-Prólogo Antes de tudo, preciso dizer que este livro não começa com palavras — começa com
ausências.
Este prólogo antecede as crônicas de uma escolha que parecia liberdade, mas que
carregava saudade. O exílio foi voluntário. A dor, não
- A plateia que faltava -
Meus pais, já falecidos, foram os primeiros a sentir o peso da minha partida.
Minha mãe — que me amava mais que tudo na vida — carregava nos olhos uma tristeza
que não se dizia, mas se via.
Ela não chorava alto. Chorava com o jeito de dobrar as roupas, com o cuidado
exagerado nas despedidas, com o café que esfriava na xícara enquanto me olhava
partir.
Meu pai, mais contido, deixava escapar a dor nos silêncios longos e nos conselhos
curtos.
Só mais tarde — bem mais tarde — hoje com 73 anos — percebo que me arrependo,
por eles, de ter tomado essa decisão.
Não pelo caminho que segui, mas pela dor que deixei para trás.
Hoje, quando toco — já não toco mais em público — é como se cada nota fosse uma
conversa íntima com os dois.
Não há plateia, nem palmas.
Só eu, o violão, e a lembrança.
Às vezes, penso que meus pais escutam e entendem.
A música virou confissão.
Não é mais técnica, nem espetáculo.
É saudade.
Há uma coisa que teria sido a maior alegria da minha vida:
ver minha mãe na plateia, me vendo tocar e cantar.
Carrego o eco desses corações que me ensinaram o que é raiz.
A saudade deles não é ausência — é presença em tudo o que faço.
Este livro é, talvez, uma carta que nunca escrevi para eles.
Uma forma de dizer: eu parti, mas nunca deixei de ser filho.
Em 1979, eu decidi sair do Brasil. Não era fuga, nem aventura — era necessidade, ou
talvez fossem os dois, necessidade de aventura. A “ditadura” ainda respirava, o país
parecia estagnado, e eu sentia que precisava ver o mundo com outros olhos.
Os computadores começavam a chegar ao Brasil, e eu enxerguei ali uma chance de
reinventar minha...
Continuar leitura-Prólogo Antes de tudo, preciso dizer que este livro não começa com palavras — começa com
ausências.
Este prólogo antecede as crônicas de uma escolha que parecia liberdade, mas que
carregava saudade. O exílio foi voluntário. A dor, não
- A plateia que faltava -
Meus pais, já falecidos, foram os primeiros a sentir o peso da minha partida.
Minha mãe — que me amava mais que tudo na vida — carregava nos olhos uma tristeza
que não se dizia, mas se via.
Ela não chorava alto. Chorava com o jeito de dobrar as roupas, com o cuidado
exagerado nas despedidas, com o café que esfriava na xícara enquanto me olhava
partir.
Meu pai, mais contido, deixava escapar a dor nos silêncios longos e nos conselhos
curtos.
Só mais tarde — bem mais tarde — hoje com 73 anos — percebo que me arrependo,
por eles, de ter tomado essa decisão.
Não pelo caminho que segui, mas pela dor que deixei para trás.
Hoje, quando toco — já não toco mais em público — é como se cada nota fosse uma
conversa íntima com os dois.
Não há plateia, nem palmas.
Só eu, o violão, e a lembrança.
Às vezes, penso que meus pais escutam e entendem.
A música virou confissão.
Não é mais técnica, nem espetáculo.
É saudade.
Há uma coisa que teria sido a maior alegria da minha vida:
ver minha mãe na plateia, me vendo tocar e cantar.
Carrego o eco desses corações que me ensinaram o que é raiz.
A saudade deles não é ausência — é presença em tudo o que faço.
Este livro é, talvez, uma carta que nunca escrevi para eles.
Uma forma de dizer: eu parti, mas nunca deixei de ser filho.
Em 1979, eu decidi sair do Brasil. Não era fuga, nem aventura — era necessidade, ou
talvez fossem os dois, necessidade de aventura. A “ditadura” ainda respirava, o país
parecia estagnado, e eu sentia que precisava ver o mundo com outros olhos.
Os computadores começavam a chegar ao Brasil, e eu enxerguei ali uma chance de
reinventar minha existência. Fiz um curso de programação no SENAC de Copacabana,
onde me destaquei a ponto de ser convidado por meu professor — um argentino —
para estagiar na antiga rede de supermercados Casas da Banha. Foram seis meses
intensos, sem direito a refeição, auxílio-condução ou remuneração. Mas o entusiasmo
me sustentava, e cumpri o contrato até o fim. Para minha tristeza, ao final do período,
não fui aproveitado pela empresa. Fiquei desolado, desanimado, sem perspectivas.
Naquela época, conseguir uma vaga na área de informática era extremamente difícil.
Enviei currículos, esperei respostas que nunca vieram.
Com 28 anos, ainda morando com meus pais e sem trabalho, comecei a repensar
tudo. Foi então que a música — meu refúgio mais íntimo, dom herdado do meu avô
João, exímio violonista — voltou a ocupar espaço no meu horizonte. E como se o
destino conspirasse, Marquinhos, um velho amigo, retornou de uma longa viagem e
nos estimulou, a mim e ao amigo Mario, com uma ideia ousada: sair do país, como
ele havia feito, em busca de novos caminhos... A ideia de chegar aos Estados Unidos
surgiu como possibilidade, mas o caminho era incerto. Não havia passagens
compradas, nem planos sólidos. Só vontade. Juntei o que tinha. Vendi meus discos,
me despedi de amigos, e embarquei com o Mário — parceiro de estrada, de ideias e
de improviso. A rota era longa: Rio, Belo Horizonte, Brasília, Belém, Manaus, Boa
Vista, Guiana Francesa e Estados Unidos. Cada cidade, uma etapa. Cada encontro,
uma decisão.
Este livreto não é um romance. É um registro. Um recorte de uma viagem feita com
coragem, dúvida, e uma dose de sorte. Não há heróis aqui. Só dois brasileiros
tentando atravessar fronteiras — geográficas e pessoais — com o que tinham nas
mãos.
Dedico este livro às minhas filhas
Maíra
Filha da presença, da luta e da reconstrução. Foram anos difíceis, mas também
cheios de aprendizado e afeto. Você enfrentou tempestades que muitos não
suportariam, e mesmo assim permaneceu firme, generosa, com uma luz que nunca
se apagou. Obrigado por ter ficado por perto, por ter me ensinado tanto com sua
coragem silenciosa. Este livro carrega também a sua história — nas entrelinhas, nos
silêncios, nos recomeços.
Com amor eterno, Paulo Fabiano
Flora
Filha do voo alto, da inteligência inquieta e da música que ecoa além do tempo.
Mesmo longe, você é presença constante no meu pensamento, no meu orgulho, na
saudade que não se mede. Sei que não fui o pai que você precisava nos primeiros
anos, e carrego isso comigo. Mas também carrego a admiração por tudo o que você
construiu — com força, com brilho, com paixão. Este livro é também um pedido de
perdão, e uma celebração da mulher incrível que você se tornou.
Com todo o meu carinho.
Estas são as crônicas de um exílio que escolhi — e das ausências que não escolhi.
Capítulo 1 – Rumo ao Norte: Redes, Farinha de Pedra e Sonhos Remendados
Era o ano de 1979. Eu e o amigo Mario (Onça), resolvemos meter o pé na estrada
mundo afora, no meu caso, viajar para a América, ficar nos Estados Unidos por dois
anos, aprendendo música e voltar. O plano original era ousado: chegar aos Estados
Unidos. Mas não por vias convencionais. A ideia — sugerida por um amigo em
comum, o Marquinhos (Lombrinha), que já havia feito essa viagem — era atravessar
o norte do Brasil até a Guiana Francesa, trabalhar por um tempo na PIDEG (Pecherie
Internationale de Guyane), e então embarcar em um barco de pesca americano
como tripulante, barco esse que trabalhava em parceria com os franceses nessa
peixaria (Pecherie) internacional, pescando camarão e levando para Miami. Uma vez
em solo norte-americano, eu daria um jeito. Sempre dei. Não tínhamos dinheiro. Eu
vendi minhas roupas, alguns discos que guardava como relíquias — Hendrix, Elis,
Steppenwolf, Yes, Beatles, etc... — Cada um partindo como se levasse um pedaço
do que eu era. Mário, meu parceiro nessa jornada, vendeu seu Fusca. Branco, 1972,
com o rádio que só funcionava quando queria e só tinha uma fita K7 do Martinho da
Vila. Saímos do Rio de Janeiro de ônibus, com direito a despedida de amigos que nos
acompanharam até a rodoviária, rumo a Belo Horizonte, com a esperança de
conseguir uma carona até Brasília — e dali outra até Belém, no Pará. A sorte sorriu
pela primeira vez quando um rapaz nos ofereceu carona num Fusca novinho, lá em
BH. Chegamos em Brasília, mas a carona seguinte não veio. Pegamos um ônibus
para Goiânia e, de lá, outro para Belém. O ônibus, embora ostentasse certo luxo —
poltronas reclináveis, cortinas pesadas, ar condicionado, desligado claro — estava
coberto de poeira. Por fora, a lataria já não brilhava; por dentro, o pó se acumulava
nos cantos, nas poltronas como se o tempo tivesse passado ali sem pressa. A
estrada, em grande parte de chão batido, levantava nuvens secas que entravam
pelas frestas, misturando-se ao silêncio dos passageiros e ao cansaço da viagem.
