Museu da Pessoa – Conte sua história
Histórias de Esperança – 29 anos do Projeto Criança Esperança
Depoimento de Celina Mendes do Prado
Entrevistada por Eliete Pereira
Osasco 10/03/2015
Realização Museu da Pessoa
Entrevista HECE_HV_51
Transcrito por Ana Carolina Ruiz
P/1 – Celina, boa tarde.
R – Boa tarde.
P/1 – Pra gente começar eu queria que você me dissesse o seu nome completo, o local e a data de nascimento.
R – Meu nome é Celina Mendes do Prado. Eu nasci em Jandira, São Paulo, no dia 5 de abril de 1968.
P/1 – Celina, qual o nome dos seus pais?
R – Antônio Mendes do Prado e Maria Antônia da Silva Prado.
P/1 – O que eles faziam, seu pai, ou fazem?
R – Então, meu pai é falecido já há oito anos. Ele era padeiro, meu pai, e a minha mãe sempre foi comerciante. Minha mãe tem 82 anos, é uma pessoa superativa, ainda trabalha, viaja sozinha, enfim.
P/1 – Eles são de Jandira?
R – Eles moram em Barueri. Meu pai, eu não tenho mais o meu pai, e a minha mãe mora em Barueri. É um município próximo a Jandira.
P/1 – Eles eram ali de Jandira, Barueri?
R – Não, não. Eles eram do Nordeste, né? Geralmente quem vem pra São Paulo são nordestinos, eles vieram pra São Paulo pra construir a vida aqui e ficaram, moraram muitos anos em Jandira, eu estudei, cresci, tive minha infância em Jandira. Fui professora lá na mesma escola que eu estudei e depois de um tempo a minha mãe veio morar em Barueri.
P/1 – Celina, de qual estado que eles eram, os seus pais?
R – De Alagoas e o meu pai da Bahia mesmo, Salvador, Bahia.
P/1 – Ah, Salvador? Você chegou a conhecer depois?
R – Não. Alagoas eu fui conhecer nordeste, mas Bahia eu não conheço ainda.
P/1 – E como que os seus pais... Como era a personalidade dos seus pais? Do seu pai, da sua mãe.
R – Então, meu pai era uma pessoa, sempre foi muito quietão, caladão, o negócio dele era trabalhar e trazer dinheiro pra casa. O tradicional homem de casa. E a minha mãe não, a minha mãe sempre esteve mais com a gente, a relação acho que principalmente de mulher, de menina é mais com a mãe, né? Até hoje. Minha mãe sempre foi uma pessoa muito dinâmica, muito batalhadora pelas coisas que ela queria e sempre perto da gente. Eu lembro que eu fazia, na época da faculdade eu já tinha 20 anos e ela ia me buscar meia noite, meia noite e meia no ponto de ônibus, ela fazia isso. Então a relação acho que é muito mais próxima com a mãe da gente.
P/1 – E você tem irmãos?
R – Tenho. Eu tenho oito irmãos, é uma família grande de oito irmãos, mas cada um seguiu um caminho. Alguns moram no interior de São Paulo, outros moram em outros estados, então a gente não tem muito contato por conta disso hoje.
P/1 – Os seus pais se conheceram em São Paulo ou eles se conheceram no nordeste?
R – Eles se conheceram em São Paulo. Conheceram-se em São Paulo.
P/1 – E o nome dos seus irmãos?
R – Tem vários.
P/1 – Quantos homens e quantas mulheres?
R – Tem quatro homens e cinco mulheres.
P/1 – Você está em qual posição?
R – Eu tenho uma irmã mais nova do que eu e tenho um irmão mais novo do que eu. Tenho uma irmã de 42 e tenho um irmão de 39. Acho que eu sou a...
P/1 – A antepenúltima.
R – É.
P/1 – Celina, e como que foi a infância de vocês lá em Jandira?
R – Então, eu tive uma infância muito difícil. Minha mãe, meu pai trabalhando, minha mãe trabalhando, foi uma infância muito difícil. Eu lembro que eu morava num barraco, uma casa era de... De madeira a casa, era muito simples, depois de um tempo a minha mãe construiu uma casa, minha mãe e meu pai construíram uma casa, mas foi uma infância difícil, não foi uma infância muito fácil, não. Naquela época eu acho que as coisas eram mais difíceis do que hoje, mas a minha mãe nunca deixou de mandar a gente pra escola. E eu lembro que naquela época o pai falava que mulher não foi feita pra estudar, então eu fui a primeira das filhas que fui pra faculdade, que eu fui fazer faculdade, minha mãe apoiou e depois a minha irmã mais nova do que eu que foi também, mas as minhas outras irmãs não fizeram faculdade, né? Porque eles tinham essa mentalidade que mulher foi feita pra casar, cuidar de filhos, que não precisava estudar. Meu pai falava que pra cuidar de filhos, pra trocar fralda não precisava de faculdade.
P/1 – Nordestino.
R – É. Exatamente.
P/1 – Mas, Celina, a infância de vocês, vocês costumavam brincar ou vocês ajudavam muito em casa?
R – Eu lembro que a gente brincava bastante, mas eu lembro que com dez anos eu era responsável de limpar a casa, de ter horário pra ir pra escola e fazer as coisas. Eu não lavava roupa, eu lembro que eu não lavava a roupa, mas o resto eu fazia tudo, eu já cozinhava, eu já limpava a casa. É diferente de hoje, hoje as crianças não têm essas responsabilidades que nós tínhamos antes, mas eu gostava de fazer. E isso foi bom, foi bom pro meu crescimento, eu vejo que algumas coisas que eu aprendi lá atrás na minha época de criança que eu trago até hoje. Acho que isso é bom pra vida da gente, né? Ensina a batalhar pelas coisas.
P/1 – Vocês tinham alguma brincadeira que vocês faziam?
R – Tínhamos. Eu lembro, eu era muito molecona, eu brincava de carrinho de rolimã, eu lembro que a gente morava numa descidona e eu vivia com as pernas tudo machucadas, tudo roxa porque eu andava naqueles carrinhos de rolimã com os moleques da rua. Na verdade era isso mesmo que eu fazia. Engraçado que eu tirava notas boas, mas eu era terrível na escola. Terrível de fazer algumas coisas que os professores achavam na época que não podia fazer, por exemplo, ler um gibi na minha época o professor tomava o gibi da gente porque... E depois eu fui pra sala de aula, era o contrário, levava o gibi pros meus alunos lerem, né? Então tinha algumas coisas que você não podia se expressar, você não podia falar que você era considerado como aluna ou aluno inconveniente, ou aluno que dava trabalho.
P/1 – E quais lembranças que você tem da escola além dessa coisa do gibi que era proibido ler?
R – Então, eu me lembro de uma professora, o nome dela era Lucila Amado, ela me deu aula no pré e depois na primeira série. Ela era muito de cuidar mesmo, de cuidar como mãe dos alunos. Eu lembro que uma vez eu tive um sangramento no nariz, ela ficou o tempo todo cuidando e depois ela me levou de carro pra casa, então aquilo me marcou muito, porque aquela época não era muito fácil todo mundo ter carro e ela me colocou no carro e me levou pra casa porque eu estava com o nariz sangrando. Então eu acho uma coisa que me marcou, que uma professora fez.
P/1 – Você teve alguma disciplina, alguma matéria que você gostava?
R – Sim. Português, né? Que depois eu fiz Letras. Acho que foi pelo contato com a professora, eu tive vários professores muito bons de português e eu gostava de estudar. Eu gostava de estudar, então isso facilitou muito. Eu fui pra uma escola pública, eu estudei em escola, em universidade pública até porque eu não podia pagar. Então eu batalhei pra que eu conseguisse ir pra uma escola pública. Então eu fiz uma universidade pública, depois eu fiz uma pós em uma universidade pública. Eu só fiz uma universidade paga quando eu fiz pedagogia, mas até a pós-graduação em gestão pública que eu fiz também foi numa universidade pública.
P/1 – Celina, você sempre morou em Jandira?
R – Não. Eu saí de Jandira, daí... Não. A minha infância toda eu passei em Jandira. Eu saí de Jandira, casei-me em 90. É, 90, 91 me casei e fui morar em Carapicuíba. Morei 11 meses em Carapicuíba, aí meu ex-marido foi transferido pro Paraná, numa empresa que ele trabalhava, abriu uma filial, ele foi, nós fomos pra lá e lá eu terminei de estudar. Lá que eu fiz uma pós, eu estudei na Universidade Estadual de Ponta Grossa, lá eu tive o meu primeiro filho, enfim. Eu vivi por oito anos lá em Ponta Grossa.
P/1 – Eu vou voltar um pouquinho pra te perguntar como que você conheceu o seu ex-marido.
R – O meu ex-marido? Como eu conheci o meu ex-marido? Nós tínhamos um grupo de amigos, as pessoas mais ou menos da mesma idade, inclusive o Anésio, aquele que você viu, e me apresentaram ele. Não sei, não foi, na época... Eu fiquei casada 20 anos, não é porque fala é uma paixão avassaladora, não foi essa a questão. Eu era muito pé no chão e daí na época as mães falavam: “Você tem que casar com um homem trabalhador e honesto”. Então era isso que a gente via naquela época e hoje não é muito, a gente sabe que isso não quer dizer nada. Então foi isso. Casei e vivi 20 anos com essa pessoa, eu tenho dois filhos que são maravilhosos, os meus filhos. Eu não me arrependo do casamento por conta dos meus filhos.
P/1 – Eu vou voltar um pouquinho antes pra perguntar se o seu ex-marido foi o seu primeiro namorado ou você teve outras, apaixonou-se por outras pessoas antes.
R – Sim, namorado de escola. Eu nunca fui muito namoradeira, não, eu era mais tranquilona. Mas namorado de escola, nada que foi assim mesmo namoro sério, digamos que foi sério foi ele. Tive um namorado que acho que me apaixonei bastante por ele, mas também não deu em nada, foram coisas de meses, mas não deu em nada.
