Projeto Conte Sua História
Entrevistado: Roberto Miguel de Barros Regina
Entrevistado por: Karen Worcman (P/1) e Rosana Miziara (P/2)
Rio de Janeiro, 01 de outubro de 202
Entrevista n.º:PCSH_HV1410
Revisão: Nataniel Torres
P/1 - Posso te chamar de Roberto?
R - Claro.
P/1 - Eu ia propor, antes da gente sair falando, que a gente juntos fechasse um pouquinho o olho, sabe? E respirasse. E aí eu ia lhe convidar pra, nessa respiração, fazer uma viagem e buscar qual a sua primeira lembrança. a primeira imagem da sua vida? E às vezes essa lembrança, ela não precisa ser muito explícita, ela pode ser, às vezes é um som, às vezes é uma sensação, às vezes é um cheiro, às vezes é uma imagem difusa, mas é como se a gente fosse viajando e buscasse essa imagem lá atrás. E nessa respiração, eu vou lhe convidar a fazer essa viagem por essa imagem, por esse momento, por esse instante, por essa lembrança que muitas vezes é difusa. Explorar assim, como você consegue se ver. Consegue perceber alguma coisa. Não precisa agarrar esse momento. Só sentir. Quando esse momento estiver assim, mais familiar, vale a pena tentar como se saísse dele, se olhar dali e retornar aos pouquinhos, ao momento em que a gente tá, nessa capela linda, nas imagens que estão pintadas nela, retornar ao dia de hoje, possivelmente, se já escutaram o barco, lembrar o café da manhã, lembrar cada coisa que foi acontecendo até a nossa chegada aqui, o despertar, os sons, o café. Quando a gente estiver chegando aqui, a gente saiu ali da varanda e veio andando e botou o microfone. A gente pensar onde foi que sentou, sentir, e sentando nessa cadeira que cada um de nós está. Prestar atenção nesse som que tá, um passarinho. Acho que um pato. O vento. E na hora que sentir que chegou dentro dessa cadeira, é só abrir o olho, e a gente começou. E aí eu queria começar a nossa entrevista com uma pergunta muito simples, que é seu nome completo, data e local de nascimento?
R -...
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Entrevistado: Roberto Miguel de Barros Regina
Entrevistado por: Karen Worcman (P/1) e Rosana Miziara (P/2)
Rio de Janeiro, 01 de outubro de 202
Entrevista n.º:PCSH_HV1410
Revisão: Nataniel Torres
P/1 - Posso te chamar de Roberto?
R - Claro.
P/1 - Eu ia propor, antes da gente sair falando, que a gente juntos fechasse um pouquinho o olho, sabe? E respirasse. E aí eu ia lhe convidar pra, nessa respiração, fazer uma viagem e buscar qual a sua primeira lembrança. a primeira imagem da sua vida? E às vezes essa lembrança, ela não precisa ser muito explícita, ela pode ser, às vezes é um som, às vezes é uma sensação, às vezes é um cheiro, às vezes é uma imagem difusa, mas é como se a gente fosse viajando e buscasse essa imagem lá atrás. E nessa respiração, eu vou lhe convidar a fazer essa viagem por essa imagem, por esse momento, por esse instante, por essa lembrança que muitas vezes é difusa. Explorar assim, como você consegue se ver. Consegue perceber alguma coisa. Não precisa agarrar esse momento. Só sentir. Quando esse momento estiver assim, mais familiar, vale a pena tentar como se saísse dele, se olhar dali e retornar aos pouquinhos, ao momento em que a gente tá, nessa capela linda, nas imagens que estão pintadas nela, retornar ao dia de hoje, possivelmente, se já escutaram o barco, lembrar o café da manhã, lembrar cada coisa que foi acontecendo até a nossa chegada aqui, o despertar, os sons, o café. Quando a gente estiver chegando aqui, a gente saiu ali da varanda e veio andando e botou o microfone. A gente pensar onde foi que sentou, sentir, e sentando nessa cadeira que cada um de nós está. Prestar atenção nesse som que tá, um passarinho. Acho que um pato. O vento. E na hora que sentir que chegou dentro dessa cadeira, é só abrir o olho, e a gente começou. E aí eu queria começar a nossa entrevista com uma pergunta muito simples, que é seu nome completo, data e local de nascimento?
R - Meu nome é Roberto Miguel de Barros Regina. Eu nasci no dia 12 de janeiro de 1927, na cidade do Rio de Janeiro.
P/1 - E o nome do seu pai e da sua mãe?
R - Meu pai era Pedro Regina Sobrinho e a minha mãe, Maria Magdalena de Barros Regina.
P/1 - Conta um pouquinho o seu pai, de onde ele era, de onde veio a família dele?
R - Bom, o meu pai era filho de um praticamente imigrante italiano. Esse imigrante, meu avô, Miguel Regina, de quem eu herdei o meu segundo nome, veio para São Paulo e para a cidade de Bariri. E ele fundou ali uma loja, abriu uma loja, uma livraria. E eu me lembro até hoje dos detalhes, dos livros que meu pai pegava nessa livraria para levar para eu ler. Foi aí que eu conheci muita coisa. E eu me lembro de pequenos detalhes, como uma campainha que ele tinha em cima do balcão, que a gente torcia e ela dava um sinal. E ela hoje está guardada na minha cristaleira como lembrança. E eu, quando passo por ela, essas imagens me vêm à cabeça como um filme. Essas imagens que eu tenho dessa fase da minha vida. Bom, o meu avô era meio incomunicável. Ele tinha suas manias, era meio esquisito, não era muito comunicativo. Então, eu não guardo dele muitas lembranças. Tem uma que eu guardo como se fosse um filme, em alta definição. Ele, aos prantos, chorando, quando a minha avó, a esposa dele, faleceu. E ele soluçava isso e me ficou na cabeça, aquela crise incontrolável de choro. E depois ele se fechava e era de novo um homem quase que incomunicado. Bem, lembranças que eu tenho, como eu já disse, muitas vezes são muito gráficas. Parece às vezes que eu estou vendo um filme. Uma lembrança que eu fui agora...
P/1 - Agora que a gente foi voltando?
R - Fui catar agora, lá de trás. Eu, criança, deitado num bercinho, com as grades e muita coisa pendurada, patinhos de celulóide, bonecos, e eu me vejo ali. Parece que eu saio e me vejo ali deitado no bercinho. Mas as minhas lembranças são como retalhos de filmes. Elas, às vezes, se interrompem e eu não sei o que continua. São flashes.
P/1 - Que mais imagens veio quando a gente estava fazendo esse exercício? O berço, mais alguma?
R - Bom, eu me vejo já um pouquinho crescido com meus amiguinhos, porque eu era uma criança muito brincalhona, muito ativa, e me lembro das brincadeiras com o meu grupinho, brincadeiras de crianças típicas, o “passa anel”, brincadeiras de estátua, e muitas vezes, essas lembranças são muito festivas para mim. Eu me lembro de uma ocasião em que nós estávamos brincando na cidade de Bariri, ali numa rua, sem calçamento ainda, e, de repente, aparece uma procissão estranhíssima. Eram várias pessoas marchando, como se estivessem indo para o enterro. Uma fisionomia séria. Quatro delas seguravam as pontas de uma bandeira do Brasil. E eles iam marchando solenemente. E meu pai ia na frente, parece incrível, tocando violino. Meu pai gostava de ar. Ele não era um músico, na acepção da palavra, mas ele gostava de arranhar instrumentos, como a gente fala. Então ele tocava violino, batia no piano, e era um músico incipiente, mas devotado. Ele estava tocando violino, e eu fiquei achando aquilo uma coisa estranhíssima, misteriosa, custei para entender o que era. Depois que eu soube, na crise da Revolução de São Paulo, né, na década de 30, a cidade estava em péssima situação financeira. Então, eles estavam angariando os donativos. E eu, como criança, não deixei isso pela metade, eu sabia onde a bandeira estava e eu fui buscar a bandeira e a garotada começou a ensaiar. Eu sei que, dentro em pouco, o povo da cidade viu outro cortejo parecido, mas dessa vez por crianças, segurando a mesma bandeira. E eu na frente, tocando violino. Eram dois pauzinhos que eles pregavam assim. Um era o arco e o outro era o violino. E todo mundo riu muito, mas o meu pai ficou meio ferido com a brincadeira que ele achava que era uma arremedo, uma caricatura. Me deixou de castigo durante um bom tempo, mas passou. Eu era coroinha nessa época. O padre Serra, chamado assim, era um padre muito ativo e ele tinha seus coroinhas e eu era o principal deles. Eu que respondia pelas liturgias, eu aprendi toda a liturgia da missa em latim, de cor, porque a gente não podia ficar lendo, né? A gente tinha que... Me lembro das vezes que a gente entrava furtivamente na igreja, na hora que não tinha ninguém, e a gente ia tomar um golinho de vinho nas galhetas. Então, é isso. Mas o Padre Serra era um aficionado de música, e ele tinha uma discoteca e amigos. E eles de vez em quando se reuniam para ouvir uma obra completa, uma ópera, que era o mais comum na época. E eu cheguei uma vez a ouvir uma ópera inteira, cuidadosamente explicada, episódio por episódio, pelo Padre Serra. E daí, eu acho que foi a alvorada do meu gosto pela música. Eu ficava muito impressionado com aquilo. E o Padre Serra ia a Jaú, que era uma cidade mais próspera, era perto de Bariri, para comprar discos, e ele me levava. Então a gente ficava lá, com o vendedor, mostrando. “Gosta desse?”, tocava. Ele dizia, “não”, era tudo operetta, Caruso, trechos de ópera, e eu não gostava nada disso. Não era a minha praia.
