sonhador. Mas antes mesmo de completar 17 anos já havia tentado sair da família. Em 1971 quando morávamos em Cosmorama, e influenciado por uma ex namoradinha de escola, a Maria Madalena, comentei com meu pai que queria ir morar em São José do Rio Preto com meu tio Zico. Mas meu pai respondeu que homem macho de verdade tinha que ter calo do cabo da enxada nas mãos, que cidade era coisa de vagabundo. Então só restava atingir certa idade e dar adeus sem pedir. E isso só iria acontecer em 1976 Por falar em mudar para a cidade, era natural que, quando um filho quisesse “subir na vida”, até meados dos anos 80, o caminho era sempre o mesmo: cidade grande. Não conheço um jovem ou uma jovem que se quisesse “ser alguém na vida”, não teve que fazer isso. Estou falando de jovens de ambos os sexos, mas isto acontecia constantemente com os jovens do sexo masculino. Lembrando que no início do quinto parágrafo eu citei que ainda somos avaliados pelo sexo? Aqui está apenas uma das evidências. As mulheres não tinham (e ainda não tem) a mesma liberdade ou a mesma cultura de sair de casa para mudar de vida. Quanto aos meninos não era tão fácil como se pensa, mas para as meninas era praticamente impossível. A elas se destinava apenas uma atividade; a costura. Foram raras as mulheres que se aventuraram para enfrentar um sistema social tão rígido e tão hipócrita como o do início do século XX. Entre essas mulheres posso citar algumas: Berta Luft, Leila Dinis, Maria Augusta Carneiro, Luiza Erundina; Olga Benário; Zuzu Engels; Vida Alves; Ruthe Cardoso; Martha Suplicy; Nísia Floresta; Mietta Santiago; Rosa Luxemburgo, Cleópatra; Joana D’arc; Ana Bolena; Carlota Joaquina; Maria Quitéria; Ana Garibaldi; Indira Gandhi; Evita Perón; Princesa Diana; Dilma Roussef entre tantas. Esta cultura era baseada no epicurismo, isto é, baseada na experiência. Se um jovem ficava sabendo que um parente ou um amigo havia saído de casa e “se dado bem”, então este jovem era a mais nova isca desta cultura adestrada. Comigo foi à mesma coisa. Em 1972, meu primo Irael Brioto, que morava em São Paulo chegou para nos visitar; e foi aquela festa. Nessa época morávamos no Coqueiral no sítio de meu tio Zico, perto dos Bertilim. A chegada do meu primo foi um acontecimento. Ele saiu de casa caipira, de mãos calejadas, cabelo raspado, falando um português arcaico, e quando voltou, estava todo moderninho, todo metido, cabeludo igual ao Roberto Carlos dos anos 70, mãos fininhas que pareciam mãos de noiva e com o bolso vazando dinheiro. Não que ele tinha muito dinheiro! É que eu não tinha nada, então a diferença era grande. Fiquei todo orgulhoso de ter como visita, um primo que morava em São Paulo. Quando as moças da redondeza ficaram sabendo que tinha um moço de São Paulo em casa, parecia uma via sacra para conhecê-lo. Fiquei morrendo de inveja! E aquelas cenas se seguiram. E foi a partir destas cenas que comecei a traçar desde cedo meu destino; ir para São Paulo. Mas como eu ainda tinha apenas 13 anos, meu sonho tinha que esperar mais alguns anos. Mas outra cultura estaria se instalando também nas cidades grandes. Como a gente saía de casa sem conhecimento ou formação técnica alguma, então aceitava o que oferecia. Para quem estava saindo da roça, não conhecia o que era bom ou ruim, uma coisa era certa: qualquer coisa era melhor do que a roça. Até mesmo trabalhar de graça na cidade era melhor, pois na roça a gente também trabalhava de graça. E a cultura a qual me referi no início deste parágrafo é a seguinte: se alguém fosse à cidade levado por um parente, geralmente este parente já nos “encaixava” na empresa onde ele trabalhava. Em nossa família aconteceu exatamente isso. Em 14/01/1970 meu primo Irael ingressou na empresa FAMABRAS. Logo em seguida ele “encaixou” o Antônio Durante (Toni), filho do Pedro Durante. Este Antônio Durante “encaixou” seu irmão Moacir Durante (Cuco). E no dia 01/11/1978 o mesmo Irael me “encaixou”. E em 1984, seis anos depois eu “encaixei” meu irmão Edmar, que vendo que eu também estava melhor do que na roça, resolveu também seguir meus passos, e os passos de tantos outros brasileiros a procura de alternativa. Percebem como a cultura seguimentalista influiu na vida de muita gente? Não precisava currículo nem graduação como hoje. Bastava ter alguém influente. Até hoje ainda é assim, porém as empresas estão tendo o cuidado de selecionar também a formação acadêmica dos candidatos. Mas a indicação está presente na vida dos candidatos. Idêntica a do século passado. O pioneiro de nossas famílias que começou a levar os parentes para São Paulo foi Pedro Durante em 1969. É primo de meu pai, filho do tio Bepe, irmão de meu avô Domingos Durante, pai de meu pai. Neste mesmo ano foi a vez da Tia Maria, irmã mais velha de meu pai. Primeiro ela levou seu filho caçula, o Paulo, e depois voltou para buscar o restante, Irael e Vilma. Cinco anos depois, em 1977 foi a minha vez de ir também. E assim sucessivamente, foi acontecendo com todas as famílias do país inteiro, e a lavoura que não dava futuro a ninguém, acabou isolada, e como tudo evolui, ela também sofreu esta evolução que nós Sociólogos chamamos de Êxodo Rural. Em 1976 o Governo Federal instituiu a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuária), com o objetivo de desenvolver a lavoura e o rebanho. Isto foi o marco do desenvolvimento Agrário brasileiro, que será tema do em um dos capítulos desde livro. Já estamos no final da década de 1980 e como disse no parágrafo anterior, com a institucionalização da EMBRAPA, a lavoura e a pecuária passaram por uma profunda transformação. A evolução foi vertente. Os resultados apareceram rápido, mas, isto foi graças também ao Brasil ser privilegiado de recursos naturais, geograficamente falando. Tudo favorecia, era questão apenas de dar o primeiro passo. Em 2006, portanto trinta anos após a institucionalização da EMBRAPA, o Brasil se tornou o maior exportador de carne bovina. Em todas as áreas agrícolas, o Brasil compete palmo a palmo, e se impõe no mercado internacional. O campo se tornou uma cidade no oásis, tudo lá está industrializado. Não há mais nada convencional. Os trabalhadores do campo hoje trabalham com carteiras de trabalho registradas, não há mais motivo de deixar o campo para tentar a vida na cidade. Se o desenvolvimento no campo tivesse sido implantado dez anos antes, nem eu teria motivos para deixar o campo. Na década de 1970 quem morava no campo e queria dar continuidade aos estudos, era impossível, pois não tinha como estudar além do quarto primário, hoje chamada de série inicial do ensino fundamental. Por isso que afirmo que os jovens dos anos 1960 e 1970, foram cobaias do desenvolvimento. Se nós jovens destas décadas, não tivéssemos metido as caras no mundo, o governo não teria tomado providências. Felizmente hoje estamos colhendo o fruto, como tudo no Brasil só se evolui com base no epicurismo, conosco não foi diferente. Hoje toda minha família mora na cidade do mesmo município - Potirendaba - trabalham simultaneamente entre a lavoura e a cidade. Mas nem por isso tiveram que fazer escolhas caras como a que fiz em 1976. Não era fácil para um jovem sonhador como eu, deixar amigos, família, namorada – nesta época eu namorava a Lucineide Couvre - minha cultura para traz, simplesmente porque tinha um sonho de crescer na vida. E o pior: não havia opção. Este capítulo é apenas um breve relato introdutório de uma longa história que será narrada em detalhes nos próximos capítulos. Com base também no epicurismo. Coisas do Ocidente.
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