IDENTIFICAÇÃO Eu moro na Rua Gomes Lopes nº 64, bairro de Santa Teresa e minha data de nascimento é 18 de abril de 1976. Nasci aqui. FAMÍLIA Meu pai é mineiro, de Além Paraíba e minha avó é de Belo Horizonte, lá de Buriti da Estrada e diziam que meu pai veio primeiro e depois minha mãe. Conheceram-se aqui no Rio de Janeiro. Mas minha mãe, tinha tido um caso primeiro. Ela tinha casado e tinha um casal de filhos. Esse casal de filhos é meus irmãos, os mais velhos que eu tenho. E aí ela ficou viúva, veio de lá de Minas, e trabalhava como doméstica, pra ganhar o pão de cada dia. Aí conheceu o meu pai, que trabalhava no caís do porto. Conheceram, se gostaram, e foram morar junto. Nome dos pais Meu pai se chama Benedito Alves e minha mãe Joana Duvirgen Veloso. São seis irmãos. Roupas que a mãe costurava Isso pra gente era uma maravilha porque a mãe só tinha a gentileza de ter um filho, e de mais a mais também, a roupa que ela comprava, o tecido, nós fazia em casa. A minha mãe costurava, minha mãe não era costureira, mas ela fazia assim essas roupinhas pra criança. As minhas roupas, quem fazia era minha mãe. Ela tinha máquina. Tinha. E logo assim quando lançava qualquer coisa... Aqui nessa comunidade onde que a gente morava - eu sei que Jesus abençou a minha família ali. E nós fomos sempre assim uma família abençoada, uma família unida. Então, quando lançou a máquina Singer, a primeira a entrar foi ali. Descrição do primeiro casamento do pai Meu falecido pai era casado, ele tem quatro filhos, ele tem duas meninas e dois meninos, todos dois clarinhos, bem dizer todos os quatro, bem dizer, todos dois, financeiramente bem. Ele trabalhou, deu estudo, a mulher de dentro de casa. Que antigamente, o homem trabalhava e a mulher ficava em casa, tomando conta da família. Então, quando ele estava com essa mulher, o que ele pode fazer para esses filhos, fez. Depois ele estava morando com a minha mãe....
Continuar leituraIDENTIFICAÇÃO Eu moro na Rua Gomes Lopes nº 64, bairro de Santa Teresa e minha data de nascimento é 18 de abril de 1976. Nasci aqui. FAMÍLIA Meu pai é mineiro, de Além Paraíba e minha avó é de Belo Horizonte, lá de Buriti da Estrada e diziam que meu pai veio primeiro e depois minha mãe. Conheceram-se aqui no Rio de Janeiro. Mas minha mãe, tinha tido um caso primeiro. Ela tinha casado e tinha um casal de filhos. Esse casal de filhos é meus irmãos, os mais velhos que eu tenho. E aí ela ficou viúva, veio de lá de Minas, e trabalhava como doméstica, pra ganhar o pão de cada dia. Aí conheceu o meu pai, que trabalhava no caís do porto. Conheceram, se gostaram, e foram morar junto. Nome dos pais Meu pai se chama Benedito Alves e minha mãe Joana Duvirgen Veloso. São seis irmãos. Roupas que a mãe costurava Isso pra gente era uma maravilha porque a mãe só tinha a gentileza de ter um filho, e de mais a mais também, a roupa que ela comprava, o tecido, nós fazia em casa. A minha mãe costurava, minha mãe não era costureira, mas ela fazia assim essas roupinhas pra criança. As minhas roupas, quem fazia era minha mãe. Ela tinha máquina. Tinha. E logo assim quando lançava qualquer coisa... Aqui nessa comunidade onde que a gente morava - eu sei que Jesus abençou a minha família ali. E nós fomos sempre assim uma família abençoada, uma família unida. Então, quando lançou a máquina Singer, a primeira a entrar foi ali. Descrição do primeiro casamento do pai Meu falecido pai era casado, ele tem quatro filhos, ele tem duas meninas e dois meninos, todos dois clarinhos, bem dizer todos os quatro, bem dizer, todos dois, financeiramente bem. Ele trabalhou, deu estudo, a mulher de dentro de casa. Que antigamente, o homem trabalhava e a mulher ficava em casa, tomando conta da família. Então, quando ele estava com essa mulher, o que ele pode fazer para esses filhos, fez. Depois ele estava morando com a minha mãe. Quantas vezes eu vi meu pai sair todo arrumado, de terno e gravata, chapeuzinho na cabeça... E ia o que? Para o cartório porque era o casamento da sua filha. Então, foi uma honra. Criou duas filhas, não foi aqui, não sei onde foi o lugar. O nome dela é Iolanda, assim fiquei sabendo por uma prima minha em primeiro grau, que ela trabalhava como supervisora de hospital, a