Projeto Memória dos Trabalhadores da Bacia de Campos
Depoimento de Sonia Silveira
Entrevistado por Larissa Rangel
Rio de Janeiro, 25 de Junho de 2008.
Realização Instituto Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB437
Transcrito por Flávia Penna
P/1 – Qual o seu nome completo, local e data de nascimento?
R – Meu nome é Sonia Silveira. Eu nasci em Igarapava, no Estado de São Paulo, no dia 31 de dezembro de 1955.
P/1 – E qual é a sua formação?
R – A minha formação é de geóloga.
P/1 – Quando e como ingressou na Petrobras?
R – Bem, eu entrei na Petrobras há 30 anos atrás, no dia 17 de fevereiro de 1978. Naquela época, ainda tinha muita falta de geólogos e eles procuravam os geólogos em todos os lugares. Então, quando eu entrei na Petrobras, não era como hoje, essa coisa de você encontrar mulheres geólogas no campo e em qualquer lugar, eles evitavam ao máximo. E eu fui uma das que foram, vamos dizer, “laçada” para entrar para a paleontologia. Eu entrei de forma diferente de alguns colegas, eu entrei diretamente para a área de paleontologia, que é uma área muito específica da geologia. Eu até pensei em desistir, falei para o meu entrevistador que eu não queria emprego, que eu ia embora, que eu não queria ser paleontóloga, mas eles tinham tanta carência de pessoas que eles: “não, não sai não, espera, você tem que conhecer.” Aí, eu fiquei cinco anos tentando gostar, tentando me adaptar. Então, foi assim que eu entrei na Petrobras. A forma correta de entrar nessa função, é indo para o campo, mas eu entrei via laboratório.
P/1 – E onde ficava?
R – Ficava na [Rua] General Polidoro, em Botafogo, num prédio em que hoje acho que é a Fiat, uma coisa assim, ficava num nível superior. Nós éramos isolados do sistema Petrobras, tinha o Edise, tinha o Cenpes, naquela época. Durante dois anos eu trabalhei ali e, depois, nós fomos transferidos para o Cenpes, onde fica até hoje essa atividade.
P/1 – E quando...
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Depoimento de Sonia Silveira
Entrevistado por Larissa Rangel
Rio de Janeiro, 25 de Junho de 2008.
Realização Instituto Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB437
Transcrito por Flávia Penna
P/1 – Qual o seu nome completo, local e data de nascimento?
R – Meu nome é Sonia Silveira. Eu nasci em Igarapava, no Estado de São Paulo, no dia 31 de dezembro de 1955.
P/1 – E qual é a sua formação?
R – A minha formação é de geóloga.
P/1 – Quando e como ingressou na Petrobras?
R – Bem, eu entrei na Petrobras há 30 anos atrás, no dia 17 de fevereiro de 1978. Naquela época, ainda tinha muita falta de geólogos e eles procuravam os geólogos em todos os lugares. Então, quando eu entrei na Petrobras, não era como hoje, essa coisa de você encontrar mulheres geólogas no campo e em qualquer lugar, eles evitavam ao máximo. E eu fui uma das que foram, vamos dizer, “laçada” para entrar para a paleontologia. Eu entrei de forma diferente de alguns colegas, eu entrei diretamente para a área de paleontologia, que é uma área muito específica da geologia. Eu até pensei em desistir, falei para o meu entrevistador que eu não queria emprego, que eu ia embora, que eu não queria ser paleontóloga, mas eles tinham tanta carência de pessoas que eles: “não, não sai não, espera, você tem que conhecer.” Aí, eu fiquei cinco anos tentando gostar, tentando me adaptar. Então, foi assim que eu entrei na Petrobras. A forma correta de entrar nessa função, é indo para o campo, mas eu entrei via laboratório.
P/1 – E onde ficava?
R – Ficava na [Rua] General Polidoro, em Botafogo, num prédio em que hoje acho que é a Fiat, uma coisa assim, ficava num nível superior. Nós éramos isolados do sistema Petrobras, tinha o Edise, tinha o Cenpes, naquela época. Durante dois anos eu trabalhei ali e, depois, nós fomos transferidos para o Cenpes, onde fica até hoje essa atividade.
P/1 – E quando é começou o trabalho de campo?
R – Depois de cinco anos tentando sair da Paleontologia de um jeito ou de outro... Naquela época, tinha um Gerente – eu não sei se ele era um gerente-executivo, eu não lembro bem o posicionamento dele – chamado Carlos Walter. O Carlos Walter, não sei se exigia ou indicava, que nós fizéssemos um teste para fazer um curso interno que era como se fosse uma reciclagem para os geólogos. Só que nesse concurso interno, o que acontecia? Quem não passasse em uma ou duas matérias, era demitido da Companhia, naquela época. Então, o Carlos Walter, apesar dele ter tido um papel muito importante na Petrobras, em termos de águas profundas, na minha vida ele teve um peso muito grande também porque ele, de certa forma, incentivava esse tipo de ação. Então o que aconteceu? Isso é até interessante. O atual diretor Estrela, naquela época era o meu gerente da Divisão de Exploração, que chamava Divex. Ele recém tinha chegado, mal me conhecia. Eu encontrei com ele no corredor por acaso e falei com ele: “Eu gostaria de fazer uma reclamação. Eu vou fazer uma prova de matérias que eu não tive na faculdade, eu não tive avaliação de poços e não tive outras matérias e eu não faço nada de cálculo há cinco anos, desde que eu cheguei aqui e, com certeza, eu vou ser uma candidata a ser demitida. Eu não acho justo ficar estudando alguma coisa, se eu não estou utilizando.” Aí, ele falou: “você tem a minha palavra que você não vai ser demitida. Isso é um absurdo! Isso não existe!” E essa foi a minha sorte porque realmente eu fiquei naquelas matérias em que eu havia falado: avaliação de poços e cálculo, se não me engano. Um belo dia, o meu gerente chega e diz: “Sonia, nós estamos com um grande problema. Está tendo uma reunião, você foi demitida – isso em 1983, fevereiro, março – e o gerente Estrela – que é o nosso atual diretor – está lá dizendo que se você for demitida, ele vai entregar o cargo, porque é uma questão de palavra que ele deu. Ele não vai admitir que você seja demitida.” Foi a minha sorte, porque eu não fui demitida. Eles quiseram me mandar para Manaus, que era o castigo naquela época, ai ele falou também: “Não, ela vai escolher para onde ela vai.” Aí, eu fui para a Bacia de Campos e não fui demitida. Todos os colegas na mesma situação foram demitidos. Foi como eu entrei onde eu queria entrar desde o começo, na área de poços. Aí eu comecei a embarcar. Fiquei um ano embarcando.
