Não me lembro bem o dia, só sei que estávamos,numa bagunça só, ainda na cama brigando, brincando
Eu e minhas irmãs, estávamos de férias escolares
Minha vó Maria estava bastante doente,por isso a mãe Dica,estava na nossa casa
A mãe Dica morava em outra cidade,era perto,mais ela raramente vinha nos ver,ela era a filha mais velha da vó Maria
Casou se muito cedo aos quinze anos já era mãe
E tinha um péssimo marido,
da mesma forma que minha avó a fez casar,ela também
a fez descasar
Eu sempre escutava minha avó comenta,o dia que cheguei em casa,e vi o safado batendo na minha filha
Ah?juntei o safado dei lhe uma boa surra e o pus portão afora
Nessa época ela ainda enxergava e era brava que só,dizia,não pus filha no mundo para apanhar de macho não
Quando minha mãe se separou,ela tinha minha irmã Cida e meu irmão João
ambos eram ainda muito
pequenos
Minha mãe quando se casou,não sabia nada da vida,e aí só enfrentou abusos e discriminação
Porque para aquela época,
ser uma mulher separada,
já era considerada mulher da vida
Pura hipocrisia,porque tinha muitas,que davam mais que chuchu na cerca,e se escondiam atrás das saias compridas
Iam a igreja,iam à missa,e davam uma de santinha,e ainda metiam,a lingua na vida dos outros
Era a vó Maria que sustentava a casa,ela trabalhava como cozinheira,quando as madames,iam oferecer
grandes jantares era ela quem organizava tudo
Mas aos poucos,foi perdendo a visão,e foi deixando de trabalhar
Ela teve glaucoma e a
doença afetou ambas as vistas eu era muito
pequena quando isso
aconteceu
Foi aí que minha mãe,foi
trabalhar em outra cidade,
como empregada doméstica,na intenção de ganhar um salário melhor
Mas que nada trabalhava muito,e ganhava muito pouco, mal dava para o sustento dela
Sem contar que pela pouca idade,e longe da minha avó,resolveu conhecer a vida
A mãe Dica também,era uma negra muito bonita,gostava de curtir
a vida,já que lhe foi...
Continuar leituraNão me lembro bem o dia, só sei que estávamos,numa bagunça só, ainda na cama brigando, brincando
Eu e minhas irmãs, estávamos de férias escolares
Minha vó Maria estava bastante doente,por isso a mãe Dica,estava na nossa casa
A mãe Dica morava em outra cidade,era perto,mais ela raramente vinha nos ver,ela era a filha mais velha da vó Maria
Casou se muito cedo aos quinze anos já era mãe
E tinha um péssimo marido,
da mesma forma que minha avó a fez casar,ela também
a fez descasar
Eu sempre escutava minha avó comenta,o dia que cheguei em casa,e vi o safado batendo na minha filha
Ah?juntei o safado dei lhe uma boa surra e o pus portão afora
Nessa época ela ainda enxergava e era brava que só,dizia,não pus filha no mundo para apanhar de macho não
Quando minha mãe se separou,ela tinha minha irmã Cida e meu irmão João
ambos eram ainda muito
pequenos
Minha mãe quando se casou,não sabia nada da vida,e aí só enfrentou abusos e discriminação
Porque para aquela época,
ser uma mulher separada,
já era considerada mulher da vida
Pura hipocrisia,porque tinha muitas,que davam mais que chuchu na cerca,e se escondiam atrás das saias compridas
Iam a igreja,iam à missa,e davam uma de santinha,e ainda metiam,a lingua na vida dos outros
Era a vó Maria que sustentava a casa,ela trabalhava como cozinheira,quando as madames,iam oferecer
grandes jantares era ela quem organizava tudo
Mas aos poucos,foi perdendo a visão,e foi deixando de trabalhar
Ela teve glaucoma e a
doença afetou ambas as vistas eu era muito
pequena quando isso
aconteceu
Foi aí que minha mãe,foi
trabalhar em outra cidade,
como empregada doméstica,na intenção de ganhar um salário melhor
Mas que nada trabalhava muito,e ganhava muito pouco, mal dava para o sustento dela
Sem contar que pela pouca idade,e longe da minha avó,resolveu conhecer a vida
A mãe Dica também,era uma negra muito bonita,gostava de curtir
a vida,já que lhe foi roubada
a infância e a mocidade
Mas infelizmente acabou conhecendo sim,tudo o que
havia de pior,em matéria de homens,passou por vários abusos
Ficou grávida várias vezes,
teve várias abortos forçados ela aprendeu,a duras penas o que era ser mulher
Filhos que sobreviveram foram oito,dos quais uma sou eu
Eu,minhas duas irmãs,e meu irmão caçula, morávamos com a vó Maria, meu irmão mais velho,ficava no orfanato
Minha tia,a filha caçula da vó Maria,morava na capital
ela era uma negra muito bonita, muito vaidosa
Quis tentar a sorte,foi trabalhar de empregada doméstica,na capital o salário era melhor
Então as moças do interior, quando surgiam a oportunidade,preferiam ir trabalhar na capital
Coitadas,acabavam sendo exploradas,porque residiam no emprego,e aí,estavam a disposição dos patrões,vinte quatro horas por dia
Bastante cômodo para os patrões,que não faziam qualquer cerimônia,para solicitar seus serviços, mesmo as coitadas
estando de folga
Mas algumas diziam,ter bons patrões,que lhes concediam folgas quinzenal
Isso era bastante irônico, porque muitas delas, acabavam ficando o dia todo no serviço, porque não tinha pra onde ir,já que tinham vindo do interior,para a capital para trabalhar
E não tinham qualquer familiar na capital
Minha tia tinha dado sorte, não tinha um excelente salário,mas ganhava bem mais,que a mãe Dica,e tinha uma boa patroa
Ela era bastante esperta, quando veio pra capital, também vieram,algumas amigas,que foram trabalhar também de doméstica,em outras casas
Mas as patroas delas,eram
parentes então
Elas mantinham contato e nas folgas elas saiam para passear pelo centro da capital
A minha vó Maria,já havia
chegado aos seus cinquenta
e oito anos,era uma senhora
muito sofrida,a vida não lhe
foi fácil
Tinha problema sério de saúde,além de ter perdido a visão
Mas ela não se deixava abater,lutou para criar as
duas filhas,sozinha foi mãe
e pai
Minhas irmãs mais velhas,
apesar da pouca idade,já
trabalhavam,eram empregadas domestica
Como eu era a menor,ficava com a vovó,e quando ela
precisava sair,era eu quem
a levava
Minha avó era linda! quando saia punha seu vestido florido de chita,todo cheio de remendos,trazida um pano branco,amarrado na cabeça,
Caminhávamos juntas,ela segurando no meu braço com seu andar cauteloso,durante as nossas caminhadas,me falava,do seu passado, contava as estórias dos nossos ancestrais,
Do quanto sofreram,e de como superaram as dores do corpo e da alma,me dizia,que eu era muito esperta,e que um dia poderia ser muito letrada
Minha avó não tinha estudo, mal sabia,assinar o nome,
mas me incentivava a estudar,dizia,se quiser ser
alguém,tem que estudar
Ah!mas as lições que com ela aprendi, não se encontram nos livros!
