Tonico era um adolescente como qualquer outro. Embora tímido, tinha objetivos e sonhos. Nunca os dividia com os colegas da escola, esnobes, tampouco com os amigos da rua, que só se interessavam por carros e assuntos sem importância. Em segredo, anotava-os no caderno, que chamava de Baú. Sua primeira vocação, acreditava, era ser jogador de voleibol. Quando pequeno, encantara-se pelo esporte. Com os pés, nunca fora bom. Mas, com as mãos, sabia possuir habilidades. Na escolinha do clube mais próximo de casa, pedira à mãe para matriculá-lo. Assim, aos quatorze anos, três vezes por semana, era esse o compromisso às tardes.
Aos quinze, um ano após a morte do pai, ascendera ao time infantojuvenil do clube e passara a treinar diariamente, de segunda a sexta. Nos finais de semana, jogava vôlei o dia inteiro. Poucos meses depois, durante um treino, caiu de mau jeito e quebrou o punho direito. Logo que tirou o gesso, quis voltar às quadras, mas não conseguiu: no primeiro toque na bola, lacrimejou. A mão doía demais! Entendeu que precisava de fisioterapia.
Alguém – sabe-se lá quem – sugeriu a Tonico que começasse a tocar violão. Os movimentos com a mão e os dedos sem dúvida o ajudariam a se recuperar da fratura. Inspirado, disposto a qualquer coisa que amenizasse a dor e contribuísse na cura, pediu à mãe que lhe comprasse um violão. O menino sempre gostara de música, mas jamais se sentira apto a se tornar músico. Para ele, era coisa de outro mundo.
A mãe fazia de tudo pelo filho: juntos, foram à maior loja de instrumentos musicais da cidade. Era a única que conheciam. De lá, Tonico saiu com o violão que ele quis – e que se adequou ao orçamento da genitora.
Marcelo, um dos colegas de escola mais próximos de Tonico, cujo apelido era Empadinha (o menino era baixinho e rechonchudo), andava tendo aulas de violão com Magali, uma vizinha. Ao tomar conhecimento de que o amigo precisava desenvolver habilidades com o...
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Tonico era um adolescente como qualquer outro. Embora tímido, tinha objetivos e sonhos. Nunca os dividia com os colegas da escola, esnobes, tampouco com os amigos da rua, que só se interessavam por carros e assuntos sem importância. Em segredo, anotava-os no caderno, que chamava de Baú. Sua primeira vocação, acreditava, era ser jogador de voleibol. Quando pequeno, encantara-se pelo esporte. Com os pés, nunca fora bom. Mas, com as mãos, sabia possuir habilidades. Na escolinha do clube mais próximo de casa, pedira à mãe para matriculá-lo. Assim, aos quatorze anos, três vezes por semana, era esse o compromisso às tardes.
Aos quinze, um ano após a morte do pai, ascendera ao time infantojuvenil do clube e passara a treinar diariamente, de segunda a sexta. Nos finais de semana, jogava vôlei o dia inteiro. Poucos meses depois, durante um treino, caiu de mau jeito e quebrou o punho direito. Logo que tirou o gesso, quis voltar às quadras, mas não conseguiu: no primeiro toque na bola, lacrimejou. A mão doía demais! Entendeu que precisava de fisioterapia.
Alguém – sabe-se lá quem – sugeriu a Tonico que começasse a tocar violão. Os movimentos com a mão e os dedos sem dúvida o ajudariam a se recuperar da fratura. Inspirado, disposto a qualquer coisa que amenizasse a dor e contribuísse na cura, pediu à mãe que lhe comprasse um violão. O menino sempre gostara de música, mas jamais se sentira apto a se tornar músico. Para ele, era coisa de outro mundo.
A mãe fazia de tudo pelo filho: juntos, foram à maior loja de instrumentos musicais da cidade. Era a única que conheciam. De lá, Tonico saiu com o violão que ele quis – e que se adequou ao orçamento da genitora.
Marcelo, um dos colegas de escola mais próximos de Tonico, cujo apelido era Empadinha (o menino era baixinho e rechonchudo), andava tendo aulas de violão com Magali, uma vizinha. Ao tomar conhecimento de que o amigo precisava desenvolver habilidades com o instrumento, passou-lhe o telefone da moça.
