Entrevista de Mackson Rangel de Jesus
Entrevistado por Maurício Rodrigues (P1) e Anna Miranda (P2)
São Paulo, 30 de junho de 2026
Projeto Memórias do Futebol de Várzea
Entrevista MFV_HV006
Transcrição por Selma Paiva de Oliveira
Revisão por Anna Miranda
(00:30) P1 – Mackson, primeiro agradecer mais uma vez você ter aceitado o convite para participar desse projeto, Memórias do Futebol de Várzea e, para a gente começar, eu quero que você se apresente, falando seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R1 – Meu nome é Mackson Rangel de Jesus, nasci no dia 4 de novembro de 1988, no Piauí, no município de Picos, tenho 37 anos.
(00:56) P1 – Certo. Eu vou te chamar de Max ao longo da entrevista, quais os nomes dos seus pais?
R1 – Minha mãe é Alvani Josefa de Jesus Reis e meu pai Narcílio Narciso Filho.
(01:08) P1 - Queria que você falasse um pouco sobre eles, como eles se conheceram.
R1 – Então, eles moravam próximos. Minha família toda é do nordeste, do Piauí, então eles moravam ali, um próximo do outro, acabaram se conhecendo ali no Piauí mesmo e aí foi essa a relação deles. (risos) Se conheceram ali, no Piauí, se casaram e eu sou fruto dessa relação dos dois.
(01:36) P1 – Sim. E que atividades eles exercem, exerceram?
R1 – Minha mãe é cabeleireira hoje, e meu pai tem um comércio, uma loja.
(01:49) P1 – E você tem irmãos?
R1 – Eu tenho um irmão, Pedro Henrique, de 18 anos e tenho uma irmã, Camile, 17 anos.
( 01:56) P1 – Certo. E você estava falando um pouco antes que você muito cedo se muda. Você e sua família se mudam quando você era muito jovem, para São Paulo. Que lembrança você tem dessa mudança?
R1 – Olha, como eu vim muito novo, eu tenho vagas lembranças de eu bem novinho aqui em São Paulo. Lá no Piauí eu morei dois anos - do meu nascimento até os dois anos - então do Piauí mesmo, essa lembrança, eu não tenho. Tenho mais lembranças daqui de São Paulo. Depois eu viajei para lá, com seis ou sete anos, aí eu já tenho outras lembranças, já lembro da casa dos meus avós, de eu brincando com minha avó, enfim, aí já tem uma idade maiorzinha, já tenho algumas lembranças.
(02:40) P1 - E qual que é a lembrança que você tem da casa que você morou, na sua infância, já em São Paulo?
R1 – Aqui em São Paulo eu morei... calma aí, gente! (risos) Estou meio nervoso.
(02:55) P1 – Fica em paz.
R1 – Eu morei aqui, em Itaquera, tenho várias lembranças, numa ruinha de terra, aqui embaixo. No começo era assim: meus pais se separaram, acho que com três anos meus pais se separaram, então minha mãe veio aqui, para Itaquera. Meu pai... quando a gente vem do nordeste eles vão para Guaianases, aí moram minha mãe e meu pai, lá eles se separam, aí eu venho para Itaquera, com a minha mãe. Então tenho lembranças mais daí mesmo, de uma ruinha de terra que a gente morava, era só eu e minha mãe, minha mãe conheceu outra pessoa, depois se separou, depois veio a família da parte da minha mãe, então morava todo mundo na mesma casa. Então, são essas lembranças, da rua de terra, brincando, descalço.
(03:39) P1 – Sim. E você consegue descrever como é essa casa, nesse momento em que os familiares da sua mãe vêm morar junto com você, como era a movimentação, a casa que você morava?
R1 – Sim, eu lembro. Era uma casa humilde. Minha mãe, a partir de um certo momento, era só eu e minha mãe morando juntos, minha mãe acabou se separando de novo e a gente morou acho que uns dois, três anos só eu e minha mãe. Eu tinha meu quarto, aí eu lembro que era uma entradinha bem pequena, de cara era uma lavanderia, uma cozinha e não tinha a parte de cima ainda. Aí minha mãe pega, acho que com a ajuda dos meus familiares, constrói a parte de cima e aí vem toda a família da minha mãe morar junto, vem meus cinco tios, minha avó, meu avô e aí mais eu e minha mãe, então eram oito pessoas morando nessa casa, todo mundo junto, dormindo no colchão. Tinha o quarto dos meus avós e a gente ali, todo mundo junto, cada um (risos) dormindo no chão, para jantar jantava no sofá. Enfim, é isso.
(04:54) P1 – E, Max, quais eram as suas brincadeiras favoritas de infância? O que você gostava de brincar?
R1 – Primeiro de tudo era o futebol. (risos) A gente vivia jogando futebol na rua. Às vezes saía para rua no final de semana dez horas da manhã e ficava até seis horas da tarde. (risos) A mãe brigando para entrar para almoçar, para tomar banho e a gente queria ficar na rua. Assim, as brincadeiras de infância: pega-pega, esconde-esconde, Rouba Bandeira, era uma época muito gostosa, então tenho muitas lembranças naquela rua de terra. Então, eu acho que, da infância, forma os melhores anos da minha vida.
(05:35) P1 – Sim. Já na infância você tinha sonho de querer ser jogador de futebol, ou você tinha outros sonhos?
R1 – Sim. Só de ser jogador de futebol. A gente não sabia como funcionava, mas a gente tinha isso. Assistia televisão, naquela era época era Ronaldo, Romário, (risos) os mais famosos, então a gente os olhava na TV e queria ser igual: um jogador, chegar em uma Seleção Brasileira, era o sonho da nossa vida.
(06:08) P1 – Sim. E como era você na escola? Você tem lembrança do momento em que você começa a ir para escola?
R1 – Sim. Eu lembro da época do prezinho. Sempre estudei próximo de casa. Tenho amigos até hoje, tem uma foto que eu tenho, até, aqui, guardada. (risos) Tem vários amigos que depois a gente se reencontrou e falou: “Caramba, a gente estudou junto e nem sabia!” A gente vê as fotos, assim. E aí eu estudo, vou pro Cortês, que é outra escola, faço o primeiro e o segundo ano.
(06:43) P1 – Que é aqui, em Itaquera?
R1 – Que é aqui, em Itaquera. E aí passa um período, eu acho que com oito anos eu fui morar com meu pai, aí vou estudar lá em Guaianases. Morei dois anos com meu pai, depois eu volto para minha mãe. (risos) Meio bagunçado, assim, mas eu volto, aí estudo aqui no Rute e termino meus estudos no Rute.
(07:00) P1 – Nessa dinâmica: você falou que morou um tempo sozinho com a sua mãe; depois vieram os familiares; depois você se mudou, para morar com seu pai, você conseguiu manter uma relação boa com seus pais, nesse momento?
R1 – Sim, sempre. Morando com minha mãe eu sempre fui visitar meu pai, aos finais de semana e esses dois anos e meio que eu morei com meu pai todo final de semana eu vinha visitar minha mãe, então sempre tive uma relação muito boa com os dois, sempre próximos.
(07:32) P1 – E quem você diria que foi, se teve alguém que te incentivou a gostar de futebol? Houve uma pessoa, alguma figura ou você, quando percebeu, já era uma criança que brincava?
R1 – As lembranças que eu tenho são sempre com uma bola na mão, desde tipo uns quatro anos de idade. Eu lembro que, quando eu ia, final de semana, para casa do meu pai, era um quintalzão grande, ficava jogando bola com ele, lá. Então, desde que eu me conheço por gente (risos) tem uma bola de futebol envolvida. Aqui, na rua também, era toda criançada, a gente só queria saber de jogar bola, então desde muito novo eu me via com uma bola na mão.
(08:14) P1 – E você jogava em campos - além de jogar na rua também - de terra. Você já teve contato, na infância, com a várzea, ou foi depois?
R1 – Desde pequeno eu tive contato sempre em campo de terra. Naquela época era só campo de terra no futebol de várzea. Eu lembro que eu ia assistir jogos na várzea. Eu ia com meu primo, Anderson. O pai dele era dono de um time, treinador, então desde pequeno eu tive contato com esse futebol de várzea.
(08:41) P1 – Você lembra quais times que você acompanhava, nessa fase da sua vida?
R1- Eu acompanhava o Central Leste, que é daqui, de Itaquera; Viação Ferraz, que é esse time do pai do meu primo. Eram mais esses dois, mesmo. Central Leste, por eu fazer escolinha nele na semana, final de semana tinha jogo do Central, a gente ia lá, assistir e aí ficava lá, assistindo e admirando. (risos)
(09:04) P1 – Sim. De futebol profissional você torcia, torce para algum time?
R1 – Eu sou corintiano. Na verdade, eu era... meu pai que conta essa história, que eu era flamenguista. Meu pai é flamenguista e eu tenho tios meus que eram fanáticos corintianos. (risos) Aí eu lembro que meus tios eram... lembro, não, meu pai me conta que meus tios, corintianos fanáticos, fizeram minha cabeça para eu não ser flamenguista e virar corintiano. Aí, desde então, corintiano. (risos)
(10:05) P1 – Sim. Eu perguntei sobre escola, na escola você também jogava, participava de campeonatos?
R1 - Sim, jogava. Todos os campeonatos que tinha na escola eu estava envolvido, desde o primeiro ano, até terminar. Sempre, sempre. Não via a hora de chegar a Educação Física, para poder jogar futebol, então era futebol nossa paixão. Então, onde tinha uma oportunidade de jogar futebol, a gente estava indo.
(10:33) P1 – Sim. Em que momento que você pensou que era possível uma carreira no futebol, quando surgiu a oportunidade?
R1 – Então, eu sempre jogava, joguei em escolinha de futebol, tinha esse sonho de ser um jogador, mas não sabia como. Vou ser um jogador, mas como eu vou ser esse jogador de futebol? Aí não tinha muito conhecimento, naquela época também não tinha todo esse boom de redes sociais e tal, aí meu padrasto me viu jogando uma vez - eu não fiz categoria de base, nada, não consegui jogar em nenhum clube, nenhuma categoria de base - e aí meu padrasto me viu jogar uma vez, no Central Leste, falou: “’Meu, você joga muita bola, vamos tentar alguma coisa para você ser um jogador profissional e tal” e desde então ele começou a ir atrás de empresários, de contatos, ele sempre teve uma boa lábia, então ele conseguiu para eu fazer alguns testes, aí que eu comecei a correr atrás, mesmo. Comecei um pouco tarde, com 17 anos.
(11:38) P1 – Desde quando você começou a jogar, a não ser de escolinha, pelo Central Leste
R1 – Desde os meus 12 anos de idade.
(11:49) P1 – Que aí você jogava nas categorias que seriam a base da várzea? Doze, treze?
R1 – Isso. Doze, treze, joguei até os meus 17, 18 anos no Central, depois acabei jogando também no time amador do Central Leste. Aí, voltando ao meu padrasto, ele conseguiu alguns testes para mim, foi através dele eu consegui jogar uma Taça São Paulo, aí ele arrumou um teste, eu fui e fiz um teste lá no meio de trezentos moleques, passei, aí consegui jogar uma Taça São Paulo e aí foi desenrolando, a gente tentando, depois da Taça São Paulo eu assinei com um empresário, esse empresário sumiu, aí veio esse mundo do futebol profissional assim, meio difícil, não é tão simples. A gente vê várias histórias aí de pessoas que não conseguiram, tem muitas pessoas que querem se aproveitar do seu sonho também. Por exemplo: eu joguei essa Taça São Paulo em 2007, assinei contrato com esses empresários e eles simplesmente sumiram. E nessa Taça São Paulo eu consegui me destacar, fiz três gols. Fiz gols na Portuguesa, aí o pessoal da Portuguesa querendo me contratar, na época. E aí a gente novo, sem entender muito, esses empresários: “Não, a gente vai conseguir coisa melhor”. Enfim, não conseguiram nada, me impediram de ir para Portuguesa e sumiram depois, simplesmente sumiram. (risos)
(13:14) P1 – Na Taça São Paulo você tinha qual idade?
R1 – Tinha 18 anos.
(13:20) P1 - Eu vou voltar para esse momento, mas eu queria perguntar se você já, para além do futebol, já trabalhava em outras áreas, vislumbrava alguma outra carreira, ou estava, de alguma forma, pensando no futebol?
R1 – Estava pensando no futebol. Eu tentei dos meus 17 até os meus 23 anos, mesmo, ser um jogador de futebol. Aí, quando eu vi que estava tentando e vendo que eu não estava saindo do lugar, a várzea, querendo ou não, te chamando para jogar, querendo te pagar um salário até maior do que nesses clubes menores, então aí eu tentei esse período todo, depois resolvi ficar só na várzea.
(14:04) P1 – Eu queria que você falasse um pouco dessa experiência, como é que foi. Você fez uma ‘peneira’ para entrar, acho que era um time de empresários, na Taça São Paulo e como é que foi essa experiência de participar de um torneio que é considerado uma vitrine para o futebol profissional.
