Entrevista de Uilson Oliveira de Sá
Entrevistado por Maurício Rodrigues (P1)
São Paulo, 20 de junho de 2026
Projeto Memórias do Futebol de Várzea
Entrevista MFV_HV 005
Transcrito por Selma Paiva de Oliveira
Revisado por Anna Miranda
(00:22) P1 – Você é a quinta entrevista desse projeto e a gente vai fazer seis entrevistas.
R1 – Ok.
(00:33) P1 – Senhor Uilson, primeiro agradecer de novo a sua participação nesse projeto Memórias do Futebol de Várzea. Para começar eu quero que o senhor se apresente, falando seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R1 – Eu me chamo Uilson Oliveira de Sá, nasci na cidade de Araguaçu, Goiás, todavia vim para São Paulo com 11 meses. Sou casado com Cristiane Fátima Von Dentz de Souza Sá, possuo três filhos. Sou casado duas vezes. Tenho Bianca Andrade de Sá do meu primeiro casamento. Do segundo casamento eu tenho a Hellen Cristina Von Dentz de Souza Sá e Allan Von Dentz de Souza Sá.
(01:28) P1 – Eu queria que você me falasse o nome dos seus pais. Quais os nomes dos seus pais?
R1 – O meu pai chama Alcides Antônio da Silva e minha mãe chama Ana Oliveira de Sá. Todavia, no meu nome consta só o nome da minha mãe, porque quando nós viemos para São Paulo, com 11 meses, meu pai se separou da minha mãe nessa época e não me registrou. Aí minha mãe só me registrou no nome dela.
(01:53) P1 – E qual era a atividade que a sua mãe exercia?
R1 – Minha mãe sempre foi prendas do lar. Quando nós chegamos em São Paulo eu tinha 11 meses, eu sou o filho caçula de quatro irmãos, que seria a Tereza, José, Elisa e eu sou o quarto. Então, todos pequenos, na época, minha irmã mais velha tinha 11 anos, e eu tinha 11 meses. Como meu pai largou minha mãe e voltou para Goiás, a minha mãe foi trabalhar em casa de família, para sustentar os filhos.
(02:32) P1 – Você falou que aos 11 meses veio para São Paulo. Onde o senhor foi morar com a sua família?
R1 – Então, eu vim para São Paulo e vim morar aqui, no Picinin. É aqui, próximo à Edgar Facó. Praticamente uma travessa da Rio Verde.
(02:51) P1 – É a casa que o senhor tem de referência de infância?
R1 - É, a minha casa de infância. Eu morei lá até os meus 13, 14 anos, mais ou menos.
(03:00) P1 - E o senhor pode contar como era essa casa, o entorno?
R1 – É o seguinte: na realidade, era um cortiço, que tinha quatro casas. As duas últimas eram barracos e as duas primeiras eram de alvenaria. Devido a essa situação que nós tínhamos, na época, nós fomos morar no último barraco. Esse barraco tinha uma cozinha e um quarto. Nesse quarto aí dormia eu bebê, a minha mãe, minha irmã e meu irmão. E tinha uma cama de solteiro, que dormia minha irmã mais velha. Aí, com o passar do tempo meu irmão e minha irmã cresceram e começaram a trabalhar, aí nós fomos para o barraco melhorzinho, de cima. Aí foi melhorando, nós fomos para a casa de alvenaria. Aí foi melhorando, fomos para a primeira casa. Aí melhorou mais, nós fomos para uma casa maior, entendeu? Essa foi a minha infância.
(03:53) P1 – Sim. E como era o bairro, nessa época?
R1 – No bairro era muito bom aquela época de infância, não se falava em criminalidade, a gente podia brincar na rua à vontade, sem qualquer preocupação. As ruas, a maioria era de barro. Aqui na Edgar Facó era um riozinho, não era avenida. Aqui tinha os dois campos, do Comercial e do Satélite, aí na Edgar Facó, do lado esquerdo, onde tem a Barbotti, era o campo do Moinho Velho e só tinha uma linha de ônibus, que ia lá para Vila Iório. Depois Vila Iório-Praça do Correio e foi evoluindo com o passar do tempo.
(04:36) P1 – O senhor falou da sua mãe, que ela foi a responsável pelo seu cuidado e qual é a origem da família dela?
R1 – Minha mãe nasceu na Bahia, em Palmeiras, ali perto de Adamantina. Ela é mistura de português, acho que tem índio também, no meio; meu pai é índio com negro, e goiano, e tem essa miscigenação toda aí - que é normal do povo brasileiro.
(05:15) P1 – Sim. E o senhor lembra dessa época de infância, de ter algum momento que era um momento de reunião da família, que todos vocês estavam juntos?
R1 – Sim. Como nós morávamos próximos do meu tio, que era irmão da minha mãe e da minha tia, que era... na realidade, tanto por parte de pai, como por parte de mãe, morava tudo nessa regiãozinha aqui: Vila Iório, Picinin, Buraco do Sapo - que agora não sei nem se é Buraco do Sapo ainda -, sempre nesse miolinho aí. Então, eu lembro muito bem da minha infância, como nós não tínhamos televisão, o meu tio, que era meu tio Tele, tinha televisão na casa dele. Então, as reuniões, geralmente, eram na casa dele. A gente ia lá assistir, que nem a Copa de 1970 nós assistimos na casa dele. Eu lembro do Zorro, que eu assistia muito na casa dele, que era uma ‘febre’, todo mundo enchia a sala dele. Acho que em 1973, mais ou menos, nós assistíamos na televisão Nacional Kid, entendeu? A reunião era assim. Mas na pré-adolescência o que é marcante era na época que a gente fazia os bailezinhos na garagem, na sala. Cada semana era em um. A gente tirava os móveis da sala, pintava as lâmpadas de preto, para ficar o jogo de luz e a gente se reunia lá e fazia esses bailezinhos na garagem, ou na sala. E os bailezinhos também que tinha aqui: o Piritubão; o 878, quando saiu a época da discoteca ali na Coronel Bento Bicudo; o Siqueira, ali perto do Largo da Matriz. Aí tinha, na década de oitenta: baile, jogar bola e estudar. Era essa a nossa infância.
(07:12) P1 – Fala um pouco das brincadeiras que você gostava, na infância.
R1 – Dizem que eu era muito bom empinando pipa, que eu fazia uns pipas bons, ralava e dificilmente o pessoal conseguia me ralar – os pipas, que hoje até é proibido o uso do cerol. Mas era pipa, jogar bola, rodar pião, jogar bolinha, brincar de pega-pega, subir em árvores para colher frutas, andar descalço, entendeu? Essas eram as brincadeiras, na época. Nada de videogame, celular, era tudo a parte física que a gente usava, mesmo, para brincar.
(07:51) P1 – Sim. E o senhor saberia dizer a sua primeira memória, que tem a ver com futebol?
R1 – A gente sempre jogava bola na rua de casa e a gente brincava aqui, no campo do Comercial e ali, no campo do Moinho Velho. Eu, quando tinha 11 anos, o pessoal formou o time Dentinho e o Dentão do Comercial. O Sport jogava aqui e o Dentinho e o Dentão jogavam no campo do Moinho Velho, que é onde é a Padaria Barbotti hoje. E lá foi o primeiro passo, a primeira vez que eu coloquei – não tinha nem chuteira, coloquei um Kichute que eu ganhei da minha mãe, eu até estranhei. Eu estava acostumado a jogar só descalço. Estranhei domínio, isso e aquilo. Aí meu primeiro, quando eu comecei a jogar foi ali, no campo do Comercial, no Dentinho, no campo do Moinho Velho.
(08:46) P1 – Aí já campo, mesmo?
R1 – Campo. Já comecei no campo. E na escola a gente jogava futsal, os campeonatos internos da escola, onde eu, graças a Deus, ganhei por vários anos, lá. Mesmo quando estava na quinta série, que a gente era mais novo, pegava os garotos da oitava, que eram bem mais velhos, quatro anos mais velho, a gente conseguia, lograva êxito, ganhar deles, que nós tínhamos um time muito bom, na época da minha classe.
(09:12) P1 – E seja no futsal, como também no campo, que posição, nessa época, você gostava de jogar?
