DEDICATÓRIA
A todos os que vivem da rua.
Aos que acordam antes do sol nascer e só voltam quando a cidade já esqueceu seus próprios passos.
Aos motoristas que não carregam apenas passageiros, mas histórias, dores, silêncios e despedidas.
Aos que já ouviram mais do que gostariam e viram mais do que deveriam.
E, principalmente, aos que continuam.
Mesmo cansados. Mesmo sozinhos. Mesmo invisíveis.
PREFÁCIO
Ser taxista é dirigir mais do que um carro. É conduzir pressa, dor, silêncio, despedida, mentira, amor… e, às vezes, loucura.
Cada passageiro entra com um destino. Mas quase sempre deixa alguma coisa para trás.
Existem profissões que passam despercebidas.
Não porque sejam pequenas, mas porque estão sempre em movimento.
O taxista é uma delas. Ele não para.
E talvez por isso, ninguém perceba que dentro de um carro comum passa um pedaço inteiro da humanidade.
Neste livro, você não vai encontrar apenas corridas. Vai encontrar encontros.
Momentos em que a vida entra, senta no banco de trás e decide se revelar.
Sem aviso. Sem filtro. Sem maquiagem.
Aqui estão histórias de gente comum, mas que, por alguns minutos, deixaram de ser.
Histórias que não saem em jornais, mas que ficam gravadas para sempre em quem viveu.
O taxista não escolhe o destino. Mas, muitas vezes, é escolhido por ele.
E há noites… em que nem tudo que entra no carro deveria estar ali.
Seja bem-vindo.
Mas entre por sua conta.
Porque depois da primeira corrida… você nunca mais olha um táxi do mesmo jeito.
TAXIANDO
Quando o cansaço chega
Estava desde cedo na rua, lutando pelo pão de cada dia. Desde as 4:30 da manhã, em busca de corridas.
Tem dia que você acorda com sorte. Os passageiros parecem dar preferência ao seu carro. Basta parar em qualquer lugar — bairro, esquina, rua — e as pessoas vêm na sua direção.
Não estou falando dos dias de chuva, onde as corridas são constantes, mas nem sempre boas.
Falo daqueles dias em que...
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A todos os que vivem da rua.
Aos que acordam antes do sol nascer e só voltam quando a cidade já esqueceu seus próprios passos.
Aos motoristas que não carregam apenas passageiros, mas histórias, dores, silêncios e despedidas.
Aos que já ouviram mais do que gostariam e viram mais do que deveriam.
E, principalmente, aos que continuam.
Mesmo cansados. Mesmo sozinhos. Mesmo invisíveis.
PREFÁCIO
Ser taxista é dirigir mais do que um carro. É conduzir pressa, dor, silêncio, despedida, mentira, amor… e, às vezes, loucura.
Cada passageiro entra com um destino. Mas quase sempre deixa alguma coisa para trás.
Existem profissões que passam despercebidas.
Não porque sejam pequenas, mas porque estão sempre em movimento.
O taxista é uma delas. Ele não para.
E talvez por isso, ninguém perceba que dentro de um carro comum passa um pedaço inteiro da humanidade.
Neste livro, você não vai encontrar apenas corridas. Vai encontrar encontros.
Momentos em que a vida entra, senta no banco de trás e decide se revelar.
Sem aviso. Sem filtro. Sem maquiagem.
Aqui estão histórias de gente comum, mas que, por alguns minutos, deixaram de ser.
Histórias que não saem em jornais, mas que ficam gravadas para sempre em quem viveu.
O taxista não escolhe o destino. Mas, muitas vezes, é escolhido por ele.
E há noites… em que nem tudo que entra no carro deveria estar ali.
Seja bem-vindo.
Mas entre por sua conta.
Porque depois da primeira corrida… você nunca mais olha um táxi do mesmo jeito.
TAXIANDO
Quando o cansaço chega
Estava desde cedo na rua, lutando pelo pão de cada dia. Desde as 4:30 da manhã, em busca de corridas.
Tem dia que você acorda com sorte. Os passageiros parecem dar preferência ao seu carro. Basta parar em qualquer lugar — bairro, esquina, rua — e as pessoas vêm na sua direção.
