Projeto Memórias do Futebol de Várzea
Entrevista de Soraia Marques Trindade
Entrevistado por Maurício Rodrigues Pinto (P1) e Anna Miranda (P2)
São Paulo, 03/06/2026
Entrevista n.º: MFV HV001
Realizado por Museu da Pessoa
Transcrita por Edméia Vieira
Revisada por Anna Miranda
(00:00:43) P1 - Peço que você se apresente, fale seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
(00:00:49) R - Meu nome é Soraia Marques Trindade, nasci no Paraná, na cidade de Altônia, é meio difícil de falar, no dia vinte e nove de julho de mil novecentos e setenta e dois e tenho 53 anos.
(00:01:16) P1 - Soraia, quais os nomes dos seus pais e com que eles trabalhavam?
(00:01:19) R - José Marques Trindade e Inês Marques de Morais. O meu pai matava boi, trabalhava na roça. Eu minha mãe eu acho que cuidava de casa, eu não tenho muita lembrança, mas cuidava da casa.
(00:01:39) P1 - Quantos irmãos você tem?
(00:01:44) R - Eu tenho nove irmãos, dois que são desaparecidos e um que faleceu. Eu tenho mais contato com a Claudia, que mora em Pirituba. Os outros eu não tenho muito contato.
(00:01:59) P1 - Você sabe sobre a origem da sua família? Como seus pais chegaram à Altônia, no Paraná?
(00:02:08) R - Meu pai era da Bahia e meu avô era um homem muito bravo. Minha tia e meu pai vieram da Bahia para o Paraná, e minha mãe era daqui de São Paulo. Meu avô e minha mãe foram morar no Paraná, e eles se conheceram lá.
(00:02:33) P1 - Quais memórias você tem da cidade onde você nasceu?
(00:02:39) R - Eu tenho memórias de café, porque quando eu era pequenininha, a minha mãe me deixava muito sozinha no mato. Eu lembro de quando meu pai matava o boi. Eu não gosto dessas memórias, porque eu acompanhava ele matar os bichos. Tenho memória das roças de algodão, fazendo doce, fazendo pamonha.
(00:03:09) P1 - Quais eram as suas brincadeiras favoritas de criança?
(00:03:13) R - Eu não brincava quando eu era criança. Eu ficava mais sozinha nos cantos e no mato. Quando eu era pequena, eu ficava ou embaixo do sofá ou atrás da porta. Segundo o que minha mãe fala, que quando eles me levavam para dentro de casa, eu queria ir para o mato. Eu não sei se era porque ela me deixava muito tempo sozinha no mato e quando entrava em casa eu ficava com medo. Não sei bem ao certo o porquê, mas quando ela me levava para dentro de casa eu chorava. Aí ela me levava para o mato para eu dormir, e quando eu dormia, ela me levava para casa de volta. Quando eu acordava e ninguém me levava para o mato, eu entrava embaixo da cama ou atrás da porta. Então eu não tenho muitas lembranças. Agora eu lembrei de uma brincadeira que eu fazia também de colocar a madeirinha no chuchu ou na batata, para imitar um boi. Isso eu lembro que eu fazia quando eu ficava sozinha, e fazia um cercadinho.
(00:04:18) P1 - Você é a mais nova dos nove irmãos?
(00:04:26) R - Eu sou uma das quase últimas. Depois de mim tem a Cláudia e o Nino, que se chama José. Eu também não tenho contato com ele.
(00:04:40) P1 - Quais memórias você tem dessa região que você morava?
(00:04:47) R - Muito poucas. Eu lembro do mato, dos animais, das casas de madeira e de muita briga.
(00:05:02) P1 - E nessa região você viveu até que idade?
(00:05:04) R - Eu não sei dizer até que idade. Eu sei que eu vim pequena para cá [São Paulo], mas a idade exata eu não sei.
(00:05:10) P1 - Ainda criança vocês se mudaram para São Paulo. Como foi essa mudança e com quem você veio?
(00:05:19) R - Eu não tenho muita memória, mas me parece que meu pai veio primeiro, aí acho que ele arrumou um lugar aqui, e depois mandou buscar a gente. Eu não sei muito bem aonde a gente tava indo, mas eu lembro que a gente veio em um caminhão, daqueles de carregar entulho na caçamba. Eu lembro que a gente tava com todos os móveis naquele caminhão e tinha um cachorrinho correndo atrás, que provavelmente devia ser o nosso cachorro. Depois, eu lembro da gente em São Paulo, em Itapevi, ou em outro lugar que eu não lembro o nome.
(00:05:59) P1 - Em qual lugar você tem memória marcante de morar em São Paulo ou na grande São Paulo, que você tem mais referência dessa fase da vida [infância e adolescência]?
(00:06:20) R - Depois dessa fase, eu morei muito tempo na rua, na Praça da Sé e na Praça da República. Essas são as maiores lembranças que eu tenho. No Paraná, como eu falei, quando eu estava em casa ou estava embaixo da cama ou atrás da porta, ou eu tava fazendo as coisas. Não tinha muita conversa, era um ambiente de muita briga, e meu pai bebia.
(00:06:48) P1 - Você pode falar por quanto tempo você esteve na rua e como se organizava?
(00:07:03) R - Eu me organizava como dava. A princípio eu morei no mato, como um tatu que abre buraco no meio do mato. Não abri um buraco, mas dormi dentro de um buraco de terra. Um dia eu fiquei gritando, apareceram uns homens e me levaram na polícia. Quando me levaram de volta para casa, o meu pai me bateu de novo e começaram mais brigas. Eu fui para o Centro [de São Paulo] para ninguém me achar. Aí eu fiquei na Praça da República e na Praça da Sé, e tomava banho no chafariz da Praça da Sé.
(00:07:42) P1 - Você estudou ao longo desse período?
(00:07:46) R - Depois que eu saí da rua, eu consegui entrar numa escola. Mas eu não saí da rua do dia para noite, eu saía e voltava. Até que teve um momento que eu firmei, e foi quando eu fui em uma escola e falei que tinha feito até a terceira série. Lá eles me deram uma prova e se eu conseguisse ir bem, eu ia para a quinta série, porque não tinha terceira série. Fiz a prova, entrei na quinta série e fui estudando. Mas não foi uma coisa seguida, eu abandonava e voltava porque não tinha lugar para morar e uma série de coisas aconteciam.
(00:08:34) P1 - Você ainda estava vivendo sozinha?
(00:08:40) R - Eu sempre vivi sozinha.
(00:08:42) P1 - Como foram essas transições, a organização para estudar, e quando você sente que conseguiu ter estabilidade?
(00:09:02) R - Quando adolescente, eu morei em vagas, um lugar clandestino, onde ficam só moças. Você paga pela cama e divide a cozinha. Se você tem o dinheiro, você consegue alugar.