mais velha. Os outros meninos dele trabalham no (BCE?) do exército. Família de quatro. Até eu desejo de conhecer meus irmãos, eu não conheço. Da parte do meu pai. E o nome da esposa dele, eu não sei. Mas eu não sei o que aconteceu, se separaram não sei. Separaram-se, meu pai ia pra lá, dava assistência, função de pai. E aí acabou. Gostou da minha mãe, conheceu minha mãe, mulher trabalhadeira foi chuva. Foi chuva e aí eles foram morar juntos. Irmãos Eu com 11 anos, eu já comecei a tomar conta de casa. Não dediquei nada a estudo, minha mãe precisava de mim. Eu tinha um irmão que hoje ele é falecido, o Zé. Minha mãe dava de mamar a ele, mas ele não queria ninguém. Era somente eu. Eu lidava com ele como se fosse um filho meu. Tinha aquela paixão por aquela criança. Então, onde eu estava, ele estava comigo. Se eu estava brincando no morro, corria o morro com ele aqui enganchado aqui, feito macaquinho, agarrado. A mesma coisa esse meu irmão. Então, a gente era muito apegado mesmo. Aí minha mãe e eu ficava dentro de casa. Acabava de fazer minhas coisas ia cuidar dele. Teve uma vez, eu estou pondo arroz, porque minha mãe tem que chegar e encontrar tudo pronto. Fazia tudo correndo pra sair brincando ainda. Entrava correndo que tinha que fazer as coisas. Ia pro colégio. Não ia pro colégio nenhum. Às vezes mentia que ia pro colégio, não ia. Voltava do meio do caminho pra fazer as coisas de dentro de casa, pra carregar água. Carregava pros outros, carregava pra lá da escadaria, do meio da escadaria pra cima pra ganhar um dinheirinho também pra botar comida dentro de casa. Então a gente dava uma ordem, que quando minha mãe chegasse. Ela trabalhava fora, ela era doméstica, mas em compensação tinha aquele horário de chegar dentro de casa. E sempre quando ela chegava, a casa estava arrumada,já estava rebocada. Já tinha feito um café, fazia um arroz e meus irmãos de banho tomado. Estava todo mundo tomando banho. Então eu ficava como se fosse aquele sheriff. Eu mandava. Nos meus irmãos tudo eu mandava. Eu mandava e eles tinham medo de mim. E eu gritava que eu ia falar com meu pai que eles estavam fazendo aquilo, meu pai ia bater. Aqui no sábado,era trabalhar mesmo. Eu corrigia meus irmãos. Então, eles tinham medo de mim porque eu era o “quindin” do meu pai. Acidente doméstico – queimadura do irmão Então eu fui fazer o arroz, afoguei o arroz e quando fui colocar a água da chaleira, que eu joguei dentro da panela, caiu e eu joguei tudo em cima do meu irmão e em cima de mim. Eu queimei meu irmão. Não sei se foi de que grau, do primeiro, segundo, terceiro grau. Esse negócio de gravidade de queimadura. Queimei no estômago. Fiquei queimada de fora Queimei aqui no morro ainda. Meu irmão é vivo. Até hoje eu tenho marca no meu corpo. E meu pai levou meu irmão pro Hospital Souza Aguiar. Não ficou internado, mas enfaixou ele todo. Tinha que tirar todo dia aquele negócio pra fazer o curativo. A criança naquela gaze toda, às vezes pegava no couro. E ele começava a gritar.Aí meu pai falava: ”Está vendo? Tudo isso a culpada é você.” Então ele dizia assim, que eu é que era a culpada. E ali, quando ele sofria de um lado, eu sofria do outro mas não podia fazer nada. Mas por causa de que? Porque eu queria ajudar e acabou acontecendo isso. Mas graças a Deus o meu irmão não morreu. Passei por essa fase, continuamos do mesmo jeito, mais agarrado ainda e a única coisa que ficou foi só no braço, só aquela marca mesmo de queimado. Descrição do pai Meu pai conversava com todo mundo. Bom dia, boa tarde pro povo todo. Criado dessa maneira por minha avó. De onde ele veio, ele veio sem meios porque a criação era rígida. Não era como a criação de agora, de hoje. A criação de agora está tudo solto. E o pai não. O pai queria ver se as pessoas fez o dever de casa, todos três. Eu não sei o que aconteceu comigo que eu sempre tinha alguma coisa pra apresentar o meu pai. Eu não ia pro lado da minha mãe. Ia mais pro lado do meu pai. Ele não falava muito. Ele não era homem de falar, ele não discutia com a minha mãe. Era um amor de pessoa, mas em compensação ele era muito rígido com a família. Se chegasse alguém, colega dele dentro de casa, ele ficava ali dando conta da conversa. Se a gente ficasse ali