R1 – Sim. Para mim…para nós, jovens, na época, era tudo jogar uma taça em São Paulo. Até hoje é a maior vitrine que tem no futebol de base. Eu lembro que eu fui fazer um teste antes dessa equipe, eu fui no Atlético de Sorocaba, fiz teste, o treinador gostou muito de mim, só que por causa de dois dias eu não pude ser inscrito nessa mesma Taça São Paulo porque, se eu não me engano, a inscrição era até dia... tinha uma data prevista, dois dias depois eles foram tentar me inscrever e não conseguiram, aí me dispensaram. Aí meu padrasto consegue esse teste, esse ‘peneirão’ do nada, ele conseguiu, falou: “Surgiu uma oportunidade de jogar a Taça São Paulo de novo”, aí eu disse: “Mas como? Já acabaram as inscrições” “Não, eles estão com uma vaga de um time lá de Roraima, vai dar certo”. Aí fui em um ‘peneirão’. Para mim era tudo novo, eu nunca tinha jogado, em nenhum clube, foi a primeira vez que eu tive essa experiência de jogar em um clube, treinar a semana toda, ficar no clube e ali, para gente, era um sonho. Eu faço essa ‘peneira’ com trezentos, quatrocentos moleques, passo nessa ‘ peneira’ e a gente treinou aqui em Guarulhos, num clube, o Plêiades - não sei se ainda existe - por dois meses, para jogar essa Taça São Paulo e aí a gente consegue jogar. Meu time não foi muito bem, perdeu os três jogos, até porque a gente treinava num terrão. A gente pegou, na época, o time do Cruzeiro, que foi o campeão daquela edição e a Portuguesa, que era muito forte. A gente acaba perdendo os três jogos, mas como eu falei, eu acabei me destacando, fiz dois gols na Portuguesa, fiz gol no primeiro jogo. Meu time fez quatro gols nessa Taça São Paulo, eu fiz três e dei uma assistência. (risos) Então, ali, para mim, foi a minha primeira experiência de clube. Era uma estrutura legal, dormia, tinha alimentação, café da manhã, almoço e janta. A gente dormia numa brinquedoteca que eles adaptaram, (risos) dormia, tinha um monte de beliche lá, então essa foi a minha primeira experiência num clube.
(16:15) P1 – E você sempre jogou como atacante, ou quando começa a jogar de forma mais séria era como atacante?
R1 – Sim, sempre como atacante. Eu já fui goleiro também. (risos) Já fiz escolinha como goleiro e tal, mas a minha preferência sempre foi a linha, sempre de atacante.
(16:33) P1 – Em que momento que você percebeu: “Tenho que jogar na linha, como atacante”? Que normalmente é uma posição mais disputada, mais concorrida.
R1 – Sim, é. Então, eu treinava e, como eu gostava das duas posições, numa escolinha de segundas-feiras, quartas-feiras e sextas-feiras no gol e terças-feiras e quintas-feiras na linha. Aí eu fui fazer um treino nessa escolinha que eu jogava no gol, tipo esses ‘rachões’, sabe? Aí eu fiz sete gols, nesse ‘rachão’, (risos) aí o treinador falou assim: “Não, não, não, você não vai mais ser meu goleiro, você vai ser meu atacante. Daqui para frente você não joga mais no gol”. Aí, de lá em diante só joguei na linha, nunca mais joguei no gol.
(17:15) P1 – Depois dessa experiência, você falou que teve a questão, ali, de empresário e tal, de promessas que não foram cumpridas na Taça São Paulo, como é que você continuou tentando se manter, na carreira? Como é que foi isso?
R1 – Então, aí eu faço essa Taça São Paulo e na nossa cabeça, na minha e da minha família, me destaquei, vou conseguir algo, só que aí esses empresários somem e a gente passa o ano de 2007 inteiro sem... eu volto para a escolinha do Central, passa o ano inteiro e aí, em 2008 meu padrasto arruma uma empresa. Na verdade, ele pagava para eu treinar com esse empresário, tinha, não sei se tem ainda, mas você pagava uma mensalidade e você treinava a semana inteira com ele. E aí eu fazia os treinos e ele prometia que ia te mandar para os clubes. (risos) E aí ele conseguiu um clube para mim lá em Rondônia, fui para Rondônia, era o Genus de Rondônia, isso em 2008, para jogar o campeonato estadual lá. Eu não era profissional ainda, no BID [Boletim Informativo Diário, que é o sistema oficial de registro da Confederação Brasileira de Futebol], essas coisas e tal. E aí, para eu ir para esse clube - é o que a gente fala: muitas pessoas se aproveitavam desse sonho – minha mãe teve que pagar oitocentos reais, para eu poder me profissionalizar, lá. E eu tinha que ir sem receber salário, a condição era essa. Tinha que pagar, minha mãe pagou oitocentos reais e eu ia para lá, ficar quatro meses sem receber salário. Foi assim que eu me profissionalizei. (risos)
(18:44) P1 – Para disputar, esse período dos quatro meses, o campeonato?
R1 – O período do campeonato. E aí eu jogo esse campeonato, depois volto para cá, fico um período aqui, de novo e aí eu faço - continuo tentando – vários testes em outras equipes profissionais, fiz teste no São Bento, de Sorocaba e aí eu consigo uma avaliação na Portuguesa Santista. O treinador da Portuguesa Santista, a esposa dele era muito amiga da minha mãe e aí ela ficou sabendo que ele era treinador de futebol e falou: “Que coincidência!” Aí minha mãe pediu uma oportunidade para ele, ele meio que não queria dar oportunidade, aí eu fui fazer teste em outra equipe, no São Bento de Sorocaba, tinha ido muito bem nos testes, lá, achei que ia ficar e tal, mas o treinador acabou de dispensando. Aí o preparador físico do São Bento conhecia o treinador da Portuguesa, (risos) aí ele falou de mim, ele falou: “Esse não é o filho da Alvani, que mundo pequeno!” Aí ele me deu uma oportunidade para ir na Portuguesa Santista, aí eu jogo na Portuguesa Santista dois anos, depois jogo em Limeira, também, mais dois anos, no Independente de Limeira, volto para Portuguesa Santista e aí foi meu último clube. Eu lembro que em 2011 a gente consegue subir de divisão, porém perde a vaga por problema de jogador irregular. A gente acaba perdendo a vaga. Eu tinha mais um ano de contrato, só que a empresa que bancava a Portuguesa, como perdeu a vaga, pegou e saiu e eu tinha contrato com essa empresa. Foi aí onde eu decidi não jogar mais, não tentar mais futebol profissional, ficar só na várzea.
(20:26) P1 – Não teria como você, de repente, ir para outro time, por essa empresa?
R1 – É, então, eles também pararam com tudo. Eles simplesmente (risos) falaram: “A gente não vai mais mexer com futebol”. Iria ficar na Portuguesa, a Portuguesa não tinha estrutura para bancar sozinha os salários, elenco, enfim. E ali eu lembro que, nessa época aí, o Central Leste volta para minha vida. Tem a extinta Copa Kaiser, o Central Leste volta e fala: “Vamos jogar a Copa Kaiser e tal. Eu vou te dar um salário para você jogar e tal” e aí eu falei: “Não, mas eu estou como profissional”. Na minha cabeça tipo assim: eu não queria voltar, reverter a carteira de profissional. Ele falou: “Não, vamos fazer o seguinte: você joga essa Copa Kaiser para gente e depois que acabar você pode, eu vou lá e reverto você de novo para profissional”. Aí ficou combinado dessa forma. Aí joguei essa Copa Kaiser, só que aí não quis mais voltar (risos) para o profissional, decidi ficar só na várzea.
(21:28) P1 – Antes desse retorno para Central você já tinha recebido para jogar na várzea, ou não?
R1 – Já, já tinha recebido. Eu comecei a jogar, a primeira vez que eu ganhei algum valor na várzea foi em 2006, nesse time do Viação Ferraz, que era o time do Geovani, que era o pai do meu primo, eu lembro que eles me chamaram para jogar e falaram assim: “Eu vou te dar quarenta reais, para você jogar”. Aí eu falei: “Pô, é claro que eu vou jogar! Vou receber, vocês vão me pagar para jogar bola, fazer o que eu gosto” e aí foi a primeira vez que eu recebi um dinheiro na várzea.
(22:08) P1 – E depois disso, então, você vai sendo convidado outras vezes?
R1 – Isso. Aí eu começo lá, no Viação Ferraz, jogando, aí tem esse intervalo de profissional, tentando. Aí, quando não dava certo eu voltava, jogava um tempinho na várzea, mas a primeira vez mesmo, sobre dinheiro na várzea, foi quarenta reais que eu recebi. Depois, quando eu volto para Central Leste, depois de todo esse período tentando profissional, ele já vem com uma proposta: “Não, eu vou te pagar um salário. Você ganha quanto, lá?” Eu ganhava quinhentos reais na Portuguesa. Ganhava, assim, quando recebia. (risos) Que você jogava três meses, recebia um. Ele falou: “Não, eu vou te dar um salário de oitocentos reais para você jogar a Copa Kaiser para mim”. Aí, depois que eu comecei a ganhar esse valor no Central, não voltei mais para o profissional.
(23:02) P1 – Você falou de várias situações, mas qual você considera que foi a maior dificuldade que você viveu durante esse período que você tentou jogar profissionalmente?
R1 – A dificuldade era assim: eu passei por várias situações, eu fiz vários testes, eu já vi jogador dar envelope para treinador…jogador da sua posição. Eu já fiz teste, passou eu e mais um moleque, fomos os dois para o clube, chegamos lá e ia ficar só um, fica ele e você vê que ele não sabia…não tinha o dom do futebol. Você ia bem nos treinos, nesse próprio São Bento mesmo, eu fiz teste, poxa, chegava no coletivo, eu fiz três gols no primeiro, fiz três no segundo, aí você vai indo bem e poxa, do nada, vem o baque: “A gente não vai ficar com você” e aí você volta chorando para casa. (risos e choro) Ai, ai. É que vai lembrando, aí... você tenta e recebe mais um não na sua vida e aí chega uma hora que a gente cansa de ver tanta coisa errada. (choro)
(24:30) P1 – Se quiser tomar uma água, tranquilo.
R1 – Porque também era um sonho meu, um sonho da minha mãe. Minha mãe foi a pessoa que mais me ajudou na minha vida, para tentar ser um jogador profissional. Ela lutou comigo com unhas e dentes. Ela: “Filho, como está aí? Tu não recebeu, não? Toma quarenta reais aí, para você comer um lanche”. Aí você viajava, ia para longe, já fui para o Paraná, não dava certo, aí voltava e a volta era sempre difícil, porque (suspiro) a gente ia com a expectativa de (choro) ficar, conseguir alguma coisa, mas não dava certo, então a volta era mais difícil. (choro)
(25:29) P1 - Você falou, além da sua mãe, de outras pessoas da sua família que apoiaram. Acaba sendo um projeto que mobiliza várias pessoas da família.
R1 – Sim. Meu padrasto me ajudou demais também. Se eu consegui alguma coisa no profissional, foi porque ele correu atrás. Ele conseguiu um teste no Santos para mim, sem o ‘cara’ ver eu jogar. Então, ele lutou muito para que esse sonho fosse realidade, então ele me ajudou demais, também e como eu falo: o mais difícil era a volta, ver no olhar deles não a decepção, mas a tristeza também que eles sentiam, por não ter dado certo, por não dar certo.
(26:15) P1 – Tudo bem? Quer dar uma pausa?
R1 – Não, tranquilo.
(26:18) P1 – Você falou que foi com 23 anos que você achou que não precisava mais continuar tentando e recebe esse convite para atuar na Copa Kaiser.
R1 – Sim.
(26:29) P1 – Como é que você vai, então, virar um pouco dessa chave e se dedicar: “Agora vou ter a possibilidade de me dedicar à várzea”? Como é que foi isso?
R1 - Quando eu vi que financeiramente eu tinha chance de ganhar algo melhor que no profissional, que eu decidi. Eu jogo essa Copa Kaiser em 2012, eu me destaco, eu faço 12 gols, a gente vai bem e aí começam a vir vários convites, de vários outros clubes, para eu jogar. O pessoal oferecendo dinheiro, fazendo propostas para eu jogar, aí foi onde eu pensei e falei: “Agora acho que é isso que eu quero para minha vida: vou ficar no futebol de várzea, que eu acho (risos) que é para mim. O profissional tentei, já lutei, estou dando ‘murro em ponta de faca’, parece que não vai, então eu vou me dedicar ao futebol de várzea”.
(27:26) P1 – E como era a várzea nesse momento em que você, enfim, disputa a Copa Kaiser e começa a ser chamado para jogar para outros times?