Uma vez eu consegui um emprego e falaram para mim que tinha uma moça, a Eroildes, que morava sozinha. Era em um quarto, tinha que descer as escadas para lavar louça e usar o banheiro, e ela não conseguia pagar sozinha e eu dividia o quarto com ela. Mas ela arrumou um namorado que morava na [Avenida] Nove de Julho, o rapaz tinha um apartamento e eles se casaram. Ela me avisou que ia embora e que eu tinha que dar o dinheiro do depósito para ficar no cômodo, ou ela tinha que entregar o cômodo. Eu consegui o dinheiro do depósito e fiquei. Aí foi quando eu pensei “acho que não volta mais para a rua”. E eu não voltei mais para a rua. Beirou dia 12 de março [de 2026], balançou, mas não voltei.
(00:10:30) P1 - Nessa época, você morava em qual região?
(00:10:32) R - No Brás.
(00:10:33) P1 - Você se lembra mais ou menos da sua idade?
(00:10:38) R - Isso foi em 1992 ou 1993. Eu tinha entre 18 e 19 anos.
(00:10:44) P1 - Qual foi o seu primeiro trabalho?
(00:10:51) R - Eu trabalhei como ajudante de biscoiteiro na Abaeté. Nessa época eu fui morar com a minha irmã, mas ela também brigava muito e bebia. E eu tinha um sonho de estudar e ela não deixava, queria que eu trabalhasse e ajudasse em casa. Então não deu certo morar na casa dela. Depois de trabalhar na Abaeté, eu comecei a comprar sandália no Brás para vender na rua. Mas quando você não tem dinheiro, não tem onde morar e precisa pagar hotel, comprar comida, o dinheiro não rende porque você gasta tudo.
(00:11:39) P1 - Com tudo isso acontecendo na sua vida, qual é a sua primeira memória relacionada ao futebol?
(00:11:49) R - A primeira memória é do meu pai, que me levou no campo onde ele jogava bola, como goleiro, acho que em Itapevi. Ele tinha bola de capotão e adorava jogos. Ele falava que a bola era tão forte que quando não prestasse mais a gente podia fazer ela de capacete. Ele cortava e colocava na cabeça.
(00:12:26) P1 - Seu pai jogava em um time de futebol de várzea?
(00:11:39) R - Provavelmente, mas eu não lembro. Eu lembro que ele me levou no campo, de ver ele jogar, eu lembro do dia dessa foto [que enviei para vocês], mas os detalhes eu não lembro.
(00:12:44) P1 - Quando o futebol passou a fazer parte da sua vida?
(00:12:52) R - Quando eu morava na rua, a gente brincava de bola e marcava para jogar. Mas eu comecei a trabalhar mesmo com futebol no campo do Aliança. Mas antes no Bola Preta, eu não tinha ligação direta com o Bola Preta, eu ficava na lateral brincando de bola e nas árvores que tinham cipós. Eu ficava pulando de uma árvore para outra, igual Tarzan. Na época, os coordenadores pediam para marcar os jogos. Hoje em dia é tudo fácil, mas antigamente você ligava e esperava uma semana ou um mês para ter resposta. Às vezes você deixava recado com o vizinho ou na empresa. Então para marcar jogo não era a facilidade que tem hoje. Eu também fazia os depósitos bancários para o pessoal, pois antigamente eram de 3 a 4 horas na fila do banco. Isso aconteceu na década de noventa.
(00:14:05) P1 - O que é o Bola Preta?
(00:14:10) R - O Bola Preta é um um espaço igual ao Aliança [Clube Aliança da Casa Verde], tinha dois ou três campos de futebol e um barzinho também. Eu queria inclusive assumir o barzinho e o campo. Mas, a Marta Suplicy [política brasileira] fez prédios no local [moradia popular], que hoje é a comunidade do Gato Preto, no Bom Retiro, e é praticamente paralelo ao Aliança.
(00:14:48) P1 - Como foi o início da sua aproximação com esse espaço?
(00:15:01) R - Eu tinha um namorado que frequentava e eu fui me envolvendo nos campos de futebol e marcando os jogos.
(00:15:13) P1 - Você jogava?
(00:15:159) R - Eu não cheguei a jogar em campo, eu só jogava bola na rua. Não sei se eu falei para você, o dia que eu marquei um jogo que eu ia jogar, teve uma confusão no campo e eu fui resolver. Quando falaram que o jogo ia começar, eu falei para arrumar outra pessoa para o gol. Isso aconteceu no Aliança faz uns dois anos. Eu estive 24 anos no campo do Aliança e no Bola Preta, mas eu nunca joguei.
(00:16:02) P1 - Antes de entrar na sua relação com o futebol de várzea, em que momento você conseguiu voltar a estudar?
(00:16:22) R - Eu consegui o trabalho, depois consegui escola, não sei de datas.A minha vida é assim: eu sei que hoje é quarta-feira porque você marcou comigo. Se você não tivesse marcado comigo, eu não sabia que era quarta-feira, porque eu trabalho de domingo a domingo. Quando eu morava na rua, eu não tinha noção de horário. Eu não sabia se tinha dormido e acordado e tinha virado o dia, ou se eu dormi e acordei e ainda era o mesmo dia. O dia para mim não importa. Neste momento, eu estou mais ou menos quando eu morava na rua. Eu quero achar um jeito para conseguir meu campo de volta. O dia é o que menos importa. Eu preciso pagar meu aluguel que vai vencer. Tudo que eu tenho é de doação, os aluguéis também. O dia, a hora, para mim é o que menos importa. Então você perguntar em qual momento para mim, eu não tenho. O que me importa são as chances. Eu tranquei a faculdade porque não consegui pagar, mas assim que tiver uma chance, eu volto para terminar.
(00:17:43) P1 - Soraia, você falou que se aproximou do universo do futebol de várzea através do Bola Preta, que fica na região do Bom Retiro, como uma espécie de articuladora. Você participava do processo de marcação do jogo e dos acertos que precisavam ser feitos. Como foi esse processo e porque é muito diferente dos de hoje?
(00:18:13) R - Antigamente para você marcar com o jogador você tinha que ligar, deixar recado, e esperar ele retornar. Dependia de outra pessoa para falar. Às vezes demorava uma semana ou até um mês para marcar. Não era fácil. Antigamente eram os coordenadores dos times que marcaram os jogos. O jogador não marcava o jogo igual acontece hoje. Por exemplo, eu sou uma pessoa que marca os jogos, aí eu vejo no Aliança e no Bola Preta os times que jogam e coloco um contra o outro. Mas hoje em dia, com o Whatsapp, o jogador quer fazer torneio e ele marca. Quem faziam os torneios eram os coordenadores, não o jogador, como hoje, mas tiraram os coordenadores de circulação. Era uma profissão que recebia de cada time, para marcar jogos o mês todo, 04 vezes na semana, mais ou menos. Hoje seria por volta de R$250,00 de cada time.
(00:19:44) P1 - Essa divisão era regional?
