Projeto: Vidas, Vozes e Saberes num mundo em chamas
Entrevista de Rodney Costa
Entrevistado por Rangel Sales
18/05/2025
Entrevista nº: PCSH_HV1456
Realização Museu da Pessoa
Revisado por Ane Alves
P/1: Rodney, para começar a gente gostaria que você se apresentasse, dissesse o seu nome, local e data de nascimento?
R - Eu sou Rodney Costa, tenho 54 anos, nasci em 15/02/1971 em BH.
P/1: E qual o nome dos seus pais?
R: Meu pai é Clóvis Dias da Costa e Anália Moreira Costa. Mas meu pai tinha o apelido de Maninho.
P/1: Rodney, com o que seus pais trabalhavam ou trabalham?
R: Então, a história de família, de muita gente, meu pai e mãe vieram da roça, eles são ali da região leste de Minas, meu pai e minha mãe ali de Tarumirim, próximo a Valadares. Enfim, saíram de lá e vieram para BH. Meu pai começou trabalhando, se eu não me engano, no antigo matadouro da Frimesa, ele teve lá. Minha mãe, pela criação, até então era dona de casa, era para cuidar dos filhos e meu pai trabalhava. E com o tempo meu pai desenvolveu, vou falar, desenvolveu, talvez nem seja a melhor palavra, mas ele aprendeu o ofício de marceneiro. E aí, cara, na madeira, tanto é que o meu irmão que esteve aqui agora com a gente, pouco antes da gente começar a gravar, tem uma habilidade com a madeira para fazer coisas, principalmente móveis de madeira reciclável, as madeiras que não estão aproveitando mais, de casa velha, às vezes de corte de árvores na cidade. Então, faz mesa, faz um bocado de coisa, transforma literalmente com as mãos. E meu pai transferiu para eles. Por que eu falo para eles? Porque eu não segui o que ele queria. Então, meu pai era marceneiro, minha mãe depois, com o tempo, costureira, uma costureira de mão cheia. E assim foram levando a vida. Minha mãe costurando, meu pai trabalhando. Meu pai depois teve a oportunidade, foi uma coisa muito legal, que hoje a gente também não vê, é que meu pai foi contratado pela Elmo Calçados. Seu Inácio...
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Entrevista de Rodney Costa
Entrevistado por Rangel Sales
18/05/2025
Entrevista nº: PCSH_HV1456
Realização Museu da Pessoa
Revisado por Ane Alves
P/1: Rodney, para começar a gente gostaria que você se apresentasse, dissesse o seu nome, local e data de nascimento?
R - Eu sou Rodney Costa, tenho 54 anos, nasci em 15/02/1971 em BH.
P/1: E qual o nome dos seus pais?
R: Meu pai é Clóvis Dias da Costa e Anália Moreira Costa. Mas meu pai tinha o apelido de Maninho.
P/1: Rodney, com o que seus pais trabalhavam ou trabalham?
R: Então, a história de família, de muita gente, meu pai e mãe vieram da roça, eles são ali da região leste de Minas, meu pai e minha mãe ali de Tarumirim, próximo a Valadares. Enfim, saíram de lá e vieram para BH. Meu pai começou trabalhando, se eu não me engano, no antigo matadouro da Frimesa, ele teve lá. Minha mãe, pela criação, até então era dona de casa, era para cuidar dos filhos e meu pai trabalhava. E com o tempo meu pai desenvolveu, vou falar, desenvolveu, talvez nem seja a melhor palavra, mas ele aprendeu o ofício de marceneiro. E aí, cara, na madeira, tanto é que o meu irmão que esteve aqui agora com a gente, pouco antes da gente começar a gravar, tem uma habilidade com a madeira para fazer coisas, principalmente móveis de madeira reciclável, as madeiras que não estão aproveitando mais, de casa velha, às vezes de corte de árvores na cidade. Então, faz mesa, faz um bocado de coisa, transforma literalmente com as mãos. E meu pai transferiu para eles. Por que eu falo para eles? Porque eu não segui o que ele queria. Então, meu pai era marceneiro, minha mãe depois, com o tempo, costureira, uma costureira de mão cheia. E assim foram levando a vida. Minha mãe costurando, meu pai trabalhando. Meu pai depois teve a oportunidade, foi uma coisa muito legal, que hoje a gente também não vê, é que meu pai foi contratado pela Elmo Calçados. Seu Inácio Ballesteros é um espanhol que contratou, então ele fazia toda a parte de marcenaria das instalações comerciais da loja. Que é uma história legal também, porque chegou um tempo e ele quis ter a sua marcenaria. E ele conta que quando ele decidiu sair, o Sr. Inácio falou assim: “Sr. Clóvis, o senhor pode ir, montar…” Eu lembro que ele começou aqui, nessa garagem, com uma máquina de serra circular e uma plana, para trabalhar e resto era tudo na mão que ele fazia. E aí, quando ele saiu de lá, o Sr. Inácio falou assim, “não, o senhor pode ir, o senhor vai ser ainda, mesmo que não oficial, funcionário da Elmo, todo o serviço de marcenaria a gente vai passar para você, e a gente vai continuar pagando o seu salário, normalmente, como se você fosse marceneiro. A gente precisa…” Como hoje a gente fala, incentivo. Então, deu um incentivo para ele, e de lá para cá, ele foi. E eu sou de uma família de nove irmãos, hoje coisa rara, muito rara, por sinal. E desses nove irmãos, três deles, quatro deles, na verdade, seguiram a profissão do meu pai. Eu, quando menino, o que a gente mais fazia era ajudar, ajudante, ajudante, ajudante, até tomar o rumo da vida, de querer, escolher uma profissão, querer escolher alguma coisa. Mas eu não quis seguir o que o meu pai, o que normalmente as famílias tradicionais, antigas, faziam, que era seguir a profissão dos pais. Não, eu resolvi traçar outros caminhos.
P/1: Rodney, e como você descreveria sua mãe, seu pai? E você sabe como que eles se conheceram?
R: Cara, eu sinceramente não sei muito bem a história. Mas aquele namoro de interior, de ir de vez em quando na casa, de se conhecer. Então, assim, uma coisa mais de olhar, mal, mal pegava na mão. Então, assim, se conheceram na roça e casaram muito cedo. Minha mãe, se eu não me engano, ela casou acho que com 16 anos. E meu pai devia ter pouco mais de 20 e poucos. Então, assim, bem mais novo. Então foi um encontro… Como interior, você tinha um distanciamento, até eram comunidades com menos casas, então você tinha que percorrer certas distâncias para ir. Minha mãe literalmente é da roça mesmo, e meu pai já morava na cidade. Então, eu acredito nesses encontros casuais da vida. Não tenho muita certeza, acho que foi isso. E como eu os descrevo? Descrevo duas pessoas batalhadoras, duas pessoas que tinham e têm a família como o porto seguro para tudo, a valorização da família, a unidade e também regras, regras de criação no sentido de te preparar para a vida, sempre tiveram essa preocupação. Então, são duas pessoas muito determinadas, muito batalhadoras, muito corretas. Isso já trazia, e eu falo isso hoje porque, infelizmente, a sociedade hoje, eu vou usar um termo aqui que talvez pese, meu pai falava muito isso, minha mãe também seguia, o que o homem fala, não precisa escrever. Então, o que eu disser, o que eu fizer, vale mais do que qualquer coisa. Hoje, infelizmente, a gente não tem isso. E a gente foi criado com isso, com essa informação. As referências que eu tenho, de vida é isso. Assim, a preparação. Hoje eu tenho dois filhos, o Igor e a Blenda, e a minha preocupação é exatamente passar um pouco daquilo que eu aprendi. É claro que a forma de criação hoje, e até mesmo o acesso à informação que eles têm, modifica, mas acredito que eu tenha dado uma base suficiente para que eles cresçam, se desenvolvam e sigam o seu caminho, que é isso que meu pai fez. “Olha, eu vou te preparar para o mundo.” Porque a gente cria até um certo ponto, depois o filho é do mundo. E aquela história de dizer o seguinte, cara, que você sofra ou não passe por aquilo que eu passei, que é muita luta. Imagina, meu pai saía daqui seis horas da manhã, caminhava até a Pampulha para pegar um ônibus, para ir para lá e depois voltava. Minha mãe, quantas vezes ela saiu daqui, por exemplo, quando a gente adoecia, às vezes faltava dinheiro, ela levava a gente, mandava para o Hospital da Baleia, ou pegava um ônibus, descia ali no centro e ia até lá no Hospital da Baleia, que é uma distância muito grande. Então, assim, são histórias, são situações que hoje a gente não percebe, é claro, que isso até é natural, porque as mudanças acontecem, mas é por isso. Então é por isso que eu falo assim, é muita determinação, é muita batalha. Ter em mente de falar assim, olha, eu preciso criar meus filhos para a vida.
P/1: Ótimo! Você falou que você tem nove irmãos, vocês são nove irmãos. Conta para a gente um pouquinho dessa história deles? E o que eles fazem atualmente?
R: Então, eu vou falar nomes que fica mais fácil. Eu vou começar do mais velho para a mais nova, que é a minha irmã. Então a gente tem o Ronaldo, que é o mais velho, Romério, Rogério e o Marcos. Então, esses quatro, eles nasceram na roça. Eles nasceram no interior, tiveram essa vivência, essa experiência. Os mais novos, que é a Rosana, Robert, eu e meu irmão Rony, que hoje é falecido, e Raquel, a gente nasceu aqui. Dos quatro, o Ronaldo, o Rogério, o Rony e o Marcos, eles seguiram a profissão do meu pai, marceneiro. O Rogério também faleceu há pouco tempo, em 2020. O Rony foi em 2008, a gente perdeu. A gente tem, infelizmente, na genética da família, muitos casos de câncer. Então, assim, é uma história de família, inclusive. Aí, é isso. A Rosana é professora de Educação Física, o Robert é professor de Educação Física…
P/1: Essa família grande, Roger, assim, como é que é a relação, a sua relação com os seus pais e com os seus irmãos?
R: Então, com os pais sempre foi de muito respeito, respeito mesmo. Ah, tem gente que fala assim, no início era medo porque aquela história dos antigos, até hoje eu falo isso, muitas vezes, tanto a minha mãe, quanto o meu pai, era só olhar para o lado, você já sossegava o facho. Não precisava nem falar nada. Então, por exemplo, meu pai, ele sempre falava, quando a gente saía, “a gente vai em tal lugar, não peça nada. Não mexa em nada.” A minha mãe a mesma coisa. Então, falava assim: “ai de você se você pedir alguma coisa lá.” Então, é isso. Então, a gente foi criado dessa maneira. Então, a relação com eles, na verdade, foi de respeito. Hoje, há pouco tempo, do abraço, do afeto, do carinho, aquela coisa que a gente tem hoje, você não tinha, porque você ficava, principalmente com o meu pai, meu pai é aquele senhor mais... é o mineiro tradicional, então se você der um beijo nele… Para você tem ideia, meu pai era o tal de chegar assim, que falava mesmo. “Ó, homem é para colocar as coisas dentro de casa, trabalho, casa, cuidar e mais nada. O resto é com a sua mãe.” Então essa era a informação. E assim, as mulheres da época de fato faziam isso. Porque foram criadas dessa maneira e essa era a dinâmica de família. E o que a gente tinha, na verdade a gente tinha essa turma grande, você imagina, nove filhos, e assim, a diferença de idade é muito pouca. Eu falo que, mal, mal, minha mãe saía do resguardo e já estava grávida de novo. Essa mesma história, a minha avó também, por parte de pai, quer dizer, tanto por parte de pai quanto por parte de mãe, toda a família grande, falava assim: “é, velhinhas, vocês não sossegavam não, vocês gostavam do trem.” Elas falava assim: “não, a gente não gostava não, mas não tinha o que fazer.” E era isso. E ai da mulher se ela falasse alguma coisa. Enfim. Então, minha mãe tinha que dar conta da casa, do trabalho dela e dos filhos, porque essa era a função dela. E a gente aprendeu isso. E a convivência, o que eu acho legal, a convivência com família grande é porque você acaba tendo, assim, você tem os conflitos de família, que é normal, mas você tem muita unidade. Então, por exemplo, olha, eu não gosto do meu irmão, mas mexe com ele. Então, juntava todo mundo, “ah eu estou brigado. Então a gente tem, a gente tenta manter isso. É claro que com o tempo as coisas mudam, as coisas se transformam. Então assim, mas de maneira geral é isso, é o cuidado com o outro, é a preocupação, é de querer às vezes estar, é querer saber. Às vezes não precisa estar junto o tempo todo, mas sempre estar ligado no que está fazendo. Então essa foi uma relação muito grande. Mas a gente tinha uma diferença muito grande. Como eu contei anteriormente, nós tínhamos os quatro mais velhos da roça, então eles tinham muito mais unidade com eles lá, do que os quatro que nasceram na cidade. Tinha uma diferença. Tanto é que a gente falava que a gente se protegia. Às vezes juntava os quatro, quando brigava… Família não tem jeito, cara, tem briga, tinha discussão, e tinha trem. Aí quando juntava pai e mãe pra entrar, o meu pai entrar era pior. Meu pai falava assim: “a hora que eu chegar em casa você vai ver.” Para você ter uma ideia, quando ele falava isso, dava sete horas da noite e a gente já estava dormindo. Eram coisas que aconteciam, coisas de família. Os mais novos se juntavam, “não vai brigar não.” E juntava tudo para um defender o outro. Entendeu? Então, a relação era isso, era muito mais unido, muito mais próximo, a casa cheia, aquela bagunça na hora do almoço, na hora da janta, do café, aquela loucura. E, às vezes, espremido num espaço menor, porque hoje essa casa grande, às vezes, quatro, cinco meninos no mesmo quarto, dividindo tudo. A roupa era aproveitada, do mais velho para o mais novo. Então, assim, é isso. E a gente traz um pouco disso, eu especificamente, na criação, na minha origem, na minha raiz de família.
P/1: Falando de origem de família, você sabe a origem da sua família? A história dos seus avós?
R: Tem a miscelânea, mas eu sei que tem muito de italiano, espanhol e português. Então, são italianos, principalmente, tem uma descendência muito grande, possivelmente, dos imigrantes que vieram para cá, lá no início de 1900 alguma coisa, o final de 1800. Se você for pegar a origem, tem muito disso, a origem mais europeia desses países, se eu não me engano. Itália, Espanha e Portugal.
P1: E pensando nessas origens, vocês deviam ter alguns costumes familiares, sei lá, algum tipo de reunião, coisa parecida. Conta para a gente como que era esses costumes da sua família.
R: Então, eu acho que… Na verdade eu vou assimilar com a família italiana, quer dizer, os espanhóis também, de sempre, a hora do almoço, todo mundo junto. As festas, todo mundo junto, aquela coisa. Então, assim, tem disso. O italiano gosta, por exemplo, de festejar. Na hora do almoço é sagrado. Para você ter ideia, aqui em casa, quando o meu pai chegava ou no final de semana, ele sentava na cabeceira da mesa, e minha mãe tinha que pôr a comida pra ele, só depois que ele começasse a comer é que os outros poderiam comer. E é isso, aí cada um no canto. Então é isso, o que a gente tem muito de característica é isso. Falar alto também, de gesticular, de brigar. Essa história também, que acho que tem muito das famílias, mexeu com um, mexeu com todos. E é isso, posso não gostar… Então, acho que vem disso. E acho que o principal, a socialização no sentido de festa, na hora de almoço, todo mundo tem que estar junto. Então, a gente traz isso dessas… Eu acredito que são características dessas famílias de origem europeia, especialmente, italiana, espanhola e portuguesa.
P/1: Rodney, uma coisa que você não se lembre, mas talvez alguém tenha te contado. Seus pais te contaram sobre o dia do seu nascimento?
R: Ah, contaram. Tem uma história boa.
P/1: Como é que foi isso? Como é que o seu nome foi escolhido?
R: O nome, na verdade, eu acredito... Vou falar do nome primeiro. Quando começou a ter TV, passava sempre alguma coisa diferente. Eu vou te dar um exemplo. Robert. Pegou Robert Rockefeller, que ele chama desse jeito. Referência, me parece, se eu não me engano, um ator americano, se eu não me engano. Então, eu acho que essas origens, de Rodney. Possivelmente buscou isso lá fora, que achava lindo, bonito. Quer dizer, graças a Deus, poderia ser muito pior, que a junção de nome desgramado que a gente vê por aí, enfim... Então a gente tem... E a característica daqui de casa, assim, são os Rs. E aí eu falo que meu pai, pra não perder a conta de filho, ele colocou Marcos, que é a metade. Deu uma marca, “parei no Marcos aqui. E daqui pra cá, quem que é?” Então é tudo com R, igual eu falei. É Ronaldo, é Romério, é Rogério, Marcos. Ah, uma outra coisa. O Rogério, que é uma coisa de família também, eu não achava que ele era meu irmão, porque ele ficou na roça, ele não veio pra cá, ele preferiu ficar lá. Então ele foi criado pela minha avó, por parte de mãe. Então quando ele veio pra cá, causou estranhamento, porque a gente não achava que ele era irmão. Então tem essa história também. Aí, como eu estava dizendo dos nomes, depois vem Rosana, Robert, Roner, Rodney e Raquel. Então é isso. No meu caso, especificamente, eu lembro que eu até brinco. “Ó, gente, eu não sou filho do meu pai, não, eu fui adotado.” Porque, na verdade, ele não esperava… Hoje, o que você tem de tecnologia para acompanhar o nascimento de uma criança, não tinha naquela época. Então, assim, ele não esperava gêmeos. Tanto é que ele teve que sair correndo, porque quando a minha mãe entrou de trabalho de parto, aí tirou, saiu o Roner primeiro. Aí, de repente, a médica ou o médico, não lembro, foi lá falar para ele. “Senho Clovis, o Senhor trouxe roupa para o outro menino?” Ele: “que menino?” “Não, são dois.” Ele: “como assim?” “Não, são dois, pode voltar.” Ele saiu correndo pra comprar a roupa pra mim. E eu nasci cinco minutos depois. Eu lembro que eu nasci, inclusive, no Hospital Belo Horizonte, tinha outro nome, não sei se era Santa Mônica, não sei. Mas é onde é o Hospital Belo Horizonte. Eu nasci ali, se eu não me engano, nós nascemos pela manhã, pela manhã, por volta de 7, 7 e pouco, do dia 15 de fevereiro de 1971.
P/1: Bom, agora a gente vai falar um pouquinho sobre sua infância.
R: Sim.
P/1: Você lembra da casa e da rua onde você passou sua infância? Como que ela era?