Foram 22 horas de estrada pela BR-153, também conhecida como Transbrasiliana,
onde conhecemos dois colombianos que mudariam o rumo da nossa viagem... Eles
estavam indo para Belém, mas com destino final na Venezuela. Nos convenceram
de que lá o dinheiro era dólar — muito mais valioso que o franco francês da Guiana
Francesa à época, para onde estávamos nos dirigindo. A ideia de mudar o plano
parecia sensata, Mario embarcou nessa sem pensar, eu fiquei um tanto cabreiro,
relutante, mas acabei embarcando também nessa nova rota. Durante a viagem, nas
paradas da estrada, vi cenas que me chocaram profundamente: indígenas bêbados,
mendigando, sem dentes e maltrapilhos. Uma imagem triste e inesperada. Para
mim, índios eram guerreiros, saudáveis, símbolos de força. Aquilo me abalou.
Chegando em Belém e já desviando para a nova rota, Manaus, lembramos de um
velho amigo de infância: o Zuco. Baixinho, língua presa, sempre com um sorriso no
rosto, irmão de Querosa, que ajudava no negócio dos pais que vendiam carvão e
querosene , o que justificava o apelido, gente finíssima também. Moravam no
mesmo bairro que eu e meu companheiro de viagem, Mario, em Bangu, perto da
minha casa e da do Mário, e era daqueles amigos que a gente guarda no bolso da
alma. Ele vivia em Manaus, onde servia como sargento da Aeronáutica. Logo
tratamos de ligar para os amigos comuns para tentar conseguir seu endereço em
Manaus e conseguimos. Decidimos ir até Manaus, com a intenção de cruzar a
fronteira com a Venezuela por Roraima, seguindo a nova rota indicada pelos
colombianos. Uma vez em Belém, dormimos uma noite numa casa de madeira em
pedaços, abandonada numa praia e seguimos no dia seguinte, subimos o rio
Amazonas numa barca que levaria cinco dias. Compramos redes para dormir — o
meio mais barato — e eu, com pouco dinheiro, comprei uma pequena,
desconfortável, que me rendeu noites mal dormidas. A barca era um mundo à parte.
Gente de todo tipo. As mudanças, naquela parte do Brasil, pareciam constantes e
nessas mudanças dava a impressão de que cada um levava consigo seus animais,
tanto de estimação quanto para a sobrevivência. O convés parecia um zoológico
improvisado, podia-se ver de cães a cabritos, entre outros. A comida nos primeiros
dias era peixe com uma farofa grossa, que os locais chamam de “farofa de pedra” —
com grumos duros como pedriscos. Uma experiência nova, porém, triste... Na
segunda ou terceira noite, fui acometido por uma forte diarreia. Eu era adepto da
alimentação Macrobiótica e com a mudança de regime alimentar, já sabe, né? O
banheiro era uma latrina suja e fétida, e chegar até ele, sobretudo no meio da noite,
era uma travessia faraônica me arrastando por debaixo das redes dos outros
passageiros, um verdadeiro périplo. Contei onze nacionalidades diferentes entre os
viajantes, com os quais fizemos amizade, na maior parte mochileiros como nós.
Como meu inglês era fraco, havia até feito alguns meses de IBEU na sede do meu
bairro, mas não dava para manter uma conversação, então nos comunicávamos por
gestos também. Éramos jovens — eu com 28 anos — e a maioria também na mesma
faixa. Numa das noites apareceu um violão e Mário me incentivou a tocar, o que é a
minha grande paixão. Nós e uma galera invadimos o convés da primeira classe,
onde havia alguns dormitórios e uma ducha ao ar livre que era o deleite da galera
naquele calor amazônico profundo. Ali, entre amigos, música, calor e o aconchego
da noite a viagem ganhava outro tom, Mas os passageiros da primeira classe
pareciam não concordar com isso, sempre terminávamos sendo expulsos dali pelos
seguranças da barca. Mário engatou um namorico com uma moça de Belém que
estava indo para Manaus visitar a família, acho. Esse detalhe voltaria mais tarde. Nas
últimas noites, a comida escasseou. Era só o caldo do peixe com a tal farinha de
pedra. E foi aí que aconteceu um desastre: antes de sair do Rio, fiz um procedimento
nos dentes da frente, fruto de um acidente que sofri numa festa entre amigos pouco
antes da partida — uma ponte com três dentes muito malfeita. A farinha quebrou a
ponte. Fiquei arrasado e bastante preocupado. Só fui sanar o problema semanas
depois na cidade de Boa Vista, Roraima, para onde nos dirigíamos. O capitão da
barca, coincidentemente chamado Fabiano, era de origem italiana e falava pouco
português. De tanto invadirmos a primeira classe e fazermos uma bagunça
generalizada na embarcação, ele ordenou que desembarcássemos em Santarém,
pouco antes de Manaus, já de saco cheio daqueles mochileiros arruaceiros, isto é,
nós. Mas os amigos italianos que faziam parte da horda de mochileiros conseguiram
convencê-lo a nos deixar seguir viagem até Manaus, com a promessa de que
ficaríamos mais calmos. Quando chegamos à cidade e fomos direto a uma
lanchonete, Mario e eu. Pedi um sanduíche — acho que era um bauru — comi com
tanta avidez que nem notei que o tomate estava estragado. Outra diarreia. Triste. À
noite, chegamos à casa do Zuco, que ficou estarrecido com a surpresa, sua primeira
filha tinha acabado de nascer. Não tínhamos como avisar que estávamos indo. A
ideia era pedir que ele arranjasse duas vagas num avião dos Correios, o famoso CAN
(Correio Aéreo Nacional), para que pudéssemos chegar em Boa Vista. E
conseguimos! No dia seguinte, embarcamos para Boa Vista, em Roraima.
Capítulo 2 –
Boa Vista: Caldo de Cana, Formigas e Sobrevivência
Chegamos a Boa Vista graças ao nosso amigo Zuco — o sargento da Aeronáutica,
baixinho, língua presa, bom de coração. Ele ficou muito surpreso com nossa
chegada inesperada em Manaus, porém não hesitou em nos ajudar, mas a
impressão que deu tive era que ele queria é nos despachar o mais rápido possível,
até porque ciente que era, da índole dos amigos bagunceiros. Não lembro bem mas
acho que dormimos na varanda da casa dele, no dia seguinte embarcamos rumo ao
extremo norte. Do alto, a cidade de Boa Vista parecia desenhada com régua e
compasso. Tudo era redondo — ruas, praças, bairros. A referência às tabas
indígenas era clara. Ali, 80 ou 90% da população era formada por índios macuxis,
mas já bastante integrados à vida urbana. Nosso objetivo era cruzar a fronteira com a
Venezuela, mas não foi fácil. Tentamos um “permisso” com o Cônsul, mas o
momento era delicado: havia um boom de garimpeiros clandestinos, e a entrada por
vias oficiais estava praticamente bloqueada. Sem dinheiro, sem rumo certo,
conseguimos abrigo no quintal de uma senhora gentil, que nos permitiu amarrar
nossas redes entre as árvores do seu quintal. Dormir ao relento em Boa Vista não era
problema: o calor era constante, dia e noite. A linha do Equador atravessa o estado,
e o clima parecia não conhecer variações. Foi ali que vi uma espécie de formiga que
jamais esquecerei — com aparência de crustáceo, caminhavam em certas árvores,
tinham o corpo meio que sextavado e até umas patinhas que lembravam as garras
de um siri. Um detalhe estranho, mas que ficou gravado.