P/1 – Nesse período de cinco anos, como era a Petrobras? Qual era a expectativa?
R – Olha, naquela época, era um dos poucos bons empregos para o geólogo, para não dizer quase o único. Não era único, mas era um dos melhores empregos para os geólogos. E nós, geólogos, éramos poucos, como eu te falei. Já era considerada uma grande empresa e, hoje, muito mais. Eu não gosto nem de falar porque eu acho a nossa empresa fantástica, sinceramente. Trabalhar na Petrobras, para mim, é uma realização. Eu acho que você tem todas as chances. Naquela época era mais restrito. Hoje, quando você entra na Petrobras, você tem cursos no exterior, você tem mestrados, doutorados. Naquela época não. Naquela época era muito mais restrito, as chances eram mais localizadas, a mulher não era muito bem vista no campo. Era uma coisa muito complicada, não se tinha infra-estrutura para receber a mulher, porque você não vai colocar uma mulher em situações em que você tem só homens. Eu passei por situações assim, mas não é a situação ideal, não é? Banheiro... Hoje você divide quartos, mas uma coisa assim muito mais razoável..
P/1 – Então, eu gostaria que você comentasse da sua primeira experiência embarcada. Como foi?
R – A primeira experiência embarcada, naquela época era realmente diferente. Eu fui a segunda mulher a embarcar na Bacia de Campos. A primeira eu acho que foi a Iara, uma geóloga, não lembro o sobrenome dela. Mas quando eu entrei, ela praticamente saiu, foi embarcar em terra, no Espírito Santo. Então, eu era a única mulher. Era como fosse um ser estranho, um animal no zoológico. Como eu trabalhava para a Exploração, eu trabalhava no acompanhamento de poços. Eu não ficava em plataformas de produção, ficava em sondas de perfuração. Naquela época, nos anos 80, a nossa atividade era muito intensa e éramos poucos. Às vezes eu tinha que atender três plataformas. Fazia uma operação numa plataforma, o helicóptero pegava, ia para outra, fazia a operação, às vezes ficava duas noites sem dormir, descansava um pouco outras duas noites, depois voltava para essa sonda. Então, tinha uma movimentação muito grande. Essas plataformas, eu me lembro especificamente de uma que era horrível, o navio chamado NS2, que a gente chamava de banheira, entre nós, porque era barata, sujeira, era um navio de texanos e eles tinham aquele hábito de mascar fumo e eram muito machistas e pouco educados em termos de tratamento e higiene péssima. Foi muito engraçado porque eu fui dividir quarto com o engenheiro fiscal. E era a única horinha que você tinha para ficar a vontade, relaxar um pouco porque você trabalhava noite e dia às vezes. Quando eu me deparei com aquilo, eu falei: “ai...” Aí, falei para ele: “você não leve a mal, mas eu vou pegar um lençol e vou fazer uma divisão aqui entre o meu lado e o seu lado para que nós dois nos sintamos mais a vontade. Se você não se incomoda...” Ele: “não, tudo bem.” Eu lembro que foi um negócio que chamou a atenção no navio, as pessoas ficaram me olhando. E eu pedi realmente para colocar o lençol. Foi muito engraçado porque eu fiquei lá com o meu pedaço e ele ficou com o dele. Nós dividimos o banheiro, mas felizmente era só eu e esse fiscal. E outras situações também, a gente tinha que dividir quarto – acho que ainda hoje é assim – e o pessoal fazia rodízio e tinha três, quatro, cinco pessoas, só tinha eu de mulher. Mulher era assim algo olhado com muita curiosidade. (risos)
P/1 – E como era o respeito em termos de hierarquia?
R – Olha, eu diria que a maioria tinha um grande respeito, mas confesso que eu tinha um comportamento na plataforma completamente diferente do que eu tenho aqui fora. Aqui fora você dá beijinho, conversa... Lá, eu procurava manter uma certa distância por que era só eu e podia ser mal interpretada, podia ser entendida de outra forma. O que eu fazia? Botava o meu uniforme: calça cinza, camisa, bota, tratava todos por “senhor”, na maioria, a não ser aqueles que eu conhecia melhor, para tentar estabelecer uma certa distancia. Eu sentia que eles não estava, acostumados. Tem um evento muito engraçado, engraçado agora, na época eu fiquei com muita raiva. Eu estava na sala de televisão – hoje em dia as plataformas são fantásticas, mesmo as sondas são – estava assistindo televisão com todo mundo...