Ainda que o bairro do Empadinha fosse relativamente distante de onde Tonico morava, marcar a primeira aula com Magali foi fácil: como a moça era oito anos mais velha que os garotos, estava noiva e ganhava a vida como professora particular de violão, tratou de lhe conseguir um horário, uma vez por semana. Tonico não gostava de pegar ônibus; assim, conseguiu uma capa de pano em que acondicionava o instrumento e permitia encaixá-lo às costas. Virou moleza: com o violão-mochila, a pé, ia e voltava da casa de Magali. Uma horinha de trajeto antes; outra, depois. Impedido de praticar o voleibol, Tonico, pelo menos, exercitava-se.
O método proposto por Magali era simples e funcional. De início, nada de teorias maçantes. Ela acreditava que, para que o aluno “pegasse gosto” pelo instrumento, a prática era fundamental. Sem pestanejar, ensinou ao rapaz os dedilhados e as batidas menos complexos. Ao final de cada encontro, no Caderflex que encomendara de material (além do violão, ela exigira apenas o caderno), Magali escrevia a letra de duas canções populares brasileiras e explicava sobre as tonalidades e sequências de acordes, escrevendo as cifras sobre palavras e sílabas fortes. No rodapé de cada página, carimbava os acordes. Sim, a moça mandara fazer um carimbo com as seis cordas do violão e, nele, sobre cada linha, anotava a digitação correta. Na semana seguinte, no início da aula, Tonico executava as duas músicas deixadas como exercício.
Estudar com Magali era muito fácil. Antes dela, tirar alguma sonoridade do violão parecia impossível. Após algumas semanas, Tonico já tocava várias músicas. Os dedos da mão esquerda ainda agarravam no braço do instrumento, mas a evolução, a cada semana, era notória.
O moço aprendeu rápido. Da mesma forma como acontecera no vôlei, deu-se na música: seis meses depois da primeira aula de violão, Tonico entrou para uma banda de rock como segundo guitarrista. Nem guitarra tinha, mas sobrava disposição.
A banda ensaiava no bairro de Magali e do Empadinha. Não por coincidência, claro, mas por força do destino, os fatos se concatenaram. Entre idas e vindas semanais, caminhando com o violão às costas, Tonico chamou a atenção do baterista André. Numa bela tarde, encontraram-se:
— E aí, bicho, beleza?
— Beleza!
— É a terceira vez que vejo você andando pelo bairro com o violão. Você mora por aqui?
— Hã, é… não. Eu tenho aula de violão… ali, naquele prédio.
— Com quem?
— Com a Magali.
— Ah, pode crer, sei quem é!
— Pois é, é com ela.
— Maior gata!
— Sim, verdade…
— E você já tá mandando legal no instrumento?
— Tô, quer dizer, não sei… acho que sim.
— De boa, é assim mesmo. A gente vai aprendendo.
— Você também toca?
— Sou batera.
— Pô, que massa!
— Então… é por isso mesmo que tô falando com você.
— Hum?
— É que nós tamos precisando de um guitarrista, saca?
— Ah, bacana!
— Você tem um visual legal.
— Tenho? Ué, obrigado.
— A banda se chama Herege, é a maior sonzeira! Nós ensaiamos na casa do Miguela Lee, o vocalista. O camarada mora pra lá, dois quarteirões depois da avenida.
Miguela era o apelido do Miguel. Como o rapaz era desembaraçado, escandaloso e andrógino, recebera cognome feminino. Por si só, ser chamado assim já soava perigoso. Afinal, eram meados dos anos 1980, e a homofobia no Brasil grassava. O sobrenome inventado Lee na certa seria, também, fruto do momento. Muita gente conhecida, viva ou morta, tinha Lee no nome: Rita Lee, Bruce Lee, Stan Lee, Robert E. Lee, Tommy Lee, Rickie Lee Jones, Lee Marvin, Lee Majors, Lee Van Cleef, Lee Harvey Oswald e o Seu Lee, o coreano do bairro, dono da pastelaria.
Assustado, sem saber como responder, Tonico gaguejou:
— É, e-eu… nu-num sei… tô começando a tocar agora.
— Tem erro não, bicho, nós também. Já temos um guitarrista, o Arthur. Mas tamos precisando de outro, que faça umas bases bacanas. O Arthur só quer saber de solar.
— Be-bem… é… eu ainda não tenho guitarra.