A situação apertava. Fizemos amizade com um caminhoneiro venezuelano, o Carlos,
que tentou de todos os modos nos ajudar, seja nos dando carona até a fronteira,
Santa Elena de Uairén por uma estrada muito perigosa, cheia de abismos e
enlameada, imagine aqueles caminhões carregados de madeira do Brasil e
molhada, ainda por cima, trafegando por ali, era muito arriscado. Ele, o Carlos, até
nos ofereceu conseguir trabalho de motorista desses caminhões que devido ao alto
risco das viagens pagava pequenas fortunas aos candidatos e eu já estava até
pensando em tirar minha permissão para conduzir caminhão lá em Boa Vista, enfim
depois de várias tentativas frustradas de cruzar a fronteira, Mario decidiu voltar para
Belém e retomar o velho plano: chegar à Guiana Francesa por mar, como no plano
original, embarcando num barco que levava bugigangas navegando pela costa mas
antes disso ele viveu algumas outras aventuras por lá, antes de embarcar. Ele ficou
hospedado, não sei por quanto tempo, na casa da moça que conheceu na barca —
bem sem-vergonha, esse meu amigo, mas persistente. E conseguiu: chegou à
Guiana e logo conseguiu trabalho numa construção. Eu, por outro lado, estava
ficando sem alternativas. O dinheiro acabou, e a fome começou a bater. Conseguia
comer quando algum dono de pensão me deixava lavar pratos em troca de uma
refeição. Até que conheci um rapaz que me arranjou trabalho como garçom numa
“boite” local. Era um lugar curioso: quatro paredes altas e os clientes — vaqueiros,
comerciantes, garimpeiros — chegavam com suas botas enlameadas, e nós os
servíamos de gravata borboleta, entre um gole e outro de uísque, o que tornava mais
leve a noitada que ia madrugada adentro. Esse mesmo amigo, num gesto fraterno,
me deixou dormir num barraco de tábuas que ele tinha, afastado do centro. Foi lá
que vi novamente as tais formigas-crustáceos. A cidade circulava pouco dinheiro, e
quando perdi o emprego na "boite", logo depois, em mais uma tacada certeira mas
nem tanto, o amigo do barraco me arranjou outro “trabalho”, que consistia em
empurrar uma moenda de caldo de cana, substituindo a mula do proprietário, que
havia morrido. Ele me pagava com caldo de cana e bananas, que era o resultado de
sua produção — e foi o que comi por um bom tempo, até começar a defecar em
verde e amarelo, veja só... Naqueles tempos nem se ouvia falar ainda em celular e os
contatos eram feitos por meio de correspondência ou telefone, por sorte, eu e Mario
tínhamos um amigo em comum, o Amâncio, que era diretor na companhia telefônica
EMBRATEL e nos ajudou muito, permitindo que ligássemos para nossas famílias
gratuitamente, isso foi demais! E então, muito envergonhado, me vi obrigado a pedir
arrego ao meu pai no RJ. Ele me atendeu e por um tempo eu pude seguir procurando
por um trabalho digamos, menos bestial. Em seguida, consegui algo bem mais
interessante: um emprego num escritório de um sulista que vendia máquinas
agrícolas. Fazia de tudo — datilografava, varria, cuidava das plantas e até cozinhava.
Foi muito bom enquanto durou. Em Boa Vista, Mario e eu, antes da sua volta para
Belém, havíamos feito amizade com uma família de indianos que tinham uma
pensão onde eu e Mario almoçávamos quase todos os dias. Antes de eu começar a
trabalhar com o sulista eles até me davam de comer, vez em quando gratuitamente,
formavam um casal lindo, social e espiritualmente. Foram seis meses vivendo em
Roraima. Com o dinheiro que pude juntar, e com a ajuda de Mario, que um tempo
depois retornou a Boa Vista com a intenção de entrar na Venezuela, (eu disse que ele
era persistente) — e me adiantou uma quantia — consegui inteirar com o que tinha
para pagar uma passagem num avião teco-teco particular, indicado pelo casal de
indianos e que ia até as proximidades da antiga Guiana Inglesa , hoje República
Cooperativista da Guiana. De lá, pretendia finalmente alcançar a Guiana Francesa. A
viagem foi feita, mas me largaram perto da fronteira, onde tive que caminhar até a
“aduana” — um escritório improvisado no meio do mato. Os policiais, negros de
quase dois metros de altura, me deram um banho com algum desinfetante para
poder pôr os pés naquele país e depois riram da minha cara quando escrevi Brasil
com “s” num dos formulários, que é como escrevemos por aqui, mas eles escrevem
com "z" e acharam que eu nem sabia escrever o nome do meu país corretamente,
pobres coitados. Ali, mais uma vez, entendi que o mundo não perdoa nem os erros
de ortografia.
Capítulo 3
– República da Guiana: Café, Culpa e Bulldozers
Os policiais da República da Guiana me deram dois dias de permissão no país. Meu
inglês era ridículo, e nem deu pra contestar. Peguei carona até Georgetown, a
capital, por uma estrada esburacada que parecia refletir minha própria situação:
pouco dinheiro, muita gana, e um plano que ainda precisava de pernas. Chegando
lá, fui direto ao consulado — ou seria embaixada? Sei lá. Sentei-me no saguão com
minha mochila minúscula, meio maltrapilho, esperando alguma luz. Foi quando vi
um rapaz com uniforme de garçom, bandeja na mão, vindo em minha direção me
oferecendo um cafezinho. Papo vai, papo vem, ele se mostrou bastante interessado
em mim. Percebi que era gay, e num gesto generoso, se ofereceu para me dar abrigo
em sua casa. Sem alternativas, aceitei. Nada tinha a perder, embora soubesse que
ele talvez esperasse algo mais. Eu, por minha vez, não me sentia confortável com a
ideia de envolvimento íntimo com outro homem — não era minha orientação. Mas fui
— porque às vezes, a sobrevivência fala mais alto que o conforto. Marcamos local e
hora. Enquanto esperava, dei uma volta pela cidade, tentando bolar um plano para
seguir viagem: Suriname, depois Guiana Francesa. Consegui algumas dicas valiosas
de como chegar: Eu devia pegar uma "lotada", os táxis de lá só funcionavam assim,
até um certo lugar e depois pegar um barco para o Suriname. Mas com o dinheiro
que tinha ou que não tinha, tudo parecia impossível. A grana foi quase toda na
passagem do teco-teco. Na casa do rapaz, após conversarmos e ouvir sua intenção,
fui sincero, om respeito e afeto, deixei claro que não era o tipo de conexão que eu
buscava, agradeci pela generosidade da estadia e pela confiança. Ele ouviu com
atenção, e ao perceber minha situação, se sensibilizou. Sem hesitar, abriu a carteira
e me ofereceu alguns dólares — o suficiente para que eu pudesse, no dia seguinte,
seguir viagem. Foi um gesto inesperado, de humanidade pura. E naquele momento,
percebi que nem sempre a ajuda vem da forma que imaginamos, mas quando vem
com respeito, vale mais do que ouro. No Suriname, me deram também dois dias de
permanência. Lá, me deparei com uma garrafa de cerveja do tamanho que sempre
sonhei, nunca tinha visto— enorme, belga, se não me engano, uma delícia. O idioma
era inglês, mas também um dialeto estranho, incompreensível. Com meu inglês
pobre e como sempre fazendo uso das mãos, consegui me comunicar com o
garçom, que me disse que um português costumava frequentar o bar. Aquilo elevou
meu moral. Dormi numa pensão barata — com baratas e acordei esperançoso,
querendo encontrar o tal português que o garçom me havia indicado e poder me
explicar melhor. Ledo engano. O português em questão tinha dois metros de altura,
era careca, e falava um português que, sinceramente, parecia alemão, eu não
entendia quase nada do que ele falava. Talvez fosse de uma região bem interiorana
de Portugal, ou já vivesse ali há tanto tempo que o idioma se dissolveu. No fim das
contas, consegui que ele me levasse até a fronteira do Suriname com a Guiana
Francesa — o rio Saint Laurent du Maroni. Bastava atravessar numa canoa e eu
estaria quase no meu destino. E assim foi feito. Do outro lado, encontrei um
brasileiro: Jorge. Um anjo disfarçado. Me ajudou a conseguir trabalho por ali mesmo,
onde fiquei por uma semana. O serviço? Abastecer máquinas comedoras de floresta
— Bulldozers gigantescos. Eu tinha que escalar uns 10 metros pelo trator e com a
mangueira de abastecimento na mão para chegar ao tanque do bichão e levava no
mínimo 30 minutos para encher o tanque de cada monstro daqueles com óleo diesel
e tinha que ser de madrugada quando ficavam adormecidos, esperando a próxima
devasta. Não era o meu destino final, mas serviu. Juntei alguns trocados. Com a
ajuda do Jorge, consegui uma carona para Caiena, a capital da Guiana Francesa. Ali,
pela primeira vez, senti que o plano original — aquele sonho de chegar aos Estados
Unidos — estava finalmente ao alcance.