sentado, só de a gente olhar pra ele sabia que era pra sair. Compras que o pai fazia Graças a Deus, o meu pai não fazia compras do jeito que nós fazemos hoje. Hoje nós vamos ao mercado. Antigamente não ia ao mercado, ia ao armazém. E meu pai, ele comprava o arroz que vinha dentro do saco de estopa. O feijão a mesma coisa. Então, como se dizia assim: era fácil. Eu sei que ele saía de casa com sol e com chuva. Meu tio também, o irmão dele, trabalhava no cais do porto. Meu tio, o Moacir, ele também morava lá no Querosene. Tinha família, mas essa também eu não cheguei a conhecer. Quando eles faziam aquela compra, eles traziam pra dentro de casa, e aquela compra rendia. O meu pai, não comprava refrigerante de dois litros, porque não existia. Ele comprava sim aquela soda limonada, guaraná, e ele trazia era saco. Quantas vezes ele parava numa porta de uma tendinha, pegava aquele saco de estopa vazio e ia botando tudo ali, porque o negócio dele era querer ver nós com a barriga cheia. As comidas típicas de Minas que a família apreciava A minha mãe não era assim muito de fazer angu todo dia não. Mas a minha mãe, se passasse três dias sem comer carne, ela passava mal. Então, ela criou a gente assim: com fartura. Minha mãe gostava sempre de carré. É mocotó. O meu pai a mesma coisa. Às vezes ele também ia pra cozinha fazer, aí ela pegava e fazia aquele angu. Ela gostava daquele angu bem durinho. Aí fazia couve. Fazia aquela comida mineira: arroz, feijão. Era o prato daquele dia. Mas também era só de um dia só. Não repetia comida. E a tristeza do meu pai era quando ele ia pro serviço e olhava, e não tinha nada pra gente comer. Às vezes acabava, o patrão não tinha pagamento pra dar e então só sobrava farinha. Aí minha mãe pegava um dente de alho, socava, pegava umas gotinhas de óleo, deixava corar, botava lá no fogo, deixava corar, e fazia aquele pirão. Fazia um panelão. Aí botava sal e aí botava o tempero mais que ela tinha lá e depois chamava a gente pra dentro. E aí a gente ia, cada um com o seu pratinho, pegando, um atrás do outro e a gente sentava. Daqui a pouco ela - quando a gente ia lavar o prato: ” Mãe,a gente quer mais.” Aí ela pegava, botava de novo, ela mesmo não comia. Ela fazias só pra gente, não pra ela. Quando meu pai chegava a gente estava dormindo porque ele estava demorando, e já era noite. Ele mandava chamar a gente. Um atrás do outro. Vinha os amigos também e às vezes ficavam ali. Só que não dava porque antigamente não tinha rua. Ia até o começo assim do morro e parava. Meu pai faleceu, ele estava com 66 anos, foi muito antes de minha mãe. Descrição dos irmãos Eu tenho um irmão também que casou, está morando agora em Juiz de Fora, chama Joaquim. J.Alves. O sobrenome do meu pai. O outro é Luiz Carlos Alves. Esse mora em Madureira também. Mora também lá e tem com a sua família, e graças a Deus estamos aqui, estamos lutando, todos três trabalhadores. Graças a Deus bonitos. Trabalhador mesmo. Só tem guerreiro. Guerreiro mesmo. O negócio é crescer sem precisar a gente brigar um com o outro. Doença e falecimento da mãe Minha mãe faleceu em 2000. Tem dois anos. Fez dois anos agora. Dia 13 de maio. Ela morou aqui comigo. Ela teve um derrame em casa. Ficou internada no hospital para operar a veia vascular do coração que estava entupida. A doutora disse que a única tendência era somente piorar. Mas eu sou cristã, então meu negócio é Jesus. Eu fico na minha. Falaram demais. Tem momentos que eu fico sozinha. Eu não sou muito de responder não. Porque todos nós temos o nosso ângulo. Tem o lado direito e o lado esquerdo. Quem é perfeito é somente Deus. Então as pessoas falam as coisas pra mim e entra num ouvido, sai no outro. Tinha um mês e 21 dias quando ela tinha operado a veia vascular do coração,deu derrame. Não andou mais, não falou. Fiquei com ela quase um mês lá no Miguel Couto. Meus irmãos não sabiam de nada. Ficaram sabendo depois. Fiquei com ela noite e dia lá. Não deixei ela pra nada. E depois a doutora achou que tinha que trazer ela de volta pra casa. Não sei se era o desejo do coração dela. Então aí ela veio, mas só ficou também 15 dias. Aí eu aproveitei, chamei os irmãos veio, o carro parou, nós colocamos ela dentro do carro e levamos para