R: Ah, demais. Onde eu estou, tem uns 54 anos que eu moro aqui. Então, assim, a casa é esse espaço que a gente tinha aqui, só que era embaixo. Essa casa de baixo aqui, que o meu pai comprou. O que era legal, aqui tinha quintal. Então, daqui pra baixo, logo aqui atrás, você vê que tem a mata do Planalto. Então, aqui pra trás, aqui a gente tinha quintal. Então, assim, a infância foi... Eu fui nascido e criado aqui. A rua era de terra, então, a gente descia, tinha uma casa aqui embaixo, mas só que assim, lá embaixo são dois, três quartos. O quarto do meu pai e da minha mãe, que era separado, e o resto era misturado. Juntava, tinha mais menino no quarto. E ele foi construindo. Depois ele começou a construir essa parte de cima, que demorou um tempo, até a gente mudar para cá. Então assim, a minha história está aqui, nesse espaço. Tanto é que eu tenho uma identificação muito grande com o bairro. Quando eu quis, por exemplo, casar, eu não queria sair do bairro, eu não queria ir para outro lugar, eu queria ficar mais próximo, até assim, para eu ficar mais próximo da minha mãe e do meu pai, já pensando lá na frente, que a gente também foi criado para cuidar dos pais no futuro, que é o que me preocupa hoje, com a criação dos filhos e o que a gente observa a quantidade de abandono dos idosos, dos pais, deixando de lado. Porque assim, à medida que a gente vai envelhecendo, tem um saber que a gente vai ficando, retornando à infância, a gente fica mais teimoso, a gente fica mais cheio disso. Então, tem uma série de coisas. Então, tem que ter esse cuidado. E hoje a gente percebe que a família, os filhos, transferem a responsabilidade para os outros. Contando da minha infância, eu estudei aqui perto, uma escola que existe até hoje, que é a Escola Municipal Lídia Angélica, que eu tenho uma história… Mudou muito pouco da época, acrescentaram algumas coisas, mas a gente ia para a escola a pé e voltava a pé. Inclusive, como eu disse, as ruas aqui eram de terra, e aí, quando chovia, o que a gente mais gostava era descer na enxurrada. Chegava aqui daquela maneira. Enfim, essa é a história que eu falo da minha relação com esse bairro, com as pessoas. A vizinhança aqui, todo mundo… Aqui, na verdade, tinha uma história que eu acho que é legal também contar, que é o seguinte. Aqui nós éramos os quatro branquinhos, que eram os quatro mais novos… Na casa de cima, como tinha muito lote vago, então as casas eram muito espaçadas. Tinha uma casa de cima, que tinha uma família também grande, e eram os quatro pretinhos. Então, tudo que tivesse aqui de bagunça, já sabia. “Ah, foram os quatro branquinhos e os quatro pretinhos. Sempre. Essa era a identificação. “Pode saber lá, foram os pretinhos lá de cima. Ou senão eram os branquelos lá de baixo.” Era essa turma. Então, assim, andava essa turma muito junto. E a vizinhança aqui, todo mundo conhecia todo mundo. Então, assim, a gente... Vizinhos fofoqueiros. Não, os vizinhos tomavam conta e levavam, tinham uma relação muito grande. A vizinha da frente aqui, quer dizer, a vizinha de 54 anos, a Dona Graça, essa Graça, ela criou a gente, ela criava a gente, ela vinha pra cá, ela conviveu muito tempo. Ela morreu. A pessoa que trabalha com ela, que é a Maria, é braço direito da minha mãe. E a Maria está com ela desde quando acho que a Maria tinha 12 anos, que foi pra lá pra criar, conviveu. E a gente trata a Maria como irmã também, como parte da família. A vizinha do lado aqui era a mesma coisa, aqui do lado era a mesma coisa. Hoje, é claro, isso modificou. O que eu acho assim na questão de modificação de relação com a vizinhança. Cara, tem situações que o cara mora num prédio e não sabe quem é o vizinho do lado ou de baixo. A não ser que tenha alguma coisa que pegue. Mas a gente tinha muito disso. Então assim, a família era aqui, a instrução era aqui, e era a mesma dada para os outros. E o que eu tenho muito orgulho de dizer que, claro, tem as exceções, mas, de maneira geral, essa turma toda da nossa criação, você não tem. E isso tem a ver também com a criação do meu pai. Meu pai falava assim: “tem duas coisas que eu vou pedir para vocês.” Falava sempre. “Não roube e não mexa com polícia.” Então, a gente tinha muito receio daquilo que desvirtuava do envergonhar pai e mãe. E aqui a gente pode dizer que, de maneira geral, todos da nossa época, da nossa criação, você não tem ninguém envolvido com droga, ninguém foi preso, todo mundo criou um caminho bem parecido com o da gente, de ter família e instruir, construir, ter essa relação de família.
P/1: E dá para perceber que a infância deve ter sido agitada nessa época.
R: Ah, menino. Sabe aquela história da gente dizer, só para terminar, assim: cara, não arrependo nem um pouco? Então, assim, só fazer também mais uma… Meu pai estava sempre construindo. Essa coisa… Isso era legal. E aí, o que ele falava para a gente, para ele não ver a gente à toa, por exemplo, na época, mandava a gente, por exemplo, tinha aqui um, chegava um caminhão de areia, estava no canto ali, pega essa areia, põe no canto de lá. Cara, dois dias depois, pega essa areia, volta pra cá. E era isso, então assim, pega as pedras ali, vai limpar o quintal, vai fazer alguma coisa. Quando tinha entulho, para aproveitar o entulho pra depois não desperdiçar, mandava a gente quebrar os entulhos. E tinha que ser pedrinha pequenininha, porque se fosse maior, aí o pau torava. E a gente trazia isso. E aí quando a gente ia pra rua, você ficava o dia inteiro na rua. Você só lembrava na hora de vir almoçar e olha lá. E aí a gente ficava aqui e saía a turma brincando aqui. Aqui pra cima, aqui tinha, onde é hoje a escola Maria Luísa Miranda Bastos. Ali era um lote vago, muito grande, porque não tinha muita casa. E o que acontece? Como aqui é muito baixo, a enxurrada toda descia de lá, e lá criou-se, cara, a gente chamava de buracão, que era o buraco da enxurrada. E era divertido você ir pra lá brincar o dia inteiro, você pulava dentro desses buracos e saía daquele jeito. E era rua o dia inteiro, era brincadeira o dia inteiro, e toda hora se inventava alguma coisa, era pular-corda, era polícia ladrão, era jogar bola na rua descalça, os dedos… Aí depois asfaltaram, começaram a asfaltar aqui, carrinho de rolemã, quantas vezes arrebentei o dedo, arrebentava. Então, é isso. Então, foi uma infância de fato daqui que a gente... A televisão, na verdade, só assistia à noite, e eram poucas as casas que tinham televisão. Aqui em casa, por exemplo, foi uma das casas que teve televisão, a vizinhança vinha e ficava na janela, a meninada para ficar assistindo. Ficava aquele monte de gente, ficava assistindo aquele trem lá. Mas, enfim, se tivesse um negócio bom para a rua, ia para a rua. Então, hoje a gente vê que é uma diferença muito grande.
P/1: Rodney, você falou antes que você não seguiu os caminhos do seu pai, os caminhos profissionais, que alguns dos seus irmãos seguiram, quatro deles. Qual foi o seu sonho profissional quando você era criança?
R: Cara, ser bombeiro, ou caminhoneiro, ou motorista de ônibus. Até policial, mas dirigir ônibus, ser bombeiro, era um sonho. Você via aquilo, achava legal, achava bonito. Caminhoneiro, vou sair daí para o mundo dirigindo. A gente gostava, porque a gente brincava muito… Quer dizer, o que menino, na minha época, recebia? Carrinho ou bola. As meninas eram boneca. Então, você tinha uma relação com isso e isso foi alimentando. Igual eu falei, nunca me despertou o interesse de ser marceneiro. Nunca quis ser marceneiro. Trabalhava, fazia, tinha obrigação. Que era outra coisa que tinha muito na família, obrigação. Você vai lavar a vasilha, você vai varrer a casa, você vai lavar o banheiro. E ai de você se não fizesse. Os mais velhos cuidavam dos mais novos, em muitos casos. Então, assim, era isso que a gente tinha. Então, a gente foi criado nesse sentido depois, com o tempo, e até porque é o seguinte, na época de escola, escola, na verdade, na minha época de formação, além de repassar aquilo que se precisava, o conhecimento, a escola trabalhava muito com a questão da família, da valorização da família. E pai e mãe não transferiam, nessa época, para a escola a responsabilidade de criar. Se a professora te chamasse na escola, você vinha apanhando da escola até aqui. E, assim, você tem que respeitar quem te ensina, quem te educa. Então era isso, a preocupação era isso. Então a gente ainda não tinha, para a gente tudo era novidade. E, de maneira geral, era assim, era seguir a profissão do pai, que era a referência que a gente tinha. Mas eu não queria, mas ainda assim não tinha... O que eu queria ser? Não sei, cara. Eu te falei, eu queria ser caminhoneiro, queria ser motorista de ônibus e sem desmerecimento nenhum pela profissão, sabe? Até porque hoje, mais do que nunca, eu falo, inclusive, falava para os meus filhos, falava com meus alunos, que depois eu me tornei professor, que toda profissão é importante, não importa em que posição ela está na sociedade, ela é importante. A questão do respeito, que eu aprendi. Respeitar a construção, a história de vida das pessoas.
P/1: Muito bom. E falando de educação, onde você estudou? Quais lugares?
R: Na verdade, você tinha, por exemplo, eu era de uma família, quer dizer, de origem muito humilde. Então, por exemplo, nunca fiz jardim, isso era coisa mais de elite. Então, a educação... Minha mãe é de uma família de professores, então o início do aprendizado foi com a minha mãe e depois a escola, cara. Então assim, sete anos na escola, e pegava firme. Já tomei muito beliscão de professora, e aquele beliscão do demônio, que você lembrava da professora pelo menos uma semana. E você chegava em casa, a mãe nem perguntava o que era, se você mostrasse aí, que você tomava mais ainda. Então, assim, estudei aqui pertinho, a gente ia e voltava a pé, que é a Escola Municipal Lídia Angélica, que existe até hoje. Meus meninos começaram a estudar lá, depois foram para uma escola particular. E quando eu saí dali, foi construído ali no Rio Branco, hoje existem outros bairros em volta, que a Escola municipal geral Teixeira da Costa, famoso Geteco. E junto do Geteco tinha uma escola do Senai, que a maioria das pessoas ali no entorno faziam cursos profissionalizantes no Senai. Principalmente cursos de mecânico, de torneiro, de marceneiro, de eletricista. E era uma coisa sensacional. A estrutura da escola colocava, essa era a referência, essa estrutura de escola colocava muita escola particular de renome, por exemplo, as famosas Loyola, Pitagoras, punha no bolso. A briga do Geraldo Teixeira da Costa era com o Colégio Municipal, com o Estadual Central, porque eram escolas de formação. E nessa escola especificamente, Geraldo Teixeira, nós tínhamos… E aí precisa falar assim, como um professor, uma pessoa que marca a sua vida. Nós tínhamos lá uma diretora que se chamava Márcia. E uma coisa legal que a gente fazia. Primeiro, uniforme, camisa, calça azul marinho, azul tergal, sapato vulcabrás. Na época da escola aqui do Lídia Angélica era conga, a famosa conga. E era um short azul e uma camisa branca com o símbolo da escola. Todo mundo uniformizado. Tinha que estar. Uniforme impecável. Uma coisa que tinha na escola, que eu lembro muito, A gente fala que era aula de higiene pessoal, cortar cabelo, cortar unha, ouvido. As professoras tinham essa preocupação. No Geraldo Teixeira, para voltar à época de Lamarca, a gente tinha lá a tal da hora cívica. Então, assim, a gente brincava, ou a gente faz essa referência, que era igual um general. Ela chegava, o Geraldo Teixeira tinha uma quadra muito grande, o prédio anexo, e aí juntava, isso tanto de manhã quanto à tarde, juntava todo mundo na quadra, todo mundo perfilado para cantar um hino nacional, e tinha um hino da escola, acho que tinha um negócio que chamava de hora cívica. E aí, assim, um silêncio. Imagina, mais de 500 alunos, porque acho que a escola tinha mais de 3 mil alunos nos três turnos, que era manhã, tarde e noite. E, assim, silêncio. Ela chegava com os outros professores, você não viu um pio. Enfim, quando a gente ia para a sala de aula, enfim, meninada não deixa de ser criança, junta, aquela coisa. Ela chegava no corredor, fazia assim... limpava e você não ouvia um pio. E ai do aluno que atrevesse levantar a voz para Dona Márcia. E assim era com todos os outros. São escolas que eu estudei, tanto o Lídia Angélico quanto o Geteco, que lá tem muito da minha formação, tem referência nessas escolas.
P/1: Você lembra se quando você chegou na escola pela primeira vez, você se sentiu acolhido, acuado? Como é que foi isso?
R: A gente não tinha muita escolha. Então, sabe aquela situação assim… Você ia para a escola, a mãe falava assim, se você chorasse, “engole o choro, vai!” E aí, cara, você vai experimentando, porque tudo é novidade. Eu falo assim, essa questão de... Eu acho que não era problema de socialização, porque a gente vivia muito na rua com todo mundo. Então, na escola, era só mais uma turma. O que tinha, na verdade, era você menino, criança, nessa época, juntava muito rápido. E tinha os maiores que queriam brigar com os menores, roubar o lanche dos menores, tinha isso. Tinha muito bullying, que hoje chama bullying. Mas tinha muita sacanagem. E você ia repassando isso, era coisa que a gente também aprendia. Hoje é um negócio absurdo, mas tinha. Tudo. Uma coisa que é muito legal, que eu acho assim, não tinha distinção de cor de pele. Era amigo, era amigo. E outra coisa, não importava... Na verdade, o que a gente tinha, às vezes, era assim, um aluno que tinha uma condição de vida melhor, a gente chamava assim: “ah, aquele menino é riquinho! Olha, tá comendo maçã. Olha, tá tomando Yakult.” E aí, isso gerava, porque não era a realidade de todo mundo nas escolas municipais. Mas, enfim, era isso. Então, você não tinha muito problema. No Geraldo Teixeira, quando eu fui transferido, quer dizer, eu tinha a opção de escolher o Geraldo Teixeira ou tinha a opção de ir, acho que para um municipal. O Teixeira era muito mais perto. Falei: ah, vou para o Geraldo Teixeira. Então assim, o que me assustou foi a quantidade de gente lá. E teve uma coisa que especificamente aconteceu comigo, na quinta série, a famosa quinta série, eu era assim… Você fica meio acuado, não é que eu não era acolhido, mas você fica meio assim. E tinha um menino, que ele era já mais esperto, mais vivido, ele era da comunidade lá, e o que acontece? O menino tinha a fama de roubar merenda, mexer, e tinha o tal de dar um tapa na cabeça da gente, na nuca, e dar uns peteleco na orelha. Então assim, minha mãe sempre, “não brigue na escola, não faça isso.” Mas tem hora que não dá. Eu lembro disso, que esse menino se chamava Rogerinho, nunca mais, assim… Eu lembro do nome, mas se você me perguntar como ele é, onde é que ele tá, não sei. Eu lembro que ele vinha e me dava um tapa, e a gente andava sempre com o cabelo lá na escola, principalmente, cabelo cortado, unha feita, e dava um tapa no meu pescoço, ou roubava minha merenda. E eu lembro que eu revoltei um dia. Esse menino me deu um tapa, falei: ah… Ia falar uma palavra, mas não posso. Isso não vai ficar assim. E sentei a mão no menino. E o que resolvia muito. Aí ele se sentiu acuado. “Opa, peraí, está reagindo.” Cara, depois acabou. Depois acabou. Juntou e aí virou até amigo. Então, assim, era o que tinha. Então, você tinha essas questões. E professor, de maneira geral, o professor tinha mais cuidado de acolher, de te mostrar as coisas. E o professor, ele tinha uma preocupação, na verdade, o professor, ele tem, o cara que se dispõe a ser professor, ele tem esse cuidado, de querer te mostrar o que é bom, o que é referência, o que é interessante, o que pode te ajudar. Então, assim, ele tem essas questões. E na escola tinha isso. Só que o que você tinha muito mais, além do respeito, você tinha, às vezes, um pouco de medo, porque se você fizesse ou falasse alguma coisa que fosse contrário, você chegava em casa, se anotasse na caderneta... Então, a gente tinha muito esse... a questão do… chegar em casa vai estar me esperando. Então, é isso. Mas, assim, escola, para mim, nunca foi problema de nada.
P/1: Rodney, a gente hoje fala muito sobre arquitetura inclusiva, que é o espaço que precisa ser adaptado, a realidade de todo mundo, em termos de diversidade. Como é que era a escola, a sua escola?
R: Na verdade, na escola, você se adaptava ao que já estava lá. Você não tem essa história de... Ah, a escola tem que se adaptar a você. Porra nenhuma! Você se adaptava ao que estava lá e era a regra. E não tinha um tal de assim... Mas você não tinha que questionar. Não tinha um questionamento. Quem é você para questionar? O ensino é assim, é desse jeito que funcionam as coisas. Então você faz favor de cumprir. Era o tal de cumprir as regras e entender que funcionava dessa maneira. Então não tinha questionamento. Qual era a função da escola? Formação. Então, a escola já tinha o seu sistema e você se adaptava a ele. Eu, na verdade, desconheço. Vou dar um exemplo. Uma pessoa, por exemplo, hoje fala muito no autismo, que é uma questão problemática de adaptação de escola. Cara, pode ser até que tinha isso, só que isso não era evidenciado. Porque assim, era todo mundo igual. Então, assim, não tinha um direcional. Aí eu não posso falar como era a formação do professor para esses tipos de coisas. Ou senão o que fazia? Direcionava para uma escola especializada, talvez. Porque a gente não lembrava disso. Uma coisa que também tinha, que na verdade não tinha, pessoas com algum tipo de deficiência. Eu não lembro, cara, da minha época de ter... Ah, teve um cego, teve um cadeirante, teve uma pessoa com... Não lembro, não lembro, assim... Possivelmente essas pessoas não tiveram a formação em escola. Porque eu não lembro, assim, de fato. Você me pergunta assim, tinha cadeirante? Cara, na minha época, não lembro de um. Não lembro. “Ah, tinha uma pessoa com algum distúrbio?” Não lembro. Até porque quando, por exemplo, o aluno que era problemático, cara, não tinha meia história, era expulso da escola. “Ó, filho, aqui não é ambiente para você". Avisava a família e a família também não questionava, não. E aí, enfim, a gente não sabia, de fato, como era isso e qual era, na verdade, essa formação. Mas, então, essa adaptação. Cara, você se adapta, pronto, acabou. Aqui são as minhas regras. Ponto final.
