Na canção "Frontera", o músico uruguaio Jorge Drexler definiu bem o que sinto desde criança: "yo no sé donde soy, mi casa está en la frontera, y las fronteras se mueven como las banderas."
Estar na fronteira é um sentimento que muitos estrangeiros têm. Para os filhos deles, isso não é diferente. Desde pequena, vivo entre duas culturas bem distintas, a boliviana e a brasileira.
Meus pais chegaram a São Paulo na década de 60. Ela, de Santa Cruz de la Sierra, a cidade "branca" da Bolívia. Ele, cochabambino de pele morena e palavras quechuas como a maioria esmagadora daquele país. Conheceram-se aqui, ficaram amigos, namoraram e foram se casar em Santa Cruz, para espanto de alguns familiares que reprovavam a união entre uma camba (local) e um colla (índios e mestiços).
Lá se foram mais de 40 anos e a briga entre cambas e collas continua. Só que agora é diferente, agora é um colla - o Evo Morales - que dá as cartas e enfurece os cambas. Enquanto isso, tudo segue em paz a milhares de quilômetros da Bolívia, na casa que meus pais construíram em Santo André, na Grande São Paulo. E eu? Depois de 25 anos no ABC, peguei minhas coisas e fui começar a minha história na capital paulista. Pouco tempo depois, me vi repetindo a mesma história dos meus pais.
Fui morar no Canadá e me lembrei, como nunca, da criação que tive. Das comidas bolivianas e dos erros gramaticais que cometia na escola. Das músicas andinas e do contato com um país ignorado pelo Brasil por décadas e décadas. Enquanto minhas amiguinhas da escola iam para o Guarujá nas férias, eu pegava o "famoso trem da morte" para ver a minha avó. Enquanto elas comiam arroz e feijão, eu tinha quínua no prato e não entendia por que as pessoas tanto me perguntavam sobre chá de coca.
No Canadá, comecei a entender melhor as escolhas que meus pais fizeram e como estrangeiros enfrentam situações bem mais difíceis na criação de seus filhos. E de tanto ouvir, desde pequena, a pergunta...
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Na canção "Frontera", o músico uruguaio Jorge Drexler definiu bem o que sinto desde criança: "yo no sé donde soy, mi casa está en la frontera, y las fronteras se mueven como las banderas."
Estar na fronteira é um sentimento que muitos estrangeiros têm. Para os filhos deles, isso não é diferente. Desde pequena, vivo entre duas culturas bem distintas, a boliviana e a brasileira.
Meus pais chegaram a São Paulo na década de 60. Ela, de Santa Cruz de la Sierra, a cidade "branca" da Bolívia. Ele, cochabambino de pele morena e palavras quechuas como a maioria esmagadora daquele país. Conheceram-se aqui, ficaram amigos, namoraram e foram se casar em Santa Cruz, para espanto de alguns familiares que reprovavam a união entre uma camba (local) e um colla (índios e mestiços).
Lá se foram mais de 40 anos e a briga entre cambas e collas continua. Só que agora é diferente, agora é um colla - o Evo Morales - que dá as cartas e enfurece os cambas. Enquanto isso, tudo segue em paz a milhares de quilômetros da Bolívia, na casa que meus pais construíram em Santo André, na Grande São Paulo. E eu? Depois de 25 anos no ABC, peguei minhas coisas e fui começar a minha história na capital paulista. Pouco tempo depois, me vi repetindo a mesma história dos meus pais.
Fui morar no Canadá e me lembrei, como nunca, da criação que tive. Das comidas bolivianas e dos erros gramaticais que cometia na escola. Das músicas andinas e do contato com um país ignorado pelo Brasil por décadas e décadas. Enquanto minhas amiguinhas da escola iam para o Guarujá nas férias, eu pegava o "famoso trem da morte" para ver a minha avó. Enquanto elas comiam arroz e feijão, eu tinha quínua no prato e não entendia por que as pessoas tanto me perguntavam sobre chá de coca.
No Canadá, comecei a entender melhor as escolhas que meus pais fizeram e como estrangeiros enfrentam situações bem mais difíceis na criação de seus filhos. E de tanto ouvir, desde pequena, a pergunta sobre a minha origem, resolvi fazer coro com o ator turco Birol Ünel, protagonista do filme turco-alemão "Contra a Parede" (de Fatih Akin, 2004). Farto desses questionamentos em busca de rótulos, ele, que mora na Alemanha desde criança, costuma responder. "Em primeiro lugar, vim da minha mãe. Mas se você quer saber, a minha pátria é a sujeira embaixo dos meus sapatos."
Duro? Talvez para quem nunca foi estrangeiro ou filho de estrangeiro. Para quem nunca foi obrigado a fazer um relatório, toda hora, sobre sua origem. E é assim que conto, brevemente, a história de uma pessoa que nasceu no ABC paulista, é filha de bolivianos, bisneta de um italiano cigano excomungado, herdeira distante dos incas e que ainda pensa seriamente em voltar a ser, literalmente, estrangeira.
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