o Souza Aguiar. Também ela deu entrada logo na UTI, colocou esse aparelho contínuo. Aí a doutora: “Estamos trocando o plantão. Falei: “Está bom. Estão trocando o plantão. Mas depois que a senhora cuidar da vovó, a senhora pode ir pra onde a senhora quiser, mas primeiro vai cuidar dela.” E ela na maca. Aí falou assim: “Chegou a vovó. É com vocês”. Aí também ela não olhou nem nada. Aí falou que eu não podia ficar. Aí falei: “Por que eu não posso ficar? Ela é minha mãe.” Ela estava com 71 anos. “Ela é minha mãe. Eu fiquei esse tempo todo com ela no hospital e esse tempo todo também em casa. Porque aqui agora eu não vou ficar. Vou ficar sim. Daqui eu não vou sair. O senhor não vai me tirar. E uma coisa não faça a ela. Não dá sangria nenhuma a ela porque eu já sei. Eu já estou preparada pra isso também.” Eu já sabia que aquilo ali era a última gotinha. Ai chegou e falou assim: “Você tem que ficar lá fora. Aqui não pode ficar ninguém.” Aí eu olhei pra ele assim e falei: “Está bem.” Aí fiquei encostada no canto olhando. Daqui a pouco ele olhou pra mim assim e falou assim, na janela: “Sua mãe faleceu.” Aí quando eu cheguei lá, falei bem alto: “Poxa mãe, logo agora? Agora que eu estou precisando mais da senhora, a senhora vai me deixar na mão?” Aí, era a gotinha mesmo. Aí a única coisa: ela abriu o olho, como se estivesse saindo dessa vida. Ouvindo ainda. O cérebro ainda estava funcionando, e aí ela olhou pra mim, abriu o olho, olhou pra mim e fez assim com a mão como dizer: Não adianta. É o fim. Aí que o médico falou. Sai vitoriosa porque até o final, fui companheira dela a vida inteira. Nós brigava mesmo, discutia, desentendemos como se fosse irmão. Eu ganhei minha mãe pra Jesus. Eu fui uma menina assim muito doente. Eu fui uma menina assim que eu gostava de briga, gostava de palavrão. Eu não andava com mulher. Nunca gostei de andar com mulher. Falecimento do pai Então o meu pai adoeceu, a doença, que veio mansa primeiro, não deu pra ele construir a casa, ele já tinha colocado umas seis sapatas na casa. Mas aí deu o primeiro derrame, teve o segundo derrame cerebral. Foi embora. Então só ficou Jesus e minha mãe. Minha mãe continuou trabalhando, ficou doze anos e ela lutou pra construir essa casa. Pediu muito a Deus e ela fez um voto: se o Senhor desse apenas um quartinho pra ela morar, ela ia ter na sala dela, um ponto de pregação. Um ponto de pregação toda segunda feira ou então na terça, ou na quarta. Era só um dia só. Então tudo muito bem. Ela fez esse voto pro Senhor. E Deus a ouviu. Hoje tem 18 sapatas, são 18 colunas que aquela casa tem. Então foi o seguinte: foi com um aperto de roupa, uma saia jeans, duas blusas e um chinelo. E ela falou: “Deus deu saúde.” E ali nós fomos construindo. E agora ali está a Congregação, está escrito que é filial Barão de Petrópolis. Lá na rua Gomes Lopes, 74. O meu papel por enquanto na Congregação, eu sou somente moradora, mais nada. Não sei até quando. MIGRAÇÃO Vinda dos pais para o Morro dos Prazeres Meu pai é que morava aqui no Morro dos Prazeres e trouxe ela pra cá. Ela morava numa família quando veio de Minas pra cá. Tinha muita intimidade com essa família que morava aqui também, nesse morro. Tanto que meu pai comprou, gostou. Estavam namorando, juntaram os paninhos e foram morar juntos. MORADIA Primeira casa em que moraram no Morro Antes morava mais em baixo. Depois, meu pai foi e comprou aquela casinha ali que era de uma senhora, antiga também, que faleceu. Ai comprou aquela casinha, somente de estuque. Um barracão de estuque e um pedaço de telha. A sala enorme. A parede do quarto era de pedra. E quando chovia, minava também água dentro de casa. O chão também era de tábua. A nossa varanda não tinha telha, eram aquelas folhas de zinco. E ali, a gente foi crescendo naquela casa meio alta, a gente brincava em baixo. INFRA-ESTRUTURA Água Quando tinha água era uma moleza, quando não tinha, tinha que carregar. A gente carregava água. A gente vinha procurar água. Perguntava também, porque tinha mina, porque eu tinha também uma vizinha que ela tinha mina em casa. Tinha a dona Délia, falecida também. Mas às vezes ela não tinha água. Secava também por causa do sol. O sol muito quente secava. Ela então não tinha água