R1 – No futsal eu era líbero. No campo eu era meio de campo e atacante. Variava. Aí nós fizemos um amistoso, uma vez, com o Nacional e o pessoal gostou, e eu fui para o Nacional, nessa época aí. Infelizmente, devido à situação financeira da família, eu precisava trabalhar, então eu não segui a minha carreira de jogador, porque eu tinha que trabalhar, entendeu? Então, eu parei de jogar no Nacional e fui trabalhar e ficava jogando. Aí comecei a jogar nos times de várzea de final de semana, aí eu jogava futebol de salão, bastante, no Bela Vista, ali no Moinho Velho, que era considerado melhor time da época, no Vasquinho. Essa é a parte de infância.
(10:13) P1 – Sim. Me fala um pouco de quais são as lembranças que o senhor tem da escola, para além de jogar bola, dos torneios de quadra, como era o Uilson na escola?
R1 – Eu gostava muito da escola. A escola, além do estudo, tinha as coisas: a merenda, como eu tinha dificuldade de alimentação, na época, que a minha mãe saía para trabalhar e nós ficávamos lá, as minhas irmãs iam para a casa da minha tia, ajudavam lá, se alimentavam. O meu irmão, que era mais velho que eu nove anos, ia no bar, no açougue, para a mulherada, ganhava um dinheirinho, aí comprava pão com mortadela e Tubaína e a gente ia se virando. E na escola, a merenda lá, às vezes eu pegava duas, três vezes a fila e na hora do recreio tinha o futebolzinho que a gente jogava na quadra da escola, então a escola, para mim, era um ambiente muito agradável, porque eu podia praticar esporte, estudar e me alimentar.
(11:09) P1 – E quais escolas você estudou?
R1 – Eu estudei no “genso”, aqui na Edgar Facó, que é o Mathias Aires; estudei no Flamingo, colégio técnico em Administração; aí fiz faculdade de Direito e fiz pós-graduação em Direito Penal e Processual Penal.
(11:26) P1 – Antes da gente falar um pouco dessa trajetória na várzea, eu queria que o senhor falasse um pouco, o senhor falou um pouco da juventude, ali, dos bailes e quando o senhor começou também a precisar trabalhar? O senhor falou que foi uma coisa que apareceu.
R1 - Trabalhar mesmo, assim, registrado, comecei com 14 anos, mas eu sempre trabalhei. Saía da escola, às vezes eu ia na feira, fazer carreto. Fazia um carrinho, pegava rolimã, para carregar as sacolas das mulheres da casa, ia na venda para a mulherada também, elas davam um dinheirinho para a gente, para comprar pãozinho, bife - porque aquela época o pessoal só gostava de comer coisa fresca, então comprava o bife para o almoço, à tarde comprava o bife para a janta, era diferente. Também trabalhei na feira, com 12 anos. Então, a infância foi estudando, trabalhando e se divertindo, então não tinha muito... e de final de semana tinha os bailezinhos, então foi uma infância difícil, mas muito agradável, entendeu? Eu acho que a minha infância foi maravilhosa. Apesar de todos esses percalços aí, eu achei que a minha infância foi maravilhosa.
(12:49) P1 – E como é que você foi direcionando trabalhar, por exemplo? Você falou que fez o curso técnico...
R1 – Aí eu, com 14 anos, comecei a trabalhar, terminei o ginásio, de office boy, ali na Lapa de Baixo. Depois de seis meses eu fui promovido para auxiliar de escritório e eu ia fazer o colegial, que na época só tinha colegial ali, no Piqueri, eu ia fazer lá, mas aí a empresa me ofereceu uma bolsa de estudos, para fazer curso em Administração. Aí eu fiz um curso técnico de Administração de Empresas.
(13:26) P1 – Me fala um pouco dessa trajetória de trabalho, porque o senhor vai fazer faculdade de Direito. Como é que foi fazer depois a faculdade?
R1 – Aí eu trabalhei nessa empresa como auxiliar de escritório, depois eu fui assistente do Departamento Pessoal, aí essa empresa mudou para a Mooca, me chamou para eu ir, me deu para tomar conta do Departamento Pessoal, uma empresa alemã, de automação industrial, fabricava maquinário para indústrias têxteis e, como era muito longe, eu não fui. Aí eu fiz um teste ali, no Banco Finasa e fui trabalhar no Banco Finasa, DPCD do Banco Finasa, hoje é do Bradesco, ali, antes da Ponte do Piqueri.
(14:20) P1 – E aí, nesse momento, como era que o senhor se organizava para continuar jogando bola, já que não foi possível fazer uma carreira no futebol?
R1 – Aí eu comecei a jogar no final de semana. No futebol de salão aí já estava adulto, eu joguei em alguns times que não eram profissional, mas eram considerados, eles até pagavam um dinheirinho, joguei na Bordon; no Clube Aquático do Bosque, lá na Saúde; um período curto no Gercan; no Banespa, lá da Borba Gato. E joguei em vários times de salão aqui também, na região nossa. Então, durante a semana geralmente eu jogava salão. Eu jogava muito futebol…jogava sábado de manhã salão, sábado à tarde campo. E, nessa época domingo de manhã eu jogava salão no Bela Vista, que era a quadra do Gordo, aqui, que era próxima à Edgar Facó e à tarde eu jogava aqui, no Comercial, que era campo.
(15:26) P1 – Sim. Então, durante a semana o senhor trabalhava regularmente, aí final de semana...
R1 – É, era bem corrido. Futebol durante o dia e os bailezinhos durante a noite.
(15:37) P1 – Isso é mais ou menos com que idade?
R1 – Mais ou menos isso daí a partir dos 16 anos, mais ou menos, era isso.
(15:50) P1 – E o senhor recebia... imagino que era alguém que jogava bem, que era convidado para ir jogar nessas equipes.
R1 – Eu joguei aqui, em várias equipes, tanto no salão quanto no campo, da região da Lapa, Pirituba, Freguesia do Ó.
(16:07) P1 – Sim. E aí chegava muito convite para o senhor jogar?
R1 – Sim, eu jogava em muito time. Você quer que eu mencione alguns?
(16:13) P1 – Por favor.
R1 – Jogava no Comercial; joguei no XI Garotos do Piqueri; no Sete de Setembro, da Freguesia do Ó; no XI Canarinhos, da Freguesia do Ó; no 25 de Maio, da Freguesia do Ó; no Cometa; no Sampaio Correia; no Regina; no Texa; no São Bento; no Lapeaninho; no Alviverde, da Itaberaba; no São Remo; joguei no Escondidinho; no Prelúdio do Buraco do Sapo, quando era bem novinho ainda; no Onze da Vila, do Buraco do Sapo. Que eu me lembro... tem mais alguns, ainda.
(17:14) P1 – São todos aqui da região?
R1 – São.
(17:17) P1 – Como é que era, nesse momento, o cenário do futebol de várzea?
R1 – O futebol de várzea era bem simples. Naquela época não se falava tanto em dinheiro que nem se fala hoje, nem no âmbito profissional, nem no de várzea. Tanto é que, na década de setenta, muitos jogadores profissionais, na hora de folga jogavam nos seus times, nas suas vilas, entendeu? Então, manutenção nós mesmos que fazíamos, tinha um que levava camisa para lavar, aí tinha o técnico, aí tinha o que ajudava, cada um, às vezes, pagava a mensalidade, para ajudar a manutenção do time, entendeu? Então, era bem diferente do que é hoje.
(18:06) P1 – E quais eram os principais torneios que o senhor jogava, que era convidado para esses times, para jogar?
R1 – Eu joguei Kaiser, Copa Arizona, Olavo Setúbal - era o prefeito na época -, Vítor Sapienza. Mais ou menos que eu me lembro é desses, mas tem mais ainda, de menos nível capital, entendeu? Tem outros que eram a nível de bairro. De região, aliás.
(18:58) P1 – O senhor falou que começou a jogar no Comercial ainda na época de Dente de Leite.
R1 – É, com 11 anos.
(19:04) P1 – Eu queria que o senhor contasse um pouco da sua relação com o Comercial.
R1 – O Comercial eu comecei a jogar com 11 anos, aí eu fui para o Nacional, aí eu fiquei um período sem jogar no Comercial, devido ao trabalho, depois eu voltei para o Comercial. Eu parei de jogar no Comercial mais ou menos... eu não lembro a data, mas na década de setenta. Voltei em 1986, que aí minha agenda conciliou. Eu joguei muito nos outros times aqui, não dava para jogar no Comercial por causa da agenda. Aí eu voltei a jogar no Comercial, que jogava de domingo à tarde aqui, em 1986. De 1986 para cá eu estou aqui até hoje. Ou como jogador, ou como presidente, ou como diretor, ou como colaborador, eu estou aqui, desde 1986, sem parar.