P/1: Você enfrentou algum tipo de preconceito naquela época?
R: Ah, nada. Acho que nem existia essa palavra. Igual, bullying, cara, eu sofria para cacete, eu era pequeno, era menor. Aí o que você impunha? Ou da força ou do jeito. Era ter o cara do seu lado. Então, assim... Não tinha, cara. Na verdade, a gente não dava importância pra isso, porque você convivia com pessoas que eram mais ou menos do seu mesmo nível. Igual eu tô te falando. Você tinha, por exemplo, que hoje é a forma que você passa, “ó negão!” Cara, mais isso… Careca. Gordo. Às vezes falava, “ah, fulano de tal... Mas tava todo mundo junto. Então assim, eu acredito que por algum motivo as pessoas não podiam sofrer por causa disso. Sabe uma história assim: “menino, você está chorando por quê? Vira homem. Homem não chora, não.” E é isso, cara. Então, assim, eu fui criado para eu não chorar. Se eu chorasse, eu ia apanhar. Então, eu não tinha que chorar. Eu não tinha que… Entendeu? De novo, eu não tinha que questionar o que estava lá. Não tinha questionamento. Cara, você está aqui para... Ah, mas... Você acha o quê? Você não acha porra nenhuma. É isso. Então a gente não questionava. Tinha um professor lá, só pra você ter uma ideia, um professor de matemática. A gente chamava ele de Alemão. Ele era alto, olho claro, branquelo. O cara era igual a um general, também. Eu estou tentando lembrar o nome dele. Mas o cara era... Ele chegava… Só dava o recado. Você não ia questioná-lo. Pronto, acabou. Era isso.
P/1: E você se lembra de alguma amizade importante naquela época?
R: Cara, eu tenho uma turma do JETEC, até hoje a gente convive. Não todos. E são pessoas que a gente sempre está junto, a gente está conversando, falando. Hoje são pais, são donos de empresas, são pessoas bem-sucedidas, e que a gente traz isso. Na época de escola, aqui no bairro, na verdade, quando a gente se encontra, “a gente estudou junto.” Outro dia mesmo, eu encontrei com um cara aqui no bairro, que por muito tempo eu não sabia. A gente tinha estudado junto. Então, assim, de maneira geral, as pessoas do mesmo bairro, os vizinhos estudavam tudo na mesma escola. Então, você tinha muito contato dessas pessoas. E aquelas que era o normal, com você, de convivência, você mantém. Então, você se espelha nessas pessoas. Por exemplo, eu tinha... Para você ver como é engraçado. Eu tinha um amigo dessa turma do Geraldo Teixeira, cara, todo dia que ele chegava contando a história, porque ele morava, em um bairro que a violência lá, não é que ela era comum, mas a violência lá era assim, os caras tratavam assim: “ah, fulano de tal lá, cara, outro dia apareceu com uma chave de fenda fincada no olho.” E contavam essas histórias, cara, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Então, assim, mas a gente não tinha essa distinção, “ah, porque o cara morou ali.” Na verdade, assim, tinha alguns bairros que a gente falava assim: “ah, o cara é lá do Santo Mais. Esse cara é mais perigoso.” Por causa da comunidade, a gente tinha algumas referências, mas, enfim. “Ah, fulano de tal mora lá no Floramar.” Porque tinha, hoje ainda tem, mas tinha mais, assim, o pessoal do Jaraguá vinha para cá para brigar com o pessoal do Planalto, o pessoal do Campo Alegre aqui embaixo vinha… Então, assim, o pessoal meio que tinha essas questões. Mas, assim, na escola, amizades, aquelas que a gente fez, a gente sempre encontra, a gente sempre está junto, a gente sempre conversa. Então, essas pra mim são amizades importantes, sabe? Inclusive, eu tenho uma professora até hoje, professora de ciências, dona Adelaide, encontrei com ela recente, senhorinha lá, maravilhosa, lembrou de mim. Enfim, foi diretora da escola, e uma coisa que ela falava assim: “menino, você era muito levado.” Enfim, lembrava, das histórias. Mas a gente nunca foi desrespeitoso. E não lembro, só para dizer, não lembro de um aluno partir para cima de um professor. Não tinha isso, cara. E as professoras, na verdade, elas eram mais bravas porque a professora sempre era o reflexo da nossa mãe, porque as professoras eram mãe também, então… E ela sabia, então, as frases eram até as mesmas. “Ah, menino, se eu te pego.” E por aí vai.
P/1: Rodney, e aí depois desse período, como é que você seguiu com a sua formação?
R: Então, terminei o segundo grau. A minha referência era a UFMG, eu já queria ir, já tinha a Federal. A gente nem falava UFMG, a gente sempre falava federal. A federal tinha um vestibular que era uma coisa, que hoje eu vejo com bons olhos, mas as escolas não tinham... Por exemplo, o que tinha na escola, para você meio que encaminhar, era a polícia ir lá falar de curso para soldado, para você entrar para a polícia. Ou um amigo meu, por exemplo… Eu falo se tem uma coisa que hoje você se arrepende, um amigo meu me chamou para fazer uma prova da CEMIG, a prova mais simples. Ele fez, passou, hoje…. Quer dizer, deve estar aposentado, inclusive. Ou, por exemplo, se eu tivesse entrado na polícia, porque não tinha muito critério. Hoje, pra você entrar na polícia tem que ter curso superior, e de preferência na área do direito. Uma outra coisa que a gente tinha também era o exército. Eu queria muito pegar o exército, queria. Porque um amigo meu que pegava e contava as histórias. E o que tinha pra gente era essa formação do exército, mas no sentido de te formar homem pra vida. Não era no sentido de ordem, de... Não. Era de, “olha, cara, você vai ter uma formação, você tem possibilidade de trabalhar lá, e você vai virar gente.” Então tinha isso. Só que eu não peguei o exército. E olha que eu pedi várias vezes pro cara, “não, eu quero pegar, eu quero pegar.” O cara falou, não. Acho que ele falou, você não tem nem tamanho pra isso. E aí eu não peguei. Então, assim, a minha escolha, quando eu fui para o Federal, foi fazer, foi descobrir as coisas, foi fazer direto, a formação era tão boa que eu saí para fazer vestibular. Na Federal tinha duas fases, a primeira etapa e a segunda etapa, e eu fiz para comunicação social, mas sem saber, de fato, o que eu queria. Então, assim, o que o meu pai queria era que eu fosse administrador, para administrar a empresa. Mas não era o que eu queria, não era o que me interessava. Não questionava, mas eu falava. Na verdade, já nessa época, “não, não é isso que quero.” Aí eu fiz o vestibular. Eu lembro que eu fiz 59 pontos na primeira etapa e passei para a segunda, era 60. Mas não passei. Eu fiquei um tempo... Um tempo, digo assim, talvez dois, três anos, sem tentar, trabalhando aqui com o meu pai, na oficina, a gente trabalhava, acordava, tinha, cara, acordava cedo, ia pra oficina, uma das coisas que a gente tinha aqui também, que era todo final de semana, a oficina tinha que estar um brinco. Era limpar tudo, organizar. As máquinas tinham que estar todas lubrificadas e sem um pó. Meu pai falava assim, ó, a pessoa tem que chegar e ver que o seu meio de trabalho é o mais organizado. Todas as casas, quando a gente fazia reforma, tem duas coisas que ele falava. “Não mexa em nada. Se você for tirar qualquer coisa, avisa e põe no lugar. O que você ver não é seu, não pegue". Então assim, nem precisava completar a frase. Era isso. E o que a gente sempre deixava, o ambiente organizado. Falou assim, é isso. Então, com o tempo, me deu vontade de sair. Pai, não quero isso. Lembro que eu falei com ele. O Robert foi o primeiro a fazer um pré-vestibular e fez curso superior na UFMG. E ele falou assim, hoje eu posso falar indiretamente, foi uma inspiração, ele falou, vou buscar alguma coisa de formação, porque também, hoje ainda se fala, mas se falava muito mais, não deixe de estudar. O estudo é que vai te fazer uma pessoa diferente na sociedade, vai te colocar, você vai ser respeitado, você vai ser famoso, você vai ser alguém. E era isso, quanto mais conhecimento, melhor. E aí eu falei com ele, cara, não vou fazer administração. Porque eu tinha pedido pra ele na época pra me ajudar com o curso pré-vestibular. Ele falou, não vou te ajudar. Falei, então vou procurar emprego e vou correr atrás. E nisso, eu fui trabalhar na oficina mecânica, saí de lá, fui trabalhar com um amigo que me chamou. E meu pai até parou de conversar com esse amigo meu, porque ele fala que esse amigo me tirou daqui, para trabalhar com ele lá no escritório de... Eles mexiam já com programação, eu era boy, rodava a cidade para tudo quanto é lado, e a perna, batia uma canela que era uma beleza, para entregar documento, andava de ônibus. Maior medo era me perder na cidade. Então tinha isso. E aí, eu lembro assim, encurtando a história, que surgiu o pré-vestibular, e surgiu o cromos. O cromos veio assim, cara, ele tirou os professores de escolas tradicionais, que era, na época, o pré-vestibular Pitágoras, que era muito forte, ali no centro, do Promove, tirou muito professor. E aí, cara, me interessei de ir para essa escola para aprender e me preparar para o vestibular. Aí eu lembro que eu tinha saído do emprego, eu cheguei lá no pré-vestibular, Hélio era o professor que era responsável, diretor de educação, ou diretor administrativo do pré-vestibular. Eu lembro que eu cheguei lá com a cara e a coragem e falei assim: “ó Hélio, eu não tenho condição de pagar o cursinho. O que eu posso te oferecer é o seguinte: eu troco o meu trabalho pelo estudo.” Ele falou assim: “pode vim, ué! A gente está precisando de alguém na livraria aqui, aí você fica aí.” Falei: “tá bom!” E aí, cara, ele me deu essa oportunidade. E já no primeiro mês ele falou assim: “não, a gente vai te pagar um salário…” Era salário mínimo. “E você vai estudar, você tem direito a uma bolsa.” Aí que eu fui saber o que era bolsa. Então eu estudei no pré-vestibular um tempo, e trabalhei um tempo lá, até tentar vestibular. E aí, duas coisas, depois eu tinha desistido da comunicação, porque ainda não tinha essa separação de jornalismo, de publicidade e relações públicas, que eram os três cursos da comunicação. Por exemplo, na Federal era comunicação social, lá no quarto período é que você escolhia uma área para ir. Aí eu lembro que eu não sei porque eu fui tentar na Federal geologia, que eu achava que tinha a ver com a área de humanas, que acho que é uma área que eu me identificava. Na hora que eu descobri que não tinha nada a ver… Que assim, eu passei na primeira etapa, fui para a segunda. A segunda era matemática, além do português, era matemática, física e química. E aí a gente vai aprender um negócio, 0,25 pontos faz uma diferença absurda. E o curso de geologia da Federal nem era o mais concorrido, não teve nenhuma desistência.
P/1: Porque acabou passando um pouco, saltando a parte da juventude, você já está quase fazendo faculdade. Mas isso aí, obviamente, vai ficar ainda. Mas só voltando um pouquinho na sua história, cara, assim, você passou a sua juventude toda aqui mesmo, em Belo Horizonte?
R: Toda. Assim, nunca saí de BH pra nada, assim. O que a gente fazia era viagem pro interior, de ir pra roça, ir lá pra casa de vó, mas foi toda aqui. Então, assim, porque a gente tinha muito. Brincar aqui, jogar bola na rua, jogar bola no campão ali e trabalhar com meu pai. Então, a juventude é isso. A minha juventude, além do período de formação da escola, foi isso. E logo depois eu comecei a trabalhar. Então, foi trabalhar assim, por escolha, por correr atrás. Ah, tem uma coisa que eu esqueci, que faz parte da minha juventude. Eu fui professor de crisma durante, acho que 25 anos. Eu sempre trabalhei com crisma. Era uma coisa que eu tinha da igreja, da religião. Eu sou católico. Eu era católico, apostólico romano e praticante. Hoje eu continuo sendo católico, apostólico romano, não tão praticante, mas tenho ainda a crença no catolicismo como minha referência de religião. E aí eu fiz a minha primeira comunhão, que era importante fazer a primeira comunhão para poder comungar, confessar os pecados. E me encantei pela possibilidade de trabalhar com um grupo de jovens, de instruintes. Eu já tinha essa… Isso me ajudou muito, até em formação. Porque também é algo que me despertou. Eu falo que eu gosto muito de história. História de vida. Isso fez com que... Sabe o tal do preconceito? Fez com que eu não tivesse… Assim, na verdade todos nós temos um preconceito. E, enfim, aí cada um interpreta do jeito que quer. Mas no sentido de eu não fazer distinção de pessoas, porque cada um tinha uma história de vida. Então, eu dava crisma para pessoas de um poder aquisitivo melhor, dava crisma para pessoas de comunidade. Outra coisa que a gente fazia muito, e eu acho isso que a igreja também faz, é de te levar, por exemplo, lembra das pessoas deficientes? Você lembra que eu não tinha essa ideia. Aí me lembrei agora. Tem aqui a escola Caminhos para Jesus, que é uma referência muito grande, uma instituição que acolhe pessoas com uma… Vamos falar infinidade, porque são vários problemas, pessoas que têm deficiência mesmo motora, dificuldade de lidar. E assim, são aquelas crianças ou aquelas pessoas que ninguém quer, tirando mãe, principalmente mãe, que larga tudo para cuidar. Para ela falar assim: “olha, você vai comigo até o fim da vida, não importa o que você...” Porque assim, é difícil você ver um pai que faz isso. Na crisma, a gente teve um colega que foi até, depois ele virou catequista, que era um cadeirante, e que o pai carregava ele para tudo quanto é lado, fazia isso. Depois ele se formou. Então, assim, isso, hoje eu posso dizer isso, porque eu tenho ciência disso, me fez ter um trato com as pessoas sem distinção, cara. Então assim, “ah, você está falando isso da boca pra fora.” Não, a gente tem as nossas… Eu falo assim, as nossas recaídas, que é as nossas brincadeiras. E na verdade, por exemplo, se eu chegasse e falasse, “ô negão!” Cara, você ia falara, “ô branquelo!” E estava tudo certo, velho. Ninguém levava isso pro coração. Que era, que é comum. Então assim… Mas não tinha, por exemplo, o desrespeito com o seu pai, com a sua mãe. Não fazia com que diminuísse nada, não fazia diferença, muito pelo contrário. “Ah, você não tem comida. Ah, vamos lá pra casa.” Quantas vezes vinha pra cá e comia todo mundo junto. Ou ia pra casa aqui do… Lembra dos quatro pretinhos? Cara, eu ia direto pra lá pra comer fubá suado, que a mãe dele fazia. De manhã, era um café reforçado, muito bom. “Ah, vamos lá.” Sentava todo mundo no mesmo espaço, no mesmo lugar. Então, assim, essa juventude minha já era uma tradição. Assim, como criança, era escola, foi trabalhar, era isso, não tinha muita coisa. Ia trabalhar, trabalhei com meu pai e depois fui pra lá. E tinha, por exemplo, a crisma foi algo que me ajudou muito.
P/1: E quando você começou, assim, a sair sozinho para dar um role? Com quem você saia? O que você fazia naquela época?
R: Cara, eu sempre fui caseiro, nunca fui de sair, sair de… O que a gente ia muito… Por exemplo, eu não saía daqui para ir para um bairro do outro lado, pra… Não ia. O que eu ia aqui era… Por exemplo, nós tínhamos ali, do lado do Geraldo Teixeira, do Geteco, tem lá o Sagrado Coração de Maria, que era uma instituição, hoje está mudado, mas era assim, só de meninas. E lá tinha uma festa junina muito massa, a gente adorava festa junina. Aqui no bairro teve uma festa junina muito conhecida, que é a Força da Mandioca, e tinha também da Dona Queridinha. Então, os lugares que a gente frequentava era isso. Então, assim, para sair, eu nunca fui muito sair. A gente fazia as coisas muito por aqui mesmo, festas nossas por aqui. Aí, o que a gente saía, por exemplo, as barraquinhas. As barraquinhas da igreja, a barraquinha muito conhecida, a Força da Mandioca. Eu ia pouco, inclusive porque tinha que ou ir a pé, porque não tinha carro, ou pegava ônibus, que era lá no Sagrado Coração de Maria, a festa junina que tinha lá, que era muito bom. Era mais aqui. Então, eu, de fato, não era de sair, de sair para dar esse rolê. Para você ter ideia, cara, cinema, eu fui uma vez ao cinema, assim, há muito tempo. Eu lembro que tinha ali na Afonso Pena, você tinha o Cine Royal, que era quase ali esquina com Curitiba, o Cine Brasil, o Cine Tamoios e tinha alguns cinemas que eles pediam pra gente não ir, que era principalmente o Cine México, o Cine Candelária, aquele cines ali pra baixo ali, que era... E principalmente tinha a fala assim… Porque aqui na região, as famosas briguinhas de turma, de gangue. Fala gangue, enfim. O pessoal brigava, a vizinhança daqui com o de lá, mas era isso. Mas eu sempre fui mais caseiro, eu sempre fui mais... Nunca fui de dar os rolê longe, fazer isso, fazer... Não, não tinha muito disso, não. Por escolha mesmo.
P/1: Rodney, e aquela danada daquela pergunta, e as namoradinhas, Rodney? Como que era?