— Tranquilo, o Miguela tem. Ele queria tocar, mas desistiu. Nem quis aprender. Descobriu que só quer cantar mesmo. Daí, tem uma guitarra lá, no estúdio, paradona.
— Ué, então… quem sabe?
Naquele final de tarde, empolgado, Tonico chegou em casa. Nem acreditava que recebera um convite para entrar numa banda de rock! Para a mãe, nada contou. O primeiro ensaio seria dali a dois dias, no sábado.
E foi assim que, aos dezesseis anos, Tonico começou a tocar guitarra. O quarteto o recebeu muito bem. Todos eram muito divertidos, cada qual à sua maneira. Havia o emburrado, o feioso, o falador. Arthur era o mais velho, já contava vinte anos. Gostava de mandar. “Deixe pra lá, irmão. Só finja que obedece e ignore-o”, foi o primeiro conselho que André deu a Tonico nos bastidores. Os demais integrantes tinham entre dezesseis e dezoito anos, gostavam de beber e detestavam estudar.
Não demorou, e Tonico fez com que a mãe lhe comprasse uma guitarra, uma pedaleira de efeitos e um amplificador. Naquela época, as compras eram feitas através de carnês, nos crediários das lojas, em parcelas divididas em doze vezes ou mais. Outra vez, apertando o orçamento, a mãe não negou apoio ao filho. Com tamanha ajuda, o rapaz deu um salto no desenvolvimento como músico.
Bastaram cinco meses na banda, e as duas músicas compostas por Tonico já eram as que os amigos do bairro, sobretudo as meninas, mais gostavam. Nos ensaios de sábado à tarde, no quintal da casa do Miguela, um bando sempre aparecia. A moçada queria vê-los tocar. “E aí, quando vai ter show?”, perguntavam. Os ensaios viraram eventos! Tonico foi perdendo a timidez e tornando-se importante na banda. André lhe dizia: “prepare-se, bicho: em 1990, vamos nos mudar para o Canadá”.
Mas, esperem: e o voleibol? Pois é, dizem que o rock’n’roll é capaz de apresentar novos caminhos e descaminhos. Com Tonico não foi diferente. O vôlei continuou em seu coração. Sempre que podia, treinava e batia umas peladas. Como tudo o que se vive faz parte de um processo, à descoberta do rock seguiu-se a reprovação no colégio. Querendo novos ares, em uma instituição menos careta, Tonico convenceu a mãe de que precisava mudá-lo de colégio. Rejeitando a ideia de repetir o ano, optou por fazer a dependência nas disciplinas que tomara bomba (química e matemática) junto com o terceiro ano do segundo grau.
Um colégio mais fácil, sem ostentação, noutro bairro, com mensalidades bem mais baratas. Tonico virou outro. A mãe alegrou-se. Desde os quinze anos, o moço era da seleção de vôlei do colégio. Mas, na condição de reserva, era raro ele jogar. Agora, aos dezessete, fazia parte do time do novo colégio. E era titular! E tinha uma banda. E encantava as meninas. Pensar que tudo aconteceu porque num treino, dois anos antes, seu punho calhou de quebrar. Doeu, mas estava valendo a pena.
Aos dezoito anos, Tonico abandonou o Herege. Já tocava bem, queria vivenciar novos sons, conhecer outros músicos. Um ano depois, André lhe telefonou, dizendo que Miguela fora espancado na rua, simplesmente por ser o que era. Três idiotas o arrebentaram inteiro, mandaram-no para o hospital! “Cara, que horror! Estupidez é uma doença terrível!”, concluíram os amigos.
Trinta e oito se passaram. Hoje, Tonico tem discos lançados e divide o seu tempo entre a música, a literatura e o audiovisual. A mãe se foi. Em homenagem a ela, compôs uma canção muito bonita. Sempre que um bom jogo de vôlei é exibido na televisão, o músico vibra.
Como não foram para o Canadá, vez ou outra, Tonico e André se encontram. O baterista virou pintor, dos bons. Está sempre expondo seus quadros em vernissages e galerias, e recebendo elogios pelo trabalho. Dos outros integrantes da banda, ambos não têm notícias. Um chama o outro de “herege”. E isso, por si só, basta.
* Conto integrante do livro \\\"De amores, heróis, segredos e monstros\\\" (Páginas Editora, BH, 2021), de Cláudio Costa Val.
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