(20:00) P1 – Sim.
R1 – Mas eu comecei aqui acho que foi em 1969, se eu não me engano…talvez 1971. Mas eu acompanhava o Comercial desde os seis anos. Quando o Comercial ia jogar, na época, aos seis anos, meu irmão me levava. O Comercial saía com os ônibus, ia jogar fora, saía cinco, seis ônibus ali, do Padre Mariano Ronchi, que era a sede, na época. Um bar que a gente usava como sede. Aí você tinha que chegar cedo lá, para pegar um lugar no banco, senão ia muita gente, né? Aí comecei a jogar, com 11 anos, mas desde os seis anos que eu acompanho o time.
(20:31) P1 – E antes mesmo de começar a jogar, o senhor se lembra de alguma experiência que tenha sido marcante acompanhando o Comercial?
R1 – O que era marcante, inclusive acho que foi ele que introduziu na várzea, a bateria na beira do campo. Eu acho que antes não tinha bateria na beira do campo. Então, eu lembro que antes de começar o jogo do Comercial o pessoal se reunia ali - que a maioria era da Mocidade Alegre, que tocava lá -, e eles faziam a batucada deles ali e a molecada toda queria aprender. Eu tentei várias vezes tocar alguma coisa, mas não levava jeito, entendeu? Tentava tocar caixa, não conseguia; surdo, não conseguia; repinique, não conseguia; depois tentei tocar violão também, não consegui, então eu não tenho afinidade nenhuma com instrumentos musicais, entendeu? Então, impressionava muito a bateria, chamava muito a atenção nessa época. Se eu não me engano, começou em 1971. Aí, depois disso, a gente começou a ver outros times também usar esse artifício aí nas equipes de futebol, tanto profissional, como de várzea.
(21:46) P1 – Sim. E o senhor falou que em 1986 é quando o senhor joga e começa a ter uma relação direta e permanente com o Comercial. Queria que o senhor falasse um pouco como foi essa relação. Imagino que nesse primeiro momento aí como jogador e participando das competições de esporte. Fala um pouco da relação nesse momento.
R1 – A partir de 1986, que nós começamos a jogar aqui, de domingo à tarde, aí nós disputávamos os campeonatos, às vezes. Em 1987 nós fomos campeões da Copa Primavera. Em 1989 nós fomos campeões regionais, lá no Centro Educacional. Fomos vice-campeões do Varzeano de São Paulo, com mais de mil times. Acho que fomos vice-campeões duas ou três vezes. Fomos campeões da Sapienza. Fomos campeões da Copa Pirituba. E chegamos em vários campeonatos da Kaiser, sempre chegava entre os oito. Chegamos a fazer a semifinal…terceiro, quarto, quinto, sexto, sétimo, sempre ficava no começo, entre os melhores de São Paulo, entendeu?
(23:40) P1 – E quais que eram as principais rivalidades, nesse momento?
R1 – Então, a princípio a principal rivalidade que nós tínhamos aqui em Pirituba o Escudo Negro, que era ali, do Santa Mônica. Aí o Escudo Negro fechou e no lugar começou o Praça de Pirituba. Depois, mais para frente, se tornou o Danúbio, da Freguesia do Ó e o Vida Louca, que eram os times que eram parelhos com o Comercial. Eles também conseguiram formar grandes equipes e ficaram num nível muito bom também, então a princípio era o Escudo Negro; o São Carlos, o Mangalot, era um rival na década de setenta, muito parelho com o Comercial, entendeu? O São Carlos, o Mangalot, depois o Escudo Negro, Danúbio e Vida Loka.
(24:41) P1 – Sim. E quando tinham essas disputas que eram maiores na cidade, quais eram os principais embates que o Comercial tinha?
R1 – A nível São Paulo?
(24:50) P1 - É.
R1 – Nós tínhamos o Botafogo, de Guaianases; o Paulistano, do Jardim Coimbra, que desclassificou na semifinal da Copa Kaiser, nos pênaltis. Perdemos para ele a final do Varzeano de 1994, no Estádio Municipal do Embu, também nos pênaltis, era um time que dava muito trabalho para nós. O XI Garotos, do Ermelino Matarazzo. O Boa Esperança, de São Mateus. E o Ajax, da Vila Rica. Mãe Sara, da zona sul, também. Tivemos vários embates com Mãe Sara.
(25:32) P1 – E o senhor se lembra como era a preparação para o jogo, no domingo à tarde? Como é que o senhor se preparava? Como era a preparação do time para um jogo?
R1 – A preparação, geralmente era na parte que eu era jogador, o técnico, a diretoria ficava ligando, para ver se você ia vir, não ia vir. Não tinha uma preparação física. A preparação física quem fazia era a própria pessoa, que se cuidava, da sua forma física. Agora, quando era campeonato, a gente se reunia antes. Por exemplo: na época da Copa kaiser, como o jogo era uma hora, não dava tempo para o pessoal almoçar, a gente marcava aqui, no salão, dez horas da manhã, aí tinha um café da manhã que o pessoal tomava, aí tinhas as palestras, se preparava para ir para os jogos, entendeu? Era essa. Preparação não tinha, assim, igual, vamos dizer, time profissional, entendeu? Então, um aquecimento bem precário, antes dos jogos, entendeu? Era assim.
(26:44) P1 - E essa relação dos jogadores do comercial o senhor manteve até que ano, até que idade?
R1 – Como jogador?
(26:53) P1 – É. E aí participando dessa categoria esporte.
R1 – Eu fiquei no esporte até mais ou menos quarenta anos de idade, aí eu vi que não dava. Primeiro eu jogava no primeiro quadro do Comercial, que era o time principal, aí fui ficando velho, foi perdendo um pouco a força física, aí eu comecei a jogar no segundo quadro. Aí, no segundo quadro, parei com quarenta anos, mais ou menos. Aí nós criamos o veterano do Comercial. Aí, com o veterano, eu joguei até uns 55 e depois continuei jogando até os sessenta, mais ou menos, aí eu tive um problema na coluna, fiz uma cirurgia, infelizmente ela não saiu a contento, houve um sangramento, foi para a medula, travou minha L5, eu perdi o movimento do pé esquerdo. Aí eu parei de jogar, com 59 anos, mais ou menos.
(27:52) P1 - Sim. Na sua experiência de campo, de jogador, quais foram os jogos mais marcantes que o senhor tem uma lembrança, que tenha sido marcante?
R1 – Nós tivemos vários campeonatos que nós logramos êxito em ganhar, mas o que me marcou foi o campeonato de 1989. Nós fomos campeões regionais lá no Centro Educacional de Pirituba e eu lembro, o campo estava muito cheio. Para mim, pode ter outros, mas foi esse.
(28:31) P1 – O senhor pode contar um pouco como foi a campanha, o jogo da final, da conquista?
R1 – Essa campanha nós fizemos invicta, chegamos na final, quando Unidos de Pirituba tinha vários jogadores que eram do Palmeiras, que eles reforçaram: Zé Rubens, Tonigato, tinha um jogador da Portuguesa que eu esqueci o nome. Eles tinham uma bela de uma equipe. Nós tínhamos também uma bela de uma equipe, só que na final, esse campeonato foi em janeiro. Nós tínhamos o Barão que, na época, era do Palmeiras, estava emprestado para Catanduvense, que jogava na primeira divisão do campeonato paulista e ele teve que se reapresentar e ele voltou. Aí o outro jogador nosso também, que era o Zinho, que era principal, tinha viagem com a família para a praia, e foi para a praia. E assim, mesmo desfalcados, nós ganhamos essa final, de 2 a 0. Eu tive a sorte de fazer um dos gols, um gol meu e outro do Linguiça, e nós fomos campeões. Eu lembro, na época eu tinha um Escort XR3 conversível e nós viemos do Centro Educacional até aqui com eles dentro do carro, carregando na capota do carro, aberta, lá, até chegar aqui. Um monte de carro, os ônibus todos acompanhando, foi marcante essa...não só pelo campeonato, mas pelo contexto, em si. Tudo que envolveu, entendeu? Aí nós fizemos a festa aqui, por muitas e muitas horas.
(29:56) P1 – E como foi seu gol?