(00:19:46) R - Sim, Zona Norte, Zona Sul. Basicamente isso. Podia acontecer do pessoal da Zona Sul pedir para visitar a Zona Norte, para não jogar sempre no mesmo lugar, e então falava com o coordenador. Mas hoje, a Liga está pelo WhatsApp e não está legal. Antes, para você entrar na Liga você tinha que provar que trabalhava, que tinha documentação, a sua origem. E se você cometesse algo errado, a gente tinha como cobrar. Hoje, nessas Ligas não tem mais. A pessoa se apresenta como quiser e está tudo certo.
(00:20:33) P1 - E você atuava como assistente da coordenação?
(00:20:37) R - Isso, você achou a palavra correta.
(00:16:22) P1 - Fale um pouco dos seus trabalhos como assistente na coordenação dos jogos.
(00:20:44) R - Eu fazia ligação para dizer que tal dia ia ter jogo, ver se estava precisando de jogador, e às vezes eles pediam para fazer pagamento no banco. Demorava na fila do banco para depositar o dinheiro, e eles confiavam em mim. Me perguntam como eu consegui tanta coisa, e a resposta é confiança. Às vezes a pessoa precisa de uma pessoa de confiança e não tem. Para você ter noção, tinha um moço cego que vendia ficha telefônica, e eu precisava marcar os jogos, mas não tinha dinheiro. Eu pedi pelo amor de Deus para o moço vender uma cartela de ficha fiada que eu ia pagar, e ele aceitou. Eu peguei a ficha, vendi, marquei os jogos, recebi o dinheiro, e voltei para pagar ele. Depois eu sempre pegava a ficha com ele, com dinheiro e sem dinheiro, mas sempre pagava.
(00:21:44) P1 - Você se lembra mais ou menos quanto tempo ficou fazendo esse trabalho?
(00:21:50) R - Não, mas foi por alguns anos, até encerrar o Bola Preta. Eu não lembro quando encerrou, porque quando começou esse processo de que ia sair do espaço, eu me afastei.
(00:22:03) P1 - Você falou que foi durante o governo da Marta Suplicy?
(00:22:06) R - Isso. Eu me afastei antes, não lembro quando exatamente. Eu lembro que me ligaram ou me falaram para eu ir no Bola Preta porque, de madrugada, chegaram com o trator e furaram o campo. Eu disse que não tinha mais o que fazer lá. Foi igual o Aliança, todo furado, não tem mais o que fazer. Eles que montem o que quiserem. E é assim que está.
(00:22:32) P1 - Depois desse período que você trabalhou na coordenação dos jogos, no Bola Preta, e saiu um pouco antes da demolição do campo, o que você foi fazer? Se manteve ligada ao futebol de várzea?
(00:22:47) R - Eu aluguei uma casa grande que tinha vários cômodos e sublocava para homens. Eu lavava as roupas deles e fazia almoço e jantar para eles. Eles trabalhavam e eu deixava a marmita pronta para quando saíssem para trabalhar. Nessa época eu era casada, com uma pessoa muito agressiva, a gente acabou se separando.
(00:23:24) P1 - Quando você se reaproxima do campo, no Aliança?
(00:23:38) R - Foi pouco tempo. O Aliança estava meio abandonado, e as pessoas que estavam lá não tinham noção do que era uma várzea.
(00:23:48) P1 - Você já conhecia o campo?
(00:23:50) R - Não. O seu Valter e o seu Lázaro, que me conheciam, sabiam que antes eu queria ter o Bola Preta. Eu até cheguei a pedir para o Bingo, que era o responsável, vender o bar para mim, que com o trabalho eu pagava, mas ele queria o dinheiro. Eu ficava pensando o que ia fazer no campo, como cercar, igual eu fiz no Aliança. Mas, voltando para o Aliança, o Valter responsável pela Liga e outras pessoas falaram que tinha um campo que era a minha cara, que eu tinha que ir até lá. A princípio era um bar, na verdade um quadradinho sem azulejo todo de bloco. Eu fui e fiquei e ele falou para pagar um valor. Eu pedi uma ajuda de R$500 a um delegado, conhecido meu, para abrir o bar. Ele falou para no dia seguinte, às 7h00, eu pegar o cheque com a Regina, a mulher dele. Mas tinha que ser às 7h00, e se chegasse às 7h01 não me daria o cheque. Cheguei às 7h00, peguei o cheque com a mulher dele e peguei o bar.
(00:25:23) P1 - Você lembra quando foi que assumiu o Aliança?
(00:25:25) R - Foi em 2002.
(00:25:32) P1 - Você pode dizer como foi a sua primeira ida ao campo para conhecer, e qual sensação você teve na saída?
(00:25:40) R - Eu senti que eu ia fazer aquele lugar florir. Era tudo o que eu queria fazer no Bola Preta, e não consegui, mas no Aliança eu ia fazer.
(00:25:47) P1 - Já existia aquela disposição de seis campos?
(00:25:52) R - Eram seis campos. Só que no Aliança era muito mato. Onde era a minha casa, o parquinho na frente e a lateral era tudo mato, não era tão limpinho como está hoje.
(00:26:11) P1 - O Aliança já existia?
(00:26:15) R - O time já existia, o seu Leonardo fundou.
(00:26:18) P1 - Quem é o seu Leonardo?
(00:26:20) R - O seu Leonardo é do Paraná também. Ele faz aniversário na mesma época que eu, dia 29 de julho. Um homem chucro, difícil de lidar e machista. Não aceitava mulher, pessoas pretas e de cor. Foi muito difícil trabalhar com ele. Como o pessoal estava jogando entulho no campo do Aliança, ele conversou com o pessoal da Aeronáutica que não ia deixar ninguém jogar entulho e que ia tomar conta do campo. E assim foi feito. Antes, Seu Leonardo foi presidente do campo do Paulista, depois ele foi para o Aliança. E quem começou no Aliança foi um time chamado Vasquinho, que eu nem sei se existe ainda. Era um campinho que ele fez, só que como era muito difícil o pessoal abandonou. Quando seu Leonardo adoeceu, eu finalizei, cerquei e arrumei um monte de coisa, como o vestiário e o parquinho.
(00:27:36) P1 - Então de alguma forma, você sucedeu o seu Leonardo na direção do clube?
(00:27:43) R - Isso, mesmo ele não aceitando.
(00:27:45) P1 - Ele ainda continuou atuando e interferindo?
(00:27:49) R - Sim, por pouco tempo. Depois ele ia só para brigar, porque a gente levava gente para o campo. Eu falava que era para isso mesmo, para trazer gente, se não, como eu ia pagar as contas? Ele era muito difícil.
(00:28:07) P1 - Nesse momento que você está conhecendo o universo da várzea, desde o Bola Preta, como você sentia o olhar para as mulheres neste ambiente?