trazia na face as marcas
de um passado,de muito sofrimento,mas,ao mesmo tempo,sua expressão era
de mulher Forte,generosa,valente,sua voz ecoava tão forte,como o canto dos pássaros,que presos nas gaiolas,anseiam pela liberdade,
Ah!como eu ansiava por poder dar asas,às suas imaginação,aos seus sonhos tão sonhados
Nos domingos,após o almoço eu e minhas irmãs,
sentávamos no quintal,ao redor dela
E lá vinha história,cantigas
antigas,umas eram improviso,
tudo isso regada,a uma
baciada de laranja,manga
ou cana de açúcar
Ela descascava as laranjas,
cortava a cana,e nos servia,
era sua forma,de cuidar de nós
Tudo isso ela fazia,mesmo sendo cega,nunca a vi reclamar,lamentar,ou maldizer a vida
Mesmo nas horas mais difíceis,quando não tínhamos o que comer,ela agradecia a Deus
Eu era muito danada,e já dizia,estou com fome,e tenho que agradecer,
e ainda pedir perdão
E com certa rispidez,ela
dizia,vamos menina, agradeça a Deus,que ele
proverá
Eu não entendia,mas agradecia
Alguns domingos, costumávamos,ir na chácara da madrinha
Lá naquela casa de pau a pique,a diversão era garantida,minha madrinha não tinha filhos,mas tinha muitos afilhados,quando reuníamos,fazíamos a festa,
Tadinho,do padrinho,ficava com o cabelo em pé,era a criançada brincando no riacho,correndo no pasto,
espantando os cavalos,as cabras e correndo das abelhas kkkk
E eu ficava ali parada! absorta nos meus pensamentos,só observando!,
Toda criançada brincando, pelo pomar afora, pulando no riacho, subindo nas mangueiras nas jabuticabeiras nas laranjeiras,minha irmã Tereza! ah minha irmã!já estava espantando os cavalos no pasto,mas eu! estava ali, parada na porta da casa de pau a pique, Absorta,em meus pensamentos,como era lindo,ver aquelas negras!
Umas,com os seus cabelos trançados,outras com seus lenços amarrados na cabeça,com seus vestidos de chita e chinelos feito de cipó,mas tudo tinha uma certa magia
Naquela casa,de pau a pique, o bule de café o fogão de lenha,em cima da mesa,um pano alvejado branquinho,todo bordado,algumas xícaras de café e também um bolo de fubá, envolta dessa mesa com toda elegância essas senhoras negras tomavam café
De repente alguém fala ah?! neguinha vá brincar!criança não deve ficar ouvindo conversas de adulto!Mas eu,nem escutava o que as senhoras conversavam,eu apenas estava ali observando a elegância,dessas senhoras negras,segurando o pires,a xícara de café,jogando conversa fora,podia se dizer,que era uma roda de rainhas,deusas africanas, Iorubás,Bantos,Sudaneses,Jejes,Haúças todas elas, com suas características,e beleza,convivendo em plena harmonia
Minha avó ficava muito feliz
raramente ela tinha com quem conversar,mesmo sem os dentes,ela tinha um sorriso lindo
Eu,minhas irmãs e meus irmãos a chamávamos de mãe,porque foi ela quem nos criou
Ela era nosso porto seguro, mas a avó Maria estava deitadinha quieta!quieta!? Como quieta!?sempre era a primeira a acordar !nós bagunçando e ela quieta!de repente eu olhei pensei parece que a mãe morreu, Tive medo,que pensamento horrível!Tentei apagar esse pensamento,mas a Dica disse,todo esse barulho e a mãe não acordou!
Ela foi até a cama da minha avó e a chamou e não houve resposta,ela colocou a mão na minha avó,e gritou eu fiquei paralisada olhando,credo,tudo se tornou bastante distante,minha mãe Maria,estava ali seu corpo totalmente inerte,não sei dizer,quais as emoções que senti,naquele momento estava perplexa,paralisada, só sentia um grande vazio
Na minha casa,a todos instante eram pessoas entrando e saindo,vizinhos, amigos todos correram fizeram os preparativos, velaram o corpo na sala de casa,porque era assim que se fazia antigamente
Só sei que nos olhos da minha avó encontrava-se uma lágrima,que até na hora de enterrar,essa lágrima não secou
Eu imagino,o que ela deve ter sentido,porque ela sabia,que a mãe Dica não daria conta de cuidar de todos nós
Só sei que os dias passaram,nem mesmo sei como,fui parar em uma outra cidade,numa outra casa,onde tudo era tão estranho era tudo tão frio, Não sentia que ali era meu lar,senti a falta do cheiro e do afago da minha mãe Maria,sentia a falta dos meus irmãos mais velhos, que viviam,me perturbando, até disso,eu sentia falta do meu irmão mais novo,que agora já nem sabia mais onde estava
Apesar da minha pouca idade,eu,me preocupava demais com ele,porque ele era muito pequeno, só tinha nove anos
Como será que o mundo o trataria? foram tantos cuidados que a mãe Maria teve com ele e agora ele estava só
Esse meu irmão quando veio morar com a vó Maria
foi bem a contragosto, porque a Dica não sabia como evitar filhos
E nas aventuras dela, acabava ficando grávida,os
que ela conseguia abortar
tudo bem,minha avó não tinha como saber
Mas os que não,acabava indo pra casa da minha vó
aí,era minha avó que acabava criando
Quando minha avó ficou cega de vez,ela disse pra Dica que não trouxesse mais nenhum filho para
ela criar,coitado desse meu irmão caçula,ficava de casa em casa de del em del
Até o dia,que a Dica,veio na casa da vó Maria,trazendo ele nos braços,e implorou que a vó Maria ficasse com ele,porque estava muito doente
É lógico que a vó Maria, desdo dia que ele entrou portão a dentro,ela passou a cuidar dele,praticamente ele reviveu
Mas ele era bastante danado,assim que teve idade,foi para o orfanato mas vivia fugindo de lá
E a vó Maria,o acolhia com todo amor,e procurava ensinar a ele,o que era certo o que era errado
Por onde ele estaria agora?