R1 – Meu gol foi o seguinte: o ponta-esquerda, Nenê, foi um escanteio e ele cruzou e eu subi, de cabeça e fiz o gol. Incrível que também o outro gol foi de cabeça. Os dois gols que nós fizemos na final foram de escanteio, de cabeça, porque foi um jogo muito parelho, muito disputado e foi decidido em bola parada, os dois gols foram de escanteio, porque o time deles era muito forte, também.
(30:23) P1 – Sim. Você falou que ficou por muito tempo ligado, jogando veterano, mas você também vai ser presidente do Comercial.
R1 – Aí eu me tornei presidente, fiquei muitos e muitos anos como presidente. Nós tínhamos também o bloco de carnaval do Galo de Pirituba, que foi fundado em 1983. Quando foi criado o Sambódromo, no carnaval do bloco especial, em 1991, o Comercial foi campeão lá, o Galo de Pirituba foi campeão. Aí, em 1995, teve um problema com o presidente lá, que ele teve que sair. Nós tínhamos a quadra, aqui na Edgar Facó, que nós acabamos perdendo depois porque a prefeitura ia tomar. Nós tínhamos uma concessão de cem anos lá, mas o presidente, infelizmente, na época, foi preso e ia perder. Aí o pessoal aqui, eu estava jogando bola aqui, o pessoal que era do samba, lá: o Paulão, bem conhecido a nível de São Paulo, foi mestre de bateria do Mocidade; o Lambreta; o Tibagi; me procuraram aqui, depois do jogo, se eu tinha possibilidade de assumir o Galo, porque a prefeitura queria uma pessoa de responsabilidade, que colocasse ordem na casa, lá, no bloco, tal, isso e aquilo. Eu falei assim: “Pô, mas eu não sou do samba, eu sou do futebol, não conheço nada de samba” “Não, mas tal, isso e aquilo”. Aí me convenceram eu assumir o Galo de Pirituba também. Fui presidente do Galo de Pirituba e do Comercial, que eram entidades e CNPJs diferentes, mas o Galo de Pirituba era da torcida do Comercial. Vamos dar como exemplo Gaviões com o Corinthians; Mancha com o Palmeiras, era nessa mais ou menos. Mas eu acabei sendo presidente, na época, dos dois. Eu fiquei por pouco período, até ajeitar a casa, ajeitei e depois eu passei para o mundo do samba. Aí eu fiquei no Comercial, como presidente, acho que até 2010 ou 2011, eu não me lembro direito e fiquei ajudando por fora. E participo da diretoria aí, no que eles precisarem eu estou sempre à disposição, porque é o meu time de coração. Na várzea é o meu time de coração.
(32:56) P1 – Até aproveitando, o senhor falou também do Galo, eu queria saber se o senhor conhece a história do nome Comercial e da escolha do galo como símbolo?
R1 – O Comercial foi fundado em 29 de março de 1956. Na época, ali no Picinin, na mesma rua que eu morava, que era Rua UVX... eu morava lá em cima, no morro e lá embaixo tinha o Ganha Pouco, era um supermercado dos irmãos - Manoel, Mazola, o Nego. Eles resolveram montar o time dos comerciantes. O nome Comercial vem do comércio. Aí eles montaram o time dos comerciantes, do Comercial. Esse foi o início, a origem do Comercial é do comércio.
(33:54) P1 – E da escolha do galo como símbolo?
R1 – Na realidade, surgiu o Galo de Pirituba...eu não me recordo bem a origem, porque antigamente nós éramos ECC (Esporte Clube Comercial), não tinha nem o galo. Aí, como eles achavam que o Comercial era um time muito briguento da várzea, e tinha uma enorme torcida, aí é o galo, cantou: “Aqui é o galo”. O galo briga. Aí deu origem ao nome do Galo, mas eu não me lembro o ano que nós começamos a utilizar o galo. Nós fizemos o emblema com o galo, acho que foi na década de oitenta.
(34:47) P1 – E a torcida, então, era o Galo de Pirituba?
R1 – O Galo de Pirituba, porque era uma torcida briguenta. Onde ia jogar ‘botava’ respeito. Era na zona sul, na zona norte, na zona leste, que era muito... zona sul e zona leste, lá para o fundão, era bem forte. Osasco também era bem forte, mas o Comercial chegava, tinha um pessoal que ‘botava’ respeito, entendeu? Não brigava com ninguém, mas se os ‘caras’ quisessem brigar...
(35:14) P1 - ... estava preparado.
R1 - ... era um time que não corria, não.
(35:16) P1 – E o senhor lembra mais ou menos como eram essas caravanas, quantos ônibus iam, para acompanhar?
R1 – A gente, no começo, quando ia jogar fora, campeonato ou festival, saía ali da Padre Mariano Ronchi, uma média de seis ônibus, fora os carros. Até hoje nós temos que ter ônibus, porque nós temos a bateria, fora os carros. Nós chegamos a colocar cinco mil pessoas... oito mil pessoas no Nacional da Água Branca. Ah, nós fomos campeões também do Campeonato Juscelino, deputado na época, lá, que a final foi na Água Branca. Aqui, no campo do Vida Loka, nós fizemos contra o Danúbio um jogo que nós colocamos de quatro a cinco mil pessoas também. No Centro Educacional, nessa época que nós fomos campeões, em 1989 - que eu citei que é uma das passagens marcantes -, também tinha cerca de cinco mil pessoas. Então, a gente sempre colocou bastante torcida nos eventos.
(36:30) P1 – Sim. E a sua atuação, o convite para que o senhor atuasse como presidente veio também da sua carreira como advogado?
R1 – Não como advogado, mas sim minha trajetória como jogador ligado ao time, entendeu? E também a consideração e o respeito que o pessoal tinha por mim. Então, eles acham que eu ficando no comando poderia organizar melhor o time, administrar melhor o clube, porque o pessoal me respeitava, graças a Deus.
(37:19) P1 – ‘Seu’ Uilson, como que é ser presidente de um time já com uma tradição, como o Comercial? Como é que foi ser presidente?
R1 – Não foi fácil, não. Eu tive que abrir mão de muitas coisas da minha vida, principalmente com a minha esposa, com meus filhos, porque o final de semana é o seguinte: a gente... tudo bem, durante a semana, queira ou não, era jogador ligando, diretor, ajeitando como ia ser o jogo da semana, quando era amistoso falando com os outros presidentes dos clubes para marcar amistoso, entendeu? Quando era campeonato, tinha que fazer contato com os jogadores. Quando começou a Copa Kaiser, que era a maior Copa da capital da época, começaram a pagar..antigamente aqui, na nossa região, os melhores jogadores de outros times queriam jogar no Comercial. Então, se a gente visse que algum garoto se destacasse em outra equipe a gente convidava para vir no Comercial, se queria vir fazer um teste, jogar, tal, então a gente conseguia reunir o melhor que tinha, na região, no nosso time. Então, a gente sempre tinha time forte. Aí, na Copa Kaiser, a “gemadeira” começou a capitalizar, oferecer emprego, dar prêmio, deram até veículo para jogadores. Aí começou a tirar os melhores jogadores dos times de várzea. O que aconteceu? Aí, os outros times, para se manter, tiveram que também começar ajudinha - ajudar a bancar a gasolina do jogador, que antigamente a gente pagava cerveja, churrasco, depois do jogo, um refrigerante. Aí começou a dificultar mais. A gente tinha uma diretoria de dez membros, que colaboravam com um valor mensal, para ajudar nas despesas; algumas empresas que a gente pedia patrocínio; a gente fazia camisa, rifa, vendia muita camisa do Comercial, para arrecadar dinheiro e o que faltava eu completava, tinha o Mineiro também, que completava, que era um dos diretores, para manter um time bom. Então, final de semana a gente ficava correndo atrás disso. Às vezes: “Vamos viajar?” “Não dá, porque tem esse compromisso” “Não vou poder vir, porque...”, aí o pessoal tal e tal. aí em 2010, ou 2011, eu falei assim: “A partir de hoje eu não sou mais presidente do Comercial”, então o Reinaldo assumiu o Comercial - ele pensou que era fácil -, ficou um ano e não aguentou. Aí assumiu o Wesley, que é o atual presidente, está até hoje. A partir de então eu comecei a poder viajar mais com a minha família e desfrutar o final de semana. Nem para a minha chácara, que fica pertinho aqui, que eu tenho em Mairiporã, eu conseguia ir, entendeu? Então, depois que eu me desliguei da presidência, que era uma responsabilidade muito grande, estou te falando. Não é só o jogo…o pré-jogo, durante a semana era um monte de coisa que você tinha que ficar providenciando, até chegar no dia do jogo. A bateria quebrava um couro do instrumento, aí eles ligavam, o mestre de bateria: “Preciso de um couro, disso para arrumar”. Então são vários fatores que você tinha que preparar, para que no dia do jogo estivesse tudo a contento, para que o jogador pudesse desenvolver o melhor futebol dele. Tinha um massagista também, que a gente pagava para os jogadores antes dos jogos, depois dos jogos, isso e aquilo. Se alguém se machucava a gente dava, também, uma assistência, para fazer uma fisioterapia, ou um tratamento. Então, corria tudo isso nos bastidores, então não era fácil. O pessoal só pensa na hora do jogo, mas o pré-jogo é difícil, não é fácil. Então, eu resolvi deixar de ser o presidente no papel, para poder curtir mais a minha família, sem responsabilidade. Continuo aqui, mas se eu precisar viajar, eu vou viajar, entendeu? Se eu precisar sair, eu vou sair. Porque, graças a Deus, hoje nós temos o presidente Wesley, que está dando continuidade ao nosso serviço. Agora, eu quero enfatizar uma coisa que, nesses setenta anos, o Comercial, eu acho, se não for o único, é um dos poucos que nunca parou, que a maioria dos times de várzea param por um período, voltam. O Comercial, nesses setenta anos de existência, nunca parou um dia.