Não estou falando dos dias de chuva, onde as corridas são constantes, mas nem sempre boas.
Falo daqueles dias em que você jura que o carro está envolto em algum tipo de maldição. O passageiro entra no carro da frente, no da esquerda, no da direita… menos no seu.
Isso dá um desespero incomensurável.
Nessas horas, o melhor é parar, fazer um lanche, respirar… e voltar com outra cabeça. Às vezes funciona. Outras vezes, é melhor ir embora antes que o prejuízo seja maior.
Naquele dia, tudo corria dentro do esperado. Nada extraordinário, mas bom. A “féria” estava digna.
Mas o cansaço já pesava.
Eram 23h. Eu já devia estar indo para casa. Morando no Humaitá, torcia por um passageiro que me levasse para a Zona Sul.
Seria perfeito: encerrava o dia, chegava em casa, via meus filhos dormindo, dava um beijo caprichado na minha nêga de fé, um banho e cama. Porque no dia seguinte… tudo recomeça.
Estava parado em frente ao prédio Rio Branco nº 1. Pelo retrovisor, via os colegas chegando. Todos com a mesma cara: cansaço e esperança na última corrida.
Mais de trinta minutos… nada.
Resolvi desistir.
Desci a Avenida Rio Branco bem devagar. Fiz um trato comigo mesmo: se até a esquina da Ouvidor aparecesse alguém, ótimo. Senão, apagaria o “livre” e iria embora.
Foi quando ela apareceu.
Uma moça fez sinal. Parei na hora.
Bonita. Elegante. Cara de executiva exausta.
Entrou e disse, quase sussurrando:
— Moço… Largo do Machado, por favor.
Não era o ideal… mas já era o suficiente.
Seguimos em silêncio. Ela encostou… e apagou.
Eu fui descendo a Rio Branco, também no automático. Cansado, mente desligando aos poucos… Cheguei na Ouvidor.
E fiz o que tinha prometido. Apaguei o “livre”… e fui para casa.
Esqueci completamente que não estava sozinho.
Dirigi no piloto automático, pensando no banho, na cama, na vida.
Cheguei na minha rua. Sem vaga, como sempre. Achei um espaço perto de um poste e comecei a manobrar.
Quando virei o corpo para olhar para trás… Quase morri. Ela estava lá.
Dormindo. Boca aberta. Cabeça caída. Meu Deus! A passageira.
Eu tinha levado a mulher para casa comigo.
Saí devagar, coração na boca, implorando para que ela não acordasse.
Voltei com ela até o Largo do Machado, atravessando o túnel Rebouças como um pecador em fuga.
Chegando lá, chamei: — Senhora… qual rua?
Ela acordou, tranquila:
— Em frente ao Colégio Santo Amaro, por favor.
Deixei. Cobrei só o valor correto.
E fui para casa. Naquela noite, minha mulher riu como nunca.
E eu… nunca mais esqueci: - Cansaço também dirige!
Distração sem Perdão
Eu sempre fui um homem responsável. Mas a cabeça… às vezes prega peças.
Todo dia, religiosamente, entre 6:30 e 7:00, eu deixava minha esposa e meus três filhos pequenos na casa da minha sogra, numa vila na São Clemente, em Botafogo.
Eles ainda iam dormindo.
Eu colocava os três no sofá, dava um beijo, e seguia para o trabalho em São Cristóvão. Minha esposa seguia depois para a Rua da Glória. Era rotina. Cravada. Até aquele dia.
Chovia como se o Rio fosse acabar antes das dez da manhã.
Saí correndo, tentando me molhar o mínimo possível. Entrei no carro, dei a partida… e fui embora.
Só isso. Fui embora.
Chegando em São Cristóvão, veio o estalo:
— Cadê a galera?
O sangue sumiu do corpo.
Voltei como um louco.
Avancei sinal, derrapei, quase acabei com o carro duas vezes.
Cheguei na portaria:
— Seu Francisco! Minha mulher? Meus filhos?!
Ele, calmo como sempre:
— Pegaram um táxi e foram embora.
Ali eu virei várias cores.
Na casa da sogra, ela me olhou e disse:
— Eu sabia. Por isso me virei.
Só você para fazer uma coisa dessas.