Envolta nos meus pensamentos,ouço uma voz: era a mãe Dica que dizia,em voz de lamentação, que eram muitas bocas para ela alimentar
Que ela não tinha condições,de nos alimentar que cada um de nós, fôssemos trabalhar, porque ela tinha mais duas bocas,para alimentar
Nesse momento as lágrimas rolaram em meu rosto, disfarcei,e as enxuguei, porque se ela me pegasse chorando ainda apanhava
Como tudo isso doía,mas toda essa situação,é porque a mãe Maria já havia partido,como sentia a sua falta,mas agora,era minha vez,de sair daquela situação me refazer
Sim,pois se havia uma coisa,que aprendi com minha avó,foi, jamais abaixar a cabeça,não depender de migalhas
Bom,minhas irmãs mais velhas,embora ainda tão jovens,arrumaram um serviço na capital,e foram embora
Eu fiquei queria estudar,ser alguém,mas essa oportunidade,me foi negada,tinha que trabalhar; defender o meu sustento
A Dica arrumou uma casa para que eu fosse trabalhar,porque eu tinha que ajudar ela botar dinheiro em casa,para cuidar dos meus irmãos mais novos
Isso mesmo
Eu tinha mais dois irmãos que moravam com ela,nós não convivemos juntos,éramos em oito irmãos
Meus dois irmãos mais velhos eram irmãos por parte de mãe e pai e os outros seis éramos irmãos só por parte de mãe
Era até engraçado quando brigávamos e xingávamos os nossos pais
Eu queria estudar e ela dizia que não,ela dizia pra que? você já sabe lê já tá bom,agora você tem é que aprender a lavar,cozinhar, arrumar
Eu tinha,que ajudar a cuidar dos meus irmãos mais novos, foi difícil trabalhar como doméstica,porque com doze anos,eu não sabia fazer nada
E ela dizia sua avó,a mimou demais, agora está aí,não sabe fazer nada,vou fazer o que com você!olhava pra ela,incrédula e pensava se realmente ela era minha mãe
Eu era tomada por muitos sentimentos,as lágrimas rolavam,eu me lembrava de minha Vó,dizendo estude negrinha nesta terra negro pra ser alguém na vida tem de estudar senão vai passar o resto da vida limpando privada de branco
Eu chorava me imaginando o resto da vida limpando privada
Foi nessas condições,que também fui parar na capital, a família,para a qual minha tia trabalhava,tinham bastante posses,lá na cidade onde morei com minha avó
Mas eles residiam em São Paulo,e todas as vezes,que eles iam de férias,para a cidade do interior,eu ia para casa deles,eles tinham uma menina pequena
E as férias eles passavam na fazenda,e eu era convidada,para ir com eles para a fazenda; para fazer companhia,para a filha deles,nossa,eram dias maravilhosos,eu tinha boa cama para dormir,boa refeição
Nessa época minha avó, ainda era viva,às vezes ficava triste saudades da vó Maria, mas logo passava,me entretia nas brincadeiras,correndo pelo quintal da fazenda, brincando na piscina
Só era ruim,quando eu voltava a realidade,da minha casa,onde vivia com a vó Maria, porque lá! faltava tudo!mal tínhamos o que comer,aliás tinha dia que não tínhamos o que comer
A vó Maria dividia com a gente sem nem mesmo praguejar ou lamentar,o pouco que tinha
E ainda se desdobrava em nos dar amor e nos educar,
Me lembro,que na cozinha da minha casa,tinha o fogão de lenha,e em cima dele, sempre ficava o bule de café
Às vezes,vazio,porque,não tinha o pó de café,mas ele, ficava lá,o bule,e minha vó dizia,Deus proverá,hummm
Bem fui para a capital,na casa dessa família,onde não me faltava nada,tinha boa comida,boa cama,mas a dor
da falta do amor,da vó Maria me doía na alma,era pior que a dor da fome
Mas os dias foram se passando,Eu apenas uma menina,sem perspectiva de estudo,para realmente,me tornar,quem eu queria ser de fato
Como dizia minha avó,uma pessoa letrada,era assim que carinhosamente,ela me incentivava nos estudos
Eu sempre me lembrava, das nossas caminhadas,
e ela me dizendo,que um dia,eu seria letrada
Nesta casa,eu não ganhava um salário,digamos que eu recebia uma mesada,não era muito,mesmo porque,eu estava ali,por favor
E para retribuir,o favor,eu cuidava,brincava e ensinava a lição para a filha da patroa,enfim eu cuidava da menina
E eles,me davam,um agrado,para que eu pudesse,ter um dinheirinho, para comprar uma roupa,um sapato,eu era bastante grata,eles me tratavam bem Mas às vezes,ficava muito triste,eu ainda não me sentia segura
Um dia,eu escutei a patroa falar para minha tia,que teria que mandar,algum dinheiro para Dica,porque ela estava dizendo,que eu estava trabalhando
E que metade do meu salário,teria que ser enviado para ela,bem,não achei
ruim,pensei no meus irmãos mais novos
Nas necessidades,que eles estavam passando
Eu,apesar de tudo,vivia bem confortável,nada me faltava
Mas,com certeza,não pude mais,comprar,as minhas roupas,sapatos,ou até mesmo,conseguir meios para estudar
Incrível?como,ninguém se importava,comigo,eu era apenas uma criança,com tantos sonhos,eu dizia pra mim mesma,eu que não vou ficar o resto da vida, limpando privada não
As pessoas,apenas,me viam,como moeda de troca, e isso me revoltava,chorava escondida,baixinho,pra ninguém ver,não podia expor meus sentimentos, tinha medo,que me maltratassem
Naquela época,empregada doméstica,era explorada,e as patroas,pagavam quanto queriam,nós tínhamos horário para começar a trabalhar,mas não tínhamos horário para parar de trabalhar
Não tínhamos um teto salarial,então,era bem difícil uma empregada doméstica, conseguir juntar um dinheirinho,pra estudar ou até mesmo,pra comprar um pedaço de chão
Eu e minha tia,tínhamos bons patrões,não ganhávamos bem,mas eles eram bem generosos
O tempo foi passando, a minha tia casou-se,deixou de ser doméstica,nesse época você só deixava de ser doméstica,quando casava
Foi cuidar da casa dela, optou,por não deixar,eu ficar na casa,dos meus patrões, onde já tinha me adaptado,nem me perguntou nada Simplesmente,arrumou,uma outra casa,para que eu fosse trabalhar,mas eu continuava,sem saber fazer nada!ninguém nunca me ensinou a cozinhar,a limpar uma casa,como lavar uma roupa
Então,o que eu ia fazer na casa dos outros
Eu não sabia fazer nada!então eu era mandada embora,e aí ir embora para onde!não tinha dinheiro para voltar para casa da Dica,mas também,lá,não seria bem recebida,seria mais uma boca,para ela sustentar!eu ia embora para onde!?