(41:43) P1 – Sempre se manteve?
R1 – Sempre ativo.
(41:45) P1 – Hoje tem quantas categorias? Quais são as categorias?
R1 – Aqui, na realidade, nós temos escolinha, o esporte e temos o veterano. Não temos mais, que antigamente nós tínhamos o segundo quadro, agora não tem mais, agora é só esporte e o veterano.
(42:06) P1 - Eu queria que você falasse, porque hoje é um CDC [Clube da Comunidade], o campo agora é com gramado sintético, mas muito tempo era um campo terrão.
R1 – Em 1976 o prefeito Jânio Quadros transformou as áreas - que aqui era uma área aberta – em CDCs [Clube da Comunidade], para ajudar a comunidade. Então, aqui nós tínhamos quadra de futebol de salão, society de areia, bocha, um monte de coisa. Aí se tornou CDC e o campo era de terra. Aí acho que, se eu não me engano, no governo Pitta [Celso Pitta], ele resolveu fazer aqui, no nosso CDC, um estádio de hóquei para patins, que só tinha em Sertãozinho e eles queriam fazer aqui para ter na capital. Aí começou a obra, derrubaram a nossa quadra, tudo que nós tínhamos aqui: salão, quadra de society, a bocha para os velhinhos jogarem - destruiu tudo e começou a fazer o ginásio. Aí mudou o prefeito, a Marta [Suplicy] assumiu, parou a obra, aí nós ficamos com um pedaço das arquibancadas. Aqui tinha um monte de ferro das estruturas, a gente não podia usar as estruturas, falamos para eles retirarem, eles não retiraram, a prefeitura falou que a gente tinha que se virar. Aí a gente arrumou uma empresa aí que cortavam ferro, aquelas estruturas gordas, em troca eles limparam para nós e ficaram com os ferros. Então, nós perdemos uma grande área nossa, aqui. Aí, em 2015, naquele projeto da Ambev, da Brahma, dos campinhos, nós logramos êxito que fosse construído, como primeiro campo, o nosso, aqui. Em 2015 nós colocamos a grama sintética. Inclusive, na inauguração teve a presença do Ronaldo, O Fenômeno e da Sabrina Sato. Aí teve o evento e depois, em conluio com a Ambev, eles promoveram...cada campinho que eles fizessem, ia fazer um jogo entre as equipes e o Ronaldo ia escolhendo para montar 22 jogadores, depois ele ia fazer um jogo final, para escolher um, para ele mandar para o time dele, do Valladolid, lá da Espanha, que ele era presidente do clube. Aí nós fizemos o jogo-festa aqui, do Comercial e nós convidamos o Regina, com a presença do Ronaldo, e ele escolheu um jogador. Aí, na escolha do jogador que ia para lá, também foi aqui. Aí veio o Ronaldo, o Cafu, o Zetti, o Edmilson, para eles escolherem esse jogador. Então, foi tudo aqui. Como nós tínhamos um salão ali, atrás, que eles usaram o vendo, depois eles fizeram um almoço. Então, a partir de 2015, com a ajuda da Ambev, que virou grama sintética.
(45:14) P1 – Sim. Aqui, o CDC, além de ser o campo do Comercial, também...
R1 – É o CDC Jardim São José, que eu sou presidente atualmente.
(45:25) P1 - E quais as atividades, que outros grupos, time usam esse espaço hoje?
R1 – Aqui nós temos as escolinhas, de segunda-feira a sexta-feira, no período da manhã, tarde e noite. Aí, no final de semana, tem os times que fazem uso aqui do espaço. De sábado de manhã o veterano do Comercial, o veterano do Grêmio, aí a tarde geralmente tem jogos de escolinha, ou de campeonato, aí domingo de manhã joga o Bia, o Vila Real, e à tarde, também, geralmente tem campeonato. Essas as atividades. Como nós perdemos o futebol de salão e o society...
(46:23) P1 – Porque aqui eram dois campos antes?
R1 - Antes de ser CDC. Até 1976 tinha um campo aqui e tinha esse daqui. Era esse campo e esse campo.
(46:33) P1 – Esse é o sobrevivente
R1 – No CDC, quando fizeram, em 1976, eles usaram essa área aqui, para construir a quadra, a bocha, o society. Tinha uma sede grande. E aqui ficou só o campo. Em 1976 virou um campo só.
(46:54) P1 – Sim. O senhor falou um pouquinho, ainda na época que o senhor era presidente, já de um processo de, talvez, uma maior profissionalização da várzea, de haver ali um recrutamento de jogadores ali, para serem pagos, para jogarem para os times. Como é que o senhor vê o atual momento do futebol de várzea, grandes torneios?
R1 – Infelizmente, para a gente que vive da várzea há décadas, o futebol de várzea praticamente ficou semiprofissional. Acabou aquele amor que nem eu tinha mencionado para você: vários times na região tinham vários campos - que acabaram também -, e os melhores jogadores queriam jogar no Comercial, porque era um time de tradição. Então, a pessoa vinha jogar no time, porque era o time que ele gostava, da comunidade dele. Aí o que aconteceu? Como eu havia mencionado para você, o time que tinha dinheiro, empresas que tinham time, começaram a oferecer um ‘bicho’ por jogo e os melhores jogadores iam levando e às vezes o garoto estava sem trabalhar e falava assim: “Infelizmente eu vou deixar de jogar, porque eu vou ganhar um dinheiro lá na zona norte, ou na zona sul, ou na zona central, ou na zona leste, entendeu? Então, muitos jogadores de Pirituba se espalharam por São Paulo. Então, ficou muito difícil manter. Nós, que vivemos da renda da própria comunidade, dos próprios diretores, do bar que ajuda, do Comercial e a venda de camisa, fica difícil para montar um time no nível que o Comercial sempre teve.
(48:49) P1 – E o senhor estava falando a dificuldade de ter um time da categoria esporte competitivo como em outros momentos, mas que em categorias, por exemplo, como veteranos, cinquentão...
R1 – O veterano, nosso cinquentão, a gente, graças a Deus, é aquele pessoal que jogou no Comercial na época do auge, que tem aquela tradição, então o pessoal vem jogar no Comercial, porque gosta do Comercial, aprendeu a gostar por tradição. Então, no veterano a gente não paga ninguém e nós fomos campeões de vários campeonatos. Eu mesmo fui campeão do veterano no Sete, no Liderança. Fomos vice-campeões, lá no campo do Flamenguinho, da Vila Maria…mas sem pagar. Os outros times pagavam e nós só na amizade. E a gente chegava, pelo amor ao clube desde a época quando era esporte.
(49:49) P1 – E qual é a importância desse tipo de vínculo, já em um outro estágio que não é aquele da competição do esporte, mas ainda se mantendo em competição do veterano?
R1 – O Comercial é o que eu te falei: eu joguei em vários times, gosto de todos eles, mas o Comercial faz parte da minha vida. A primeira vez que eu fui em um campo, com meu irmão, quando eu tinha acho que cinco, seis anos, foi para ver o Comercial, na beira do campo, entendeu? E ali comecei a gostar de futebol…a gente jogava na rua, lá, jogo de golzinho, tal, isso e aquilo e a primeira vez também que eu entrei no campo, para jogar, que eu vesti uma camisa de futebol, foi no Comercial. Então, a paixão que eu tenho pelo Comercial é eterna.