R: Cara nunca fui namoradeiro, nunca. Eu acho que o primeiro beijo fui da lá na roça, entrar no mirim, e achei o negócio mais esquisito do mundo, cara. Porque, na verdade, assim, pegar na mão já era... Isso assim, estou falando na minha época, cara. A gente ficava aqui, para você pegar na mão, para você olhar, olhar a menina diferente assim, aí você ficava todo sem graça. E quando você olhava uma pessoa beijar, você ficava olhando assim, menino, e falava: “nossa senhora, olha lá, que trem esquisito.” Nossa senhora, a gente achava esquisito, porque na verdade, a gente não tinha orientação de formação sexual. Não tinha, velho. Só aprendia na prática. E aí eu lembro que o meu primeiro beijo, que a hora que a menina me deu um beijo, enfiou a língua na minha boca, eu falei: “uai, não sei beijar não, que porra é essa?” E saí todo esquisitão, assim. Então, assim, eu tive poucos, poucos namorados. E é isso, assim. Então, foi lá no interior, na roça que eu tive, depois tive uma outra aqui, e depois... Ah, que eu lembro, assim, eu conheci a Kely, lá no UNBH, já estudando, casei, e é isso. Não fui... Eu não tenho um currículo, assim, pra falar quantas, peguei, peguei, peguei, peguei, não. Não tem nada de peguei, peguei, não. Talvez até um pouco pela formação do trabalho na igreja, sabe, de seguir aquela linha de... E eu falo assim, também não é... diria-se... como o povo fala, não querendo me engambar, mas por essa formação religiosa… Por exemplo, na igreja, eu trabalhava assim, eu tinha lá 16, 17 anos, e sempre teve essa história das meninas se interessarem pelas pessoas mais velhas. Professor, então, era um negócio que até hoje carrega isso. Até hoje carrega isso. Mas eu lembro que na crisma, como eu trabalhava com as meninas entre 12 e 16 anos, é aquela fase que a mulherada ficava assim… Não do jeito que é hoje, que é muito mais aberto, relacionado às coisas. Mas as meninas ficavam loucas. Então assim, eu tinha oportunidade de ficar com as menininhas? Tinha. E o medo que eu tinha de fazer alguma coisa e prejudicar a vida. Então tinha essa preocupação. Igual já aconteceu. Aconteceu de um catequista, ele se envolveu com a menina, porque é algo que a gente não tem controle, essa relação com o outro, essa atuação. Enfim, engravidou uma menina de 13, 14 anos. A menina foi expulsa de casa, foi abandonada, o pai queria matar o cara. Então assim, porque era uma coisa de formação. Olha, você só pode ter relacionamento depois de 18 anos, você tem que casar. Era isso. Então assim, e a gente foi criado dessa forma, né? Mesmo sabendo, quando tinha, a gente falava assim, as meninas mais assanhadas, que a gente usava. Hoje isso é muito, “olha a piranha.” Aquela menina que… Às vezes nem era, cara. Às vezes, assim, era uma menina que talvez pelo tempo, pela época, ela entendia que ela era mais livre. Não sei se se pregava isso. Mas que estava no meio de todo mundo, gostava de ficar só no meio dos homens. E a gente tinha, às vezes… Aí sim, tinha essa mania de taxar as coisas. “Ah, aquela é piranhuda, aquela é vagabunda.” Não sei o que lá. Não sei, acho que até mesmo para evitar. Porque a gente também não, assim, nessa transição não tinha muito conhecimento e falava o que os outros falavam. É isso.
P/1: E aí parece que você teve uma juventude até mais tranquila do que a sua infância. Que a infância foi de muita gente, não? E qual…
R: Mas a juventude também sempre foi meio de muita gente, mas sempre as mesmas pessoas. De criança para cá, todo mundo cresceu junto, então todo mundo estava junto. Para você ter ideia, essa ideia da crisma, aqui da rua nós tínhamos quase dez pessoas que faziam a crisma. Então eram as mesmas pessoas que a gente convivia o tempo todo. E aí cada um foi seguindo o seu caminho.
P/1: E quais são as lembranças mais marcantes que você pode trazer dessa época?
R: Dessa época, uma delas é essa, da crisma, de eu ter a possibilidade de ensinar e de ouvir muita história. Hoje eu tenho essa consciência. E tem uma também que é uma lembrança marcante, que eu lembro que falar ao público, era um trem que era um absurdo. E aí, na crisma, tinha um momento que a gente tinha que ir para a frente, no altar, e cada um ler uma parte da oração. Aí eu lembro que estava chegando assim, enfileirou a gente, na hora que chegou na minha parte, eu peguei o cara e passei para o meu lugar, e o cara leu de novo a parte dele. Então assim, meio que currava disso. Mas tem uma outra coisa dessa, de escola também, a turma que a gente conhecia. Então, assim, os trabalhos, as brincadeiras que a gente fazia, acho que é muito isso, essas brincadeiras, essas coisas que a gente tinha, que me traz muito da turma ser a mesma. Uma coisa que a gente fazia, lembrança, vizinho aqui, hoje a gente… Lembra que eu falei que em casa tinha quintal? Cara, aqui tinha pé de manga, tinha pé de abacate, pé de goiaba, pé de ameixa. Mas do vizinho que era mais gostoso. Aí aqui na frente aqui tinha um vizinho que tinha um pé de goiaba. Cara, a goiaba dele era muito gostosa. E ele odiava que a gente roubava as goiabas dele. Então assim, de criança, quando... Sabe aquela história assim, se você apelar é pior. Então a gente fazia tudo, principalmente à noite, cara, ir lá pra roubar a goiaba. E fazia guerra de goiaba. E a gente tinha um combinado, essa guerrinha de goiaba, ela tinha que ser só com as goiabas muito maduras, pra não machucar. Mas isso nem sempre prevalecia, cara. Às vezes, quando um que a gente não gostava, a gente pegava a goiaba de vez, e dava uma cacetada, cara, arregaçava a pessoa. Ah, tem uma outra coisa de infância que eu lembro. Meu pai, eu trabalhei com ele muito tempo aqui na oficina. Esse prédio que tem do lado aqui, não tinha, era um lote vago. Então, assim, aqui pra trás aqui era o Conjunto Marilene, que faz parte da Mata do Planalto e da Granja Verde, que é um condomínio que já existia na época. E o meu pai, combinado com o cara que era dono aqui, ele usava esse lote. Ah, pode usar aí, um dia que a gente precisar, enfim. Que é uma outra história. E aí, a serragem que era produzida, a gente jogava no lote. Jogava no lote aqui e ia acumulando. Aí o que a gente fazia. Aqui tem uma máquina que chama Serra de Fita. De vez em quando essa fita arrebentava, a serrinha. A gente pegava aquilo e juntava assim, fazia armadilha e jogava, e punha essa serra de fita lá embaixo pro povo pisar e o trem dar uma lambada e arranhar a perna. E aí eu lembro que a gente fazia isso muito aqui e achava mó graça quando alguém caía. E o que acontece? Onde é a cidade administrativa era um centro hípico ali do Sesc. Tinha ali uma pista de cavalo. E o pessoal vinha pra cá, eles buscavam serragem para colocar nas baias dos cavalos. Aí eu lembro, uma vez… Aí, assim, a gente fazia, espalhava aqui, assim, de sacanagem mesmo, pra você ver os meninos caírem. E eu fiz, tinha um corredorzinho assim, que a gente passava perto do mato e jogava pra trás. E eu fiz, cara, uma armadilha, assim, na entradinha, porque não tinha outro lugar pro cara passar, o cara tinha que passar ali e ia cair. E aí meu pai punha madeira aqui na porta, acumulava madeira aqui pra trazer pra dentro. Aí eu tava indo pra escola de uniforme, nessa época eu até ia de especial. Aí eu sentado na madeira assim, eu vi o cara no caminhão chegando. Aí eu já olhei, já comecei a imaginar. Falei, cara, ele vai pisar ali, ele vai cair, aí ele vai arrebentar. E eu não vou falar nada, vou ficar quietinho. Eu lembro disso, cara, porque o cara era gago. Ai… “O meu Deus do céu, Deus castiga.” Eu só vi o cara vindo assim. Aí ele com o cestão assim, carregando o cesto, cara, de repente ele vai, pisa, afunda, o cesto rola, vai lá embaixo. Aí eu já comecei a rir. Aí o cara, eu vou, eu vou, eu vou, eu vou, eu vou, ti, ti, ti… Cara, para que ele foi gaguejar perto de mim? Aí só piorava, velho. Enfim, o cara podia ter quebrado a perna, machucado. Então assim, é coisa de meninos da época. E o cara assim: “eu vou contar pro seu pai, vou contar pro seu pai.” Eu sei que eu entrei no especial, não quero nem saber que história que esse moço vai contar. Então assim, isso marca a gente. Os carrinhos de rolimã que a gente andava aqui, você falou coisas que marcaram a minha juventude. Decide carrinho de rolimã. E mãe sempre falava… A gente descia e dava os peões. De vez em quando, nesse peão, a rolimã ia no asfalto, que estava mais quente, e a gente chegava ralado em casa. E aí, assim, ralado de ralado mesmo, com o asfalto grudado na pele. Hoje tem, mas acho que é menos, merthiolate. Aquilo era o terror, aquilo era o demônio para todo mundo. E tem o tal de sabão-rio. O sabão-rio, vermelho, a minha mãe lavava e esfregava. “Você precisava aprender.” Aquilo a lágrima corria. Nossa! Então assim, isso também é algo que marcava. Fora ponta de dedo, que de tanto chutar, arrebentava tudo aqui na rua. Então, assim, é isso. São coisas que marcavam muita gente. Você falou de… Eu lembrei, tocar campainha e sair correndo. E, às vezes, a gente assim, as casas mais chiques, que tinha interfone, a gente comprava garrafão, bombinha, garrafão, acendi e tocava. Só pra ver o trem estourando. Então, assim, coisa de menino na época, que hoje você fala, pô, se fizer isso na minha campainha eu vou matar ele. Chutar portão também. Chutava portão muito. Fazer isso. Então, era uns negócios que era só para incomodar os outros. Tinha que fazer alguma coisa. Aí sempre era, a referência era os bagunceiros, os pretinhos e os branquelos. “Pode ir lá.” Na verdade não eram os quatro, eram os dois branquinhos e os quatro pretinhos, porque sempre andava junto.
P/1: Bom, você falou um pouco antes, da sua escolha, você chegou até a escolher, ou pelo menos experimentar e fazer um vestibular para Geologia, aí a coisa degringolou um pouquinho. Mas dentro desse período de escolha e tal, o que te levou mesmo assim, a querer escolher essa área da comunicação, você caiu nela de paraquedas, como que foi?
R: Na verdade, assim, não sabia muito, de fato, não sabia. Então, assim, queria fazer... Se eu tivesse passado em geologia, talvez hoje eu fosse um geólogo, com todas as dificuldades que eu teria, talvez na matemática, principalmente na matemática mais pesada, do terceiro ano, do curso superior, ou talvez da química. Mas enfim, foi exatamente de ter um rumo. Acho que era isso, olha, eu preciso ser alguém e para ser alguém, eu preciso estudar. E aí, sim, não passei. Nessa época, eu tinha feito… Assim, continuei trabalhando em pré-vestibular. Eu saí do Camos, fui para o Sistema. E aí eu fazia muito contato com as faculdades e universidades. Continuei trabalhando nesse setor administrativo de cursinho, e nesse contato eu tinha muito contato com os professores dos cursos. Então eu levava caravanas, por exemplo, a gente saía de caravana aqui pra ir lá em Itaúnas, sabe aquelas feiras de profissões? Era isso. Para conhecer um pouco, e ia se familiarizando. E nisso aí, eu fui e passei. Antes não era UniBH, era Fafi-BH e eu peguei a transição, finalzinho de Fafi-BH para Centro Universitário, depois virou UniBH. Era o primeiro curso de jornalismo do turno da manhã. Como eu trabalhava no cursinho à tarde e à noite, então eu tinha a possibilidade de estudar de manhã. Então eu fui da primeira turma de jornalismo da Fafi-BH e já pegando essa transição. E ali fui descobrindo as coisas. Então assim, de fato, descobri que eu gostava muito da área de humanas. Por exemplo, tinha lá a história da civilização, não era problema. Português, não era problema. Língua estrangeira era. Mas língua estrangeira é uma outra questão. Você fala coisas que marcam a gente. Professor também. Ele te marca por bem ou te marca por mal. Então eu tinha um professor de inglês, uma professora de inglês, que ao invés dela dar aula pra turma inteira, ela dava aula pra quem tinha facilidade. Cara, você já não tinha muito interesse em saber a porra da língua estrangeira, e o professor não incentivava nada. Então, o que a gente fazia? A gente colava o tempo todo, passava. Só colava no menino que tinha lá, que era o Aloysio, famoso pimpão. Ele que fazia o trem. Porque ele é um cara que era autodidata, ele aprendeu sozinho. Como? O que hoje muitos cursinhos fazem, ouvindo música em inglês. Cara, ele era foda no inglês. E aprendeu assim… A gente só colava nele. A professora não incentivava, ela dava aula só pra ele, ao invés de incentivar os outros a fazerem. E é isso. Quando mandava ler, que tortura que era ler. Então assim, hoje eu tenho um pouco de aversão da língua estrangeira, tanto é que eu prefiro muito mais o espanhol do que o inglês, mesmo sabendo da importância do inglês, por causa disso. Isso é trauma? Sei lá se é trauma, cara, mas é algo que me marcou e que não me despertou muito interesse. Então assim, na faculdade, então tinha muita facilidade com isso. E aí depois, você tinha nesse período de formação, você tinha o que chamava de disciplinas comuns para todos os cursos. E lá já tinha, na UniBH já tinha publicidade, na área de comunicação eram só esses três cursos, jornalismo, publicidade e relações públicas. Então, até o quarto período, todas disciplinas praticamente valiam para os três cursos. A partir do quarto, você direcionava onde você teria disciplinas específicas e que eram até específica e era pré-currículo de outras, que no caso foi o fotojornalismo, foi o radiojornalismo, telejornalismo, aí tinha a teoria da comunicação 1, teoria da comunicação 2, algumas coisas que já te direcionavam exatamente para aquela área que você pretendia fazer. No meu caso, acabou sendo o jornalismo. É isso. E assim, já posso falar, inclusive, da fotografia nisso, porque a fotografia, ela surgiu, não tinha... “Ah, você escolheu fotografia?” Escolhi porque nesse período nós tínhamos lá no UniBH, já era UniBH nesse período, eram dois períodos de fotografia. Era fotografia analógica, e você tinha a possibilidade de pegar o equipamento. Então, assim, essa formação da UniBH eu gostava demais, porque ela era, além de ser a formação teórica, ela tinha uma formação prática intensa e que te preparava mesmo, que era, então, da gente pegar o equipamento, ir para a rua fotografar, pegar o filme, ir para o laboratório revelar e, a partir disso, você selecionar a melhor foto. Então, eu tive esses dois períodos, depois eu tive... Ah, tem uma coisa também que eu queria... Eu não vou citar nomes, mas eu acho que meio que desmotivou, sobre radiojornalismo, ou na verdade, o rádio, que era uma coisa... Porque perguntava assim: onde... Eu lembro dessa pergunta. “Onde você gostaria de trabalhar?” Cara, Itatiaia foi o primeiro nome que veio na minha cabeça. E eu lembro que também a pessoa falou comigo assim: “não, cara, você não pode pensar assim.” Falei: “cara, uai, eu tenho que pensar em trabalhar onde que eu acho que é referência.” Não sei se foi uma fala mal colocada, talvez nem que fosse a intenção, mas é isso, assim. Porra, eu tenho que escolher. Você não perguntou onde é que eu queria trabalhar? Ou era a Rede Globo ou era na Itatiaia. E nesse período também de formação, numa das aulas de radiojornalismo, a gente tinha que apresentar um jornal. E aí, cara, eu tinha um amigo, assim, muito bem relacionado, Fábio Amaro, mas o cara também muito safo, ele deixava as coisas tudo pra última hora, pra fazer. E assim, eu queria fazer antes, mas meio que não tava lá… Porque assim, eu nunca fui o melhor aluno. Nunca fui o pior. Nunca quis ser o caxião, até porque ele não era meu perfil. Eu também nunca fui da turma do fundão. Eu era da turma da frente, eu gostava de ficar na frente, para aprender, e às vezes ficava no meio. E tem uma coisa também, eu sempre fui muito bem relacionado com todo mundo. Eu não tinha grupinho. “Ah, pera ali!” Não, cara, lidava com todo mundo. Então, tinha isso. E aí, eu lembro que nessa disciplina a gente ia apresentar um jornal de 30 minutos. E o grupo era eu e o Fábio. Cara, a gente não sabia o que a gente ia fazer. Assim, o exercício era, vocês vão pegar recortes das notícias do jornal, vocês vão ler isso e fazer um resuminho do liti lá e apresentar. Como a gente não tinha feito o dever de casa, a gente pensou assim, olha, vamos fazer o seguinte, quando a gente vai apresentando, a gente lê uma notícia, faz o comentário e põe uma música para dar os 30 minutos. Então, o nosso jornal na escola, nessa época era… O nosso programa de jornal era uma notícia, música. Cara, eu lembro que na terceira, o professor falou assim: se vocês colocarem mais som, vocês são reprovados. Cara, e aquilo ficou… Tempos depois… Quando eu falo tempos depois, muito pouco tempo depois, ouvindo as rádios, o que você mais tem é uma notícia e música. Pô, eu podia ter sido precursor nisso ali. Não fui, porque alguém achava, ou achou que fazer rádio tinha que ser só assim. Não me deu a possibilidade da gente reinventar. Hoje você tem. Quanto mais você reinventa, você cria, ela pode dar muito certo ou não. E isso é muito bom, você incentivar. Então assim, tem essas questões. Mas aí eu acabei, formei. Eu tive uma experiência muito legal nesse período das disciplinas específicas, porque também no sétimo período, o IBH tinha uma parceria com... Aí tem duas experiências, que eu falo que elas fazem diferença na vida da gente. A gente tinha uma visita técnica no Estado de Minas. E a gente passava uma semana dentro da redação do Estado de Minas. Você escolhia o que você queria. E eu escolhi fotografia porque me interessei. Só que… Não foi trauma, mas foi assim, foi sofrido, porque quando a gente chegou, a gente foi muito mal recebido pela fotógrafa. Eu vou falar fotógrafa, não vou falar nome, porque, enfim, não vai me importar o nome. Mas foi muito mal recebida. E muito bem recebida pelo motorista. O motorista recebeu. Só que quando a gente entrou e a gente foi e o editor encaminhou, “ó, vocês vão sair com fulano e com a fotógrafa tal.” O cara sentou, a mulher olhou pra trás e falou assim: “olha, não me pergunte nada, eu não vou falar nada, eu não tenho nada pra ensinar pra vocês.” Cara, eu olhei aquilo… Perdão pela palavra, que filha de uma puta, velho. Sabe? Cara, será que essa mulher está com medo da gente? Então, assim, isso