P/1 – E quando você estava na escola você sempre estudou, quando você estava no ensino médio, ou você teve um período que você também estudou e trabalhou?
R – Ah, estudei e trabalhei. No ensino médio já trabalhava. Eu fui pra uma...
P/1 – Qual foi o seu primeiro emprego?
R – Então, eu fui trabalhar numa escolinha. Fui trabalhar numa escolinha como auxiliar de professora, numa escola particular como auxiliar de professora. Depois eu saí dessa escola, porque não era registrado, enfim, eu era nova ainda. Como eu gostava muito da área de educação eu fui pra essa escola. Aí depois eu fui, já estava no primeiro ano de faculdade e eu precisava ganhar dinheiro, eu fui trabalhar numa empresa como auxiliar de compras, que é uma área que eu gosto também, eu acho que tem um pouco a ver comigo e com o que eu faço hoje que é negociar. Eu trabalhei acho que uns quatro, cinco anos nessa empresa, depois eu saí de lá como compradora. Foi uma época bacana. Mas como eu queria ir pra área de educação eu terminei saindo da empresa e fui dar aula. Eu dei aula no Estado, dei aula na Prefeitura por muito tempo. Eu sou apaixonada por essa área, não pela sala de aula e não pelo sistema educacional que existe no Brasil, que eu não concordo, mas pela educação. Eu acho que a educação transforma as pessoas, a forma de ver o mundo e a forma de possibilidades que as pessoas têm é através de educação e de formação.
P/1 – E quando você descobriu essa sua vocação pra área de educação?
R – Olha, eu acho que descobri eu tinha... Porque eu sempre... Não é que eu fui revoltada, mas eu sempre fui inconformada com algumas coisas. Por que a pessoa tem que nascer e tem que ter uma vida superdifícil? O que ela precisa fazer pra mudar a situação dela? Eu comecei a ver que as pessoas precisam de oportunidades e oportunidade você tem através de educação. Mas eu acho que quando eu estava trabalhando ainda na empresa, eu não estava feliz com o que eu estava fazendo, eu sou assim, quando eu não estou feliz com o que eu estou fazendo eu simplesmente, claro, de caso pensado, deixo de fazer. Acho que a gente tem que ser feliz com aquilo que você faz, tem que ser apaixonado pelas coisas porque senão a vida da gente é muito curta, se a gente não fizer o que a gente gosta, não ser apaixonado pelas coisas que você gosta acho que não vale a pena você viver perdendo tempo com aquilo.
P/1 – Celina, você fez a sua primeira faculdade, qual foi o curso?
R – Fiz Letras. Fiz Letras...
P/1 – Onde você fez?
R – Universidade Estadual de Ponta Grossa.
P/1 – Você já estava casada e você já estava no Paraná.
R – Isso. Isso. Já estava casada, inclusive depois... Eu estava no último ano de faculdade e eu engravidei e eu comecei... É. Foi no último ano de faculdade eu engravidei e eu comecei a fazer uma pós logo em seguida. O curso terminou em dezembro e em janeiro, janeiro, fevereiro eu já comecei a fazer a pós e eu já estava grávida. Fiquei grávida mais ou menos dezembro, janeiro, meu filho nasceu em agosto, ele fez a pós comigo e depois que ele nasceu, depois de 15 dias eu já estava na faculdade de novo porque pós não tem licença médica, né? Então eu o levava de bebezinho comigo, no carrinho, e fazia a pós sexta e sábado o dia inteiro, ele ficava comigo. Ele cresceu também já nesse pique.
P/1 – E você trabalhava também?
R – Trabalhava. Eu trabalhava meio período.
P/1 – E onde que você trabalhava lá no Paraná?
R – Trabalhava em escolas. Eu dava aula em escolas públicas do Paraná, escolas estaduais. Trabalhei numa escola chamada Elias da Rocha, uma escola que me marcou bastante.
P/1 – Por que te marcou?
R – Então, acho que por conta dos alunos. No Paraná o sistema eu acho... Os alunos não sei se são mais interessados por educação ou o sistema é diferente de São Paulo, mas eu tive possibilidades de fazer algumas coisas que eu não tinha aqui em São Paulo. Eu não sou uma professora e nunca fui uma professora convencional que chega lá com livro didático e dá aquela gramática. Eu acho que a gramática tem que ser contextualizada, ela tem que... E a educação tem que ser contextualizada com a vida da pessoa, não adianta nada eu estar falando a criança chupa uma uva sendo que ela nunca viu uma uva na vida, então eu acho que tem que ser contextualizada. Eu fazia muito disso em sala de aula. Eu dava aula de português... Quem faz Letras pode dar aula de português e inglês e eu fiz um desfile de moda ensinando as cores, ensinando algumas coisas e as meninas adoraram. Então eu trabalhei essa questão de autoestima, do que elas poderiam chegar, o sonho de menina de ser modelo, enfim, numa aula simples de inglês.
P/1 – Aí você ficou dando aula muito tempo?
R – Dei aula 18 anos. Dei aula 18 anos em escolas públicas, dei aula também numa faculdade de teologia. Foram 18 anos... Dei aula no Senac também, no curso de aprendizagem. E depois eu sempre tive essa questão de voluntariado, de ajudar as pessoas, de tentar fazer alguma coisa por alguém além da minha vida. Eu acho que não adianta você trabalhar, você estudar só pra você, acho que você faz... Se eu ganhasse o dinheiro apenas pra mim, se eu estudasse apenas pra mim minha vida não teria sentido completo, eu acho que você faz em função de alguma coisa. Acho que o fato de eu ter estudado em escola pública eu me sentia na responsabilidade de devolver porque alguém pagou por mim, eu não paguei, mas alguém pagou por mim. Então eu acho que eu tinha que devolver isso pra sociedade. Então foi quando nós tivemos a ideia de abrir um cursinho pré-vestibular, isso em 2005, com professores de escolas públicas.
P/1 – Onde esse cursinho?
R – Aqui em Osasco mesmo, na Carisma que é uma comunidade evangélica e eles também têm esse lado social. Então nós fizemos esse cursinho, a princípio nós tínhamos 30 alunos de início, depois nós chegamos a ter 180 alunos. Tínhamos várias salas de aula e tínhamos um grupo de 30 professores. Eu parei de dar aula e eu comecei a coordenar esse curso e tudo com professores voluntários. Eu tinha professores que eram doutores da USP e que vinham dar aula nesse cursinho. Então foi um momento bem bacana, de crescimento, e você via alunos conseguindo entrar... Gente que não teria condições de pagar um cursinho bom entrando na USP, na Fatec. Então foi muito recompensador.
P/1 – Eu vou voltar um pouco, Celina, pra te perguntar, a primeira vez que você saiu do Estado de São Paulo foi quando você foi pro Paraná?
R – Sim. Foi. Foi a primeira...
P/1 – Quais foram as suas impressões, além dessas que você já nos contou relacionadas ali ao interesse dos alunos na sala de aula?
R – Então, o Paraná, eu fui morar em Ponta Grossa, o que eu percebi lá e eles são assim mesmo, eles são mais fechados, acho que também por conta do clima lá, época de frio são quatro, cinco graus. Lá é muito frio, é muito próximo de Curitiba, então as pessoas são mais fechadas e elas estudam mais. Não sei por que, mas, por exemplo, Ponta Grossa é uma cidade pequena e tem uma universidade, uma universidade grande com vários cursos e era difícil você encontrar uma pessoa, mesmo que ela trabalhasse, por exemplo, de caixa no mercado que não tivesse um curso superior. E geralmente as pessoas tinham duas, três faculdades lá. Era normal alguém fazer graduação e uma pós-graduação porque tinha universidade de graça. Então esse acesso, essa facilidade de acesso à educação eu achei muito bom lá, mas as pessoas eu percebi que elas são mais fechadas, acho que por conta do clima, eu não sei dizer.
P/1 – E depois que você saiu você voltou pra São Paulo então?
R – Voltei pra São Paulo. Eu voltei pra São Paulo.
P/1 – E como foi esse retorno e por que você voltou pra São Paulo?
R – Então, o meu ex-marido teve Síndrome do Pânico, então ele não queria mais ficar lá. Enfim, ele quis voltar pra São Paulo, voltar pra empresa que ele trabalhava na Voit na época e ele quis voltar pra trabalhar aqui em São Paulo. Enfim, foi uma época nebulosa da minha vida, eu estava grávida do segundo filho. Ah, então, deixa-me te contar uma coisa que eu não contei antes, quando eu engravidei da primeira vez eu não sabia que eu não podia engravidar, que eu tinha problemas hormonais, tinha problema de falta de progesterona. Então eu fiquei grávida a primeira vez e perdi, fiquei arrasada, arrasada, não entendia por que, porque eu estava casada já há quatro anos, tinha feito tudo certinho e parei de tomar remédio, engravidei, mas perdi. Aí o meu médico falou que era normal a primeira gravidez, enfim. Depois de um ano eu engravidei de novo e perdi de novo, perdi de novo o segundo filho, daí eu falei: “Não. Não é possível, vou fazer um tratamento, vou ver o que é”. E fui atrás, indicaram um médico em Curitiba, doutor Ricardo Beck, foi um anjo esse homem na minha vida. Ele é especialista em fertilização, em bebê de proveta que chamavam antes. Daí eu comecei a fazer tratamento com ele, ele me pediu uma série de exames, ele falou: “Mas o que você tem é falta de progesterona”. E realmente, eu fiz os exames e deu falta de progesterona e eu fiz tratamento e engravidei do meu primeiro filho, que hoje já tem 17, vai fazer 18 anos. Aí o segundo filho também eu demorei pra engravidar, eles têm diferença de cinco anos. Quando ele estava com três pra quatro anos já tentei engravidar pra não ficar muita diferença de idade, mas eu não conseguia também. Fiz novamente tratamento pra engravidar do meu segundo filho que hoje tem 13 anos.
P/1 – E como que foi essa chegada dos filhos na vida?