P/1 – Estava numa plataforma?
R – Numa sonda de perfuração. Essa no caso, era a NS5 – Navio Sonda Cinco. Esse navio era ótimo, era gerenciado por ingleses, eles eram super educados, o navio limpo, excelente. Eu dormia no compartimento que era do comandante porque ele nunca estava no navio, então eu tinha privacidade. Eu estava assistindo televisão e de repente vem o cara do rádio com quem eu conversava um pouco mais, era um senhor, e me veio cochichar: “Sonia, o pessoal está pedindo para você se retirar da sala porque eles vão assistir um filme pornográfico.” Eu olhei e falei: “Fala para esse pessoal que eu não vou sair da sala a não ser quando eu achar que devo sair e que eles não vão assistir esse filme enquanto eu estiver aqui. Por favor, de esse recado a eles.” Aí, eu fiquei com muita raiva e fiquei. Eu estava quase indo embora, mas aí eu fiquei, assisti ao Jornal Nacional e mais um pouco. E nunca mais eu tive qualquer constrangimento naquela unidade, nunca. Eu acho que naquela época, você tinha que estabelecer quem você era, você não podia se intimidar, porque isso foi claramente uma tentativa de me deixar sem graça, ou de me deixar constrangida. Felizmente eu notei aquilo e falei: “não, eu vou ficar aqui e eles não vão ver esse filme.” E fiquei. Nunca mais eu tive a nada a ver. Agora, isso foi uma situação isolada. Na maior parte do tempo eu era respeitada como profissional e como pessoa, pessoas ótimas para trabalhar. No geral, não tinha problema. Tem fatos isolados. Outra vez um rapazinho também ficou olhando, olhando... Eu acho que eu estava meio cansada, fazia mais de 20 dias que eu estava embarcada, queria ir embora. Eu lembro que eu fui lá no rapaz, era um rapaz da cozinha, ficava atendendo nos pratos, fui lá: “o que você está olhando? Acho melhor você cuidar da sua vida, porque qual o problema de eu estar aqui?” Depois eu fiquei pesando, coitado, ele ficou olhando porque não tinha mulher nenhuma ali...mas são situações que você passa. O stress é grande e para a mulher é maior porque você não tem com quem compartilhar, você é o foco da atenção. Você não é quem você é, porque se você for mais delicada e mais amável como você é aqui... Eu não arriscava. Pode ser que outras pessoas tenham conseguido ser assim e se manter, mas eu como tinha medo, eu mantinha logo o meu limite.
P/1 – E sendo mulher assim, num ambiente totalmente masculino, como era estar longe da família?
R – Naquela época, eu era solteira, eu tinha um namorado. Então, ficar longe do namorado, já era difícil, não é como hoje, que tem os embarques definidos: 14 por 21. Naquela época era um por um. E nós não tínhamos uma ordem no nosso embarque. Você embarcava nas operações necessárias, então, às vezes, você podia ficar um mês e às vezes ficava cinco dias, três dias. Você não tinha uma constância de tirar folgas, então a sua vida ficava muito desorganizada, muito desorganizada. Naquela época, acho que eu tinha 27 anos, é 27, porque eu entrei com 22, cinco anos depois, eu tinha 27 anos. Isso não me atrapalhava. Eu já morava longe da minha família, que era de Brasília, não tinha filhos, não tinha marido àquela época, então isso era um facilitador. Quando eu engravidei, eu pedi para sair. Primeiro embarquei no Espírito Santo, a gente chamava embarcar, mas era terra; a gente embarcava em terra nas sondas terrestres. Não tinha Unidade naquela época, não tinha a UN-ES, era lá só em São Mateus e também muito difícil.
P/1 – Essa época foi em que ano?
R – Isso foi em 1983 para 1984. Você não tinha banheiro às vezes. Eu lembro que uma vez a gente foi até para a Bahia, numa sonda na Bahia ou no Espírito Santo, eu não me lembro, não tinha um banheiro adequado. Tinha sondas que nem banheiro tinha e você tinha que pegar um carro, procurar um lugar... Horrível! Uma situação horrível para comer, para dormir. Eu fui a uma sonda há uns anos atrás, nossa, excelente! Sala de ginástica, conforto, agora com todo o conforto. Mas com todo o conforto, eu continuo pensando que é extremamente estressante embarcar. É um trabalho muito interessante, muito bom, o trabalho, mas o confinamento não.
P/1 – E como era a comunicação?
R – Na minha época não tinha telefone, então nós nos comunicávamos por rádio e todo mundo ouvia a sua conversa. Era cambio pra cá, cambio pra lá, não era todo dia que você conseguia comunicação, então, se fosse quisesse falar com alguém da sua família, era ouvido por quem quisesse. Era muito ruim. A comunicação não era fácil , era só via rádio. Você tinha que ir na sala de rádio esperar porque tinha muita gente querendo falar. Hoje, você tem essa questão da segurança e do meio ambiente muito mais bem resolvida. Naquela época a gente trabalhava em condições bem desagradáveis mesmo em termos de limpeza...
P/1 – E a segurança?
R – Até a segurança mesmo. Esse NS2, acho que ele não passaria hoje em nada, porque você tinha a possibilidade de cair, era tudo sujo, escorregar, tudo. O NS5 não. Ele era de ingleses, você não podia entrar com botas no navio. Você tinha que deixar a tua bota numa salinha e entrar. Muitas unidades hoje são assim, mas outras não eram.
P/1 – Além dessa dificuldade inicial, como era essa diversidade cultural. Sabemos que nas plataformas, nos navios, existem pessoas de várias regiões do Brasil. Como era lhe dar com essa dinâmica também?