Bem,foram vários dias,que passei nas ruas,vários dias sentada,no parque do Trianon em São Paulo
Já estava,com os meus quinze anos,e estava, totalmente perdida,na selva de pedra,
Sem rumo,a noite caia, chegava o dia,e eu ali sentada,via muitas crianças correndo,umas bem vestidas,outras muito espertas,e sujas
Comiam,o que as pessoas davam,e eu ali,morrendo de fome,mas não tinha coragem de pedir
Minha avó Maria,sempre nos ensinou,a não pedir nada a ninguém,e do mas eu já era grande,um dia uma delas chegou até mim e disse por que você está aí sentada vamos brincar! Perguntei a ela: cadê sua mãe!Ah! eu nunca vi, aí eu fiquei ali imaginando deve ser triste nunca ter conhecido a mãe
Mas também não sabia qual era o pior não ter conhecido a mãe,ou ter uma mãe que nem ligava, pra você
Estava triste,não quis brincar,a muito tempo,havia perdido,a vontade de brincar
Me lembrei de casa,a tardezinha,se ouvia os pássaros se aninhando
A criançada,brincando na rua,aproveitando,até a última,claridade do sol, depois,corríamos pra casa, pra,tomar banho e jantar
Na casa da vó Maria,nosso colchão era de palha,muito quentinho,dormíamos,juntas eu e minha irmã Tereza,um sono só
Às vezes,o colchão, amanhecia,molhado,humm, alguém,sonhou demais,eu costumava,ter belos sonhos, de estar brincando,e me esconder,atrás das árvores, pra fazer xixi
Sim,não podia perder tempo,e ir pra casa,pra usar o banheiro,porque,corria o risco,da vovó não deixar,eu voltar,pra brincadeira
Mas,aí,quando acordava,era sonho,não tinha árvore,só colchão molhado
Vó Maria,ralhava um pouco, mas passava rápido
É,tudo isso,estava,bem lá longe,eram,só boas lembranças,agora,tinha que crescer rápido,ficar esperta, para não ser devorada,pela selva de pedra
A garota,me deu,algumas dicas,disse, está vendo aquele prédio,lá,tem umas madames folgadas,elas
vem aqui,pega a gente,leva a gente,para casa delas,
E faz a gente trabalhar,depois,elas mandam a gente embora,e não paga nada,mas por um dia,a gente,tem onde comer e se der sorte até dormir
E dito e feito,de repente, vem uma senhora,disse
que era professora,e que precisava de alguém para trabalhar,lógico eu me ofereci
Estava com fome,precisava tomar banho,aí,quando cheguei na casa dela,ela disse: estou saindo para trabalhar,você sabe cozinhar!eu disse:sei?
Então toma café,e comece
a limpar a casa,depois,faça
o almoço
Está aqui,essas coxas de frango,para fazer,você dá uma limpada na casa eu volto para almoçar
O esposo dela,ficou o tempo todo lá,ele era até simpático e respeitador, porque hoje, imagino,o risco que eu corri, ficando,com aquele senhor, em casa sozinha
Eu,apenas uma menina,em desenvolvimento,realmente, existem,anjos protetores
Ela saiu,foi trabalhar,e eu rodei para lá,eu rodei para cá,rodei,mais que pião,eu não sabia era fazer nada, quando olhei para aquelas coxas de frango
Meu Deus,o que fazer,que desespero,só sei que taquei tudo na panela,tinha até pena kkkkkk
Quando,essa senhora chegou,ela queria me matar,Mas até que ela foi bondosa,E entendeu,que eu era,apenas,uma criança,e não sabia fazer nada
Mas,me mandou,embora, assim mesmo,e lá fui eu, outra vez,ficar sentada,lá no banco,do parque Trianon, sabe,que até que era bem seguro,ficar ali
Porque,era época da ditadura,as pessoas,tinham medo,de sair de casa,na rua,só tinha os policiais,que andavam a cavalos pela cidade
E eu,era criança,então,eles não mexiam com a gente, Não me recordo bem, quantos dias eu fiquei nessa situação,algumas coisas, estão perdidas na minha memória
Via as famílias que frequentavam o parque,e comecei a observar elas eram compostas,por pai e mãe,nossa,até então,isso nunca havia me chamado a atenção me incomodado
Os pais com seus filhos,os protegendo até de mim mesma,porque,na visão deles,eu era uma criança de rua,eu comecei a invejar aquelas crianças
Foi aí que me dei conta,e senti a falta de um pai,foi aí que percebi,que eu nunca tinha conhecido meu pai,
Me lembro,de quando entrei na escola,as crianças falavam,sobre os pais,e foi a primeira vez,e a última,que perguntei pelo meu pai,pra minha vó
Porque,ela ficou muito brava,e falou, se você está indo pra escola,pra começar me fazer,um monte de perguntas,é melhor que não vá
Hoje entendo que foi uma forma de defesa,ela era muito moralista,como ela ia me explicar,na concepção dela,que eu era filha do pecado,minha mãe engravidou do meu pai,e aí eu nasci,e acharam por bem,que ele não me conhecesse
Elas,não tinham noção,que com essa atitude,não estavam me protegendo, mas,me causando um grande mal,se ele tivesse tido a oportunidade de cuidar de mim
Talvez hoje,estaria escrevendo uma outra história,não sei,mas pelas encruzilhadas,da minha trajetória de vida Infelizmente tudo ficou no”si”
Então como existe deuses protetores,um dia andando pela praça,encontrei uma moça,que também tinha vindo do interior para trabalhar
Na mesma época,em que minha tia veio,ela me reconheceu e sabia,do paradeiro da minha tia,e das minhas irmãs,e foi aí,que alguma coisa,mudou na minha vida,porque já não estava mais tão só
Aí,me arrumaram um serviço,mas dessa vez,já falaram para a patroa,que eu,não sabia fazer nada,que teriam que me ensinar, a patroa foi logo falando,ah! vai ter comida e moradia então é tudo que eu vou oferecer
Mas foi bom,eles me tratavam bem,fiquei por ali alguns meses, não me recordo quanto tempo
Foi por lá,que acabei conhecendo,um rapaz negro bonito,o João,que me tratava,com muito respeito,tornou-se meu amigo,confidente me levava pra passear,com ele me sentia segura
Como era gostoso,ter novamente alguém que pudesse conversar,falar de mim,alguém que me desse atenção,ele se encantava, apenas com o meu sorriso me incentivava
O tempo foi passando,e nos tornamos namorados,tinha por ele grande admiração, era muito respeitador,afinal sempre me foi ensinado,que mulher direita tinha que casar virgem
Ele tinha,um problema sério, de relacionamento,com a família,coisas da idade, afinal,ele estava saindo da adolescência,e se tornando um rapaz
A família dele era composta, da mãe,padrasto,um irmão e uma irmã,dos filhos ele era o mais velho
Ele gostava muito de fazer excursões,para vários lugares,E numa dessas excursões,minha irmã Cida também foi,e acabou conhecendo o irmão dele
o Bento
Os dois começaram a namorar,E aí nossos passeios,se tornaram bem mais divertidos
Deixei,o meu emprego,e fui morar,com as minhas irmãs
Minha irmã Cida,alugou uma casa,bem simples,e fomos morar juntas,eu,ela,e a Tereza
Era tudo meio tenso,o relacionamento da Cida,
com a Tereza,era muito ruim,elas brigavam muito
eu ficava muito triste,minha avó,nos havia criado,num, ambiente,de muita harmonia