P/1 - Qual era o que te...
R - Não, tinha que ser uma música especial, eu não definia, mas não era nada daquilo. Eu não gostava daquelas cantorias, daqueles cantores, daquele “blá-blá” infinito que às vezes é a ópera italiana, né? Mas ele sempre voltava com discos instrumentais, que aí eu passava a ouvir e gostava. Não me lembro de nenhum título de música dessa época. E o gosto musical do interior de São Paulo, na década de 30, não era nada refinado, né? Eram aquelas músicas que se ouvia... Muito Caruso. Caruso tinha muito. E eu me lembro de ter decorado esse nome, chamava de Caruso. E quando eu tinha uma passagem lírica de um tenor ou um soprano, eu dizia “Olha lá o Caruso!”. Eu não entendia muito bem.
P/1 - Posso lhe perguntar uma coisa antes da gente seguir? O senhor sabe por que o seu avô foi para a Bariri e abriu uma livraria? Qual é a história dessa família?
R - Bom, o meu avô era um imigrante. Ele saiu da Itália para tentar vida nova no Novo Mundo, como era muito comum na época, e havia levas de italianos, levas de... de alemães. E ele chegou lá com uma grande companhia de compatriotas, me lembro das minhas tias nesse grupo, e se instalaram lá. As minhas tias eram professoras, e uma delas, Tia Assunta, era uma pianista e uma mulher extraordinária. Ela era professora do grupo escolar de lá e todo ano oferecia à cidade de Bariri um show fantástico. Ela era uma coreógrafa que eu até hoje me espanto com as habilidades dela nesse sentido. Então, o festival tinha muita dança, muitos esquetes cômicos, teatro. E eu me lembro que, quando pequenininho, ela me fez dançar no palco um minueto. Então, foi a primeira vez que eu pisei num palco pra dançar. E tinha uma garotinha que era minha partner, que era muito metida, muito antipática, e toda vez que a gente chegava perto, nas evoluções coreográficas, eu tacava um beliscão nela, ela gritava e era um escândalo. Muitas vezes mandei… Quase que eu fui expulso da peça por causa disso. Então, um dia, eu me lembro de um fato, eu passei, depois de um ensaio, acompanhado dessa menina, e tinha um grupo de operários trabalhando, e um deles chamou e disse “Ei, garotinho, vem cá! Você já sabe ler?” E eu, emproado: “Já sei, já sei fazer contas.” E ele disse: “Então leia aquilo que está escrito na parede.” Era uma palavra muito feia. E eu li, e li errado. E eles caíram na gargalhada. Eu achava que era de admiração, fiquei todo curioso, todo cônsul, mas não era; era porque eu tinha lido a palavra errada. Outro dia, passando por ali, com a mesma garotinha, eu quis repetir a cena. Chamei a menina e disse: “Menininha, você já sabe ler?” Ela disse: “Sei.” “Então, o que está escrito ali?” Ela olhou, me deu uma “tapona” e saiu furiosa. Eu não entendi nada. E hoje é que eu constato que essa menininha era muito mais sabida do que eu.
Então, é isso. Essas memórias estão no meu livro. Eu conto essas historinhas.
P/1 - E o seu pai, ele trabalhava na livraria também?
R - Não, ele era cirurgião, o primeiro cirurgião do hospital, lá de Bariri.
P/1 - Ele estudou então em Bariri e se tornou cirurgião lá?
R - Não, ele já veio, bom, ele era paulista, se for em medicina, e como era filho muito notório da cidade, logo se enfiou no hospital e em pouco tempo ele era chefe de cirurgia. E me lembro que havia um grupo de irmãs católicas, alemãs. Elas trabalhavam lá. Me lembro, meu pai e minha mãe aprendendo alemão com as freiras. Eu achava interessante.
P/ 1 - E a sua mãe? Conta um pouquinho.
R - Bom, a minha mãe era carioca, de origem meio modesta, mas uma excelente dona de casa. Mas ela sofreu um pouquinho com as aventuras amorosas do meu pai, e ela detestava Bariri, porque ela se sentiu raptada do Rio de Janeiro, onde ela sempre viveu, se meteu no interior e ainda sofria as incursões românticas do marido, né? E toda vez, então, que ela estava grávida e esperava um filho, nas vésperas de _______, ela vinha passando pelo rio para que seus filhos não nascessem em Bariri, fossem todos cariocas. Então, isso aconteceu comigo e com meu irmão. Então, eu sou, na verdade, um paulista carioca.
P/1 - Mas quando ela vinha pra cá, ela tinha uma família grande aqui?
R - Não, ela estava no seio da família que ela tinha. A tia-avó dela, a Yaya, as irmãs. Era uma família bem constituída, né? E ela, então, respirava aliviada. Ficava um tempo aqui e depois a gente voltava pra Bariri.
P/1 - E como que ela, que era do Rio de Janeiro, foi encontrar com seu pai que era do interior de São Paulo?
R - Bom, o meu pai era paulista, mas ele era um frequentador do Rio de Janeiro. Ele vinha sempre ao Rio, não só por questões de estudo, como de... E ele conheceu a família, se entrosou nesse meio familiar, se tornou um dos galãs disponíveis, namorou minha mãe e se casaram.
P/1 - E aí, o seu irmão é mais velho ou mais novo?
R - É mais novo.
P/1 - E como era esse... então eram dois filhos, e seu pai e sua mãe?
R - Nós quatro.
P/1 - Como era esse cotidiano na sua casa? Em Bariri assim?
R - Bom, eu confesso que a maioria do meu tempo eu estava com os amiguinhos brincando, eu estudava também, tinha caderno, eu copiava, me lembro fazendo cópias no caderno. E a minha atividade era muito intensa. E quando não era isso, nas pausas, a gente ia brincar. E a garotada era muito criativa. A gente inventava muita brincadeira engraçada. E é isso. Quando eu voltava para casa, era aquela rotina de almoço, janta.
P/1 - Mas era rígido, tinha horário, tinha que ir à missa ou era meio...
R - Não, o nosso horário lá sempre tinha, a mamãe tinha empregada nessa época e a gente tinha horas de almoço, horas de jantar, horas do café da manhã, mas fora disso eu estava sempre brincando. E me lembro de uma ocasião que aconteceu uma coisa que me deixou muito impressionado. Nós fomos a Jaú e, de repente... Não, de Jaú passamos até São Paulo. E eu me lembro que nós estávamos num hotel e que minha mãe, de repente, e meu pai começaram a gritar, “Vem ver. Vem ver. Corre, corre. Corre, vem ver”. Eu corri pra ver, era simplesmente o dirigível Hindenburg sobrevoando a cidade, baixinho. E eles tinham holofotes que iluminavam a cidade. O dia já estava caindo. Então foi um espetáculo que me aterrorizou, me impressionou. E eu, dessa época, fiquei maníaco de Zeppelin. Maníaco mesmo. Cheguei a construir, eu pegava pedaços de papel, caixas, eu fazia charutos, brincava de Zeppelin. E me lembro um dia que meu pai chegou, eu estava quase dormindo e disse, “meu filho”, “o que foi, meu pai?” “O Hindenburg explodiu. Você não ficou triste?”. E eu não gostava de expor meus sentimentos. Eu disse, “não, meu pai, eu não era parente dele”. Meu pai disse, “pois olha, eu fiquei”. Ele saiu. Nesse ano eu nem dormi. Aí virou uma mania. Eu enchi a parede de desenhos dos zeppelins explodindo. Eu fiquei maníaco. E aí, um dia, eu fui acordado de madrugada e me meti num carro do meu pai com minhas tias e minha mãe, minha vovó Yayá, e nós fomos para um lugar que eu não sabia onde era. O carro andou, andou, andou. Era escuro ainda. Aí começou a clarear e o meu pai disse, de repente, “nós estamos chegando”. E a gente hoje assiste um campo enorme, e lá no fundo, uma silhueta prateada, assim refletindo a luz do sol, brilhando, era o Graf Zeppelin. Então nós fizemos uma verdadeira turnê em volta do Zeppelin. E era tão grande que voltas ali significava andar quilômetros. E era uma sensação fantástica. E eu me lembro dos detalhes, me lembro de ver um dos motores, que estava apoiado no chão, e a gente podia olhar pela janela lá dentro. E eu vi um piloto morrendo de sono, bocejando. E eu falei, “coitado, ele vai esperar”, porque não sabia quanto tempo ele ia ficar ali. Até que uma hora eles chegaram lá e disseram, “vamos afastar, vamos afastar”. Tinha muita gente. Nós nos afastamos, porque estava na hora da partida. E eu ouvi a minha avó dizer, “ele vai voar?” E eu disse, “que pergunta burrada”. Porque parece impossível que uma coisa dessa saia do chão, né? Mas ele, de repente, começou a subir devagarinho. Foi subindo, subindo, subindo, subindo. Parou lá em cima, aí ligou os cinco motores, foi um... a pessoa chegava a gritar. E ele deslizou e foi embora. E eu me lembro como se fosse hoje, na porta aberta da cabine de passageiros, estava um oficial muito elegante, todo vestido de azul marinho, e eu pensava “ele deve estar super orgulhoso”, porque o povo todo lá embaixo, embasbacado com aquele espetáculo, e ele foi embora. E eu, quando montei o Graf Zeppelin, que está no museu, eu deixei a portinha aberta. Eu fico pensando, vamos ver se a qualquer momento o comissário chega ali na porta.