R – Olha, eu achava interessante porque você encontrava pessoas de diversos locais, era do Nordeste, do Sudeste, Sul, Centro-Oeste, mas eu confesso que aquele ambiente mais restrito... A maioria eram pessoas operacionais, estavam mais voltadas para as questões operacionais e eu sentia falta de conversas um pouco mais suaves sobre leitura, sobre filmes. Não tinha muito espaço. Às vezes, você encontrava pessoas com afinidades para conversar mesmo porque os espaços não permitiam isso. O nosso contato era muito com o técnico de geologia, que eu acho que hoje não tem mais, hoje é só geólogo e o engenheiro fiscal, que a gente tinha mais contato com as operações, o sondador, mas era cada um no seu nicho. E, normalmente, pelo menos no meu tempo, tinham aquelas conversas mais para homens e eu não gosto de jogar muito baralho, de jogar dominó. Eu lia muito. Nessa época eu li muito. Levava pilhas de livros e lia. Agora, o trabalho é muito interessante. Eu acho que todo mundo que você começar na Petrobras trabalhando em plataforma até para valorizar o trabalho dessas pessoas, porque é ali que começa, né? Não digo que ali começa, mas ali é que o óleo começa a ficar visível.
P/1 – A Senhora comentou que não existe mais técnico em Geologia, não é?
R – É, até onde eu sei, o técnico em geologia foi direcionado para outras atividades e hoje o geólogo faz todo o trabalho. Só que, até onde eu sei, ele tem um processo de embarque fixo 14 por 21, folga. Eu acho que hoje é mais assim. Eu digo acho porque eu não trabalho mais na geologia desde 1997, está fazendo 11 anos. Hoje eu estou na área de Planejamento. Então, eu digo acho porque eu não acompanho mais.
P/1 – E até quando você ficou embarcada?
R – Eu fiquei embarcada um ano mais ou menos. Depois, eu tive o meu primeiro filho. Depois que eu tive o meu primeiro filho, eu trabalhei em terra, como geólogo interprete. O geólogo interprete é aquele que interpreta uma área junto com o geofísico e define onde você vai perfurar um poço para encontrar petróleo. Então, quando eu saí do campo, me direcionaram para essa área e eu fui trabalhar como interprete exploratória na Bacia do Espírito Santo, mas locada em Macaé, naquela época não tinha unidades. A Bacia de Campos era interpretada por geólogos daqui da Sede. Ninguém fora da Sede interpretava a Bacia de Campos. Só que chegou num certo momento, eles descentralizaram. Foi mais ou menos em 1986, quando a minha segunda filha nasceu. Foi até um momento muito difícil para mim, porque quando ela nasceu era o momento em que estava acontecendo essa descentralização, eles estavam levando parte da Bacia de Campos para ser interpretada em Macaé e eles precisavam de geólogos e geólogas indo para sede pegar isso para estagiar. Eu lembro que eu pedi muito para o meu chefe: “olha, manda outro primeiro, porque eu estou com a minha filha com seis meses, está tão difícil e tal”, mas ele não abriu mão. Aí eu tive que ir para a Sede. Fiquei lá seis meses e foi puxado. Eu ia para lá segunda de madrugada, quando era terça ou quarta à noite, depois do trabalho, ia a Macaé, via a minha filha e voltava para trabalhar no outro dia de manhã aqui no Rio. Eu fiquei assim um tempo, uns dois, três meses, depois eu vi que não dava. Eu tentei levar meus filhos com uma babá para cá, para o Rio. A babá ficou doente e, olha, foi muito complicado administrar isso. Hoje, eu diria não e não, porque eu acho que tudo tem um bom senso. Se fosse uma questão em que não tivesse ninguém, eu não diria não, mas tinha outras pessoas para fazer isso. Mas aí você não quer gerar um fato que diga: “Ah, tá vendo, é por isso que eu não quero ter mulher no trabalho!” Fiquei meio aborrecida com aquilo, mas fiz. Foi um trabalho interessante, eu queria fazer, mas não naquele momento, mas passou. Minha filha viveu esses momentos, eu também e acabou passando. Meu marido tentando ajudar o máximo possível, mas é diferente. A mãe não estando presente seis meses, é complicado. A minha sorte é que eu tinha parado de amamentar, por ela mesma, senão eu nem podia deixar, eu ia ter que ir de qualquer jeito com ela.
P/1 – E quando começou a ter mais presença feminina na Petrobras na área de Geologia?
R – Eu acho que na década de 90 que começou, sabia? Eu acho. Hoje você vê, tem uma gerente-geral geóloga lá no Cenpes, a Silvia do Couto. Tem outras aí, várias geólogas em gerencias e tudo. Depois foi ficando tudo mais fácil, mas eu tenho certeza que todas elas têm uma história para contar, porque é um ambiente mais forte, masculino, isso eu não tenho dúvida.
P/1 – Então, no caso, você não vivenciou a experiência com uma mulher embarcada?
R – Não. Quando eu estava saindo, estava entrando uma menina lá também vinda do Cenpes, mas eu não convivi com mulheres nesse tempo. Eu ouço falar as histórias e tem as histórias também das geofísicas que ficavam também naquelas equipes no meio do mato, e aquela dificuldade... Complicado, muito complicado.
P/1 – E, nesse período, qual foi o seu maior desafio enfrentado na sua trajetória de trabalho?
R – Você fala nesse período do campo?
P/1 – Na sua trajetória de trabalho.