Pensei,que morando com elas,iria ter,a oportunidade de trabalhar e estudar, mais uma frustração,eu não sabia o que fazer,elas eram minhas irmãs,mais velhas,então
não as questionava
Parei de trabalhar em casa de família,e fui trabalhar em uma fábrica,onde também trabalhava meu namorado Tudo ia muito bem,até que começaram os problemas familiares
Diante de tantos conflitos,eu com as minhas irmãs,e ele com os familiares dele, resolvemos casar,duas pessoas totalmente inexperiente,e sem condições alguma
Casamos no civil,minha mãe exigiu que o casamento,também fosse feito na igreja,e como sempre,tive que arcar com todas as despesas
Eu morava na capital e ela no interior,os gastos foram altíssimos,mas tudo para satisfazê la,compensou,
pude ver a felicidade dela,
a filha casada,
De véu e grinalda,devo ter realizado o sonho dela
Foram alguns dias de conhecimento,como
marido e mulher,e foi muito decepcionante,descobrir que por ele,não tinha amor e nem desejo e sim uma grande amizade
E tornar sua esposa mulher foi muito difícil,ele Sim Me amava e me desejava ele sofria
E eu,não,entendia,ainda era muito criança,não sabia nada sobre casamento,não sabia nada de convívio,de marido e mulher
No nosso namoro,não rolava sexo,afinal sempre ouvia,que moça de família, tinha que casar virgem,mas aí,também não me,falaram
Sobre o sexo,após o casamento,foi muito tenso, após uma semana de casada,ele tirou minha virgindade a força
Fiquei,muito magoada, decepcionada,acabei vendo meu príncipe virando sapo, acabou que engravidei,
Eu não suportava,nem olhar para a cara dele
E pra piorar a situação,ele falou,que nunca quis ser pai,que nunca quis ter filhos, aí para mim foi muito mais decepcionante,começaram se,as brigas,as agressões em palavras
Vivia um verdadeiro pesadelo, meu filho nasceu,ele o assumiu como pai,mas continuavamos nas brigas,e nas agressões,eu me recusava,a ser sua esposa,não queria ser sua mulher,trazia os ferimento das suas agressões,na alma
Um dia,tomei coragem,e falei para uma amiga,que queria arrumar um serviço, eu queria,ir embora,me livrar daquela situação
Arrumei um emprego,onde aceitaram,que eu levasse o meu filho,e mais uma vez fui explorada,desta vez já sabia lavar,passar,cozinhar,limpar uma casa,mas trazia comigo meu filho,e mais uma vez a desculpa,vai ter moradia e comida,para você e seu filho, então não posso pagar um bom salário,vou ter muita despesa
Aceitei,já estava com vinte anos sozinha,desiludida, sem muitas perspectivas de vida,agora,já não era,só eu tinha um filho para criar
Que saudades da minha infância,do cheiro da chuva, molhando a terra,dos pés de laranjeira,mexeriqueiras, jabuticabeiras,do sol,que ardia forte,das chuvas torrenciais,das brincadeiras, nas enxurradas,e depois correr para casa
Naquela casa,simples pobre
eu me sentia segura, naquela casa,eu era amada
Passaram se,alguns anos, trabalhando nesta casa,a patroa,até que era boa
Já havia algum tempo,que não via as minhas irmãs,só falava com elas,pelo telefone,na casa que trabalhava,tinha uma folga no mês
Minha irmã Tereza começou a namorar um rapaz que era policial,minha avó detestava
policial,e sempre nos dizia fuja dessa raça,essa raça não presta,ela lá devia ter as suas razões
Só sei,que a Tereza,foi morar com esse moço,era
um rapaz,muito bonito,mas
não valia o pão que comia,
era muito agressivo,judiava
muito da Tereza
A Tereza coitada,sempre foi meio danada,tinha uma tendência grande,para coisas erradas,as pessoas diziam,que ela tinha,um parafuso a menos,mas na verdade,ela era,uma pessoa muito ingênua,de grande coração,aí às pessoas abusavam dela
A Tereza me contava,sobre as maldades,que o Luiz fazia com ela,eu a incentivava,a deixá lo
Mas aí ela estava grávida ir
pra onde,passaram se os meses,e aí nasceu o meu sobrinho
O Luiz renegou o filho não quis registrá lo,isso a deixou
muito amargurada,um dia,
ele chegou do trabalho,ja
era de manhã,ela perguntou se ele não ia registrar a criança,ele a agrediu,e a tocou de casa,meu sobrinho
já estava com três meses
Ela me ligou contou do ocorrido,me pediu pra ir buscar o meu sobrinho,e me disse,que aquele dia,teria sido o último dia,que ele a tinha agredido,fui buscar o meu sobrinho,ela não permitiu,que eu entrasse na casa,apenas me entregou a criança
Via se nitidamente,a tristeza em seu olhar,a vida sendo consumida,por um grande mal
Ao me entregar o filho,ela o estava protegendo,porque
ela havia matado o Luiz com sua própria arma,e disse que não iria pra cadeia, porque também iria se matar,fiquei sem chão,o que fazer,ela só me implorou,para cuidar do filho dela,fui embora com a criança nós braços,sem saber o que fazer
Fui para o meu serviço ainda atonica,me faltava chão,me faltava ar,e agora essa criança,eu já morava no serviço com o meu filho,
não tinha como ficar ali,com mais uma criança,e ainda por cima um bebê
Conversei com a patroa que
foi até bastante compreensiva,mas disse resolva tudo isso logo,não tem como,você ficar aqui com duas crianças
No dia seguinte,minha mãe
veio do interior para resolver
as coisas burocráticas,mas falou que não poderia ficar com a criança,porque ela
trabalhava,e não teria ninguém para cuidar dele
A Cida também falou que não tinha condições porque já tinha dois filhos,trabalhava e não tinha como cuidar,na verdade,das três,a que menos tinha condições era eu
Mas assumi,a responsabilidade,de criá lo
Só pedi um tempo pra minha mãe,pra que ela ficasse,com o meu filho,e com o meu sobrinho,pra que eu pudesse arrumar um serviço melhor,que eu tivesse condições,de mantê los
E através,do incentivo,de
uma amiga,com muita determinação,coragem, esperança e fé,consegui
o emprego,a muito já cobiçado por mim,onde
ganhava,seis vezes,o que
ganhava como doméstica,
Ela me disse viu amiga através das orações,da fé, determinação,tudo o que
for,para o seu bem,e dos
seus,os deuses faram chegar até você
Quando as coisas apertavam,lá estava eu,
solicitando,a proteção dos
Deuses
Após três meses de trabalho,juntei o dinheiro suficiente,arrumei uma casa,era pequena,bem humilde,mas era o que podia pagar,só tinha dois cômodos,portanto foi
fácil mobília lá
Fui para cidade da minha mãe,lá consegui registrar,
o meu sobrinho,como se fosse meu,e os trouxe para
ficar comigo,não era fácil,
trabalhar,e cuidar dos dois,
mas estava feliz,agora tinha um bom emprego
Minha casa,era alugada mas era minha,podíamos
dormir sossegados,não mais dependíamos,de favores,a empresa me oferecia até plano médico
Me lembrei,da minha avó,
que quando na nossa mesa faltava comida
Ela me pedia,para agradecer e dizia Deus proverá
Passaram se alguns anos,
na minha casa,numa reunião de amigos,conheci
um rapaz,me pareceu boa gente,eu estava muito carente,a muito tempo minha vida era trabalho,e
filhos
Começamos a namorar,ele
