Meu nome é Roni Anderson Barbosa. Eu nasci em Porto União, Santa Catarina, no dia 25 de janeiro de 1975.
Eu fiz o concurso público em 1993. E em 1993 mesmo eu fiz o curso para o cargo de operador. Foram seis meses de curso em São Mateus do Sul, na usina do Xisto. Eu entrei no Xisto em primeiro de agosto de 1994. Em primeiro de fevereiro de 1997, eu vim transferido para a refinaria.
Quando eu entrei na Petrobras, eu morava em Curitiba. Acabei fazendo cursinho aqui e trabalhando em São Mateus. Uma loucura, troca de horários para poder estudar, para passar no vestibular. Acabei passando no vestibular para Direito. Faz um ano que estou formado.
Quando entrei, eu trabalhava na unidade de Utilidades. Eu trabalhava com tratamento d'água, geração de vapor, energia elétrica, e aqui eu vim fazer uma outra função. Aqui, comecei com transferência e estocagem, que mexe com transporte do petróleo e dos derivados do petróleo.
A grande mudança de Curitiba para cá, foi que a vida deu uma assentada, muito bom poder parar de viajar. Eu fazia 500 quilômetros por semana ou mais até. Foi bom parar um pouco para reorganizar a vida.
Eu entrei para o sindicato quando eu comecei a faculdade; tinha alguns professores que jogavam os temas sociais, sindicalismo, eu comecei a me envolver e a estudar, ver as questões do sindicato.
Mandato
A partir de 1999, o pessoal do sindicato me convidou a participar da gestão e eu acabei indo. Primeiro no Conselho Fiscal e, logo em seguida, passei a diretor. Por razão do vazamento no rio Iguaçu, no ano 2000, houve a necessidade de liberação de mais um dirigente para ajudar naquele tumulto todo que estava ocorrendo aqui na cidade. Eu passei a ser um diretor liberado para trabalhar só no sindicato.
Nós temos hoje a Federação Única dos Petroleiros, a FUP, que congrega todos os sindicatos petroleiros. Com sede no Rio de Janeiro, onde está a sede da Petrobras. Coordena todo esse processo de organização dos trabalhadores...
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Meu nome é Roni Anderson Barbosa. Eu nasci em Porto União, Santa Catarina, no dia 25 de janeiro de 1975.
Eu fiz o concurso público em 1993. E em 1993 mesmo eu fiz o curso para o cargo de operador. Foram seis meses de curso em São Mateus do Sul, na usina do Xisto. Eu entrei no Xisto em primeiro de agosto de 1994. Em primeiro de fevereiro de 1997, eu vim transferido para a refinaria.
Quando eu entrei na Petrobras, eu morava em Curitiba. Acabei fazendo cursinho aqui e trabalhando em São Mateus. Uma loucura, troca de horários para poder estudar, para passar no vestibular. Acabei passando no vestibular para Direito. Faz um ano que estou formado.
Quando entrei, eu trabalhava na unidade de Utilidades. Eu trabalhava com tratamento d'água, geração de vapor, energia elétrica, e aqui eu vim fazer uma outra função. Aqui, comecei com transferência e estocagem, que mexe com transporte do petróleo e dos derivados do petróleo.
A grande mudança de Curitiba para cá, foi que a vida deu uma assentada, muito bom poder parar de viajar. Eu fazia 500 quilômetros por semana ou mais até. Foi bom parar um pouco para reorganizar a vida.
Eu entrei para o sindicato quando eu comecei a faculdade; tinha alguns professores que jogavam os temas sociais, sindicalismo, eu comecei a me envolver e a estudar, ver as questões do sindicato.
Mandato
A partir de 1999, o pessoal do sindicato me convidou a participar da gestão e eu acabei indo. Primeiro no Conselho Fiscal e, logo em seguida, passei a diretor. Por razão do vazamento no rio Iguaçu, no ano 2000, houve a necessidade de liberação de mais um dirigente para ajudar naquele tumulto todo que estava ocorrendo aqui na cidade. Eu passei a ser um diretor liberado para trabalhar só no sindicato.
Nós temos hoje a Federação Única dos Petroleiros, a FUP, que congrega todos os sindicatos petroleiros. Com sede no Rio de Janeiro, onde está a sede da Petrobras. Coordena todo esse processo de organização dos trabalhadores em nível nacional. Os petroleiros hoje têm uma organização muito boa, a ponto de conseguirem fazer uma greve nacional, com quase todas as bases participando. Temos várias pessoas do nosso sindicato, que já participaram e participam da federação.