-Capítulo 4
– Caiena: Mais baratas, Camarões, a PIDEG e Catherine
Cheguei a Caiena com um nome na cabeça: Rivadavia, se não me engano, vice cônsul do Brasil, indicado por Mario ainda lá em Roraima. Um baiano, tão gay quanto
o rapaz do cafezinho em Georgetown — essa sina me perseguia. Ele me recebeu
com olhos de quem queria mais do que ajudar, mas me arranjou abrigo: uma casa
abandonada, infestada de baratas. Duas noites, no máximo, para não comprometer
sua posição. Caiena era pobre. Casas de madeira, muitas abandonadas. Mas foi
justamente essa precariedade que me permitiu viver ali por um ano. Nas andanças
pela cidade, descobri a sede dos Scouts de France — Escoteiros da França. O
prédio, também de madeira e caindo aos pedaços, servia de abrigo para mochileiros
de passagem. Redes amarradas, histórias cruzadas, planos improvisados. Foi ali que
conheci Jean Fantozzi, francês de Marselha, marceneiro, mochileiro, poliglota e
dono de uma barba que batia no peito. Tinha uma pilha de passaportes — uns dez —
que guardava como troféus de suas voltas ao mundo. Nosso primeiro encontro foi
digno de comédia: ao vê-lo perto da torneira do quintal, arrisquei um francês torto,
tentando me aproximar: > — Vous êtes françoise? Ele me olhou sério e respondeu: >
— Je suis français, monsieur. Só depois percebi que “Françoise” era nome próprio
feminino. A vergonha virou amizade. Jean, poliglota que era, falava um português
bastante compreensível, me ensinou francês e artesanato com sementes e fios de
alpaca. Descobri uma habilidade que não sabia que tinha — mãos que criavam,
sobreviviam. Mas depois de um tempo o prédio dos escoteiros virou zona:
mochileiros demais, estrutura de menos. Madeira podre, escadas improvisadas,
risco real. Fomos expulsos. Mais uma vez, a sorte me guiou. Encontrei outra casa
abandonada numa presqu’île — uma península nas bordas da cidade. Um “coup de
chance” (golpe de sorte). Ali vi pela primeira vez os gatos selvagens da Guiana:
enormes, com cara de puma, mas inofensivos. Presenciei uma caçada a uma iguana
— o gato devorou o bicho todo, menos a cabeça e as patas, provavelmente pela
ausência de carne. Também vi o absurdo: legionários franceses derrubando
coqueiros de mais de 10 metros de altura com machados só para colher cocos. Não
havia como impedir. Eram legionários. E sabíamos o que isso significava. Depois de
tentativas infrutíferas, consegui trabalho na PIDEG. A maioria dos operários eram
brasileiros — talvez 70%. Os guianeses, ouvi dizer, eram preguiçosos. Os brasileiros,
mão de obra confiável. Comecei fatiando peixes congelados numa máquina com
uma serra vertical e logo depois fui para a seção de fechamento das caixas de
camarão, que era feito com uma pequena máquina manual onde era encaixada uma
cinta metálica, nessas caixas maiores eram armazenadas as pequenas caixas de
camarão congelado, organizadas por tamanho, colocando-as na esteira paraserem
embarcadas em pequenos navios pesqueiros que levavam a mercadoria para seus
países de origem e um desses países era o dos meus sonhos e dos meus planos, os
EEUU. As mulheres se ocupavam, além de preencher as pequenas caixas de
camarão frescos para irem ao congelamento também eram elas que faziam a
triagem dos camarões — dos pequenos aos VGs, os gigantes. Logo percebi que o
roubo era rotina: camarões e peixes desviados para venda aos laosianos, donos de
comércios na cidade e ávidos por frutos do mar. O acesso à usina era feito por
ônibus, que recolhia os operários num ponto específico da cidade. Depois de algum
tempo, fui promovido: me colocaram para operar a “encercleuse automatique” —
uma máquina que tinha acabado de chegar e que servia para amarrar as caixas com
cintas feitas com um plástico muito resistente automaticamente, o que tirou o
emprego de alguns funcionários que trabalhavam nessa função manualmente, como
eu já tinha feito, modernização obriga. Não sei por que fui escolhido, mas claro,
aceitei. O salário aumentou um pouco. Foi nessa fase que conheci Catherine —
Caty. Francesa da Bretanha, mochileira como eu. Passamos a morar juntos, também
numa casa abandonada. À essa altura o plano era ir para a França. Esqueci os
Estados Unidos. O amor muda rotas. Mas a ida para a França exigia dinheiro. E foi aí
que entrei na onda: roubava camarões, escondia na mata durante o almoço, quando
a vigilância era relaxada e vendia aos laosianos. Deu certo. Comprei uma mobillete.
Não dependia mais do ônibus. Tinha liberdade. Uns meses depois então veio a
notícia: Caty estava grávida. > Não estava nos planos. Mas virou o plano. Decidimos
nos casar ali mesmo, na Guiana Francesa, o que muito facilitaria minha estadia na
França, sendo a Guiana um território francês. Três meses depois, comprei minha
passagem para a França. Mário já estava em Paris. E eu, agora casado, com um filho
a caminho, partia para mais uma etapa da jornada.
Capítulo 5
– França: O Recomeço Europeu
Paris. A cidade que o mundo romantiza, mas que me recebeu com o frio da
realidade. Cheguei com Catherine, minha esposa, grávida de três meses. Mário já
estava por lá, morando com a Françoise, sua namorada, no último andar de um
prédio antigo — 5 andares, sem elevador, como é comum nos prédios antigos de
Paris. O espaço era minúsculo, não dava nem pra ficar de pé. Mas era abrigo. E
abrigo, naquela hora, era luxo. Cathy estava preocupada. Não podíamos dividir
aquele canto com Mário e Françoise por muito tempo. Precisávamos de um plano.
Ela entrou em contato com os pais na Bretanha, relatando nossa situação. E veio a
boa notícia: eles nos propuseram ir para lá, nos dariam emprego e moradia durante o
verão num hotel de veraneio à beira mar, na verdade uma baía, onde também viviam
e eram os proprietários, no bairro de Cap-Coz, a cerca de 30 km de Quimper, a
cidade mais próxima. A Bretanha era linda, belas paisagens, muitas florestas, frutos
do mar à vontade, o Atlântico ficava logo ali, mas o grande problema era o clima. Às
portas do verão fui contratado como barman no hotel, Hotel Celtique era o nome,
um casarão enorme em alvenaria e madeira com dois ou três andares, sempre cheio
de turistas nessa época do ano— em sua maioria alemães, fluentes em francês ou
inglês. O salário era digno. A vista do bar dava para uma baía tranquila, onde eu
observava, com certo espanto, os europeus caminhando rumo à praia… de meias.
Era verão, diziam. Mas pra mim, carioca, aquilo era outono com pretensões e olhe lá!
O que me chocou mesmo foi vê-los se despirem ali mesmo, na areia da praia, sem
pudor, para em seguida vestir seus trajes de banho, uma cena deveras cabulosa. Aí o
verão passou. E com ele, meu emprego. Cap-Coz era uma localidade um tanto
isolada — algumas fazendas ao redor, comércio a 10 km. Mas com o salário
acumulado, realizei dois sonhos: comprei um bom violão e voltei a tocar. A música,
que sempre esteve em mim, finalmente tinha espaço. Foi então que conheci um
rapaz marroquino, Khalid Kouen, percussionista de alma brasileira que se tornou um
bom amigo. Tocava pandeiro como poucos — com técnica, swing e paixão, entre
outros instrumentos brasileiros e marroquinos. Ele era fanático pela música
brasileira. Formamos uma dupla e começamos a nos apresentar em tavernas e
bares da região. Mas não durou muito. Eu não tinha carro. Nem condições de
comprar um, mesmo usado. Foi aí que o avô da Catherine, Monsieur Poidvin, aos 92
anos, me presenteou com um Peugeot 365 seminovo, guardado por 21 anos intacto.
Uma relíquia. Mais tarde, eu estrelaria seu fim — mas isso é outra história. Na época,
eu não tinha carteira de motorista francesa. Antes de sair do Brasil, Mário e eu
fizemos uma tradução juramentada da nossa habilitação brasileira, achando que
com isso teríamos permissão de conduzir na França. Com ela, comecei a dirigir até o
dia em que fui parado por policiais na estrada. Todo prosa apresentei os
documentos. O policial olhou, franziu a testa e disse que aquela tradução não valia
nada na França. Fiquei um tanto preocupado com o que poderia acontecer. Mas ao
reler o documento, o policial notou que eu era do Rio de Janeiro. E aí tudo mudou.
Começou a me perguntar sobre o Carnaval, sobre Pelé, sobre o Brasil, o que eu
alegremente respondia à todas as questões, claro e ele maravilhado, de olhos
arregalados. Me deixou seguir em frente, o gentil policial bretão. Mas nem todos os
bretões eram assim. De pele morena e olhos verdes, eu não passava despercebido.
Mesmo casado com uma bretã, encarei episódios de racismo, mais da parte dos
anciãos, que não abriam mão de seu orgulho. Mas eu fiz muitos bons amigos por lá.