(00:28:28) R - Mulheres não eram bem-vindas, pelo menos não no campo do Aliança. Eu fui bem recebida, mas com interesse. Me receberam bem para eu obedecer o que eles pediam. Mas eles viram que não seria assim comigo. Eu me sentia mal quando o seu Leonardo maltratava e xingava as mulheres e as crianças com nomes feios. Ele falava: “ O que essas galinhas vem fazer aqui”? Isso me fazia mal, pois era um lugar que devia receber bem e acolher as mulheres. Teve um dia que teve uma briga muito feia, com muito sangue. Inclusive não teve morte porque eu interferi. Eu falei para o seu Leonardo, que isso aconteceu porque não tinha mulher nem criança. Se a namorada, mulher ou filho do rapaz estivesse aqui, ele não ia fazer o que ele fez. Depois dessa briga, ele começou a aceitar mais o que eu falava.
(00:29:40) P1 - Isso aconteceu durante um jogo?
(00:29:45) R - Foi durante um festival mal organizado. Quando o Valdir, diretor do Aliança, estava fazendo eu falei para ele que o jogo não ia dar certo, mas ele disse que eu não sabia de nada.
(00:29:58) P1 - Não ia dar certo por causa da rivalidade dos times?
(00:30:02) R - Sim. Uma vez teve um time, o Bahia, que queria jogar no meu campo com outro time que eu tenho lá, mas que eu não lembro o nome. Falaram que o time ia fazer churrasco e dar muito dinheiro para gente. Mas eu disse não. Eu acho que eles conseguiram fazer o jogo em Pirituba. Aconteceu a mesma coisa, quase teve morte. O diretor de lá conseguiu interferir. Porque é rivalidade, não futebol. Quando a pessoa começa a insistir muito, a gente sente a maldade. Esses times não podem jogar, porque a gente não consegue segurar. Aí no final da briga no Aliança eu falei para ele que eu tinha avisado que não ia dar certo, e que eu podia ter deixado matar o cara. Por isso que, depois, eu falei para o seu Leonardo, que se tivesse mulher no campo isso não teria acontecido e que o Valdir não sabia fazer festival e que da próxima vez que ele fizesse eu não abriria o bar. Ele tinha que me escutar ou não fazia o festival, porque tem que saber fazer. Você tem que conhecer os times, não só chegar e fazer. Você tem que saber quem está contra quem. Tem time que está louco para se encontrar mas não para jogar futebol. Eles vão se bater até chegar nos finalmentes.
(00:32:04) P1 - Acho que você está também se referindo a uma várzea diferente da atual. Pode descrever essa várzea que você conhece e onde você começou a atuar como dirigente, no final dos anos noventa e na primeira década dos anos dois mil?
(00:32:50) R - O seu Leonardo começou a aceitar mais as pessoas e sobre a marcação de jogos é basicamente a mesma coisa, só que um pouquinho mais rápido. A gente continua ligando e marcando, só que hoje a resposta é quase imediata. No máximo você espera até à noite para saber e marcar. Quando seu Leonardo me deu mais liberdade e reconheceu o meu trabalho, eu comecei a fazer evento, forró, e samba para atrair mais pessoas, e ter um ambiente mais familiar. Também cortei o mato e cerquei o parquinho, comprei brinquedos: gira-gira, balanço e escorregador. Não lembro exatamente quando foi, mas quando eu assumi fui movimentando o espaço. Onde era o parquinho, antes, tinha mato e as mulheres tinham medo de subir lá. Cortei tudo com facão, usei uma pá e criou uma bolha na minha mão, mas eu estourei e arranquei a pele. No outro dia para preparar o lanche, eu coloquei luva, mas queimava muito. Mas pelo menos eu arranquei o mato. Quando minha mão melhorou, eu tirava sempre um pouquinho mais do mato. No campo era muito morro, por causa do entulho. Depois eu fui adquirindo recursos e contratei um trator para dar uma arrumadinha. Coloquei também bexiga, comprei planta e pedi também doação para as pessoas. Plantei bastante árvores.
(00:35:02) P1 - Quais eram os times que mais jogavam e tinham como sede o campo?
(00:35:08) R - Tinha o Bahia, o Estrela da Casa Verde, Nove de Julho, Guanabara, tem muitos times que não existem mais. Acho que o Guanabara não existe mais. O Rua F, eu sou a mãe do Rua F, eu que montei o time. Os meninos tinham vontade de ter um time chamado Rua F, e foram me pedir ajuda, porque eles não achavam fácil. Eu disse que eles iam jogar um determinado tempo aqui [no Aliança] e eu ia custear o campo e a cerveja, mas eles tinham que ser firmes. E o Rua F, hoje, é um time muito forte na várzea.
(00:36:00) P1 - Você sabe quando o time foi formado?
(00:36:04) R - No dia 10 de junho [de 2026] completou 10 anos, eu vi que eles fizeram um post sobre isso.
(00:36:10) P1 - Eles continuam jogando em outros campos?
(00:36:12) R - Eles estão agora alugando o campo da SADE [na Casa Verde em São Paulo], cresceram muito e tem uma torcida gigantesca. É um time que você tem que pensar, se for fazer um festival, com quem você vai colocar para jogar. Não é qualquer time que pega eles não.
(00:36:33) P1 - Soraia, nesse momento em que você organizou melhor o espaço e estava com mais autonomia, como era a relação com os outros campos do complexo do Campo de Marte?
(00:36:45) R - Com os jogadores, os de casa ou passageiros, era tudo bem, mas os dirigentes nunca me aceitaram. Eles me aceitaram, no início, pois acharam que podia me colocar cabresto. O dia que eles viram que não conseguiam, passaram a me ofender, me ameaçar e falar que eu tinha que ir embora.
(00:37:18) P1 - Você diria que essa rejeição tem muito a ver também com o fato de você ser uma dirigente mulher e tentar trazer outros públicos?
(00:37:28) R - Sim, por eu ser uma dirigente mulher, e fazer um trabalho fantástico lá. Eu mesma fazia as comidas e vendia. Já cheguei a ter um público de 4.000 pessoas e a gente não estava esperando. Isso aconteceu quando eu levei um grupo musical de forró, mas eu não lembro o nome agora. O pessoal achava que o grupo não ia aparecer, porque o show era muito caro. Mas eu esperei o grupo fazer um show perto e pedi para ele dar um pulinho, no campo, mas cobrar baratinho. Aí chegou muita gente esperando ele, e ele foi. Ficou uma hora, mas foi. Esse foi o dia que teve mais gente. Lotou muito.
(00:38:51) P1 - Como foi para você ver tanta gente indo para aquele espaço?