e a água também salobra. Então a gente começava a apelar pelo bicão aqui em cima. Então o bicão tinha duas qualidades de água, a água doce e a água salgada. A água doce era para beber e a água salgada era para tomar banho e lavar roupa. Então a gente carregava. Eu não só carregava pra mim, pra encher os barril da minha mãe, como também carregava água pros vizinhos pra mim também ganhar dinheiro pra quando minha mãe chegar dar para ela. INFÂNCIA Brincadeiras Nós brincava de elástico, nós brincava de bola de gude. Bastante coisa de homem. Bola de gude. Eu colocava vestido porque a gente antigamente tinha que colocar vestido mesmo e short por baixo. Existia uma tal de “pular carniça”. A gente brincava de amarelinha, brincava de piques, de comidinha. As pessoas iam pegar comida mesmo de verdade. E a gente fazia mesmo no fogão de lenha. A gente pegava lá uma lata que a gente achava. A gente limpava aquela lata. A gente pegava uns pedaços de pau, colocava. Pegava um pouco de álcool. Até cachaça mesmo a gente colocava. Porque o pai bebia. Pra brincar então trás um pouquinho pra acender o fogo. Outro tinha que arrumar um palito de fósforo e tem que acender. E a gente botava ali. Botava ali pro vento não passar e ali a gente cozinhava. Fazia comida na lenha. Brincava e comia mesmo. Era uma infância que não tinha maldade. No meu caso, eu brincava muito com meninos e não era menino sem vergonha, abusado. Era gente de família. O que eu falasse estava falado. Não tinha esse negócio de brincar de papai e mamãe não. Era brincadeira mesmo. Era como se fosse todo mundo homem naquele meio. E era uma coisa gostosa como se diz. Hoje, todo mundo está na minha casa e todos vai me ajudar a arrumar a casa, fazer comida. Acabava de comer, tinha que lavar os pratos. Deixasse tudo arrumadinho pra gente brincar. Amanhã eu já ia pra outra casa. Cada dia numa casa. Todo mundo era vizinho. Todo mundo era vizinho e todo mundo brincava junto. Se achasse uma criança, sabia que através daquele um era somente ir atrás que ia pegar todo mundo. Sempre a gente brincava. E uma coisa, a gente não brigava. A gente não brigava. Era uma brincadeira que a gente dormia já contando com o dia de amanhã. O que a gente ia fazer pra depois a gente brincar. E às vezes à noite também, meu pai deixava a gente brincar também. Às vezes os pais combinavam: “ Deixa eles brincar, porque não tem nada.” Então, como eu queria dizer, a gente fazia tudo hoje, mas quando vinha a noite a gente só via o dia de amanhã. Era uma coisa que não era duro. Duro está agora. Está difícil de você realizar uma família. Você cresce, mas você não sabe quem ou com quem é que você está cuidando . É convivendo com a pessoa pra você saber quem é quem. Também é da minha infância. A gente saia muito pra Quinta da Boa Vista. A gente saia aqui do morro pra ir escondido. No ponto final do 206, na pro Silvestre. A gente ia pro Xororó. Era uma coisa, que eu vou te contar um negócio, uma coisa que eu não faço hoje. Antigamente nós fazíamos com gosto, porque você podia ir tranqüilamente. A gente pegava manga. Manga a gente não comprava. Pra lá pra cima, até ali o Cristo o mais que você encontra é fruta. A gente entrava dentro do mato. A gente pegava carona no bondinho. A gente ia subindo a margem. E às vezes a gente pedia carona e o homem também dava carona. Porque o bonde também ia até lá o Silvestre. O bonde não ficava só até Dois Irmãos. Ele ia até o Silvestre também. Amizades que permaneceram Tem a Maria, que hoje ela se encontra viva, mas a gente conversa e tudo. Tem a Maria, tem a Luzimar, tem a Vilma. As meninas que estavam também no meio. Tinha a falecida Lucinha, que já morreu. Tinha a falecida Tania, falecida há um mês. Tinha o Antônio, que era homem. Tinha o Luiz, tinha o Carlinhos tinha o Jeber, tinha o Leônidas. Tinha o falecido Zé, o falecido Antônio... Olha, ao todo acho que tinha mais de 20 pessoas. ESCONDIDINHO Antigamente casa nenhuma não tinha, aqui dentro, televisão. Televisão era só pra rico. E nós tinha televisão. Então, como se diz, hora de novela, o meu pai quando ele chegava do serviço – ele parava nas tendinhas, ele fazia farra. Ele era aquela pessoa que não tinha pressa, ele dava atenção às pessoas... Ele parava