R1 – É, nessa época não tinha tanta mídia, como tem hoje, então era assim, por exemplo: eu me destaquei nessa Copa Kaiser e eu lembro que a gente...terça-feira saía no Lance! os Craques Kaiser. Aí eu joguei 15 jogos, fui Craque Kaiser oito vezes nesses 15 jogos. Então, eu ficava esperando sair nossa foto no Lance!. Eu não tenho o jornal, mas eu tenho uma foto jogando na Kaiser, no terrão. Então, era meio que assim. Aí o pessoal começou: “Tem um magrinho lá, no Central, que é muito bom e tal”. Você começa a se destacar, aí eu lembro que já veio um treinador, o Robson, que me levou para Diadema, aí que eu comecei a sair para fora - jogava só no Central, nessa época - aí começou a vir convite de Diadema, São Bernardo, de vários lugares aqui de São Paulo, para a gente jogar e começa assim, sem mídia, mas no boca a boca o pessoal fala: “Não, ele é muito bom”. Ia lá, jogava, se destacava, aí o meu nome ia se espalhando, no caso, para jogar e para ser chamado para outros times.
(28:43) P1 -Você falou da questão da mídia, mas imagino que até em termos de movimentação de dinheiro, recursos, era uma outra várzea também.
R1 – Sim.
(28:52) P1 – Como eram feitos os convites? Mais ou menos quanto era a média que você conseguia ter de retorno, nesse momento?
R1 – Então, naquela época eu recebo essa proposta do Central, um salário mensal na várzea, (risos) então poxa, dizer: “Você vai ganhar oitocentos reais por mês, para você jogar a Copa Kaiser para a gente”. Então, a Copa Kaiser durava seis meses, então eu jogava seis meses e recebia seis meses também, sem jogar. Então, outros times eram por jogo, naquela época era cem reais por jogo, só contratos assim, de boca, nunca teve contrato assinado. Na várzea até hoje é assim: palavra com palavra.
(29:29) P1 – Na palavra, então, que é feito o acordo na várzea?
R1 - Isso. Na palavra, não tem contrato, nada. Você combinou: “É tanto para você vir jogar para mim”, você vai, joga e recebe.
(29:39) P1 – E não havia, também, na época, exclusividade, para você jogar só para, no caso, o Central, na época?
R1 – Não.
(29:46) P1 – No campeonato você só jogava...
R1 – No campeonato e, por exemplo, até hoje é assim: o Central era prioridade. Por exemplo: tinha um jogo do Central na Copa Kaiser e um jogo de um time em São Bernardo, se batesse o horário, não, a prioridade é o Central, pelo contato que a gente tem.
(30:05) P1 – Então, é o time que você tem uma maior relação de identificação?
R1 – Sim. Eu fiz escolinha, desde os meus 12 anos. Fui goleiro no Central, joguei na linha. (risos) Então, é o time que eu tenho mais relação, desde a infância. Hoje ele não está jogando mais nenhuma competição, deu uma parada, tem alguns anos, mas eu sempre joguei. Eu joguei três Copas kaiser, as três foram pelo Central. Não só a Copa Kaiser, joguei outros campeonatos também, por ele. Quando acabou a Copa Kaiser, começou essa loucura de várias Copas na várzea, então sempre joguei, até 2017 Central era um time fixo para mim. Depois, de 2018 em diante ele deu uma parada…está para retornar, mas não retornou ainda. (risos)
(30:50) P1 – E por quais times, você pode... imagino que são muitos, mas citar alguns desses times que você jogou, na várzea?
R1 – Ah, tem bastante! (risos). Hoje eu devo estar nuns trinta times aí. (risos) Por aí. Você pega meu celular, o WhatsApp é só grupo de futebol. Mas aí tem o Bandeirante, que é um time fixo que eu estou, hoje. Eu jogo no MEC da Cidade Tiradentes e Estrela do Suisso, em São Bernardo. Eu jogo em Indaiatuba, Atlético Oliveira. Adega Nação, em Itu. Tem mais. Atibaia... Eu jogo em várias cidades, são muitos times, muitas cidades. Hoje tem a minha esposa, que a gente faz um trabalho aí, que ela é minha empresária e tal, ela faz um trabalho de mídia legal, então hoje vem convites do Brasil todo, para eu estar jogando. Recentemente eu fechei com um time, para jogar lá no Espírito Santo algumas partidas, então hoje está assim. (risos)
(31:46) P1 – Fala um pouco como é que organiza um pouco dessa agenda, porque imagino que trinta times no mesmo momento, claro que tem períodos que você se dedica mais a um, períodos a outros, para alguns imagino que é um vínculo mais pontual, como é essa organização?
R1 – A gente fala assim: a gente tem as prioridades. Eu tenho minha primeira prioridade, o Bandeirante, de Brodowski, que eu tenho um contrato com eles. Eles me pagam um valor mensal, para eu dar essa exclusividade para eles, então quando tem jogo do Bandeirante é no Bandeirante que eu vou. Pode ter qualquer outro jogo, aqui em São Paulo. Nas Copas aqui em São Paulo eu tenho um contrato com o MEC, da Cidade Tiradentes, qualquer Copa que o MEC jogar, aqui em São Paulo, eu estou no MEC. E tenho também um contrato com a Estrela do Suisso, que é em São Bernardo, que é aos domingos de manhã. Então, a gente se organiza da seguinte forma, a gente fala: Bandeirante é de março a junho a primeira competição, então a gente organiza a agenda conforme o Bandeirante, primeiro de tudo. O MEC já está ciente dessa situação. Por exemplo: às vezes bate, o MEC joga campeonato o ano todo, aqui em São Paulo. Aí, por exemplo: bateu o jogo com o Bandeirante, o MEC está ciente que o Bandeirante é a primeira prioridade e aí a gente vai organizando assim. Aí, as outras equipes a gente fecha só por jogo, não tem nenhum tipo de contrato, é: “Vou me inscrever para esse time, é um valor por jogo, só que a gente explica certinho: ele tem essas três prioridades e tal. A gente vai vendo, quando der ele vai”. Enfim, a gente vai encaixando a agenda dessa forma. Agora mesmo eu estou em Indaiatuba, em Itu e Peruíbe. Estão os três esperando brechas desses times para eu poder jogar para eles. Então, essa semana teve... eu consegui em Indaiatuba, que não teve rodada no Estrela do Suisso, o Bandeirante só volta agora, em outubro, e o MEC não teve jogo, então a gente vai encaixando dessa forma.
(33:45) P1 – E você falou que, em um primeiro momento, era muito do boca a boca que surgiam os convites. O que foi mudando, na várzea, daquele primeiro momento para esse momento atual?
R1 – Eu acho que a mídia. Acho que o que mais mudou é a mídia, hoje. Antigamente, para você ver um gol seu filmado na várzea era impossível. Poxa, você não conseguia. Eu lembro que eu fiz um gol de bicicleta fora da área, no campo do Botafogo de Guaianases, falei: “Já pensou se tinha uma filmagem?”...mas não tinha. Então, acho que o principal que mudou foi a mídia, que hoje você faz um gol, no mesmo instante eles já postam nas páginas deles, das redes sociais e expande isso aí para o Brasil inteiro.
(34:27) P1 – E aí a mídia tanto dos próprios times, o pessoal que registra, mas também canais de mídia especializados na várzea.
R1 – Sim. Tem vários canais: Várzea ao Vivo, Blitz TV. A Super Copa Pioneer tem a TV Super Copa Pioneer. Então, hoje passa jogos ao vivo. Hoje é difícil não ver um jogo ao vivo na várzea. Nas maiores Copas o pessoal te assiste do Brasil inteiro.
(34:51) P1 – E em que momento você percebeu que estava se tornando conhecido dentro do circuito da várzea?
R1 - Quando começa a vir convites de vários lugares, lugares que a gente jamais imaginou que ia vir. Até convite profissional (risos) ultimamente eu tenho recebido, para jogar profissional. Então, você vê que, poxa, mudou muito. Oportunidades que eu não tive, no profissional, as pessoas me oferecendo agora, sabe? Eu lembro que em 2017 eu fiz um gol de voleio na semifinal da Especial de São Bernardo e o presidente do São Bernardo queria me contratar, me levar para o São Bernardo para fazer um teste e tal. Então, acho que foi a partir de toda essa mídia, Instagram também cresceu muito, os times também investindo muito em marketing. Tem o trabalho da minha esposa, que ela faz, ela virou minha empresária, ela sempre foi. Depois de um título que a gente foi campeão, em São Bernardo, ano passado, ela soltou um vídeo na internet e falou: “Pessoal, poxa, vamos saber chegar. Vocês querem contratar o meu atleta e tal e vocês não falam que time que é, que cidade”. Então, esse vídeo deu uma viralizada na várzea, e aí a gente começou essa história. Sempre teve entre nós, a gente sempre foi muito parceiro de escolher para onde ir e tal, de analisar junto as situações, mas aí a gente expôs para fora e hoje ela organiza toda essa agenda, fecha contratos e eu só jogo futebol. (risos)
(36:22) P1 – Fala um pouco como é que foi que a Daiane, sua esposa, começou a entrar ou, enfim, a participar mais ativamente nessa organização, um pouco, da sua agenda como jogador de futebol de várzea.
R1 – Na verdade, ela sempre participou. Não no começo, ela nem gostava tanto assim de futebol, era até meio contra que eu jogava, saía, sumia no final de semana, para jogar futebol. Ela ficava em casa, já quis terminar comigo por causa do futebol, (risos) porque na nossa primeira semana de relacionamento eu sumi no final de semana, jogando futebol. Mas depois, com o tempo, depois de uns dois anos de relacionamento…também a gente entendeu que a várzea estava proporcionando coisas boas para a gente - essa casa aqui a gente construiu com o dinheiro da várzea - então ela entendeu também esse lado, que era uma situação boa, que nos ajudaria. No nosso casamento a gente ganhou geladeira de time de várzea, parcela de carro, o pessoal pagava boleto do carro para a gente, então ela entendeu o que era o futebol de várzea também, que não era só aquele jogo de futebol, no terrão e aí ela começou também a entrar comigo nas negociações. No começo era sempre eu que respondia, mas ela sempre por trás, sempre analisando junto a melhor situação: “Esse time tal está te chamando, será que é legal ir?”, não sei o quê. Então, a gente sempre conversou, mas exposto mesmo, para fora, tem um ano que viralizou na várzea dela ser empresária. E assim, tem o lado da brincadeira, que a gente faz uma brincadeira no Instagram e tal, mas é muito verdade, hoje ela resolve tudo para mim.
(38:03) P1 – Em alguma medida também tem o envolvimento da Daiane no universo da várzea, de acompanhar os jogos, de participar, pelo que eu pude ver também nas redes sociais.
R1 – Sim.
(38:14) P1 - Então, em que momento começou, que você percebe que essa presença começou a se dar, mais constante?
R1 – Antigamente ela ia mais em finais. Chegava em finais ela ia bastante. Acho que em 2015, por aí que ela começou a acompanhar. No primeiro ano ela não acompanhava muito, ia esporadicamente, um jogo, ou outro, mas a partir de 2015, acho que já tinha o quê? Um ano e meio de namoro…ela começou a ir mais nos jogos, hoje ela não vai só em finais, (risos) ela vai em várias partidas, está sempre comigo. Às vezes pego um jogo longe, ela vai dirigindo para mim, para eu poder descansar. Às vezes pega dois jogos no mesmo dia, ela pega e vai dirigindo, para que eu possa só jogar. (risos)
(38:56) P1 – E como isso é visto por outros colegas seus que jogam na várzea? Você conhece também outros casos parecidos com o seu?
R1 – No caso da empresária?
(39:06) P1 - É, de empresária e de mulheres que participam, ali, ajudando a organização.
R1 – Então, ela começou isso. Hoje ela recebe várias mensagens tipo assim: “Poxa, meu marido joga bola, eu estou começando a negociar por ele”. Tem um treinador do amador do Bauru, que a esposa dele mandou mensagem para ela, falou: “Nossa, que legal seu trabalho! Meu marido é campeão aqui, várias vezes, mas não é valorizado, eu vou começar a negociar por ele”. (risos) Então, ela está criando, aí, uma nova tendência na várzea. Já criou, na verdade. Tem muitas esposas que já estão imitando ela. (risos)
(39:38) P1 – E você percebe também que, enfim, passa acho que também pela atuação da Daiane, mas você falou que começou recebendo quarenta reais e depois foi recebendo prêmios maiores, cachês maiores, vai acontecendo também uma valorização do seu trabalho como jogador de várzea, um reconhecimento pelo que você joga, mas também uma valorização do que é um jogador de futebol de várzea?