P/1 - Essa coisa de fazer as miniaturas já veio desde criança?
R - Ah, desde criança. Eu brincava. Meu pai tinha uma coleção de caixas de injeção, de um medicamento que ele aplicava. Eram caixinhas assim, quadradinhas. O que eu roubei daquelas caixas e esvaziei para fazer aviãozinho.
P/1 - Mas ele fazia também? Foi da sua imaginação?
R - Não, era eu que fazia. Eu sempre gostei disso, desde criança. Tinha mãos inquietas.
P/1 - E a parte da música?
R - Bom, eu estudava piano e me lembro que a minha primeira professora era uma egressa do convento. Era tão ruim que uma vez o meu pai chamou um maestro que apareceu por lá pra mostrar o filho tocando piano, que era eu. E o maestro disse, “olha, feche o piano, deixe o seu filho esquecer tudo que ele aprendeu até agora, porque está cheio de defeitos”. E aí ele fechou o piano e não mexi mais. Até que depois eu entrei com uma professora aqui, famosa no Rio de Janeiro, mãe de uma pianista também famosa, e é professora, mas com um know-how de não só pedagógica como musical, e foi aí que eu comecei a estudar música.
P/1 - Com que idade?
R - Eu devia ter meus 11 anos, a época que eu entrei para o ginásio.
P/1 - Então me conta. Quer dizer, o que fez vocês se mudarem para o Rio de Janeiro?
R - Olha, a minha mãe estava sempre na esperança de mudar para o Rio de Janeiro, mas era uma esperança longe de ser... Até que finalmente, um dia, meu pai resolveu sair de Bariri porque as políticas não estavam muito favoráveis. Ele saiu do Rio de Janeiro e minha mãe teve a sua alforria. Veio para a cidade onde ela nasceu, no meio da sua família, e me trouxe junto. Foi aí que eu entrei para o ginásio.
P/1-Então, quando a gente está falando disso, a gente está falando que você tinha 11 anos, mais ou menos, 37, 38. É. O que das políticas que não estavam bem?
R - Olha, eu vou te contar uma coisa. Eu posso entender de tudo, se eu estudar, mas uma coisa que eu nunca vou entender, nem assumir, é a política. Eu sou um apolítico, por natureza. Então, eu nem sabia. Sei que a coisa não estava bem para ele.
P/1 - E aí toda a família foi para o Rio?
R - Toda a família veio para o Rio.
P/1 - Aí me conta essa chegada no Rio, o que mudou?
R - Bom, a gente sempre viajava para o Rio, então não foi um acontecimento. Era mais uma viagem que não era de rotina, era definitiva. E aí nós ficamos. Aí eu entrei para o ginásio, fiz o meu curso, criei novas amizades. E sabe que a vida de estudante é o que eu estava levando daí para frente.
P/2 - Onde vocês vieram morar no Rio?
R - Olha, no mesmo lugar onde eu nasci. Depois a minha família se mudou para Botafogo e finalmente para Urca. E até hoje, eles já são falecidos, e as minhas sobrinhas que sobraram ainda moram na mesma casa. Não na Urca. Meu pai comprou uma casa no Jardim Botânico. Ele gostava muito de... Porque o Jardim Botânico naquela época era mato, né? E ele gostava disso. Ele era nascido em Bariri, então ele tinha gosto pelo verde, pela mata, e mudou para Marquês de Sabará, no Jardim Botânico, que naquela época era deserta, no meio do mar.
P/1 - E nesse momento, então, na sua vida no Rio, a vida de estudante, onde que se estudou?
R - Ah, bom, sabe que é a vida de um estudante, né? Fiz todo o ginásio, fiz o curso científico, que na época, depois do ginásio, dos cinco anos, já tinha dois anos. Era o clássico e o científico. O clássico para quem quisesse seguir a advocacia, as belas artes, e o científico para quem quisesse ser médico ou engenheiro. Então eu optei, forçado pela família, pelo lado científico.
P/1 - Mas isso já porque havia um projeto de que você se tornasse médico... O meu pai vivia cantando “Se eu tivesse dez filhos e dez filhas, todos seriam médicos”. E eu cresci com isso no ouvido. E quando eu vi, eu estava fazendo vestibular. Passei no vestibular. E daí a pouco eu era acadêmico.
P/1 - Estudou medicina, onde?
R - Praia Vermelha. Aquele edifício que infelizmente não existe mais, né? Era tão bonito.
P/2 - Seu irmão fez medicina também?
R - Não, o meu irmão não queria ser médico. Ele optou pela advocacia. E ele se tornou professor. Ele foi professor há muito tempo. Professor de português e de línguas. E nós vivemos bem. Só aquelas rixas de irmão de vez em quando, né? Sempre acontece.
E aí, em que momento, quer dizer, me conta assim, você terminou a medicina e foi exercer a medicina?
R - Olha, o meu pai tinha os seus amigos, pessoas com influências. E, quando eu vi, eu estava trabalhando como interno no hospital, como acadêmico. No hospital, primeiro na Lagoa, depois fui para Bom Sucesso. Então, fiquei lá como acadêmico um bom tempo. E formei novas amizades, novos colegas. A gente vai evoluindo. Primeiro é a escola primária, depois o ginásio, depois a faculdade, o trabalho e o elenco das amizades vai mudando.
P/1 - O que nesse momento era a coisa que você gostava realmente de fazer na época de estudar e fazer medicina? Mas onde que estava a sua paixão?
R - Bom, mas a música sempre me acompanhou. Eu era aluno de uma... Falei de uma grande musicista e cheguei a participar de concertos na escola de música. Tem até um programa de uma apresentação de alunos, onde eu tocava Bach, tocava Scarlatti. Então é isso. E eu, todo curso de medicina, eu fazia música.
P/1 - Mas não a escola de música da UFRJ?
R - Não. Eu era autodidata, né? Eu nunca fiz curso de música.
P/1 - Fora essa professora?
R - É. Depois ela faleceu e a gente se separou, mas eu continuei, né? Mas aí eu já estudava sozinho. E eu me apaixonei por Bach.
P/1 - Quando foi que começou essa paixão por Bach?
R - Olha, foi desde que eu ouvi uma cantata dele. Eu tinha uns 15 anos. Foi um choque muito grande. E eu sempre comecei a cultivar. Eu gostava demais. Eu me identifiquei com Bach. Eu só queria saber de tocar Bach, mais nada. Engraçado que o pessoal me ouvia no piano, eu tocava no piano, não tinha cravo. Todo mundo dizia, “Roberto, você toca…” E eu fazia sucesso, eu cheguei a dar concertinhos, não só domésticos, como também patrocinados por entidades. E todos me diziam, “Roberto, o seu piano é diferente. Você toca um piano diferente”. Eu não entendia isso, porque eu já tocava cravo inconscientemente.
P/1 - Me explica essa história do cravo, do piano, melhor.
R - Bom, o meu repertório de preferência era o repertório do cravo. Eu ouvia muito a Wanda Landowska. Eu era fã dela. E eu, quando tocava o piano, eu me sentia um cravista, sentia aquela música, aquelas articulações, aquele fraseio e tudo, e todo mundo dizia que “o seu piano é diferente”. Porque eu não era pianista e tocava essas coisas, chanson d’amour, ye ye ye, esse repertório típico da juventude e do público daquela época. Eu tocava uma música estranha, uma música que era diferente. E foi aí que eu comecei a me aperfeiçoar.
P/1 - Não tinha cravo no Brasil?
R - Não. Até que um dia eu recebi uma... Chegou ao Rio de Janeiro uma cravista muito famosa. Não me lembro o nome dela agora. Bom, não vem o caso. Mas eu, curioso como era, eu fui até o Instituto de Música, que eu soube que lá estava o cravo que ela tinha. Eu queria ver um cravo. E eu conheci o técnico que ela trazia para a afinação. E esse técnico me falou que em Nova Iorque havia um cidadão que fabricava uns kits, para a gente construir em casa um instrumento. Aí eu peguei fogo, não queria saber de outra coisa. “Como é que eu consigo esse kit? Eu quero esse kit”. Aí, como eu tinha muitas amizades de garotos que eram filhos de diplomatas, minha família também conhecia alguns, por meio da mala diplomática eu consegui mandar buscar esse kit. E, quando ele chegou, eu fiquei doido. Então, eu contratei dois carregadores, porque eu não sabia o que eu ia receber. Dois carregadores. E quando eles chegaram com a encomenda, eles estavam olhando para mim com cara de riso. “Roberto, você chamou dois carregadores para carregar essa caixa?” Era uma caixa de papelão. Eu pensei que o cravo era uma coisa de comunal. Não. O kit era uma caixa de papelão com pecinhas, parafusos, porcas, material de instrução e um teclado já cortado. Uma prancha assim de madeira. E aí eu caí em cima do kit. Trabalhava, feito um doido de manhã à noite. Até que o kit ficou pronto. E nesse kit é que aconteceu a primeira gravação de cravo do Brasil, porque nessa época eu tinha um conjunto, e nós gravavamos os cantos e danças da Renascença, que foi uma coisa que o gerente da CBS me chamou. Porque eu era conhecido, né? Ele me chamou e disse, “ô, Roberto, eu quero que você grave um disco. Vou te dar carta branca pro repertório”, porque ele sabia qual era o meu repertório, com vocal, música antiga. “Não é um disco pra vender. É porque eu fico envergonhado quando eu vou para os congressos internacionais. Todo mundo leva maravilhas de realização, álbuns maravilhosos, e eu não levo nada”. Nem a Bossa Nova existia ainda. Então, a música popular brasileira era zero à esquerda.
