Eu trabalho nos Correios há quinze anos. Depois de tanto tempo na rotina de entregas, as ruas já fazem parte da minha vida. Todo dia é praticamente igual: sair cedo, organizar as encomendas, pegar caminho, entrar em rua, sair de rua, entregar carta, pacote, conversar com um cliente aqui, outro ali. Uma rotina comum… ou pelo menos era o que eu pensava naquele dia.
Eu estava passando pela rua Nossa Senhora das Graças quando algo me chamou atenção debaixo de uma árvore. Havia uma caixa de pet no chão. Dentro dela, vários filhotinhos. Na hora, tentei imaginar uma situação normal. Pensei: “Talvez alguém só tenha deixado eles aqui pra tomar um vento, pegar um sol, um verde”. Mas quanto mais eu olhava, mais meu coração entendia uma coisa que minha mente não queria aceitar: aqueles cachorros tinham sido abandonados.
Eu parei a moto e fui olhar mais de perto.
Quando abri a caixa, peguei o primeiro filhote. Era douradinho. Pequeno demais, com cara de quem tinha acabado de desmamar. Depois puxei outro, um pretinho. E fiquei ali, parado, olhando para aqueles bichinhos sem saber o que fazer. O trabalho me esperando, as entregas atrasando, mas minha consciência não deixava eu simplesmente ir embora.
Passei quase meia hora ali.
Andava de um lado para o outro, olhava para a caixa, pensava em levar um, depois desistia. Pensei em pegar o pretinho. Depois pensei: “Não…”. Mas toda vez meus olhos voltavam para o primeiro que eu tinha pegado, o dourado. Parece que ali já existia alguma ligação que eu ainda não entendia.
Então eu coloquei ele nos braços.
E foi ali que minha história com o Sedex começou.
O nome veio do meu próprio trabalho. Eu achei justo dar a ele um nome que lembrasse o lugar onde passamos tanto tempo juntos naquele primeiro dia. Porque naquele dia ele praticamente trabalhou comigo. Ficou no meu braço enquanto eu seguia fazendo as entregas. E de casa em casa eu tentava doar ele. Eu dizia que não podia...
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Eu trabalho nos Correios há quinze anos. Depois de tanto tempo na rotina de entregas, as ruas já fazem parte da minha vida. Todo dia é praticamente igual: sair cedo, organizar as encomendas, pegar caminho, entrar em rua, sair de rua, entregar carta, pacote, conversar com um cliente aqui, outro ali. Uma rotina comum… ou pelo menos era o que eu pensava naquele dia.
Eu estava passando pela rua Nossa Senhora das Graças quando algo me chamou atenção debaixo de uma árvore. Havia uma caixa de pet no chão. Dentro dela, vários filhotinhos. Na hora, tentei imaginar uma situação normal. Pensei: “Talvez alguém só tenha deixado eles aqui pra tomar um vento, pegar um sol, um verde”. Mas quanto mais eu olhava, mais meu coração entendia uma coisa que minha mente não queria aceitar: aqueles cachorros tinham sido abandonados.
Eu parei a moto e fui olhar mais de perto.
Quando abri a caixa, peguei o primeiro filhote. Era douradinho. Pequeno demais, com cara de quem tinha acabado de desmamar. Depois puxei outro, um pretinho. E fiquei ali, parado, olhando para aqueles bichinhos sem saber o que fazer. O trabalho me esperando, as entregas atrasando, mas minha consciência não deixava eu simplesmente ir embora.
Passei quase meia hora ali.
Andava de um lado para o outro, olhava para a caixa, pensava em levar um, depois desistia. Pensei em pegar o pretinho. Depois pensei: “Não…”. Mas toda vez meus olhos voltavam para o primeiro que eu tinha pegado, o dourado. Parece que ali já existia alguma ligação que eu ainda não entendia.
Então eu coloquei ele nos braços.
E foi ali que minha história com o Sedex começou.
O nome veio do meu próprio trabalho. Eu achei justo dar a ele um nome que lembrasse o lugar onde passamos tanto tempo juntos naquele primeiro dia. Porque naquele dia ele praticamente trabalhou comigo. Ficou no meu braço enquanto eu seguia fazendo as entregas. E de casa em casa eu tentava doar ele. Eu dizia que não podia ficar, porque moro na casa da minha sogra, que seria complicado criar cachorro ali. Então eu oferecia, perguntava, tentava encontrar alguém que quisesse cuidar dele.
Mas ninguém quis.
Hoje eu entendo que talvez ele nunca tivesse sido pra outra pessoa. Talvez já fosse meu desde o primeiro momento em que eu abri aquela caixa.
Quando cheguei em casa com ele no colo, veio aquela conversa de sempre: “Vamos cuidar por enquanto até aparecer alguém”. Minha esposa aceitou bem. Afinal, ele era só um filhotinho pequeno, inocente, indefeso. A ideia era temporária.
Só que o amor nunca avisa quando chega.
O Sedex foi crescendo dentro da casa… e dentro da nossa vida também. Cada dia mais amado. Cada dia mais parte da família. O cachorro que era pra ficar “só um tempo” virou nosso filho de quatro patas.
E ele cresceu muito. Muito mais do que eu imaginava. Eu pensei que fosse ficar pequeno, mas hoje pesa mais de 30 quilos. Virou um gigante. E um gigante cheio de personalidade também. Dorme no quarto com a gente, no ar-condicionado, tem a cama dele, o espaço dele e as manias dele. Ele não gosta de zoada quando está dormindo, prefere tudo apagado, no silêncio. Às vezes eu mal consigo me mexer na cama sem ele reclamar. E, sinceramente, a casa já se acostumou ao jeito dele.
Porque ele não é mais “o cachorro”.
Ele é da família.
A gente já viveu muita coisa junto. Momentos engraçados, bagunças, correria pela casa, aniversários, festas, fotos, memórias… Mas também passamos por momentos difíceis. O pior deles foi quando ele pegou cinomose. Naquele período eu achei que fosse perder meu amigo. Ver ele daquele jeito machucava demais. Foram dias de medo, preocupação e oração. Mas graças a Deus ele venceu.
E talvez ali eu tenha percebido ainda mais o tamanho do amor que sentimos por ele.
Hoje, olhando para trás, eu entendo que naquele dia eu não encontrei apenas um cachorro abandonado numa caixa debaixo de uma árvore. Eu encontrei um companheiro. Um amigo. Um filho de quatro patas que mudou completamente a rotina da nossa casa e trouxe vida para dentro dela.
Engraçado pensar que eu saí para entregar encomendas naquele dia… mas fui eu quem recebeu a maior entrega da minha vida.
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