Mas não parou por aí.
S de silêncio, S de Segredo
Obsessivo
O rádio chiava baixo, sem estação, só aquele som de madrugada que parece respirar junto com a cidade. Peguei o passageiro na porta de um prédio antigo. Magro, suado, olhos perdidos. Entrou sem olhar para mim.
— Segue…
— Para onde?
Silêncio.
Arranquei assim mesmo.
No começo achei que estava bêbado. Depois percebi que era outra coisa.
Ele começou a falar. Baixo.
Como quem repete uma reza… ou uma condenação.
— No saguão a saga da Safira sagrada que sob a saia suja do sagui saía sambando surgia na sala como salário a saldar. Se sabes selecionar na selva seca a saúva, o sábio sabia saborear o sacrifício do sacerdote secular.
Olhei pelo retrovisor. Ele não piscava.
— Amigo… qual o destino? Nada. Só mais palavras.
— A salva salutar da saudação ao salvador da samambaia selvagem, o samurai e o salvadorenho sanfoneiro, como santos na sacristia, selaram a sorte do sanitarista.
Passei por um sinal vermelho sem perceber.
— O sabido sargento saúda o senhor supremo que sacrificava a saúde em sadismo sagrado no santuário de Santiago.
Engoli seco.
— Você está bem?
Ele levou a mão à cabeça.
— Eu ouvi… eu ouvi isso… não sai mais…
E continuou.
— Satanás com satânica saturação de sangue…
Aquilo já não era fala, era infestação.
— Seita secular, segredando seleta sensação…
Ele me olhou. E ali tinha lucidez. Preso.
— Eu não consigo parar e então veio o final.
Mais lento. Mais limpo.
— Simples símbolo sinalizador e sincero do sexo. Singular síndrome da sinfonia sincronizadora dos sons sistemáticos situados ao sul da solitária e simpática senhorita.
Silêncio, pagou, desceu e sumiu. Deixou a voz que ficou...
No final do dia encontrei o Batista no ponto, perto da rodoviária. Café ruim, madrugada longa.
— Tu está estranho. — Peguei um cara…
— Esse repetia.
Ele não riu. — Como? — Um texto. Só com “S”.
Encontrei o Batista no ponto, perto da rodoviária. Café ruim, madrugada longa.
— Tu está estranho.
— Peguei um cara…
.
— Esse repetia.
Ele não riu. — Como? — Um texto. Só com “S”.
— Começa como?
— No saguão a saga da Safira sagrada…
O cigarro dele parou no ar.
— Não brinca. — Tu o conheces?
Ele passou a mão no rosto.
— Peguei um igual. O mundo ficou menor.
— Igual? — Palavra por palavra.
Ficamos quietos.
— E o final? — Perguntei.
Ele disse devagar:
— Singular síndrome da sinfonia sincronizadora…
Sem perceber, continuei:
— …dos sons sistemáticos situados ao sul…
Paramos.
E juntos:
— …da solitária e simpática senhorita.
O silêncio pesou.
— Antes de descer — disse ele — o meu perguntou: — Agora que você já sabe… você consegue esquecer?
Olhei para ele.
— E tu consegue? Ele não respondeu.
Só ligou o carro.
— Se outro entrar no teu carro, não deixa terminar.
Evitar pensar. Não adiantou.
No começo foi leve. Uma palavra solta.
Saguão.
Achei normal.
Depois veio outra.
Safira.
Ri sozinho.
Coincidência, mas não era.
As palavras começaram a se juntar sem eu querer.
No trânsito. No banho. No espelho.
— No saguão a saga…
Olhei para o banco de trás.
Vazio.
Mas tive certeza absoluta…
de que alguém estava sentado ali esperando.
Não virei, não tive coragem. Mas ouvi. Não fora dentro.
— …sob a saia suja do sagui saía sambando…
Minhas mãos suaram no volante.
— Chega.
Mas a voz era minha.
— …surgia na sala como salário a saldar…
— Para!
Mas não parava.
— Se sabes selecionar na selva seca a saúva…
Agora alto. Agora claro. Agora inteiro.
Quando percebi já estava dizendo tudo.
Sem errar. Sem pensar. Sem pausa. Como ele. Como o outro. Como todos.