Este projeto "Memória dos Trabalhadores da Petrobras" numa parceria do sindicato e da Petrobras, eu acho que veio em bom tempo. A Petrobras é uma empresa que está fazendo 50 anos e ninguém mais do que os trabalhadores, construíram essa empresa, que hoje é orgulho nacional. Tanto é que tentaram até trocar o nome - o Petrobras pelo Petrobrax. Houve uma mobilização da sociedade, a opinião pública contra, porque a Petrobras é um símbolo nacional, de uma empresa que deu certo e a demonstração de que o povo brasileiro tem capacidade de vencer. Dá orgulho para o brasileiro. Haja vista os prêmios que a empresa tem ganho na exploração de petróleo no mar e outros que com certeza tem. Eu acho que esse projeto vem consagrar os 50 anos da empresa, para demonstrar para a sociedade como ela foi construída.
Com esse acidente e o vazamento podemos dizer que o sindicato já vinha há muito tempo fazendo a crítica à gestão da empresa. Para nós, esse vazamento ocorreu não em função de falhas na empresa, na questão da manutenção, na terceirização. E naquele momento, foi uma loucura total, quando a gente ficou sabendo. Eu estava viajando e cheguei no dia do vazamento. À noite me ligaram falando: "Aconteceu um vazamento, pelo jeito é grande e vai soltar na imprensa." Na segunda-feira pela manhã, eu vim para a refinaria. Já estava helicóptero sobrevoando, imprensa e tal.
O rio Iguaçu já tinha sido atingido, e a gente fica assustado por ver como é que uma empresa desse tamanho, com a capacidade que tem, com os trabalhadores que tem, com o dinheiro que movimenta o petróleo no mundo, deixa acontece um negócio desse. E a gente vê que vem muita gente querendo se aproveitar desse momento, porque é um momento de fragilidade da empresa. Mas eu diria que foi uma experiência e tanto. Nós fomos chamados para inúmeros debates, fóruns, para rádio, para debater o assunto. O Crea do Paraná acabou convocando uma comissão especial para analisar o acidente.
A gente sabe que a empresa fez, infelizmente, uma análise muito reduzida, que acabou culpando os próprios trabalhadores pelo acidente. Nós nunca nos conformamos com essa visão. O Crea do Paraná chamou uma comissão mista, composta por entidades da sociedade, por ONGs, sindicatos. O Crea conseguiu fazer uma análise bem ampla do acidente, que realmente revelava o que estava por trás dos acidentes da empresa. E esse relatório eu diria que é um marco aqui no Paraná. Em uma análise de qualquer acidente, você pode utilizar aquele relatório como exemplo. Ele abordou desde a questão do efetivo de pessoal: antes tinha vários operadores; naquela área onde ocorreu o acidente, acabaram tirando os operadores para reduzir custo. A questão da manutenção no duto: que estava sem manutenção. Quer dizer, abordou vários aspectos para ver que não foi o simples fato do operador deixar de abrir ou fechar uma válvula que causaria um acidente desse tamanho. Uma empresa desse tamanho tem equipamentos de segurança que fazem com que acidentes não aconteçam, senão aconteceriam acidentes todo dia na refinaria.
A questão dos terceirizados é um dos grandes problemas na refinaria, no sistema Petrobras.
A Petrobras tem hoje cerca de 33 mil empregados e quase 90 mil terceirizados, ou seja, três vezes o número de trabalhadores da empresa são terceirizados. Hoje, as pessoas que trabalham na manutenção são fiscais de contratos. Então, vem uma empresa terceirizada, fica um ano, faz o seu serviço. No ano seguinte, pode ser que ela ganhe, pode ser que não. Pode trocar todos os funcionários, acaba perdendo toda a memória do equipamento. As condições são totalmente diferentes com relação à jornada de trabalho, transporte, alimentação. Há uma pressão maior, uma precarização, os direitos não são respeitados, o fundo de garantia não é depositado. Quantas vezes a gente teve que recorrer à Petrobras ou até à Justiça para barrar pagamento de empreiteiras que deixaram de pagar os funcionários? Não pagaram décimo terceiro, não pagaram hora-extra. Esse é um trabalho muito precarizado, que leva a uma grande rotatividade da mão-de-obra, o que acaba culminando nos acidentes. Isso não pode, a empresa tem áreas prioritárias, manutenção, operação, essas áreas requerem acompanhamento específico de pessoal treinado, tem que ser pessoal próprio. Não pode terceirizar nunca uma área dessas.
