Saudade de Quando a Gente Só Queria Brincar.
Tem dias em que a saudade chega sem pedir licença. Bate devagarinho na porta do coração — e não adianta querer fechar, ela entra assim mesmo, sem cerimônia. Quando a gente se dá conta, já está ali sentado na calçada da memória, olhando o tempo passar ao contrário, voltando devagar pro tempo em que ser feliz era tão simples quanto uma tarde no quintal.
Ah, que tempo bonito aquele... quando a nossa maior preocupação era não deixar o time perder com a bola dente de leite, ou escapar ligeiro no rouba bandeira. O chão era de terra, o céu era infinito, e a infância era um território sagrado onde só se falava a língua da alegria.
Fecho os olhos e ainda escuto a meninada correndo descalça, a poeira subindo como nuvem de sonho, as vozes ecoando na rua como música de eternidade. A gente disputava bolinha de gude como quem luta pelo mundo. Tinha guilin guilin, queimada de bola de meia, a amarelinha rabiscada no chão de terra , o passa anel, o “caiu no poço”, a Cabra cega — e os risos, meu Deus, os risos eram tantos que não cabiam nos dias.
E quando o trem apitava... ah, era como se o coração da cidade batesse mais forte! A gente largava tudo e corria — fosse pra ver ele passar, pra acenar pros maquinistas ou pra tentar pegar a xepa, pular e se agarrar no vagão , essa era uma aventura ... Era só alegria, uma festa de poeira, sorriso e esperança. Hoje, quando o apito do trem rasga o silêncio da tarde, não tem mais corrida, não tem mais riso. O que tem é um aperto no peito, uma saudade que espanca o coração com lembranças de um tempo que se foi.
A gente pulava corda até o sol se esconder. Jogava malha com tampa de panela velha e pedra de esquina. Subia em pé de manga sem medo, sem pressa, sem juízo — e lá no alto, dividia a fruta com os amigos, com o céu, com os passarinhos. Íamos ao córrego São Gonçalo das Tabocas, mergulhar o corpo e a alma, molhar o riso e...
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Saudade de Quando a Gente Só Queria Brincar.
Tem dias em que a saudade chega sem pedir licença. Bate devagarinho na porta do coração — e não adianta querer fechar, ela entra assim mesmo, sem cerimônia. Quando a gente se dá conta, já está ali sentado na calçada da memória, olhando o tempo passar ao contrário, voltando devagar pro tempo em que ser feliz era tão simples quanto uma tarde no quintal.
Ah, que tempo bonito aquele... quando a nossa maior preocupação era não deixar o time perder com a bola dente de leite, ou escapar ligeiro no rouba bandeira. O chão era de terra, o céu era infinito, e a infância era um território sagrado onde só se falava a língua da alegria.
Fecho os olhos e ainda escuto a meninada correndo descalça, a poeira subindo como nuvem de sonho, as vozes ecoando na rua como música de eternidade. A gente disputava bolinha de gude como quem luta pelo mundo. Tinha guilin guilin, queimada de bola de meia, a amarelinha rabiscada no chão de terra , o passa anel, o “caiu no poço”, a Cabra cega — e os risos, meu Deus, os risos eram tantos que não cabiam nos dias.
E quando o trem apitava... ah, era como se o coração da cidade batesse mais forte! A gente largava tudo e corria — fosse pra ver ele passar, pra acenar pros maquinistas ou pra tentar pegar a xepa, pular e se agarrar no vagão , essa era uma aventura ... Era só alegria, uma festa de poeira, sorriso e esperança. Hoje, quando o apito do trem rasga o silêncio da tarde, não tem mais corrida, não tem mais riso. O que tem é um aperto no peito, uma saudade que espanca o coração com lembranças de um tempo que se foi.
A gente pulava corda até o sol se esconder. Jogava malha com tampa de panela velha e pedra de esquina. Subia em pé de manga sem medo, sem pressa, sem juízo — e lá no alto, dividia a fruta com os amigos, com o céu, com os passarinhos. Íamos ao córrego São Gonçalo das Tabocas, mergulhar o corpo e a alma, molhar o riso e esquecer do tempo. O Poço das Moças, o Jatobá 1, o Jatobá 2, o Paredão... lugares que viraram santuário da infância, pedaços de paraíso guardados na alma da gente.
E as amizades... ah, essas doem fundo. Algumas ficaram na poeira das ruas de terra. Outras se perderam no silêncio das partidas. Como doía ver um amigo pegar o trem de ferro ou o ônibus, com a mala pequena e o coração grande de saudade antes mesmo da partida. Quantos se foram... e nunca mais voltaram. E a gente, com os olhos molhados e o coração apertado, acenava forte, como quem tenta prender o tempo com um aceno.
Hoje, às vezes, esqueço os nomes. O tempo é cruel com os nomes. Mas os olhos, os sorrisos, os abraços, esses o coração nunca esquece. Estão todos aqui. Os tombos na bicicleta, os banhos de chuva, os segredos sussurrados debaixo das árvores, as histórias de assombração contadas na calçada — com o coração disparado de medo e os olhos brilhando de alegria.
A vida passou. Tão depressa, tão dura. Os sonhos de então, muitos ficaram pelo caminho. Alguns dormem em caixas, tipo papelão, outros se perderam nos trilhos da vida. A ingenuidade? Essa ficou lá atrás, sentada numa escadinha de cimento, comendo pão com goiabada e esperando a gente voltar.
E às vezes, quando a saudade grita, eu não resisto. Fecho os olhos e deixo que ela me leve. Porque por mais que o tempo leve os rostos, os nomes, até a memória... ele nunca, jamais, leva aquilo que foi vivido. E nesse lugar secreto, guardado no peito, a infância ainda corre descalça pelas ruas, rindo alto, jogando bola de meia, com o coração leve como só o de uma criança pode ser.
E é ali, nesse lugar onde moram as lembranças, que eu me sento em silêncio... e choro. Choro não de tristeza, mas de gratidão por ter vivido um tempo em que a gente só queria brincar — e foi, sem saber, imensamente feliz.
Fim.
Autor: Edmar Leandro
( Mamão )
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