P/1 - Nós estamos falando dos anos...?
R - Dos anos 30 e 40. Aí, esse gerente da CBS me chamou pra gravar um disco, e ele disse, “não é pra vender. Você vai gravar um disco, você toma conta do repertório”. Aí nós caímos em cima. E eu escolhi um repertório que o meu conjunto fazia muito bem, música de Janequin e muita coisa. E nós gravamos esse disco. Chamava-se... E eu tocava o cravo com as danças, e o coro alternava com madrigais, chansons. Resultado, esse disco chamava-se “Cantos e Danças da Renascença”, da CBS. Vendeu tanto que o gerente me chamou para fazer o segundo volume. Aí fizemos o segundo volume, eu gravei de novo, outro repertório. Continuou vendendo e disse, vamos fazer o terceiro volume. E fizemos três volumes de “Cantos e Danças da Renascença”. Esse disco ficou antológico, né? Eu era conhecido por causa desses discos. E aí o meu conjunto já estava... ainda tinha...
P/1 - Como era o nome desse conjunto?
R - Dos cantos e danças, o conjunto tinha um nome, que era de um tenor, que era meu amigo, e que orientava os cantores, porque ele conhecia a técnica do canto, e ele orientava os cantores. Ele era um tenor, chamava-se Dante Martínez. E ele era muito meu amigo, nós trabalhávamos juntos, gravamos, e acabou aparecendo num acidente inesperado. Então, eu rebatizei o conjunto com o nome dele. Chamava-se “Conjunto Dante Martínez”. Aí continuou com gravações, concertos.
P/1 - Então, nesse momento, por exemplo, a medicina já não era...
R - Não, eu estava nessa hora dando plantão já. E outra coisa, muitas vezes eu pedia ao instituto, “pelo amor de Deus, me arranja o substituto de algumas horas, porque eu tenho um concerto para dar”. Me lembro que um dia eu saí do plantão, fui dar um conselho em Juízo de Fora e voltei para o plantão.
P/2 - Por que você escolheu a especialização em anestesia?
R - Olha, não foi culpa minha. Eu não tinha escolha. Na época, havia um mal-estar no meio médico, porque as anestesias, em geral, eram feitas por enfermeiros. Não havia especialização na anestesia. Em caso de existir uma anestesia, era uma coisa muito rara. Então, o chefe da cirurgia começou a captar todo mundo para ser anestesista. E ele me pegou também. “Roberto, você vai aprender, você vai pra sala de cirurgia com os assistentes meus, você vai aprender anestesia”. E ele me pegou assim, me colocou lá. Então foi por isso que eu escolhi.
P/1 - É bom trabalhar com anestesia?
R - Olha, eu comecei um aprendizado longo, né? Primeiros contatos com operados e... e a técnica. Eu fui aprendendo com o tempo, com os amigos, e até que no final eu fiz a minha primeira anestesia. Nem me lembro que ano foi. E aí eu fui anestesista. Fiquei lá até o fim da minha carreira como anestesista, até me aposentar.
P/1 - Isso durou quanto tempo?
R - Bom, foi interrompido porque a Fundação Cultural de Curitiba, do qual eu era o principal agente cultural, regente, músico e tal, dirigindo um conjunto, eles me requisitaram do hospital. Eu continuaria trabalhando e descontando pelo INSS, não era INSS, era... qualquer coisa de... Não me lembro a sigla. Mas eu continuei e me aposentei por Curitiba.
P/1 - Ou seja, você foi morar em Curitiba, então?
R - Não fui morar, mas eu viajava toda semana para lá. Eu fui um campeão da estrada de rodagem. Eu ia de ônibus, imagina. Então, toda semana eu ia para Curitiba. Passava lá um tempo, voltava. Muitas vezes eu ficava várias semanas quando havia concertos, festivais. Foi aí que nós começamos a gravar.
P/1 - Essa história da CBS. Então, foi aí, de Curitiba?
R - Não. A história da CBS era anterior. Lá era o... Era outro estúdio. Não me lembro o nome agora. Mas era um estúdio famoso em Curitiba, muito bem equipado, com bons técnicos. E lá que eu comecei a gravar os discos da Camerata. Primeiro disco foi uma cantata de Buxtehude. Depois começamos a fazer de novo Bach, né? Regi várias cantatas, vários concertos. E terminei com... Regendo e gravando a “Missa em Si Menor”. Aí... Eu vinha pro Rio, voltava pra Curitiba, ficava nessa agonia, até que eu resolvi ficar por aqui, porque era a minha terra, né? Então, a minha família me requisitava muito. Minha mãe adoeceu, ela faleceu nesse tempo. E eu fiquei no Rio. Gravei todos os meus discos da Camerata, que existem até hoje, e é isso. Me aposentei, porque eu era médico, virei a página e virei artesão, porque a minha febre manual não acabava.
P/1 - Ou seja, as miniaturas tinham parado durante a medicina e a música?
R - Não. Eu levava peças para o hospital, para as horas de folga. Eu era uma atração à parte.
P/1 - Já ia montando.
R - É. Às vezes são peças refletivas, né? Que você tem que ter uma paciência de jó, porque elas são iguais, iguais, iguais. É um trabalho monótono. Então, às vezes, eu levava lá para as horas vagas, né? Eu ficava lá.
P/1 - O que é que... que te dá essa sensação de fazer as miniaturas?
R - Olha, a primeira coisa, trabalho manual. Quando a mão quer fazer alguma coisa, você tem que obedecer, né? E, segundo, que eu aderi a esse modelismo em cartão, que é muito comum na Europa e em outros países, onde você tem oportunidade de construir o que quer que exista em matéria de máquinas, de monumentos, castelos e catedrais. Então, o menu é imenso. E eu comecei. Muita coisa está lá no museu. Vocês vão ver.
P/1 - Então essa era a sua...
R - É. E eu até hoje, por exemplo, estou terminando o Partenon de Atenas e já tenho outros projetos.
P/1 - Como fez os projetos? Como você seleciona o que você vai construir?
R - Eu tenho um catálogo de várias firmas com o que eles oferecem, né? Então eu já estou ali com a minha... Minha escolha, o Taj Mahal já está encomendado, o Panteão de Roma também. Então, eu tenho uma pilha assim de modelos para montar.
P/1 - Agora me conta, durante esse período todo de trabalho, você foi algumas vezes para a Europa, por exemplo?
R - Fui.
P/1 - E o que um contato de ver lá, talvez mais concertos ou não?
R - Olha, o meu contato com a Europa foi um tanto ou quanto decepcionante. Porque quando todo mundo fala em Europa, na pátria do _____, eu tinha uma aluna que era extremamente talentosa. Então ela aprendeu comigo a tocar Couperin e Rameau, franceses, que ela gostava muito. Mas ela tocava de uma maneira maravilhosa. Tanto que o Brasil importou uma artista que veio fazer uma turnê, a Huguette de Reifus. Ela veio para cá, conheceu essa minha aluna, deu aulas para ela e ficou apaixonada. Achou ela de um talento incrível e fez uma recomendação para ela estudar na Alemanha. Ela foi, ficou lá. Quando eu estive na Alemanha, eu fui à Colônia para visitá-la. Ela era uma carroceira tocando cravo. Tudo aquilo que ela tinha aprendido tinha sumido, porque era aquela coisa, sabe? Eu fiquei muito triste. Ela entrou para uma escola alemã, tinha mestres, que sua visão era muito mais importante do que eu, um autodidata brasileiro. Eu sei dizer que uma vez eu gravei uma peça que ela tocou e fiz ela ouvir, e ela ficou horrorizada. “Roberto, eu toquei assim?” “tocou”. Aí ela começou de novo a se livrar das amarras. Mas foi uma coisa interessante isso. Então eu tive uma decepçãozinha com a Europa, sabe?
P/1 - Explica melhor.
R - Agora então, com o Suzuki, que é um japonês, isso fica enfatizado, né? Para mim, o maior intérprete de Bach.
P/1 - Então, fora o Suzuki, teve mais alguém que te encantou?
R - Bom, eu trabalhei com o Robert Shaw, o regente americano, que foi o regente da primeira cantata que eu ouvi em 43, 44.
P/1 - Primeira cantata de Bach?