(00:38:57) R - É gratificante. Eu sempre quis e antes mesmo dessas 4 mil pessoas, já ia bastante gente lá, umas mil pessoas. Eu tenho foto no Facebook dessa época. Na pandemia caiu muito, mas sempre foi lotado. Mas esse dia aí eu agradeci a Deus, porque era o que eu esperava e consegui. Eu esperava que fosse bastante gente, mas não esse tanto. Tinta tanta gente e eu consegui dominar o pessoal. Fazer isso não é para qualquer pessoa. Nesse dia eles achavam que o músico não ia aparecer e queriam o dinheiro de volta. Eu não sabia se realmente a pessoa tinha pagado, mas devolvi o dinheiro para quem pediu. E, honrei. Falei que ia levar e levei. Eu acho que é 100 Parêa o nome do grupo de música. Mas para ser sincera, eu fiquei com medo que o grupo não fosse.
(00:40:26) P1 - Uma coisa importante no futebol de várzea é o bar e a sede do clube. Você pode contar um pouco como foi essa montagem do bar e qual era a importância dele para o clube?
(00:40:45) R - Quando eu cheguei no clube era tudo de tijolo e tinha barata. Eu fui limpando, colocando as coisas e arrumando tudo bonitinho. Eu comecei vendendo cerveja em uma caixa de isopor. Eu comprava um engradado, vendia e depois comprava outro. Fui pedir para a Brahma um freezer, e ela disse que eu não tinha condições. Perguntei qual era a meta, eles disseram. E eu bati a meta. Falei que ia vender cinco e vendi 80 na semana. Aí a Brahma mandou mais freezer. E quando chegou o freezer, foi bonito, tinha o pessoal sentado porque era sábado, eles se levantaram e começaram a aplaudir e falar: “Ela merece!”. E eu não estava esperando.
Eu comecei a comprar os salgados, mas às vezes chegava estragado. Reclamei com o fornecedor e ele disse que eu que não sabia cuidar direito. Mas eu fiz tudo direito. Eu perdi o dinheiro e o salgado. Então eu fui fazer um curso de salgadeira e passei a fabricar os meus próprios salgados. Se tivesse algum problema, eu sabia a origem, mas eu cuidava bem direitinho. Eu fazia também comida, fazia churrasco. Comprei uma estufa de dois andares e colocava frango assado, carne cozida e vários peixes. E na cozinha eu fazia arroz, feijão e salada, tipo prato feito, e a pessoa escolhia a carne que ela queria da estufa. Vendia bastante. Teve uma época que eu fazia churrasco de frango assado, vinagrete, arroz e farofa e vendia muito também. Até antes de fechar o bar eu fazia isso.
(00:43:17) P1 - O clube ficava aberto todos os dias?
(00:43:20) R - Não, apenas sábado, domingo e feriado. Os garçons e os taxistas do restaurante Rubaiyat, que jogam no campo quando estão de folga, então quando pedem para abrir a gente abre. E tem alguns eventos que a gente também abre. Por exemplo, todo final de ano chega uma escola dos Estados Unidos e vai almoçar comigo no clube. Quero conseguir alguma coisa [um outro campo] nesse ano também para trazer eles para a gente almoçar.
(00:43:53) P2 - Você disse que chegou no clube pelo bar, mas você podia ter um bar em outros lugares. Você também se envolveu com o futebol, com a direção do clube, em um espaço desafiador para as mulheres. O que você acha que pode ter despertado esse interesse?
(00:44:25) R - Eu sempre quis um bar num campo de futebol, porque a gente pode receber muitas pessoas. Eu também queria montar um time com crianças e com mulheres, e consegui. Eu cheguei a mandar jogadores brasileiros renomados para o mundo, jogadores que hoje ganham milhões. Fiz um trabalho que se eu morrer agora, eu posso dizer que eu fiz meu papel, o meu nome. Tem jogadores que eu vejo hoje na televisão e vejo meu dedinho na história dele. Isso é gratificante.
(00:45:17) P1 - Soraia, em que momento você percebe, que o campo do Aliança, vai se tornar um espaço ocupado por mulheres, e se tornar uma referência também do futebol feminino de várzea?
(00:45:42) R - Isso aconteceu logo depois da briga que eu contei. Eu comecei a ver a possibilidade das mulheres jogarem no campo, conheci a Aira [Aira Bonfim, historiadora e pesquisadora brasileira]. Depois teve o maior festival feminino de várzea, que foi fundado pela Maria Amorim [educadora social, ativista].
(00:46:11) P1 - Você lembra qual foi o primeiro time feminino que jogou?
(00:46:15) R - Não, eram vários times. Lembro do Juventude e PS9. Eles vinham de vários lugares e tinha time indígena também.
(00:46:46) P1 - Como foi organizar esse evento com a Maria Amorim, que acho que foi em 2018 ou 2019, e que reuniu os times de futebol de várzea de toda a grande São Paulo?
(00:47:33) R - A Maria Amorim tem muitos contatos, assim como a historiadora Aira Bonfim. Tem uma liga de futebol com mais de 150 equipes, e outras ligas. A gente começou a chamar as ligas divulgando pelo Facebook e conseguimos quase 800 mulheres. Foi um dia muito lindo, e com muita chuva. Foram as emissoras de TV Record, Globo e SBT e várias jogadoras famosas. Saiu uma matéria na Record, que com a chuva a bola sumia no mato e a gente tinha que ir buscar para voltar a jogar.
(00:48:18) P1 - Hoje, a gente tem muito campo sintético. Mas o Aliança era um campo de terrão, da várzea tradicional e legítimo. Fale um pouco mais sobre essas características.
(00:48:45) R - O futebol de várzea surgiu quando as pessoas da comunidade não tinham como jogar bola. Elas não tinham acesso aos campos bons, e jogavam na beira da várzea que tinha um espaço aberto e normalmente era na beira do rio. O campo do Aliança fica no meio de dois rios. Ele é um terrão legítimo. Era né, infelizmente mataram os rios.
(00:49:20) P1 - O campo do Aliança, ligado ao complexo do campo de Marte, é historicamente um lugar de disputas políticas, e isso culminou no atual projeto do parque e envolve quase todos os campos que vão deixar de existir do jeito que existem hoje. Quando você percebeu que havia uma ameaça real de desaparecer interferindo diretamente na sua rotina?
(00:50:00) R - Eu sempre senti desde quando eu cheguei no futebol de várzea. Aconteceu na época do Dória [João Dória, ex-governador e ex-prefeito de São Paulo], e outros vários prefeitos falaram que ia mudar o espaço. Depois que o Bolsonaro [Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil] fez um acordo com a aeronáutica para pagar uma dívida, eu percebi que o campo Aliança ia acabar mesmo. Eu tinha certeza que ia acabar, porque nesse momento já tinha sido passado literalmente para a prefeitura.
(00:50:34) P1 - Houve muita mobilização para tentar reverter este processo. Como a resistência se articulou para tentar preservar o campo?