Mas essa parte do racismo, prefiro esquecer. Mas ela existe. E pesa. Naquela época,
1981, ainda podia se ver as anciãs bretãs com seus trajes típicos, pretos com rendas
brancas, longos, suas “coiffes” e os famosos tamancos bretões. Em meio àquelas
casas de aspecto frio, telhados de ardósia, eu me sentia em pleno século XIX. Uma
curiosidade, foi lá na Bretanha que descobri o Asterix, o gaulês, personagem de
desenho animado e gibis franceses. É lá na Bretanha onde se passam suas
aventuras, na verdade uma região muito inóspita para um brasileiro no sentido do
clima. Era difícil ver o sol, o céu era cinza em quase toda a totalidade do ano, salvo
no verão, mesmo assim eu sentia frio. Foi num outro verão, quando os dias ainda se
estendiam preguiçosos sobre a paisagem da Bretanha, que Mario apareceu por lá,
acompanhado de Françoise, sua namorada na época. Tinham decidido fazer uma
breve viagem juntos, e aproveitaram para me visitar. Trouxeram consigo não só a
companhia, mas também histórias que pareciam guardadas há muito. Sentamo-nos
num café pequeno, de frente para o mar, e Mario me contou como havia conhecido
Françoise, durante uma colheita de uvas, ou seria de milho, não lembro, no interior
da França. Era um daqueles trabalhos sazonais que juntam gente de todo canto,
cada um com seus motivos e esperanças. O encontro entre os dois foi simples,
quase inevitável, como se já estivessem destinados a se cruzar entre parreirais e sol
forte. Ficamos tão pouco tempo em Paris, um ou dois dias, que nem deu pra ele me
contar essas histórias lá, mesmo porque eu tinha muitas pra contar pra ele também.
Casaram-se algum tempo depois, num impulso que parecia certo na época. Hoje,
estão separados e têm duas lindas filhas. Mas naquele verão na Bretanha, ainda
havia entre eles uma leveza que fazia sentido. A paisagem parecia acolher essa
história com a mesma naturalidade com que recebe as marés: sem pressa, sem
julgamento. Então em seguida veio
Maíra.
Capítulo 6
– Maíra, Xaxins e Encontros Inesperados
Catherine havia dado à luz uma linda moreninha. Eu queria um nome indígena, e
Catherine concordou. Mas meu vocabulário de nomes indígenas não era lá muito
extenso. Pedi ajuda ao Aloisio, um bom amigo no Brasil, que me enviou o livro Maíra, de
Darcy Ribeiro. O livro trazia dezenas de nomes indígenas, mas acabamos por escolher
o do título mesmo: Maíra. Àquela altura, eu vivia com o auxílio desemprego — um
salário-mínimo. A situação estava apertada, embora não pagássemos aluguel, já que
morávamos no hotel da família. Era um espaço restrito e úmido, abaixo do piso
principal. Com a chegada de Maíra, fomos remanejados para um quarto de hóspedes,
o que trouxe algum alívio. Conseguir trabalho naquela região era quase impossível.
Mas eu tinha uma ideia que parecia boa: montar uma microempresa de importação. O
plano era trazer vasos de xaxim do Brasil — uma novidade absoluta por aquelas
bandas, onde todos os habitantes eram amantes das plantas. Não teve jeito, vendi o
violão e com algum dinheiro poupado, resolvi botar a ideia em prática. Foi uma
batalha. Inclusive, me rendeu um arresto por conta de uma artimanha que aprendi com
um amigo árabe: um método para telefonar das cabines públicas para qualquer parte
do mundo sem pagar. Eu precisava falar com o Brasil, mas não podia arcar com os
custos absurdos da telefonia internacional. Para não chamar atenção da Gendarmerie,
a polícia francesa, eu vivia trocando de cabine, de bairro em bairro, pra não dar na
pinta. Minha mãe ficava até preocupada quando eu não ligava. Eu costumava telefonar
todos os dias. Mas era uma operação clandestina e um dia me pegaram. Passei uma
noite em uma delegacia que me valeu por um ano. A cama era de concreto e o frio que
fazia dava a impressão de que eu estava dentro de uma daquelas câmaras de
congelamento da PIDEG. Com pena de mim, me deram uns dez cobertores e eu não
conseguia dormir com o peso em cima de mim. Após muito me explicar e pedir perdão,
me relaxaram. Mesmo assim, consegui fazer a importação pagando uma pessoa que
eu nem conhecia, indicada por um amigo como sendo honesta — e era mesmo. A
mercadoria chegou de trem na cidade de Quimper. Eu mal acreditava que tinha
conseguido. Comecei a circular por feiras e lojas de plantas, vendendo o que parecia
uma excentricidade botânica: vasos de xaxim. A maioria olhava com curiosidade,
alguns com desconfiança, mas eu seguia firme, quase como um missionário da
jardinagem tropical.
Até que, numa loja grande e badalada, o improvável aconteceu: Catherine Deneuve
entrou. Sim, a Catherine Deneuve.
Ela chegou justo na hora em que eu tentava convencer o dono da loja de que meus
vasos eram mais que recipientes — eram poesia vegetal.
Catherine se aproximou, olhou os vasos como quem descobre uma relíquia, e me
ouviu com atenção. Fiz meu discurso com ares de especialista e um toque de vendedor
de feira. Ela sorriu, encantada, e começou a escolher. Não foram poucos.
O dono da loja, que até então estava indeciso, viu a cena e decidiu: se Catherine
Deneuve leva, ele leva também. Saí de lá animado. Certa vez, na feira de Quimper, vi
duas mulheres negras enormes passeando por ali. Pensei: essas são brasileiras.
Podiam ser africanas, mas meu sexto sentido dizia que não. Deixei meu vizinho de
barraca cuidando da banca e fui discretamente ouvir que língua falavam. Foi batata:
eram brazucas. Usavam jaquetas de um canal de televisão francês. Puxei conversa
em português e foi uma festa. Elas adoraram encontrar um brasileiro por aquelas
bandas, onde quase ninguém do Brasil se arriscava a viver — muito por causa do
clima. Fiz questão de levá-las ao hotel onde eu morava, queria apresentá-las à
família da Catherine. No trajeto, nos apresentamos: Pinah e Cruz. Só mais tarde
descobri que Pinah era bem famosa no Brasil. O pai da Catherine, Jeanot, apelido
carinhoso para Jean, levou um susto quando viu aquelas duas mulheres de quase
dois metros de altura entrando no hotel. Ficou sem palavras, e eu morrendo de rir.
Depois elas me contaram que estavam fazendo uma apresentação numa cidade
próxima, junto com integrantes de uma escola de samba — se não me engano, da
Portela.
Então resolvi que deveria tentar expandir o meu negócio e para isso pensei em
vender os meus xaxins em Paris. Eu bem sabia das dificuldades que iria encontrar,
cidade grande, trânsito, muitas lojas, não conhecia ninguém, sem lugar pra dormir e
580 km de estrada pra encarar mas enfim encarei o desafio, levado pelo relativo
sucesso da minha empreitada na Bretanha. Foi então que enchi a 365, a Peugeot, de
xaxim e parti animado que estava. Porém nem tudo foram flores. Consegui realizar
algumas vendas mas resolvi voltar no mesmo dia, apesar de pequena, Paris era
maior do eu pensava. A brava Peugeot 365 aguentou firme a ida mas na volta, lá pela
metade do caminho, reparei no painel do carro que o mostrador do óleo não estava
aceso mas como havia trocado o óleo antes de de sair do Cap Coz não me preocupei
mas deveria, num certo momento o motor trancou, o reservatório de óleo estava
vazio, seco mesmo e lá se foi a minha peugeot e com ela o meu sonho de ser um
empresário bem sucedido, fiquei arrasado, não tinha condições de resolver esse
problema, tive que vender o automóvel por ali mesmo, na beira da estrada, com o
que restava de xaxim no interior e voltei para a Bretanha, desanimado e apreensivo
imaginando o que iria dizer à família da Catherine. Mas a vida continuava. Ainda me
sobrava um pequeno estoque de vasos de xaxim e continuei com as vendas locais
numa Kombi, que me foi gentilmente emprestada pelo caçula da família Poidvin, o
Fred, irmão de Catherine. E foi um pouco mais tarde que descobri, da maneira mais
torpe possível, que nem todos os franceses eram honestos. Fui enganado por um
empresário numa famosa feira de jardinagem da qual participei com meus xaxins.
Me deu um golpe, eu, um tanto inocente e iniciante no ramo, caí como um pato,
como se diz. Não vou entrar nos detalhes aqui, mas precisava registrar essa
passagem — até porque esse episódio levou meu negócio à ruína.