R - É. E ele fez um curso, e eu fui indicado para esse curso, e eu fui para os Estados Unidos para entrar para o curso dele. Ele regia um coral, a gente fazia parte do coro. E eu, então, fiz a minha primeira viagem. Foi muito bom, viu? Eu gostei muito. O ambiente. E ele regeu lá a Missa de Si Menor de novo. E eu fotografei o espetáculo, aliás, de uma maneira um pouco curiosa, porque a fotografia naquela época não era como hoje. Então, eu, para poder focalizar e gravar um palco iluminado com cor e orquestra, eu esperei uma pausa que havia na música, muito longa, para fotografar. Fiquei lá horas esperando. Quando chegou, eu liguei a máquina. Quando eu me apaguei, eu fiz clique. Então, eu fiz uma foto com tempo, para suprir as deficiências da fidelidade da fotografia na época, e a foto saiu linda. Então ele gostou muito.
P/1 - Como era, nesse momento, o ambiente no Rio de Janeiro, da música clássica, de Bach, muita gente tocando? Qual era o seu grupo?
R - Havia vários grupos. Nós fazíamos parte de entidades, o que eu não acreditava muito. Mas havia aqueles grupos amadores, que amam a música. E a gente tinha esse grupo, muita gente interessadíssima, em que a gente fazia parte do coro, do meu conjunto. A gente trabalhava obras, analisava, pesquisava. E havia a ProArte, havia outros grupos oficiais. A ProArte me convidou para fazer um concerto no Municipal com o conjunto. E nós fomos lá, fizemos um concerto muito bonito. E depois eu comecei a receber convites daqui e dali, daqui e dali. São Paulo, Juiz de Fora. E eu era assim, circulava. Até que Curitiba me abocanhou. Eu fui lá e fiquei. Fiz um grupo mais sólido, né? A Camerata, que até hoje existe.
P/1 - O grupo tá lá?
R - Tá com outra direção. Inclusive, eles vieram agora há alguns meses. Deram um concerto na Sala Cecília Meirelles em minha homenagem. Então, foi muito tocante.
P/2 - Como foi que você teve o convite para tocar na Academia Brasileira de Letras?
R - Não, não foi isso. Por falar em Academia (Brasileira de Letras), eu tenho duas histórias engraçadas. Desde que eu era jovem, mais jovem, a Academia Brasileira de Letras era no centro da cidade, numa ruazinha lá, não me lembro onde. Depois é que ela passou para o Castelo. Mas eu sempre sonhei em tocar na Academia Brasileira de Letras. E eu pensava, mas “você já imaginou tocar para os imortais? Deve ser uma sensação incrível, porque eles são pessoas excepcionais, são imortais, imagina, a palavra já…” Resultado. Numa ocasião, graças a um agente que tinha uma série aqui e ali, eu fui convidado para dar um concerto na Academia Brasileira de Letras. Aí eu fiquei numa euforia. Fora do comum, eu explodia de contentamento. Ah, finalmente vou tocar para eles. Resultado, fomos lá para o teatro, ensaiamos e eu dei o concerto. O público compareceu, mas não foi nenhum imortalzinho. Então eu tive uma decepção fantástica. E aí, como compensação, algum tempo depois, a presidente da Academia de Belas Artes, apareceu um concerto aqui, e me ofereceu um diploma de membro da Academia. Aliás, eu vou ser empossado agora
P/1 - Como membro da Academia?
R - Então, uma compensou o que a outra me decepcionou.
P/2 - E a Capela Sistina?
R - A Tupiniquim?
P/2 - A Tupiniquim.
P/1 - Essa daqui.
R - Bom, eu sempre gostei de tocar em concertos, em igrejas, por causa do ambiente, né? Do silêncio, da acústica, principalmente. E quando eu parei de viajar pra cá e pra lá, que eu resolvi fazer um lugar pra tocar pros amigos, eu elegi essa sala aqui. E eu decorei como se fosse uma capela, por causa daquele meu gosto. Então tudo que caía nas mãos eu ia compondo. Aqui são todos os músicos do rei Alfonso, o Sábio, que fazia as cantigas de Santa Maria. Aqui, tetos de catedrais, enfim, e medalhões com profetas, onde eu retratava as pessoas que já tinham participado de concertos aqui. Então fui compondo, compondo e não deixei um espaço sem decoração, como era a filosofia da época.
P/ 1- Eu queria voltar antes da capela. Como é que foi a sua... Por que você veio morar aqui? Com quem você veio morar? O que aconteceu? Você morava aqui no Rio?
R - Eu, quando morava no Jardim Botânico, eu já construía instrumentos. Várias pessoas queriam cravo, não só cópias daquele kit que eu montei, como de outros que eu ia pesquisando. Mas eu trabalhava numa oficina apertadinha, que era a garagem do carro da minha mãe. Aí teve uma hora que eu não aguentei, despejei o carro da minha mãe e tomei conta da garagem como minha oficina. Mas era muito exígua mesmo assim, viu? Então meu ajudante, que era um homem de cor assim, que trabalhava como marceneiro, era um bom marceneiro, e ele me ajudava a construir os moldes, tudo isso é obra dele. E ele tinha… Era casado, mas estava vivendo um caso amoroso. E eles não tinham lugar pra ir. Então ele me botou na cabeça, “Roberto, você tem que comprar um ambiente pra sair da garagem da sua mãe”. E eu achei a ideia maravilhosa. Ter um ambiente pra construir cravo seria fantástico. Eu aderi a ideia dele. Mas a ideia dele tinha outra intenção, né? diferente da minha. E aí tinha uma senhora para quem eu fiz um cravo, que era viúva de um senhor que morou aqui. Ela morou aqui durante um tempo. E ela não queria que esse terreno caísse nas mãos de um negociante, que virasse supermercado ou virasse estacionamento, que ela tinha, assim, um certo carinho pelas lembranças da vida dela aqui. E ela queria, por força, que eu comprasse esse terreno. Eu não tinha dinheiro, porque a arena era muito grande, só 28 mil metros quadrados. Então, eu não tinha dinheiro. Disse, “não, eu não posso comprar”. Mas ela insistiu, “não, é você que tem que ir para lá, porque você vai fazer arte no lugar onde eu vivi”. Bom, mas o meu marceneiro, por outro lado, me injetava, assim, a vontade de ir para um lugar nosso, para construir a nossa oficina. E, lá pelas tantas, ela me veio com uma proposta. Eu tinha um apartamento no Leblon, que o meu pai me deixou, uma graça de apartamento. Dois quartos, sala, bairro do apartamento, na rua Almirante Guilhem. E ela aceitou trocar o apartamento pelo sítio. Eu achei a ideia fantástica, né? Então, eu resolvi aceitar. Minha família quase me matou, porque estou com um apartamento charmoso, no Leblon, por um pedaço de mato que nem em casa para morar tinha direito. Mas, no final, ela chegou a comparecer a um concerto, fez as fases comigo.
P/1 - Ah, sua família não gostou mesmo?
R - Não, imagina trocar um apartamento no Leblon por um pedaço de mato.
P/2 - Você tocava pra sua família, tinha festas na sua casa? [interrupção]
R - Não, pra família não. A minha família não era assim, vidrada por música. Sabia que tinha um membro que era meio excêntrico. Eu era considerado a ovelha negra da família, né? Abandonou a medicina para fazer música. Mentira, eu me aposentei com o tempo de serviço. Mas aí eu me aposentei e virei a página. É diferente, né?
P/1 - Você se tornou médico.
R - É, aí virei médico. E até hoje assombraram da minha família alguns sobrinhos, sobrinhas. Uma é médica, a outra... Duas são médicas, uma é advogada. E eles frequentam aqui, são meus amigos, cuidam de mim.
P/1 - Mas me conta, vamos voltar, então, o marceneiro… O marceneiro é o Ronaldo?
R - Não! Esse marceneiro faleceu.
P/1 - E aí ele falou, “vamos achar”, e aí vocês acharam esse lugar?
R - Quando eu estava em Curitiba, a gente fazia reuniões, depois de concertos, e eu sempre falava assim, entusiasmado, das minhas ideias em fazer isso, fazer um lugar para tocar. E isso despertou a curiosidade de muita gente, inclusive do Ronaldo, que frequentava o nosso grupo e que era um modelo lá da Benetton.
P/1 - Ah, ele era modelo da Benetton?
R - É. E ele fez vários desfiles aí pelo Brasil inteiro. E ele estava em fim de carreira. Então a gente resolveu vir aqui, olhou, gostou, voltou uma outra vez, e na terceira vez acabou vindo de vez pra começar a trabalhar comigo. Porque o nosso esquema é o seguinte, eu faço a parte artística, ele faz a parte funcional, faz a comida, organiza tudo. Porque eu sou meio preguiçoso para organizar, sabe? Eu sou meio bagunceiro. Mas ele é uma mola de mestre deste sítio. Tomou conta.
P/1 - Mas como veio essa ideia de fazer daqui ser um centro que as pessoas vêm estudar?
R - Não foi uma ideia, já estava acontecendo. Não só pelos concertos que eu fazia, como pelo jantar que ele oferecia. Isso foi pegando e virou uma coisa organizada, embora sem organização jurídica alguma.
P/2 - E o museu?
R - Eu, quando estava morando lá na casa da minha mãe, chegou um momento em que ninguém mais podia sentar em cadeira nenhuma. Em toda aquela cadeira tinha uma catedral. Era tudo espalhado, era uma bagunça total. E a minha mãe ficava com uma fúria comigo. Até que a ideia do Edilson, do marceneiro, para ter um lugar para ele viver a sua vida amorosa e eu ter um lugar para construir, nasceu a ideia de a gente comprar esse sítio. Comprar não, trocar.