nas tendinhas e ali ele comia porque a mulher faz a vontade dele. COMUNIDADE Vizinhança Ali na Gomes Lopes, a única casa que tinha televisão era nossa casa. Então as crianças iam para lá, era criança que era colega da gente, era criança que não era. Aparecia tanta criança, que tinha que pular, pedir licença para entrar. Aí então via aquela novela, a tal de Irmãos Coragem e as crianças entravam pra ver novela. Mas ficavam ali. Aquilo ali pra ele era um prazer de não só ver que nós estávamos dentro de casa, mas como os filhos também dos vizinhos estavam ali. CASARÃO DOS PRAZERES Os fantasmas do Casarão O Casarão era pra mim era uma coisa abandonada. Não tinha utilidade nenhuma. Quem pegou o Casarão, viu que ele não tinha utilidade nenhuma. Morava uma velha aqui. Todo mundo que passava, eles falavam que virava mula sem cabeça, virava não sei o que, e a gente se criou desse jeito. Falavam que tinha lobisomem e a gente ficava com medo. Mas não era nada daquilo. Então, o Casarão não tinha utilidade pra gente mesmo. Nem de dia nem de noite. A gente passava voado. Olhava se tinha alguém. Aí os passarinhos voavam e as pessoas falavam que era fantasma. Era isso. Quem poderia ser o dono do Casarão Então a gente não viu o Casarão. Também o Casarão não era do jeito que é agora. Agora que está esse movimento danado aqui, começou a ter atividade pra fazer. Então antigamente ele era mais fechado, abandonado mesmo. Então quando vinham as pessoas de fora, dos Estados Unidos pra ver o dono, aí ele podia fazer o que ele quisesse. Eu acho que ele podia fazer o que ele quisesse, porque era uma coisa que pra nós não tinha utilidade nenhuma, mas pra eles, pra fora, tinha, porque o dono não era daqui de dentro. Eu nunca conheci. Sempre a vivença foi essa: que o dono do Casarão era verdadeiramente um gringo. Eu não sei, porque até hoje eu não conheço. Então pra mim não interessa nada. O Casarão ficava ali. As crianças brincando, dando volta. As filmagens no Casarão E tem mais uma coisa. Os carros só encostavam de noite. Era só de noite que eles vinham. Acho que o que eles estavam fazendo, as filmagens que eles estavam fazendo aqui dentro não era de dia. Só poderia ser de noite. O nome do filme eu não sei. Eu sei que a casa, era a casa fantasma mesmo. Então, do jeito que estava tudo caindo só podia fazer pra dar medo mesmo. Que do jeito que estava, só Deus pra fazer um milagre. Eu sei que aí eu conheci uns gringo também. Eles ia lá também nesse bar, e a gente ficava também à noite, às vezes eu ficava um pouco mais tarde e depois eu ia dormir. Então quando era dia de sábado, ficava a noite toda. E eles iam pra lá lanchar. A gente fazia hambúrguer. Aí ele falou pra mim uma coisa. Falei: “O que que foi?” Aí ele falava do modo dele e eu falei: ”Olha, eu não estou entendendo nada. Eu não sei falar nem direito, ainda o senhor falando desse jeito, olha, o senhor está me botando de um jeito...” “Então porque a senhora está ficando vermelha?” Eu falei: “Não é nada não. É que eu não estou entendendo nada que o senhor está falando. Está me xingando?” E ele entendia o que eu falava. Aí ele falou assim: “Não. Olha, sabia que você é bonita? Você é bonita.” Aí eu falei: ‘Muito obrigado” Eu falei pra ele só isso. Aí ele falou assim: “Mas antes de eu ir embora daqui, vou deixar uma lembrança.”A lembrança que ele me deixou foi um guarda roupa todo cheio de purpurina , onde eles botavam a roupa de artista. Então justamente aquele guarda roupa era só pra isso. Então ele falou que ia deixar pra mim e eu falei: “Tá.” Então, todas as vezes ele ia lá e me procurava. “Cadê Vera? Cadê Vera?” Todo mundo fala: “Ali.” “Ah mulata, o dia que eu não te ver... Aí eu falei assim: “O senhor pode parar de gracinha. Está querendo me conquistar?” Aí ele pegou e falou assim: “Vamos conosco. Vamos conosco.” Aí eu falei: “Eu vou nada. Ele vai me deixar lá. Então eu sei que pelo menos são pessoas de fora, mas uma coisa: eu não sabia mesmo falar a língua deles, mas eles entendiam. Eles também sabiam falar a nossa língua. Entendiam tudo. E a gente via, a gente olhava”, e aquela aparelhagem clareava tudo, aquelas câmaras. CASAMENTO Primeiro casamento O rapaz que foi o meu primeiro namorado, eu estava com 15 anos