Meu nome é Sida Mara da Silva, nascida em Canoas, em 31 de outubro de 1964. Isso é uma história antiga. Meu pai é funcionário desde que minha mãe estava grávida de mim. Cresci ouvindo Petrobras, porque ele era um funcionário muito orgulhoso. Ele trabalhava na área de segurança patrimonial. Um dos sonhos da vida dele era colocar um dos filhos como funcionário. Incentivava muito e estava sempre cuidando dos concursos. Na realidade, se for analisar, entrei só para satisfazer o sonho dele. Hoje não me arrependo. Eu tinha completado o segundo grau e meu pai cuidava muito dos concursos. Entrei como auxiliar de escritório, em 1989, no setor de caldeiraria. Fiquei cerca de dois anos e saiu o edital de concurso interno. Fiz o concurso interno, o curso de preparação de operação e, em julho de 1992, fui para o turno operar na área. Sou original da área de destilação desde 1992. Minha função original é operador de processo. Atualmente, há uns quatro anos que estou na área de manutenção. Hoje acompanho toda a interface e administração da parte de manutenção. Se der um problema num equipamento, o pessoal do painel passa para nós, e temos que providenciar a manutenção desses equipamentos, instrumentos, bombas e vasos. Equipamentos mecânicos estáticos, bombas, vasos de pressão, tubulações, válvulas, instrumentos, válvulas automáticas, válvulas manuais, toda a parte que compõe a unidade de processo da área de destilação. Atualmente estou na unidade de coque, que pertence ao setor de destilação. O setor de destilação tem várias unidades de processo como responsabilidade. Apesar de ter entrado no escritório não me sentia identificada. Fiz o concurso na época, e me lembro que meu pai levou um susto. Porque não era uma área para mulher. Quando entrei tinham poucas mulheres. Ele ficou assustado, porque como conhecia o sistema, achou que não era uma função para mulher. Pra mim, serviu como um desafio. A minha filha...
Continuar leituraMeu nome é Sida Mara da Silva, nascida em Canoas, em 31 de outubro de 1964. Isso é uma história antiga. Meu pai é funcionário desde que minha mãe estava grávida de mim. Cresci ouvindo Petrobras, porque ele era um funcionário muito orgulhoso. Ele trabalhava na área de segurança patrimonial. Um dos sonhos da vida dele era colocar um dos filhos como funcionário. Incentivava muito e estava sempre cuidando dos concursos. Na realidade, se for analisar, entrei só para satisfazer o sonho dele. Hoje não me arrependo. Eu tinha completado o segundo grau e meu pai cuidava muito dos concursos. Entrei como auxiliar de escritório, em 1989, no setor de caldeiraria. Fiquei cerca de dois anos e saiu o edital de concurso interno. Fiz o concurso interno, o curso de preparação de operação e, em julho de 1992, fui para o turno operar na área. Sou original da área de destilação desde 1992. Minha função original é operador de processo. Atualmente, há uns quatro anos que estou na área de manutenção. Hoje acompanho toda a interface e administração da parte de manutenção. Se der um problema num equipamento, o pessoal do painel passa para nós, e temos que providenciar a manutenção desses equipamentos, instrumentos, bombas e vasos. Equipamentos mecânicos estáticos, bombas, vasos de pressão, tubulações, válvulas, instrumentos, válvulas automáticas, válvulas manuais, toda a parte que compõe a unidade de processo da área de destilação. Atualmente estou na unidade de coque, que pertence ao setor de destilação. O setor de destilação tem várias unidades de processo como responsabilidade. Apesar de ter entrado no escritório não me sentia identificada. Fiz o concurso na época, e me lembro que meu pai levou um susto. Porque não era uma área para mulher. Quando entrei tinham poucas mulheres. Ele ficou assustado, porque como conhecia o sistema, achou que não era uma função para mulher. Pra mim, serviu como um desafio. A minha filha falou hoje: “Mãe, posso fazer tal coisa?”