(50:36) P1 – ‘Seu’ Uilson, como o senhor vê, hoje, a relação do time com a comunidade aqui, de Pirituba, do entorno aqui, da região?
R1 – O Comercial, é o que eu te falei, devido essas dificuldades financeiras para manter o time, a gente só tem condições de...no aniversário do Comercial a gente traz as melhores equipe de São Paulo aqui, lota, todos os jogos nossos têm bateria e quando é jogo de campeonato, a gente...sempre a comunidade...um exemplo: a gente vai em um jogo, começa o campeonato: cem pessoas; aí o time vai indo bem: duzentas pessoas; aí vai indo bem, se a gente chegar é quatro, cinco mil. Aí o pessoal quer ver o Comercial... aqui tem uma turma ainda da antiguidade, que costuma ver o Comercial sempre, grande, então quando o Comercial vai chegando, o pessoal vai chegando de novo, entendeu? Agora, a nossa torcida fixa é enorme também e vai se renovando, a maioria hoje é jovem, entendeu? O pai levava para assistir quando era pequeno, vai ficando no lugar dos pais, entendeu? Então, a torcida do Comercial é considerada a torcida do Corinthians da várzea. É muito amor.
(51:46) P1 – E o senhor tinha falado também um pouco antes que tem um pouco daquela coisa de facilitar, trazer também as pessoas para participarem, de algum tipo de ajuda também, para que as pessoas possam ir. Como que é isso hoje?
R1 – Sim. Hoje é a mesma coisa: toda vez que a gente vai jogar fora, pode ser um festival, um campeonato, vai no mínimo com dois ônibus, fora os carros. Reúne a bateria antes, a bateria chega bem antes, confere os instrumentos, se está tudo em ordem, aperta o que tiver que apertar lá, os couros, se prepara. Tem um pessoal da bandeira, que prepara as bandeiras. Se reúnem e vão para os jogos.
(52:37) P1 – A gente já está indo para a parte final da entrevista, eu queria que o senhor dissesse qual foi a experiência mais difícil, desafiadora que o senhor viveu no jogo de várzea.
R1 – A parte mais dolorosa que eu passei aqui no Comercial, na minha vida... passei várias, que infelizmente o mundo da várzea não é fácil, não. Você encontra pessoas boas e ruins. Nós estávamos disputando a Copa Kaiser, em 1998, um jogo lá no Caju, ali no Jaguaré, no campo do Caju. O jogo era às 13 horas e nós estávamos faltando dois jogadores, que acho que tinham ido fazer vestibular, alguma coisa e estavam atrasados…estavam aqui em Pirituba. Aí eu saí do campo correndo, peguei meu carro, vim até Pirituba buscá-los e quando eu cheguei no campo do Caju, estacionei meu carro, os jogadores foram se trocar, correndo, e estava havendo uma desinteligência com dois...um ex-presidente e um dos torcedores do Comercial - o rapaz estava alterado, lá. Aí o pessoal falou assim: “Sá, vai lá e tenta amenizar lá, conversa com o ‘cara’”. Aí eu falei para o ‘cara’, cheguei lá e falei assim: “Calma, não vai ter briga, não, que não sei o que, não sei o que lá” “Não, que não sei o quê”...o ‘cara’ puxou uma arma e eu falei: “Calma, calma”. Aí ele deu um tiro para o alto. Aí ele falou assim: “Você não está ‘botando’ fé, não?” Eu falei: “Calma, ‘meu’, calma, não vai ter briga, não, confusão”. Aí ele apontou a arma para mim. Nós estávamos na calçada, ali, da entrada do estacionamento. Quando ele apontou a arma para mim, ele já tinha dado um tiro para o alto, eu fui lá, peguei a mão dele, empurrei, tirei a arma, só que quando eu tirei a arma dele, estava perto da guia, tropecei eu e ele e caímos os dois na guia. A arma caiu ali, ele aqui e eu caí aqui. Eu segurava a cintura dele, e todo mundo correu. Ninguém ajudou. Aí ele tentou pegar a arma, pegou a arma, segurava assim, uma hora que eu cansei, ele pegou a arma, me deu um tiro, pegou aqui, transfixou, atravessou. Aí ele levantou, foi dar um tiro na minha cabeça, eu desviei aqui, pegou aqui, no meu ombro, a bala está alojada até hoje. Aí me socorreram no Hospital da Lapa, ali, aí eu fiquei internado um tempo e esse foi, entre outros, o pior momento que eu passei em um campo de futebol, aqui no Comercial de Pirituba.
(55:24) P1 – E o senhor voltou a jogar, depois disso?
R1 – Voltei. Fiquei seis meses de convalescença, depois voltei.
(055:32) P1 – O senhor lembra como é que foi voltar a jogar, depois de passar por isso?
R1 – Eu, graças a Deus, tenho uma coisa boa na minha vida: eu deletei do meu dicionário a palavra... me fugiu a palavra, agora.
(55:58) P1 – Deletou bem a palavra. (risos)
R1 – É. Depressão. Eu deletei isso daí, sabe por quê? A minha vida, como eu já te contei a história da minha vida aí, desde pequeno não foi fácil, tudo foi com muita batalha, tudo com meu esforço. Meus pais não tinham condições - minha mãe, na realidade – de nada, então meus estudos eu que consegui, minha faculdade eu que paguei. Tudo que eu fiz na minha vida foi com esforço meu, entendeu? Então, eu nunca tive tempo para ficar reclamando da vida. Sempre, todos os obstáculos que eu encontrei na minha vida eu procurei ultrapassá-los porque, se você ficar chorando, você não vai conseguir, não. Pode ser no âmbito profissional, pessoal, amoroso, eu sempre levei minha vida...inclusive eu sou até criticado na minha casa, porque eu falo isso, entendeu? Se eu tiver tempo para ficar chorando da vida, não vou ter tempo para recomeçá-la. Então, eu levei esse fato que aconteceu comigo aí como todos nós temos...a gente sabe que nós nascemos, a nossa vida não vai ser como vai ser, isso daí está tudo programado por Deus. Se eu tive que passar por isso e Ele achou que eu podia carregar esse carma, eu penso desse jeito: vou carregar o carma. Então, eu tive esse problema, voltei a jogar normalmente, até que eu fiz essa cirurgia aí em 2020, que eu te falei, houve um sangramento e foi para a medula, eu fiquei um ano de cama, dois anos sem andar. Aí eu sempre tive uma postura boa, sempre fui um atleta, isso e aquilo lá, aí eu falei para a minha esposa, me trouxe aqui, a oportunidade que eu tive, eu vim de cadeira de roda ficar aqui, ela me deixava aqui de cadeira, com os amigos, acompanhando os jogos, depois ela vinha me buscar e nunca tive vergonha de vir de cadeira de roda aqui, depois de andador, depois de muleta e hoje eu estou andando com dificuldade, mas normal. Sempre: “Não vai me vencer”. Então, eu encarei esse fato aí como mais um fato que eu tinha que passar. Eu nunca reclamei de Deus, só agradeço de estar vivo. De tudo, de onde eu saí, onde eu cheguei, eu só agradeço, entendeu?
(58:18) P1 – O senhor falou muito da relação com o futebol, mas eu queria que o senhor falasse um pouco, que a gente conversou antes da entrevista, sobre como foi o senhor se formar, fazer faculdade em uma época que era muito mais difícil fazer e exercer a carreira também.
R1 – Eu consegui me formar com os meus esforços, pagando com o meu. Eu fui militar, comerciante, montei uma confecção com a minha irmã uma época, uma pequena confecção, aí foi indo, foi indo, foi indo, foi crescendo, foi crescendo, foi crescendo, fui montando loja, loja, acabei tendo sete lojas em shopping, na época, pequenos. Aí peguei uma época ruim, eu já era formado, resolvi exercer o Direito, e hoje estou há mais de trinta anos na função. Mesmo quando esse meu comércio estava bem eu sempre pensei amanhã, se der uma dor de barriga…então fiz a faculdade, entendeu? Eu podia - estava estabilizado, na época – falar assim: “Não, fazer faculdade para quê? Estou estabilizado”. Não, mas eu não sei o dia de amanhã, vou fazer a faculdade. Trabalhando, fazendo faculdade, depois fiz pós-graduação. Eu nunca penso sempre só no momento, sabe? Eu sempre fico...