P/1 - Mas já tinha, por exemplo, todos esses sítios?
R - Nada, achei que nem existia. Era mato.
P/1 - Vocês fizeram?
R - Nós fomos aos pouquinhos, construindo.
P/1 - De que ano a gente está falando, mais ou menos?
R - Hein?
P/1 - De que época a gente está falando?
R - Olha, 47, pouco antes do fim da guerra. Foi em 45, né? Depois da Camerata em 47, 46. E o sítio começou a funcionar como uma entidade, embora quase que inconsciente, porque eu não tinha a menor ideia de organizar, de formar uma entidade, formar um grupo, não. A coisa foi acontecendo. Foi acontecendo de tal maneira que eu comecei a pintar, pintei a capela, continuei fazendo os meus trabalhos, aí liberei as cadeiras da minha casa, passei tudo aqui para o museu, e foi assim. Ela nasceu espontaneamente.
P/1 - E quando você se mudou para cá?
R - Ah, eu tinha um problema, porque a minha mãe ficou viúva e ela tinha problemas. Ela chegou a ser internada uma vez, gravemente mesmo, por coisas do coração e tal. E eu vinha para cá, mas eu vivia na estrada, eu vivia lá, eu não podia largar a minha mãe. Então era um pingue-pongue. Eu fazia pingue-pongue Guarati para o Jardim Botânico todo dia.
P/1 - Ela tinha problema de coração.
R - É. E o meu irmão não morava com a minha mãe. Até que um dia ele resolveu se mudar para o Jardim Botânico. Aí eu tomei um alívio, né? Aí eu ficava mais aqui um pouquinho. Aí veio o Ronaldo, nós começamos a fazer esse trabalho, a coisa foi pegando, aí minha mãe faleceu, meu irmão também faleceu, sobraram meus sobrinhos, que estão na casa lá.
P/1 - Estão na casa do Jardim Botânico?
R - É, são os vigilantes da minha vida. Minha sobrinha é médica, duas, e meus sobrinhos advogados, e eles viraram meus cuidadores, mais o Ronaldo, que mora aqui, que é a mola-mestra da organização do sítio, é quem faz as compras, quem trabalha, quem faz tudo.
P/1 - O seu papel é?
R - Música e artesanato.
P/2 - Foi uma homenagem a ele, se chama Museu do Ronaldo?
R - É, imagina que o Ronaldo foi subir numa escada pra botar o forro. Aquela escada assim, metálica, de duas pernas. O pé dele enganchou numa escada, a escada fechou, caiu pra um lado, ele caiu pro outro. Ele teve uma fratura horrível de tornozelo, levou mais de 10 horas de cirurgia e virou um tempão aí como Robocop, cheio de ferro na perna. E eu fiquei, assim, tocado com aquilo, porque o museu só estava ficando pronto.
A gente, então, organizou. Vamos batizar o museu, vamos. Que nome? Ah, vamos botar o nome do Ronaldo, ele merece. Quase perdeu a perna aqui por causa do trabalho dele, né? Então... [interrupção]
P/2 - Eu queria voltar no Bach. Quando a gente estava lá, você falou que agora, depois de escutar Bach a vida inteira, tocar Bach, agora você entendeu
R - Eu entendi o Bach depois que eu comecei a ouvir as cantatas. Eu recomendo. Pegam o Suzuki, de preferência. Está tudo no YouTube. Há duzentas, lá dando sopa. E ouçam todo dia. Vocês vão...Chega um momento em que vão entrar em... em alfa, sem querer. É uma experiência que eu estou tendo.
P/1 - Roberto, o que você acha agora, nesse lugar que é tão visitado, já tem essa capela, qual que você acha, vamos pensar pra frente, você tem ainda um sonho que você gostaria que acontecesse?
R - Mas o meu sonho já aconteceu.
P/1 - Essa era a minha pergunta. Qual era o sonho?
R - É isso, é ter isso aqui, tocar pros amigos, ter uma vida no meio do verde, tranquila, fazer o que eu quero. Se bem que eu tenho alguns desincentivos, principalmente da prefeitura, porque o meu IPTU é astronômico, eu quase não estou conseguindo pagar. E quando eu vim para cá, isso era zona rural, era isento, não tinha IPTU. Aí, quando fizeram a “transburaqueira” aí, em que velocidade o IPTU já apareceu lá em cima. E eu, por exemplo, estou precisando aumentar o museu, porque ele já está cheio, eu tenho muita coisa para exibir, eu tenho aqui um Soleil Royal grandão de madeira, tem outros modelos, tem uma pilha assim de modelos para montar, tem outros encomendados, e eu tinha que aumentar o museu. Mas se eu aumentar o museu, o IPTU vai subir, aí eu não vou aguentar. Então são desincentivos.
P/2 - A renda do senhor vem dessas visitações?
R - Olha, o que eu ganho na minha aposentadoria, tirando o IPTU e plano de saúde e despesas, não sobra nada. O que nós estamos vivendo é dessa atividade de concertos que as agências promovem aqui. É isso.
P/1 - Qual é o seu... A gente pensou no sonho futuro, que já é presente, e qual que é o seu legado?
R - Quando eu vejo jovens que frequentam aqui, que me ajudam a trocar uma corda, que me ajudam a trocar um plectro, e que vem a concertos e vivam, isso é um legado. Eu estou deixando uma sementinha que oficialmente não vale nada. Mas é uma coisa... Ah, e outra coisa, o Arthur da Távola, aprovou um projeto por telefone, durante 12 anos eu recebia quatro escolas da prefeitura, com 40 alunos cada uma e quatro professores. Vejam o número de alunos que já passaram por aqui. E isso é uma coisa que a gente vai deixando. Outro dia veio uma moça aqui, uma jovem. “Roberto, eu quando tinha 12 anos, eu assisti um concerto seu. E hoje eu vim aqui com a minha filha”. Então são coisas que a gente vai ouvindo. É um trabalho que vai aos pouquinhos.
P/2 - Roberto, quando você começou a se vestir assim, à caráter?
R - Olha, há muito tempo eu pretendia fazer isso, já com o meu conjunto. Mas o preconceito e a... eles não aceitavam isso. Eles achavam que seria uma extravagância, uma coisa fora de propósito. Tanto que uma vez, eu recebi uns galardões, uns casacos bonitos. Eles chegavam a usar aquilo, mas se recusavam a fazer a calça. Usavam aquela coisa antiga com calça de rua. Então era uma resistência muito grande, mas eu sempre quis. Eu sempre achei que se a música é extremamente decorada, o instrumento é decorado, o ambiente é decorado, por que eu vou tocar de blusa preta ou de terno? Não faz sentido. Tem que haver uma continuação. Então, eu faço parte disso aqui. Não é só maneira de tocar de roupa antiga, que hoje em dia já me repulsa a ideia de tocar de terno.
P/1 - Roberto, posso te pedir para tocar alguma coisa que seja muito significativa para você. Explicar um pouquinho para a gente? Posso pedir isso?
R - Olha, tocar, eu precisaria ter, o que eu faço sempre que vou tocar, uma meia hora de aquecimento, porque a mão tende a endurecer, então ela precisa. Eu faço meia hora de aquecimento antes. Então eu não sei o que eu poderia fazer assim de pronto. [interrupção] Bom, eu posso tocar aquela peça que eu sempre explico, do Conrad Paumann.
P/1 - Quer fazer um pouco de exercício assim com a mão?
R - Não, essa peça, inclusive, é boa para começar o programa porque ela é tranquila, ela não depende de movimentos técnicos muito complicados. Então, acho que dá para fazer. Agora, não sei se o cravo está afinado, que é outra coisa também. Eu levo, às vezes, 40 minutos para afinar o cravo, todo dia.
P/1 - Tem que afinar o cravo todo dia? Ele muda com a temperatura?
R - Ele, às vezes, fica instável quando o tempo está instável. Mas se aumenta e diminui, aí ele começa a sofrer.
P/1 - Tem cravo hoje no Brasil?
R - Tem. São Paulo tem dois fabricantes muito bons.
P/1 - Você não faz mais pra viver?
R - Não. Terminei a piscina, eu desativei. Doei as máquinas todas. Bom, vamos ao Conrad Paumann.
[Roberto toca]
P/1 - Por que é que você começa os concertos com ele?
R - Olha, primeiro porque é uma peça tranquila, que dá oportunidade para a mão vir aos poucos, aquecendo, né? E ela é bonita, né? É uma peça que é diferente. E é um repertório, assim, século... 15, né? Eu gosto dela. E ela é uma paráfrase de uma canção amorosa e o título em alemão, em português traduzido do alemão é “Com Todo o Querer”. Muy bién.
P/1 - Muito obrigada, Roberto. Você gostaria de dizer uma frase, alguma coisa para alguém que vai escutar a sua história de vida, alguma coisa que você acha importante e que você não disse até agora?
R - Bom, eu gosto dessas coisas que eu escrevi no livro, que eu acho frases interessantes. Por exemplo, com o avanço da tecnologia, a ciência, a parte científica do conhecimento está evoluindo de tal maneira que o homem gradativamente vai descartando a existência de Deus. Mas, Bach! A flor e o pavão interferem. Como é que a ciência explica certas coisas?