. Pode fazer tudo Eu sempre pensei dessa forma. Podemos fazer tudo o que quisermos, desde que tenhamos idade e conhecimento para tal. Eu me lembro que foi um susto muito grande. Fiz o concurso, passei e gosto muito da área operacional. Por uma questão particular vim para a manutenção, por causa do horário, mas gosto muito porque estou interligada com a função de operação. Entrei em 1989 e havia no nosso setor duas mulheres. No setor que partilhava a mesma casa conosco, havia outras duas mulheres também. Ainda era raro. Hoje, dentro da Refap, tem setores de operação que relutam muito com a presença da mulher. Já estão admitindo, mas mesmo assim era bastante relutante. Se me perguntar como eu me senti, eu vou te dizer que não me senti nem um pouco desconfortável e descriminada. Se houve discriminação em relação à minha pessoa não senti e passou despercebido. Mas como era um ambiente masculino, o pessoal tinha alguma restrição. Porque homem fala muito palavrão, tem um comportamento e uma postura totalmente masculina, e o pessoal tinha medo de ter que mudar as atitudes por causa da presença da mulher. Outra questão também é a força. O pessoal achava que mulher não tinha força. Eu sempre fui contra esse conceito em relação à força, porque tem muitas manobras que um homem sozinho não consegue fazer. Temos válvulas na rua que estão ao sol e na chuva que ficam emperradas. Um homem não consegue, porque é contra a natureza humana. Sempre questionei isso. Muitas manobras não podemos fazer sozinhos. Manobras de grande importância não podemos fazer com um operador só, sempre temos que ter um companheiro. Sempre fui contra isso. Eu sei de refinarias que tem, ainda hoje, algo contra as mulheres operadoras. Dizem que mulher não tem força. Eu sei de colegas que sofreram por dizerem: “Você não quer ser operadora? Vai, faz sozinha, se vira”. Houve certo estresse. Para mim não houve, porque sempre levei tudo como um desafio e nunca tive vergonha de pedir ajuda ou de exigir ajuda. Há vários casos em que a gente tem que exigir. Eu tenho que fazer uma manobra, então, tenho que fazer o meu colega me ajudar. Num certo sentido é questão de saber se impor. REFAP Uma questão que me chama muita atenção é que quando entrei a faixa de idade era mais elevada. A resistência do pessoal às mudanças era muito maior e também aos operadores novos em idade e experiência. Hoje, essa faixa etária está bastante diferente, tem mais operadores novos do que antigos. De certa forma melhorou um pouco o ambiente e a maneira de pensar. Antes tinha muita resistência. O pessoal achava que como era operador antigo, você não tinha vez. Não podia pensar, fazer uma manobra ou um procedimento diferente, porque sempre havia sido feito daquela maneira. Em geral era assim o ambiente. Hoje temos gente mais nova, com a cabeça e o ânimo diferente. Dá para perceber essa diferença. Foi uma mudança bastante grande. Estou no Coque porque queria muito participar do início de operação de uma unidade nova. Sempre somos designados pela chefia e não tive essa oportunidade antes. No Coque, surgiu a oportunidade e gostei, porque você participa da obra, acompanha as mudanças e as alterações. Tem coisas que só a operação enxerga e que pessoas que fazem o projeto não viram. Estávamos acostumados a produzir líquidos, o coque é sólido, então, para nós é uma novidade. No sistema Petrobras nem todas as unidades têm a unidade de coque. Os equipamentos diferentes, o produto sólido, a sistemática de manuseio e de expedição desse produto, não tem em nenhuma outra parte da refinaria. A Petrobras e a Refap estão acompanhando a evolução do mercado. A unidade de coque surgiu para satisfazer esse mercado. A Refap está acompanhando e está investindo bem na questão de segurança. A gente sempre ouviu dizer que, dentro do sistema Petrobras, éramos referência e eu acredito. Achei sempre que era folclore. Mas hoje, trabalhando com outras empreiteiras que vem prestar serviços para a gente, tenho certeza disso. O pessoal diz que em nenhuma outra refinaria a exigência de segurança é tão grande. Hoje o pessoal está se reciclando. Faz muito tempo que a nossa referência em segurança é muito forte. Sempre houve uma presença forte mais ligada à segurança do trabalhador. Hoje tem mais essa questão de segurança em relação ao meio-ambiente também. A