(59:48) P1 – Sim. E considerando que no meio de tudo isso que o senhor passou, o futebol, a várzea, sempre esteve na sua vida?
R1 – Sempre. É o que eu te falei: em todos esses times que eu joguei, aí, tanto de salão, como de campo, sempre estive presente. De sábado, aqui, a minha mulher já sabe: se eu não estiver viajando, ido para a chácara, eu saio de manhã, acordo, tomo meu café e venho para cá e só vou embora lá para umas quatro, cinco horas. Aí tem o jogo do Comercial, depois tem o jogo do Grêmio, que eu participo do Grêmio também, aí a gente fica aqui, batendo papo, a resenha, faz churrasco, fica aqui, entendeu? Posso sentir falta de muita coisa, daqui eu não sinto. Faz parte do meu dia a dia. Fora que eu sou presidente aqui, também, tenho que estar aqui. Às vezes venho de semana, também.
(01:00:55) P1 – Quais que o senhor considera que foram os principais valores que o senhor aprendeu dentro desse universo?
R1 – O bom da várzea, principalmente aqui, eu te falei, é que a gente convive desde o empresário, até um indigente. Aqui, em campo de várzea, tem tudo quanto é tipo de pessoas. Tem empresário, todas as profissões, bandido, polícia, tudo, entendeu? Porque aqui ninguém é ninguém, aqui é um frequentador de campo de várzea. Aqui eu não sou advogado, aqui eu sou o presidente, participo aqui, mas às vezes muita gente vem pedir consulta aqui também, mas tudo bem, eu falo: “Liga depois”. Aqui, às vezes, vira um escritório, que é um aqui, um ali: “Tal, não sei o que, não sei o que lá” e eu tiro algumas dúvidas. Quando é uma dúvida fácil eu tiro, senão eu mando ir no escritório, entendeu? Então, é isso. Tem uma coisa importante, que eu preciso falar sobre os valores aqui, da várzea. É o seguinte: como eu te falei, aqui a gente lida com tudo quanto é tipo de pessoas da comunidade, da sociedade. Aí você vê pessoa que usa droga, indigente. Aqui eu trato todo mundo igual. Se passar um indigente aqui você vai ver que ele vai me abraçar aqui. Porque eu, dentro das possibilidades, sempre ajudo. Eu fiz muito tempo aqui, um período, festa de final de ano, comprava eu e mais alguns empresários amigos meus, festa para duas mil crianças aqui, dando brinquedo. Eu fiz várias festas. Essa época aí que eu tomei esses tiros, quando eu voltei eu fiz uma festa, para agradecer a Deus que eu não morri. Eu fiz uma festa também, para mil crianças. Peguei uns convites, falei para o pessoal distribuir só nas favelas, que não tinha condições, da região. Para o pessoal vir, eu dei mil brinquedos para as crianças nessa época aí. E aqui você vê de tudo. Meu filho vem comigo desde pequeno, aí eu falava assim: “Filho, está vendo aquele rapaz ali, usando droga? Ele era amigo do papai quando era criança”. Eu, com as condições que eu vi daquela época, lá, podia ter virado bandido, drogado, alcoólatra, mas isso daí... falta de oportunidade não é, mas minha índole nunca foi para isso. Mas nem por isso eu deixei de frequentar os mesmos ambientes que eles. Quem faz o ambiente é você. Então, tem amiguinho meu que vem falar assim: “Usa, que você vai ficar legal”. Não. Eu falo: “Você quer o seu futuro usar droga? Olha o seu futuro ali. Você quer virar um alcoólatra? Está ali o alcóolatra”. Então, eu procurei demonstrar para ele o que é a vida. Então, o campo de várzea ensina muito. Agora, cada um tem sua índole. A gente tem mania de querer que os filhos da gente sejam iguais a gente. Cada um tem sua índole. Não adianta. A obrigação dos pais é orientar, explicar. Agora, se ele quiser seguir o caminho que ele quiser seguir, é isso. Então, eu acho que a várzea, quando o pessoal criminaliza a várzea, esquece que ali pode ser um paradigma para as pessoas verem o caminho que ela quer seguir da vida. Não é que nem muitos pais que criam filhos enclausurados, aí não explica a vida, como que é, para a criança. Se ela tem uma amizade que é negativa, vai ensinar o errado, além do filho não querer confiar no pai. Se o pai joga jogo aberto eu acho, na minha opinião, que é mais fácil de estruturar a personalidade da criança. Então, a várzea me ensinou isso, entendeu? Até minhas filhas, quando eram pequenas, eu trazia, para assistir meu jogo, aqui e avisava. Na época do veterano. Em época de campeonato, não…que tem muita gente…festival não. Mas que nem, aqui, o jogo hoje é normal, você pode ver que tem muitas crianças aqui. Então, eu usei isso para o meu filho - eu tenho duas filhas mulheres e um homem - para moldar a personalidade dele aqui. E outra, ele via que o indigente vem conversar comigo, o alcóolatra, o ‘nóia’, tudo considerando a minha pessoa. Então, eu falei: “Quem faz o ambiente é você. Seja sempre, independente da situação financeira que você esteja, coerente e honesto e nunca se prevaleça de ninguém. Você pode estar em uma mansão, ou em uma favela, você tem que ser sempre a mesma pessoa”. Então, esses valores, graças a Deus, eu pude passar para o meu filho e ele assimilou bem, está bem hoje. Então, esses valores que a várzea me ensinou e proporcionou.
(01:06:02) P1 – Senhor Sá, eu queria perguntar, que o senhor falou de filhos, acho que foram dois casamentos.
R1 – Dois casamentos.
(01:06:11) P1 – Eu queria que o senhor falasse o que a paternidade representou na sua vida e como foi conciliar a paternidade com o futebol de várzea.
R1 – A paternidade, a própria palavra já diz, é divina. É um dom que Deus deu para a mulher ter e o homem fazer. Então, a maior gratificação que eu tive foi quando nasceu minha primeira filha. E o nascimento de um filho faz você se tornar mais responsável, você pensa mais nas coisas, não é mais afobado que nem na juventude que a gente é muito afobado e eu fui - a minha primeira mulher engravidou eu era muito novo - pai com 21 anos, apesar que eu já tive uma vida madura desde sempre, por causa da minha situação financeira, já tive que pegar meu salário, quando tinha 14 anos, dava para a minha mãe, aí sobrava alguma coisinha, ela dava para mim. Minha vida, então, me deixou, tornou mais responsável, porque tinha uma pessoa ali que dependia de mim, entendeu?
(01:07:28) P1 – Sim. E só para repetir, registrar os nomes dos seus três filhos.
R1 – São três filhos. Minha primeira filha, mais velha, chama Bianca Andrade de Sá. A minha outra filha é Hellen Cristina Von Dentz de Souza Sá. E meu filho Allan Von Dentz de Souza Sá.
(01:07:49) P1 – E para além da vivência do futebol de várzea, que coisas que você gosta de fazer no seu dia a dia?
R1 – Eu gosto de viajar. Assim que eu tenho oportunidade eu pego minha família, no meio do ano agora, em julho e dezembro e janeiro eu sempre estou dando uma escapada pelo Brasil afora, ou pelo mundo afora.
(01:08:15) P1 – E qual que foi a viagem mais marcante que o senhor fez?
R1 – Eu tenho algumas viagens. Eu conheço 18 países e mais de quarenta cidades pelo mundo. Mas as cidades que me impressionaram foram Copenhague, na Dinamarca. Primeiro eu tinha achado Praga, na república tcheca, que Praga é muito bonita. Porque eles mantêm aquela tradição. Eu gosto da história antiga. Então, a parte antiga de Praga eu acho muito bonito. E Copenhague eu fiquei fascinado. E Dresden, uma cidade na Alemanha, também, que eu achei muito linda. Conheço Paris, Roma, Barcelona, Miami, Orlando, Veneza, Croácia, Grécia. Graças a Deus eu já fui para vários lugares, mas as que mais me impressionaram foram essas.
(01:09:17) P1 – E essas viagens o senhor fez sozinho?
R1 – Não. Com os filhos, quando eram menores, e sempre eu e minha esposa.
(01:09:29) P1 – Senhor Sá, eu queria que o senhor me falasse um pouco qual é a importância do futebol de várzea para a cidade de São Paulo.