P/2 - É a sua religião?
R - Bach! Você sabe que ele me leva às lágrimas. Não precisa estar triste, não. Ele mexe com a gente.
[Parte 2]
Rio de Janeiro, 02/10/2024
Enntrevistadora Rosana Miziara (P/2)
P/2 - Roberto, eu fiquei pensando ontem, depois da sua entrevista, a gente sempre vai amadurecendo, né? Vai conhecendo, entrando em contato com um pouco da sua história, aí eu fiquei pensando, quais outras coisas que você fazia, sem ser a música, essa repetição da música na sua vida, que outras coisas, que outros lugares você gostava de apreciar, de fazer para além da música?
R - Olha, eu sempre fui muito curioso com a história, com paisagens novas que a gente não vê. Mas eu não me apegava muito a essas coisas, não. Eu tinha um fito principal, que era o meu artesanato e a música. E isso dependia de mim o mais possível. Um desempenho cada vez mais frequente e cada vez maior. Então, se a gente relaxa um pouco... É como eu dou o exemplo do jogador de futebol. Se ele não treinar todo dia, o que vai acontecer? Vai virar uma perna de pau, não é? Então, o jogador que chuta com o pé, tem que ter uma disciplina, ali ferrenha, o técnico está em cima, ele treina todo dia. Imagina uma coisa dessa que é de uma sutileza, de um intrincamento incrível, não é? Tem que ser o dobro da aplicação.
P/2 - Seu Roberto, ontem a gente não perguntou, mas se o senhor também não quiser responder, a gente sempre faz essa pergunta. O senhor teve algumas paixões, o senhor casou, como é que foi esse fato?
R - Não. Eu optei pelo celibato porque, se eu tivesse casado, eu acho que a família é uma coisa que necessita uma vocação extraordinária. Constituir família, ter mulher e ter filhos é uma coisa, assim, tanto quanto a música. Eu acho que a pessoa tem que se dedicar. E se dedicando a isso, ela vai se privar de muita coisa. Se eu tivesse filho, por exemplo, eu teria o meu museu? Claro que não. Eu não poderia me dedicar a esse artesanato. Eu tinha que estar pensando na criança, na escola, na educação, na saúde do pediatra. E eu não quis isso. Entendeu? Então eu optei pra ficar sempre assim.
P/2 - Roberto, na sua casa, na infância, quando você morava com os seus pais, existiam festas comemorava Natal, aniversário?
R - Ah, mas Natal era uma coisa sagrada. Minha família tinha no Natal um acontecimento muito especial. E todas as festas decorrentes, né, Natal, Ano Novo, aniversários, comemorações, a gente levava muito ao pé da letra. Minha mãe, então, era entusiasta dessas datas.
P/2 - Tem algum Natal que tenha te marcado? Algum Natal que você lembre em especial?
R - Todos os Natais eram festas inesquecíveis, cada um.
P/2 - O que tinha de comida?
R - As coisas tradicionais, o peru, a rabanada, as castanhas, nozes. Isso é tradição, tradição de família cristã, e que era levada muito a sério na minha casa.
P/2 - E se rezava, tinha um lado de reza?
R - Não, não era muito assim carola no sentido de rezar, não. Às vezes eu agradecia, cumprimentava todo mundo, desejava todos os bens, felicidade, mas não passava disso, não. Porque tem gente que tem que ir à igreja, né? Rezar. Mulheres que fazem novena. Minha mãe não tinha nada disso.
P/2 - E quem que cozinhava na sua casa?
R - Bom, a gente sempre teve empregada. Meu pai tinha uma boa produção, né? Era cirurgião famoso. E a gente... E as meninas do interior são muito, assim, empregatícias. Então, a gente sempre tinha uma empregada. As melhores, as menos boas. Arrumadeira. A gente tinha cozinheira, arrumadeira. E era sagrado isso.
P/2 - Quem que exercia autoridade na sua casa, seu pai ou sua mãe?
R - Minha mãe. Ela era uma sargenta. Dona Magdalena. Ninguém brincava com ela, não.
P/2 - E, afetuosamente, quem era mais seu pai ou sua mãe?
R - Bom, a minha mãe era possessiva. Então, essa possessão mascarou um pouco qualquer sentimento, né? Porque a obediência era a primeira coisa. O meu pai era um cirurgião, ele tinha sua vida, e a gente tinha um amor por ele, mas não era assim aquela coisa de companheirismo diário, né? Mas a gente respeitava ele muito, gostava muito dele. Mas a minha mãe era sargenta.
P/2 - E quem te incentivou mais à música?
R - Ninguém. Meu pai sempre dizia, “agora chega de música, você vai ser médico”. Era o que eu ouvia. “Chega de música”. Até a minha mãe, às vezes, implicava com o meu atiramento para a música. Ela achava que eu devia fazer outras coisas. Sabe como é.
P/2 - Você sentia raiva do seu pai porque ele falava para isso mesmo?
R - Não, imagina, não havia sentimento beligerante de jeito nenhum. A gente já era muito unido, a família era muito... Muito nos moldes.
P/2 - Você tinha primos?
R - Tinha.
P/2 - E como era a sua relação com eles?
R - O meu pai tinha vários irmãos e eles todos tinham filhos. Então eram priminhos que faziam parte da turma, de brincadeiras, daquela vida de criança, né? A gente tinha um círculo bem, não só dos primos, como dos amigos, dos amigos dos primos, e a gente tinha um grupinho bem interessante.
P/2 - E na juventude, você escutava música clássica, outros tipos de música?
R - Não. Eu sempre fui radical. Música é música. O resto é secundário. Segundo time, que eu dizia. Mas isso é claro, em tudo é isso. Na ciência, nas artes, na política. Tem sempre os baluartes, as pessoas secundárias e os adversários. Então, a música popular, a criança sempre gosta de brincar, cantar, mas não havia essa inimizade dos aficionados à música popular pela música que eu gostava. Não havia isso. Ao contrário, muitas vezes eles queriam ouvir, tinham curiosidade e tal. Mas isso era de menos, a criançada não se preocupava muito com isso. Com essa evangelização, né? E essa preocupação nasceu na idade maior. A gente, isso aí tinha escolas, né? Crianças interessadas. E é isso.
P/2 - Teve ou tem compositores da MPB que vêm aqui te procurar?
R - Para quê? O que eu vou poder contribuir? Eu não sou intérprete da música deles. Eles não têm nada a ver com isso aqui.
P/2 - No sentido de fazer alguma parceria?
R - Mas não tem como. Como é que você vai fazer parceria, tocando o que você toca, com música popular? A música popular, a não ser pela riqueza das ideias, é uma música muito pobre. Se você compara um compositor, inclusive os compositores populares aprendiam com os grandes mestres e respeitam o nome deles. Mas não tem nada a ver. Aquele compositor que escreveu a “Uma rosa é uma rosa, um cravo é um cravo”, o nome do parceiro do Tom Jobim.
P/2 - Vinícius de Moraes?
R - É, eles escreveram uma peça falando sobre isso. Mas, no fim, acaba “o cravo brigou com a rosa”. É o final. Engraçado, eu tenho a ideia de que eu sou uma pessoa vivendo fora do meu tempo. Porque, se eu fosse outro, estaria na cidade, morando no Jardim Botânico, no Leblon, Copacabana, vivendo essa vida social. Mas eu fugi, eu sou um fugitivo. Eu troquei meu apartamento no Leblon, que era super bacana, por um lugar que não tinha nem casa pra morar. Então eu sou um fugitivo do sistema e do...
P/2 - Qual é o nome das suas sobrinhas?
R - Cândida Helena e, tem a outra. A outra, a Candelina, é mais apegada a mim, a outra é mais afastada um pouco. O meu sobrinho… A Magda, é uma outra sobrinha, a mais velha de todas, e me dou bem com ela. Ela, bem ao contrário das outras, preza o meu lugar como um divulgador, um cultor da arte antiga, entendeu?
P/2 - Elas são filhas de quem?
R - Do meu irmão.
P/2 - As três? Seu irmão ainda vive?
R - Não, já é falecido. Ele era nascido em 1930. Ele era três anos e pouco mais novo que eu. O que matou ele foi o tabagismo. Ele fumava demais.
P/2 Como era a sua relação com ele?
R - Com quem?
P/2 - Com seu irmão.
R - É, nós éramos camaradas, entendeu? Às vezes um pouco rivais. Tinha ciúme da minha mãe, às vezes, um pouco.Mas, no fundo, no fundo, a gente se dava bem. A família era bem harmônica.
P/2 - Qual era a profissão dele?
R - O meu irmão, ele não quis fazer medicina como o meu pai tinha determinado. Ele foi pelo terreno filosófico, ele fez direito. Ele é advogado. Aliás, advogado não. Ele é professor. Professor de português e de línguas francês e línguas latinas. Ele trabalhou em faculdades. Engraçado que ele é muito famoso. Muita gente que vem aqui diz, “ah, me lembro do seu irmão. Todo mundo fala dele”. Ele era muito conhecido. E era um professor que procurava dar aula de português dentro de bibliotecas. Ele tinha uma dinâmica de ensino muito especial.
P/2 - Ele era seu companheiro de brincadeira na infância?