R – O maior desafio? Olha, eu vou ser bem sincera, o maior desafio para mim foi tentar conciliar ser uma boa mãe e uma boa profissional. Eu sempre fui muito exigente comigo. Eu queria ser uma boa mãe, mas eu queria também ser uma boa profissional. Pra mim, esse foi o maior desafio. Saber a hora de deixar os meus filhos, mesmo não quero, fazendo o que eu tinha que fazer. Eu acho que isso foi o mais impactante para mim na minha vida toda, porque como profissional, eu enfrentei desafios normais de uma carreira. Isso é claro: muitas vezes você tem que fazer mais do que um homem faria. Isso é fato. Eu acho que a nossa empresa mudou muito, o mundo mudou muito. Eu acho que eu sou respeitada como profissional, como pessoa, mas é da nossa cultura. Hoje em dia, eu acho que isso diminuiu muito, mas já teve muito. Eu já ouvi até do meu gerente uma época que eu fui perguntar para ele porque que eu não tinha sido promovida e ele: “Ah, porque você ficou grávida”. Eu: “como?”; “É, você teve o seu neném, então você trabalhou...” Naquela época eram três meses de licença, quatro com as férias. Eu falei: “Mas e os outros oito meses que eu trabalhei?” “Ah, não, mas aí a sua produtividade...” Eu tive que ouvir isso duas vezes. Hoje em dia é inadmissível isso. Você não ouve isso, pelo menos eu acho que não, né? Essas coisas são meio estranhas. E também, depois de cinco anos na Petrobras, eu tive que ir ao campo, começar como se eu fosse uma geóloga novata. E também um desafio que eu enfrentei foi mudar de área. Em 1997, eu recebi um convite para sair da área de geologia e ir pata a área de planejamento, trabalhar na carteira de projetos de produção, não tinha absolutamente nada a ver com geologia. Aquele foi um grande desafio para mim. Eu peguei a carteira de projetos que eles chamam de SICAR, que é Sistema da Carteira de Projetos. Foi um desafio grande porque eu estava lidando com uma área completamente desconhecida, pessoas desconhecidas. Eu tive que me colocar como profissional, ser reconhecida, mas foi um período muito bom. A pessoa que me chamou, que é um geólogo também, Márcio Naumann, eu devo muito a ele, porque ele confiou muito em mim, mais do que eu confio em mim. Ele falou: “Sonia, você é capaz. Você vai conseguir e eu confio em você.” Aí, eu entrei nessa área que também foi um desafio grande para mim.
P/1 – E dentro desses vários desafios, qual foi a maior dificuldade?
R – Olha, dentro do trabalho? Eu acho que o desafio da gente é sempre ser respeitada e ser reconhecida. Eu não sei se é sempre uma vontade nossa, você quer isso, então você almeja esse reconhecimento, talvez esse seja o maior desafio, você ser respeitada como profissional, você ser aceita. Eu acho que esse é um desafio grande. Acho que muita gente tem histórias para contar, eu realmente não tenho, o desafio foi esse mesmo e, por ser mulher, fazer um pouco mais do que os homens. Mas eu acho que eu sempre fui mais exigente do que os meus gerentes, eu sempre exigi muito de mim, então não sofria tanto.
P/1 – Sonia, você acompanhou todo o processo de desenvolvimento da Bacia de Campos, né? Em que momento você achou que a Bacia de Campos deu certo?
R – Eu acho que ela deu certo desde o começo. Eu não acompanhei desde o começo porque eu estava na Paleontologia. Na verdade, quando ela foi descoberta mesmo, eu não estava nem na Petrobras, mas desde que o Carlos Walter – interessante, né? – que dizem que foi ele o responsável por bancar essa idéia ousada, que era ir para águas profundas – ele bancou isso – e eu acho que a Bacia de Campos começou a dar certo ali. Até um certo ponto, a Bacia de Campos se fez pelos próprios resultados. Quando chegou mais ou menos na década de 90, começaram a entrar muito essa questão de gestão. Chega uma hora que o negócio cresce tanto, que você precisa organizar. Aí, houve uma preocupação maior com a gestão. Então, a Bacia de Campos passou a gerenciar melhor, a se organizar melhor. Eu acho que na década de 90, isso foi feito de uma forma bastante forte essa questão da gestão. Claro, os campos em águas profundas, foi aquele outro degrau. O primeiro degrau foi aquele: “descobrimos em águas profundas”. O segundo degrau maior foi essa descoberta gigantesca de Marlim, que encheu os olhos de todo mundo e os nossos olhos de geólogos se voltaram para essa área mais profunda ainda. Hoje em dia, o que era considerado água profunda, é água rasa, né, água profunda para a gente é mais. E agora com o pré-sal é mais profundo ainda. Mas acho que o desafio primeiro foi dizer: “Tem óleo aqui e é comercial”. Eu acho que começou a dar certo ali. Só que eu acho que ela se viabilizou mais quando ela entrou com a gestão mais forte para permitir que esse negócio crescesse de forma mais organizada. Eu participei um pouquinho disso.
P/1 – Como foi a sua participação?
R – A minha participação foi via carteira de projetos. Eu coordenava uma carteira onde todos os projetos de produção eram guardados ali. Então, tinha todo um procedimento, nós implementamos essa carteira na Bacia de Campos, organizamos. Eu acho que, de certa forma, nós conseguimos durante quatro ou cinco anos fazer com que essa carteira fosse aceita, fosse seguida, fosse utilizada. Isso foi só um pedacinho. Na época também nós passamos por avaliações de PNQ, de Qualidade e isso foi muito importante. Eu acho que sempre tem aquela pergunta: “Até que ponto a gente deve usar as boas práticas ou não?” A sabedoria é exatamente definir até aonde você deve utilizá-las para que elas também não enforquem você, não amarrem você. Fica tão cheio de amarras que você não consegue trabalhar, mas eu acho que foi bem conduzido naquela época, foi um aprendizado.