R1 – O futebol de várzea, apesar de hoje ter as escolinhas, as categorias de base daí dos times, tudo sai da várzea. Todo jogador profissional sai da várzea. A escolinha é uma várzea, mas com fundamentos, com treinamento e, se acabar o futebol de várzea, eu acho que acaba o futebol. Tudo, a origem do jogador é da várzea. A várzea é quando o pai dele o leva pela primeira vez no campo, para dar um chute, com três, quatro, cinco anos de idade, entendeu? O primeiro relacionamento do jogador é com a várzea. Ali que ele vai ver o pessoal jogando, ali que ele vai se empolgar com o tipo de lance, jogada, que ele vai querer fazer igual. Então, ninguém aprende um “dibre”, ou um domínio de bola, o moleque assistindo o jogo no estádio. Ele aprende aqui, vindo todo sábado e domingo, assistir o jogo, que ele vê o “dibre”, isso e aquilo lá, aí depois do jogo, no intervalo, eles vão brincar lá e ficam tentando fazer a mesma coisa. Eu batia falta muito bem na época que eu jogava, aí meu filho, quando acabava o jogo, ele tinha lá, vamos colocar, uns sete, oito anos, ficava treinando falta com a molecada, para querer bater igual ao pai. Isso daí aprimorou a batida de falta dele. Então, sem a várzea não existiria o futebol profissional. Tanto é que a Alemanha e o próprio Camarões, agora, começaram a formação dos moleques começando da várzea, escolinha... a escolinha hoje é a várzea de antigamente, da molecada. Ali que eles começam os primeiros passos, entendeu? Então, a escolinha não é profissional, é várzea. Aí, esses moleques... que aqui, às vezes, vêm olheiro do Palmeiras, do São Paulo, de vários times, olhar. Se tem algum moleque aí que eles gostam, eles levam. Inclusive, às vezes, eles mandam fazer até avaliações aqui, para eles verem se tem algum moleque que eles gostam, para eles levarem para a base profissional. Então, tudo do futebol, se não tiver várzea, não tem futebol.
(01:11:50) P1 – Cada região o futebol amador tem um nome, chama de uma forma. O que é o futebol de várzea, para o senhor?
R1 – Futebol de várzea é um local onde você começa a aprender a jogar futebol. São os primeiros contatos que você tem com a bola. E conforme esses contatos que vai tendo com a bola vão melhorando, você vai sendo chamado para jogar em escolinha, ou em time, entendeu? Nada [mais] é que uma escola de futebol.
(01:12:24) P1 – E o que o senhor gostaria que as próximas gerações soubessem sobre o futebol de várzea?
R1 – Que a várzea é a base do futebol. Que sem a várzea não teria jogador profissional, porque nem todo mundo começa em uma base de time profissional, entendeu? Nem tudo. Primeiro ele tem que se destacar, na várzea, que seria na vila dele, ou na escolinha dele, para depois ele ingressar... você nunca vai... é muito raro você ver que um jogador já foi para a base sem ter participado da várzea, ou de uma escolinha de futebol. Não existe isso, entendeu? Pode existir o ‘cara’ da várzea direto para o profissional, sem passar pela base. Que nem o Leandro Damião. Teve alguns jogadores que saíram da várzea direto para o profissional. É raro. Mas você nunca vai dizer que um jogador saiu direto para a base do time, sem ter passado pela várzea, que é uma escolinha hoje.
(01:13:40) P1 – Qual é o seu sonho para o futebol de várzea?
R1 – O meu sonho é que o futebol de várzea volte a ser várzea. Que os jogadores da região joguem pelas comunidades deles, pelos times que eles gostam, da ‘quebrada’ dele. Que não seja semiprofissional, que nem está hoje. Tanto é que você pode ver, hoje está tão semiprofissional, que jogadores que se aposentam aí e que não tiveram ‘pé de meia’ bom, ou perderam aí, por causa da mulherada, ou da bagunça aí, estão sem dinheiro, fazem jogos para ganhar mil reais aí, para o time, final de semana, para se manter. Então, você vê: um time de várzea pagar mil reais para o jogador, se tiver 22 jogadores, são 22 mil por jogo, fora a cerveja, refrigerante, ônibus, manutenção do time, uniforme, massagista, treinador, isso e aquilo. Para você ver como, para manter um time de várzea hoje em um nível elevado, que tem muitos jogadores da segunda divisão, que estão preferindo jogar na várzea, porque ganha mais e treina menos. Você vê: o jogador que joga e ganha mil por jogo joga sábado de manhã e sábado à tarde, dois mil. Domingo de manhã, domingo à tarde, quatro mil, dezesseis mil. Quando que um jogador, exemplo, do Juventus ganha 16 mil? Só se for um jogador de muito nome! Lá o salário é quatro, cinco mil, no máximo, entendeu? Então, hoje compensa mais o ‘cara’ jogar na várzea, do que jogar em uma segunda divisão.
(01:15:12) P1 - O que o senhor ainda almeja viver em um campo de várzea?
R1 – Eu sempre lutei aqui pela minha região, por aqui. Por exemplo: nós fizemos o campo sintético, eu estou com duas quadras ali que elas já têm as armações, que eu quero fazer duas quadras de society. Eu quero fazer quadra de beach tennis, aumentar a arquibancada. Então, aqui na várzea, especificamente, particularmente, eu procuro cuidar mais do CDC. Então, eu queria transformar o CDC em uma área melhor, para poder a comunidade usufruir melhor dela, entendeu? Que infelizmente nós perdemos a quadra de society porque houve esse projeto, para fazer o estádio, aqui, de hóquei sobre patins, que acabou não dando certo, entendeu?
(01:16:20) P1 – E, para a gente finalizar, eu queria perguntar como é que foi contar um pouco da sua história de vida.
R1 – É sempre legal a gente poder transmitir uma mensagem de otimismo e eu acho que a minha vida foi vitoriosa, porque de onde eu saí e onde eu cheguei, eu só tenho a agradecer a Deus, que eu pude dar uma boa educação para os meus filhos, realizar todos os meus sonhos, posso dizer que eu realizei todos os meus sonhos, entendeu? Os lugares que eu via na televisão que eu queria conhecer, eu conheci. Tudo fruto do meu trabalho, então eu queria desejar a todas as pessoas que vão ler, ou ver esse depoimento que a vida é igual para todo mundo, quem faz a vida da gente é a gente, entendeu? Se você tiver vontade, esforço, dedicação e não querer que tudo caia na sua mão de graça, você vai conseguir atingir os seus objetivos. É árduo? É, mas eu vou falar para você: enquanto os meus amigos iam se divertir, à noite, iam para os barzinhos, eu ia para a faculdade. “Vamos para o barzinho” “Não”. Eu ia para a faculdade, entendeu? Então, quem programa o seu destino é você mesmo. Então, se você tiver objetivo na vida, vai atrás. O Brasil pode ser o que for, mas é um país que, se você tiver vontade, você consegue. Vendendo limão lá, no farol, você consegue ter alguma coisa. Sendo marreteiro você consegue alguma coisa. Sendo um pedreiro, um ajudante, qualquer coisa, se você tiver objetivos, você vai conseguir. Agora, se você não tiver, pega aqui e gasta ali, isso e aquilo ali, não vai mesmo, entendeu? Então, eu falo isso, porque eu sou a própria experiência disso, entendeu? Criado sem pai, caçula de quatro filhos, minha mãe trabalhando em casa de família. Ela sempre falava assim: “Vocês podem fazer o que vocês quiserem, filho, mas eu não quero que vocês roubem, que tenham uma vida honesta”. E graças a Deus todos nós, lá em casa, seguimos os conselhos da minha mãe. Minhas duas irmãs faleceram, eu só tenho o meu irmão, estamos todos bem, graças a Deus, bem situados, através de trabalho e perseverança. Então, acredite em você mesmo, que tudo é possível.
(01:19:34) P1 – Senhor Sá, eu queria agradecer muito, aqui, o seu relato, contar um pouco da sua história de vida para a gente. Em nome do Museu da Pessoa a gente só agradece.
R1 – Eu que agradeço ter contribuído com o relato da minha existência, que eu passei por vários períodos, que alguns eu não quis mencionar, mas minha vida não foi fácil e todos os problemas que eu tive aí, eu estou vivo até hoje aí, para poder contar um pouco da minha história. Está bom?
(01:20:14) P1 – Obrigada. Foi um prazer!
— FIM DA ENTREVISTA —
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