que eu tenho filho. Ele já me olhava, eu já olhava pra ele, mas ele estava no quartel. Ele gostava de mim, eu achava que gostava dele, mas aí meu pai mineiro, daqueles mineiros de pé rachado mesmo, Quando ele chegou diante do meu pai e pediu pro meu pai pra me namorar e meu pai consentiu. A mãe dele também é mineira, a família dele é toda mineira. Mas, nós se gostamos e quando eu fiz 16 anos minha primeira filha nasceu. Minha primeira filha . O nome dela é Beatriz. Outros casamentos Hoje faz 11 anos que eu conheci o pai da Daniele. Daniele está com 15 anos. Minha vida é novela, dá novela. Tem muita coisa que está por dentro. Tem coisas de amores, tem tristeza, mas tem alegria também. Agora eu também casei. Casei agora. Com esse rapaz. Faz um ano. Estou morando aqui, no mesmo lugar. Conheci ele em 98. Depois mudaram pra trazer a palavra da pregadora da noite, da atividades da irmãs, e ia acabando e ele passava lá. Não sabia quem ele era, mas ele me conhecia. Mas não sei o que aconteceu que ele gostou de mim. Ele pegou meu telefone, eu peguei o telefone dele. Dia de festividade, eu chamava ele pra me levar. Aí, graças a Deus, nós estamos aí. Nascimento dos filhos e moradia junto com a mãe Eu tenho quatro filhos. Eu tenho a Beatriz, eu tenho e eu tenho o Márcio, do primeiro marido. E quando o Márcio completou um ano nós nos desentendemos ele foi prum lado e eu fui pra outro. Aí eu fiquei pra lá e pra cá e continuei. Arrumei um trabalho, fui trabalhar. Ele foi pra casa da família dele. Eu fiquei com meu quarto, onde eu morava com ele. Aí, a parede da minha mãe caiu aqui em cima, que era de estuque, era de pedra e aí minha mãe falou: “Vem morar comigo. Onde eu moro, no meu quarto cabe. Que a família da senhora é maior. Vem, desce.” Aí ela veio, desceu e ficou morando comigo. Aqui mesmo na Gomes Lopes, lá no 70, só que mais pra baixo. Não deixa de ter o “sete.” Aí ela veio, ajudei também a carregar a mudança de cima pra baixo. E ela ficou ali com o meu pai que estava vivo ainda. E ela ficou morando ali. Aí eu peguei e passei pra outro quarto que era mais pequenininho. Com três crianças só. As três gerações que nasceram no Morro dos Prazeres São três gerações da família que nasceram aqui no morro. Só que meus irmãos e eu, minha mãe teve na maternidade Carmela Dutra velha, e os meus filhos também nasceram na Carmela Dutra nova, lá na boca do mar, lá no Méier. Então como você diz, são três gerações. São sete netos, todos nascidos aqui. Da minha primeira filha são três: dois meninos e uma menina. Da minha segunda também, a mesma coisa. São três, dois meninos e uma menina. E do meu filho, uma menina. MORRO DOS PRAZERES Avaliação do Morro dos Prazeres O Morro dos Prazeres é uma coisa muito boa, uma coisa ótima. Você É cria do morro. Agora, a maioria das pessoas é de fora e não fala contigo mais. A pessoa às vezes podia ser católico, outro podia ser macumbeiro, mas cada um se comunicava um com o outro. E agora é o contrário. Às vezes você muda, entendeu. Você não é mais católico, você não é mais macumbeiro. Mas não tem nada a ver você não poder estar com as pessoas. Então quem era católico, continuou . Eu pessoalmente continuei. Eu não mudei nada. Mudei sim. O que eu fazia não faço mais: brigar, xingar, isso aí eu não faço mais. Agora, sou a nova criatura. Conversar, brincar, ter amizade com as pessoas, eu não mudei. Uma coisa eu vejo que as pessoas está mal, o sapato mais alto que o meu, e que eu deixo ficar na minha posiçãozinha que eu estou, porque o meu castelo, ele não é de areia. Ele está formado de uma grande rocha. E de maneira nenhuma pode servir de apoio. Então nós não temos liberdade. ACADÊMICOS DOS PRAZERES A ala das rumbeiras A última vez que os Acadêmicos dos Prazeres saiu foi pra desfilar lá em Santa Cruz. Os Acadêmicos dos Prazeres era o bloco daqui de cima, tem o bloco lá de baixo mas não é tão bom não. Eu saía em todos os dois. Saía no daqui de cima que é o da Barreira, e saía no lá de baixo que era do Escondidinho. Então, quando saia cada um tinha sua ala. A última ala que eu saí foi a ala da Rumbeira. Posso dizer, não estava boa, mas antigamente era boa. E samba no pé. Era aquele tamanco muito alto e tinha uma coisa. Não tinha nada de carro