— A salva salutar, saudação ao salvador da samambaia selvagem, o samurai e o salvadorenho sanfoneiro, e santos na sacristia, selaram a sorte do sanitarista.
O sabido sargento saúda o senhor supremo que sacrificava a saúde em sadismo sagrado no santuário de Santiago.
Dizem que o pior não é o começo.
Nem o meio. É o final.
Porque se você escuta o final…já era.
— Satanás com satânica saturação de sangue, sua sede secreta saberia saciar sendo seu seguidor a Senadora. Seita secular, segredando seleta sensação, síntese sintomática da soberania sobrenatural. Supor o suposto suplício, supremacia que sustenta a superfície sufocante e sucessiva subtraída da súcia.
Todos começaram a repetir.
— Na senzala o sapateiro sonso, sapateava com sapatinhos sapecas, saqueando o sarcófago de São Silvestre, e o Saci sacolejando o saco, sacramentava a safadeza.
No ponto, criaram regra. Não oficial, mas respeitada.
Se o passageiro começar… não deixa terminar.
Interrompe. Desce com ele. Abandona a corrida. Perde o dinheiro, mas não deixa terminar. Porque o final fica.
— Sossegado seresteiro com significativo simbolismo sinalizava som sofrido e solene, que suave, a suburbana sociedade silenciosamente suspeita suspirava.
— Salgar salgadinhos?! Somente o sagitariano sacripanta soube sacar sem salivar saladas, salientando o salmão que Salomão soube salpicar com salsinhas salubres
Porque o texto não fica no ouvido. Fica na cabeça.
— O sarapatel que no sarau será servido a solteirona sardenta com satisfação, segreda ao sedutor secundarista segredos que a seiva do seio saberia saciar a sede a seguir.
E quando começa dentro…não tem mais como parar.
— Semear sêmen semanalmente é a senda do senhor sensato que sensível a sem-vergonha senhora sentencia a sensual sensação.
Dizem que o último estágio é simples.
Você nem percebe. Só acontece. Você entra no carro. Liga o motor. Olha pelo retrovisor.
E entende. — Simples símbolo sinalizador e sincero do sexo. Singular síndrome da sinfonia sincronizadora dos sons sistemáticos situados ao sul da solitária e simpática senhorita.
Tem passageiro que entra no carro… e nunca mais desce.
Cuidado com a Borboleta
(Juram que aconteceu… estória de passageiro)
Peguei uma corrida no fim da tarde, dessas que parecem simples… mas não saem da cabeça depois.
O sujeito entrou quieto, falou o destino… e ficou olhando pela janela como quem já viu coisa demais.
Rodamos uns minutos em silêncio… até que ele perguntou:
— Você acredita em castigo… depois que acaba?
Eu respondi do jeito de sempre: — Aqui dentro já ouvi de tudo… pode mandar.
Ele respirou fundo. — Então escuta essa… juram que aconteceu.
Disse que duas amigas morreram num acidente, de repente… sem aviso.
Quando deram por si… estavam num lugar estranho. Nem céu… nem inferno.
Uma sala branca, onde não dava para esconder nada de ninguém.
Viram a própria vida inteira, cada detalhe… cada escolha.
No fim… foram aceitas.
Mas com uma única regra: — Não machucar borboletas.
Eu levantei o olho no retrovisor.
Ele continuou:
— Disseram que as borboletas eram mais que bicho, eram a coisa mais leve da criação.
E quem ferisse uma… pagava embora nunca tivessem que abandonar o paraíso.
O tempo passou, uma das amigas, cansada, deitou numa relva…
e esmagou uma borboleta, sem querer. Quando percebeu… já era tarde.
A luz abriu e apareceu um homem feio… desses que parecem castigo só de olhar.
E a sentença veio: — Vai carregar ele, acorrentado para sempre à você.
E assim foi.
A outra, viu tudo. E nunca mais relaxou. Não pisava sem olhar. Não sentava sem conferir.
Virou quase uma guardiã das borboletas.
O sujeito fez uma pausa.
O sinal fechou.
Ele olhou para frente… como se estivesse vendo a cena acontecer de novo.
— Até que um dia apareceu um homem.