CAPÍTULO 7
- Já sem muitas perspectivas resolvemos Catherine e eu nos mudar para um lugarejo
acerca de Nice, o que me agradava sobremaneira pois era uma das regiões mais
quentes da França. Uma região montanhosa onde conseguimos alugar uma casa de
pedra um tanto afastada do centro de Saint-Julien-le-Montagnier, uma vila no
departamento do Var que está localizado na região de Provence_Alpes-Côte d’Azur
pra onde viemos. Consegui um emprego de jardinagem num complexo hoteleiro
Resort Thermes de Salins, onde haviam termas romanas que eram frequentadas
pelo pessoal da terceira idade. O trabalho era duro. Trabalhávamos ao ar livre, em
equipe — dez jardineiros. Nessa época eu tinha uma camionete Renault, carrinho
valente que me serviu muito bem. Num belo dia que nevava, foi a segunda vez que vi
neve na vida. A primeira tinha sido na Bretanha, mas lá, por ser colada ao Atlântico, a
neve era rara e, quando vinha, ficava suja, feia, misturada à fuligem do tráfego
intenso. Já nessa nova localidade, era diferente: a neve caía limpa, branca,
silenciosa. Linda. Mas perigosa. Um dia, voltando do trabalho — que ficava a uns 10
km de casa descobri isso da pior forma. Ao derrapar numa curva, bati num daqueles
postes de madeira que margeavam a estrada. Quebrei o poste. E descobri, logo
depois, que teria de pagar por ele à Prefeitura local, pois é, na Europa é assim. Bela
lambança. Depois do trabalho no complexo hoteleiro, fui parar na colheita de
lavanda. Uma experiência singular. Chegava em casa perfumado, impregnado
daquele aroma que parecia grudar na pele, na roupa, na alma. Aprendi a fazer uma
espécie de garrafinha com os talos e as flores da lavanda envoltas com fita de cetim
— pequenas peças artesanais que vendia aos hóspedes do hotel. Serviam para
perfumar gavetas e guarda-roupas, e me garantiam uma rendinha extra. Era simples,
mas funcionava. Naquela época, eu ainda seguia a alimentação macrobiótica.
Trouxe Catherine comigo nessa jornada alimentar, e aos poucos ela também foi se
adaptando. Foi então que descobrimos um centro de alimentação macrobiótica
chamado Cuisine et Santé, perto da fronteira com a Espanha, numa localidade de
nome Valentine, uma comuna francesa na região administrativa da Occitânia, no
departamento da Haute Garonne (vale explicar que a França é dividida em
departamentos, o que para nós equivale aos estados). Aceitavam alunos voluntários
sem cobrar nada — o que, para nós, foi um presente. Lá fomos os três visitar o
centro. Acabamos ficando por um ano. Moramos ali, trabalhamos e aprendemos
muito — não só sobre alimentação, mas também sobre a filosofia oriental que
embasava tudo aquilo. Foi um período profundamente enriquecedor. A comida era
simples, os ensinamentos profundos, e a convivência nos transformou. Mas eu
sentia que precisava de algo mais. Havia uma inquietação que a França, com toda
sua beleza e estrutura, não conseguia saciar, era m outro sonho que me rondava há
tempos: o de ter um pedaço de terra. Um cantinho só meu, onde eu pudesse plantar,
colher, sentir o cheiro da terra molhada e ver as coisas crescerem com o tempo —
sem pressa, sem protocolo. Na França, isso era praticamente impossível. Um país
do tamanho da Bahia, onde cada centímetro é aproveitado. Não existia lote vazio
como se vê pelo Brasil. Por razões óbvias, tudo ali precisava ser funcional, produtivo,
planejado. E eu queria o contrário: espaço, respiro, improviso. Foi então que
resolvemos tentar a vida no Brasil. Catherine concordou, gostou da ideia. Maíra
ainda pequena, 2 anos e nós com a esperança renovada. A ideia era simples: tentar
uma nova vida por aqui. Recomeçar, mais uma vez. Mas dessa vez, com os pés na
terra e o coração mais perto das raízes. Não sei se foi realmente uma boa ideia. Os
tempos eram outros, é verdade, mas em 1983 o Brasil não era exatamente um país
onde se podia se aventurar com leveza. A decisão de voltar não foi movida apenas
por esperança — havia também desgaste. O casamento já não ia bem, e essa
mudança foi, no fundo, uma tentativa de resgate. Um último esforço para ver se as
coisas mudavam. Mas não deu. Após uns seis meses, ficou claro que não havia mais
como segurar. Ela foi viver em São Paulo, num outro centro macrobiótico junto com
Maíra. Ficou por lá cerca de um ano e depois voltou para a França, levando Maíra,
ainda pequena com seus três anos e meio de inocência e olhos curiosos.
CAPÍTULO - 8
E eu? Fui morar com Waldemir e Sebastiana, um casal de amigos generosos que
tinham um sítio nos arredores do Pico da Pedra Branca, pelo lado de Campo Grande
e que me foram apresentados pelo amigo Aloisio de Oliveira, o mesmo que me
enviou o livro Maíra. Foi um período maravilhoso. O Waldemir tinha um bom
conhecimento em agricultura e fitoterapia, aprendi muito com ele. Ao mesmo
tempo, pude compartilhar algumas técnicas que trouxe da França — como o
secador solar que ainda era quase desconhecido aqui no Brasil. Eu tinha trazido um
esquema com os desenhos de como construir um de madeira e vidro em tamanho
médio e assim eu montei um. O Waldemir e a Seba, como era carinhosamente
apelidada ficaram maravilhados, secávamos de tudo, até manga e caqui. Depois foi
a experiência com conservas lacto fermentadas com o que aprendi a lidar na França,
um alimento fantástico que sigo usando até hoje. Ali, entre trocas sinceras e o cheiro
da terra, comecei a reencontrar um sentido. Não era o que eu tinha planejado, mas
era o que eu precisava. Vendíamos o fruto de nossos cultivos na feira de Bangu. Era
ali, entre bancas coloridas e vozes misturadas, que eu reencontrava velhos amigos
— muitos deles me olhavam com olhos desconfiados, como quem tenta entender
um quebra-cabeça que não encaixa. Na cabeça deles, um cara que viveu o que eu
vivi, que percorreu o mundo, que mergulhou em filosofias e culturas, não podia
simplesmente estar ali, vendendo legumes e frutas. Era inimaginável. Sem nexo.
Como se eu tivesse perdido o juízo. Mas eu não trocaria toda a minha viagem, todas
as experiências, por aquele prazer simples e profundo de trabalhar a terra. De viver
do que ela podia me proporcionar. Cada aipim colhido, cada caqui, cada manga,
cada conversa com um freguês curioso — tudo isso tinha mais sentido pra mim do
que qualquer título ou reconhecimento. Na feira, eu não era um ex-alguma coisa. Eu
era só Paulo Fabiano. Um homem com as mãos sujas de terra e o coração limpo de
vaidade. Na feira de Bangu, entre sacolas e vozes misturadas, eu me sentia inteiro.
Era curioso observar os olhares dos que me reencontravam — gente que conhecia
minha trajetória, que sabia dos caminhos que percorri. Olhavam como quem tenta
decifrar um enigma: “O que faz esse cara aqui, vendendo legumes e frutas na feira?”
Na cabeça deles, aquilo não fazia sentido. Um sujeito que viveu na França, que
mergulhou na macrobiótica, que frequentou centros filosóficos e culturais... agora
ali, atrás de uma banca, pesando e negociando aipim. Para muitos, parecia loucura.
Para mim, era liberdade. Não havia glamour, mas havia propósito. Cada fruto
colhido era uma pequena vitória. Cada freguês que voltava era uma confirmação de
que eu estava no caminho certo. A terra me ensinava paciência, humildade, e uma
conexão que nenhuma cidade grande jamais conseguiu me oferecer. Enquanto
alguns me julgavam, eu sorria por dentro. Porque eu sabia que estava vivendo algo
verdadeiro. E isso, no fim das contas, é o que mais importa. Mas a saudade da minha
filha era latente. Não era só uma lembrança — era uma urgência. Botei na cabeça
que precisava voltar à França, custasse o que custasse. Para isso, contei com a
ajuda do mesmo amigo Aloisio Oliveira, que por consideração é o padrinho de Maíra.
Um dos poucos que realmente acreditava no que eu fazia. Foi ele quem me ajudou a
comprar a passagem. Um gesto que carrego comigo até hoje. Voltei para a Bretanha.
Fiquei algumas semanas no hotel onde havia trabalhado e Catherine vivia, tentando
reorganizar a vida. Depois, me instalei numa cidade vizinha a Quimper, para não ficar
longe da Maíra. Escolhi Concarneau — uma vila de pescadores charmosa,
conhecida como resort de verão no departamento de Finistère. A cidade tem uma
antiga fortificação chamada ville close, cercada por muralhas, que atrai turistas de
toda parte, não era grande, tinha ruas estreitas e curiosamente uma loja de cada tipo
de comércio. Era um lugar com alma. Tive a sorte, de novo, de conseguir alugar um
pequeno apartamento dentro da Ville Close, era um “must”. Foi ali, em Concarneau,
que conheci Martine. Nos aproximamos, namoramos, e mais tarde nos mudamos
para Paris. Em 1987, nasceu nossa filha, Flora. Mais uma vez, a vida me surpreendia.
