Sempre vem a minha mente as cenas de uma infância contada por minha mãe. Parte dela só lembro por causa das conversas em torno da mesa de café da casa dela. E olha que sempre são muitas histórias. Adoro ouvi-las.
Ela sempre volta ao mesmo ponto. Passei dois anos de minha vida morando em um povoado do município de Pinheiro, interior do Maranhão. Deveria ter uns dois, três anos nessa época. Minha mãe era moça da cidade que ao casar com o meu pai teve que morar na casa da vovó. Era um lindo sítio, cheio de pés de coco. Lá eu fiz muitas estripulias.
O café quente me traz uma vaga lembrança. Um cavalo branco, no terraço de casa que me visitava e conversava comigo. Era o meu único amigo...
Minha mãe se chama Auxiliadora, mas todos a chamam de Dorinha. Quando essas lembranças me tomam, sinto uma nostalgia inexplicável. Minha mãe diz que eu falava sozinha e isso às vezes a assustava. É claro que a conversa era sempre com o meu cavalo branco. Curioso é que no sítio dos meus avós não tinha nenhum cavalo branco. Eu o tinha criado. Era a minha imaginação trabalhando para diminuir a solidão do sítio que não tinha vizinhos.
As poucas fotos daquela época mostram que eu era uma criança bonita. Gordinha, pele morena, cabelos muito pretos e lisos. "Um rosto de índia", diz minha mãe. Isso tem uma explicação. Descobri em tantas conversas ao redor da mesa de café que tenho na minha árvore genética parentesco com os “índios guajajara”. Essa semelhança só pude constatar quando comecei a viajar pelo interior do Maranhão fazendo reportagens. Fui parar em uma aldeia de índios guajajaras. Observei neles um pouco do meu jeito calmo, a cor da pele meio amarelada e ar de desconfiança. A experiência na aldeia de "cachoeira" marcou meu trabalho e minha vida. As crianças lembravam minha filha Maria Teresa: o mesmo cabelo, o rosto muito parecido com os dos bebês índios.
Estranhamente, me senti em casa naquela aldeia no meio do mato. O...
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Sempre vem a minha mente as cenas de uma infância contada por minha mãe. Parte dela só lembro por causa das conversas em torno da mesa de café da casa dela. E olha que sempre são muitas histórias. Adoro ouvi-las.
Ela sempre volta ao mesmo ponto. Passei dois anos de minha vida morando em um povoado do município de Pinheiro, interior do Maranhão. Deveria ter uns dois, três anos nessa época. Minha mãe era moça da cidade que ao casar com o meu pai teve que morar na casa da vovó. Era um lindo sítio, cheio de pés de coco. Lá eu fiz muitas estripulias.
O café quente me traz uma vaga lembrança. Um cavalo branco, no terraço de casa que me visitava e conversava comigo. Era o meu único amigo...
Minha mãe se chama Auxiliadora, mas todos a chamam de Dorinha. Quando essas lembranças me tomam, sinto uma nostalgia inexplicável. Minha mãe diz que eu falava sozinha e isso às vezes a assustava. É claro que a conversa era sempre com o meu cavalo branco. Curioso é que no sítio dos meus avós não tinha nenhum cavalo branco. Eu o tinha criado. Era a minha imaginação trabalhando para diminuir a solidão do sítio que não tinha vizinhos.
As poucas fotos daquela época mostram que eu era uma criança bonita. Gordinha, pele morena, cabelos muito pretos e lisos. "Um rosto de índia", diz minha mãe. Isso tem uma explicação. Descobri em tantas conversas ao redor da mesa de café que tenho na minha árvore genética parentesco com os “índios guajajara”. Essa semelhança só pude constatar quando comecei a viajar pelo interior do Maranhão fazendo reportagens. Fui parar em uma aldeia de índios guajajaras. Observei neles um pouco do meu jeito calmo, a cor da pele meio amarelada e ar de desconfiança. A experiência na aldeia de "cachoeira" marcou meu trabalho e minha vida. As crianças lembravam minha filha Maria Teresa: o mesmo cabelo, o rosto muito parecido com os dos bebês índios.
Estranhamente, me senti em casa naquela aldeia no meio do mato. O banho na cachoeira, o cheiro do verde, os rituais, o respeito a natureza. O jeito de viver daquela gente não me parecia tão estranho, não era difícil contar a história deles, conviver, conversar, sorrir com eles....
De fato, o sangue dos meus bisa, tataravós parecia esquentar naquele lugar. Ainda lembro de como foi triste dizer adeus àquela gente. Lá eu parecia protegida de tudo e todos. Protegida do mundo selvagem, da vida normal. Na última noite ganhei adereços feitos pelas índias e fui batizada com um nome índigena. Lá, na aldeia de cachoeira, me chamo "filha do sol".
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