R1 – Sim. Eu acho que questão de valores foi evoluindo ano a ano. Como eu falei, o meu primeiro ‘bicho’, como é falado na várzea, foi quarenta reais. E a gente vai se destacando, vai recebendo propostas, aí vem o time A: “ Vou te pagar tanto”, aí vem o time: “Não, eu vou te pagar tanto”, (risos) aí foi se valorizando, ainda mais depois da mídia, foi valorizado mais ainda, depois desse trabalho que ela fez também, ultimamente, aí que valorizou muito mais. (risos) Como eu falei, fechei um time agora, para o Espírito Santo, eles dão passagem de avião para você ir, ida e volta, hospedagem, deslocamento até o campo, tudo custeado por eles, mais o seu valor por jogo. Então, evoluiu bastante. Eu jogo no Bandeirante, por exemplo, de Brodowski, a gente tem carro alugado para ir para lá, são quatro horas daqui, de São Paulo. A gente dorme no hotel um dia antes, joga no sábado, a gente viaja na sexta-feira, dorme, descansa, então evoluiu bastante nesse quesito. Financeiramente e de estrutura também, tem vários... hoje, na várzea, você vai em um vestiário tem fisioterapeuta, a sua alimentação ali, uma fruta, se você precisar de um almoço tem, eles arrumam. Tem a mídia, como eu já falei, fotógrafo, então evolui em vários setores o futebol de várzea.
(41:28) P1 – E você, que teve a experiência de jogar no futebol profissional, em divisões de séries inferiores e vê, acompanha esse crescimento da várzea, como é ver esse maior investimento que tem acontecido no futebol amador de várzea e não só aqui, em São Paulo, mas pelo que você disse também em outras cidades, em outros estados. No Espírito Santo também é várzea?
R1 – Várzea, tudo várzea.
(41:56) P1 - Como é que você tem visto esse aumento de investimento?
R1 – Para nós, jogadores, é muito bom. Falando da questão financeira é o nosso sustento, nosso ganha-pão. Hoje eu vivo só da várzea, eu consigo viver só da várzea, mas é recente isso, é de um ano para cá, mas eu ralei 15 anos para chegar nesse momento, de poder falar: “Hoje a minha renda é do futebol de várzea”. Mas quando a gente trabalhava na semana, jogava final de semana, mas a várzea sempre foi 70% da minha renda, 60%, o restante é do trabalho. Hoje muitos jogadores vivem assim. A questão desse investimento eu vejo muitos jogadores profissionais vindo para a várzea, porque é como eu falei: você vai em um clube, você joga três meses, quatro meses, às vezes não recebe e na várzea, querendo ou não, você jogou, o seu dinheiro está ali. Antigamente era envelope, agora é no Pix. Você jogava, tinha um envelope com o valor que você combinou. Hoje você jogou, está o Pix lá. Às vezes paga adiantado. Tem várias formas de contrato na várzea, você recebe ‘luva’ para jogar um campeonato, eu tenho um time que me paga mensal. Enfim, tem várias formas de contrato, o pessoal é apaixonado pelo time, pela várzea e fazem essas... não sei se loucuras…é a paixão do ‘cara’, ele quer ver o time dele vencer, então se ele tem o valor financeiro ele investe, então para nós, jogadores, é muito bom e é isso.
(43:24) P1 – Sim. E você falou de várias formas, de ‘luva’, remuneração. Normalmente é por jogo, vitória, também, por exemplo, por gol, por assistência? Quais são as formas de premiação que tem?
R1 – Como eu falei, eu tenho um contrato mensal, que é a prioridade, então eu recebo um valor mensal, um salário fixo o ano todo, para eu jogar esse campeonato, mas tem várias formas. Por exemplo: você vai jogar numa Super Copa Pioneer, que é o campeonato mais falado, mais conhecido hoje da várzea. Normalmente você pega um valor na mão, de ‘luva’, para assinar, mais o valor do jogo. Você pega um valor na mão, vamos combinar o ‘bicho’, aí todo jogo você recebe o ‘bicho’, fora o valor que você já recebeu, aí tem times que te dão um valor por gol, tem times que te dão um valor por vitória, uma bonificação por título: “Se for campeão, vai dividir tanto”. Tem todas essas premiações na várzea, além do ‘bicho’ e da ‘luva’.
(44:29) P1 – Passado tudo isso você consegue, hoje, viver da várzea, ser um atleta dedicado ao futebol de várzea, como é que foram essas situações de você receber convite para jogar no futebol profissional, como você citou no caso de São Bernardo?
R1 – Na época cheguei a ficar tentado e tal para ir para o São Bernardo, mas decidi não ir, decidi (risos) ficar na várzea, não sei se um trauma, não sei o que pode ter sido. Eu também já estava casado, a gente já tinha uma família e como eu deixar ela aqui, para viver tudo isso de novo? Eu já estava há três, quatro anos casado. E a vida de um jogador nessas divisões inferiores, você tem que ir, ficar em alojamento em outras cidades, vem para casa final de semana, nem todos os finais de semana você vem, então também eu acho que o principal foi isso: como eu vou deixar a minha esposa em casa e tentar esse sonho novamente? Já tinha uma idade avançada, então decidi não ir. Hoje a gente recebe também e é o que a gente fala: “Poxa, ele está conseguindo ficar estabilizado na várzea, o que o time profissional pode oferecer?” Então, é muito difícil eu sair do certo que eu tenho hoje para o duvidoso, para ir lá tentar algo, que é uma incerteza. Hoje eu tenho minha filha, tenho minha esposa, como eu vou viajar para outro estado? Elas vão poder ir comigo? Vai ter uma casa para eu morar? Não tem como eu ir e deixar elas aqui, entendeu?
(46:00) P1 - E quando você recebeu, por exemplo, essa proposta do São Bernardo, era mais ou menos para você tentar entrar novamente, não era uma coisa estabelecida, que te oferecia uma estabilidade?
R1 – Isso. Não, era um teste. Você vai lá e vamos fazer um teste. Aí, pô, já tinha passado por milhões de testes, então na minha cabeça falei: “Ah, eu não...”, era uma divisão inferior, acho que o São Bernardo, na época, era a terceira, não sei que divisão que era. Aí eu pesei tudo na balança - minha família, minha estabilidade na várzea - e resolvi não ir.
(46:37) P1 – Sim. Você pode falar quais foram suas principais conquistas na várzea?
R1 – Sim. Tem bastante! (risos) Eu sou bicampeão da Martins neto; tricampeão da Copa Negritude; bicampeão da Copa da Paz.
(46:57) P1 – Esses campeonatos você ganhou por quais times?
R1 – Martins Neto eu ganhei uma pelo MEC e outra pelo Área do Verde. Copa da Paz eu ganhei uma pelo Brasília, outra pelo Pioneer. Negritude eu ganhei uma pelo Batti Fácil e outra pelo Brasília. Amador do Estado eu ganhei seis vezes, que é um campeonato organizado pela Federação Paulista, ganhei duas vezes pelo FAC de Bragança Paulista e quatro vezes pelo Bandeirante, de Brodowski. Já fui bicampeão da liga de Sorocaba, pelo Vila Helena. Fui campeão em Atibaia, pelo União. Em Itu fui campeão pelo Juventus. Calma, que tem mais. (risos) Já fui campeão da Copa Macaco Louco, que é uma Copa conhecida aqui também, pelo Batti Fácil. Em São Bernardo, que é um dos campeonatos mais difíceis que tem na várzea, eu fui campeão pelo DR e pelo Unidos do Morro. E por aí vai. (risos) Tem várias conquistas. X do Morro, campeão pelo Ninguém Bom. Tem mais. Uniligas, pelo DR também. Enfim, acho que tem mais de uns noventa, cem títulos na várzea.
(48:08) P1 – Sim. E como é a rotina? Você falou um pouco que a Daiane assumiu muito também das funções, para você poder se focar em jogo, na preparação. Como que é a preparação, hoje, de um atleta de elite da várzea?
R1 – Eu treino a semana toda. Eu tenho toda essa preparação. Eu treino de segunda-feira a sexta-feira. Jogo aos finais de semana. Às vezes a gente pega três jogos no final de semana, então a gente tem que cuidar do nosso corpo, para poder aguentar jogar. Então, eu tenho essa disciplina. Treino segunda-feira, terça-feira. Eu pago um personal à parte, para me dar treinos específicos, para eu poder desempenhar no final de semana. Faço academia. Então, eu estou sempre treinando. Faço fisioterapia, quando precisa. A gente cuida da alimentação, toma uma suplementação para aguentar essa rotina, porque é cansativo, é pesado. (risos) Você jogar três... já cheguei a jogar cinco jogos no final de semana. Então, é bem cansativo. Então, se o ‘cara’ quer, como você falou, ser um jogador de elite na várzea, aguentar toda essa rotina, ele tem que se cuidar. Eu também não bebo, não sou de sair para balada, virar a noite, essas coisas. Eu jogo meu futebol (risos) e venho para casa. É isso que eu faço. Então, eu acho que isso ajuda bastante também, para poder estar sempre desempenhando.
(49:27) P1 - Sim. E como é que consegue jogar cinco partidas em um final de semana? Como é que é a organização logística e a preparação? Fala aí.
R1 – (risos) É assim: a gente pega a agenda do final de semana e vai encaixando. Não é sempre, acho que foi duas vezes que eu fiz isso, de jogar cinco jogos.
(49:45) P1 – O normal seria mais ou menos quanto?
R1 – Normal são três. Normalmente a gente joga, vai, um no sábado, dois no domingo. Ou dois no sábado, um no domingo. Normalmente é isso: um sábado e dois domingo. A rotina, normalmente, é essa. Mas para jogar... eu lembro que esse final de semana calhou, porque a gente está em vários times e todo mundo quer que você vá: “Não, dá para você vir meio-tempo, não sei o quê? Vem aqui”. E aí calhou de não bater os horários. Essa é a logística: não bateu horário... a distância também a gente vê, calcula toda a distância, o tempo, se vai dar para chegar no campo, então você calcula mais ou menos assim, para poder dar tempo de ir em todas essas equipes. Então, eu lembro que eu joguei dois jogos em um sábado, era um próximo do outro. No domingo também, por incrível que pareça, eram jogos próximos, tudo aqui na capital, então deu para fazer esses cinco jogos no final de semana.
(50:34) P1 - E quando você recebe esses convites para atuar, mesmo que seja por meio-tempo, você percebe que tem também uma cobrança: “Mas você tem que render”, ou não: “É legal que você venha”, independente da dificuldade que existe para você chegar, para jogar?
R1 – Não, o pessoal, onde eu vou eles esperam que eu vá e faça os gols, né? (risos) Todo lugar que eu vou, se eu não fizer o gol, eu não joguei bem (risos). Mas tem, sim. Eu me cobro muito também, por isso. A pessoa está te pagando para você ir lá e resolver o jogo. A fama que pegou na várzea é isso: que eu estou indo lá resolver um problema. Nem sempre é assim. Às vezes a gente não consegue. Futebol, a gente não é de ferro, a gente também erra, tal. Mas normalmente o pessoal, quando eu vou jogar em algum lugar, a pessoa espera que eu vá lá e decida o jogo. (risos) Tem essa cobrança. Eles não chegam: “Você tem que vir aqui e decidir”, mas a gente sabe que ele está te contratando para isso. Então, é mais uma cobrança minha, mesmo, de chegar lá, fazer o meu melhor e tentar decidir o jogo.
(51:32) P1 – E considerando também que é um esporte coletivo, você chega lá, claro, com essa responsabilidade de fazer gols, mas como é chegar em um grupo que às vezes você não conhece direito e de repente criar esse entrosamento, para você conseguir, resolver, fazer um gol?
R1 – Sim, é mais difícil quando você não está…por mais que a pessoa te conheça, os jogadores veem no Instagram os gols e tal, é mais difícil você jogar com pessoas que você não está acostumado. Normalmente a gente tem uma base de jogadores na várzea, que a gente está sempre junto. Então, a gente vai para o interior, por exemplo, no Bandeirante tem vinte jogadores daqui, de São Paulo. Aí, esses mesmo vinte jogadores estão lá e a gente está junto, aqui. Dez estão juntos numa Copa aqui em São Paulo, mais 15 estão juntos numa Copa em São Bernardo. Então, a gente procura sempre ter essa base de jogadores juntos, até para isso, facilita também o nosso trabalho. Fui agora para Indaiatuba, foi o Gigante, o Luiz Felipe, o Rafa, o pessoal que a gente já se conhece, então eu não tenho muito essa dificuldade, porque normalmente a gente está sempre junto nos clubes, mas acontece, às vezes, de ir em uma equipe e ter um jogador que você já jogou junto e aí é um pouquinho mais difícil, mas a gente tenta se adaptar.
(52:50) P1 - E você está com quase novecentos gols, ou já passou?
R1 – Estou com oitocentos e... quanto?
R2 – Oitenta e nove.
R1 – Oitocentos e oitenta e nove gols na várzea.
(53:01) P1 – O que é preciso para ser um artilheiro, na várzea?