Bonito demais. Coisa rara até para outro mundo. Ela pensou que finalmente tinha sido recompensada.
Quando ele chegou perto… perguntou: — Você já machucou alguma borboleta?
Ela respondeu sorrindo: — Nunca.
Aí ele disse: — Eu já.
Antes que ela entendesse a luz veio. Mais forte que antes.
Presa ao homem ela ficou.
— A partir de agora, vocês dois caminham juntos, para sempre.
Ele, pelo erro. Ela… pela certeza de estar livre.
O sinal abriu. O carro andou.
Ninguém falou nada por um tempo.
Quando chegamos… ele pagou… abriu a porta… e disse:
— Tem gente que acha que o castigo é só para quem erra…
Fez uma pausa… e completou:
— …mas às vezes… é para quem acha que escapou.
Desceu. E eu fiquei ali… parado, vendo uma borboleta cruzar a frente do carro como se não soubesse o peso que carrega.
Desde esse dia eu olho duas vezes antes de seguir. Não custa nada.
Porque vai saber, né…!
O Francês Esquecido
Anos depois, já trabalhando com transporte executivo, peguei um engenheiro francês no Aeroporto do Galeão. Destino: Macaé.
Viagem longa. Parada padrão em Manilha: banheiro, café, abastecer.
Ele desceu. Eu também. Voltamos.
Ou pelo menos… eu achei que sim.
Ele simplesmente voltou para pegar outro cigarro e saiu rapidamente, eu nem percebi...
Entrei no carro, liguei o ar, peguei a estrada.
Uns 30 km depois, o silêncio ficou… estranho demais.
O telefone tocou.
— Onde o senhor está? — Perguntou a secretária.
— Indo pra Macaé com o Sr. Pierre. — Não está.
O senhor deixou ele no posto. Aquilo gelou até a alma. Voltei a mais de 200 por hora.
E lá estava o francês. Com cigarro na mão. E uma história para contar.
O Amor que Não Existia
Rodava pela Zona Sul quando ela apareceu. Jovem. Bonita. Carregava um bebê nos braços.
Desci para ajudar.
— Copacabana. Rua Djalma Ulrich.
Seguimos.
Ela falava com a criança o tempo todo. Com amor. Com sonhos.
Dizia que ele seria médico, talvez militar… alguém importante.
Falava de futuro, de estudos, de namoradas. Eu fui me envolvendo. Era bonito de ver.
Tentei olhar o rosto do bebê… mas ela protegia.
Perguntei do pai. Silêncio.
Depois respondeu:
— Estou procurando alguém para essa função.
Aquilo já soava… estranho. Mas segui.
Chegando ao destino, ela pagou.
E eu, curioso, olhei. Não era uma criança. Era um boneco.
Perfeito. Frio. Sem vida. Ela desceu rindo. Um riso alto. Vazio.
Quase alegre demais. E ali eu entendi…
Nem toda maternidade nasce de um filho. Às vezes nasce… de uma falta.
Essas histórias não são invenções. São pedaços de vida que entraram pelo banco de trás… e nunca mais saíram da memória.
O Passageiro que Não Desceu
Madrugada vazia. Peguei o homem na porta de um hospital.
— Para onde?
— Só vai.
Rodamos em silêncio. Depois de um tempo, ele perguntou:
— Você já perdeu alguém?
Respondi que sim.
Ele olhou para rua escura: — Eu acabei de perder minha filha.
O carro ficou pequeno. Paramos diante do mar.
Ele não desceu. — Pode rodar mais um pouco… só não quero ficar sozinho.
E naquela noite, eu entendi: - às vezes o destino não importa. O que importa é não parar.
Uma chance
Fui o mais rápido que pude. Ela chorava no banco de trás.
Chegamos. — Quanto deu? Fim de tarde. Trânsito travado. Ela entrou desesperada: — Corre… meu pai pode morrer.
Olhei para ela. — Já está pago.
Ela saiu correndo. E eu fiquei ali.
Porque naquele dia… eu não fiz uma corrida. Eu fiz uma chance.
O Homem que Voltou no Tempo
Um senhor elegante. Endereço anotado. Chegamos a uma casa antiga.
Ele desceu… parou no portão… não entrou. Voltou.