Entre partidas e retornos, entre mares e muralhas, eu seguia construindo minha
história — uma história feita de encontros, saudades e recomeços. Em 1986, quando
partimos rumo a Paris, eu não fazia ideia do que me esperava. Paris era um mundo à
parte — vibrante, exigente, deslumbrante. Uma cidade que parecia feita de vitrines
intermináveis, onde tudo brilhava, mas nada era barato. Morar ali era como viver
dentro de uma máquina de engolir dinheiro. Apesar disso, as oportunidades de
trabalho eram boas. Logo na primeira tentativa consegui um emprego com um
Martinicano conhecido como Gordon. Um sujeito negro, imponente — enorme,
musculoso, daqueles que chamam atenção só pela presença. Nunca soube se
aquele era mesmo seu nome, mas foi com ele que comecei a trabalhar em reformas
de apartamentos. Sua empreiteira não era grande, mas trabalho não faltava. Ele
gostou de mim desde o início. Virei seu capataz, mas fazia de tudo também:
carregava entulho em camionetes por Paris, aplicava carpete, colava papel de
parede, pintava — um verdadeiro faz-tudo. O salário era justo, condizente com o que
eu entregava. Com o tempo, até comprei um carro. Um feito e tanto em Paris. A
cidade me apresentou a uma comunidade brasileira vibrante. A maioria dos meus
amigos eram músicos e conterrâneos. Naquela época, os brasileiros se ajudavam
muito. E como minha posição no trabalho me dava certa autonomia, pude oferecer
bicos a vários amigos — serviços simples, sem necessidade de diploma ou
certificado, e Gordon pagava bem. Martine também trabalhava duro. Era “serveuse”
— garçonete de alto nível em restaurantes de luxo. Inteligente, estudiosa, carinhosa.
Tinha quatro licenças em Letras, falava vários idiomas e já havia viajado meio
mundo. Era uma mulher admirável, e juntos enfrentávamos Paris com coragem e
afeto. Paris pode ser encantadora, mas criar filhos ali é outra história. A cidade não
para, e às vezes parece que você precisa correr só para ficar no mesmo lugar.
Quando Flora nasceu, em 1987, tudo mudou. A responsabilidade ganhou um novo
peso, e o ritmo da cidade não desacelerou por causa disso. Tudo em Paris custa
caro. Mesmo com um bom salário e Martine trabalhando em restaurantes de luxo, o
dinheiro parecia evaporar. Cada centavo precisava ser bem pensado. Depois vinha a
questão do tempo. Trabalhar em reformas exigia esforço físico, acordar de
madrugada e muitas horas. Martine também tinha turnos longos e exigentes.
Conciliar isso com os cuidados de uma criança pequena era um malabarismo diário.
Não havia rede de apoio familiar por perto, então cada solução tinha que ser
inventada. Paris oferecia parques, museus, livrarias, e uma comunidade brasileira
calorosa que ajudava como podia. Muitos dos meus amigos músicos também
tinham filhos, e acabávamos criando uma espécie de rede informal de apoio, onde
um cuidava do outro quando necessário. Martine, com sua inteligência e
sensibilidade, foi uma mãe incrível. Mesmo com a rotina puxada, ela conseguia estar
presente. Flora teve sorte — e eu também. Mas como nada é para sempre, Gordon —
meu amigo e patrão — teve que voltar para a Martinica às pressas. Nunca soube ao
certo o motivo. Com sua partida, o trabalho sumiu, e eu passei a fazer bicos aqui e
ali, tentando manter o ritmo, mas sem rumo definido. O trabalho com O Gordon era
top, mas consegui trabalho, dessa vez de garçom, numa choperia, colada ao
Beaubourg, que é o nome popularmente utilizado para se referir ao Centro Georges
Pompidou, no coração de Paris, que foi também muito bom. O Beaubourg é
gigantesco e fica no meio de um quarteirão ainda mais gigantesco e é frequentado
por turistas e transeuntes que fervilham ao longo de toda a semana. A choperia era
enorme. Na verdade, comecei como “serveur”, ou barista, como se diz por aqui,
trabalhando do lado de dentro do balcão onde além de chopp também servia café,
só expresso e sanduiches. Havia umas 4 ou 5 máquinas de café, mas o detalhe é que
cada uma podia fazer até 10 cafezinhos, eram enormes, os franceses também são
ávidos por café, como nós por aqui. O patrão era uma figura, morria de amores pelo
Brasil, tinha até propriedade na Bahia. O som ambiente era embalado por muitos
dos nossos artistas, sobretudo os bossanovistas. Na choperia tínhamos uma cota de
vendas a cumprir e todas as noites em que batíamos a cota ele, no fechamento da
casa, abria duas ou três garrafas do melhor champanhe da casa ao modo “sabré”,
que é um jeito de se abrir garrafas de champanhe, espumante ou outras bebidas
utilizando um sabre ou faca para golpear o gargalo e remover a rolha com um pedaço
de vidro, para brindar com os funcionários, era um gesto generoso que cativava a
todos. Mas um dos momentos mais prazerosos desse trabalho era a parte da
manhã, quando acordávamos. Martine e eu saíamos para o trabalho juntos e
tomávamos o café da manhã numa “confisserie” (confeitaria) no caminho do
trabalho onde nos regalávamos com os “croissants au beurre” ou “au chocolat”,
croissant na manteiga ou recheados com uma tira de chocolate, ou ainda com os
não menos famosos “Chaussons” franceses, um tipo de pastel doce quadrado mas
de tamanho pequeno cujo sucesso vem da combinação de uma massa folhada leve
e crocante recheada com compota de maçã, verdadeiros manjar dos deuses. Uma
outra passagem curiosa, trabalhando na choperia, foi quando eu e Chibani, um
carinhoso e gentil amigo argeliano, baixinho, trabalhava bem pra caramba, numa
noite saindo do trabalho, buscou o meu dedo mindinho e o entrelaçou com o seu e
seguimos conversando e caminhando até o metrô, achei aquilo estranho mas não
me pareceu que fosse um gesto que designasse alguma intenção então deixei. Mais
tarde, quando fui me informar sobre aquele gesto me senti cheio de gratidão e
ternura pelo amigo Chibani, o gesto em questão é na verdade um sinal forte de
amizade e camaradagem entre dois homens, na cultura dele. É uma forma de
demonstrar afeto e conexão um com o outro, reforçando os laços de amizade de
uma maneira discreta e significativa. O gesto não tem um significado negativo, é uma
demonstração de confiança e companheirismo utilizado em vários países da Europa.
Foi então que ao longo do tempo me deparei com uma dúvida daquelas atrozes, que
não deixam a gente dormir: por que eu tinha que acordar de madrugada, enfrentar
aquele frio cortante, pegar o metrô pra trabalhar em algo que não me preenchia,
quando eu podia desenvolver meu lado musical e levar uma vida mais leve? Vale
dizer que eu havia trazido meu violão do Brasil — companheiro de tantas jornadas.
Quando retornei à Bretanha, ele veio comigo, quieto, esperando a hora certa. E essa
hora chegou. Bastava uma pequena reciclagem musical, um reencontro técnico e
emocional com o instrumento, e eu poderia me embrenhar pelo meio musical de
Paris. Os amigos estavam lá — em sua maioria músicos, brasileiros, vivendo bem do
que sabiam fazer. Era um universo que eu conhecia, que me acolhia, e que fazia
sentido. Foi o que fiz. Voltei à música. Voltei a mim. Comecei a fazer voz e violão em
restaurantes brasileiros, as vezes com um ou dois companheiros segundo a
necessidade e o tamanho da casa. No meu primeiro trabalho com a música
formamos um trio, China, capoeirista e artesão, na percussão, Mazinho, violão, voz e
pandeiro e eu também, violão, voz e percussão. Enquanto eu tocava e cantava
Mazinho fazia percussão e vice-versa, China no surdo. Conseguimos esse contrato
para tocar para uma plateia de estudantes numa universidade na cidade de Les
Mans, não muito longe de Paris e tenho até hoje um registro dessa apresentação que
foi gravado por um dos alunos num daqueles gravadores de fita enormes, registro
esse o qual o rapaz passou para K7, me presenteou e eu digitalizei, guardo isso como
uma relíquia. No início meus amigos ficaram espantados com essa minha vertente,
modéstia à parte eu não tocava nem cantava mal. No começo era a bossa-nova que
fazia os franceses sonharem, eram apaixonados por esse gênero e eu, adepto que
era desse ritmo, meu guru à época era justamente o João Gilberto, deitava e rolava.