foi… A gente saiu, a gente saiu com o equipamento da escola pra fazer, quem orientou a gente foi o motorista, porque pela prática ele já sabia. Mas aí você vai meio desestimulado, te dá um... Caralho, tinha que ser assim? Mas beleza, no outro dia a gente pegou um outro fotógrafo. Eu vou pecar aqui, que esse eu gostaria de falar muito o nome dele, eu vou lembrar. E quando a gente foi pra ele, falou assim: “o que vocês precisarem pode me perguntar. Tô aqui pra ensinar vocês, pra trocar informação.” Aí eu lembro também que a outra disse assim: “é porque eu entrei no jornal estagiando, então não quero ter a possibilidade de ser ameaçado por alguém.” Cara, não sei porra nenhuma, ameaçar você no quê? Falei assim, vai ser insegura assim lá na puta que pariu, sabe? Ficava pensando isso na minha cabeça. Então tomei raiva. Eu tenho até amigos, nem sei se essa mulher existe hoje. Que eram muito amigos. Eu falava assim, cara, eu não quero nem saber. Essa desgraçada dessa mulher! Eu não indico para ninguém. Porque eu falo assim, hoje, como professor, cara, ou você põe uma pessoa pra cima ou você acaba com a vida dele, dependendo do jeito que você fala. Tanto é que eu tenho muito cuidado, na sala de aula, de fazer isso, de ouvir as histórias, ouvir os alunos. Porque a gente não sabe, cara, da história de cada um. Você não sabe qual o caminho que o cara levou para chegar ali. E aí vai ter mais coisas para eu contar sobre isso. Enfim, então, foi uma experiência no Estado de Minas. E isso depois veio refletir que quando eu me formei, isso já em 2000. Porque o que acontece, lembra que eu falei que eu demorei um tempo depois de formação. Então assim, eu era um dos mais velhos da escola, então eu tive uma formação tardia, mas eu quis persistir. Eu me dediquei muito tempo trabalhando e depois que eu fui buscar essa formação. Em 2000, me formei, aí eu fui trabalhar num jornal que eu acho legal, que eu acho interessante que os alunos façam. Cara, toda possibilidade de trabalho, desenvolvimento, faça. Todo trabalho que você fizer na escola, desenvolva como se fosse… que todo mundo vai usar. Primeiro, o professor te valoriza por causa disso. Às vezes nem é o melhor trabalho, mas pelo esforço, pela dedicação, você tem esse reconhecimento. E uma outra coisa, é algo que pode mudar a sua vida. Então, dessas escolhas, eu fui trabalhar no jornal de Santa Luzia, chamado O Grito. Lá eu fazia tudo, lá eu apurava, lá eu entrevistava, lá eu redizia e, às vezes, fotografava. Então, era mais do que escola. Então, você punha em prática tudo aquilo que o professor... E tirava as dúvidas, às vezes, lá na escola, lá no jornal. E aí, pouco tempo depois, o Hamilton, Hamilton Flores, eu chamo ele de papai, foi meu professor de fotojornalismo, ele me ligou e falou assim: “ó, você quer trabalhar aqui na escola? No laboratório de fotografia?” Falei: “quero, o que é pra fazer?” “Não, você vai me ajudar nas minhas aulas. Você vai preparar os químicos, você vai fazer isso… Você quer?” Falei: “uai, quero demais!” E aí, nisso eu fui para dentro da escola. E, cara, e lá eu fiquei um bom tempo. Então, aprendi tudo. E o que eu fazia… Eu sempre tive o Hamilton como referência de professor. Até pela seriedade dele, como ele tinha muito respeito para o aluno, para a formação, como ele encarava com muita responsabilidade o ato de ser professor. E o que eu fazia? Eu anotava todas as aulas dele. Eu copiava. Tanto é que ele por um tempo falou assim: “você tem que me pagar direito autoral porque você anotou tudo meu. Você pegava isso, pegava aquilo.” Falei assim: “uai, mas já me disseram uma vez que eu preciso absorver o que as pessoas têm de bom para oferecer. Você tinha isso para me oferecer, eu peguei.” E achei o máximo isso. E depois, em 2001, 2002, laboratorista. 2003, fui convidado pela pró-reitora, Raquel Parreiras, que era coordenadora... Mentira, nessa época, ela era coordenadora do curso de Relações Públicas, para eu dar aula de fotografia no curso. E aí, passou mil coisas na minha cabeça, no sentido de falar assim: putz! Cara, vou para a sala de aula, e aí? E aí, a primeira aula eu quis dar um semestre inteiro, em uma aula. Me perdi, fiquei nervoso, assim, aquele frio na barriga, e depois eu fui conversando com o Hamilton, o Hamilton foi me orientando, foi falando a respeito. “Segura a onda, vai falando uma coisa de cada vez.” Enfim, aí você vai aprendendo, você vai aprendendo umas coisas e vai criando o seu estilo, o seu jeito de fazer. Mas assim sempre… E nesse período pra cá eu tinha uma função administrativa dentro do curso de comunicação, e como professor. E aí, depois eu dividi aulas com o Hamilton. Aí eu dividi muita aula com ele de publicidade. Depois surgiu o curso de produção editorial, eu fui dar aula na produção editorial. Depois produção editorial transformou-se em produção multimídia. E depois teve o curso de fotografia, que eu ajudei a criar o curso de fotografia junto com o Júlio, com outros professores lá, o João, enfim. E essa foi a minha toada dentro da escola. Ah, tive possibilidade de ir para jornal, para redação, mas a escola, o que acontece, nesse meio tempo… Lembra que eu falei que eu tinha poucas namoradas? Eu conheci a Kely na UniBH. E pouco tempo depois ela engravidou. E aí, cara, aquela responsabilidade. Aprendi com o meu pai. Eu preciso... Minha responsabilidade, ser homem. Então, assumir... Eu não vou falar que é erro. “Você engravidou, mas isso é erro.” Não, isso não é erro. Sei lá, coisas da vida. Precisava, então, ter mais rumo ainda porque eu teria uma pessoa para eu cuidar, que é o Igor, meu primeiro filho. Enfim. E por isso, como eu tinha na escola horário para começar e horário para terminar, eu não quis ir para a rua. E daí, eu trabalhava com fotografia, mas freelance, fazia muito social. Todo fotógrafo começou fazendo social. Se alguém falar que… “Ah…” Começou, festinha, aniversário. Aí tentei fazer casamento. E depois achei, com o tempo, ah não, não é o que é a minha praia, vou buscar outra coisa. E aí fui fazendo, como o mineiro diz, fui indo, fui indo, fui indo, enfim. Cheguei no fotojornalismo, que de fato é onde me encontro. Mas as pessoas me perguntam, “qual é a área da fotografia que você mais gosta?” Porque você tem, dentro da fotografia, você tem o fotojornalismo, você tem a fotografia publicitária, você tem a fotografia de gastronomia, fotografia de moda. Cara, eu gosto de desafios. E aí eu falo assim, eu sou fotógrafo. Eu tenho que me desafiar. Eu tenho a obrigação de tentar fazer a melhor foto possível, independente do assunto que eu esteja fotografando. Vou ter dificuldade? Sim, isso faz parte. Então assim, vai ter coisas que eu vou me identificar e fazer com muito mais facilidade. Tem coisas que você vai ter mais dificuldade. Por exemplo, fotografia de automóvel, nunca fiz, nem de estúdio, que tem toda uma técnica, principalmente de iluminação, não é nem a técnica fotográfica, é a técnica de iluminar para você ressaltar aquilo que é importante. E uma outra coisa, para você poder trabalhar com reflexo, que muitas vezes para a pessoa o reflexo é um treino. Cara, você tem isso, a formação da gente, ela traz muito. Você precisa trabalhar com aquilo que você acha que é complicado, que é aquilo que te dá problema. Então, assim, como é que você vai lidar com essa situação inesperada? Como é que você vai lidar com essa questão de falar assim, putz, hoje eu vou fotografar uma peça, ela é toda espelhada. Como é que você vai trabalhar esse reflexo? Por exemplo, joias. As jóias é um negócio assim, é um trem muito fácil de fotografar, do ponto de vista de você montar. Você monta um setzinho. Cara, mas você tem que ter um jeito. Por exemplo, não sei se vocês sabem, relógio. Relógio, você tem uma técnica de você deixar os ponteiros para não tampar, 15 para as 10, sempre. Você tem que deixar ele desse jeito. E tem um jeito de você iluminar aquilo pra ressaltar. Joias, mesma coisa. Ouro. Você tem um jeito de ressaltar pra você não mudar a cor da peça. Então, assim, você precisa saber fazer isso. Uma outra coisa na fotografia. Fotografar pessoas. Cara, é muito diferente quando você aponta uma câmera para uma pessoa. A câmera é intimidadora. Você conversar com esse objeto na sua frente, o que é isso? Você tem que saber até dirigir a pessoa e fazer isso. E aí a história que eu faço muito, eu aplico, por exemplo, pessoas. Eu não chego fotografando, por exemplo, quando eu tenho uma personagem. Eu chego conversando. Eu quero que ela me conte uma história. Recente, agora, lá no jornal, eu tive uma pauta que era para fotografar uma senhora que está com dificuldades de cirurgias eletivas. Ela está há seis anos esperando para fazer uma cirurgia, para colocar uma prótese na cabeça do fêmur. E ela falou assim… A primeira coisa que você escuta muito quando você vai na casa das pessoas, “não repare nas coisas.” Falei assim: “agora eu vou reparar, só para eu contar. Ah, está fora do lugar aqui.” Não, eu falei assim, não se preocupe, eu estou aqui para fotografar você. Como é que estão as suas coisas aqui, para mim pouco importa. Me conta um pouco das suas… E aí a gente vai. Ela falou assim… “Olha, a senhora tem aí uma receita, um documento?” Ela falou assim: “ah, eu tenho aqui, porque como está demorando muito, entrei na justiça.” Falei: “então pega esse papel, me mostra isso.” Que é isso que eu preciso, por causa da dificuldade. Está tão difícil que eu tive que entrar na justiça para... Então é essa. Busquei dela a resposta que eu precisava para a foto. Como é que eu vou fotografar a pessoa… Ah, tá, beleza, ela tem um problema de locomoção, e que eu transmita isso para a pessoa que vai ver. Não, vão pegar elementos aqui. Então é isso. E uma última foto que eu fiz dela… Fiz suas fotos, troquei os ambientes com papel, não sei o que lá. E teve uma hora, quando eu estava me despedindo, saí, o cachorro dela tinha fugido. E aí, o motorista tinha ficado do lado de fora, depois ele me falou: “ó, chama a dona lá, porque o cachorro está querendo entrar.” O cachorro foi dar um rolê e depois quis voltar. E nisso que eu chamei ela, o cachorro entrou. E aí ela foi e pôs o rosto pra fora, no portão. Eu falei: “espera um pouquinho, deixa eu fazer uma foto da senhora assim.” E aí, era um portão preto. E sabe, você olhar pra fora assim, estou esperando algo. Algo que retratava. “Olha, olha o tempo que está levando para a notícia da minha cirurgia chegar.” E foi uma foto que eles usaram. Além de ter usado a do papel lá. Entendeu? Então, assim, é isso. Não sei se eu me perdi aí nesse contexto como um todo.
P/1: Maravilhoso. Ótimo. Dá para ver a sua paixão pela fotografia. Assim, pela sua fala, como a fotografia atravessou o seu caminho. Como isso também foi negado por algumas vezes. Professor falar que não, não vai fazer isso. “Quero trabalhar no Itatiaia.” Não, não vai trabalhar no Itatiaia. Aí você, vai fazer uma visita técnica, “não, eu não vou te falar nada.” E aí, também tem a questão da profissão do seu pai, que não era esse caminho. E o Rodney, agora, ele é fotógrafo. Como que seus pais viram isso?
R: Assim, você falando, passa o filme. Tem duas coisas. A paixão não só pela fotografia. Lembra lá do ser catequista ou professor de crisma? Isso influenciou muito na minha oportunidade com o Hamilton e a professora Raquel, me deram de ser professor. E o que é mais gratificante nisso, que é uma paixão que eu me descobri, professor. É você ter a possibilidade, e eu aplico isso. E a gente tem que saber lidar com o não. Na verdade, o que a gente mais tem é não. O que a gente mais tem na vida é não. A hora que você tem um sim. Mas eu aprendi a aplicar isso com meus alunos. Na semana que eu dizia não, eu dizia vamos experimentar, vamos incentivar. E o que é mais gostoso é você pegar várias pessoas, hoje eu encontro com muitos ex-alunos, inclusive na redação do jornal O Tempo, onde hoje eu estou, eu tenho pelo menos seis ex-alunos. E tem muitos deles, na verdade a maioria, premiados. Caras que dedicaram e é tão legal eles chegarem pra você com humildade. Fala assim, cara, você me ensinou muito. Valeu a pena. Suas aulas eram assim, suas aulas eram aquilo. Devo isso também ao Hamilton, porque é um cara que acreditou em mim. Mesmo ele falando que, ah, você era isso. Mas é um cara que acreditou, um cara que me ensinou, um cara que pegou na minha mão. Um cara que me puxou a orelha. Sabe, puxava a orelha, inclusive na frente de aluno. Me dava esporro, às vezes, no meio dos alunos. Eu, como professor. Mas quem era eu? Eu ficava puto, às vezes. Mas, cara, eu entendia. Eu entendia o que ele queria fazer. Eu, talvez, não faria da mesma forma, mas, enfim. Era o jeito dele de mostrar, de ensinar, e, de fato, valeu a pena. Então, assim, isso, esse amor, essa dedicação tanto para fotografia, por quê? Foram essas escolhas que me fizeram ou que me fazem ser a pessoa que eu sou hoje. Então, eu sou grato por isso. Eu acho que é uma coisa que o ser humano não deve perder nunca. Gratidão. Cara, não tem dinheiro no mundo que pague nada, quando a gente fala de valor. Mas ser grato é um negócio tão legal. “Ô, Rodynão, como eu sou grato pela possibilidade que eu tive de desenvolver trabalho com você.” Isso é muito legal, cara, porque você aprende com o outro. E quando as pessoas também te apontam... Vou dar um exemplo. O editor de fotografia lá, o Daniel de Cerqueira, me apontou algumas coisas da minha foto. Cara, eu não tenho que ver isso como, “ah, ele tentou me diminuir.” Muito pelo contrário. Ele está me mostrando que existem outras possibilidades e que eu tenho que aprender a ver essas outras possibilidades. Então hoje, quando eu levo isso para a sala de aula, levo para os alunos. Cara, existem outros caminhos. Sabe quando a pessoa fala, você não pode pensar assim, você tem que começar de baixo. Não, eu tenho que pensar em começar de cima. O fato da pessoa dizer assim, olha, você não pode pensar em começar lá em cima. Você tem que começar de baixo. Não, eu acho que pelo fato de eu querer alguma coisa, eu tenho que pensar que eu vou chegar lá em cima. Agora, qual é o caminho que eu vou fazer para chegar lá em cima? Aí é outra coisa, eu preciso entender esse caminho, e o que é necessário, e o que as pessoas precisam entender, não tem caminhada fácil. Agora, não é também, e aí nem é lição de moral, nem é, ah, você está falando isso da boca... O primeiro obstáculo é você desistir. Eu falo assim, porra, você tem que pegar o primeiro obstáculo e superar e mostrar que você é capaz de fazer, que acho que está aí a sua força de vontade, o seu desejo de chegar onde você quer. Eu vejo, assim, atletas de alta performance. Cara, ninguém sabe um terço do que o cara levou. Por exemplo, criticam muito o Neymar. O cara tem um dom. O cara chegou onde ele chegou, não foi só pelo dom. Foi pela persistência, porque as pessoas acreditaram. Por exemplo, tem aí o documentário do Ronaldo Fenômeno. O cara teve tudo pra encerrar a carreira muito antes do tempo, e por causa de superação, de dedicação, por insistência, ele foi eleito o melhor do mundo com dois joelhos fodidos. E ganhou uma copa do mundo, de 2002. Então, assim, são histórias. A gente precisa pegar, sim, essas referências lá em cima. Por exemplo, tem o menino do basquete, lá o... Esqueci o nome dele, o famosão, o Jordan. A história dele, cara. Como é que ele chegou, como é que ele... A história dele com a Nike, do tênis Jordan. Tem a mão da mãe dele. A mãe dele que falou, não, vamos acreditar nisso. Então, assim, mas é história de luta, de persistência. E aí, você fala assim, essas pessoas não tiveram, não? Tiveram pra caralho. Muito, muitos. E a gente tem isso o tempo todo. Ah, você não pode isso, você não pode aquilo. Cara, é isso. Então, assim, essa paixão, esse desejo, eu aplico no sentido, assim, de hoje, se eu posso contribuir com alguma coisa, talvez seja o conhecimento que eu tenho e você pegar esse conhecimento e fazer desse conhecimento algo que vai transformar a sua vida. Então assim, isso é muito legal. Eu vou dar só um outro exemplo aqui que eu me lembrei. Eu tinha um aluno de publicidade, cara, pena que eu vou esquecer o nome dele, mas enfim, por causa de acidente, ele teve limitações de movimento, principalmente das mãos, de segurar equipamentos, de fazer isso. E assim, como eu disse, eu nunca diferenciei ninguém por ninguém, importava. Eu lembro que ele falava pra mim assim, “ô professor, eu não consigo segurar equipamento direito.” Falei: “não, você consegue, a gente vai ficar aqui a noite toda, mas você vai fazer uma foto.” Porque a minha avaliação era, uma das avaliações era as pessoas se retratarem, depois a gente avaliava. Porque fotografia, se você pegar a definição da palavra lá do grego, na tradução livre, é escrever com a luz. Mas o escrever com a luz tem muito a ver com o seu olhar. Como é que eu enxergo essa luz é aquilo que eu estou retratando? Então, assim, não tem jeito, cara, na câmera ali, mesmo que eu tenha um visor desse tamanho, mas é o seu olhar. É o jeito que você organiza as coisas é que vai fazer sua fotografia diferente. Então, o seu olhar é seu e ele tem muito a ver… Aí vou pegar toda a história, o seu olhar tem muito a ver com a sua formação. É o que você aprendeu, o que você leu, o que você ouviu, o que você desenvolveu. Então, tudo isso vai influenciar na sua vida. De uma maneira ou de outra vai influenciar. Influência, então, no caso da fotografia, quando eu busco uma foto, eu quero representar nessa foto o meu modo de percepção do mundo daquela foto que eu vou fazer. Como é que eu vou enxergar isso? Ah, eu quero fazer alguma coisa para enaltecer, eu quero fazer alguma coisa para criticar, eu quero fazer alguma coisa para diminuir, sabe? Então, você tem essas intenções que é sua. O que o pintor faz, o que o escritor faz, o compositor faz, ele põe ali um conjunto de coisas que é dele. O professor faz isso também, coloca ali o conjunto de coisas dele. Então, assim, isso pra mim sempre fez a diferença e talvez reflita nessa minha paixão, nesse desejo de fazer. É onde a fotografia, ela de fato me possibilita tudo isso dentro daquilo que eu desenvolvo.