R1 - Acho que é o dom. É o que eu te falei: a disciplina de você se cuidar, porque você vai jogar três jogos no final de semana, a pessoa que te contrata quer que você faça gols em todos os jogos, independente se é o primeiro, o segundo, ou o terceiro do dia. Então, acho que é isso: acho que é um dom que Deus me deu, de fazer gols, é a história que Deus tinha para mim, no futebol de várzea, acho que eu vivo... tentei o profissional, sim, mas acho que Deus me colocou onde eu tinha que estar e é isso…o cuidado, o dom, o talento, os parceiros que te ajudam a fazer gol, que sabem que você é um jogador decisivo, que você faz gols, então eu tenho meus parceiros: “Vai lá, magrinho, resolve para nós, a gente vai jogar para você. Então, eles me procuram a todo momento, isso facilita também, para poder estar fazendo os gols.
(53:58) P1 – Já tem uma confiança também, né?
R1 – Sim, também, e eu também sim. É o que a gente acabou de falar aqui: quando você já conhece um atleta que está junto...tem amigos meus que a gente joga junto há mais de dez anos nos mesmos times. Não vai jogar 100% nos mesmos times, porque a várzea é muito grande, às vezes a gente está contra, mas a maioria das vezes a gente está a favor e um ajuda o outro.
(54:22) P2 - Quando você treina durante semana, você treina sempre com as mesmas pessoas?
R1 – Eu treino sozinho. Eu pago um personal, ele me dá um treino específico. Segunda-feira eu faço... como eu estou muito cansado do final de semana, eu vou na academia, faço só uma esteira, ou uma bicicleta, para soltar um pouco, para aliviar as dores, um pouco, que a gente fica bem dolorido, é um desgaste muito grande. Aí na terça-feira, quarta-feira e quinta-feira eu treino com personal. Terça-feira a gente faz um trabalho de força, para evitar lesões e tal, quarta-feira um trabalho mais físico, para aguentar os jogos e quinta-feira a gente faz finalização, cabeceio, passe, fundamentos, essas coisas, mais com bola, para usar no final de semana. Então, essa é a rotina. Aí, de sexta-feira também eu vou na academia, só faço uma bicicleta, para não ficar com o corpo parado e a rotina é essa, de segunda-feira a segunda-feira. (risos)
(55:18) P1 – O entrosamento, então, com essas pessoas que você costuma jogar mais é no jogo, mesmo?
R1 – Isso, é no jogo, mesmo. Não tem como também, é difícil, como você vai reunir trinta ‘caras’ para treinar junto na várzea? Não tem. Tem pessoal que trabalha, tem pessoal que mora do outro lado da cidade, tem pessoal que mora no interior. Então, hoje, nenhum tipo da várzea consegue fazer isso, de reunir o seu elenco e treinar, então é mais no conhecimento e no entrosamento, mesmo.
(55:46) P2 – E você nunca teve lesão?
R1 – Não. Grave, não. Eu quebrei a clavícula, fiquei um mês e meio parado, acho que foi a lesão mais grave que eu tive e só. Recentemente, agora, eu tomei sete pontos aqui, (risos) no queixo. Tomei um chute na cara. (risos) Fiquei só uma semaninha parado, mas graças a Deus as lesões graves, assim, que te deixam oito meses, um ano fora, eu nunca tive.
(56:10) P1 - Que bom! E como é que você vê a presença crescente de ex-jogadores, com passagem no profissional, alguns até renomados, no universo de futebol de várzea? Como é a convivência com esses ex-jogadores?
R1 – Eu acho legal, acho bem bacana, eu sempre cito o exemplo do Wellington Paulista, que jogou série A a vida toda, jogou em várias equipes grandes, um ‘cara’ muito gente boa, veio para a várzea, abraçou a várzea e uma humildade gigantesca. Você vê que o ‘cara’ vem, é o primeiro a chegar no jogo, ele vive a várzea de verdade. Eu acho que é bom para a várzea, traz mais visibilidade para a várzea. Para o jogador profissional, que já parou, querendo ou não, tem aquela chama de continuar jogando futebol, então ele não consegue ficar longe do futebol, então ele vê uma oportunidade na várzea também, de poder se manter em atividade. Então, tem vários. O Welington Paulista; o Cristian, que jogou no Corinthians, eu joguei com ele também; o Pará a gente está sempre junto jogando, jogou no Santos; tem André Santos; Souza…vários ex profissionais, esses são os mais famosos, que vêm jogar na várzea e estão aí. O Pará está todo final de semana na várzea, jogando com a gente aí, dois, três jogos no final de semana. O Wellington Paulista também.
(57:24) P1 - E muitos que começaram, tiveram um pouco...passaram pela várzea, vão para o profissional e fazem o retorno.
R1 – Sim. O Wellington Paulista é esse caso. Eu o cito, porque eu sou mais próximo dele. Ele começou na várzea, jogou muito tempo na várzea, aí rodou profissional a vida toda, acho que vinte anos, acho que ele tem 41 hoje, alguma coisa assim, rodou profissional Brasil, o mundo todo e hoje está aqui, vivendo, monta time para jogar. O time dele vai jogar uma Copa, já me chamou para jogar. (risos) Então, ele vive a várzea de verdade. Já conhecia, agora ele está pegando uma várzea mais moderna, mas está nela, se cuidando, ele treina também, se cuida, para jogar final de semana, então o negócio sério. (risos)
(58:12) P1 – E você percebe também, ao longo dessa trajetória, que a gente falou que a várzea se tornou mais séria. Tem ainda um certo imaginário meio que estigmatiza a várzea, trata a várzea como se fosse algo menor em comparação principalmente ao futebol profissional. Você sente que, no entorno, essa imagem da várzea foi mudando?
R1 – Sim. Eu acho que ela vem mudando. Acho que tem muita gente que já fala que não é mais várzea, é um semiprofissional. Tem muita gente que fala isso. Porque, como eu falei, tem clube, o Bandeirante, de Brodowski, te dá um hotel, para você dormir um dia antes do jogo, te dá alimentação, almoço, café da manhã, janta. Isso um clube profissional te oferece, e um time de várzea proporcionar isso, então o pessoal já tem meio que esse novo nome, de um semiprofissional, porque evoluiu demais. Posso citar esse caso, de novo, do Espírito Santo, eu fechei um contrato para jogar lá, com tudo pago, passagem de avião ida e volta. Um time profissional faz isso. Então, um time amador fazendo também, está se profissionalizando, também, a várzea. Tem o nome de várzea ainda, mas como eu sempre falo, minha esposa sempre fala, a gente procura ser profissional na várzea. Procura se cuidar, honrar os compromissos que a gente tem e é isso.
(59:38) P1 - Muitas vezes até mais profissional em termos de infraestrutura de relações do que no universo de futebol profissional…até uma série D, série C.
R1 – Sim. É. Tem clubes que têm estrutura assim... a gente vive, conhece, são de divisões menores, que um time da várzea tem mais estrutura que ele. Tem vários clubes assim no futebol de várzea.
(01:00:o3) P1 - E você pensa em alcançar os mil gols?
R1 – Eu penso. É uma meta, né? (risos) Eu anoto desde que eu comecei a jogar na várzea, eu tenho tudo anotado, todos os gols e aí a gente vai anotando, anotando e a gente contou recentemente, aí tinha acho que 780 e tal, ela falou: “’Meu, dá para chegar no milésimo! Vamos pôr essa meta”. Então, hoje é uma das metas que eu tenho é chegar ao milésimo gol, faltam 111. (risos)
(01:00:29) P1 – Você falou que anota. Você lembra qual foi o primeiro gol?
R1 – Meu primeiro gol foi no Viação Ferraz, que é o time do Geovani, o pai do meu primo. Meu primeiro gol foi lá, o primeiro campeonato foi lá. Eu fiz escolinha no Central, mas o primeiro campeonato que eu joguei na várzea foi com ele, com 16 anos. Meu primeiro gol foi... eu lembro que eu joguei uns dois jogos, não fiz gol, aí no terceiro jogo eu fui, fiz três gols no jogo, aí comecei a anotar e deslanchou.
(01:00:59) P1 – E você lembra como foi esse gol?
R1 – Foi uma bola cruzada para trás, eu não vou lembrar o nome, faz 15 anos, (risos) mas o gol eu lembro que foi uma bola cruzada para trás, eu chutei, desviou no zagueiro e entrou. Foi mais ou menos assim. (risos) Foi o meu primeiro gol na várzea mesmo.
(01:01:18) P1 - Isso que é principalmente na competição?
R1 – Competição, isso. A gente brincava em campo, tudo, mas não era considerado várzea. Mas em competição eu lembro que a gente jogou a Primeira Divisão de Ferraz - eu tenho até a medalha aí, acho que 2006, toda arrebentada, mas está aí. (risos) A gente foi campeão desse campeonato, eu fui artilheiro. A gente foi tricampeão: 2006, 2007 e 2008. E foram meus primeiros gols na várzea, com a camisa do Viação Ferraz.
(01:01:47) P1 – E você acha que o que representaria você fazer, alcançar essa marca dos mil gols?
R1 - Acho que eu não tenho essa noção do que representa. Para mim é muito grande, óbvio, para a várzea acho que vai ser um feito muito grande também. Hoje o pessoal está empenhado para eu fazer os mil gols, nos times que eu vou. Esse final de semana eu fiz cinco gols. A gente ganhou de 6 a 1 e eu fiz cinco gols. Já tinha feito três, aí o Gigante, que é o que está sempre, mais, comigo: “Não, não, vamos fazer mais. Tem que chegar no milésimo”. Aí você posta os cinco gols, o pessoal: “Já atualiza a bio” - que agora eu deixo na bio do Instagram – “mais cinco gols”. Então, o pessoal está empenhado aí, esperando esse momento. (risos) Aí vamos ver o que vai acontecer no dia, o boom que vai dar, não sei. Para mim vai ser uma marca gigantesca, acho que para a várzea também.
(01:02:37) P1 – E você faz uma projeção de quanto tempo levaria, para chegar?
R1 – Acho que ano que vem, até o final do ano, dá para chegar. Eu faço uma média de setenta gols no ano, eu já fiz acho que 42 esse ano, então tem mais meio ano pela frente, então acho que ano que vem dá para conquistar essa meta aí.
(01:02:56) P1 – Você tem a média, então, de uns setenta gols por ano? Quantos jogos você faz?
R1 – Jogos eu não... comecei a anotar esse ano os jogos, mas eu só anotava gols. Eu não tenho noção de quantos jogos eu já joguei. Eu sei que ano passado foi o ano que eu mais fiz gols, eu fiz 82 gols. Foi um ano que eu joguei 14 finais, ganhei 13 e fiz 82 gols. Fiz 22 gols em finais, ano passado, né?
R2 – Vinte e três.
R1 – Vinte e três gols. Ela é a enciclopédia. (risos)
(01:03:27) P1 - Estatística, ali.
R1 – É. Ela começou esse trabalho, por isso que está assim: tem viralizado bastante e tantos convites assim também, através dela. Quando ela começou esse trabalho eu tinha dez mil seguidores no Instagram, hoje eu estou batendo cinquenta. Para a várzea é um número grande. Eu sei que o pessoal que tem um milhão...
(01:03:43) P1 – Sim. Até jogador profissional. Muitos jogadores profissionais não têm esses números.
R1 – É. Então, cinquenta mil seguidores na várzea é um número grande, através do trabalho dela. (risos)
(01:03:57) P1 - E desses muitos gols que você já fez, qual que você considera que foi o gol mais bonito e se você pode descrever esse gol.
R1 – O mais bonito foi um gol de voleio. Eu tenho filmado esse gol, foi nesse gol que eu falei da questão do São Bernardo. Foi uma semifinal da Especial de São Bernardo, o jogo estava 0 a 0 e aí vem uma bola cruzada, muito alta, atravessa toda a área, eu estou entre o bico da grande área e a marca do pênalti, no meio, mais ou menos e eu viro um voleio perfeito, a bola vai reta, no canto, foi um gol, que a gente fala: “Se tivesse rede social na época” - porque viralizou muito no Facebook esse gol e tudo – teria explodido, acho que teria rodado o mundo esse gol, porque foi um gol muito bonito que eu já fiz. Então, para mim, esse gol foi o mais bonito que eu já fiz. Tem outros também. Eu já fiz outros de voleio, também, de cobertura, ano passado eu fiz gol de meio de campo, que eles falam: “O gol que o Pelé não fez na várzea teve” e tal, teve essa resenha. Mas o mais bonito mesmo é esse, de voleio.
(01:05:05) P1 – E quando você faz um gol como esse você tem noção de que é um gol bonito, ou tipo: é gol?
R1 – A gente sai que nem louco, comemorando. A gente sabe que foi um golaço, ainda mais pela importância do jogo - era uma semifinal de campeonato. E no vídeo é muito engraçado, que eu faço gol, eu corro para um lado, corro para o outro, fico meio sem saber o que fazer, tiro a camisa, o pessoal vem me abraçar, eu dou um olé neles, vou na torcida. Então, é uma loucura, que você só vai entender acho que depois de alguns dias a dimensão do gol.