(00:50:48) R - Teve o vídeo da Bruna [Bruna Linzmeyer, atriz brasileira e ativista dos movimentos feminista e LGBTQIA+] fez. O pessoal até perguntou se eu queria que a favela se mobilizasse. Eu não achei legal, achei que não deveríamos fazer isso, porque a gente acaba ficando mal visto. E a proposta do Aliança não é fazer bagunça. Quando você chama muita gente, você perde o controle, porque você não sabe quem vem, nem o que o outro pode fazer. Às vezes é melhor não pedir muita ajuda para muita gente. Eu preferi mais contar com a imprensa, com os historiadores e com pessoas que sabem da minha história, como a Aira Bonfim que acompanha a minha história há muitos anos. Esse foi o meu propósito. Fazer baderna e bagunça nunca foi o propósito da Soraia e do Aliança.
(00:51:51) P1 - Nesse período o espaço foi se tornando mais uma referência para mulheres e para pessoas LGBTQIA+. Como foi acompanhar também essa mudança, de um público cada vez mais plural com a comunidade dos times, tendo o espaço do Aliança como referência?
(00:52:17) R - Eu me senti muito feliz, é um sonho meu se realizando. No Aliança, tinha o banheiro das mulheres e dos homens. Mas tinham umas moças que jogavam e que não ficavam bem nem no banheiro das mulheres e nem no banheiro dos homens. Assim como tinham os rapazes na mesma situação, não dava lá nem cá. Então, eu fiz um banheiro que eu chamava de “Vai quem quer”. Para uma mulher trans entrar no banheiro masculino, é constrangedor. Então eu ficava feliz, muito lindo mesmo.
(00:53:10) P1 - A partir de um determinado momento, por conta de uma conjuntura do governo, transferiu-se a responsabilidade do complexo para a prefeitura. Você já percebia que ali era uma situação irreversível. Como foi lidar com a sensação constante de que aquilo que você estava construindo e estava crescendo, podia desaparecer a qualquer momento?
(00:53:43) R - Para ser sincera, eu agradeci todo o tempo a Deus, porque eu tive a oportunidade de estar todos esses anos no campo. Fiz muita amizade e consegui formar muitos atletas, como eu falei, não para o Brasil, mas para o mundo. Mas fiquei triste por um espaço que acabaria. E espero que eu consiga um campo novamente para continuar o meu trabalho, continuar com as mulheres, com as crianças, como eu sempre fiz.
(00:54:16) P1 - Você pode falar quem são as atletas que cresceram?
(00:54:20) R - Eu não gostaria de falar. Não faço nada querendo nada de ninguém, mas fiquei sentida com a falta de reconhecimento em alguns momentos por parte de pessoas que pegaram na minha mão e me pediram ajuda, e eu ajudei, e nunca recebi ao menos uma ligação.
(00:55:30) P1 - Soraia, além de tudo o que você fez para o futebol, o espaço do bar, que atraía tantas pessoas, de onde você tirava o seu sustento e era também a sua casa. Como você lidou com tudo isso?
(00:56:03) R - Era a minha casa. Quando eu morava na rua, eu dormia em um lugar que está fechado hoje, mas tinham um parquinho e uma casinha, e eu dormia nessa casinha. Durante o dia eu jogava bola e teve um dia que eu levantei cedo, que eu coloquei a mão na cintura e pensei: já pensou eu morando num campo de futebol? Eu já estava prevendo que eu ia morar em um campo de futebol. E lá [no Aliança] era muito bom, porque tem muitos bichos, tem picapa-apau, arara, tucano e macaco. Um dia eu estava dormindo e os macaquinhos estavam mexendo na cozinha. Tem lagarto também, eu colocava almoço para eles. Hoje eu não sei se tem gente dando comida para eles, provavelmente não. Todo mundo ia comer em casa. Era muito bom.
(00:57:07) P1 - Como está sendo a reorganização da sua vida ao ver um espaço que era seu local de trabalho e a sua casa serem demolidos?
(00:57:37) R - Eu estou com a mesma sensação de quando eu morava na rua. Como eu disse antes, hoje, o dia e a hora para mim pouco importa. Hoje eu sei que é quarta-feira porque você marcou comigo. Eu quero me recuperar. Quando você está machucada por fora, todo mundo vê, mas quando você está machucada por dentro, ninguém vê.
(00:58:18) P1 - É um momento muito difícil, você já mencionou alguns apoios, mas eu gostaria que você falasse o que está te ajudando a se reorganizar nesse momento, e até vislumbra poder retomar essa história.
(00:58:40) R - Tem pessoas me ajudando. A Priscila [dona da Casa onde Soraia estava morando no momento da entrevista] me ajudou muito. Eu tenho um áudio dela falando, quando eu não tinha para onde ir, para eu colocar o colchão na casa dela para mim e minha filha dormirem. Eu não tinha nada, foi do nada que apareceu essa oportunidade. Então são pessoas que estão me ajudando. Tem a historiadora Aira Bonfim. Eu estou trabalhando no Carrefour e fui muito bem recebida pelo pessoal de lá.
(00:59:07) P1 - A sua casa hoje é muito perto do campo. Como você se sente em estar tão próxima, mas ao mesmo tempo tão longe?
(00:59:20) R - Aos sábados eu vou tomar café no campo e levo a Kiara, minha cachorra. A gente assiste um pouquinho de futebol, toma café, volta para casa e depois eu vou trabalhar.
(00:59:40) P1 - E a Vitória [neta de Soraia] também joga?
(00:59:42) R - A Vitória é bailarina. Ela jogou apenas na escola. Mas não tenho nenhuma foto para mostrar para vocês, por regras da comunicação da escola. Ela nunca jogou na várzea, ela é bem ocupada com outras coisas.
(01:00:00) P1 - Soraia, qual você acha que foi o jogo ou o evento mais significativo que você viveu no futebol de várzea?
(01:00:14) R - O melhor momento para mim é o hoje, é o agora, mas todos são eventos importantes para mim. Não tem um mais ou menos.
(01:00:25) P1 - Qual foi a experiência mais desafiadora que você viveu nessa trajetória de dirigente de campo?
(01:00:33) R - Foi o preconceito, como mulher, foi difícil o tempo todo. Tirava um e aparecia outro…isso não foi bom.
(01:00:59) P1 - Quais os principais valores você aprendeu nessa vivência no universo da várzea?
(01:01:08) R - Eu aprendi a me controlar mais, porque eu era muito brava. Aprendi a fazer meus salgados, fazer minhas coisas. E aprimorei os conhecimentos que eu tinha lá atrás.
(01:01:37) P1 - O futebol proporcionou contato com a diversidade. Quanto isso foi mudando você?
(01:01:47) R - Isso eu não sei responder.
(01:01:56) P1 - A gente pensa no universo da várzea com muitas histórias e imagino que você deva ter visto muitas situações, até contou algumas aqui. Tem alguma história curiosa que você viveu na várzea, seja no bar ou acompanhando um jogo, e queria contar?
(01:02:21) R - Não me lembro agora.
(01:02:27) P1 - Como está sendo o seu dia a dia?