P/1 – Sonia, em termos de fases de produção, em qual fase de produção você vivenciou e que foi muito marcante?
R – Depois que eu saí da exploração que você fala? Eu não entendi a pergunta.
P/1 – A pergunta é: qual é a fase da produção na Bacia, que foi marcante, que foi significativo?
R – De produção? Na verdade, eu vivenciei mais a Bacia na parte exploratória, porque eu trabalhava na parte de exploração, definir pontos para perfurar. Depois, a partir de 1997, é que eu fui vivenciar essa parte da produção. Então, eu vivi muito mais o lado exploratório da Bacia de Campos, que eram desafios atrás de desafios. Nós tínhamos que trabalhar em áreas que a gente chamava até de garimpagem, que eram áreas que já exploravam, que já tinham produção e nós tínhamos que procurar pequenas acumulações para aumentar a reserva daquele campo, daquela área. Eu vivenciei mais isso do que a área de produção. A área de produção eu vivenciei a partir de 1997, mas no lado do Planejamento e não no lado em si, produção operacional. Na verdade, tiveram acontecimentos, acidentes de helicóptero, acidentes em plataformas, que houve naquelas épocas em que a gente também convivia, mas a parte de produção eu não tenho muito o que falar, eu só acompanhava, eu não vivenciava essa parte de produção. Eu vivenciava a parte exploratória, que era forte.
(pausa para troca de fita)
P/1 – Nessa fase de exploração, das novas descobertas, qual foi o momento mais marcante, em que situação ela foi realmente significativa?
R - Eu vou até falar de duas coisas. Os momentos marcantes , no meu caso, foram poucos, em que a gente fazia a descoberta. Era uma coisa muito gratificante você saber que um poço deu, que você trabalhou, que você argumentou deu resultados positivos. No meu caso, eu tive poucos resultados positivos, porque nós trabalhávamos em áreas muito pequenas como eu te falei. Uma das questões que gerava uma rivalidade entre Macaé e Sede, é que nós achávamos que a Sede ficava com o filé mignon, com as áreas grandes e com maior probabilidade de encontrar os campos maiores, e nós ficávamos com as áreas de garimpo, com coisas menores. Um dos momentos marcantes foi quando a Bacia de Campos foi descentralizada e nós, que trabalhávamos que as áreas da Bacia do Espírito Santo, deixamos de trabalhar com o Espírito Santo, porque foi criada uma UN e o Espírito Santo foi para Vitória, para ser trabalhada lá. E nós começamos a trabalhar na Bacia de Campos. Esse foi um momento assim super marcante: começar a explorar a Bacia de Campos. A Bacia do Espírito Santo era outro contexto, terrestre, era um outro tipo de modelo, de repente você estava numa coisa muito maior. Foi muito interessante essa mudança e essa coisa de assumir a Bacia de Campos lá em Macaé, mas mesmo assim, ficou a briga: “por que nós vamos ficar com esse pequeninho?” A gente queria sempre olhar as áreas maiores. Hoje em dia, está tudo aqui de volta. Na verdade, as Unidades de Negócios só cuidam desse pedacinho e a Sede é que continua fazendo toda a exploração geral. Mas aí o modelo foi assumido e tal. Naquela época ficou meio uma bola dividida. Então, foi muito marcante essa descentralização da Bacia de Campos para nós geólogos que trabalhávamos naquela época lá. E a descoberta, né? Agora, eu não lembro, desde Marlim, alguma coisa que tenha marcado tanto quanto esse pré-sal. Esse pré-sal é um evento na vida de nós, geólogos, é algo de encher os olhos. Comparativamente, poucos campos tiveram esse impacto na vida da Empresa como esse aí. Marlim teve esse grande impacto, era água profunda, muito óleo, mas não era um óleo de ótima qualidade, era boa qualidade. Depois, Roncador e tal, mas Marlim foi aquele impacto.
P/1 – Qual era a reação da equipe?
R – Nossa, era uma vibração! Na verdade, todo geólogo, quando descobre qualquer óleo comemora. É como você tivesse gerado um filho ali naquela hora porque é resultado de um trabalho, você argumenta, você tem que justificar a sua locação perante um grupo, às vezes as pessoas não concordam, você defende, e você justifica e, de repente, você consegue mostrar que você tinha razão. É muito legal. Agora, a equipe se motiva muito, muito. Quando você acha óleo, quando acha resultados, a equipe renasce. Ao contrário, quando não dá certo, quando você está testando uma nova idéia e aquilo não deu certo, aí que o geólogo se mostra o verdadeiro geólogo. O geólogo não pode se deixar levar pelo racional completamente. Ele tem que ser uma parte racional e outra parte ousadia, luta, acreditar no modelo, porque foi assim que a bacia de campos foi descoberta. Insistência. E foi assim que o pré-sal foi descoberto. Insistência. “Ah, não tem óleo, não tem isso...” “Não, mas eu quero testar isso, quero testar aquilo.” Você acaba conseguindo provar que aquela sua idéia é verdadeira. Se você olhar a história da nossa bacia, você vai ver que tem altos e baixos. Isso é normal. Quando você está nos altos, você descobriu um novo modelo e você testa esse novo modelo. Daqui a pouco esse modelo já deu o que tinha que dar. Aí, você vai ficando com um índice de sucesso menor. Daqui a pouco, você descobre uma nova idéia. O seu índice de sucesso aumenta, depois diminui. Descobre uma nova idéia. Esse pré-sal foi uma grande idéia. E essa idéia foi das maiores. Realmente, esse marco, em 30 anos de Petrobras, eu nunca vi igual. Realmente, eu nunca vi igual. Se eu já tinha orgulho da minha Companhia, agora... Eu não sei, todo mundo fala que nós antigos, vestimos mais a camisa, temos mais orgulho da Companhia. Eu não sei te responder essa pergunta, por que de repente os jovens têm uma outra forma de gostar da nossa Companhia. Mas eu acho que nós, a nossa geração, a gente tem um comprometimento tão grande, a gente luta... tudo pela Empresa. Não sei explicar isso, mas é assim. É um sentimento forte, então, cada descoberta que fazia, você reforçava isso aí.