era muito atencioso,tratava bem os meus filhos,com o
passar do tempo,engravidei
e achamos por bem, morarmos juntos,
Ele era um bom rapaz trabalhador,nós concedia um certo conforto, não conhecia a família dele,mas também não achava muito
importante,já que estávamos juntos a algum tempo e ele sempre demonstrou carinho e respeito,inclusive pelos meus filhos
Compramos um apartamento,porque afinal,
a família,tinha aumentado
bastante,
Ele também,trabalhava, numa grande empresa,e após o nascimento do
nosso,segundo filho,ele recebeu,uma promoção
Para Ir trabalhar em outra cidade,bom tive que abrir
mão,do meu emprego,
Afinal,o salário dele,era bem
maior que o meu,mas aí me tornei,uma dona de casa
Uma mulher,totalmente dependente,do marido
fomos morar no litoral
Bem a irmã dele,também
foi morar lá,conosco,era
para ser provisório,mas esse provisório,durou tempo
suficiente,para acabar com a minha paz e com o meu
casamento
Só tive sossego,após três anos,quando ele foi transferido,para uma outra cidade,enfim,minhas preces,
foram ouvidas mais uma vez
Mas mesmo mudando,de cidade,as cicatrizes,ficaram
e não tinha como,voltarmos
a ser como antes
Nessa nova cidade,depois de estarmos todos, acomodados,pedi a separação,ele relutou, praguejou,disse que eu,não teria capacidade,de criar
Nossos filhos sozinha,sim juntando,os meus,e os deles tínhamos juntos,seis filhos
Imagina,já tinha passado,
por tanta coisa,nessa vida,
que criar seis filhos,sozinha para mim,era a menor das lições
Não foi fácil,realmente tinha
dias que chorava,pensando
que realmente,não conseguiria,mas erguia a cabeça,e seguia em frente
Me veio na minha mente
minha mãe,ela já não era mais a mesma
Passaram se os anos,ela,
assim como minha avó,
teve glaucoma e também
ficou cega
Eu,agora,me comparava a ela,com tantos filhos para criar,sozinha era muita
responsabilidade
Agora eu entendia,o desespero dela,quando
do falecimento,da minha
avó,sozinha,assumir tanta responsabilidade,
Meu Deus como a vida a maltratou,minha irmã caçula
veio morar,na mesma cidade que eu morava,
Passou algum tempo morando comigo, depois arrumou uma casa,e foi morar com minha mãe
Foi bom,poder ter minha mãe por perto,retribuir a ela
a gratidão,pela vida,pude
cuidar um pouco dela,senti
o quanto a amava,era muito
bom chamá la de mãe
E agora,eu uma pessoa adulta,enfrentando os desafios da vida,a entendia
gostava de mimá la,ela estava cega,com problema
de locomoção,porque tinha
colocada próteses na bacia,
devido ao desgaste do osso
Ela sempre foi uma pessoa,
muito ágil,gostava de sair
dançar,saborear os prazeres
da vida,trabalhava,semana
toda,mas os finais de semana,era dela e dos filhos
Depois que ficou cega,já não podia mais,ir aos bailes
mas mesmo assim,não se
deixou abater,era muito alegre,gostava de tomar a
cervejinha dela,e se divertir
com a família
Sim,a minha mãe,era pra mim,um exemplo de resiliência
Para ela compus o texto
ESSA
Seria assim,o começo de uma existência,o grito de um filho,a dor de uma Mãe, onde,nesse momento,
Inicia-se,a vida de um filho,
Inicia-se a luta de uma Mãe
ESSA,não cursou,nenhuma escola,de aprendizado,para ser Mãe
ESSA,aprendi a todo instante,a matemática,filho que pra ela,sempre será o produto certo
ESSA,para o seu filho nunca será,a equação perfeita,porque ambos caminham juntos,a faculdade da vida
Do aprendizado,de ser Mãe,e de ser filho,muitas vezes nesta prova
ESSA,Mãe tira a nota zero enquanto,para ela,o seu filho o produto perfeito,muitas vezes,não a iguala,a sua perfeição,de aprendizado
Onde,para ESSA a faculdade,nunca termina,a cada dia,são novas equações,muitas vezes, tenta dividir,outras vezes multiplicar,outras vezes somar,outras vezes subtrai, e a equação,nunca é perfeita,para o produto,
Mãe,peço-te perdão,pelas vezes que te reprovei
Mãe,lhe sou,eternamente grata,por somar esforços, por dividir o pão,por multiplicar a sabedoria,
Mãe,por subtrair,minha dor, por igualar tudo,com um sorriso,e dizer,que sou,a criação,de amor-perfeito de você minha Mãe
Depois,de certo tempo,filhos criados,encaminhados, chegou a minha vez,cuidar de mim
Voltei a estudar completei o
ensino fundamental e o médio,por questões financeiras,adiei a idéia da
faculdade
Também resolvi cuidar do meu coração
Passei a frequentar,os bailes da cidade,gostava muito de dançar,havia aprendido a dançar,com
o meu primeiro marido,
o João ele e a mãe,eram pé de valsa,e me ensinaram,a dançar,o que aprendi rapidinho
Adorava,chegar nos salões,
e ver os olhares disfarçados,me cortejando,
ali,tinha muito pouco,bom partido,aliás quase nenhum
então tudo ficava no cortejo
e na dança,ninguém me
levava a sério,e eu também
não levava ninguém a sério
Apenas me divertia,eu já era
considerada,uma senhora,
sim o tempo,havia passado
muito rápido
Eu acabei conhecendo
o nego Tony
Cavalheiro,muito simpático,
também de meia idade,
charmoso,dançava muito bem
Por onde passava,seu perfume,ficava no ar e
a mulherada a suspirar,
Nego Tony,era muito mulherengo,não valia
um vintém
E mesmo assim,Nego Tony caiu,nas minhas graças
Ele era,o tipo de parceiro,
que sempre quis,
nego de presença
Mas eu ,também,não esquentava a cabeça não, não era mulher,de botar cabresto em homem não, Deixava livre,se quiser ir que vá,se quiser ficar que fique,mas há de ter respeito
Mas foi aí que Nego Tony se enganou,começou a se achar dono da situação,e aí começou a pisar na bola
Começou a ir nos bailes sozinho,sair com os amigos
Quando eu ia,estava presente,os olhares eram diferentes,muitos cochichos e murmúrios
Nessas alturas,eu era uma mulher vivida,não era boba não,deixava me levar quando queria, mas boba,não era não
Até o dia,que me enchi,das malandragem do Nego Tony,
e pus um ponto final
Mas Nego Tony,não era homem de ser deixado para trás,falou,sapateou,usou seu charme,até que me conquistou novamente
Mas eu,tinha consciência, que Nego Tony,continuava o mesmo,mentiroso e mulherengo
Mas,como me convinha, deixei que Nego Tony,se sentisse dono da situação
Quando o telefone tocou, tarde da noite,eu já estava dormindo,tranquilamente
Atendi o telefone,muito sonolenta,quem será a essa hora?do outro lado da linha alguém me pergunta
É da residência do Sr.Antônio Cananéia, rapidamente respondi não,
e desliguei o telefone
Voltei a dormir,tinha trabalhado o dia todo,
queria descansar,para
o baile da noite seguinte
Nem mesmo,pego no sono, novamente toca o telefone
Já muito brava,atendi,
do outro lado da linha,
o cidadão pergunta
É da residência do Sr.Antônio Cananéia!não moço,e irritada, desliguei o telefone,e novamente tento
voltar a dormir
Passam-se mais alguns minutos,e o telefone
volta a tocar
Atendi já pronta para xingar
A senhora conhece o Sr. Antônio Cananéia!