É uma questão de know-how acumulado. Tem que acumular experiências e trocas, para você ir fazendo a história da própria empresa. Porque há alguns absurdos que vêm ocorrendo na empresa. Comentavam comigo que, no serviço de manutenção hoje em um equipamento, em que você tem um operador treinado, capacitado, que tem experiência no equipamento, um engenheiro estava comentando que eles estavam pagando 100 dólares a hora para alguém de fora vir fazer um serviço que um operador poderia tranqüilamente fazer. O problema é não ter gente hoje. Há falta de pessoal e não se investe em treinamento, não se investe em pessoal, quer dizer, isso começou a mudar após esse acidente do vazamento. E veio depois P-36 e outros acidentes que levaram a empresa a começar a mudar sua ótica na questão da segurança. Mas eu diria que ainda temos muitos problemas para resolver, e não vai ser assim como um passe de mágica para resolvê-los. Isso tem todo um processo para se resolver.
1995
Nós tivemos vários movimentos, mas o grande, o marcante, foi em 1995, quando eu estava recém ingressando na empresa. Participei muito pouco. Até tem outras pessoas mais qualificadas para contar. Eu era muito novo na empresa, ainda estava em período de experiência. Lembro que tudo era meio inusitado, muita coisa que ainda não conhecia, aquele linguajar, os debates que aconteciam. Ainda ficava meio arredio. Só escutando. E acompanhava os companheiros. Fiz a greve também. Mas depois fomos pegando mais experiência e esse foi um momento que marcou a categoria mesmo.
Foi uma greve de embate político muito grande. Porque o próprio governo FHC, que vinha com um respaldo popular das urnas, enfrentou os petroleiros. Eu acho que foi uma greve que marcou. Teve os seus pontos positivos e teve os pontos negativos. Mas eu diria que, após isso, nós tivemos várias greves. Greve de 24 horas, greve de 48 horas, a luta pelo direito dos feriados que a empresa retirou. Nós fomos, fizemos greve em vários feriados no ano de 1998, 1999. Para tentar reconquistar. Depois, acabamos fazendo um processo de negociação com a empresa. A empresa acabou cortando, comprando o direito.
2001
Quer dizer, com todo o processo do neoliberalismo que veio na década de 1990, a empresa veio como um rolo compressor para cima, e o sindicato tendo que se defender. A gente foi tentando se defender nesse período, teve uma greve que marcou bastante aqui, foi a greve de 2001. Foi uma greve de cinco dias. Nós, aquele ano, entregamos a pauta de reivindicação para a empresa no dia 30 de julho, nossa data-base é primeiro de setembro. Chegou no dia 13 de setembro, a empresa ainda não tinha nem respondido a nossa pauta de reivindicação. Nós começamos a fazer atraso no expediente, a partir do dia 14, e culminou com uma greve, que foi do dia 24 ao dia 28 de novembro. Uma greve de cinco dias. Mas para ver o tamanho da repressão e da cassação mesmo, da busca da repressão aos trabalhadores, ao direito de greve, ao direito de participar de movimentos. Como isso, ficou muito nítido na empresa. O massacre que foi feito dentro da Petrobras foi muito nítido. Porque a gente viu: primeiro ela começou cooptar chefes, gerentes, supervisores. E um discurso mesmo avassalador para massacrar e trabalhando também, claro, com questões externas como o desemprego que assusta muito o trabalhador e outras questões. Levaram o trabalhador mesmo a se reprimir e a ter, digamos, mais receios.
Pisando em ovos com relação a greves e movimentos. Mas mesmo assim, os petroleiros sempre estiveram fazendo os seus embates. E a categoria aqui, a refinaria, os trabalhadores em turno, sempre deram bastante respaldo para a gente. "Olha, vamos lá para a greve." E mesmo tendo, às vezes, poucas pessoas na assembléia no sindicato, a gente vinha: "Vamos deliberar, vamos fazer." Vinha prá frente aqui da refinaria, parava os ônibus, todo mundo descia, e vamos para a greve. O pessoal fazia.
Falar da minha experiência na Petrobras e no sindicato foi muito bom, emocionante. Meu pai foi petroleiro, infelizmente ele já faleceu e meus dois irmãos passaram em concurso no ano passado. Os três irmãos estão trabalhando hoje na Repar, um em cada setor. É gratificante estar aqui conversando sobre isso. Até um dos grandes sonhos do meu pai era ter vindo aqui na refinaria e tirar foto com os três filhos. Ele acabou falecendo o ano passado sem realizar esse sonho. Mas é muito gratificante estar aqui contando essa história.
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