P/1 – E quanto ao espaço da Petrobras, eu entendo assim: eu tenho uma equipe de geólogos que acham que aquele espaço, aquela parte geográfica tem a possibilidade de existência de petróleo...
R – De uma acumulação.
P/1 – Como é que é, há essa incerteza e a Petrobras vai e investe? Como são as escolhas?
R – É o seguinte, eu acho que ainda continua assim, normalmente, nós trabalhamos em dupla, um geólogo e um geofísico. Ambos têm a formação de geólogo, mas na Petrobras se especializou em geólogo ou em geofísico. Em tão é uma dupla em que o geólogo trabalha mais no modelo, na concepção, e o geofísico trabalha mais com a ferramenta que vai rastreando. É como você tivesse uma radiografia da terra e ele vai mapeando aquilo até fazer um mapa que, junto com o geólogo, define o modelo geológico, o tipo de depósito, semelhante a que campo, eles mandam fazer análise dos “olhos” da região, eles analisam os perfis da região. Então, o chamado geólogo exploracionista avalia uma área e dali ele identifica os prováveis pontos onde se pode ter acumulações de petróleo. Aí, ele avalia esses vários pontos e escolhe o melhor. Às vezes, ele escolhe vários, então ele começa a definir onde você tem os pontos mais prováveis. Aí, ele tem que checar vários pontos, primeiro, se ele tem uma armadilha, uma trapa adequada para o óleo ficar preso. Depois ele tem que avaliar se ele tem uma rocha que está selando para não permitir que o óleo fuja. Depois ele tem que descobrir se ele tem caminhos para o óleo chegar até lá. Depois ele tem que descobrir se ele tem alguma rocha que gerou petróleo naquela região para que possa gerar, transportar e chegar lá e a outra se ele tem o reservatório. Então, esses cinco componentes, ele tem checar e fechar esse modelo. Isso, sempre junto com o geofísico. Ele utiliza dados geoquímicos, dados de rochas resistentes, perfuradas, obtidas por outros poços, ele utiliza dados da sísmica, ele utiliza dados diversos que chegam até ele, compõem e coloca através de mapas, tabelas e vai montando aquele modelo. Montou aquilo, ele monta o prospecto daquele poço. Aí, ele justifica, faz toda aquela argumentação, apresenta diante de um comitê e ele vai defender a idéia dele. Faz uma análise econômica – naquela época, há muito tempo atrás, não se fazia, nós fizemos as primeiras análises econômicas, em prospectos, para saber se o que eu vou perfurar aqui pode ser econômico. Se não for econômico, eu nem vou perfurar. Aí você defende, se for aprovada a locação vai para um banco de locações. Existe uma priorização: eles vão da melhor para a pior, ou da mais estratégica para a menos estratégica. Às vezes tem uma que não tem um retorno bom, mas é uma área estratégica, então vai ser perfurada. E é assim que é definido, são várias equipes trabalhando em várias frentes. Tem um geólogo também que trabalha regionalmente, é o geólogo que não está voltado para um prospecto, ele está voltado para uma área inteira. Esse é o geólogo exploracionista de uma abrangência maior.
P/1 – E hoje, a sua atividade é de projetos?
R – Hoje, eu estou na parte de Gerenciamento de Projetos, na área de Desenvolvimento da Produção. Eu estou mais voltada para a implementação de boas práticas, na implementação de projetos. Eu fiz aquela certificação PMP [Project Management Professional], que é como se fosse uma profissionalização na área de Gerenciamento de Projetos pelo PMI, Project Management Institute, que é conhecido. Comecei a me dedicar mais a essa área e hoje trabalho também com gestão do conhecimento na área de comunidades de práticas, mas estou muito voltada para boas práticas para implementar projetos, porque os nossos projetos são complexos, com um investimento altíssimo e eles precisam ter uma boa gestão para que possam ser implementados de uma forma adequada no prazo, no custo e dentro da qualidade esperada. Hoje eu trabalho com isso, que não tem nada a ver com a geologia. Mas a geologia está no sangue.
P/1 – A Senhora poderia me falar sobre a característica da Petrobras nessa mudança. Como era e como é hoje a Petrobras na sua visão, em termos de tecnologia, de gestão. Como se caracteriza a Petrobras nesse processo histórico.