não. Era no chão mesmo. Tinha mais de 20 componentes. Mas acho tinha muito mais aqui na ala. Somente esse último desfile que foi lá em Santa Cruz, nós saímos daqui. Era o Davi(?) que organizava tudo. A gente se concentrava aqui pra sair. Vinha ônibus pra pegar a gente. A nossa ala que era de frente. Eles botam só pessoa mesmo que é muito bem da cabeça. Pensa muito bem. É uma pessoa exemplar. Ela é muito boa mesmo. Então nosso negócio era ganhar, podia contar que a nossa ala vai tirar nove ou então dez. Era o máximo. A ala nossa era essa que eu estou falando, a ala das Rumbeiras. Isso ficou guardado dentro de mim, porque ali eu levei sete pontos. Sete pontos. Verdade. Acidente durante o carnaval Eu tomei um refrigerante, porque eu não sou de bebida alcoólica, nunca fui de bebida alcoólica, mas também eu nunca também impedi quem gostava. Então eu tomei um refrigerante, de lata. E aí, está todo mundo na concentração. E aí nós começamos a desfilar, e eu não sei o que aconteceu, que eu desmaiei, e justamente fui cortar aqui assim. Eu tenho marca no rosto. E justamente fui cortar numa latinha de refrigerante. E aí, na mesma hora me pegaram, e o bloco continuou desfilando, tamparam as brechas. E os responsáveis me checaram, e me levaram pra não acontecer o pior A minha roupa toda branca ficou vermelha. Arrumaram um carro, me botaram dentro e ai eu fui parar no hospital, com sete pontos. Me trouxeram pra dentro de casa e isso foi o meu carnaval. Aí não fui mais. BLOCO Agora o lá de baixo não. O lá de baixo não deu nada, graças a Deus nunca aconteceu nada. Apesar de eu ser muito das brigonas. A gente ensaiava muito porque o samba enredo, você tem que começar a pegar. “Hoje tem ensaio.” “Tudo bem. Eu vou, eu vou. Mas depois que eu pegar, eu vou embora.” É pra cantar, a gente vai cantar. Então eu fui rumbeira também. Eu era muito namoradeira e trapalhona também. Então era isso que acontecia. Tanto é que uma mulher lá, me chamou dentro da casa: “ Vou te arrebentar. Você está com seu Fulano, assim, assim, assim. Meu próprio esposo.” Eu falei: “ Não estou não.” “ Não você está porque eu estou sabendo.” “ Falei: “ Não estou não.” “ Não porque me contaram”. Aí ele estava chegando. Ai eu falei: “ Tá legal. Eu não estava, mas a partir de hoje eu estou e segura ele ali.” E não tinha um bloco, um desfile de nada que não estava nós dois juntinho Aí passei assim cara a cara. RELIGIÃO Os cultos da Congregação Tem dois cultos que começam segunda feira, que tem somente oração e o ensaio que é de sete à nove. Não, de sete as oito o ensaio e depois das oito às nove vem as orações que eles põem – a Congregação tem oração de nove à dez. A semana toda. Às terças feiras têm o Ensino da Palavra que já é na sede e é com o pastor presidente, Jomar de Oliveira e na Barão de Petrópolis. Aí já é a sede. E agora, continuando, aqui na comunidade é quarta feira – Libertação. Terça feira também, tem de nove ao meio dia o círculo de oração e sexta feira também tem à noite o Ensino da Palavra. Também mora aqui em cima, na comunidade. Tudo evangélico. Quando eu era criança já existia a Congregação, mas só que meu pai ele era católico. E o católico dele que eu quero dizer é assim: ele acreditava em Maria. Ele não só freqüentava a igreja católica. Ele freqüentava a umbanda também. Ai foi onde que ele me levou também, O nome do terreiro do Escondidinho, era só o nome da pessoa, que era seu Manoel. Conheço também o terreiro aqui do senhor Edílson. Eu já fui lá também. Aqui era mais era umbanda. Tinha festa de tudo. A gente ia. Tem aqui em cima também, aqui na Barreira, toda noite também. Eu estou bem. Digo pra todo mundo que estou bem porque a justiça, eu entrego a Deus. Era uma pessoa muito vingativa. Eu queria fazer justiça com minhas próprias mãos. Eu tinha pensado. E agora, graças a Deus, Deus não me deu só o casamento, mas me deu um pai. E eu creio que me fez muito bem , foi na hora certa que eu entrei pra essa religião cristã. Que do jeito que eu era abusada, acho que eu não estava aqui mais não. Ele me dá muito conselho mesmo. Então, é uma coisa que veio na hora certa, no dia certo e deu tudo certo. Dei meu nome pra Jesus também.
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