— Era sua casa?
— Era onde eu fui feliz.
— Por que não entrou?
Ele respondeu olhando para frente:
— Porque algumas lembranças… se você mexe… quebram.
A Última Corrida da Madrugada
Três homens. Entraram rápido.
— Segue… sem olhar para trás.
O clima pesou. Um deles disse:
— Se parar, você morre.
Dirigi como nunca.
Depois de minutos que pareceram horas:
— Pode parar. Desceram. Sem pagar. Sem olhar.
Só depois vi que minhas mãos tremiam.
E eu estava vivo. Por pouco.
O Banco de Trás
Uma senhora idosa. Calma. Educada, conversou comigo a viagem inteira.
Ao descer, disse: — Obrigada pela companhia.
Dias depois, reconheci o endereço.
Era um velório. Na foto… era ela.
E eu nunca esqueci: nem todo passageiro está indo. Alguns… já foram.
A Mulher que Não Estava Lá
Garoa fina. Rua vazia. Ela já estava no carro.
— Você conhece o caminho.
Dirigi.
O vidro começou a embaçar… por dentro.
— Aqui.
Era um cemitério.
Olhei para trás. Nada. Banco vazio. Mas no vidro… um risco lento.
Como se alguém ainda estivesse ali.
E naquela noite… eu não desliguei o carro.
O Passageiro que Não Queria Chegar
Era fim de noite, já perto das duas da manhã.
Ponto fraco, rua vazia, só eu, o carro e o cansaço.
Ele entrou sem dizer boa noite.
— Toca… mas vai devagar.
Disse o endereço de um hospital.
Pelo retrovisor, vi que não era bebida.
Era outra coisa… mais pesada.
Silêncio.
Depois de uns minutos, ele perguntou:
— Você acredita que dá tempo?
Não entendi.
— Tempo para quê?
Ele demorou.
— Para pedir desculpa.
Apertei o volante.
Ali já entendi tudo.
A gente corre atrás de dinheiro, de corrida, de sobrevivência…
mas tem coisa que corre mais rápido que a gente.
A vida.
Ele começou a falar.
Falou de uma briga besta.
De orgulho.
De palavras que não voltam.
— Faz três dias que não falo com ela.
Pausa.
— Hoje me ligaram… ela tá indo.
A cidade parecia mais longa naquela madrugada.
Cada sinal fechado era um castigo.
Cada avenida, um teste.
Eu acelerei o que dava.
Mas o tempo… esse não aceita corrida com taxímetro.
Quando chegamos, ele nem esperou o troco.
Saiu correndo.
Fiquei ali parado, com o carro ligado.
Minutos depois, ele voltou.
Devagar.
Olhou para mim.
E só balançou a cabeça.
Nem precisou falar.
Naquela noite eu aprendi:
Tem passageiro que você leva…
mas já chegou tarde demais.
A Corrida Mais Cara da Minha Vida
Era um dia comum, desses que não prometem nada.
Peguei uma senhora simples.
Roupa humilde, sacola no colo.
— Meu filho, pode me levar até o banco? Na Rua do Ouvidor...
Claro.
Durante o caminho, ela puxou conversa.
Falou da vida dura.
Do marido que já tinha ido.
Dos filhos longe.
— Hoje vou sacar um dinheirinho… coisa pouca.
Chegando lá, ela pediu:
— Você pode esperar?
Esperei.
Demorou.
Mais do que o normal.
Quando voltou… estava diferente.
Mão tremendo.
Entrou no carro sem falar nada.
— Vamos voltar.
No meio do caminho, ela começou a chorar.
Baixinho.
— Levaram tudo…
Golpe.
Alguém ajudou “demais” dentro do banco.
Dinheiro sumiu.
Eu senti uma revolta que não cabia no peito.
Quando chegamos, ela foi pegar o dinheiro da corrida.
Eu segurei a mão dela.
— Hoje não.
Ela insistiu.
Eu insisti mais.
— A senhora já pagou caro demais.
Ela chorou de novo. Mas diferente. Desceu devagar.
E eu fiquei ali… olhando aquela porta fechar.
Naquele dia, perdi uma corrida.
Mas, ganhei alguma coisa que dinheiro nenhum, paga.