(01:05:37) P1 – Sim. Você falou, então, do gol e de muitas conquistas, citou algumas delas. Eu queria perguntar qual foi a comemoração - pensando que a várzea tem muito essa relação com os bairros, as comunidades - mais marcante que você presenciou, viu e que também fez parte?
R1 – De título, no caso?
(01:06:05) P1 – Pode ser.
R1 – Tem várias. (risos) Eu falo, por exemplo, a do Unidos do Morro, que foi ano passado. A gente foi campeão no estádio. Foi uma comemoração marcante, porque eu já estava há quatro anos no clube e não tinha sido campeão ainda, a gente já tinha perdido uma final e é um lugar que tem muita criança…e muita criança faz de você um ídolo, então lá, nesse time, tem camisas com o meu nome, a criançada tem. Eu fui convidado para a festa de aniversário que o time... que o sonho da criança é que eu fosse na festa de aniversário (risos) dela. Então, até arrepia, porque é um time que eu tenho muito carinho, então foi uma comemoração marcante, por todo esse sentimento.
(01:06:56) P1 – De qual bairro?
R1 – É de São Bernardo do Campo, eu não vou saber o bairro, mas o nome do time é Unidos do Morro. Então, foi uma comemoração marcante, um título que a gente queria muito ganhar lá, no Unidos do Morro. A gente se emocionou muito, chorou muito após a conquista. Eu falo também um título do Bandeirante, que a gente ganhou do nosso maior rival, a gente reverteu um placar, a gente tinha perdido de 3 a 0 o primeiro jogo da final e a gente conseguiu reverter, eu fiz três gols no jogo da volta, (risos) tem até uma tatuagem aqui, com a data dos gols, foi um título marcante. Eu falo sempre pela criançada, porque a criançada entra no campo, começa a pedir autógrafo, você não imagina viver isso na várzea; ser ídolo de uma criançada. Então, o time quando tem criança, me pega muito porque, quando você fala de criança…eu tenho uma filha agora, de dois anos e meio, então o sentimento muda. Então, você ser ídolo de uma criança, quando você conquista um título ele está esperando você dar esse título para ele. Então acho que o melhor sentimento é esse, a melhor comemoração é essa, de dar esse título para o clube, claro, sim, mas para a criançada também, que te admira, no caso.
(01:08:16) P1 – E como que você vê essa relação, principalmente pensando que acho que muitos dos times aqui, principalmente São Paulo e Grande São Paulo, são de periferia, como é que você vê essa relação dos times de futebol de várzea com as comunidades?
R1 – Muitos times fazem trabalhos em comunidades, às vezes até o próprio jogador. Por exemplo: lá, no Unidos do Morro, a gente, cada jogador, separa um valor do dinheiro que recebe e a gente comprava cesta básica, para dar para a comunidade, devolver um pouco para a comunidade o que o time faz por nós. Então, a gente sempre, em vários clubes, a gente faz isso. Essa turma que eu falei para você de jogadores, que a gente está junto há um tempo. A gente, normalmente, tira um valor para a comunidade que a gente está defendendo, para ajudar, com cesta básica, com arroz, com pacote de feijão, que para eles é muito importante também. Eles abraçam a gente de uma forma tão grande, nos dão tanto carinho! Os próprios clubes também fazem ações no Dia das Crianças, Páscoa, para estar ajudando a comunidade. Então, time da comunidade a gente costuma falar que nunca vai acabar, porque é um time que, quando tem criança, cresce vendo aquele time jogar e muitos, às vezes, preferem ver o time da sua comunidade jogando na várzea, do que um time profissional. Então, é muito bonito o trabalho que vários clubes fazem, vários clubes ajudam sim na comunidade, como eu falei. A gente, jogadores, também têm essa ciência, de poder retribuir um pouquinho todo amor e carinho que eles dão para a gente.
(01:09:54) P1 – E quem você vê, hoje, como os principais mantenedores e até empresas que também patrocinam o futebol de várzea?
R1 – Hoje é mais, por exemplo: o Bandeirante, que eu jogo, tem empresas, é o amor da vida deles. Todo mundo sabe que eles têm uma condição financeira boa, muito boa, por tudo que eles fazem, toda a estrutura que eles dão para a gente e…é a vida deles. Então, eles investem o que podem e o que não podem, para ver o time ser campeão. É sentimento. Futebol de várzea é sentimento. Unidos do Morro, mesmo, que eu falo, o presidente é lá da comunidade, tem times que fazem rifa na semana, para pagar jogador, vai atrás de patrocínio, estampa lá, põe quinhentos patrocinadores (risos) na camisa…a pizzaria do vizinho. Então, eles fazem de tudo, para trazer um time. Financeiramente, para ter os melhores jogadores tem um custo, tudo pelo sentimento, pelo time, pela comunidade e, óbvio, pelo troféu, por ser campeão, pelo status. Então, é o que eu tenho comigo: o futebol é muito sentimento, muita paixão, então às vezes a gente faz o possível e o impossível para vencer, enfim. Eu acho que os donos de times, quem tem condição, é o amor que eles têm pelo time que os fazem ter esse gasto, no caso. Tem muita gente que critica: “Jogador não tem que receber, jogador de várzea é mercenário e tal”, mas é o que a gente sempre fala: Paga quem tem condição e quem gosta. Quem não quer investir, não investe. Se o ‘cara’ quer investir, o dinheiro é dele, ele faz o que ele quiser com o dinheiro dele. Então, se ele tem condição de manter um time na várzea, ele mantém, ele ama fazer isso, o que há de errado nisso?
(01:12:06) P1 – Você falou agora dessa coisa da várzea ainda ter pessoas que imaginam essa coisa amadora da várzea não remunerada. Você sente algum preconceito por ser um jogador que hoje pode viver da várzea, se sustentar jogando na várzea? Existe isso?
R1 – Tem muito. A gente... principalmente agora, redes sociais tem muito isso. Às vezes a gente... pô, todo mundo sabe que todo jogador de várzea, hoje, é remunerado. Então, muita gente critica: “A várzea acabou, não existe mais, virou produto, não tem mais o moleque da comunidade que joga, é só por dinheiro”. Então, é o que eu falei: eu não fui procurar dinheiro na várzea, a várzea é que me ofereceu. Pela primeira vez, quarenta reais, para eu jogar. Então, sempre teve dinheiro na várzea, mas acho que muita gente não entende isso, muita gente acha que antigamente ninguém recebia, mas sempre teve. A gente conhece histórias antes de eu começar também, de pessoas que ganharam carro, o ‘cara’ ajudou a construir a casa, deu uma cesta básica. Hoje evoluiu bastante, entendeu? Uma cesta básica para o ‘cara’ não deixa de ser um pagamento, para um jogador. Antigamente. Ou uma parcela do carro, uma conta de luz paga era um pagamento. Então, o dinheiro sempre esteve na várzea, é que hoje está bem mais evoluído, tem toda a mídia, às vezes vaza valores e tal, então aí eu não sei, o pessoal tem esse preconceito, mas na minha visão, eu que estou há quinze, vinte anos de várzea, é uma coisa que sempre teve e hoje só está mais escancarado. (risos)
(01:13:49) P1 – E qual foi a proposta mais inusitada que você recebeu, para jogar por um time? Por exemplo: proposta de uma premiação que foi feita, que você: “Espera aí, é isso mesmo?”
R1 - De valores, assim?
(01:14:02) P1 – Ou de valor, ou de um prêmio: “Estou oferecendo isso aqui, para você jogar num campeonato, num jogo, pelo nosso time”.
R1 – Premiação é mais valor financeiro, mesmo, que o pessoal: “Se a gente for campeão, a gente vai te dar tanto”. Tem essas premiações. Tem umas inusitadas (risos) assim: prêmio de craque da partida você ganha umas caixinhas de cerveja. Eu já ganhei, mas eu não bebo, aí o meu amigo do lado: “Não, dá para mim, que eu bebo”. (risos) Tem essas premiações. Eu já ganhei um bife à parmegiana. (risos) Eu fui craque da partida, ganhei um bife à parmegiana no restaurante. Tubaína, na época, antigamente. Tem essas premiações inusitadas. Mas premiação de valores mesmo é financeiramente.
(01:14:53) P2 – Hoje em dia tem muita gente que vive só do futebol de várzea? Você vê que tem aumentado a quantidade de jogadores que vivem só disso?
R1 – Acho que sim. Não são todos, porque também não é... é como minha esposa fala: tem que ter o talento. São 15 anos de história, no meu caso, para construir tudo isso. Eu cheguei em um lugar que hoje me dá uma segurança para fazer isso, também, que é o Bandeirante. Ele me dá uma segurança. Poxa, o ‘cara’ já falou para mim que eu nunca vou ficar desamparado, na vida. Então, poxa, eu consegui isso através do futebol de várzea. Então, você escutar isso de um clube, querendo ou não, me dá também essa segurança de ficar no futebol de várzea, só. Não sei se todos têm essa condição, mas se não vive 100%, eu tenho muitos amigos meus que eu tenho certeza que a maior renda, 90% é da várzea, 10%, 20%, pode ser do trabalho dele na semana, e 80%, 90% vem do futebol de várzea.
(01:15:53) P1 – Sim. E tem também de posições serem mais valorizadas do que outras, dentro da várzea? Por exemplo: você joga como centroavante, atacante, artilheiro. Isso tem um valor diferente do jogador que é lateral?
R1 – Tem, sim. Eu acho que até no (risos) futebol profissional é assim. O atacante, o pessoal fala, sempre vai ser o mais bem pago, porque é o que faz o gol. (risos) O principal objetivo do futebol é o gol, então o atacante é o que mais recebe, mas tem alguns casos também de pessoas que são volantes, meio-campo, que a gente sabe que recebe tão bem, ou igual um atacante, porque o ‘cara’ é muito acima da média. Eu cito o Gigante, que é um amigo meu, que eu tenho, que é muito acima da média, ele recebe valores também altos e é um volante, entendeu? Tem o Wellington Capita também, vários jogadores. O Luiz Felipe, lateral. São jogadores da sua posição, que são acima da média, então faz eles chegarem também em valores altos.
(01:16:55) P1 - Se é possível dizer, um jogador de destaque, na várzea, que consegue sobreviver só jogando na várzea, tem uma média de remuneração mensal?
R1 – Olha, é que eu não quero (risos) abrir os meus valores.
(01:17:14) P1 – Não precisa.
R1 – Mas hoje um jogador top da várzea, aí, vou falar um mínimo que ele pode pegar, que ele recebe, 12, 15 mil por mês. O mínimo.
(01:17:27) P1 – Nessas combinações de jogos, algum que teve algum contrato de exclusividade.
R1 – Isso. Vamos pôr assim: dez mil por mês, no mínimo, um jogador top consegue tirar, na várzea.
(01:17:39) P1 – Sim. Max, qual foi o jogo que você considera que foi o mais importante da sua vida?
R1 – Mais importante?
(01:17:49) P1 – Pelo motivo que você queira: pessoal...
R1 – Eu vou falar um jogo: acho que em 2016, que abriu a porta para mim no Bandeirante. Eu tenho jogos mais importantes que eles, a própria final do Bandeirante contra o maior rival, que eu faço três gols na final. Esse, para mim, sim, falando de futebol é o mais importante, mas para chegar lá eu tive que batalhar um pouco antes, então eu vou pôr um jogo de 2016. Garotos do América, de Guarulhos, contra o Bandeirante, de Brodowski, que a gente ganha de 2 a 0, eu faço um gol nesse jogo e ali começa o contato do Bandeirante comigo e mais alguns atletas, para que a gente pudesse ir para lá e viver... já estou há cinco anos lá. Ali acho que foi uma virada. Não só para mim, mas como outros jogadores da várzea, porque daquele campeonato alguns foram para Bragança, que era um dos lugares que mais pagavam bem, vamos dizer assim. Alguns foram para Bragança Paulista, para o FAC; outros foram para o Bandeirante. Enfim, foi um campeonato que abriu as portas para muito jogador. Eu lembro que esse campeonato a gente ganhava cem reais para jogar, a gente ganha do Bandeirante, na semi, na final a gente vai para Bragança e aí a gente queria ir um dia antes, para ficar no hotel, porque eles ficavam no hotel, a gente já sabia da estrutura deles. Pô, naquela época era dois mil para eles serem campeões, ganhar da gente e eu falei: “Caramba, como a gente vai ganhar desses ‘caras’”? Aí a gente tira: “A gente não quer receber o bicho’, então. Pega o ‘bicho’, aluga o hotel, reserva o hotel para a gente, a gente vai um dia antes, aí come umas pizzas à noite e joga domingo de manhã”. (risos) Então, foi esse campeonato que abriu muitas portas, para mim e para alguns jogadores que estava, nessa época.
(01:19:47) P1 – E aí vocês ganharam esse campeonato?