(01:02:39) R - Eu acordo de manhã, arrumo minha casa, converso com o meu cachorro ou limpo a casa. Às vezes eu saio com meu cachorro, às vezes não, e depois eu vou trabalhar. Eu trabalho até às 22h00 e chego aqui às 23h00. Tomo banho e durmo e no outro dia é o mesmo processo. Ainda fico procurando no telefone para ver e marcar jogos. Eu não marco jogos, mas participo de conversas, inclusive acompanho o trabalho da Aira Bonfim, que fala sobre mulheres.
(01:03:23) P1 - Nesse momento que você está sem clube, de alguma forma se mantém ligada ou atuando na várzea?
(01:03:34) R - Eu estou visitando alguns campos para ver se eu consigo receber e fazer almoço para os estudantes da escola que vem dos Estados Unidos que eu falei antes. Eu tenho uma história e a várzea não pode morrer. Enquanto eu viver e eu puder falar da várzea eu vou porque é importante.
(01:04:01) P1 - Como foi a aproximação com esse grupo de estudantes que você tem recebido anualmente?
(01:04:05) R - Acho que alguém falou de mim para eles, aí eles me procuram e conheceram o meu campo, a minha história e outros campos. Todo ano vem alunos diferentes.
(01:04:22) P1 - Como você se sente hoje, mesmo com todas essas dificuldades que você falou, sendo também uma porta-voz e referência da história do futebol de várzea?
(01:04:35) R - Eu acho que Deus me preparou para isso. Tudo que eu vivi foi como uma faculdade. Deus não escolhe os capacitados, ele capacita os escolhidos. Eu acho que tenho minha história para passar para outras pessoas ficarem fortes. Não sei se vocês conseguiram entender. Às vezes, a pessoa não está bem e quando ouve a minha história, ela fica forte. Várias pessoas que se aproximam de mim, eu consigo fortalecer contando a minha história. Eu acho que tudo isso que eu passei foi para que eu conseguisse mostrar a presença de Deus e falar para as pessoas não desistirem e irem em frente. Inclusive, até isso que eu estou passando agora, é exatamente para acontecer isso.
(01:05:30) P1 - Para a gente também é importante que você possa contar essa história. A gente quer sensibilizar as pessoas em relação à relevância do futebol de várzea e do que você construiu no futebol de várzea.
(01:05:52) R - E eles vindo, eles conversam com uma pessoa legítima. Às vezes, a pessoa veste a camiseta e vai à beira do campo e diz que é legítima, mas não é. Eu consigo pegar um campo do zero e fazer ele crescer, eu corto o mato, marco o campo, eu opero a roçadeira, eu dirijo o trator. Quem fazia as coisas todas era eu. Às vezes quando o serviço estava demais, eu contratava homens para me ajudar, mas normalmente quem fazia tudo era eu.
(01:06:28) P1 - Soraia, a gente conheceu a sua neta Vitória, você tem mais filhos?
(01:05:30) R - Eu tenho o Augusto que é barbeiro e a Amanda, que mora no Rio de Janeiro. Qualquer dia vocês deveriam ir para lá, ela tem o quiosque, o Várias Queixas, e serve peixe, lula e várias coisas para comer. Vocês vão adorar e serão muito bem recebidos. Fica na cidade de Trindade. O André faz Uber, ele fazia faculdade de Direito, mas por enquanto, parou o curso. Aí tem a Vitória que é minha neta, filha da Amanda. Ela está comigo porque a gente conseguiu uma bolsa na escola Nossa Senhora das Dores, que é caríssima. Então não dá para a Vitória morar com a Amanda por conta dos estudos, já que lá onde ela mora a escola é bem mais cara e mais longe.
(01:07:40) P1 - Como foi para você conciliar a maternidade com todas essas responsabilidades que envolviam o futebol de várzea?
(01:07:51) R - Foi difícil. Inclusive teve uma jornalista que há muitos anos atrás foi lá no campo - acho que a Vitória tinha 8 meses - e eu tinha torresmo, ovo de codorna e um monte de coisa na estufa e ela pediu para conhecer a minha cozinha. Quando ela entrou, a Vitória estava dormindo em cima da caixa de cerveja. Ela falou: "Não acredito que eu estou vendo isso…tem um bebê dormindo em cima da caixa de cerveja”. Ela quis saber como eu fazia tudo isso. Eu respondi que eu era equilibrista. Ela se surpreendeu porque estava todo mundo sendo bem atendido lá fora, a estufa cheia, tudo bonitinho e ainda tinha bebezinho aqui dormindo. E era a Vitória. Às vezes ela dormia em cima do freezer. E foi difícil, mas eu consegui. Como eu falei, se eu morrer agora, está tranquilo, eu fiz minha parte.
(01:08:54) P1 - O que essa maternidade representa para sua vida e o que mudou em você depois que se tornou mãe?
(01:09:03) R - Eu fui para os meus filhos o que eu não tive. Eu fui mãe. Eu estive presente em todo momento da vida deles. Eu vivi para eles. Eu me abandonei…tem até um filme Agneta, que eu quero assistir, e que fala de uma mulher que se abandonou para cuidar da família. Eu me abandonei para cuidar de todo mundo, não só dos meus filhos. Os outros que eu formei também eram meus filhos, os que estão por aí, eu também cuidei. Tem os que são jogadores profissionais, mas tem outros que trabalham em diversas profissões e são pais de família, que eu não formei profissionalmente, mas formei caráter. Eu participei e fiz parte disso.
(01:10:03) P1 - Você poderia falar um pouco mais do espaço do futebol, do time, do clube, como um espaço de formação de família, parentesco e construção de vínculo.
(01:10:19) R - Meu campo é conhecido como campo de família e tem muitas pessoas que me chamam de mãe. Até brinco que me encontram na rua e me chamam sempre de mãe, mas no dia das Mães ninguém me liga. Eu sempre cuidei de todo mundo.
(01:10:43) P1 - Como você se sente nesse lugar de ser reconhecida como uma mãe ou uma pessoa que participou da formação de tantas pessoas que passaram pelo seu campo?
(01:10:55) R - É gratificante. O tempo que eu estive no campo, eu pude cuidar. Às vezes as pessoas comentam que eu não tenho dinheiro guardado. Eu não guardei dinheiro mas formei caráter, ajudei e cuidei de muitas pessoas. Guardar dinheiro para quê? Assim, eu não sei se eu deveria ter guardado dinheiro ou não. Mas acho que eu fiz o certo. Eu cuidei do campo, ele está muito lindo…estava né. Tanto é que cresceram o olho nele! Eu fiz o que tinha que ser feito. Eu acho que o dinheiro serve para você cuidar e foi bem aplicado. Não considero que eu tenha perdido.
(01:11:42) P1 - Soraia, eu queria que você falasse o que que representa o futebol de várzea na sua vida.
(01:11:52) R - O futebol de várzea é a minha vida. O futebol, o campo…é minha vida. Eu estou esperando voltar.
(01:12:05) P1 - Qual é a importância do futebol de várzea para a cidade de São Paulo?