Respeito por mim mesmo.
Senhorinha
Era mais uma manhã qualquer, daquelas que começam antes do sol e terminam antes da alma. Eu já vinha rodando fazia horas quando parei próximo a uma pracinha e vi em um
banco de cimento, uma vida passando sem pedir licença.
Uma senhorinha chorando.
Pequena, encolhida dentro da própria idade, como se o tempo tivesse esquecido de levá-la embora.
Pensei: - mais uma história triste para completar o dia.
Encostei: - — A senhora está bem?
Ela levantou o rosto devagar. Olhos molhados… mas não vazios.
— Tenho 92 anos… — disse — …e me chamo Odete.
Até aí, nada demais. A cidade está cheia de nomes e idades esperando o fim, ela continuou
— Essa semana… conheci um rapaz de 22.
A vida, às vezes, resolve zombar da lógica.
Fiquei em silêncio. Ela não.
— Forte… bonito… desses que ainda acreditam no próprio corpo, ele me serve café na cama… com uma rosa… como se o mundo fosse gentil.
Deu um meio sorriso. — Depois… ele não tem pressa.
O vento passou entre nós, ou talvez tenha sido o constrangimento.
— No almoço, vinho… promessas… mãos que não sabem mentir, à noite… — ela fechou os olhos — …à noite ele esquece que eu tenho 92… e eu esqueço também.
Ali, confesso… não era mais pena que eu sentia. Era inveja. Uma inveja feia.
Daquelas que a gente não admite nem para si.
Respirei fundo.
— Dona Odete… me perdoe… mas isso não é motivo para chorar.
Ela me olhou como quem já sabe o final da história: — É aí que está…
Silêncio.
— Eu saí para comprar um remédio, outro silêncio, mais pesado.
— …e não faço ideia de onde moro.
O mundo voltou para o lugar.
Frio. Prático. Cruel como sempre foi. Ajudei-a a levantar-se. Agora ela está ali, esperando alguém que saiba o caminho de volta.
Ou talvez, se você souber onde mora Dona Odete… por favor, avise.
Porque, sinceramente tem gente que passa a vida inteira procurando um endereço desses e nunca encontra. E ela… esqueceu.
O Último Ponto
Era um daqueles dias em que tudo dá errado.
Pouca corrida.
Muito trânsito.
Muita conta na cabeça.
Parei num ponto antigo. Daqueles que estão sumindo da cidade.
Ali tinha um senhor. Taxista velho de guerra. Carro antigo, mas limpo. Impecável.
A gente se cumprimentou. Começamos a conversar.
Ele me contou que estava se despedindo.
— Último dia hoje.
Olhei para ele.
— Sério?
Ele sorriu.
— O corpo já não acompanha… mas o coração ainda quer ficar.
Ficamos ali, falando da vida. Das histórias. Das madrugadas. Dos perigos.
Das alegrias que ninguém vê.
— Sabe qual é o segredo? — Ele perguntou.
Balancei a cabeça.
— Nunca foi dirigir carro… sempre foi carregar histórias.
Aquilo ficou forte. Simples. Verdade.
Pouco depois, ele entrou no carro.
Ligou o motor devagar. Saiu sem pressa.
Como quem não está indo embora… mas fechando um ciclo.
Eu fiquei ali, olhando e entendi:
Um dia, todos nós vamos sair do ponto pela última vez.
Sem buzina. Sem pressa. Só memória.
A ÚLTIMA CORRIDA
Era uma madrugada estranha. Não fria. Não quente. Parada.
Como se a cidade estivesse segurando a respiração. Eu já estava encerrando. Última volta… só mais uma corrida e casa.
Foi quando ela apareceu. Na calçada. Sozinha.
Vestido claro. Cabelo molhado… como se tivesse saído da chuva — mas não estava chovendo.
Levantei o pé do freio. Ela abriu a porta devagar e sentou atrás.
— Boa noite.
A voz era baixa.
Distante.
— Para onde?
Ela demorou.
E então disse um endereço. Eu conhecia.
Todo mundo conhece. Cemitério São João Batista
Olhei pelo retrovisor. Ela estava olhando pela janela. Imóvel.
Seguimos. Silêncio pesado.
