Em 2001 fui convidado por uma amiga que trabalha no Serviço Social da Prefeitura da minha cidade, para coordenar um projeto social voltado à criança em situação de rua.
Para mim era tudo novo, pois, sempre trabalhei em empresas na área administrativa.
Fazer o bem, sem ver a quem, praticava todos os dias sob ensinamentos que tive desde criança com meus pais. Amar o próximo como a si mesmo.
O projeto se chamava “Flanelinha” e seu público alvo, eram crianças que permaneciam na rua, fazendo alguma atividade como: engraxando, atendendo carros, recolhendo reciclagem, pedindo esmolas, etc.
O projeto atenderia 20 crianças de ambos os sexos e teria um tempo de funcionamento de apenas 6 meses.
Então, fui eu conhecer essa realidade na minha cidade e comecei a caminhar desde a rodoviária até o cemitério municipal, num percurso de cinco quilômetros conversando com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Durante o dia, as vezes a noite e em algumas madrugadas, consegui cadastrar nada menos que 64 crianças nessa situação.
Meu primeiro embate foi: Como repescar 20 crianças das 64? O que faria com as 44 que ficariam para trás. Então, sob o aval da direção da ONG que administrava esse projeto, foi permitido que eu trouxesse todas e assim foi.
Segundo embate: Como separar o atendimento da criança que usava “Thinner” e outras drogas, das demais crianças limpas? Boa parte do grupo ficava na rua tentando obter dinheiro para ajudar em casa, mas, outro grupo já era para o consumo de cigarro, bebidas alcoólicas, drogas e Thinner, o que não é considerado droga ilícita, mas, com um alto consumo entre essas crianças.
Mais uma vez a direção permitiu trabalhar com todas, sem fazer acepção entre elas. Foi um desafio enorme: muita crítica, muitos comentários negativos, mas, o importante, era que toda manhã, abria o portão da entidade e um a um ia fazendo presença.
No horário contra-escolar, oferecíamos reforço...
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Em 2001 fui convidado por uma amiga que trabalha no Serviço Social da Prefeitura da minha cidade, para coordenar um projeto social voltado à criança em situação de rua.
Para mim era tudo novo, pois, sempre trabalhei em empresas na área administrativa.
Fazer o bem, sem ver a quem, praticava todos os dias sob ensinamentos que tive desde criança com meus pais. Amar o próximo como a si mesmo.
O projeto se chamava “Flanelinha” e seu público alvo, eram crianças que permaneciam na rua, fazendo alguma atividade como: engraxando, atendendo carros, recolhendo reciclagem, pedindo esmolas, etc.
O projeto atenderia 20 crianças de ambos os sexos e teria um tempo de funcionamento de apenas 6 meses.
Então, fui eu conhecer essa realidade na minha cidade e comecei a caminhar desde a rodoviária até o cemitério municipal, num percurso de cinco quilômetros conversando com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Durante o dia, as vezes a noite e em algumas madrugadas, consegui cadastrar nada menos que 64 crianças nessa situação.
Meu primeiro embate foi: Como repescar 20 crianças das 64? O que faria com as 44 que ficariam para trás. Então, sob o aval da direção da ONG que administrava esse projeto, foi permitido que eu trouxesse todas e assim foi.
Segundo embate: Como separar o atendimento da criança que usava “Thinner” e outras drogas, das demais crianças limpas? Boa parte do grupo ficava na rua tentando obter dinheiro para ajudar em casa, mas, outro grupo já era para o consumo de cigarro, bebidas alcoólicas, drogas e Thinner, o que não é considerado droga ilícita, mas, com um alto consumo entre essas crianças.
Mais uma vez a direção permitiu trabalhar com todas, sem fazer acepção entre elas. Foi um desafio enorme: muita crítica, muitos comentários negativos, mas, o importante, era que toda manhã, abria o portão da entidade e um a um ia fazendo presença.
No horário contra-escolar, oferecíamos reforço escolar, informática, capoeira, atividades físicas e esportivas, artesanato, violão, jogos de mesa, mas, o que era mais disputado, era a hora do café da manhã e almoço e lanche da tarde.
Eram divididas em duas turmas. Tinham acompanhamento psicológico, médico e escolar. Eu fazia questão de participar das reuniões com os professores nas escolas e sempre partindo em defesa daqueles alunos que causavam muitos problemas na escola. Eu pedia que olhassem o aluno num todo. Que os chamassem pelo nome e não os tratassem como um número.
Tudo corria bem, mas, havia esquecido que em seis meses o projeto acabaria. Chegou esse dia. Recordo-me que o fim do repasse de verba municipal, seria no mês de dezembro. No final de outubro, a diretora da ONG e eu, fomos até o gabinete da Secretaria de Promoção Social, apresentamos relatório com resultados do projeto, com parecer positivo do Conselho Tutelar, afirmando a diminuição de crianças em situação de mendicância e de rua, relatório das escolas onde essas crianças estudavam, relatando a melhora do rendimento e frequência escolar, e aí deixamos no ar a seguinte pergunta à secretaria: - O que fazer com essas crianças depois que encerrar o Projeto Flanelinha? Seis meses é muito pouco tempo para preparar essas crianças para esse mundo cruel e perverso.
Além do mais, muitos pré-adolescentes evadidos da escola, alguns que estavam no quinto e sexto aluno, porém, semi-alfabetizados, procuravam o projeto e não tinha como deixá-los de fora.
Sem contar que a fila de espera para uma vaga era enorme e também, já recebíamos do Poder Judiciário e dos Conselhos Tutelares, solicitação de vaga em caráter de urgência para acolher crianças no nosso projeto.
Passado alguns dias, recebemos a notícia de que o projeto seria permanente e que poderia acolher todas crianças que fossem encaminhadas ou que procurassem vaga.
Certa ocasião foi publicado um livro, contando a história de 20 entidades no estado de São Paulo que deram certo. E a nossa história foi escolhida e publicada.
Até hoje, o projeto existe. Já foram assistidas mais de 900 crianças e adolescentes nesses anos. Lógico que não atendem mais crianças em situação de rua, pois, quase não existem mais, mas, acolhem pupilos de outros perfis.
A nossa história de persistência e espírito desafiador, mudou a vida de muitas crianças.
Hoje, adultas, casadas, algumas formadas e exercendo lindas profissões, como bombeiro, policial militar, estão dando exemplo de bons cidadãos.
Recentemente fui convidado para ir a formatura no curso de Direito de um jovem que quando criança era totalmente desacreditado pela família e pelos educadores. Fui muito emocionante assistir essa colação de grau.
Então, quero deixar o seguinte recado: Faça o bem sem ver a quem no decorrer de cada dia. Se eu tivesse excluído aquelas crianças envolvidas com drogas, jamais teria feito um trabalho de excelência. Todas são filhas de Deus. Todas merecem uma oportunidade para crescer na vida!
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