Não parei mais de tocar, foram muitos os lugares onde eu me apresentei. No meio
disso tudo ainda teve o Hervé, um francês que empresariava uma trupe de músicos e
dançarinas brasileiros que participavam de apresentações feitas em cidades
quando essas comemoravam seus aniversários. Viajei muito em toda a França e até
fora dela como músico, a remuneração era muito boa, lá na França eles davam valor
ao músico. Havia apresentações com uma miniescola de samba com 60
participantes, que era o que cabia no enorme ônibus de luxo que o empresário
contratava, quando no caso eu tocava percussão, tamborim e as vezes ficávamos
dois ou três dias na cidade nos apresentando, tinha um pouco de tudo, maculelê,
capoeira desfile e apresentações mais intimistas em pequenas salas em que eu
também participava com voz e violão. Até hoje guardo fotos de uma apresentação
que fizemos na Bretanha onde Catherine, ciente do evento, levou Maíra para assistir
ao desfile da miniescola de samba que se apresentava numa vila (bairro) perto de
onde moravam, fiquei deslumbrado com essa passagem. As Prefeituras das cidades
aniversariantes convidavam grupos folclóricos de vários países da Europa também,
era festa mesmo e não mediam esforços para organizá- las, isso me impressionava
muito e me perguntava por que no Brasil, não é assim? Nossa agenda era cheia o
ano todo, eram muitas cidades, muitas festas. Mas mais uma vez o casamento
estava degringolando, Flora com 1 ano e eu viajava muito. Num certo momento
formei uma dupla com uma francesa, a Sylvie, que foi bem interessante do ponto de
vista musical, ela tinha um português fluente e cantava muito bem, além de tocar
instrumentos de percussão brasileiros. Numa ocasião conseguimos um ótimo
contrato para um quarteto num hotel 5 estrelas, o Mont Blanc, em Mégève, perto da
Itália, foi também uma passagem muito prazerosa. Juntamos eu no violão e voz,
Sylvie na voz e percussão, Jorginho também na percussão e um rapaz, o Ney Portilho
baixista profissional, que hoje faz algum sucesso na Itália e continua meu amigo, a
curiosidade é que ele é sobrinho do famoso e saudoso palhaço Carequinha, nunca
esqueço. Foram 11 dias de trabalho, começamos pouco antes do Natal e fomos até
o Réveillon nesse hotel 5 estrelas com tudo pago, inclusive comida e roupa lavada,
inesquecível! Mas me custou caro toda essa viagem, Sylvie e eu acabamos juntos e
eu estava percebendo que meu casamento, já abalado, realmente corria sério risco.
Na volta, Martine desconfiada sentenciou, ela ou eu! Escolhi ela, Sylvie, apesar de
Flora. Mas eu também tinha outras razões que não cabe aqui relatar. Fui morar com
Sylvie e continuamos a dupla por um tempo. Foi quando um belo dia liguei para a
minha mãe da casa de Sylvie e no final da conversa ela me perguntou: - O que você
acha de eu vender as ferramentas do seu pai? Papai era um profissional de pintura,
marcenaria e carpintaria exemplar, era metido, só trabalhava para madames, em
geral na zona sul do Rio, eu respondi: - Papai não vai gostar, ele tem um apreço
muito grande por suas ferramentas. E ela, espantada respondeu: Mas menino, eu já
não te mandei uma carta dizendo que seu pai morreu? Foi um grande choque,
lembro que até larguei o telefone. Talvez pelas múltiplas mudanças de endereço
nunca recebi essa carta a qual ela disse que me enviou. Nesse ínterim eu estava
prestes a receber a visita de um grande amigo e sua esposa, do Rio de Janeiro, o Vitor
Hugo e Vania Maria que decidiram fazer um passeio em Paris e justo no momento
que chegaram surgiu um contrato para tocarmos na ilha da Córsega, terra de
Napoleão Bonaparte, Sylvie e eu, por um mês. Calhou bem. Vitor chegou com Vania,
e Sylvie deixou que eles ficassem em seu apartamento pelo tempo que quisessem,
até a nossa volta. Era verão e partimos no carro dela para mais essa aventura. Foi
mesmo uma aventura. Quase sofri um atentado — uma história doida, sem pé nem
cabeça, que prefiro nem contar. Mas a Córsega... ah, a Córsega é linda demais.
Praias de tirar o fôlego, mas que na verdade me chocaram porque nunca tinha visto
praia onde no lugar da areia havia pedriscos, praia sem areia, realmente inédito pra
mim. Tocávamos no centro de Ajaccio, num porto no centro da capital. Verão
fervilhando de turistas, uma passagem incrível, apesar dos pesares. Na volta,
chateado com tudo aquilo, separado de Martine e com Flora recém-nascida, fiquei
— como se diz — desbaratinado. Não aguentei. Voltei pra Martine e Flora. E para
evitar recaídas, decidi mudar de novo. Dessa vez fomos morar perto de Montpellier,
no sul da França, a apenas 10 km da costa do Mediterrâneo. Mais uma vez, o calor
me atraiu. Mas acabamos num lugarejo a uns 20 km de Montpellier. Não me
perguntem por que — até hoje não sei. Continuei como músico, tocando em bares e
tavernas da região. Martine não trabalhava, precisava cuidar da menina. A rotina era
simples, mas a tensão silenciosa crescia. Passaram-se alguns meses e, mais uma
vez, o “casamento” afundava, não era casado com Martine, isso aconteceria depois.
Foi aí que reapareceu a velha ideia: tentar a vida no Brasil. E lá fui eu e a pequena
família, outra vez, rumo ao Rio de Janeiro — com esperança, com medo, com aquela
sensação de que talvez, só talvez, dessa vez desse certo. O Rio de Janeiro nos
recebeu com aquele calor familiar, o cheiro de maresia misturado ao caos urbano
que só ele sabe oferecer. Martine, Flora e eu tentamos mais uma vez. Era como se
estivéssemos tocando uma música que já sabíamos de cor, mas que insistia em
desafinar. E mais uma vez o casamento foi por água abaixo, mas Martine queria ficar
no Brasil, reconstruir sua vida por aqui. Com suas licenças em línguas e seu
português fluente, tinha inúmeras chances, queria ser professora de Inglês, me
disse. Mas para isso, precisava de algo concreto. Me pediu que nos casássemos —
não por amor, mas por necessidade, precisava de permissão oficial para ficar no
país e o casamento cumpriria bem esse papel. Eu sabia que não era um gesto
romântico, mas aceitei. Por Flora. Por aquele vínculo invisível que me ligava à minha
filha, e que eu não queria perder. Casamo-nos. Um ato quase silencioso, sem festa,
sem promessas. Meu compadre Zé Roberto, o Betinho, foi o padrinho de casamento.
Eu queria estar por perto, acompanhar os primeiros passos, ouvir as primeiras
palavras, ser pai de verdade. Mas a vida, com sua batida imprevisível, tinha outros
planos. Um mês depois, Martine partiu. Levou Flora com ela. Sem brigas, sem
escândalos — apenas uma mala feita e uma porta que se fechou. Fiquei ali, na
mesma casa que foi dos meus pais, com o violão encostado na parede e um silêncio
que parecia ocupar todos os cômodos. A separação foi definitiva. Não só entre nós
dois, mas entre o que eu sonhava e o que a vida me entregava. Flora cresceu longe
de mim, e embora a dor fosse constante, aprendi a transformá-la em música. Cada
acorde passou a carregar um pouco dela, um pouco de mim, um pouco do que
poderia ter sido. Hoje, quando toco, não é só pela plateia, quando dou umas canjas
em eventos de amigos músicos, nem pelos amigos, quando toco mais
informalmente. É por mim. Pelas estradas que percorri, pelos bares restaurantes e
tavernas, pelas noites em Mégève, pelas manhãs em Montpellier, pelas festas em
cidades francesas que celebravam a cultura com uma paixão que o Brasil ainda
precisa aprender. E por Flora e Maíra — que, mesmo distantes, são os acordes mais
puros que jamais toquei. A vida não se resolve. Ela se toca. Como uma canção sem
refrão, mas que emociona mesmo assim.
Nota pessoal: Aos amigos que estão comigo hoje, este livro não fala de vocês
todos— mas foi escrito com a força que vocês me dão. Obrigado por serem parte do
meu
presente. Obrigado por me lembrarem que a vida continua, e que ela é melhor
quando compartilhada.
-EPÍLOGO-
E então, depois de tudo, o silêncio. Não o silêncio da ausência, mas o da
compreensão. Aquele que chega quando as palavras já cumpriram seu papel,
quando os olhos já viram o que precisavam ver, e o coração, mesmo ferido,
aprendeu a pulsar com mais verdade. As cicatrizes ainda ardem, mas já não
sangram. O que era ausência virou memória. Cada página foi uma travessia. Cada
dor, uma semente. Cada encontro, uma fresta de luz. Não há promessas aqui.
Apenas a certeza de que o caminho continua — em outras vozes, em outros corpos,
em outras histórias. Mas com a mesma urgência de viver. Se você chegou até aqui é
porque algo dentro de você também precisava ser escrito. Obrigado por caminhar
comigo.
FIM
Recolher
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