O tipo de silêncio que não é ausência de som… é presença de alguma coisa.
No meio do caminho, senti um cheiro. Forte, de terra molhada. Incomodando.
Olhei de novo pelo retrovisor.
Ela estava diferente.
Mais pálida. Parada demais.
— A senhora está bem?
Ela respondeu… sem me olhar:
— Eu me perdi.
Apertei o volante.
— Como assim?
— Eu não devia ter saído.
O carro pareceu mais frio.
O vidro começou a embaçar por dentro.
Mas eu estava sozinho… ou pelo menos deveria estar.
Quando virei na rua do cemitério…
Olhei no retrovisor. Ela não estava mais lá.
Freei seco. Virei para trás. Banco vazio. Porta fechada.
Mas o banco… molhado.
Como se alguém tivesse acabado de sair dali.
Meu coração disparou. Saí do carro. Olhei em volta.
Nada.
Silêncio absoluto. Nem vento. Nem som. Nem vida. Voltei devagar.
Sentei.
E foi aí que vi.
No banco de trás, marcado na umidade como se tivesse sido desenhado com dedo… um nome. O mesmo nome que estava no portão do cemitério.
Entrei em choque. Não quis acreditar.
Mas li de novo e de novo. E de novo.
No dia seguinte… voltei lá, não devia, mas voltei. Procurei. E encontrei.
Uma lápide recente. Com a mesma foto. Mesmo rosto. Mesmo vestido claro.
Mesma mulher.
Data?
Enterrada na noite anterior.
Naquele dia… eu não encerrei o turno. Eu abandonei o carro.
Porque entendi uma coisa:
Tem passageiro que não chama táxi…
Ele só precisa de alguém para levá-lo de volta.
O Passageiro que Não Queria Chegar
Era fim de noite, já perto das duas da manhã. Ponto fraco, rua vazia, só eu, o carro e o cansaço.
Ele entrou sem dizer boa noite.
— Toca… mas vai devagar.
Disse o endereço de um hospital.
Pelo retrovisor, vi que não era bebida. Era outra coisa… mais pesada.
Silêncio.
Depois de uns minutos, ele perguntou:
— Você acredita que dá tempo? Não entendi.
— Tempo para quê?
Ele demorou.
— Para pedir desculpa.
Apertei o volante. Ali já entendi tudo.
A gente corre atrás de dinheiro, de corrida, de sobrevivência… mas tem coisa que corre mais rápido que a gente. A vida.
Ele começou a falar. Falou de uma briga besta. De orgulho. De palavras que não voltam.
— Faz três dias que não falo com ela.
Pausa.
— Hoje me ligaram… ela está indo.
A cidade parecia mais longa naquela madrugada. Cada sinal fechado era um castigo. Cada avenida, um teste. Eu acelerei o que dava, mas o tempo… esse não aceita corrida com taxímetro.
Quando chegamos, ele nem esperou o troco.
Saiu correndo. Fiquei ali parado, com o carro ligado.
Minutos depois, ele voltou. Devagar.
Olhou para mim. E só balançou a cabeça. Nem precisou falar.
Naquela noite eu aprendi: Tem passageiro que você leva…mas já chegou tarde demais.
FECHAMENTO
Ser taxista é isso. Você não escolhe as histórias. Elas entram. Sentam.
Falam… ou não. E vão embora. Mas algumas… ficam.
Você já entrou em um táxi sem pensar duas vezes, apenas disse o destino e seguiu viagem.
Mas e se, naquela noite, o destino não fosse só um endereço?
Em TAXIANDO, cada corrida revela muito mais do que trajetos pela cidade.
São encontros inesperados, histórias reais, silêncios que dizem tudo e momentos em que a vida — e a morte — dividem o mesmo banco de trás.
Entre passageiros comuns, dores invisíveis e escolhas irreversíveis, existe uma linha tênue que poucos percebem: nem todo mundo que entra… está realmente indo embora.
E há corridas que não deveriam acontecer.
O livro que mistura realidade, emoção e um toque perturbador de sobrenatural. Depois dele, você nunca mais vai entrar em um táxi da mesma forma.
“Ao entrar, diga seu destino…
porque nem todo passageiro sabe que já chegou ao fim.”
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