R – Então, porque foi uma coisa que eu sempre quis, foi uma coisa planejada, foi uma coisa sonhada. Eu queria ter filhos, eu acho que quando a gente se torna mãe acho que tudo muda na vida da mulher. Então foi uma coisa muito boa pra mim, eu acho que eu comecei a ver o mundo de outra forma, as pessoas de outra forma, aprender a aturar mais algumas situações. Então eu acho que até o fato mesmo de eu ter perdido os nenéns e ter que esperar pra engravidar de novo, porque eu sempre fui muito agitada, sempre fui muito... Eu penso assim, eu planejei então tem que acontecer e nem sempre é assim. Então eu acho que isso mexeu comigo também, então não é só a minha vontade, mas também tem vontade de Deus. Então as coisas não acontecem apenas quando eu quero, tem uma série de circunstâncias.
P/1 – E você voltou pra São Paulo com as crianças então?
R – Voltei. Não, eu estava com... O meu filho tinha de quatro pra cinco anos.
P/1 – O primeiro.
R – O primeiro, o Mateus. E o segundo eu estava grávida de três pra quatro meses mais ou menos. Mesmo em São Paulo eu fui pra Curitiba ter o meu filho com esse mesmo médico, porque já tinha feito o tratamento com ele. Ele nasceu no domingo... Não. Nasceu na quinta-feira, dia primeiro de fevereiro de 2002 e no domingo eu vim embora. Eu tive cesárea, mas eu estava superbem, os dois foram cesárea, mas eu estava superbem, eu vim embora. Eu vim embora pra São Paulo, cheguei, arrumei minhas coisas, eu estava bem.
P/1 – Qual o nome do segundo?
R – Vinícius.
P/1 – Vinícius?
R – Vinícius.
P/1 – E São Paulo quando você voltou o que te esperava? Você já tinha planejado também esse retorno? Como que foi essa mudança também, a família?
R – Então, na verdade eu sentia falta dos amigos de São Paulo porque eu fui pro Paraná e a gente trabalhava e estudava só lá. Fiz uma amiga lá que é minha amiga até hoje, amiga de faculdade, a gente teve nenéns, filhos na mesma época, a gente engravidou na mesma época. Enfim, ela é minha amiga até hoje, 18 anos que a gente tem amizade e mesmo ela lá em Ponta Grossa, eu aqui, a gente consegue viajar juntas, ela ir na minha casa, enfim. Isso foi bom, foi uma coisa legal que aconteceu lá. Mas eu queria, tinha vontade de voltar pra São Paulo por conta dos amigos, a facilidade aqui também de São Paulo pra Ponta Grossa, enfim, a família aqui também. Então era tudo muito mais fácil e eu queria também que os meus filhos crescessem perto dos avós. Foi uma série... E essa questão que o meu ex-marido teve também e eu precisei voltar.
P/1 – E ele fez tratamento depois?
R – Fez. Fez tratamento, eu acompanhei todo o tratamento com ele e depois ele terminou saindo, assim que o meu filho nasceu, o mais novo, o Vinicius, ele terminou saindo da empresa e foi dar aula também. Porque lá em Ponta Grossa ele também fez curso superior em matemática e foi dar aula também. Foi isso.
P/1 – Vocês trabalharam também juntos pra esse projeto do cursinho?
R – Sim. Ele trabalhou. Ele trabalhou. Ele também nos ajudou na área de matemática ele nos ajudou também com o projeto.
P/1 – O primeiro emprego que você teve depois que voltou foi qual?
R – Voltei pro Estado, eu fui dar aula no Estado.
P/1 – Você fez concurso público?
R – Fiz. Fiz concurso e dei aula no Estado, depois eu fiz concurso em Barueri também, na escola municipal, dei aula lá também por um tempo e depois eu saí mesmo quando eu vim trabalhar aqui no Centro Social Carisma.
P/1 – Como que isso aconteceu?
R – Então, isso aconteceu por quê? Por conta do cursinho eu comecei a me aproximar, eu era voluntária e eu gostei dessa ideia de voluntariado e comecei a ver resultados na vida das pessoas, que elas entravam na faculdade, depois elas se formavam, elas estavam empregadas. Então isso me motivou, falei: “Tem alguma coisa além disso”. E eu me identifiquei muito com a área social e daí eu comecei a trabalhar como voluntária por um período aqui no Centro Social, eles me convidaram, e era um grupo pequeno de adolescentes aqui das áreas livres, aqui das favelas próximas a ONG. Eram meninos sem muitas perspectivas, eles não sabiam preencher uma ficha pra fazer uma entrevista, então eu falei: “Não, eu preciso fazer também alguma coisa por eles”. Eu comecei a vir uma vez por semana, na sexta-feira à tarde e eu tinha um tempo com eles. Aí eu fiz um projetinho, era Educando pra Vida o nome do projeto, e daí nós começamos a mandar esses meninos, eles tinham essas atividades comigo e a gente começou a mandar esses meninos pro Senac pra fazer entrevista e pra entrar como jovem aprendiz. Vários deles entraram, então foi uma época de início e que a gente precisava que esses meninos... Se eles não fossem trabalhar eles iam pro tráfico ou eles iam roubar, não tinha muita... Porque eles estavam... Quando eu vim pra cá a gente tinha muita criança, muitos meninos, ou eles trabalhavam carregando coisas na feira ou mesmo no farol. Tinha muitos, muitos meninos mesmo que eles ficavam no farol aqui próximo a organização pedindo dinheiro ou vendendo alguma coisa e era um risco pra eles.
P/1 – Vocês fizeram algum tipo de abordagem direta com essas crianças?
R – Fizemos porque quando eles começavam a descobrir que tinha a organização então eles vinham pra cá e foi bem no início, a gente não tinha muitas atividades. A gente trabalhava com voluntários, eu era voluntária e tinha outras que eram voluntárias também e não era nada muito planejado. Tinha algo, por exemplo, a dona de casa ia pra casa e jogava bola com eles, ou tinha uma mesa de pebolim aqui que eles ficavam jogando pebolim, mas eles não estavam na rua, eles estavam aqui, já era uma segurança, né? E eu comecei a ver isso, eu falei: “Mas não é isso”. Eles não vêm pra cá pra ou só jogar bola ou só pra ficar jogando pebolim. Não é bem isso que eu entendo por educação, não é bem isso que eu gostaria que tivesse. E tínhamos uma assistente social na época que era... Ela iniciou o projeto, ela idealizou tudo isso daqui e ela precisava de ajuda, mas a organização não tinha dinheiro pra contratar pessoas e daí eu vim como voluntária e depois eles pediram pra que eu viesse pra ajudar na parte pedagógica. Eu não tinha pedagogia nessa época e eu precisava da pedagogia por conta da coordenação pedagógica, que eu comecei a trabalhar como coordenadora pedagógica. Eu trabalhava meio período aqui e continuava dando aula no Estado.
P/1 – Mas já não era voluntária aqui?
R – Não. Não era voluntária. Não era voluntária porque eu trabalhava meio período. Eu vinha cinco dias na semana, meio período pra cá. Daí eu vi que era necessário eu fazer um curso de pedagogia pra entender um pouco mais, pra fazer a elaboração de um planejamento político-pedagógico pra organização. E foi isso. Fiz o curso...
P/1 – Você fez o vestibular de novo?
R – Não. Eu não precisei fazer porque eu já tinha um curso superior. Na verdade é uma complementação porque se você tem um curso elimina várias disciplinas, eu já tinha um curso de Letras de cinco anos, então eliminei várias disciplinas e fiz o curso de Pedagogia.
P/1 – Você fazia isso o que, à noite?
R – Fazia à noite. Fazia à noite e final de semana no sábado. Então eu trabalhava, tinha a casa, tinha os filhos e fazia...
P/1 – E as crianças? Ficavam com quem os seus filhos?
R – Então, os meus filhos sempre iam pra escola de manhã e à tarde eu sempre os coloquei pra fazer alguma atividade, ou música, ou uma atividade física, ou esporte. Sempre, sempre, sempre. E daí eu às cinco horas da tarde já estava em casa e eu não trabalhava todos os dias no Estado, eu tinha alguns dias livres que eu ficava com eles. Eles foram criados aqui na ONG, tudo que eu tinha quando eu dava aula no cursinho eles ficavam, trazia-os de manhãzinha, eles ficavam o dia inteiro aqui. E eles são voluntários aqui na ONG desde pequenininhos.
P/1 – Então eles acompanharam desde o início?
R – Desde o início. Desde o início eles acompanharam e eles gostam bastante, eles são muito envolvidos no projeto. Então isso é legal.
P/1 – Celina, quando que começou essa parceria, esse apoio do Criança Esperança?
R – Então, deixa só eu te falar um pouquinho antes da questão da parte pedagógica. Então as crianças vinham pra jogar bola, enfim, eu falei: “Não. Não é bacana”. Então nós construímos um plano político pedagógico pra organização. Olha, a gente precisa ter um objetivo, a gente precisa ter um fim, as crianças vêm pra cá com qual objetivo? O que nós queremos que essas crianças alcancem lá na frente? Nós começamos a pensar num plano de vida pra eles. Então eles entram aqui com oito anos, daqui dez anos o que eles vão continuar fazendo aqui? E daí nós começamos a pensar nisso e colocamos no papel e vimos que era necessário a gente ter todas as documentações, as questões de registros nos conselhos, conselho municipal, e eu não conhecia nada disso porque eu era da área de educação. Não conhecia nada disso porque é a área do terceiro setor e é parte administrativa isso e eu fui fazer cursos. Eu fiz curso no Senac, fiz curso na FGV, eu ganhei um curso na FGV de ferramentas para o terceiro setor que foi superbom pra mim e tudo que eu aprendi pro terceiro setor foi lá. Daí a gente começou a ter os registros nos conselhos, o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, no Conselho de Assistência Social, e daí eu comecei a ver, aí eu ia buscar no Google. Eu via que outras organizações tinham: “Ah, o que aquela Liga Solidária tem?”. Eles têm o título de utilidade pública municipal, como que faz pra fazer? A gente ia buscar no Google, precisa disso, disso, disso. Aí a gente foi, conseguimos o título municipal, depois o estadual, depois o federal. Então isso foi uma crescente com o tempo, nós fomos crescendo como... Eu fui crescendo como pessoa, como profissional e a organização também foi crescendo com isso. Foi uma busca, foi uma busca de conhecimento pra que a organização fosse reconhecida e que tivesse visibilidade.