R1 – A gente acabou perdendo. A gente perde a final para o FAC, de Bragança Paulista, de 4 a 3 a final, mas foi um jogo que abriu muitas portas, os times de lá começaram a enxergar jogadores daqui. Começaram a ter esse intercâmbio, vamos dizer assim, de trazer jogador de São Paulo para o interior, para mais longe.
(01:20:11) P1 - Até aquele momento, então, a sua atuação era mais focada aqui em São Paulo, Grande São Paulo? Depois que vai se expandindo para o estado de São Paulo.
R1 – Isso, até 2016 era aqui. Eu nunca ia, não me recordo de ter ido jogar futebol amador para outro lugar, não. Depois desse campeonato a gente começou: primeiro Bragança; eu lembro que em 2017 eu comecei a ir para Sorocaba, aí começou a rodar tudo, o interior inteiro; Itu; aí veio o Bandeirante também, que são quatro horas daqui, de São Paulo, 15 minutos de Ribeirão Preto, Brodowski. Então, o Bandeirante também veio aqui, atrás dos jogadores de São Paulo, para levar para lá. Então, foi a partir desse jogo, desse campeonato que a gente começou a ir mais para fora, para o interior de São Paulo.
(01:21:00) P1 – E qual você considera que foi a experiência mais desafiadora que você viveu na várzea?
R1 – Na várzea? Eu acho que foi esse jogo do Bandeirante contra o Brodowski, porque é uma rivalidade muito grande lá. É uma cidade pequena, 25 mil habitantes, então é uma rivalidade bem antiga, para tudo ali…é rixa de família, é tanta história que tem. O pessoal, vixe! Tanto que a gente joga, antes da final, alguns clássicos contra eles e é aquela coisa: o ‘cara’ vai no hotel soltar fogos, para você não dormir; passa o ‘cara’ lá, gritando, com moto, fazendo barulho. Teve um desses jogos que a gente teve que ir para outra cidade, porque os ‘caras’ não deixavam a gente dormir. (risos) Mas o mais desafiador foi esse, por toda a história que tem, por toda a rixa de família que tem, a gente perde de 3 a 0 o primeiro jogo da final, para o nosso maior rival e aí o melhor time do campeonato, os melhores jogadores e aí você toma um 3 a 0, um resultado que a gente nunca tinha tomado lá, no Bandeirante, numa final, então eu lembro que a gente sai desolado desse jogo, a volta para casa, quatro horas de viagem, a gente vai com carro alugado, quatro jogadores em cada carro e volta um silêncio, quatro horas assim, caramba, não é possível, isso não aconteceu, demorou para ‘cair a ficha’. Daí, aquela semana eu lembro que foi a mais tensa que eu já passei, na várzea, porque toda pressão para a gente ganhar esse jogo. Os donos do time falaram: “Se a gente perder esse jogo, a gente tem que sair da cidade. É nesse nível. Se a gente não reverter esse placar, a gente vai ter que sair da cidade”, porque os ‘caras’ não iam deixar eles em paz. Então, eu lembro que eu não dormi a semana toda, não conseguia dormir, ansioso. Eu lembro que a gente ia viajar no sábado - o jogo era no domingo às dez da manhã - e estava previsto para a gente chegar no sábado, duas horas da tarde. Eu liguei para o dono do time, falei: “Eu não estou aguentando ficar aqui, em São Paulo. Posso ir antes?” Daí eu fui na quinta-feira. (risos) Pegou eu, minha esposa, minha filha, eu fui na quinta-feira, para já ficar lá, na cidade, Brodowski, para ver se o tempo passava mais rápido, sei lá, se conseguia distrair a mente, porque eu não conseguia dormir. Aí a gente foi, eu fui na quinta-feira, passei a sexta-feira também sem conseguir dormir. Eu lembro que eu só fui conseguir dormir, mesmo, no sábado à tarde, que eu fiz um sono bom, gostoso, acho que de tão cansado que estava da semana, de estresse mental - que não é só o físico, o mental também desgasta. Aí a gente vai, consegue reverter esse placar, eu faço os três gols do jogo. Ficou até famoso, na várzea, que eles deram quinhentos mil de premiação, para a gente dividir entre os jogadores, para a gente reverter esse placar. Aí, na época, acho que deu 17, 18 mil reais para cada jogador, de premiação. Então, esse foi o jogo (risos) mais tenso que eu já vivi.
(01:24:11) P1 – E como é que é virar um jogo como esse, uma final como essa? Diante de toda essa apreensão, pressão que existia na semana, como é que foi o jogo e fazer essa virada se concretizar?
R1 - Foi muito tenso, muito tenso, o jogo foi super tenso. Até esse valor que eles ofereceram para a gente, eles ofereceram no aquecimento, porque lá eles sempre deram premiações para a gente ser campeão, mas nunca falaram antes do jogo. Então, a gente no aquecimento, eles oferecem essa premiação e aí a gente fica mais nervoso ainda, poxa: “Caramba, quinhentos mil na várzea, de premiação? A gente tem que reverter de qualquer jeito, de qualquer forma”. (risos) E o jogo começa tenso. Eu lembro que aos vinte, vinte e cinco minutos de jogo a gente não conseguia jogar, dar um chute no gol, de nervosismo. Até sair o primeiro gol…saiu aos quarenta... não, acho que 32 do segundo tempo, alguma coisa assim. E aí, quando eu faço o último gol, é uma explosão, um alívio, sai um peso das costas, porque a pressão era muito grande para a gente ser campeão. Eu lembro que eu fiquei lá, também, eu falei: “Não, não vou para casa. Agora eu vou descansar aqui”. (risos) Eu fui embora acho que na terça-feira. A gente ficou lá, no hotel, comemoramos o título. Poxa, é uma das comemorações, também, que a gente mais comemorou na vida. E foi isso, acho que foi essa história, essa tensão toda e depois o alívio de ter conseguido reverter esse placar.
(01:25:48) P1 – Sim. E quais foram os principais valores que você considera que aprendeu nesse universo de futebol de várzea?
R1 – Eu acho que a palavra certa é lealdade e compromisso…gratidão também com os times. Eu cito sempre o Bandeirante, porque eu fechei para jogar no Bandeirante antes da pandemia. Aí eu lembro que eu vou lá, faço dois amistosos e vem a pandemia. E aí o dono do Bandeirante fala assim para mim: “Mackson, veio a pandemia, não vai ter campeonato. Você quer continuar recebendo? Eu continuo te pagando”. E aí, quando veio a pandemia minha esposa ficou desempregada, tudo fechado, não tinha futebol, eu tinha acabado de comprar um carro financiado, então ele meio que segurou a minha mão na pandemia. Ele honrou o compromisso o ano todo. Foram dois anos sem campeonato lá e ele honrou, mesmo sem jogar. Então, eu tive várias oportunidades, propostas para sair, para jogar em outros lugares, mas não, eu tenho essa gratidão por eles, por ter segurado também nos momentos mais difíceis da nossa vida. Porque pandemia, sem futebol, sem trabalho, minha esposa desempregada, foi ele que segurou a minha casa durante um ano. Então, eu tenho uma gratidão enorme por ele, por vários times também tenho gratidão e acho que é isso, a palavra certa é gratidão. É honestidade também com os times que você vai, você honrar os seus compromissos, eu procuro sempre deixar tudo explicadinho, quando eu fecho: “Eu estou assinando com seu time, mas não sei se vai dar para ir, você quer me deixar inscrito?” Então, é isso: sinceridade e ser honesto com os times também, porque a gente sabe que a correria do lado deles é grande também e a gente mexe com os sonhos, no futebol de várzea. Para nós às vezes é mais fácil, porque a gente joga em várias equipes. Então, às vezes a gente perde um campeonato em um lugar, eles vão sofrer o ano todo, porque perderam esse campeonato. A gente, não. Na próxima semana a gente já tem três, quatro times para a gente jogar. Então, tem isso também: você honrar o sentimento das pessoas, dos donos de time, da comunidade, com o futebol de várzea.
(01:28:26) P1 – Max, eu ia te perguntar, você falou da pandemia. No futebol teve um período de recesso, intervalo, mas meses depois foi retomando, mas claro que de uma outra maneira, sem público. Como é que foi para um jogador de várzea como você que, enfim, precisa ter jogos para poder se manter, esse período para você? Você falou desse acordo com o Bandeirante. Como é que foi em termos de rotina? Como esse período impactou?
R1 – Na época foi um baque, porque eu lembro que eu joguei bola num domingo - eu lembro até a data, acho que era 17, 18 de março - em São Bernardo, aí do nada, na segunda-feira: “O campeonato cancelou a rodada em São Bernardo…cancelou em Diadema…cancelou a Copa tal”. Foi assim, uma atrás da outra, porque como o futebol profissional tinha parado também, a várzea tinha que dar o exemplo... era o certo, tinha que parar. A pandemia foi um baque, porque foi de uma hora para outra que parou tudo. A gente é acostumado a jogar três jogos no final de semana, estar ali, sempre recebendo e de uma hora para outra acabou, então foi um baque muito grande. Eu lembro que a gente ficou em casa, sem fazer nada. Não tinha futebol. Tentava se manter treinando sozinho, em casa, às vezes ia no campo, correr um pouquinho, para não perder, não ficar tão fora de forma. (risos) Essa era a rotina. Foi um ano assim. Voltou alguns jogos sim, também, óbvio, teve alguns jogos fechados, que o pessoal fez e tal, mas parou bastante, foi um baque e um momento muito difícil na vida de um jogador de futebol de várzea.
(01:30:11) P1 – E você tem histórias que você considera que são curiosas, inusitadas, desse universo de futebol de várzea, que você acha que seriam interessantes de ser...
R1 – Ai, deixa eu pensar se eu me recordo de alguma curiosa. (risos)
(01:30:27) P1 – Uma coisa mais na linha de um causo da várzea.
R1 – Teve várias histórias difíceis. Quando a gente foi jogar contra o Bandeirante, por exemplo, a primeira vez, lá, a gente foi numa vanzinha, (risos) sem ar condicionado. A gente chegou lá, a gente não tinha nem comida. O próprio Bandeirante cedeu um marmitex para a gente comer, no vestiário mesmo. (risos) Essa é uma das histórias inusitadas, que a gente não tinha estrutura, nada, chegamos no vestiário, não tinha comida, o Bandeirante falou: “Não, eu vou pegar uns marmitex para vocês”. (risos) E a gente comendo marmitex uma hora antes de começar o jogo. Todo mundo com fome, quatro horas de viagem e os ‘caras’ ajudaram a gente. Tem muitas histórias assim.
(01:31:14) P1 – E esse foi o jogo que depois vocês ganharam do Bandeirante?
R1 – Isso. A gente perde de 2 a 0 lá e aqui em Guarulhos a gente reverte. Aí tem essa história do hotel também, que para a gente vai ser bom ir um dia antes, para estar mais descansado, aí faz a ‘vaquinha’, todo mundo cedeu seu ’bicho’, porque o clube não tinha condição financeira, a gente pega e cede, para pagar o hotel, para comer uma pizza à noite e é isso.
(01:31:43) P1 – A gente está indo para a parte final da entrevista, você já falou um pouco de como é o dia a dia, a rotina de treinamento. Para além da dedicação do futebol de várzea, que coisas você gosta de fazer?
R1 – Eu (risos) até postei esses dias: meu hobby é ficar em casa. (risos) Eu gosto de ficar em casa, assistir um filme, jogar meu videogame, não sou muito de sair, de curtir festas, essas coisas e tal. O meu hobby, mesmo, é ficar em casa. (risos)
(01:32:14) P1 – Sim. E você citou já a Daiane algumas vezes, que é sua esposa, também empresária. Fala um pouco como é que vocês se conheceram. Um pouco do contexto de como vocês se encontraram.
R1 – A gente se conheceu em um grupo de jovens da igreja, o período ali acho que 2006, 2007 e aí eu começo a sair para - a gente se conheceu ali, não tinha muito contato – tentar essa questão de profissional, então eu fico muito afastado daqui, às vezes viajava, não nos encontramos mais. Aí, cinco, seis anos depois eu volto, fico fixo aqui em São Paulo e volto a ir na igreja que ela frequentava e a gente se reencontra lá e começa uma amizade. Começou como amizade, a gente se tratava como irmão, a gente brincava muito um com o outro e tal e aí começou o sentimento. (risos) Eu comecei a gostar dela, ela no começo não gostava muito de mim, ela era muito... me tinha como um irmão: “Não, como eu vou namorar? Você é um irmão para mim” e tal. (risos) E aí a gente se conhece assim, nesse grupo de jovens, começa a ter um envolvimento e aí, depois de muita insistência…minha, (risos) de tentar, falar: “Não, eu quero namorar com você, você é a mulher da minha vida, quero casar com você, eu amo você”. Ela: “Não, mas como você me ama? A gente nunca nem beijou na boca! A gente nem...(risos) a gente é amigo. Que sentimento é esse?” Eu falei: “’Meu’, eu tenho certeza que é você, está dentro de mim a certeza que você é a mulher da minha vida”. Aí ela me deu uma chance, uma oportunidade, aí ela também começou a ter um sentimento por mim, de amor e estamos juntos aí, há 13 anos.