P1: E como é que seus pais te veem nesse…
R - Ah, eu esqueci desse detalhe. Hoje, mais do que nunca… Assim, o meu pai hoje não é vivo, mas ele tinha o maior orgulho de falar para os outros, “ah, meu filho fez isso aqui. Meu filho é repórter, meu filho é isso.” Quer dizer, imagina se eu fosse administrador. Seria um administrador frustrado. Eu vou dar um exemplo aqui, eu estive lá, quando eu trabalhei no pré-vestibular, então assim, no fato de ser um orientador, de direcionar caminhos, a gente teve um caso lá de um menino que ele fez medicina, ele estava no último período de medicina, ele largou medicina para fazer música, é o que ele se encontrava. Isso é louco, medicina na federal, você terminando. O cara não era feliz. Não era, não sou. Minha felicidade está onde? Na música. Aí tem uma pergunta. Mas isso dá dinheiro? Tudo dá dinheiro, se a gente pensar no mundo capitalista, tudo dá dinheiro. Você tem que saber fazer as coisas acontecerem. Ah, como é que você vai fazer? Se eu soubesse, eu tava milionário. Que era exatamente… Eu não sei como é que você vai fazer, mas posso te dar dicas. E aí, vou aproveitar e vou… A gente tem, infelizmente, no mundo de hoje, uma quantidade de gente falando um tanto de merda e um tanto de gente comprando essa merda como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Por que eu tô dizendo isso? Porque fotografia é muito mais do que apertar um botão. Fotografia é muito mais do que você comprar uma câmera cara. Fotografia, se a gente pensar, na minha formação e como um formador de opinião, e naquilo que eu estou retratando para as pessoas verem, é muito mais do que apertar um botão. Então, por exemplo, eu tive uma experiência fantástica, que até comentei, que eu decidi ir para a Serra da Canastra até mesmo para participar de um concurso de fotografia do Queijo Minas Artesanal. Mas eu quis ir lá fazer todas as fotos e ouvir as pessoas. E disso eu escrevi uma matéria que saiu publicada a respeito, que era exatamente essa experiência. Então assim, como é que eu ia retratar isso? Cara, às vezes eu vou para uma pauta, por exemplo, igual eu comentei aqui da senhora que eu retratei. Você tem que encontrar elementos pra contar aquela história. Tem outras pautas que não tem jeito. Por exemplo, futebol, a gente estava comentando aqui nos bastidores, você gosta muito do esporte. Não, acho lindo, maravilhoso. E qual é o ápice do esporte? Normalmente, a partir do futebol, é a comemoração de um gol, é a vibração, é um título. Cara, às vezes a sua foto está em outro lugar, não está ali no campo. Eu vou dar um exemplo assim, do tanto que a gente precisa ficar atento às coisas. O Hulk sempre foi criticado por ele reclamar muito dos árbitros. Porque é um cara, se você for ver a história dele, ele é respeitado por todo mundo. E aí eu vou falar aqui em Minas, Cruzeiro e Atlético. Pouco tempo, teve no Independência um jogo lá que muitos cruzeirenses foram tirar. Não é pelo fato dele jogar no Atlético, é pelo fato dele ser o Hulk, sabe? E da história dele, ele podia estar jogando em qualquer lugar, as pessoas iriam lá. A mesma coisa, o Neymar. Não é pelo fato do Neymar jogar no Santos, é por ser o Neymar. Ou o Ronaldinho Gaúcho, que eu tive a felicidade de fazer uma foto com ele. O cara poderia estar jogando, mas é o Ronaldinho Gaúcho. A história do cara. Então, assim, a gente precisa entender que tudo isso que a gente aplica, que a gente faz, ela tem essa nossa referência e isso vai importar em algum momento. O que você leva para as pessoas, o que você mostra para as pessoas, aquilo que é de melhor o que você tem. Porcaria e porcaria, deixa para o lado. “Ah, vou mostrar meu lado ruim. Qual que é o meu lado ruim?” Sei lá, cara, qual o meu lado ruim. Mas aquilo que eu faço de errado, aquilo que não acrescenta nada na vida dos outros. Por exemplo, se vocês disserem para mim, o que vocês aproveitariam de mim? Esse esquema de luz aqui é muito bom, acho que eu vou copiar. Ah, legal isso. Isso é bom. Então assim, é pegar essas referências e trazer isso. A gente pega isso. Só para falar, aí meu pai falava muito disso. “Ah, ele foi isso, ele é aquilo.” Enfim. E minha mãe, mesma coisa. Na verdade, minha mãe sempre foi mais contida, mas muito foi assim. Ela sempre falou assim: “meu filho, a sua felicidade é a minha felicidade. Não importa…” E acho que toda mãe faz isso, se o filho está feliz, se está realizado, cara, não importa o que você vai fazer. É isso.
P/1: Maravilhoso. E assim, além da fotografia, ou pelo menos ligado também à fotografia. Quais os outros trabalhos que você faz, se é que você faz, se tem algum projeto, tá pensando em fazer alguma outra coisa, ou ainda também tem de fotografia?
R: Eu gosto muito de um... É mais, dizer assim, coisas da vida. Aí, de novo, tem muito a ver com a minha formação religiosa, que é a caridade, é tirar meu tempo para ajudar os outros, o ajudar as pessoas. Eu falo com a minha filha, a Blenda, eu tenho dois filhos, que é o Igor e a Blenda. Não espere do outro aquilo que você quer ouvir. Faça simplesmente porque você quer fazer. Se te reconhecerem por isso, ou te agradecerem por isso, vai ser maravilhoso. Se não, cara, você fez a sua parte. Então, assim... Ah, eu fazia. Agora, eu estava até com intenção de fazer, talvez eu faça uma campanha de arrecadar roupas, agasalhos, por causa dessa friaca toda que a gente está passando. De sair, entregar e as pessoas receberem aquilo, como os olhos, e aí você acaba motivando outras pessoas a fazerem. Dentro da área, eu tinha um podcast, que na verdade nem era um podcast, hoje tem esse nome, que era Fala Com o Véio, que pela proximidade que eu tinha, principalmente com atletas, então era mais fácil de eu agendar. E eu quero retomar. Que é eu conversar com as pessoas, e aí eu vou dizer, é muito o que vocês estão fazendo, é para eu falar com jogadores de futebol, mas sem falar do futebol. Cara, me conta a sua vida, me conta a sua história. Por exemplo, tem um cara que é sensacional, o Felipe, que é o técnico do Sada Cruzeiro. A história dele, a determinação. O cara foi jogador, o cara… Diria, a seleção brasileira nunca foi convocada, e o cara vira técnico, com menos de, sei lá, dois, três anos, o cara foi campeão de tudo. E por que esse cara não tem uma possibilidade? Enfim, vai saber. Mas assim, é isso. Então quando o cara te conta… E aí, de novo, persistência, família. Ele falou que a família apoiou muito. Então assim, família é um negócio que a gente... Eu falo assim, a gente lida com isso o tempo todo. E a gente percebe, talvez hoje, essa nova geração. Cara, valorize pai e mãe. Valorize irmão. Sabe? Porque é o seu porto seguro. Não adianta você falar que não é. Porque se você acertar ou se errar, é quem vai te acolher, é quem vai te abraçar. E quando as pessoas se distanciam disso, porque, olha, sinceramente, mesmo pai e mãe, chega uma hora que cansa, cara. Quer saber de uma coisa, que se foda pra lá e resolve sua vida. Aí, onde é que você... O que você encontra? Depressão, suicídio, essas loucuras de busca na internet por umas coisas que não fazem muito sentido. Então, é isso. Então a gente precisa trabalhar inteiramente aquilo que você vai ser e o que você vai obter. Então, tinha isso. No caso do podcast, Fala com o Véio, era essa possibilidade de ouvir as pessoas. E é isso, assim. Talvez fazer uma viagem... Outro dia um cara me perguntou assim, lá no jornal, você tem coragem de ir para a guerra para fotografar? Tenho. Queria ter essa experiência. Eu tive, assim, olha como é que são as coisas. Eu vou lembrando e vou entrando no assunto. Eu acho que a gente precisa fazer sempre além daquilo que se propõe a fazer. Eu trabalho no jornal, O Tempo, mas eu não fico dependendo do Tempo para eu fazer os meus trabalhos. Eu trabalho para umas agências internacionais, eu trabalho para uma agência do Rio, trabalho para… Assim, que diretamente manda para a Folha de São Paulo, para o Estadão, para o Globo. Eu vou atrás das minhas coisas. Então eu vou atrás das minhas pautas. E aí a gente teve, ano passado, fez um ano agora, literalmente fez um ano agora, daquela grande tragédia natural, mas é uma tragédia anunciada do Rio Grande do Sul. Aquilo que aconteceu é interferência humana. Se não tivesse, ia inundar do mesmo jeito, porque a água ia chegar, se tivesse tudo, como a natureza... Mas, a interferência humana fez com que a coisa acontecesse numa proporção ainda maior. E aí aquilo era assunto, as pessoas se unirem para ajudar o povo do Sul. E aí eu lembro que aqui em Minas, Belo Horizonte especificamente, o aeroporto da Pampulha, que está, não vou falar desativado, mas ele tem uma demanda muito menor do que já foi. Ele foi um centro de recebimento de doações. E aquilo, da noite para o dia, transformou… Falei: cara, eu preciso ir lá fazer essa foto. Como no jornal eu normalmente vou para a parte da tarde, então estou com a parte da manhã livre para eu fazer minhas coisas. Eu falei, eu vou lá fazer essas fotos e mandar, que eu acho que é pertinente. É assunto. É assunto. Aí, quando eu fui, eu encontrei com a repórter e um cinegrafista do jornal, e ela até me perguntou, a Raquel Penaforte, “você está fazendo para o jornal?” Eu falei: “não, eu vim aqui, estou fazendo para a agência, acabar aqui eu vou para o jornal.” E aí, nisso, eu fazendo essas fotos, vi, registrei. E nessa pergunta ela falou assim: “ou, se o jornal me mandar para o Sul, eu vou na hora.” Eu falei assim: “eu também!” Mas assim, sabe quando você fala uma coisa sem pretensão nenhuma? Beleza. Eu tinha que estar no jornal, como era uma quinta-feira, na quinta-feira eu pego no jornal meio-dia. Então, era 10 horas, eu terminei, moro muito próximo aqui do aeroporto, eu vim pra casa. Tem um amigo que trabalha comigo lá, que é o Dum, que ele é... Para você ver como é que são as coisas, o Dum eu nem sabia, mas eu dei aula pra ele. Na verdade assim, como eu era assistente do Hamilton, indiretamente eu dei aula pro Dum. O Dum é irmão do Duque, o Sargista. O Duque foi da minha sala, no terceiro ano. Você lembra de pessoas que embarcaram. O Duque, cara. Um cara aí, que na charge ele... Mas o Dum não fica muito atrás, eles têm a linha de pensamento muito próxima. Então, assim, ele mora aqui perto, eu falo: “ah, eu te pego, você vai comigo e a gente vai pro jornal.” Então, quando eu peguei o Dum, a gente indo pro jornal, meu telefone toca, aí eu dou uma olhada assim, Renatinha. A Renatinha é a chefe de redação. Uai, já passa na cabeça, o que é que eu fiz? Eu falo que é a mesma relação assim, se você tem um apelido, eles me chamam de Ney, mas quando fala Rodney, aí fodeu. Mas enfim, a Renatinha me ligou, eu dirigindo, falei, preciso encostar. Encostei o carro, estava na Pedro I, encostei o carro no lugar que dava, atendi. Aí ela falou pra mim assim: “você está indo para onde?” Falei: “tô indo pro jornal.” Ela falou assim: “então deixa eu te fazer uma pergunta, você tem disponibilidade pra viajar?” Sabe você responder sem pensar? Falei assim: “tenho!” Aí ela falou assim: “então você volta pra casa, arruma suas malas, que você vai pro Rio Grande do Sul. Mas você vai de caminhão. Você vai acompanhar a...” Eu falei: caralho! Lembrei na hora da frase que eu falei pra Raquel, “Se o jornal me mandar…” Porque lá no jornal eu trabalho no fechamento. Eu já fui pra lá assim, eu trabalho na parte de fechar a edição, de pegar o material e colocar na página. E, eventualmente, eu vou pra rua pra fazer as coisas, mas lá a gente tem hoje o Alex, o Fred Magno e o Flávio Tavares, são os caras que estão na rua o tempo todo pra fazer as coisas. Mas eles têm que folgar, eles têm que tirar férias, e a gente vai nesses buracos. O jornal não pode ficar sem informação. E por isso, de novo, olha, a minha função é fechamento, mas eu tenho que ir pra rua e saber fazer o serviço que os caras fazem. Então, eu tenho que estar preparado pra isso. Mas, enfim, isso foi depois que eu fiquei pensando nisso. Eu só falei para o Dum assim: “o Dum, vou ter que te deixar aqui, cara, você pega um ônibus e vai para o Jornal.” E ele falou assim: “por que?” Eu falei: “cara, estou indo para o sul.” Ele falou assim: “como assim?” Eu falei: “não sei, eu só respondi que eu vou.” Como assim eu vou entender a história quando eu voltar para casa. E aí, o que acontece? O Grupo Sada, hoje, ele é a maior empresa de logística da América Latina. E ela tem base no Rio Grande do Sul. E é claro assim, o Grupo Sada tem também, como muitas outras empresas, uma ação social muito grande, porque ela recebe muito da sociedade e ela de alguma forma quer contribuir. Aí você está falando isso para puxar sapo? Não, porque de fato acontece. E uma das formas que eles encontraram, além de como é uma empresa que tem muitos funcionários, eles fizeram campanha também para arrecadar, material de limpeza, alimentos e roupas. Eles cederam para quem quisesse enviar os caminhões para transportar. Então, a minha proposta era ir no caminhão para eu contar do momento que eles estavam carregando o caminhão aqui e todo o trajeto até chegar à cidade que a gente ia entregar na Garibaldi. Eu fiquei super felizão, porque duas coisas. Primeiro que eu queria ir muito. E uma outra coisa, eu queria muito, sempre tenho, assim, você me falou de projeto? Era viajar com caminhoneiro pra eu contar as histórias de estrada. Porra! Então, olha, duas coisas que eu vou fazer e que eu queria muito saber das histórias. E o motorista era o Marlone, um cara sensacional, responsável, diferenciado. Espero que todos os motoristas sejam assim, apesar que a gente sabe que não é. Mas um cara sensacional. E aí, na quinta-feira, que isso era numa quinta, no dia 9 de maio do ano passado, eu fui para o aeroporto à tarde, juntei as coisas e fui para lá. Um amigo me deixou e o caminhão da Sada chegou. Só que quando terminou, era cinco e pouco. E a Sada, os caminhoneiros, o caminhoneiro da Sada, seis horas encosta e vai descansar. Então, assim, eles desligam o caminhão se o cara não avisar. Ele tem que encostar, vai caçar um lugar. Então tem os pontos, enfim. Aí ele falou comigo. “Ó, não vai dar pra gente viajar agora, não, porque a gente vai sair… A gente vai sair de Betim, vou encostar para dormir. Então, vamos fazer o seguinte, eu vou levar o caminhão pra base, amanhã, sexta-feira, dia 10, você me encontra às 5 horas da manhã e vai comigo pro Sul.” Falei: “fechou!” Vim pra casa. E nisso, o seguinte, histórias. Eu levei equipamento e levei uma mala de roupa. E eu coloquei num espaço lá no aeroporto, afastado de onde estava sendo recolhido os trem. Aí, a hora que eu fui embora, eu peguei a minha mochila com computador e a case com equipamento. E a hora que eu voltei pro carro com um amigo meu que foi lá me buscar, ele falou: “ó, tá faltando coisa aí. Cadê sua mochila de roupa?” Falei: “uai, minha bolsa, é mesmo, deixa eu voltar lá.” Eu tinha colocado separado. Cheguei lá, perguntei pra moça que tava assim, que tinha uma segurança lá. “Oh, cadê minha mochila de roupa?” Ela falou: “uai, eu vi ela, mas não está aqui.” Falei: “caramba!” Eu estou achando que eles pegaram minha mochila achando que era coisa para doação. Cara, virei aqui lá assim, rodando, ninguém sabia. Falei, quer saber de uma coisa? Eu vou desprender disso. De alguma maneira eu contribui com o pessoal do Sul. Mandei roupa. Mesmo, não era minha primeira intenção. A roupa foi. Enfim. Foi e está tudo certo. E aí, enfim, vim pra casa, fiz outra mochila de roupa e no outro dia saí. Então a gente foi daqui pra São Paulo, chegou em São Paulo, a gente fez uma parada. Eu ia contando, como se fossem vídeos curtos, do celular mesmo, pra ele subir e contando a história, como é que foi o percurso de cada parada. Aí depois de São Paulo a gente atravessou o Paraná até Santa Catarina, depois de Santa Catarina até Garibaldi. Então nós atravessamos cinco estados, Minas, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. E lá, enfim, começou a minha saga. E a ideia era a seguinte: a proposta veio de Brasília, tem uma sucursal do jornal, eles queriam muito material. Então, eu fui para lá e lá eu encontrei com a Luciene, que eu não conhecia. E dali… A proposta era a seguinte: tragam histórias para a gente. Cara, isso é... Eu falo assim, não é que é pior, mas é mais desafiador do que quando você tem uma pauta pronta. Quando você tem uma pauta, você tá meio direcionado. Agora, quando você tem que ir buscar a história, você tem que selecionar num universo de tanta coisa acontecendo, porque, na verdade, lá, qualquer coisa lá é notícia. Visto o que tinha acontecido. Então, a gente tinha que buscar a história, buscar pessoas, personagens. Então, esse foi um desafio, e a gente conseguiu fazer lá. Fiquei lá 15, quase 20 dias, rodando tudo. Nós tínhamos um motorista lá à disposição que conhecia. Enfim, foi uma história que marcou a minha vida. Por isso também, que era algo que eu desejei. E aí dizem que as palavras têm força, e eu acredito, tem mesmo. Pensar positivo e desejar, cara, é muito bom. E é isso que aconteceu.
P/1: Rodney, você falou mais cedo, que você conheceu a Kely na época da faculdade, que aí você teve o seu primeiro filho, você também falou que você tem dois filhos. E assim, como é que está isso hoje? Como é que está o ensinamento? Como que foi essa gravidez? A do Igor, você falou, mas como foi a gravidez do segundo?