P/1 – E a organização, quando você diz organização seria esse braço, vamos dizer, essa ação da mantenedora que é a Carisma?
R – Isso. Isso.
P/1 – Esse espaço, vocês sempre tiveram esse espaço físico aqui?
R – Então, nós tínhamos, na verdade isso daqui era um barracão, não era tão estruturado como hoje, né? A gente tinha, por exemplo, na cozinha umas mesas de madeira que voluntários construíram. Madeira e pés de madeira, os bancos de madeira, então não era muito bonita a aparência, mas era o que nós tínhamos. Pintar, quantas vezes eu pintei isso daqui, eu e os professores, a gente pegava as férias de janeiro, a gente ficava pintando aqui, os móveis. Isso daqui, até isso faz tempo isso daí, eu falei: “Não vamos jogar, não, que é relíquia”. Que nós construímos, nós pintamos isso e era de madeira isso e nós que fazíamos o chão. Esse chão aqui cansei de pintar. E é uma característica de quem trabalha no terceiro setor, não interessa se você tem posse, se você tem Ph.D. você tem que ter o coração pra servir e quem vem trabalhar aqui com a gente é assim. A gente fala na entrevista essa questão, você vem trabalhar independente da sua graduação, você vem aqui e tem que vestir a camisa, tem que ser apaixonado pela causa. Se você não comprar a causa não tem como a gente te contratar. Então geralmente as pessoas vêm, conhecem a causa e se apaixonam e terminam ficando.
P/1 – Celina, continuando essa linha do tempo que você está construindo daqui do Centro Social Carisma, o início vocês eram só voluntários?
R – Éramos só voluntários, quem era funcionária era a assistente social, o restante eram todos voluntários.
P/1 – E mais ou menos quantas pessoas faziam parte dessa equipe?
R – Então, hoje nós temos funcionários CLTs. Eu tenho sete pessoas e eu tenho... Sete? Oito pessoas e eu tenho mais alguns contratados que são prestadores de serviço. Eu tenho hoje 14 pessoas.
P/1 – E vocês chegaram assim, a instituição Centro Social nasceu em que ano?
R – Em 2003.
P/1 – 2003?
R – 2003.
P/1 – Você acompanhou desde o início?
R – Sim.
P/1 – De lá pra cá como você observa a evolução da instituição? Cresceu em número de pessoas que são atendidas, crianças?
R – Sim. Sim.
P/1 – Número de cursos que vocês oferecem.
R – Sim.
P/1 – Nível até de organização da instituição?
R – Sim. Então, nós começamos atendendo 30 crianças. As crianças vinham pra brincar e depois a gente viu que não era só isso que eles precisavam, não era só o fato falar: “Vou tirar da rua”. Não é o fato de tirar da rua, mas qual o objetivo com aquela criança, né? O que você está pensando pra ela e o que ele está pensando também? O que ele quer? Porque a gente tem muito disso aqui, o que a criança quer pra ela, porque não adianta você forçar uma situação. Acho que tem o querer de cada pessoa. Daí de 30 a gente passou pra 50 crianças. Eu lembro que em 2008 foi o primeiro projeto que eu escrevi, eu fiz curso no Senac de elaboração de projetos sociais. Eu falei: “Eu vou tentar fazer um projeto e mandar pro CMDCA, que é o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente”. Aí nós mandamos em 2008, 2009 e foi o primeiro projeto que nós tivemos aprovado no valor de 150 mil. Foi o primeiro dinheiro que a gente recebeu alto de algum lugar e que deu aí pra dar uma boa estruturada. Nós contratamos professores, conseguimos comprar computadores pra instituição, que nós não tínhamos, enfim, deu uma boa estruturada. E a capacitação também da equipe técnica, enfim, nós conseguimos pagar com esse dinheiro. Daí como eu gostei da ideia eu falei: “Agora eu vou começar a fazer um monte de projetos e enviar”. E começamos a fazer isso e hoje a gente sempre faz, hoje quando foi em 2010 nós vimos que era necessário a gente ter... Nós temos uma equipe pequena, então era necessário a gente se organizar, falar cada um é responsável, fazer uma distribuição de tarefas. Então tem a parte administrativa que é a Flávia, então você faz isso, isso, isso, a sua tarefa é essa e nós fizemos um gráfico com isso. E o que era necessário pra gente crescer e se organizar? Então nós começamos a criar procedimentos pra tudo, aqui agora a gente tem procedimentos pra tudo, porque se eu não estou aqui alguém tem que saber com uma criança ou alguém tem que fazer na hora de uma compra, enfim. Então nós criamos procedimentos pra toda a organização em todas as fases. Eu não cuido hoje mais já a algum tempo da parte pedagógica, porque antes eu fazia, cuidava da parte pedagógica, tinha compra, eu fazia. A gente viu que não é por isso, eu tinha que focar na captação de recursos da organização. Então eu falei, então eu vou começar a escrever projetos, vou começar a fazer eventos, vou começar a me capacitar pra isso e tem dado certo. Graças a Deus, a gente fala que tem uma equipe de capacitação, de captação de recurso, mas sou eu e mais alguns voluntários. Tem eu aqui, mas tem alguns voluntários. Eu tenho uma equipe administrativa, mas eu tenho uma pessoa e tenho voluntários que apoiam, que ajudam. Daí nós fomos aprendendo alguns caminhos de como captar recurso pra organização. Eu fui fazer um curso no Rio de Janeiro e eu aprendi lá, eu vi, só falaram, falaram: “Olha, tem as emendas parlamentares”. Eu falei: “Puxa, mas o que é isso?”. Eu não sei se vocês sabem, se vocês já ouviram falar das emendas parlamentares, que cada deputado tem um milhão pra destinar pra uma ONG, isso todo ano. Falei mas cadê esse dinheiro? Esse dinheiro é lícito, então a gente tem que saber como fazer essa captação. Nós já estamos na terceira emenda parlamentar. Nós recebemos uma emenda de 120 mil, compramos lousas digitais pras salas, as cadeiras estofadas, porque os alunos vêm e ficam agora, os aprendizes vêm e ficam, passam seis horas sentados, então a gente começou a pensar também na qualidade de atendimento desses alunos, desses beneficiários. Não era só agora atender, mas atender bem e com qualidade. Outra coisa também, a questão da nota fiscal paulista, como que a gente faz pra receber esse dinheiro? Então a gente viu que era necessário mandar uma série de documentos pra uma secretaria do estado e hoje boa parte dos recursos que nós recebemos é através da nota fiscal paulista. E a gente faz isso tudo com voluntários, eu tenho um coordenador que é voluntário e eu tenho quase cem digitadores. Gente que eu nunca vi na vida, que falo, que eu agradeço por e-mail ou pelo Facebook, alguma coisa, mas são pessoas que eu não conheço e que ajudam a organização a crescer.
P/1 – E esses digitadores fazem o que?
R – Eles digitam os cupons fiscais. Aliás, eu tenho várias pessoas que fazem a captação desses cupons, vai em algum mercado ou em algum estabelecimento comercial, falam do projeto: “Olha, é permitido colocar uma urna pra gente captar...” “Ah, sim”. Então eu tenho a pessoa que vai, pega esses cupons, toda semana essa pessoa vai a vários estabelecimentos e pega esses cupons e distribui pros digitadores. Eles não precisam vir na organização, eles são cadastrados no site da receita e eles de qualquer lugar que eles estiverem podem fazer essa digitação pra gente. Tem o CO e mais o valor, então eles fazem isso pra gente. No montante o ano passado nós recebemos 45 mil reais. Esse ano a gente vai receber aí em média uns 70 mil, só de cupons de papel que ia pro lixo. Eu falo que era um dinheiro que ia pro lixo e que veio fazer o bem.
P/1 – Esses cupons funcionam, as pessoas digitam então o CNPJ de vocês da nota paulista, seria assim?
R – Não. É assim, você vai num estabelecimento, você vai ao mercado, aí eles perguntam: “Você quer nota fiscal paulista?”. Aí se você for doar pra alguma organização social você não coloca o seu CPF. Então você doa o seu cupom. Você pode doar o seu cupom...
P/1 – Sem ali o registro...
R – Sem o seu CPF.
P/1 – Sem o se CPF você pode deixar na caixinha?
R – Pode doar. Pode deixar na caixinha, né? No nosso caso as pessoas, ou elas deixam, nem todo estabelecimento tem caixinha, ou mandam pra gente pelo correio, ou elas mesmas colocam no nosso site. A gente tem lá um link de nota fiscal paulista, então a pessoa entra lá e ela só digita os dados daquele cupom, depois que ela digitou ela já pode descartar, mas ela também consegue nos ajudar através desses cupons.
P/1 – Interessante. E isso você descobriu fazendo um curso?
R – Fazendo curso.
P/1 – Celina, como que você soube, se você participou também diretamente, da elaboração do projeto pra pleitear o apoio do Criança Esperança.
R – Do Criança Esperança. Sim. Eu escrevi esse projeto do Criança Esperança, mas eu mandei assim, vou mandar... Porque eu nunca tinha conhecido nenhuma organização que ganhou. É a mesma coisa da loteria, a gente sabe, teve um ganhador, mas você conhece quem ganhou? A gente não conhece. E o do Criança Esperança era meio parecido, você fala assim: “Não sei quem ganhou”. Falei: “Mas eu vou mandar”. Eu tenho o não, eu vou tentar o sim. E nós mandamos, quando nós mandamos eles receberam 1200 projetos do país inteiro e apenas 76 organizações foram sorteadas, foram selecionadas. Então é assim, muito pouco. Muito pouco pelo número de projetos que eles recebem.
P/1 – Meio edital? Como que funciona?