(01:12:12) R - O futebol de várzea forma as crianças. Como eu falei, quando eu morava na rua, morar na rua é como estar na selva. Você tem que ser bravo, e na rua eu não tinha muita educação. A várzea me ensinou a ser educada e a respeitar. Eu aprendi isso na várzea. Então a várzea é muito importante para esse tipo de coisa, para as pessoas. Eu não tenho muito hábito de pentear o cabelo, porque na rua eu não penteava o cabelo. Quando vinha um jornalista, tinha sempre uma pessoa que ficava acompanhando que falava para eu pentear o cabelo. Mas, eu não tinha pente. Eu entrava em casa e pensava o que podia usar para pentear o cabelo e pegava uma escova de lavar roupa para pentear. E ela falava que sempre que vier jornalista eu tenho que pentear o cabelo, mas eu não tenho esse hábito. Foi até uma moça do Museu de Futebol que fez uma gravação e falou que não podia fazer a matéria despenteada. Mas é que na rua eu não tinha esse hábito, de escovar os dentes, pentear cabelo…e essas são coisas que a gente aprende né.
(01:13:43) P1 - Eu queria que você falasse, pensando nas próximas gerações, o que elas devem saber a respeito do futebol de várzea da cidade?
(01:14:00) R - Para não abandonar o futebol. Que o futebol educa e fortalece. O campo de terrão fortalece. Esses campos que estão surgindo agora são só bonitos. Agora o campo de terrão na várzea, te deixa você forte.
(01:14:30) P1 - Você pode explicar quais as diferenças e em que sentido o terrão fortalece?
(01:14:35) R - Porque o terrão é pesado. Você precisa de mais força. Se você treinar no terrão, você consegue jogar em qualquer campo gramado. Qualquer jogador de várzea que jogar com um menino que treina no campo gramado, ele ganha. As pernas ficam fortes, e no gramado sintético não fortalece, é só beleza.
(01:15:05) P1 - O seu campo ficava entre dois rios, era o terrão. Essa característica marca e preserva a identidade do que era o futebol de várzea?
(01:15:16) R - Exatamente. O Aliança podia ter mantido o terrão. Mesmo que mudasse tudo lá, eles podiam ter falado: “Não, o Aliança vai ficar aqui”. Seria bom.
(01:15:38) P1 - Qual mensagem você gostaria de passar para meninas e mulheres, em relação ao futebol de várzea, a partir da sua trajetória?
(01:15:58) R - Para elas treinarem, porque o futebol fortalece. Às vezes, as pessoas colocam coisas na cabeça, como por exemplo, tem gente que fala que se a mulher treinar futebol não engravida. Não é verdade. O futebol deixa o corpo bonito e ajuda a emagrecer.
(01:16:20) P1 - Até pensando no seu lugar como uma dirigente, qual é a importância das mulheres ocuparem esse lugar?
(01:16:29) R - Eu acho que a mulher vai assumir tudo. Eu acho que nessa semana teve uma mulher que assumiu a polícia em Minas Gerais. Eu acho que a mulher vai acabar assumindo muita coisa. Tem a Leila do Palmeiras, eu admiro muito o posicionamento dela. Eu espero, futuramente, que quem estiver assistindo essa entrevista fale: "Ela falou que a gente ia assumir e nós estamos assumindo mesmo". Porque eu acho que a mulher deixa tudo mais organizado, pelo menos é o meu pensamento. Ela é mais disciplinada. O homem tem muito de dar só um jeitinho. A mulher diz que tem que ser de um jeito e tem que seguir assim.
(01:17:20) P1 - Qual é o seu sonho para o futebol de várzea?
(01:17:23) R - O meu sonho é ter um campo para eu conseguir montar um time e que o prefeito reconheça o futebol feminino, como acontece com o masculino. E eu não sinto essa força, por isso gostaria que os governantes dessem mais atenção para o futebol feminino e que eu tivesse meu campo para continuar o meu trabalho que eu fiz nesses tantos anos da minha vida.
(01:18:05) P1 - O que você ainda almeja viver no campo de futebol de várzea?
(01:18:12) R - Eu antes fazia faculdade de Gastronomia, mas se eu voltar a estudar, eu vou fazer Educação Física. É muito caro a hora de um treinador. Eu já fiz tudo que eu tinha que fazer na minha vida, e gostaria de continuar formando mais atletas. Eu tendo mais conhecimento e sendo a técnica, seria bom para continuar com esse projeto. E se eu voltar à faculdade…se não…quando eu voltar, eu quero fazer Educação Física para continuar com esse projeto.
(01:18:50) P1 - Tem algo que você queria acrescentar e que eu não perguntei?
(01:19:11) R - Eu queria acrescentar, sobre o maior festival de futebol feminino no mundo que foi feito pela nossa querida Maria Amorim, e que infelizmente no complexo foi muito mal recebido pelos dirigentes, que são machistas. E eu gostaria que o nosso futebol feito por mulheres continuasse. Infelizmente os homens tentam cortar a gente, mas se Deus quiser nós vamos conseguir.
(01:19:53) P1 - Você comentou que nesse maior festival de futebol femino do mundo, participaram pelo menos 800 mulheres de vários times. O que esse dia de festival representou - mesmo nesse contexto machista, que você relatou, no complexo - para você?
(01:20:26) R - Foi uma sensação de vitória, que a gente conseguiu. Mas depois eu acho que foi só uma batalha que a gente ganhou. Quem sabe se no novo parque, a Maria Amorim não volta com o maior festival feminino do mundo, e devolver isso para as mulheres. A Maria Amorim é uma mulher muito dedicada ao esporte e às mulheres.
(01:21:01) P1 - Para finalizar, como foi esse momento de relembrar e contar a sua história?
(01:21:11) R - Foi um misto de alegria, tristeza e saudade, porque é muita história. As pessoas dizem que a minha vida é uma roda viva. Tem uma cineasta que está fazendo um filme e diz que eu sou muito rápida, ora estou aqui ora estou lá. Mas é que a gente vai tentando né. Se não dá certo em um lugar eu vou para outro. E a gente vai vivendo assim.
(01:21:42) P1 - Gostaria que você falasse sobre esse filme, que está sendo feito, e contará sobre a sua história de vida. Como está sendo esse processo de ter a sua história documentada?
(01:22:04) R - Eu fico muito feliz por vocês se interessarem pela minha história. Como eu falei, eu tenho certeza absoluta que tudo que eu passei é para que eu mostre a presença de Deus e para que eu fale que a gente é capaz de vencer. Por isso que eu acredito que meu fim não é esse. A história do filme que ela ia contar era só esse pedaço, do começo da minha história, mas no processo ela conseguiu pegar a morte de um campo. Muitas pessoas não conhecem, nunca viram, e ela conseguiu ver um campo morrer, então ela vai conseguir contar essa história no filme
— FIM DA ENTREVISTA —
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