R – Olha, em termos de tecnologia, eu acho que houve um avanço bárbaro. Talvez isso é que nos de tanto orgulho. Em termos tecnológicos, conhecimento, respeito lá fora. Também como empresa, eu acho que nós avançamos muito porque antigamente, nós não tínhamos um planejamento estratégico, nós não tínhamos essa questão muito bem definida, onde nós deveríamos chegar. Isso foi um avanço quando nós conseguimos fazer um planejamento estratégico. Hoje em dia nós somos respeitados pela nossa transparência diante dos investidores e isso vale muito. Hoje lá fora, o nosso risco é muito diferente do risco país. O risco da empresa é muito baixo, eu não sei o número, o valor, mas ele é bem baixo com relação ao país. A única coisa que eu acho que houve um retrocesso foi em termos de gestão. Eu acho que desde que o PT assumiu o governo, eu sinto isso fortemente, porque eu tenho 30 anos de empresa, eu acho que se começou a ter uma interferência muito grande nos níveis muito baixos da Empresa, o que não acontecia antes. A interferência política ficava em cima, escolhendo diretores e tal. Hoje em dia você vai quase a nível de gerência. Tem muita interferência política. Eu acho que isso atrapalha, muito desespero. Agora tem essas grandes produções e essa possibilidade da nossa empresa ficar lá em cima por conta das reservas, mas por questões políticas, eu acho que a gente está correndo muito rápido e eu acho que não precisa disso. Eu acho que nós temos que continuar fazendo os nossos projetos de forma organizada. Claro, não perder o time. O cenário está aquecido, o barril do petróleo está alto, tem gente que chega a falar que vai chegar a 200, hoje deve estar 130, sei lá. Então, eu sei que o momento é de agilizar, mas a gente está perdendo a noção do perigo. Eu sinto que a nossa Empresa perdeu em Gestão nesses últimos tempos. Eu acho que é uma pena, acho que a gente estava indo num ritmo muito bom e o nosso corpo técnico é muito bom. Mesmo os nossos gerentes são ótimos, só que eu acho que está tendo muita pressão política, muita pressão de todos os lados e eu acho que isso está atrapalhando o nosso trabalho.
P/1 – E, para a Senhora, o que é ser petroleira?
R – Oi?
P/1 – O que é ser petroleira?
R – Ser petroleira... Eu não sei nem falar porque 30 anos na Empresa, a minha vida profissional foi toda aqui e se você me perguntar onde eu gostaria de trabalhar, eu ia dizer que é aqui mesmo. Eu posso me aposentar o ano que vem e é provável que eu não me aposente. Ser petroleira hoje é motivo de muito orgulho, porque eu acho que o nosso corpo técnico é muito bom, muito bom. Sinceramente, eu não avancei mais na minha carreira, um pouco por limitações naturais, porque eu tenho as minhas limitações, e outra porque eu tive que fazer escolhas, eu tinha família, tinha filhos. Se eu me dedicasse demais à minha carreira, eu não ia poder me dedicar aos meus filhos, então eu tentei equilibrar. Se eu quisesse e se eu tivesse até um pouco mais de competência, ou coisas assim, eu poderia avançar muito mais. Essa Empresa te oferece tudo: condições de trabalho, oportunidades de aprendizado gigantescas, você tem o que você não tem em outras empresas por aí, que é respeito, no que diz respeito à estabilidade, de respeitar você. Eu nunca trabalhei em outro lugar, mas eu vejo as outras pessoas contratadas que trabalharam fora, que você tira o sangue depois joga fora. Aqui você não vê isso, né? Então, eu sinto um orgulho muito grande de pertencer a esse grupo, sinceramente.
P/1 – E você teria alguma história, algum fato a acrescentar, que eu não perguntei e que você gostaria de colocar?
R – Tem várias historinhas assim. É até engraçada, é sobre essa condição da mulher. Uma vez eu fiz, você sabe o que é testemunhagem? Você está perfurando um poço de petróleo, uma locação e chega num determinado momento que você tem que dizer para o cara: “Para e testemunha.” Testemunhar é você tirar amostrar daquela rocha para trazer para a terra e analisar, para que aquilo sirva de dados. Você tem que tomar decisões sem olhar, então, você perfila, você tira esses testemunhos. Uma vez eu estava fazendo um poço numa área de carbonatos e foi muito difícil. Com os colegas de terra me ajudando através do radio a gente foi acompanhando fazendo co-relações com poços da região e ficou uma testemunhagem perfeita. Ficou ótima. E era uma testemunhagem difícil. Quando chegou aqui na sede, um colega meu me falou- eu soube por isso – que quando alguém perguntou: “puxa, quem fez essa testemunhagem perfeita?” Aí, falaram: “ah, foi a Sonia etal.” Aí o Gerente que estava coordenando: “Ah, intuição feminina!” Eu queria matar o cara por que: “poxa, fiquei horas, deixei até de dormir fazendo co-relação, procurando indicadores para eu testemunhar no lugar certo e ele diz que é intuição feminina!” Eu acho que a gente vive muito isso, né? Se fosse um cara: “Pô, esse cara é muito bom! Trabalhou direitinho” Mas mulher, foi a intuição feminina! A gente tem intuição, a intuição ajuda também, mas não é só isso!
P/1 – E o que a Senhora achou de ter participado dessa entrevista contribuindo para a Memória do Trabalhador?
R – Achei legal, achei interessante. Eu sou suspeita porque eu estou trabalhando com gestão do conhecimento, eu estou trabalhando com comunidades de práticas em que exatamente o nosso maior empenho é registrar experiências ou bem sucedidas ou mal sucedidas que possam ajudar outros, ou é errar menos ou é acertar mais. Então, é o que eu tento fazer, só que no lado técnico, guardar esses aprendizados. Eu só sinto assim, de não ter lembrado melhor para contribuir mais, porque 30 anos é uma vida. Eu acho muito legal fazer esse Projeto, acho muito legal! Muito interessante, memória, guardar o que se fez. Foi um prazer .
P/1 – O prazer é nosso. Obrigada!
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