R – Não. Eles mandam por e-mail. Eu sou maníaca por internet, então acho que era mais de meia noite eu estava vendo os meus e-mails e vi o e-mail do Criança Esperança. A organização recebeu, nanana, tem até tal dia pra enviar os documentos, não sei o que. Aí eu fiz: “Será que a gente recebeu? Que estranho esse e-mail”. Aí o meu filho estava acordado, falou: “Mãe, deleta porque isso é vírus. Isso é vírus, não é...”. Eu falei: “Não, eu vou ligar amanhã pra ver o que é”. Tinha o telefone da pessoa. Aí eu liguei, falei: “Olha, eu recebi um e-mail.” “Não, vocês mandaram o projeto, o projeto de vocês foi selecionado e vocês realmente vão receber”. Mas eu gritava tanto, gritava tanto. Falei que é a mesma acho, eu nunca ganhei na loteria, mas foi a mesma sensação de que eu tivesse ganhado na loteria, sabe? Foi assim muito, muito bom pra gente. Não apenas pelo dinheiro, mas você fala: “O nosso trabalho foi consolidado, tudo que a gente fez está sendo reconhecido”.
P/1 – Celina, e quando você soube do Criança Esperança você viu assim, eles divulgaram que estaria aberto pra receber projetos?
R – Sim. Eles mandam editais. Eles colocam no site deles, eles divulgam também na TV, na Globo, o Itaú também, a Fundação Itaú também ajuda a fazer a divulgação. Agora em abril mais ou menos eles abrem, de abril e você tem até junho, julho pra enviar o projeto.
P/1 – Você lembra quando você soube assim, está abrindo ali, a Criança Esperança vai receber projetos, você se lembra desse...
R – Lembro. Lembro.
P/1 – Como que você soube?
R – Então, foi... Como eu vivo fuçando editais então falou o Criança Esperança está aberto, falei: “Vou tentar, eu vou mandar”. Mas nós já tínhamos mandado, na verdade foi o terceiro projeto que nós tínhamos mandado. Então no terceiro ano que nós ganhamos, nós já tínhamos mandado outros projetos antes e não tínhamos sido selecionados.
P/1 – E que projeto que vocês enviaram?
R – O Educando pra Cidadania, que eram oficinas de esporte, na área de educação também mais pra área de português e matemática, isso na área digital e até hoje nós temos esse projeto. Na verdade o projeto virou um programa, foi tão bom pra gente e deu tanta visibilidade que nós terminamos fazendo dele um programa. Então hoje chama Programa Educando pra Cidadania, que tem as oficinas de esporte, música, cidadania e educação.
P/1 – E vocês trabalham com uma faixa etária específica?
R – Sim. Trabalhamos de oito a 14 anos e meio. Depois desse programa o adolescente vai pra outro projeto chamado Formação Básica pro Mercado de Trabalho. Porque ele já teve oportunidade de conhecer a música, de cultura, teve a oportunidade de conhecer várias modalidades de esporte, não só o futebol, mas Badminton, tênis, tênis de mesa. Eu sempre pensei assim, não é porque: “Ah, o menino é pobre, o menino é da favela ele não precisa ter acesso a um tênis de mesa, um tênis”. Por que não? Ele tem que ter esse acesso. Ah, tênis é esporte pra rico ou pra pessoa que tem grana. Não é. Ele também, ele precisa ter essa oportunidade, ele precisa ter acesso. De repente ele se encontra nessa área, né? Aqui a gente oferece pra eles a percussão que eles gostam, é perfil deles a percussão, mas eu falei: “Por que não oferecer o violino, o clássico?”. Eles também têm que ter acesso. E alguns gostam, outros não. Aqueles que gostam, que nós já identificamos, a gente conseguiu formar uma orquestra. Então eu acho que você tem que dar oportunidade pras pessoas escolherem o que elas querem. Não é assim definido: “Olha, você só tem isso. Você só tem funk, só funk que você vai ouvir”. Não. Por que não ouvir um clássico? Ah, eu gostei. Eu já tive acesso. Então eles têm a oportunidade aqui, a gente leva as crianças no shopping porque eu lembro que a primeira vez que nós os levamos no shopping alguns nunca tinham saído da favela pra ir até o centro de Osasco, a ideia era leva-los no cinema. Eles não saíam do banheiro. Por quê? Depois eu falei: “Meu Deus, mas por que eles saíam do cinema, corriam pro banheiro?”. Mas por conta do espelho grande que tinha no banheiro. Eles nunca tinham visto aquilo, um espelho grande que eles... Por isso até que hoje a gente tem um banheiro que tem um espelho grande pra eles. Então acho que são coisas simples, são coisas que você fala: “Ah, não tem importância”. Mas claro que tem sim. Eu acho que tem, tem importância e as pessoas precisam ter essa oportunidade.
P/1 – Celina, como que essas crianças, esses adolescentes têm acesso aos cursos de vocês? Eles precisam se inscrever?
R – Sim.
P/1 – Tem uma seleção, por exemplo? Porque a demanda deve ser muito grande.
R – É. Todos os anos nós abrimos um número de vagas, só que um diferencial do nosso projeto é que as crianças quase não saem. Então quase eu não tenho vaga, só quando eu abro, tem um projeto novo ou outro, mas eles permanecem bastante tempo aqui, isso pra gente é bacana, a gente não tem muita rotatividade, criança que sai e volta. A gente não tem isso e isso a gente criou com o tempo. Acho que a gente tem que... A ideia é ver essas crianças crescendo e sair daqui com uma formação. A ideia é essa. Então nós abrimos vagas no final do ano, então a mãe vem, ela se inscreve, preenche uma ficha socioeconômica e daí nós vamos até a casa da pessoa pra verificar se os dados são verdadeiros mesmo, enfim, e pra ver o risco que essa criança corre. De repente a mãe trabalha e essa criança fica sozinha com o irmão mais novo ou com o irmão mais velho. Enfim, essa criança, qual o risco que ela corre? Qual o risco maior que essa criança tem? São pra essas crianças que nós damos prioridade. Tem um bairro aqui de Osasco que é um dos mais pobres da região, chama Padroeira II, eu nunca vi uma coisa... É coisa assim que você fala que não é possível, porque Osasco é um município rico pelas indústrias que tem, enfim, é grande a cidade e tem um milhão de habitantes. Mas se você for nesse bairro eles não têm... Eles moram assim, você não sabe onde termia o quintal e onde começa o chiqueiro. Então a coordenadora do Criança Esperança da Unesco foi comigo lá na favela e viu, ela falou: “Olha, eu nunca vi tamanha pobreza em São Paulo. Eu me lembro de ter visto isso no interior da Bahia, lá no fundão da Bahia”. Mas aqui ainda em Osasco infelizmente existe lugares que não têm esgoto, que é coisa básica, mas não tem esgoto.
P/1 – E voltando a esse projeto que vocês tiveram lá o apoio do Criança Esperança, você disse que deu tão certo que você deu continuidade como programa. Esse projeto foi um projeto, uma ação específica de vocês ou vocês acabaram englobando todas as atividades daqui do Centro Social dentro desse projeto?
R – Sim. Nós terminamos fazendo isso porque ele se tornou um programa, né? Então as atividades que nós temos hoje, ela está dentro desse programa, nessa faixa etária de oito a 14 anos e meio. Aí eles completam 14 anos e meio, vão pra esse outro projeto, Formação Básica pro Mercado de Trabalho, aí nós vimos a necessidade, falamos: “Pega esses alunos, eles têm 14 anos aqui, a gente vai fazer o que com eles agora?”. O adolescente não vai ficar o tempo inteiro aqui tocando percussão ou jogando bola. É época que eles necessitam de um trabalho, então em 2012 nós começamos a pensar na questão do Jovem Aprendiz que é uma parceria com o Governo Federal, do Ministério do Trabalho, através do Ministério do Trabalho, aí nós mandamos, a gente também não sabia, falei: “Vamos procurar como que faz esse projeto”. Aí nós mandamos pro Ministério do Trabalho, foi aprovado e há três anos nós começamos com sete alunos, não pagava nem os professores o número de alunos. Então eu estava dando aula, eu comecei a dar aula, porque nós não tínhamos condições de contratar professores pra dar aula pra esses sete alunos. Eles já estavam na empresa, mas o que a gente recebia da empresa não pagava o custo. Então eu e mais alguns voluntários começamos a dar aula pra esses meninos que foram pras empresas trabalhar, e eles vinham pra cá pra fazer o curso uma vez por semana na área administrativa. São rotinas administrativas. Daí cresceu, de sete a gente passou pra 20, hoje nós temos quase 150 em três anos. E a semana que vem nós começamos mais uma turma de 30 alunos de outra empresa que fechamos parceria também.
P/1 – Celina, voltando pro projeto que vocês, o Criança Esperança, vocês obtiveram apoio, primeiro eu queria saber o que vocês ganharam do Criança Esperança?
R – Ah, tá. Foi dinheiro.
P/1 – Foi recurso.
R – Foi recurso financeiro. Nós recebemos 130 mil e com esse dinheiro nós compramos as mesas da cozinha, bancos, geladeira, freezer que nós não tínhamos, fogão industrial que nós não tínhamos, a gente tinha um fogão pequeno. Compramos os computadores da minha sala, da secretaria. O que mais nós fizemos? Pagamos por um ano professores, todo uniforme que as crianças têm até hoje nós compramos com o dinheiro do Criança Esperança também. Então foi assim... Que uniforme é caro, nós não temos... Na época eram 150, então você faz isso...
P/1 – 150 crianças e adolescentes?
R – 150 crianças e adolescentes. Então você faz 150 vezes duas camisetas, já são 300 camisetas, mas no sonho de termos uniforme pras crianças e foi a época que nós mandamos fazer. Enfim, o dinheiro foi muito bem vindo. Mas eu digo que além, muito mais do que o dinheiro, foi a visibilidade que o projeto ganhou. As pessoas começaram a ver com outros olhos, porque você recebe, é como se você recebesse um selo, olha, esses projetos vocês podem colocar dinheiro porque ele é confiável. Então a gente teve empresas que nos procuraram por conta disso também, então isso pra gente foi muito mais do que o dinheiro, foi a visibilidade que o programa Esperança nos trouxe.