Sr.Qual é o seu nome,por favor o senhor queria falar com quem?
Já é tarde da noite, sim senhora,mas é que estamos precisando falar urgente com o familiar
Do Sr. Antônio Cananéia, mas moço não conheço o Sr.Antônio Cananéia
Mas a Sra não o conhece?!
não moço,não conheço Antônio Cananéia,filho de Bento Cruz Cananéia e da Maria Antônia Cananéia! ainda meio sonolenta,mas agora com a mente mais calma,me lembrei
Antônio,sim esse era o nome do Nego Tony
Aí respondi,sim,eu o conheço,mas aqui não
é da residência dele,mas então a Sra.conhece algum familiar dele
Já nesse momento, já estava bem acordada,E aí muito preocupada perguntei,o que aconteceu com o senhor Antônio!
É urgente,ele se encontra aqui no hospital,precisamos falar com algum familiar
Me ajeitei,na cama,e fui, logo perguntando se estava vivo! senhora,não posso passar mais nenhuma informação por telefone
Precisamos,que algum familiar,venha urgente ao hospital
Senti,que realmente a situação era séria
liguei para o filho de Tony,e para tia Nega
a qual tinha mais intimidade
E fui para o hospital,ainda tentando,me refazer do
susto,fui ao encontro,dos familiares,do Nego Tony,que,já estavam todos chorando e lamentando a perda
Eu,já estava meio que, preparada para o tal ocorrido,Nego Tony não tinha saúde boa,e vivia a abusar da situação
Vez o outra,eu saia correndo com ele para o hospital,ele já era bastante conhecido
Chegava tomava os medicamentos,primeiros socorros aí,passado o susto ele se revoltava e dizia,
Vou voltar para casa,não quero ficar nesse lugar,
Eu já sabia,e até entendia a situação do Nego Tony,que já estava desenganado pelos médicos,
Passei,até, a entender
as loucuras dele,de querer viver tão intensamente,por isso não ligava,quando ele achava de dar um perdido e sair por aí
Sim,saí por aí,porque Nego Tony,morava numa cidade,e foi morrer na cidade vizinha Eita,e não é que o Nego Tony estava muito longe de casa
E não é que,na bagunça do hospital,de acertar as contas do enterro,surge lá uma moça,toda desconcertada,
Falando sobre o ocorrido,e dizendo,que o Nego Tony,estava com a mãe dela,quando passou mal
E aí a mãe,não estava presente,porque estava muito traumatizada,com o
ocorrido
Coitada da madame,com certeza tinha acreditado,nas
juras de amor,do Nego Tony o safado mulherengo
Entre um murmuro e outro, fiquei sabendo,que o safado,havia passado mal na cama da tal,e acabou indo para o hospital
Eu não sabia se tinha dó da madame,ou se xingava o Nego Tony,mas xinga pra que,o safado já estava morto mesmo
Pensei,que Deus,tenha misericórdia de sua alma,mas comecei,a pensar na situação da madame
Era muito desesperador,o indivíduo morrer,bem na hora“H”
Pensei,nossa,me livrei de uma,credo,Deus pai,já pensou se acontece comigo
Nunca mais,eu ia querer ter um homem na minha vida,
Mais uma vez fiquei muito penalizada,pela madame
Bom a família,que ia cuidar de todos os trâmites,para enterrar o nego Tony
Fui muito triste,para casa me refazer,para poder ir velar o corpo
Quando,chego,no cemitério outra,surpresa,dei de cara com a mãe,dos filhos do Nego Tony
O nome dela era Filomena, mas todos,a conhecia por Nena
Ela falava,ela gesticulava,só faltava dançar,parecia que estava feliz com a partida do Nego Tony
A tia Nega,ficou muito brava,se dizia decepcionada,com a situação da Nena,que festejava tanto,a partida do Nego Tony
Eu não a conhecia,e fiz vista grossa,para a situação e fui lá velar o corpo
Só escutava os murmúrios e as reclamações das atitudes de Nena
Que com o passar do tempo já estava bem embriaga,os filhos tentavam disfarçar, chamavam atenção,para que ela se recompusesse Mas que nada,quanto mais falava mais ela mostrava o prazer,de vê lo no caixão, Nego Tony pouco falava dela,mas eu me compadecia com a situação
Ele sempre comentava que ela bebia muito,aí eles haviam se separado,mas como ela não tinha para onde ir,ela ficou morando
na casa com eles
Na verdade,essa história não estava bem contada, porque ela teria parte na casa,com certeza
Quando,ouvi a tia Nega falar sobre
a situação de Nena,fiquei um tanto compadecida,ela contava,que na casa eram três quartos,um era do Tony, O outro do filho caçula,e o outro,do outro filho mais velho,que era casado e morava lá com a mulher
E o que restava para Nena era dormir no sofá da sala
Coitada era para ser revoltada mesmo,que situação nem os filhos a protegia
Eu a olhei mais demoradamente,e pode notar que Nena,era uma negra muito bonita
Mas trazia no olhar,as cicatrizes provocadas pelo
tempo,de muito sofrimento, de quem havia sido muito maltratada
Podia se ver,as marcas no corpo e na alma,se pudesse
contar,qual seria,a sua verdadeira história de vida
O que a teria levado,a se entregar ao alcoolismo,ela
era uma mulher guerreira
por suportar tantos abusos
Sim era visível seu sofrimento,notei o
quanto as pessoas a depreciavam até mesmo
os filhos
Ela deve ter passado uns maus bocados ao lado do
Nego Tony
Bem não arredei o
pé,aguentei firme,o tempo todo fiquei ali,ao lado do caixão
De vez em quando lá vinha
Nena já no alto da sua embriaguez a ameaçar
o defunto
Ela se dirigia ao corpo no caixão e dizia,é hoje que entrou naquele quarto,e
descubro,tudo que você
trazia trancado,a sete chaves
Comecei a notar,