R: Então, eu conheci Kely lá, joguei meu charme incontrolável e acabaram, enfim, ela caiu no conto do vigário, a gente começou a relacionar e logo depois ela engravidou e a gente conversou a respeito. Ela até falou: “e aí?” “E aí, nós dois somos o que? Adultos, né? Bora pra lá. Vamos criar e é isso.” “Ah, vamos tirar…” “Você está louca? Que tirar? Eu vou contra o meu princípio de formação religiosa? Nem a pau, filho.” E assim, eu sempre quis ter filho mais cedo. Por quê? Porque eu pensava o seguinte, olha, tendo filho mais cedo, quando ele estiver na fase adulta, eu também não estou tão velhinho, então vou conseguir acompanhar. Então eu sempre quis. Mas no primeiro momento eu sempre quis ter uma filha. Primeiro. Mas enfim, depois que você se torna pai, não importa qual é o sexo. Você quer é que venha com saúde e que você tenha condições de criar. E assim foi. Então assim, foi uma... A Kely é uma pessoa muito forte, muito companheira, e levou de boa. Tanto é que ela trabalhou até... “Agora você precisa ir pra casa, porque daqui a pouco você tá tendo menino.” E assim, o Igor nasceu de uma forma dolorosa. Porque quando ela entrou no trabalho de parto, a gente foi... O primeiro hospital que a gente foi, foi o da UFMG. Esqueci o nome. Ali na Alfredo Balena, ela teve lá o Igor. E todo o processo dela foi muito sofrido, para a mulher é muito sofrido. O que acontece? Quando teve dilatação, começou a nascer, anestesia não pegou. Ela teve que fazer um corte, um perino, para abrir, para ter espaço sem anestesia. Ela queria matar o médico que estava lá. Enfim, e eu não pude acompanhar de perto, porque não podia ficar, por ser um hospital universitário, então tinha as limitações, enfim. Mas deu tudo certo e o Igor... A gente levou experiências de pai e mãe de primeira viagem, enfim, e ouvindo aquele tanto de coisa, não pode fazer isso, não pode fazer aquilo. E todo mundo falando na sua cabeça, enfim. Depois você aprende, cara, que o negócio é mais simples do que parece. Você precisa ter sim uns cuidados. E foi. E logo depois, pouco tempo depois, uma diferença de quatro anos, veio a Brenda. A Brenda, na verdade, eu até faço aqui uma meia-culpa, que a Kely olho para mim e falou assim: “como é que eu estou?” “Você está gorda.” “O seu filho da puta, eu estou é grávida?” “O quê?” E eu não sabia. E aí que a gente foi saber que era a Brenda. Também assim, super natural. E a Brenda… Eu sempre acompanhei em tudo, tanto do Igor, quanto… Pré-natal, as vacinas, eu que estava junto, a Kely também, mas eu estava na maioria das coisas, porque a Kely tem aversão de hospital e de injeção. Então, eu que levava. Ela não aguentava ver o menino tomar injeção e chorar. É só isso. Tanto é que hoje eles não têm trauma, porque eu levei como a coisa mais natural do mundo. Mas a Brenda foi mais fácil, a gente já com experiência, então foi muito mais tranquilo. E o dela tende a ser um pouco menor, que quando ela entrou em trabalho de parto, aí sim, a gente já estava acompanhado, e quem estava acompanhando era a doutora Cláudia. E a Cláudia, eu falo que ela é meio zen, que ela começa, “ah, tá tudo bem. Está tudo tranquilo.” Eu falo assim: “Claudia, não é por nada não, não. Você deve ter fumado uma maconhinha antes de... Enfim, mas era assim. Aí a Brenda nasceu no Hospital das Clínicas. No Hospital das Clínicas, não. O Igor nasceu no Hospital das Clínicas. Como é que chama aquela maternidade, gente? Esqueci o nome. A maternidade que tem ali pertinho da Santa Casa, vou lembrar o nome. Aí a Cláudia atendia lá. Aí a gente já marcou, meio que programou tudo, mas a gente queria parto natural. Os dois foram partos naturais. E aí da Brenda, quando ela entrou no trabalho de parto, a Cláudia deixou ela deitada em uma sala do lado, em uma cama. “Ó, vai dilatando, você vai percebendo, você vai vendo. Eu vou ficar aqui conversando com seu marido.” E a gente estava conversando lá. Aí, de repente, escuta a Kely falando assim: “ó, Cláudia, ó, Cláudia, vem cá.” “O que que foi?” “Ó, Cláudia, tem um trem saindo aqui.” “Como assim?” “Não, vem cá pra você ver.” Na hora que a Cláudia passa a mão, a Brenda já estava com a cabeça meio que pra fora. Ela correu e levou pra sala de parto. E a Brenda eu fiz as fotos. Fiz as fotos dela. Eu posso até te mandar um arquivo. Inclusive, assim, depois eu ampliei e entreguei para Cláudia. E recente, agora, Brenda com 18 anos, eu voltei com a Brenda para a consulta lá com a Cláudia. E a Brenda foi lá contar. Aí eu mostrei pra Brenda a foto. Tem a foto dela lá. Então eu fiz a foto dela na cena e ela do lado da médica que fez o parto dessa. Isso é uma história muito legal. E, assim, e nesse decorrer do tempo… Hoje eu e Kely, nós estamos separados. Por escolhas, enfim... Eu acho que a gente vai amadurecendo e vai entendendo. Tem umas coisas que às vezes é para ser. E não deu certo. Mas a gente tem uma convivência muito boa. Até porque eu me propus a isso. Eu falo que a gente tem muito arranca-rabo já no dia a dia. Eu falei, cara, logo com a mãe dos meus meninos? Pra me dificultar acesso a eles? Não. Então tem uma relação boa, uma relação tranquila com eles. E com ela também.
P/1: E como é que foi para o Rodney se tornar pai?
R: Pra mim? Como eu disse para você, eu já queria. Eu sempre quis. Então, além de ser maravilhoso, era algo que eu queria realizar. Então, ser pai para mim não foi nada de... Assim, foi espantoso, foi isso… Não, eu desejei ser pai. Eu sempre quis. E eu diria para você, maravilhoso. Maravilhoso em todos os sentidos.
P/1: Rodney, mudando um pouquinho de assunto, a gente teve um período onde a gente trabalhava juntos, foi ali na covid-19. E como é que isso impactou na sua vida em geral, no profissional, no pessoal? Como é que foi esse período?
R: Cara, eu acho que assim, diria, não sei se é a coisa mais bonita, ei falar assim: porra, eu vivi uma pandemia e sobrevivi a ela. Vendo e ouvindo muitos casos, principalmente Itália, Japão, a própria China. Pessoas literalmente saindo na pá, tanta gente que morreu. A gente teve no Brasil uma... E aí, é algo pra se pensar, como é que nossos políticos encaram determinadas coisas. Você ter um presidente que diz que vacina não salva. E aí, você começa a questionar algumas coisas. Cara, Brasil até pouco tempo, hoje talvez não seja, mas o Brasil era referência em vacinação, por tudo que ele desenvolveu. E o que eu falo assim, Brasil tem muito cara foda, velho. Tem muito cara foda em todas as áreas. Porra, e nesse lado da saúde, principalmente no combate a essas doenças, é isso. E a pandemia por si só, o Covid-19, que de fato não é só uma gripezinha, mas era um vírus de gripe, que aí tem teorias, eu acho que até da conspiração, de falar que eu ouvi, que a China desenvolveu isso e espalhou isso propositalmente. Enfim, aquela série de coisas. Mas que o mundo teve que, primeiro, se reinventar, que teve uma coisa que tirou das pessoas, que é o convívio. Nós somos, por si só, associáveis. Quando tira isso de você, você tem que adaptar. E uma outra coisa, você começa a conviver, às vezes, dentro de casa, uma convivência que você não tinha, que é 24 horas. E você também fica limitado a ver pai, mãe, pessoas mais queridas, até por uma série de questões, porque a gente não sabia. E profissionalmente, pra mim, diria, nenhuma uma escola no Brasil estava preparada para viver isso. E teve que paralisar as aulas, mas o semestre não poderia paralisar. E tiveram que reaprender, e a gente também. Mas eu acho, pelo fato de eu trabalhar com fotografia, que é uma disciplina, para mim, essencialmente prática, esse, dar aula online… Eu falo que dar aula presencial, a gente conhece quem quer muito e quem não quer nada. Na sala tá bem claro lá. A gente sabe. E você sabe que o cara tá ali, “ó, eu finjo que ensino, você finge que aprende, tá tudo certo.” Aí lembra que eu falo de escolhas? Cara, é sua escolha. Eu tô aqui… E assim, eu não estou justificando isso, falar que estou aqui recebendo meu salário e está tudo certo. Não, ensinar para mim é muito mais do que receber meu salário. Mas também não vou te obrigar a querer fazer uma coisa que você não quer. Mas, enfim, faz parte. Então, escola teve que se readaptar. Diria que talvez não tenha sido a melhor escolha ou a melhor forma que foi feita, porque foi um semestre que literalmente, pra mim, perdido no sentido, assim, eu deixei, eu tive pouca possibilidade de entregar pro aluno tudo aquilo que eu tenho capacidade de fazer. Então, assim, não entreguei o melhor de mim, porque eu tive que ir lá adaptar, dar aula à distância e, claro, teve um lado, a gente aprende com isso. Lembra de poder se adaptar? Então, aprendi. Então, descobri que existem outros formatos também que a gente pode aplicar. Eu ainda entendo que na fotografia não é o melhor. Esse negócio de falar assim: “ó, vou te ensinar aqui e você faz aí.” Algumas pessoas aprendem... Porque eu falei que fotografia é muito mais do que apertar o botão de câmera. Então, essa troca… E eu sinto falta de sala de aula por causa disso, essa troca tete-a-tete, você está com o aluno, você puxar a orelha dele, você falar perto. É diferente do que você falar por aqui. É diferente, sabe? Então foi assim, foi difícil. Logo depois disso, infelizmente, eu saí da escola por opção da escola e, cara, pra mim tá tudo certo. Até porque eu entendo que empresa é isso. Cara, você tem um ciclo, e quando entenderem que você não encaixa mais dentro daquilo, tá tudo certo, cara. Você não tem que odiar. Porque assim, por que eu estou dizendo isso? A minha história com o UniBH é uma história de 20 anos, a história onde eu me formei e onde eu também trabalhei. Hoje, para fazer uma analogia, quantos profissionais estão há mais de 10 anos no mesmo lugar? Hoje, no mercado de trabalho, as empresas... Lembra que tinha muita dificuldade de contratar pessoas acima de 50 anos? A empresa está pegando esses caras no laço. Por quê? Porque pela característica são pessoas que têm história com a empresa, têm comprometimento com a empresa, têm responsabilidade. Não estou dizendo que o jovem não tenha. Mas tem uma coisa que o jovem, ele não troca de roupa se pintar uma oportunidade pra ele. Ele te larga na mão. Tchau e benção e vou experimentar. Pode ser que com o tempo ele reflita melhor nessas ações. Então assim, eu tenho uma identidade com o UniBH, identidade de formação e identidade profissional. Me possibilitou muitas coisas. Sou quem eu sou… Te falo assim, lembra de gratidão? Sou grato a tudo que a escola me possibilitou. A escola é gerenciada por pessoas e nem sempre as melhores pessoas estão no cargo onde vão te direcionar. Mas, enfim, não sou eu que vai dizer isso. Você descobre isso com o tempo e está tudo certo.
P/1: Rodney, a gente está caminhando para o final. Você tem uma trajetória que é incrível, por todas suas histórias, caminhos, encruzilhadas, desafios. E no meio desse percurso todo, cara, você já cobriu muita coisa, você já cobriu muita coisa feliz, muita coisa triste. Como é que foram, assim, essas coberturas, as coberturas que mais te marcaram na sua trajetória?
R: Ah, sim. Eu acho assim, tudo na vida é escolha. Tudo na vida é escolha. Vou começar por... Lembra do “não é só por 20 centavos?” Aquilo foi algo que mexeu com o Brasil. Era uma passagem de 20 centavos que, na verdade, tomou uma proporção gigantesca e colocou boa parte da população contra a mídia. Em especial a Globo, Globo Lixo. E a gente teve nessa cobertura, e eu estive aqui em 2013, 2014, época de eliminatórias de Copa do Mundo. E Copa do Mundo, “Não vai ter Copa.” Enfim, fiz uma caminhada do UniBH, estava lá, andando lá do bairro Lagoinha até aqui no Mineirão, a pé acompanhando aquela loucura toda. E, cara, situações que fugiu do controle, fugiu do controle total do que seria até muito lindo em termos de dizer, olha, o Brasil realmente resolveu colocar na rua o grito da liberdade e pressionar os políticos para uma mudança. Cara, e nesse meio uma coisa tomou outro rumo, surgiram aí os blockbusters. Enfim, os famosos encapuzados que desvirtuaram tudo, desvirtuaram de uma forma que era um movimento até, diria, representativo, mas que tomou uma proporção de violência, de agressão descabida, desproporcional, e até diria, irresponsável, um quebra-quebra absurdo. Por exemplo, a gente teve na Antônio Carlos, incêndio em concessionárias que não tinha nada a ver, destruição que não justificava o movimento, agressão à imprensa. Pra você ter ideia, nesta cobertura, os profissionais de rádio e televisão, Itatiaia, Globo, Bandeirantes, eles iam descaracterizados, porque estavam sendo agredidos. E aí tem uma coisa de cobertura que eu aprendi, movimento de massa, cara, fica do lado da polícia, não dá para ficar do lado do povo, ou de quem está sendo contido. Porque ali é uma ação para conter e todo gato é pardo. Então, assim… Mas você fala assim: mas isso tem uma orientação? Cara, tem que ser assim. Se eles não fizerem assim, eles não tomam controle. Foi o que aconteceu. A polícia teve que intervir e entrar com força. E o que acontecia nesse movimento de 2013, 2014, que no início tinha muita família, tinha muita criança, tinha muitos pais, pessoas que de fato queriam mudança. Mas nesse meio tinha muita gente que estava disposta a outras coisas, a guerrear. Não sei se eu poderia dizer que em alguns momentos teve uma guerra civil, mas estava bem próximo disso, de pessoas combaterem a polícia com bombas. E a gente teve morte, morte triste, de um cinegrafista, por exemplo, que estava fazendo seu trabalho no Rio e uma bomba estourou na cabeça dele. Daí o cara foi a óbito. E aí? Enfim, então essa cobertura específica mexeu muito comigo, fez repensar muita coisa. Teve a queda do viaduto aqui, da Pedro I, eu estava voltando do trabalho e tudo parado, cara, e aí você começa a questionar, porque o questionamento foi dinheiro público envolvido, muita grana envolvida e os caras… E até onde eu sei, se eu não estou enganado, uma arquiteta ou uma engenheira da prefeitura apontou erro na construção e falou que estavam errados os cálculos, enfim, pagaram para ver. Infelizmente, mortos aconteceram. Infelizmente, ninguém pagou por isso, a não ser a motorista que morreu, outro cara que morreu, enfim, pessoas morreram. Então, assim, isso mexe. Eu fiz essa cobertura, eu estava chegando aqui. Disso aí a gente tem, cara, em 2015, o rompimento da barragem do Fundão, lá em Bento Rodrigues, que é um distrito de Mariana. E, assim, a internet já estava bombando. Não como hoje, mas já estava. Então, chegou muita informação, muita informação. Chegou tanta informação que as pessoas não sabiam pra onde correr, o que fazer. E aí, nisso, eu estava na UniBH, dando aula. A agência que eu faço foto do Rio, o cara me ligou, onze horas da noite. “Ô, Mariana é muito longe de BH?” Eu falei: “não, cara, Mariana é uma hora e meia, assim, tranquilo.” “Você iria lá pra fazer?” Cara, e eu naquela, pô... Não é assim, se falar assim, não é a... É um desejo cobrir tragédia? Cara, mas era algo que estava acontecendo. Então, profissionalmente, é importante fazer. Até mesmo pela profissão que eu escolhi. Eu tinha que fazer, eu tinha que contar essa história. Quando o cara me fez o convite, eu falei assim, eu vou na hora. “Eu vou! Só não saio agora porque não sei como é que está lá.” Então, eu não tinha noção do que eu iria encontrar. Pensei em mil coisas, inclusive de muita morte. Sabia que tinha muita destruição, mas era isso. Me programei, eu acho que é algo que as pessoas precisam fazer. O profissional que quer fazer determinada cobertura, cara, ele precisa no mínimo se programar, se organizar para uma série de coisas. Para uma série de coisas. Onde dormir? Como eu vou chegar? Com quem eu vou falar? Você precisa ter isso, você tem que pôr isso na sua cabeça. No caso, aí falando especificamente do repórter fotográfico, ele tem que se organizar com isso, ele tem que pensar inclusive no equipamento, o que ele vai levar, se ele vai levar muito peso, menos peso, vai ter internet, não vai ter internet, vai ter luz, não vai ter luz, porque são coisas que fazem parte também da ferramenta do profissional. Enfim, fui apurando pelas notícias que chegavam, que é algo que as pessoas devem fazer, apurar, buscar essas informações. Me programei para ir, saí daqui eram três e meia da manhã e cheguei em Mariana por volta de cinco e meia. O que eu fui fazer em Mariana era buscar saber onde as pessoas estavam. E as pessoas foram levadas para um ginásio. Cara, cheguei lá, outra coisa que me impressionou muito. Como é que a população se mobiliza muito rápido? Tanto de colchão, tanto de tênis, um tanto de coisa. E o que era mais legal, que eu achei legal no sentido assim, chegou lá, chegou aquele tantão de coisas, eles montaram equipes para organizar, separar calçados, separar roupas por tamanho, separar alimento. E muitos colchões. Quando eu cheguei no ginásio, estava muito calmo. Aquilo me causou estranheza. Olha, aconteceu uma tragédia, um rompimento, mas está muito tranquilo. Eu fui procurar saber. Assim, houve mortes, se não me engano, 19. Mas considerada a proporção do desastre, é um número muito pequeno. Não que não seja significativo, porque a gente tá falando de gente. E é claro, se fosse animal, se fosse qualquer, enfim, a gente está falando de vida. Mas foi muito pouco. E por que que não teve muita morte? Porque Bento Rodrigues é uma cidade dormitório. A maioria das pessoas trabalham, inclusive, na mineração. Então quem estava lá? As crianças, as pessoas mais idosas e algumas pessoas que estavam lá. E como a lama meio que, quando ela rompeu, ela seguiu um caminho, e isso é fato, era um vale ali, ela seguiu um caminho até a parte mais baixa da cidade, que foi mais atingida. Essa parte mais baixa tinha menos gente, que eram as pessoas que estavam trabalhando. E teve lá uma senhora que saiu gritando, porque a sirene, tinha uma sirena, a sirena não funcionou. Essa pessoa saiu e tirou as crianças todas. Enfim, ela literalmente salvou muita gente que estava ali na cidade. Então, é