P/1 – Você se lembra de alguma história de diferença que se fez na vida das crianças, o fato de ter obtido esse apoio do Criança Esperança?
R – Então, essa questão das saídas, porque também eles nos proporcionaram várias saídas. Então, por exemplo, nós fomos num teatro da FAAC que as crianças, que os adolescentes nunca tinham ido. Então eu lembro que eles ficaram assim, quando olharam aquele prédio todo no centro, em São Paulo. E outras, por exemplo, a oportunidade de ir na Globo, de conhecer um programa, teve um dia que eles foram e eles passaram o dia lá. Conheceram toda a parte de jornalismo, como eram feitas todas as sessões, depois ficaram no programa do Jô, fizeram 13 gravações do programa do Jô. Então pra eles era uma oportunidade que eles não teriam, que nós não teríamos na verdade. Então a acho que isso traz crescimento pra pessoa, acho que é uma oportunidade eu sair do meu mundinho e ter acesso a alguma coisa maior, alguma coisa que eu vejo só pela TV, por exemplo. Então é possível eu estar lá também e conviver com aquelas outras pessoas.
P/1 – Celina, você se lembra de alguma história, agora já falando mais geral do teu trabalho desde o início no Centro Social daqui, de mudança de vida, que você viu que esse trabalho que vocês fazem é um trabalho que tem uma importância fundamental. Você tem alguma história, alguma pessoa que você falou não, esse aqui... Tudo isso valeu a pena.
R – Tenho. Eu sempre costumo falar do caso da Elaine porque é uma menina que eu a conheci ela tinha oito anos, hoje ela tem 20. Menina que veio e mora hoje até dentro da favela, ela morava numa casa que assim, era sub-humano você ver onde a pessoa dorme, onde a pessoa mora era assim... E a gente sempre ensinou pras crianças que independente da situação eles não são coitadinhos, eles não têm que reclamar da vida por causa da situação, não é culpa do país, não é culpa da... Não é. Eles precisam tentar mudar a situação e a gente só muda através da educação, através do trabalho, através do esforço. A Elaine foi uma menina que veio pra cá numa situação muito difícil, que a gente conhecia, e a mãe, a mãe tem três filhas, a mãe meio louquinha. Criou as filhas sozinhas e como dava, o dia que tinha comida tinha, o dia que não tinha também não tinha. As meninas, principalmente a Elaine, você vê é uma menina que não reclama da situação, ela tinha essa situação e não reclamava. E ela vinha pra cá e jogava bola com os moleques, ia procurar a Elaine na sala ela estava na quadra com os moleques jogando bola. Eu falei: “Meu Deus, uma moça bonita dessa, o que essa menina está fazendo? Ela tem que...”. E ela foi crescendo aqui com a gente, daí teve a possibilidade... Tudo que a gente falava: “Elaine, você tem jeito pra música”. Ela ia fazer música. “Elaine, você precisa estudar, você precisa...”. A gente começou a acompanha-la mais de perto. Olha, terminou o ensino fundamental, vai fazer o ensino médio, não pode parar. Você gosta da área administrativa, vamos arrumar alguma coisa pra você fazer. E ela sempre foi muito curiosa, aqui a gente sempre acompanhou muito de perto a vida dela. Resumindo, hoje a Elaine está fazendo o segundo ano de engenharia civil, é uma moça, é uma mulher com modos, você via a menina na quadra, hoje você vê uma mulher com modos, educada, fina. Mora dentro da área livre e hoje a Elaine está fazendo projeto social. A gente sabe que ela faz entrega de lanches na rua, e não é que a gente ensinou isso, a vida dela, o que ela viu, o que ela passou ela está replicando. As meninas da idade dela, a maioria delas hoje já são mães, não estão na faculdade. Ela fez o programa Jovem Aprendiz com a gente, ela foi efetivada porque tinha um comportamento excelente, porque não faltava, porque era superparticipativa na empresa. Ela está na empresa até hoje já há três anos e entrou na faculdade. Então é um caso que tinha tudo pra dar errado, pelo ambiente que a menina vivia, era pra menina estar grávida, era pra ter sei lá o que, mas ela mudou a história dela. Ela mudou a história dela mesmo lá dentro da comunidade. Mesmo dentro da comunidade, mesmo lá perto da droga, mesmo perto da prostituição ela mudou o destino dela. A vida dela tenho certeza que é outra hoje, né? E ela, o ano passado eu falei: “Elaine, tem a possibilidade de você ir pra Londres pra fazer o intercâmbio”. Porque precisava de alunos que tivessem acima de 18 anos, ela falou: “Não. Eu vou atrás.” “Só que nós não vamos dar o dinheiro do passaporte pra você. Você está trabalhando, você tem a responsabilidade de ir atrás”. Ela foi, fez o passaporte dela e ela vai, era pra ter ido em janeiro, mas ela teve um probleminha no pé, machucou o pé, teve que fazer uma cirurgia, então assim que ela tiver férias no trabalho a Elaine vai pra Londres. Então é uma história que mudou, mudou a perspectiva e o futuro da menina.
P/1 – Celina, pegando esse gancho um pouco da história da Elaine, você comentou antes, antes de a gente começar a gravar, que você teve a oportunidade também de sair do Brasil, de participar de alguns eventos de organizações não governamentais no exterior.
R – Sim.
P/1 – Conta um pouco pra gente a essa história, como que o projeto ganha também o mundo de alguma forma.
R – É. Exatamente. Em 2012 que eu fui pra... Eu fiquei sabendo de uma feira e eu comece a pesquisar e sabia que eles cediam stands pra ONGs, que não tinha custo algum, eu falei: “Eu preciso, a gente precisa ir atrás de parcerias agora fora do Brasil”.
P/1 – Por que veio essa ideia de ir pra fora do Brasil conseguir outras parcerias além do Brasil?
R – Acho que porque eu sou ambiciosa talvez. Talvez seja por isso e também porque eu falei assim, a gente precisa... O que eu te contei da Elaine de ir, se eu não tivesse ido pra Londres ela não teria oportunidade. Essa também é uma das sacadas, né? A gente precisa ir atrás. Captação de recurso acho que o mundo é livre pra você fazer e você tem que procurar mesmo. Eu não posso, o que eu aprendi é que eu não posso ficar dependendo apenas de um parceiro, apenas de uma empresa, apenas de uma mantenedora. Então eu tinha, quando eu entrei aqui, a mantenedora bancava aqui 100% do projeto. Eu falei não, se quebra lá eu quebro aqui. Então a gente tem que ter no máximo 20%. Minha meta é chegar a 10%. Hoje eles bancam 20% do projeto, mas a minha meta é que chegue a 10%. Ter outros parceiros então pra gente é significante, acho que é o correto. E a questão de Londres, daí eu falei: “Mas como que a gente vai?”. Porque não tinha... Na verdade eu já tinha ido uma vez, porque eu tenho uma irmã fora, mas eu falei assim, ir pra um evento desse é muita ousadia, né? Porque a gente não tinha um tostão, na verdade a gente não tinha colocado no planejamento uma viagem pra Londres, passagem é cara, enfim, tudo é muito caro. Daí eu mandei um e-mail pra eles perguntando se tinha stand ainda, eles falaram: “Olha, tem stand sim”. Perguntei se eles tinham alguma bolsa, alguma coisa, se ajudavam a pagar. “Não, a gente não consegue”. Falei: “Eu vou atrás de patrocínio”. Conversei com um parceiro nosso e a pessoa foi superaberta, falou: “Não, vocês têm que ir mesmo”. Inclusive esse parceiro foi com a gente. Ele foi com a gente, ele pagou todas as despesas e ele foi e ajudou a gente na feira também. Então foi lá na feira que nós conhecemos outras formas de captação. Pra gente o conhecimento e a cultura de outras organizações trouxeram muito isso pra gente. Até a questão do nosso relatório que nós fazemos, nosso relatório social, eu comecei a ver outros modelos lá, falar: “Olha, é assim que se faz”. Também você começa a ficar sem medo de fazer as coisas. Quando eu voltei eu falei: “Agora eu vou escrever um projeto...”. Tinha surgido uma oportunidade de escrever um projeto em inglês pra Fedex e eu fiquei com medo, eu falei: “Não sei, vou mandar”. Nós mandamos esse projeto e foi aprovado. Foi aprovado. Não sei se eles entenderam muito bem o meu inglês, mas foi aprovado. Então essa foi uma oportunidade. Eu fui 2012, 2013, aí em 2014 eu fiquei sabendo de outro evento em Lisboa e que também era uma oportunidade pra gente, até mesmo porque eu queria conhecer uma fundação lá que ela é referência em trabalhos com jovens e adolescentes e eu queria conhecer essa fundação, já tinha lido sobre o assunto, eu queria...
P/1 – Qual o nome da fundação?
R – Espera lá. Fundação da Juventude. Aí eu conheci o diretor de lá. Daí eu falei: “Lisboa daí é mais fácil, porque é mais barata a passagem, tem essa questão toda”. E era uma feira de projetos inovadores. Você não tem noção de projetos no mundo inteiro, cara, são projetos um superdiferente do outro. Muito bacana. Foram três dias de feira e também eu não tinha dinheiro pra ir. Daí eu falei: “Vou precisar de um stand lá”. Liguei lá: “Olha, quanto que é um stand?”. Era baratinho, era acho que 30 euros, não era... Porque o foco era ONGs mesmo. Aí eu falei: “Tá, o stand é barato, dá pra pagar”. Aí falei: “E agora dinheiro de passagem, hospedagem? A gente precisa arrumar isso”. Daí nós tínhamos na época uma parceria com a Henkel do Brasil. Eu falei: “Eu vou mandar um e-mail pra eles, vou ver o que eles me falam”. E essa parceria da Henkel era através de uma fundação também nos Estados Unidos. Então tudo era por lá. Falei: “Vou mandar um e-mail, vou perguntar e ver se eles...”. Aí eu expliquei o que era, quais os benefícios que traria pra organização, eles falaram: “Não, vocês podem ir. Podem ir”. E eles bancaram.