partir do momento em que tive minha filha comecei a pensar mais nessas coisas. Parece bobagem, mas que mundo vou deixar para minha filha? Agora eu tenho que tomar maior cuidado comigo. Hoje se usa vapor, entre outras coisas, para liberar um equipamento. Para liberá-los, isolo os equipamentos e passo um produto. Depois tiro o produto e limpo o equipamento para ir para a manutenção. Tenho que limpar aquilo. A gente usa muita água e óleo leve. Numa determinada ordem, um óleo mais leve, água para resfriar e vapor para limpar, que é o que chamamos de “purga”. Essa purga ia para a atmosfera. Estávamos mandando coisas para a atmosfera. Lidávamos com metais pesados também como o mercúrio. Mas a gente não conhecia e não sabia que estava fazendo, não sabíamos que estava fazendo mal para o meio-ambiente. Hoje, continua-se purgando, mas por sistemas fechados, nada vai para a atmosfera, não se descarta nada para os rios. Tudo vai para um esgoto controlado e tratado. REFAP S.A. Sempre ouvi meu pai falando com um orgulho tremendo da Petrobras. Meu pai foi um homem simples, que não teve oportunidade de estudar. Quando entrou aqui tinha orgulho e achava que era um funcionário de luxo, porque a empresa dava oportunidades pra ele aprender, crescer e se modificar como pessoa. Meu pai era Cid João da Silva. Ele jamais em vida imaginou que essa alteração acionária fosse acontecer. Jamais. Porque os funcionários tinham certeza que o sistema era uma riqueza que só o governo poderia controlar. Isso foi uma surpresa, embora já houvesse conversas de que isso ia acontecer. Foi uma alteração e uma surpresa igual para os funcionários. Jamais imaginamos que isso acontecesse. Sinto como uma perda, porque somos uma empresa de ponta reconhecida no mundo inteiro. E passar essa tecnologia para outra pessoa que não cresceu com a gente... É esse o meu pensamento. Realmente, o funcionário se sente parte da empresa, crescendo e, de repente, tudo é vendido como se não tivesse o valor devido. Isso chocou bastante. Às vezes, sentimos certa diferença quando vamos lidar com outras refinarias que são totalmente Petrobras. Já teve um caso de um colega que foi barrado num curso porque ele não era mais Petrobras. São coisas pequenas e sutis, mas se sente. Não temos mais aquela segurança. Não sabemos se somos Petrobras ou não. Em algumas coisas somos, em outras coisas não. É fazer parte da história do país, porque cresci com a história de “o petróleo é nosso, o petróleo é nosso”. Com certeza é uma empresa de referência nacional. Nós temos uma tecnologia avançadíssima, o que muito país rico quer. Além da riqueza natural temos muito petróleo no Brasil. Então, me sinto mesmo fazendo parte da história do país. Minha transição do escritório para a operação foi muito curiosa, porque estava há dois anos no setor de caldeiraria como secretária. Eu era muito bem quista pelo pessoal. As pessoas chegavam a me solicitar para resolver problemas pessoais. Era meio conselheira intermediária e executante. Por exemplo, o pessoal entrava com os documentos para aposentadoria e havia uma rixa dos setores administrativos com o pessoal da manutenção e operação. Eram ditos os graxeiros, porque o pessoal da manutenção e operação é obrigado a trabalhar de uniforme, e o pessoal dos setores administrativos não. Era um tipo de coisa que você via no refeitório. Na época em que entrei era assim. Eu entendia que o pessoal da manutenção e operação tinha direitos, ninguém mais do que eu tem o direito de ir lá no setor pessoal e ver como é que está o meu tempo de aposentadoria. Só que o pessoal se sentia muito abaixo, vamos dizer dessa forma. Eu discutia com pessoas em pelos direitos dos outros. O pessoal queria muito que eu ficasse e pediu para o chefe do setor para que me promovesse. Não saía a promoção, mas surgiu a oportunidade do concurso. O chefe do meu setor não acreditava muito que eu fosse passar. A gente fazia o curso, fazia uma prova e ia eliminando cada disciplina. E eu ali acompanhando as minhas notas. Houve uma disciplina que tirei nota baixa e precisaria fazer recuperação. O chefe do meu setor foi o primeiro, a