isso. Mas nessa cobertura, quando eu cheguei, eu fui lá e depois eu fui me direcionar. Só que para eu chegar em Bento Rodrigues, a estrada que daria acesso estava interditada. Então eu teria que passar por Santa Rita do Sapucaí e voltar. Peguei meu carro, fui fotografando estrada, tudo que eu achava interessante que seria, fui fotografando. Quando eu cheguei em Santa Rita, encontrei algumas pessoas de imprensa. E aí a gente se direcionou, você ia pegar uma estradinha de terra até Bento, são nove quilômetros. Quando eu cheguei nessa estrada de terra, a polícia fechou. A polícia falou: “olha, não passa ninguém mais com carro particular. Ou você vai ter que arrumar uma carona, ou você vai ter que ir de ônibus.” Que estava levando as pessoas. E eu falei, se eu não tiver nenhuma opção dessas, a pé? Falei: porra, já tô na chuva. Já tô na chuva, vou me molhar. Não tinha arrumado carona, encostei meu carro, falei: nove quilômetros a pé, carregando. Lembra do peso que eu falei? Você tem que pensar nisso. Enfim, eram nove quilômetros. Então, uma mochila com dois quilos, no final, ela tá pesando quinze. Então, não tinha que levar muito equipamento, mas eu precisava levar equipamento necessário para eu fotografar isso. Até porque sabia que em algumas áreas não ia poder chegar por causa da lama. Então, eu teria que pensar em levar matéria objetiva, tinha que levar uma grande angular. Enfim, cobrir isso como um todo. Eu acho que eu tinha andado um quilômetro, um quilômetros e meio, um pouco mais do que isso, passando ônibus, ninguém dando carona, mas passou uma moto e o cara parou. O cara parou e falou: “sobe aí, sobe aí!” E eu falei com ele assim, eu não lembro o nome dele, mas falei com ele. “Olha, amigo, mas estou sem capacete.” Aí uma frase dele. “Ô amigo, o que aconteceu na cidade, você acha que alguém vai olhar se você está de capacete ou não? As pessoas não estão preocupadas com isso. Sobe na moto.” Uai, subi na moto, coloquei, comi uma poeira danada, mas fui. E aí, cara, cheguei, esse cara era um morador, aí começa a contar a história dele. Cara, você se emociona, não tem como. Fiz umas fotos, falei com ele, pra quê que era, ele deixou-me fotografar. Enfim, e eu fiz. Aí quando você olha pra onde tinha a cidade, sabe literalmente, tinha uma cidade ali, de repente não tem nada, a enxurrada levou. Foi o que aconteceu. Enfim, fiz isso. E nisso eu olhando daqui, olhando dali. E lembra que eu falei que fotografia é olhar? Você começa… Fotógrafos precisam andar e olhar em todas as áreas. Por quê? Sempre vai ter algum lugar que vai te dar uma foto melhor. E você precisa sintetizar tudo isso, às vezes, numa foto. É o famoso, “olha, você precisa dizer tudo isso em um parágrafo.” Você tem que ter. E na fotografia, resumir isso numa foto. E aí eu olho assim, ó, na estrada, tinha uma faixa de luz descendo, tinha um senhor encostado, eu acredito que numa ambulância, tinha carro de polícia, carro do exército, enfim, esse senhor estava encostado, tinha uma faixa de luz nele. Sabe aquela luz direcionada? Olhei aquilo, uma área de sombra e a luz no cara, falei… E o cara só de bermuda com um cajado, sujo de lama até o pescoço. Falei, cara, essa é a foto. Quero falar de tragédia, porra, o semblante do cara de cansaço, de exaustão. E aí apontei a câmera e fiz, um, dois, no quarto clique, ele levantou a cabeça, olhou pra mim. Ele olhou pra mim e já veio caminhando na minha direção. Aí lembra que eu falei… Putz, fiz merda, esse cara vai me dar uma tabacada aqui, enfim. Aí o cara foi chegando perto de mim. Sabe aquela coisa de olhar assim dentro do seu olho? Ele olhou lá dentro do meu olho e falou assim: “amigo, olha pra mim. Você acha que eu mereço uma foto hoje?” Aí você se põe no lugar do cara. Até lembrei e emocionei. Aí eu olhei pra ele assim, falei assim, o que que eu vou falar? Isso em fração de segundos. Eu falei: não, o senhor não merece uma foto, o senhor merece um abraço. E abracei o cara e apaguei a foto que eu tinha feito dele. Eu tenho uma foto antes e uma foto depois, não tem a foto que eu fiz, nem sei quem é o cara. E aí, assim, isso me marcou muito, mexeu comigo, porque eu me coloquei no lugar dele. E eu acho que também é responsabilidade da gente, de profissional, porque eu perguntei para algumas pessoas o que é que eles fariam. Teve gente que falou comigo assim, eu não apagaria a foto, eu iria publicar. E eu acho que eu tenho muito comigo o seguinte, eu tenho que ter no mínimo respeito e consideração com o meu fotografado. Se eu tenho a possibilidade de perguntar para ele, se ele quiser, ele vai falar, não, pode publicar. Até entendendo que em algumas situações, na rua, se eu fizer a imagem, se a sua imagem aparecer, você não pode fazer nada comigo, porque você está em um lugar público e você tem a possibilidade. Então assim, igual tem o Google quando passa fotografando para mapear e aparecem algumas coisas que às vezes eles até borram. Cara, teoricamente a Google não tem responsabilidade nenhuma. Se você está fazendo alguma coisa de errado, não é problema dela. Mas, enfim, são coisas. Então isso mexeu muito comigo. Eu voltei, voltei para casa, fiz as coisas. Isso é uma coisa. E teve Brumadinho, quatro anos depois, 25 de janeiro, meio dia e 28. Um amigo meu me liga. Assim, já tinha ouvido. Ele falou assim: “o que você está fazendo?” Eu falei: “nada.” Ele falou: “olha, houve um rompimento de barragem em Brumadinho, a gente não tem ideia do que que seja.” Me passou só essa informação. Eu liguei para um amigo meu e falei: “vamos para Brumadinho?” A única coisa… Aí, de novo, pensando no que fazer. Falei assim: “cara…” Liguei para um amigo meu e falei: vamos para Brumadinho? Teve um rompimento lá, você topa ir lá fazer umas fotos?” “Vamos demais.” Aí, combinei com ele, que é o Doug. “Vamos embora. Doug, só que a gente não vai pela BR-381, que possivelmente é o local que vai estar tudo bloqueado, cara. A gente não vai chegar onde a gente precisa chegar. Vamos subir o anel rodoviário, sentido Casablanca. A gente passa por trás.” Enfim, acho que foi a escolha mais acertada que eu fiz do mundo. Porque quando eu cheguei em Casa Blanca, aí tinha uma placa assim: Córrego do Feijão. Eu nem imaginava que era no Córrego do Feijão. Eu fui seguir a estrada. Sabe assim, siga o fluxo? Porque tinha carro de polícia o tempo todo, bombeiro, ambulância, indo para aquele lugar. Só segui o fluxo. Chego lá, aí eles montaram o QG improvisado numa casinha assim. Ah, não, mentira. Eu desci até o final da rua, aí você olha assim, que devastação, o que aconteceu? E eu lembro de gente entrando na lama, tirando gente, tirando bicho, e os caras falaram assim: “o restaurante era ali.” E aí eu lembro de um cara. “Você está vendo aquela mulher ali, aquela funcionária da Vale? Ela escapou porque ela saiu do refeitório, ela viu o negócio, ela correu, pulou na carroceria da caminhonete e mandou o cara acelerar. E o cara acelerou e ela conseguiu escapar. Outras pessoas não tiveram a mesma sorte.” E aí você vai pegando tudo aquilo de informação e vai assimilando e você não sabe para onde você aponta a câmera, porque onde eu apontasse a câmera tinha informação. E meu receio, na verdade, era de ver alguém todo trucidado na minha frente, porque passou um rolo compressor, cara, o que tinha na frente levou. Imaginar que caminhão de minério ficou retorcido. E assim, onde a gente chegou, que tinha lama, o cara falou, tem 20 metros de profundidade de lama aí. Quer dizer, tinha muita coisa lá por baixo. E os bombeiros tinham pouco tempo que estavam ali. Aí eu voltei, voltei nessa casa onde eles montaram o QG, cara. Sabe aquela história assim, a igreja está aberta e o cachorro entra? Entrei, comecei a fotografar. Eu estou lá fotografando. Eu tenho uma foto, ele não tinha quase… Aqueles papéis grandes de anotação, o cara anotou lá, ele ia apontando lá o horário, a zona quente, o horário que aconteceu, o rompimento, quais seriam as ações. Aí, nisso, eu estou lá assim, aí, eu não lembro se é uma tenente, uma coronel do governo, falou: “o que você está fazendo aqui?” “Uai, estava aberto, ninguém falou nada, eu entrei.” Aí ela falou pra mim assim: “então você sai, senão eu vou te prender.” E aí o cara falou assim: “bombeiro prende?” Eu falei: prende, bombeiro tem poder de polícia, ele pode prender, ele pode atirar, enfim, só tem que eles não exercem isso, que essa não é a função principal deles.” Enfim, saí de lá e fui contar as histórias. E dessas histórias que eu fui fazer, tem uma que me chamou a atenção, que teve um momento lá que eles pediram silêncio, que perto de uma casa lá estavam ouvindo latido, a cachorrinha estava desesperada, parte da lama tinha soterrado, parte da casa, onde a cachorrinha tinha os cachorros. Aí o cara foi e tirou os filhotinhos lá, conseguiu salvar dois, o resto morreu. E eu tenho a foto dele limpando o olho do cachorrinho. Essa foto rodou o mundo. O pessoal da proteção dos animais, eu acho que até aquela mulher lá famosa, que cuida dos bichos, esqueci o nome dela, republicou essa foto para falar disso, de descaso. Aí começam, na verdade, tiros para tudo quanto é lado. E aí começam a questionar a mineração, começam a questionar a responsabilidade disso é um tanto de outras coisas. Quer dizer, eu não estou ali para emitir a minha opinião, estou ali para cobrir. O que vão fazer ou a forma que vão dar para aquilo, não é um problema meu. E aí enfim, em Brumadinho eu estive lá, indo e vindo durante 20 dias, acompanhando. E nesse período todo eu vi muitos corpos chegando, mas eu não vi nenhum corpo na lama. E tem um caso específico de corpo na lama, que tem algumas áreas que eles limitaram para a gente ir, mas a gente conseguia dar a volta… Ah, uma outra coisa. Você vê como o negócio da lama era tão perigoso. Vocês lembram que os bombeiros andavam rastejando? E tinha um porquê daquilo, para distribuição do peso do corpo na lama para não afundar, porque se ele ficasse em pé, ele afundava. Tanto é que um amigo meu pisou, atolou até, ele teve que ser revocado, porque estava puxando ele para baixo. Então, assim, uma pressão absurda, ele estava descendo, e se não puxasse ele, ele ia morrer. Então, a história do bombeiro ir lá com aquelas roupas de nada e distribuir o peso do corpo é para não afundar. Então, eles meio que rastejavam o tempo todo na lama. E aí teve um período, depois já feito muitos conhecimentos, eles começaram a entrar com uma máquina anfíbia. Que nada mais é do que uma máquina montada em cima de uma estrutura que te dá flutuação. E aí, cara, eu vi o bombeiro vindo, assim, com a máquina, assim, vindo, vindo. Aí eu fiquei seguindo com a câmera. Falei com um amigo meu que estava do lado. “Cara, tem um corpo ali.” Aí ele falou: “como que você sabe?” “Cara, esse cara está vindo muito certo, tem um negócio ali.” Aí eles arredam… Acho que era uma palmeira, o cara toca. Cara, mas subiu um fedor, um fedor. Um negócio assim, que aquilo ficou impregnado no meu nariz. Assim, o ser humano, literalmente, que carniça. Subiu aquilo que ficou impregnado no meu nariz. Enfim, e foi na mesma época que as equipes de Israel vieram para aprender com os bombeiros, bombeiro militar de Minas Gerais. Assim, o bombeiro de maneira geral merece todo o meu respeito, carinho e admiração, porque os caras são corpo e alma e mais um bocado de coisas naquilo que eles se propõem a se fazer. Tanto é que tem muito respeito, muito carinho da população como um todo. E, de fato, eles estão… Até hoje tem gente lá para achar a última, que eles chamaram de jóias. Até uma alusão à mineração, chamaram as vidas, que foram 272, joias. Acharam recentemente restos mortais para tentar identificar de quem que é. E aí, enfim, só pra contar isso. Tinha um cara do lado, eu falei assim: “amigo…” Acho que esse era até um bombeiro de Brasília, um senhor mais velho já. “O senhor me conta, aquele moço enxergou um corpo ali? Que eu estou aqui tentando ver alguma coisa…” E não via. Ele falou assim: “mosquito.” Como assim?” É uma referência à quantidade de mosquito que tem no lugar. Então, se tem muito mosquito, tem corpo ali. Ou tem vida. Vida não, material orgânico. Tem alguma coisa ali que está apodrecendo e está atraindo mosquito. Só que a gente não via, porque a gente estava a favor do sol. Então, não dava para ver, mas quem estava contra via uma silhueta. Então, via aquele enxame de mosquito em cima ali rondando. Então, foi isso. Ali eles tiraram. O que eu te falei, na hora que ele virou e tirou o corpo. Eu tenho até essa foto, eles recolhendo. Lembram de um touro grandão que ficou muito tempo eles alimentando? Teve alguns também que eles tiveram que matar? Matar porque eles não conseguiram tirar, cara. Não tinha outra forma de tirar, fazer. O bicho estava com a pata quebrada, ia morrer. Então, o que que tinha que fazer? Apesar de ser muito violento. Abater. Teve foto que eu vi, vídeo, de literalmente 10, 15 rebanhos descendo no rio, na lama, carregados, tudo. Então, assim, muita coisa, muita coisa aconteceu. Então, assim, são coisas dessas coberturas que me marcaram muito. Teve uma que não foi especificamente assim, que eu me lembrei aqui, eu tinha pouco tempo de formato. E apesar de eu estar com câmera, eu não fiz, porque eu não quis fazer. Eu estava levando equipamento para fazer uma revisão, mas não estava funcionando. E aí eu subindo a rua São Paulo sentido centro, subindo ali. Cara, o que acontece? Você tem, quando o ônibus vem dali, passando a Augusto de Lima, você tem uma alternância de iluminação muito grande. Então, a área muito clara para a área muito escura. Essa diferença de cor, até o seu olho acostumar, você não enxerga, às vezes, o que tem. E eu lembro que eu estava subindo a rua São Paulo e na minha frente tinha uma criança no passeio, uma pessoa segurando a mão, uma senhora atrás. Então, assim… Depois a gente descobriu, era a filha… A neta, a filha e a mãe. E o que acontece? O ônibus veio, eu lembro até hoje, da aviação Regina. Da aviação Regina, não. Fazia o itinerário Regina. O cara veio e passou em cima da mãe e da avó. Passou por cima, eu o trem lá. As mulheres agonizando lá. Eu estava com câmera, eu falei: não tenho condição nenhuma de fazer essa foto. Nenhuma, zero. E segui, contei. E depois fiquei sabendo. Depois chegaram equipes lá de jornal e fizeram, que tinha muita coisa de polícia, tinha isso aí. E me perguntaram: “por que você não fez?” “Cara, porque podia ser minha mãe, podia ser minha filha. Podia ser. Então eu não quis fazer.” E eu acho que não era a coisa que eu queria mostrar. Então é isso.
P/1: Tem mais alguma coisa que você queria acrescentar, Rodney?
R: Acho que eu repeti isso várias vezes, mas talvez seja assim... A sua história de vida, ela pode fazer muito sentido para muitas pessoas, porque você pode mudar o trajeto, as pessoas podem se inspirar. E que eu desejo, que eu penso que aquilo que eu consiga fazer... Eu vi uma vez uma frase que o cara disse assim, tem um documentário sobre o fotojornalismo no Rio de Janeiro, que chama Abaixando a Máquina. A Máquina, Ética e Dor no Fotojornalismo Carioca. E ele assim, é bem caseirão porque os caras fizeram sem muita coisa. E tem uma frase que o cara falou assim: olha, uma foto não vale uma vida, mas uma foto pode salvar muitas vidas. E aí ele falando a respeito da questão de fazer ou não uma foto. Por exemplo, a gente tem um caso daquele fotógrafo que fez a foto da criança e o abutre, o cara suicidou. Teve um caso em São Paulo, que o cara fez a foto enquanto a mãe estava tentando socorrer a criança que estava afogando no açude, e ele explica por que ele não ajudou. Porque tinham outras pessoas ajudando. E tem situações que, às vezes, cara, você não tem que bancar um herói. Tem situações que... E aí, assim, tudo é avaliação. Não está certo nem errado. Mas você pode ser questionado a respeito. O que você faria? Eu, por exemplo, dependendo das situações, eu abaixaria a câmera e iria tentar ajudar. Foi inclusive quando lá em Brumadinho eu tentava, “deixa eu ver se tem alguém aqui para ser socorrido ou para que alguém veja, se eu tivesse essa possibilidade. Então assim, é uma linha muito tênue. E é isso. Então assim, seja lá qual for a sua formação ou a sua função aqui na Terra, faça sempre, apresente para a sociedade ou para as pessoas o seu melhor. Entregue isso para as pessoas, que isso faz a diferença absurda na sua vida e na vida de outras pessoas.
P/1: O que você gostaria que fosse deixado do seu legado para as próximas gerações?
R: A minha história, apenas. E aí as pessoas tiram suas conclusões. “Não, valeu a pena.” Por que eu estou dizendo isso? Porque é muito legal, por exemplo, eu encontrar um ex-aluno e o cara falar para mim assim: “cara, o que você falou, o que você fez, modificou a minha vida.” Então se a a minha história… Pensando sempre para o lado do bem, do bom, faça isso que é a minha história, faça sentido para muita gente e faça com que as pessoas reflitam sobre as suas ações na sociedade. E eu quero dizer o seguinte, eu não sou a melhor pessoa do mundo, mas não sou a pior. Tento sempre fazer o meu melhor, sem prejudicar ninguém.
P/1: Você acabou de contar a sua história, Rodney. E como é que foi essa experiência para você?
R: Essa? Cara, eu na verdade diria, surpreendente no fato de ter a possibilidade… Surpreendente no sentido de feliz em ter a oportunidade de contar a minha história. Que eu sei que isso vai chegar em alguém ou, de alguma forma, alguma pessoa vai dizer, olha, que história bacana desse sujeito, que eu não conheço. Que eu acho mais legal isso, às vezes a gente tem a possibilidade de mudar a vida ou, enfim, de inspirar alguém que você não tem… Você nunca teve contato. Mas a história de vida, ela às vezes, assim: “pô, isso tem muito a ver com a minha vida, com o meu modo de pensar, com o meu modo de entender. E isso é legal. Então, fico muito feliz, agradecido pela oportunidade de contar a minha história.
P/1: Chegamos ao final, meus colegas.
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