P/1 – Que legal.
R – Eles bancaram então eu fui nesse evento, falei com o diretor, conheci a Fundação da Juventude. Eu acho que o conhecimento não tem dinheiro que pague, você ir e conhecer e ver e trazer isso pra sua realidade é muito bacana. Daí eu fui lá pra Lisboa, foi muito bom também, conseguimos voluntários lá pra me ajudar no stand. Postei no Face, pessoas que moram em Lisboa. Então isso foi bom também pra gente, pra gente ver o que a gente tem alcançado, nosso trabalho, muitas pessoas de Lisboa que eu nunca vi na vida e que conheciam o projeto e que nos ajudaram lá como voluntários. Assim, achei isso sensacional.
R – E como voluntários no caso quando vocês estavam expondo lá na feira?
R – Isso. Na feira. Eles nos ajudaram como voluntários nos dias da feira. Então foi muito bacana. E o ano passado eu fiquei sabendo também de outro evento que é de renome pra área social, pro terceiro setor, que é um fórum social onde se reúnem várias organizações e Genebra é tudo pra questão financeira e questões sociais e pra fóruns, enfim. Daí a organização, o ano passado foi um ano difícil financeiramente pra gente, eu falei: “Eu não tenho como tirar dinheiro da organização pra ir”. Hoje eu sou diretora financeira do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente. Eu fui eleita em 2014 e meu mandato vai até 2018. Daí lá a gente também faz captação de recursos e pra gente também é interessante que tenha esses fóruns. O presidente ficou também sabendo do fórum e ele fez o convite, falei: “Olha, nós não temos, a organização não tem como bancar e eu pessoa física também não tenho.” “Não, o município vai bancar e você vai como representante do município”. Então eu fui, fiquei uma semana.
P/1 – O ano passado?
R – O ano passado, em 2014.
P/1 – Em Genebra?
R – Em Genebra. 2014. Em novembro de 2014 que eu fui. Então foi muito bom. E lá a gente conseguiu falar do nosso projeto e contar a nossa experiência do relatório social, da nossa transparência financeira. Tudo que nós colocamos aqui, tudo que entra só adquirimos com nota fiscal e a gente publica isso, a gente não tem o que esconder. Então se eu recebo 150 mil eu tenho que dar conta de 150 mil reais.
P/1 – E vocês publicam isso onde?
R – Num relatório social.
P/1 – É na internet?
R – Na internet. Na internet também, Facebook, enfim. Fica disponível pra qualquer pessoa, nós mandamos isso pros nossos parceiros, tanto pessoa física quanto pessoa jurídica. Eu acho que se você coloca dez reais numa organização você tem que saber o que essa organização está fazendo com esse dinheiro. Então acho que isso é transparência. E o ano passado nós recebemos também um selo de organização transparente por conta disso que nós temos feito. Então tudo que tem entrado, seja em espécie ou seja em produtos nós devolvemos isso pra sociedade, eu acho que tem que ser assim, tem que ser dessa forma.
P/1 – E esse selo vocês receberam de qual instituição?
R – É o de uma instituição de Santa Catarina, chama Portal da Transparência. Você preenche, na verdade se você entrar lá você vai ver o meu salário. Tem tudo. Absolutamente tudo. Então fica... A gente não tem nada que esconder. Então todo recurso que entra é pra ser usado dentro do projeto, é pra ser usado em prol das crianças. Então a pessoa pode entrar lá e ver todas as nossas contas, ver tudo aquilo que nós temos, aquilo que nós somos, as nossas atividades, enfim.
P/1 – Celina, pra entender um pouco, antes você falou que você estava no Estado e trabalhando aqui um período.
R – Isso.
P/1 – Hoje você trabalha integralmente aqui?
R – Integralmente.
P/1 – Desde quando que você trabalha integralmente?
R – Desde 2007. Desde 2007. É. 2007 acho. Desde 2007.
P/1 – Celina, a gente está encerrando a nossa entrevista e depois de toda essa história sua profissional, do voluntariado até uma visão mais profissional de uma atuação no terceiro setor, como que você enxerga esse envolvimento da instituição que você trabalha e do impacto social no território, em Osasco?
R – Hoje nós somos referência no município. Referência no atendimento pras crianças, mudou a comunidade, mudou o envolvimento das famílias com as crianças. Desde 2007 a gente não tem nenhum caso de evasão escolar, porque antes as crianças saiam simplesmente da escola pra ficar num farol ou trabalhar, trabalho infantil. Então desde 2007 o resultado não tem preço, desde 2007 a gente não tem nenhuma criança fora da escola. Nós fazemos o acompanhamento direto, bimestral isso, então as crianças vão pra escola, nós temos o acompanhamento da família, então a gente conseguiu reunir, juntar a família na escola, o que não acontecia. Hoje a mãe pra participar do projeto tem que ir na reunião do seu filho e ela tem que participar aqui com a gente. Então eu brinco com elas, a gente faz reunião com as famílias uma vez por mês, então eu brinco com elas, eu falo: “Eu só tenho dois filhos, cada um tem o seu aqui e tem que cuidar. Não é obrigação do Estado, não é obrigação da Prefeitura, é obrigação da família, obrigação de pai e mãe”. Então se colocou no mundo tem que cuidar, cada um tem que fazer o seu papel, o Estado tem que fazer o seu papel, a escola, nós enquanto organização, mas a família também tem que fazer o seu papel. Então acho que isso é um resultado grande porque elas participam aqui, 90% das mães que têm crianças aqui participam ativamente do projeto. Então isso teve impacto que hoje as mães, eu tenho menos crianças nascendo, elas não engravidam tanto quando antes, antes eu tinha família que tinha 12 filhos. Parece que procriavam. Hoje não. A gente fala sobre controle de natalidade, então aqui as famílias que têm entrado e que têm permanecido no projeto pararam de ter filhos. Isso tem que ter mesmo esse controle. A maioria delas estão trabalhando, o que não acontecia. Hoje a gente oferece cursos de formação também porque a gente pensa, tem as crianças, tem os adolescentes, e os pais? Como que eles podem ser inseridos também nesse mercado de trabalho? Então nós temos uma parceria com o Grupo Pão de Açúcar, isso desde 2013, que nós oferecemos... O projeto é do Pão de Açúcar, mas nós que fazemos a capacitação aqui pras famílias. Então é a partir de 18 anos, de 18 até 60, 70 anos. Então a gente já viu casos de mães que estavam dentro de casa, que não tinham formação, que não tinham nenhuma profissão e que hoje estão trabalhando e conseguem ajudar na renda de casa, enfim. Então acho que isso também é bacana e ajuda a família, e ajuda o município inclusive.
P/1 – Vocês têm a quantificação desse impacto social? Quantas crianças, famílias vocês conseguiram atender?
R – Olha, nesses 12 anos nós conseguimos atender mais de 20 mil pessoas. Mais de 20 mil pessoas. É isso. Mais de 20 mil pessoas.
P/1 – Celina, você conseguiria traduzir o significado que o programa Criança Esperança trouxe pro Centro Social Carisma?
R – Então, além da visibilidade, a confiança de outros parceiros e de outras pessoas, isso pra gente foi muito importante. O impacto que teve na vida das crianças, melhoria de padrão de vida, de qualidade de vida, de oferecer alguma coisa porque é muito difícil você fazer projeto sem dinheiro. É impossível. Você tem que ter dinheiro pra fazer, além de pessoas capacitadas, além de profissionalismo você tem que ter o dinheiro pra fazer. Então o recurso financeiro que veio na época e que deu oportunidade pra gente contratar profissionais pra atendimento mais especializado dessas crianças foi muito melhor. O impacto foi melhor, foi maior. O ambiente também. A gente tinha um ambiente muito feio na cozinha, era o que tínhamos. E hoje quem vem na nossa cozinha e vê o que temos hoje é qualidade de vida também pras crianças, e só foi possível isso com a verba do Criança Esperança. Então o impacto foi muito grande e gente ficou extremamente feliz. Eu lembro que... Porque o Criança Esperança faz também uma avaliação e eles pegam isso não é pra... Por exemplo, são cem selecionados, eles não vão nas cem organizações selecionadas, eles pegam por amostragem e daí no final acho que novembro, dezembro, mais ou menos, eu recebi uma ligação, aí a moça falou: “Eu sou coordenadora da Unesco e nós vamos fazer uma visita pra saber. Como a gente está indo pra São Paulo, eu estou em Brasília, como a gente está indo pra São Paulo a gente vai pra conhecer e fazer avaliação do projeto”. Claro, você faz tudo certinho, você faz o melhor, mas você fica assim, né? Alguém da Unesco vir aqui fazer. Aí eu falei: “Pode vir”. Ela veio, chegou de manhã, ficou o dia inteiro. Ela chegou às oito horas da manhã, vieram em duas, nos encheram de perguntas e daí eu falei: “O que a gente pode fazer é mostrar o nosso trabalho e mostrar as crianças”. Elas foram na área livre com a gente, nas favelas com a gente, e o resultado assim, que eles gostaram muito do projeto, elogiaram muito o impacto que teve. Nós usamos muito bem o dinheiro, foi muito bem aplicado de tudo que nós compramos. Então isso também foi muito positivo, essa avaliação dela. Inclusive eles deixaram um depoimento no nosso relatório falando do projeto, do que eles viram e o impacto que tem isso pro Criança Esperança, que o dinheiro foi bem utilizado. Então pra gente também isso é importante ter um depoimento, por exemplo, de alguém da Unesco.
P/1 – E vocês conheceram outros projetos apoiados pelo Criança Esperança?
R – Teve mais... Eu não fui até lá, eu já conheci pela internet, mas eu não fui até lá. Porque a vida de quem trabalha em projeto social é muito corrida, a gente tem mil coisas aqui então a gente não tem essa oportunidade de conhecer pessoalmente.