saber, que eu tinha tirado uma nota baixa. Eu nem sabia. Cheguei à conclusão que, na realidade, ele não queria que eu passasse no curso. Eu já tinha conversado com ele sobre isso, o pessoal dava muita força para ele me promover, mas ele não me promovia. Recuperei aquela nota. Toda prova que eu fazia, ele sabia o resultado. Ele chegou a me pedir pra ficar no setor. Mas, na medida em que ia fazendo o curso e uma disciplina diferente, eu gostava cada vez mais, e não teve volta mesmo. E isso foi curioso. No curso temos a oportunidade de escolher a unidade. Você faz o concurso para entrar no curso que te prepara com as matérias básicas para ser operadora. Escolhemos pra onde quer ir, mas essa aceitação é devido à quantidade de vagas. Até acredito que a chefia olha como foi seu desempenho. Você tem oportunidade de optar pelas unidades em que quer trabalhar. Minha primeira opção foi destilação e acabei indo para lá. O coque teve uma outra obra, fez uma unidade nova, a unidade 50, que pertence à destilação. Na época não fui indicada para acompanhar a obra e operação. Quando surgiu o coque, o TO me perguntou se eu queria ir. Fui e achei interessante. Mas eu queria acompanhar as obras na unidade e operar do início. Eu achava muito interessante. O coque tem essa particularidade do sólido, que não tinha na refinaria. Estou gostando da experiência. Vou contar algo que é mais pessoal, mas que envolve o profissional. Quando me separei foi bastante difícil. Foi algo inesperado. As pessoas tinham a idéia de que eu era uma pessoa muito forte. Só que foi uma coisa bastante violenta para mim e eu desabei. Fiquei um tempo afastada, conversei com a chefia, não tinha condições e voltei. Precisei voltar pro administrativo, porque teve a questão da guarda da minha filha. Uma das coisas que meu marido pediu foi a guarda da minha filha e um dos argumentos é que eu trabalhava em turno e não tinha tempo de ficar com ela. Voltei ao horário administrativo. Conversei com a chefia e não houve problema. A grande surpresa, para mim, foi ver como as pessoas me viam e como me tratavam. As pessoas costumam dizer que não se tem amigos no ambiente de trabalho, mas temos. Eu tive manifestação de carinho e apoio de pessoas que jamais imaginei, a começar pelo meu chefe. Estive aqui para pedir demissão, porque na época não via outra solução, mas o meu chefe disse: “Não, Cida. Você não está em condições de resolver nada. Vai para casa e se organiza. Quando achar que tem condições, você volta”. Acho que não levei uma semana, porque tive a tranqüilidade que precisava. Mesmo assim fiquei surpresa com a manifestação de carinho, porque achei que do jeito que as pessoas me enxergavam, jamais fosse ter isso. As pessoas olham: “Ah, você é forte. Sai dessa”. E não foi bem assim. Foi uma grande lição de vida. Quando as pessoas dizem: “Não se faz amigos no local de trabalho”. Eu digo que se faz sim. A partir desse momento aprendi muito mais no meu trabalho do que antes e me envolvi muito mais. Talvez até tenha sido a minha válvula de escape, mas me interei no trabalho muito mais do que antes. SINDICATO Sou sindicalizada, mas não participo ativamente. O sindicato era muito mais ativo antes do que agora. Agora a categoria está bastante descontente com o sindicato, porque não tem atuação nenhuma. Falta participação e briga pela categoria. Parece que tudo passa muito fácil. A gente está se sentindo exatamente assim. Eu acho válido. Como mulher, operadora e estando no horário, participo de muitas coisas nesse sentido. Já participei daquela campanha do aniversário da Petrobras. Apareci nos retratos e filmes. Ela passou na televisão, em horário nobre. Quanto mais eu puder contribuir, melhor, porque é a empresa que trabalho. Minha vida está toda em cima do meu trabalho e da minha empresa, desde meu pai. Acho muito bom. Se eu puder contribuir para melhorar, ótimo. A minha idéia era ficar três anos na empresa. Já estou a 15 anos e não me arrependo. Acho que foi uma boa intuição dele que segui. Ele sabia o que estava fazendo, porque gosto muito do meu trabalho.
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