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História
Por: Museu da Pessoa, 20 de junho de 2026

Setenta Anos Sem Parar um Dia

Esta história contém:

Setenta Anos Sem Parar um Dia

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Aqui ninguém é ninguém

Eu comecei a jogar no Comercial com 11 anos, e nunca mais saí de perto desse campo. Fui jogador, depois virei presidente, e nesse caminho todo fui vendo a várzea se transformar. Uma das coisas mais marcantes foi a bateria na beira do campo — acho que fomos nós que introduzimos isso aqui em Pirituba. Antes de começar o jogo, o pessoal se reunia, a maioria vinha da Mocidade Alegre, e fazia a batucada deles. A molecada toda queria aprender. Eu tentei tocar caixa, surdo, repinique, violão, não levava jeito para nada, mas aquilo impressionava muito. Depois, outros times também passaram a usar esse artifício, tanto no profissional quanto na várzea.

Mas nem tudo nesses anos foi festa. A parte mais dolorosa que eu passei aqui foi em 1998, na Copa Kaiser, num jogo no Caju. Faltavam dois jogadores, fui buscá-los, e quando cheguei ao campo estava havendo uma desinteligência entre um torcedor e um ex-presidente nosso. Fui tentar amenizar, o rapaz puxou uma arma, deu um tiro para o alto, apontou para mim, eu tirei a arma dele, caímos os dois no chão, ele conseguiu pegar de volta, atirou, me atravessou o corpo, levantou para atirar na minha cabeça, eu desviei e a bala pegou no ombro. Está alojada até hoje. Fiquei seis meses de convalescença e voltei a jogar.

Eu deletei do meu dicionário a palavra depressão. Minha vida, desde pequeno, foi toda com muita batalha, com muito esforço meu, e eu nunca tive tempo para ficar reclamando. Se você ficar chorando, você não vai conseguir. Foi com esse mesmo espírito que segui à frente do Comercial todos esses anos, mesmo com todas as dificuldades, porque o que eu sempre entendi da várzea é isso: aqui a gente convive desde o empresário até um indigente. Tem tudo quanto é tipo de gente num campo de várzea. Aqui ninguém é ninguém, aqui é um frequentador de campo de várzea. Aqui eu não sou advogado, sou o presidente. Quem faz o ambiente é você. Seja sempre, independente da...

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