P/1 – Celina, você já foi doadora do programa Criança Esperança?
R – Já. Já. Todo ano eu doo. Todo ano eu doo.
P/1 – Agora a gente está realmente já indo pro final. Celina, eu queria saber quais são as coisas mais importantes pra você hoje.
R – As coisas mais importantes pra mim hoje são os meus filhos e assim, eu não consigo muito desvincular o projeto, a minha vida profissional da minha vida pessoal. Não sei se isso é bom ou não, mas eu não consigo porque a minha vida está aqui. Minha vida está aqui, não só a minha vida pessoal, mas minha vida mesmo, a vida pessoal está aqui. Então isso pra mim é muito importante. Ter uma vida tranquila, hoje eu sou mais light com algumas coisas, acho que a gente vai envelhecendo, vai ficando madura e a gente vê que não adianta tanta correria na vida, você tem que fazer aquilo que você gosta, sentir-se bem e ser feliz independente das circunstâncias. Independente da crise do país eu tenho que ser feliz, isso não vai mudar a minha vida. Não vai mudar a minha vida, pode ter um impacto ou outro, mas não vai mudar a minha vida.
P/1 – Celina, você tinha comentado com a gente antes que você mudou, você tinha mudado daqui, né?
R – Sim.
P/1 – Por que você tomou essa decisão?
R – Então, era um desejo meu faz tempo de sair de São Paulo um pouco. Eu venho trabalhar todos os dias em São Paulo, mas...
P/1 – Você estava comentando por que você optou por sair de São Paulo.
R – Então, fazia tempo já que eu queria ir pro interior, pra uma cidade mais tranquila, mesmo que eu venha pra São Paulo todos os dias eu queria ter pelo menos os meus finais de semana sem fila em shopping, sem fila em supermercado. Eu queria um pouco de tranquilidade, mas isso é coisa pessoal minha. Eu queria mesmo ir pra Indaiatuba. E foi bem assim, eu não sabia pra onde eu ia, pra que cidade eu ia e eu fui conhecer algumas cidades. Eu fui pra Campinas, fui pra Jundiaí, Sorocaba. Daí eu falei, Sorocaba já tem muita gente, está muito parecido com São Paulo. Campinas está muito violento. Jundiaí eu não gostei muito e eu fui conhecer Indaiatuba. Quando eu vi Indaiatuba eu me apaixonei pela cidade. Apaixonei-me. A cidade é linda, é uma cidade planejada, é uma cidade que tem só 220 mil habitantes, é uma cidade pequena, mas ela tem shopping, ela tem parques, enfim, a cidade é muito boa. Quem vai pra Indaiatuba fica apaixonado pela cidade. Eu falei: “É aqui mesmo que eu quero trabalhar”. Os meus filhos são adolescentes ainda, eu pensei na questão de educação, pensei na questão de qualidade de vida mesmo. Eu trabalho pra caramba aqui e há muito tempo eu estou aqui, eu queria um pouco menos, minha vida menos agitada porque eu sempre tive uma vida muito agitada. Eu queria um pouco mais de tranquilidade mesmo, queria acordar num sábado e fazer minha caminhada, tomar minha água de coco e eu consigo fazer lá em Indaiatuba, aqui eu não conseguiria. Por exemplo, você pra ir pro Villa Lobos tem que ir de carro, você tem que ficar esperando uma vaga pra estacionar, enfim. E lá não, eu saio do meu apartamento estou em frente pra um parque ecológico, por exemplo. Eu falei eu preciso fazer isso agora porque a gente vai ficando mais maduro e mais velho a gente não tem coragem de fazer algumas coisas. Eu falei eu quero fazer isso e eu fui fazer. Eu estou fazendo amizades lá, não tenho amigos, não tenho parentes, e eu fui e estou adorando. Estou amando a cidade, é uma delícia.
P/1 – Legal. E hoje quais são os seus sonhos?
R – Os meus sonhos? Então, eu ainda quero fazer um mestrado, eu estou vendo, eu quero fazer, a ideia é fazer mestrado em Portugal, que você consegue fazer online e assim em um ano e meio você vai três vezes só, eu já tive dando uma olhada nisso. Ver o projeto crescer, ver os meus filhos crescendo e os sonhos deles sendo realizados. Os meus filhos um deles é da área de música, ele ama música e ele está focando nisso, então quero... Quando a gente tem filhos a gente pensa na qualidade de vida dos filhos e nos sonhos deles também, com o sonho deles você termina se realizando, né? Então o meu desejo é esse, ver os meus filhos crescendo, o projeto crescendo, os meninos aqui daqui a algum tempo cada um cuidando da sua vida. Eu brinco com o pessoal daqui, eu falo: “Minha vontade é acabar com isso daqui”. É verdade, é acabar porque se nós não tivéssemos tantos problemas no Brasil, tantos problemas sociais, a gente não tinha necessidade de organizações sociais. Eu acho que não tem que ficar crescendo, crescendo, crescendo um monte de organizações e ficarem brigando por pobres, mas que as pessoas tenham condições de viver dignamente com o salário, trabalhando, não indo em busca de Bolsa Família, Bolsa Leite, bolsa não sei o que, mas cada um tomando rumo da sua vida. Então eu brinco com eles que minha vontade é destruir isso daqui e tornar um grande centro de formação de pessoas, pra que as pessoas se virem sozinhas na vida, elas sejam autônomas e elas trabalhando, formando suas famílias e com certeza a gente teria pessoas mais felizes sem necessitar dessas ajudas sociais. É muito bom que tenha, mas o melhor, o ideal, o mundo ideal é que não precisassem, é que funcionasse como em outros países, as políticas públicas funcionassem na área de educação, da saúde, as pessoas tivessem condições de elas comprarem os seus próprios alimentos. Então acho que isso é um mundo ideal, não é o mundo que temos hoje, mas é o mundo ideal. O que eu sonho é ver um país mais justo, ver um país sem tanta corrupção, não que outros países não tenham, mas que não seja tão descarado como tem sido nos últimos meses aqui no Brasil. Então eu sonho com isso de uma vida mais tranquila pras pessoas, de um lugar mais justo pra se viver.
P/1 – Celina, você gostaria de acrescentar mais alguma coisa que eu não tenha perguntado sobre a sua trajetória de vida, que você acredita que seja importante pra que a gente possa registrar agora?
R – Então, eu fico pensando, toda a minha trajetória eu morei num lugar muito simples, não que hoje eu tenha alguma coisa assim, mas eu saí, eu morava em barraco, eu lembro que o piso da minha casa era de terra batida, era chão de terra batido. Daí eu estava o ano passado na Suíça, eu falava: “Meu Deus, onde eu cheguei? Onde eu tive oportunidade de chegar?”. Então eu só ficava agradecendo a Deus. Eu falei: “Um país desse, com oportunidade de eu ver tantas pessoas do mundo inteiro, tantas línguas diferentes e conhecer tantas culturas, que eu já tive oportunidade de conhecer”. E eu falei, a minha vida é muito parecida, por isso que eu entendo os jovens do projeto, porque a minha vida foi muito parecida com a deles. Eu estudei sempre em escola pública, sempre batalhei, sempre estudei, eu ainda acordo quatro e meia da manhã, eu não tenho empregada, eu que faço as minhas coisas em casa, mas eu falei: “Aonde eu cheguei?”. Eu só tenho que agradecer a Deus, agradecer as pessoas. Eu tenho uma equipe excelente, excelente, uma equipe muito pequena, mas se eu ligar pra qualquer uma delas e falar eu preciso de vocês meia noite, uma hora da manhã, elas estão aqui. Então acho que a gente não faz nada sozinho e eu não cheguei até onde eu cheguei sozinha também. Com certeza houve pessoas, principalmente a minha mãe que sempre me ajudou, que sempre esteve comigo, então a gente não faz e não chega a lugar nenhum sozinho. Acho que você reconhecer isso também é importante. E é através de oportunidades, foram oportunidades que eu fui tendo e esforço também, por isso que a gente não consegue nada sozinho e nada sem fazer esforço. É acordar cedo, é limpar a casa, essas coisas tem que fazer e tem que fazer e pronto, é a vida, você precisa ser feliz porque são escolhas que você faz. A vida, por exemplo, eu, o fato de eu ir morar lá em Indaiatuba e acordar muito cedo pra vir trabalhar foi uma escolha que eu fiz e que eu calculei os riscos e calculei o que isso me traria, e os benefícios também que isso me traria. Eu cheguei a conclusão que eu seria, que eu estaria muito mais feliz, muito melhor lá do que aqui. Então são escolhas que a gente faz na vida e que têm que ser feitas. Enfim.
P/1 – Celina, o que você sentiu contando a sua história?
R – O que eu senti? Eu senti revivendo. Algumas coisas, engraçado, algumas coisas que eu contei eu nunca tinha pensado que eu ia contar, algumas coisas eu... Foi bom me lembrar da minha infância, foi bom lembrar do início do projeto, das pessoas, parece que vai passando um filme na sua cabeça de pessoas que te ajudaram, que passaram com você em algumas situações. Então é uma experiência muito boa, não pensei que fosse tanto.
P/1 – Você viu, não doeu.
R – Não doeu.
P/1 – Celina, em nome do Museu da Pessoa nós agradecemos a sua entrevista.
R – Eu que agradeço.
P/1 – E a oportunidade de ouvir a sua história.
R – Eu que agradeço, foi um prazer pra mim, minha história não é a das mais ricas.
P/1 – Nossa, que história.
R – Mas espero que sirva de incentivo, sei lá, pra alguma pessoa. Acho que a gente tem esperança. Eu sou assim, eu sempre penso, eu tenho o não, eu tenho que tentar um sim e eu sei que se hoje não tá bom, amanhã vai ser outro dia, vai ser melhor do que hoje. Eu levo a vida assim porque senão a gente fica louca.
P/1 – Com certeza. Obrigada, Celina.
R – Imagina. Eu que agradeço. Obrigada.
FINAL DA ENTREVISTA
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