o quanto,aquela família
era desajustada
O meu relacionamento,com o Nego Tony,durou,um pouco mais de dois anos
Sentia,que não dava pra levá lo a sério,e agora sabia o porquê
Senti dó,das atitudes,que
O Nego Tony,tomou em vida
e agora ali,inerte estava seu corpo totalmente indefeso,
E suas atitudes,ali sendo expostas,a quem quisesse ouvir
Nossa,que alívio,alguém entra na sala e diz que chegou a hora de enterrá lo
Para mim,soou como um bálsamo,a situação já estava,ficando bastante constrangedora
Sempre fui uma mulher, bastante discreta,e essa situação,estava expondo
também a minha pessoa,
Nego Tony era separado
judicialmente,mas Nena
na sua embriaguez,batia
no peito,e dizia que era a viúva
Em outro momento,a situação,seria até bastante cômica,mas ali a situação
Estava se tornando constrangedora para mim
Durante o enterro,foram ditas algumas palavras,por alguns amigos de Tony
Eu,já havia derramado todas as lágrimas,que convinha ao falecido
Em minhas orações,tentei interceder,pela alma do falecido,já que a viúva só sabia amaldiçoá lo,e discretamente me retirei
Não guardei luto,
afinal não me declarei
viúva,Nego Tony,era de todas,deixa que as outras
Se declarem viúva,quero nenhuma alma me perturbando não
No dia seguinte,me arrumei toda,e fui para o
baile,afogar toda minha tristeza
Sozinha na mesa,tomando
um copo de cerveja,é ali
nesse momento,que pus um ponto final a minha tristeza
Ao som da orquestra, observei o cavalheiro à minha frente,todo elegante,é aí que resolvi,virar a página,e lhe conceder a próxima dança
Muitos outros vinham me cortejar,mas ninguém era tão cara de pau como o
Nego Tony,nos bailes,não me relacionei com mais ninguém
Meus relacionamentos, foram se tornando raros
e monótonos,já não achava graça nos cortejos,nos bailes,as vezes,ia só para passar o tempo e observar
Mais uma vez retornei ao passado,lembrei da minha
avó,com muita gratidão, lembrei-me com gratidão
e saudades,da minha mãe,
das minhas irmãs,Cida e Tereza,que também,já estavam,em um outro,
plano espiritual
Estava deprimida
Lá fora o sol estava brilhando,está convidativo para passeios,visitar os amigos,jogar conversa fora
Mas aqui dentro,estava tudo muito estranho,nublado, frio,sem cor
Me encontrei,postada no sofá,ouvindo algumas músicas antigas,que me remetiam ao passado,e me traziam,lembranças de bons momentos aqui vividos
Entre essas paredes,que tinham,muitas histórias para contar,essas que apreciaram tantas alegrias, tantos amores
Tantas palavras mal ditas, em momentos de fúrias,de
raiva,mas também muitas palavras de amor,de carinho,de empoderamento Sim era assim,o meu lar, mas agora,o tempo passou,não ouço mas os risos,nem os choros,de quem,cortou dedinho,que tropeçou na calçada e caiu Que brigou com o amiguinho,e procurava um colo,um abraço para se consolar
Todos se foram,só restam as lembranças,a porta está sempre aberta,esperando que um dia quem sabe, alguém venha pra me fazer um carinho curar uma ferida
É estou sentindo um certo
vazio
É meu corpo,você realmente está cansado,já não tem o vigor da vida de outrora
Você esse meu corpo,com tantas marcas do passado, já está muito cansado,você esse meu corpo,que vem comigo de muitas caminhadas,de desilusões, realização,de fins e recomeços
Agora já caminha lentamente,entendo que fostes,muito machucado,existem cicatrizes que são nossas do corpo e da alma
Eu insisto que ainda caminhemos juntos,por mais algum tempo,sim tempo, não sei te dizer por quanto tempo ainda,isso só o tempo dirá
Sim,já te sinto bastante cansado e tento romper o limite da vida,do corpo e da alma,matéria e energia
O existir,complexo isso!?
Em que ponto a energia rompe a barreira da matéria!?
Ou a matéria rompe a barreira da
energia !?
É o Eu desistir,ou caminharmos juntos até o fim
Até o fim!?
Sim até o fim!!!
Será o seu fim o meu novo recomeço!?
Essas são incógnitas,que me fazem curvar,ao misterioso criador
Somos matéria, somos energia, somos vida !!!
Todo dia é um novo recomeço ainda não
lacraram meu caixão
Resolvi sair da monotonia
fui buscar novos desafios,
pensei,fazer novos amigos
viajar,alçar novos vôos
Voltei para as quadras das escolas de samba,algo a
muito deixado para trás,sim quando mais jovem,fui passista,em algumas escolas,mais aí trabalho,filhos, compromissos,acabei deixando esse hobby,pra lá
Mas agora podia empregar
algum tempo a esse prazer,o corpo cansado não tinha como ser passista,por isso me tornei uma linda baiana,sim sou componente da ala das baianas
Me dedico ao esporte, prático o vôlei,para melhor
idade,me tornei uma pessoa,aberta para o diálogo,e a fazer novos amigos,estou sempre ligada
no duzentos e vinte,sinto a necessidade de viver cada instante com muita sabedoria
Hoje estou num relacionamento,sem juras
Onde prevalece o companheirismo,a cumplicidade e o amor
Sinto minha alma leve
Na minha caminhada obtive a compreensão
da vida
Sigo cumprindo o desejo do criador revolução humana
Agora sou livre me dedico a escrever meus pensamentos e poesias
Poeta
Onde estás poeta ?!
Estou aqui perdida entre ruas, avenidas,carros, pessoas! ouço tudo!
Choro,risos,pássaros,água,ouço tudo!só não ouço a mim mesma
Onde estás poeta!?
Estou aqui! perdida na selva de pedra
Cianinha
Recolher