(01:33:58) P1 – Max, você também citou já que você tem uma filha, está com qual idade?
R1 – Dois anos e sete meses.
(01:34:08) P1 – O que a paternidade representou, na sua vida?
R1 – Ah, tudo. A gente nunca programou ter um filho - tanto que a gente demorou dez anos (risos) para ter um filho…uma filha, no caso veio a Catarina. Mas desde o primeiro momento que ela engravidou ela ficou com medo de tudo, tipo: “Meu Deus, o que eu vou fazer?” (risos) Foi até uma cena engraçada: ela já tinha feito vários testes antes, de gravidez e sempre dava negativo. Fazia por desencargo, para saber, não que a gente estava programando ter um filho. Aí eu lembro que eu cheguei de um jogo, era meia-noite, eu cheguei do Bandeirante, ela não me deixou nem entrar em casa, e falou: “Vamos na farmácia, comprar o teste, eu acho que eu estou grávida. Não é possível. Eu estou enjoada, não está descendo para mim e tal”. Aí ela compra o teste, na minha cabeça é mais um teste que vai dar negativo. Todos deram, dez anos dando negativo. (risos) E aí ela no banheiro: “Meu Deus, eu não acredito”. Eu só a escutei falando assim, achei que ela estava zoando, que ela já tinha brincado outras vezes, falando que estava e não estava. E aí ela começa a chorar, aí eu vejo que é sério, a abraço e ela chorando e eu feliz, por trás, porque na hora veio um sentimento muito grande de felicidade, eu falei: “Caramba, eu vou ser pai”. E aí ela liga para a mãe dela, desesperada: “O que eu vou fazer da minha vida?” Aí a mãe dela: “Você está grávida, você tem um marido, uma casa, não está desamparada”. E aí foi esse baque de início, no caso dela, mas depois foi só... ‘cara’, é inexplicável o sentimento. Eu a acompanhei em todas as consultas, tudo que ela foi. Só na última consulta eu não fui, porque (risos) eu machuquei o joelho, jogando na várzea. Até é uma história engraçada…que ela tinha pedido para eu não ir jogar, falou assim: “Não vai jogar, não estou sentindo confiança de você jogar esse jogo” “Não, amor, eu vou jogar, eu preciso e tal”. Aí eu fui lá e machuquei (risos) o joelho e aí não conseguia dobrar muito o joelho, assim, aí só perdi a última consulta, foi por esse motivo. Ela: “Você deu sorte que ela não nasceu agora, se não você nem ia ver o nascimento da sua filha”. Ela brigando comigo. Enfim, quando ela nasceu eu não estava conseguindo dobrar o joelho. (risos) Mas é um sentimento maravilhoso, inexplicável, é o amor da nossa vida, hoje a gente vive por ela, toda correria que a gente faz é por ela. Ela saiu do emprego dela para cuidar da nossa filha. Assim: ela trabalhava no Brás, de analista e ela saía seis horas da manhã e voltava oito horas da noite, então ela estava perdendo muito as fases gostosas, que a criança vai crescendo e ela voltava triste, amargurada. Todo dia que ela chegava era uma novidade, que a gente deixava com a mãe dela, a mãe dela ficava cuidando. Todo dia que ela chegava: “Poxa, eu não vi isso e tal”. Então, a gente conversou, o futebol, graças a Deus, Deus estava abençoando, a gente viu que dava para ela sair do emprego e aí ela saiu, para cuidar da nossa filha, de mim, da nossa casa. E hoje tudo que a gente vive, toda essa luta, essa correria é pela Catarina, com certeza.
(01:37:38) P1 - E você diria que o nascimento da Catarina, ela fazer parte da sua vida também, de vocês, mudou algo na sua visão em relação ao futebol?
R1 – Sim, acho que mudou muita coisa. Como eu falei: hoje eu doso mais, no caso. Ela até brigava comigo antes, porque eu largava tudo para ir para o futebol. Datas…assim, não nossas comemorativas. Não sei, amor, eu não estou me recordando agora.
R2 – Compromissos.
R1 – É, compromissos. Eu queria jogar tudo.
R2 – Até hoje…
R1 – É (risos)...e muitas vezes ela falava para mim: “Não vai, fica com a gente, aqui em casa, comigo”. E acho que quando ela nasceu eu tive mais essa consciência, tipo: eu sei que eu tenho que ir lá, jogar e tal, mas tem coisas que o dinheiro não vai comprar. Na minha cabeça era muito isso: “Não, eu preciso ir lá, ganhar esse dinheiro” e a deixava aqui o final de semana (risos) inteiro, mas acho que isso mudou muito. Hoje, por exemplo: sábado é a primeira vez que ela vai dançar na escola, eu tenho jogo, mas não vou, eu vou vê-la dançar a primeira vez. Então, acho que foi mais isso, esse sentimento, essa situação. Eu sempre fui um ‘cara’ muito família, tudo, mas acho que foi mais nesse sentido mesmo, essa mudança de querer estar sempre junto. Elas também agora, domingo ela foi comigo, ela e a Catarina, então a gente faz esse meio termo, assim. Se é um final de semana corrido ela vai comigo, a gente leva, para estar sempre junto.
(01:39:30) P1 - Só uma pergunta antes das finais. A Daiane, hoje, é empresária, participa mais…como você vê as mulheres nesse universo de futebol de várzea, a presença das mulheres.
R1 – Eu vivo isso. Então, para mim, no meu caso, ter a minha esposa cuidando de tudo é muito bom. A gente sabe que ainda tem muito preconceito por ser mulher, no meio do futebol, ainda mais na várzea. Então, tem um certo tipo de preconceito, sim. Às vezes ela recebe mensagem no Instagram: “Interesseira”. Como assim, ela é interesseira? Ela está querendo alavancar o marido dela e que interesse, ela está interesseira no quê? Ela está comigo há 13 anos. Quando eu a conheci eu não tinha um carro, não tinha um nada. A gente tinha um Corsinha 96, que a gente chamava de Pois é…(risos) que se você parasse na subida a gasolina descia, ele não andava mais, (risos) então ela está comigo desde o início. Tudo que eu conquistei e conquisto hoje é muito mérito dela também. Então, eu valorizo muito o trabalho que ela faz. Muita gente do meio da várzea valoriza também. Pô, tem vários donos de time que ama a empresária, chama ela, conversa com ela, negocia com ela. Mas eu acho que para o futebol de várzea é uma porta nova que se abriu também. Como eu citei exemplo tem outras esposas também fazendo isso. Como eu falei: é óbvio, tem o preconceito de algumas pessoas, mas é de uma minoria, então acho que só tem a engrandecer ainda mais o trabalho que ela está fazendo e eu amo o trabalho que ela faz, (risos) eu só jogo bola. (risos)
(01:41:11) P1 – Sim. Max, o que o futebol de várzea representa na sua vida?
R1 – Ah, tudo. Minha vida se resume ao futebol de várzea. O futebol de várzea sempre esteve envolvido em todos os momentos da minha vida, desde a minha infância, desde assistir um jogo quando era pequeno, eu se espalhava em jogadores de várzea também. De pequeno eu ia assistir o Biro, lá, do Viação Ferraz, camisa 9. Eu era fã dele. Do Sidiclei. Eu lembro. Paulo César. São nomes que marcam, marcaram para mim, porque eu cresci vendo esses ‘caras’ jogarem no futebol de várzea. Mesmo eu tentando o profissional, quando ficava desempregado voltava, eu tinha o quê? O futebol de várzea, para me acolher. Hoje a minha família vive da várzea. Hoje a minha esposa está inserida no mundo da várzea. Então, é tudo para mim. Futebol de várzea é tudo. Está envolvido literalmente em tudo na minha vida.
(01:42:09) P1 – E qual é a importância da várzea para uma cidade, como São Paulo, para a região metropolitana?
R1 – A várzea movimenta milhões de pessoas, então eu acho que é importante para o campo, lá, que tem uma sede…tem o ‘cara’ lá vendendo a sua cerveja, seu refrigerante, então a várzea ajuda esse ‘cara’ a ter um... como eu posso dizer? Ajuda ele a vender as coisas dele, receber um valor financeiro através do futebol de várzea. Então, movimenta milhares de pessoas. Hoje a várzea tem patrocínio, mídia, gera emprego para várias pessoas, tem, como eu falei, a TV Várzea ao Vivo, que tem o rapaz que é remunerado, para estar lá, transmitindo. Tem o fotógrafo que é pago para tirar uma foto de um time. Tem o fisioterapeuta, a arbitragem. O árbitro, às vezes, não conseguiu ser profissional, ele está na várzea, vivendo o sonho dele na várzea também. Então a várzea acho que gerou muito emprego, para muita gente, não se resume só ao jogador de futebol. Muita gente acha que é isso: o jogador é mercenário, ele vai lá e ganha um dinheiro. Não, a várzea evoluiu de uma forma, que ela abençoa várias famílias, vamos dizer assim, desde o fotógrafo, o fisioterapeuta, o massagista, do ‘cara’ que vai lá, organizar a roupa para você. Ele está lá, recebendo o dinheirinho dele, para arrumar a sua roupa. A lavanderia, que lava o uniforme da várzea. Pensa o tanto de uniforme que tem, na várzea. Tem empresas de uniforme, que nasceram através da várzea. A Moype, por exemplo, é uma empresa que nasceu... Uniex, King Sports, são todas empresas que nasceram através da várzea. Hoje, pô, essas empresas até para times profissionais elas estão fazendo uniformes agora. Então gerou uma receita acho que não só para o jogador, mas para todos, engloba muita coisa.
(01:44:17) P1 – Sim. E o que você gostaria que gerações futuras soubessem sobre o futebol de várzea?
R1 – Difícil em! (risos) Eu acho que é saber que tem vida no futebol de várzea. Não que a gente vá incentivar um menino a não ser um jogador profissional. Ele tem que lutar, sim, para ser um jogador de futebol profissional. Ele tem que ir, sim, atrás do sonho dele, mas caso se ele não conseguir, acho que a várzea pode proporcionar algo semelhante ao que ele poderia ter vivido no futebol profissional. Ele pode viver um pouco esse sonho no futebol de várzea. Dar uma entrevista…nunca imaginei, tipo assim, a ESPN veio na minha casa fazer uma reportagem. Então, eu sonhei viver isso no profissional, mas não consegui e a várzea proporcionou uma ESPN na minha casa, contar a minha história, a história da minha esposa. Então, eu nunca imaginei isso na vida. Então, eu acho que é isso: que a várzea tem vida, vive (risos) e vive muito, existe vida na várzea e é isso, acho que é isso.
(01:45:38) P1 – E o que você ainda sonha em viver no campo de futebol de várzea?
R1 – A gente vai renovando os nossos sonhos no futebol de várzea, tem Copas que eu sonho em ganhar ainda, a Pioneer é a única Copa que eu ainda não ganhei, de todas que tem aqui, em São Paulo, só falta ela. Então, é o sonho que eu tenho hoje, falando de futebol, é ganhar a Super Copa Pioneer. Agora tenho esse sonho de chegar ao milésimo gol, que é uma história muito bacana. E é isso. Acho que o meu maior sonho de campo no futebol de várzea é esse. E continuar vivendo. Eu acho que a várzea, hoje, tem treinadores, quando eu parar de jogar eu posso estar sendo um treinador, posso estar inserido em uma várzea, cuidando de um time. Hoje tem diretores de futebol na várzea, que contratam jogadores, então acho que é isso.
(01:46:34) P1 – E, para finalizar, eu queria saber como é que foi você lembrar fatos da sua vida, contar a sua história de vida.
R1 - Foi muito bacana, gratificante. Acho que (risos) essa é a história, é uma coisa que eu nem lembrava mais, o que eu contei aqui, vai vindo na nossa mente as situações que a gente já passou lá atrás, as dificuldades. Mas foi muito gostoso poder relembrar, sim, toda essa história, essa trajetória, que é como a gente fala: são 15 anos nessa trajetória, para conquistar as coisas que eu conquistei hoje. Então, foi gostoso relembrar o caminho, valorizar ainda mais tudo que a gente está vivendo hoje, porque não foi fácil, então acho que é isso.
(01:47:25) P1 – Está certo. Então, Max, queria agradecer muito a sua participação nesse projeto de memórias, é a última entrevista desse projeto Memórias do Futebol de Várzea e, enfim, agradecer muito aqui, nesse momento, você compartilhar um pouco da sua história com a gente. Valeu!
R1 – Valeu! Eu que agradeço. (risos)
(01:47:48) P1 – Tem história!
R1 – Vixe, acho que não foi nem 20%. (risos) É que a gente vai lembrando o que vem à cabeça.
— FIM DA ENTREVISTA —
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