R - Era. Quando éramos bem novinhos. Depois ele se afastou um pouco. Claro que cada um tem seus... É um leque, né? de opções de vida.
P/2 - Você lembra de brincadeiras que você tinha com ele?
R - Ah, lembro. A gente inventava brincadeiras. Quando a gente ia dormir, entrava uma farra. Às vezes minha mãe tinha que intervir pra botar a gente pra dormir.
P/2 - O que vocês inventavam?
R - Ah, brincadeiras que a gente inventava na hora. E a criança, às vezes nem precisa inventar, ela já é brincalhona de natureza. A criança sadia, tudo para ela é brincadeira, tudo para ela é alegria. É difícil, a não ser uma criança maltratada, injustiçada pela família, abandonada, que se revolta. Mas nós éramos absolutamente tranquilos. Como eu já te falei, era uma família bem harmônica, bem organizada.
P/2 - Nas viagens que você fez, Roberto, conhecendo outros países, qual foi a que mais te marcou? Que país?
R - Olha, eu viajei muito pouco. Pelo que eu faço na vida, eu devia ser um viajante muito mais ativo, porque tudo que eu conheço vem de fora, né? A cultura toda, a música, a literatura, a história, né? Nós somos importadores da Europa, né? Então, eu deveria ter viajado mais. Mas eu estive na Inglaterra, estive na Alemanha, nos Estados Unidos, então, muito tempo, no Canadá, Eu não conheço a Itália, não conheço a França. É uma falha minha, falha mesmo. Então eu acho, eu tenho amigos franceses que me frequentam, inclusive uma menina que passa temporadas grandes aqui. E ela me conta tudo, a gente conversa muito, ela me traz reportagens dos acontecimentos, dos museus, e muita coisa relativa à música também. Ela não só é uma historiadora, como uma musicista. Marie [Farge], ela vem de Paris. Há muito tempo que ela não visita a gente. Ficou de vir esse ano agora, mas não deu mais sinal.
P/2 - Mas ela vem pra quê? Pra estudar com o senhor?
R - Não, pra passar comigo.
P/2 - Sua amiga?
R - É. Traz muitas gravações, traz as novidades que...
P/2 - Como você a conheceu? Como você conheceu a sua amiga?
R - Bom, a gente quando jovem, a gente tinha esse movimento de conjuntos. E essa atividade de música e de conjunto atraía muita gente. E ela, uma vez que veio a São Paulo, ela ouviu falar no nosso trabalho e veio pro Rio me conhecer. E aí ficamos amigos. Marie Farge. Ela é muito interessante. Ela me trouxe gravações maravilhosas. Ela me trouxe uma gravação de uma peça de Molière, “O burguês Fidalgo”, de um conjunto jovem de Paris, que faz questão de se apresentar tal como Molière se apresentava na corte. Então é um trabalho fantástico. E eles gravaram várias peças e ela me trouxe. É um intercâmbio, né? Tem um amigo inglês também.
P/2 - Quem é ele?
R - É o Gerard, ele já é falecido, mas tem um outro, o Guy Playfair, jornalista. Escreveu muita coisa sobre a história do conjunto. Quando ele esteve aqui no Rio, né? Morou aqui durante muito tempo. E agora está em Londres. Eu estive com ele quando fui à Inglaterra. É muito bom. Esses contatos, imperceptivelmente, atualizam o nosso conhecimento com o que está havendo, com o que houve, as coisas importantes da cultura. A gente sempre tem esse contato, essa discussão. Então é muito bom ter amigos estrangeiros. Tem um outro amigo também que mora nos Estados Unidos e que também gosta. Tem um cravo, ele também toca, mas não fui eu que construí, não. Inclusive, quando eu visitei ele há uns meses atrás, ele organizou um concerto meu pra sua roda de amigos. Então a mulher dele preparou um outrange e eu fiz um recital. Então é isso, a gente tem contatos, né? São muito produtivos.
P/2 - Roberto, quem que administrou sua carreira, começou a administrar sua carreira, combinar concertos, apresentação?
R - Olha, ninguém. Eu tive várias pessoas que se arvoraram e empresários meus, mas não era nada oficial assim. Eles tinham contatos, e esses contatos chegavam até mim, e então eu respondia, trabalhando, dando concertos. Mas eu não tive um empresário comercialmente falando, né? Todo pessoal que se dedica à música e faz profissão, são obrigados a ter um empresário, né? Porque ninguém pode trabalhar e ficar preocupado com agências, com grupos de viagem, turismo. Não, tem que ter alguém tomando conta. Mas no meu caso, as coisas vinham até mim. Eu não procurava porque o trabalho que a gente fazia era muito divulgado. Na época, os jornais tinham críticos musicais e era uma coisa incrível. Aquele álbum de recortes que eu te dei, tem lá num jornal falando sobre a variedade de Scarlatti. Imagina se um jornal hoje vai publicar um artigo enorme com a variedade de Scarlatti. Isso não existe mais. A cultura no jornal está muito pobre. Antigamente, não. Havia crítica de música, crítica de teatro. E eram catataus. Lembro perfeitamente. [interrupção]
P/2 - E com a questão financeira, como se administrava os pagamentos? Eram feitos diretos com você?
R - Eu me lembro uma vez que eu dei um concerto em São Paulo, tempo do Elias Vaz de Carvalho, diretor lá das atividades. Eu fiz um concerto que eu não podia nem sentar, porque o meu bolso estava cheio de dinheiro. Recebi o cachê no intervalo do concerto. A segunda parte eu toquei bem recheado. Então, são coisas que aconteciam, né? Em geral, o pessoal era bem honesto. Nunca fui vítima de especulação ou de picaretagem. Todo mundo era muito… solidário ao trabalho e respeitável.
P/2 - Você ganhou dinheiro com música, de guardar?
R - Não. O músico popular, por exemplo, o Safadão, quando dá um show, recebe milhões, né? E esses artistas têm jatinhos, têm uma vida de muito dinheiro. E o músico erudito nasceu para ser pobre, né? Quem faz música de qualidade, tá ferrado. Dizem que ser cravista no Brasil é ser suicida. Mas eu não dou bola porque eu faço o que eu gosto. Com toda vontade. Sou alimentado por aquela tesão de conhecer, de fazer, de difundir. Então é isso. E isso era reconhecido. Não só pela crítica da época, eu tenho milhões de recortes. Eu tenho, quando ganhei o prêmio Sharp, um jornal, deu uma página inteira sobre isso. Imagina quem é que vai se preocupar hoje que um cravista ganhou o prêmio Sharp. Isso nem é notícia. Então sim, é lá, uma página inteira.
P/2 - Tem ainda esse álbum?
R - Está naquele álbum. [interrupção] Quando nós fizemos a Missa em Si Menor, em Curitiba, houve outro comentário enorme no jornal. “O grupo que atinge a maturidade”. Então, quem é que hoje vai escrever sobre isso? Não é? A gente vive uma indigência.
P/2 - O senhor, se tivesse que mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, o senhor mudaria alguma coisa? Daqui pra frente ou...? Não, pensando no seu passado, se existia alguma coisa assim, ah, lá eu faria algo diferente?
R - Não, sabe o que acontece? Eu sempre fiz o que eu fiz, tive a repercussão do meu trabalho, mas eu não era muito consciente daquilo. Aquilo era espontâneo, entendeu? Eu, se fosse agora, eu ia tomar conta, ia catalogar a minha atividade, ver os conselhos que eu fiz, eu ia me organizar, coisa que eu nunca me interessei em organização. Eu era, assim, o que a gente pode dizer na linguagem “Um porra louca”. Eu fazia porque gostava e acabou. Uma vez um pavão entrou aqui no concerto, durante o concerto, começou a passear pelo corredor. Ainda bem que não gritou, senão... Eles dão cada grito, assim que a gente ouve longe. Outro dia, um camarada do posto de gasolina e disse, “escuta, você tem uns gatos lá que miam muito alto, não é?”. Eles não são gatos, não.
P/2 - O senhor que quis ter, como foi essa escolha de ter um pavão?
R - Olha, quem é que não gosta de ter um pavão? O Ronaldo já tem encomendas de muita gente querendo saber se vai ter filhote. Inclusive ele já ofereceu um filhote para um vizinho aqui e o pavão está lá bonitão. Então é isso. Todo mundo quer e gosta. Eu gostaria de ter mais, uma variedade maior de aves. Mas dá muito trabalho. O tratamento, a alimentação, os veterinários, as rações balanceadas. Porque se ficar tratando assim, eles morrem. Tem que ter muito cuidado. O pavão tem que ficar um ano afastado da terra, presos em gaiolas altas de tela, só depois de um ano é que a gente pode botar ele no chão. Porque o chão transmite, por causa da galinha, uma bactéria que ataca os pavões. Muita gente não sabe disso, cria um pavãozinho, daqui a pouco ele morre. São frágeis, né?
P/2 - Com quem o senhor aprendeu a tratar assim? Por exemplo, pavão...
R - Não, com ninguém a gente tem o bicho. A gente vai sabendo de coisas, né? Gente que entende, que vêm visitar e fala. Às vezes a gente lê também, mas não foi uma coisa determinante. Foi um acessório. Eu gostaria de ter uma vaquinha, por exemplo. Uma cabrita. Mas é que esses bichos não podem ter jardim. Eles comem tudo.
P/2 - O senhor sempre gostou de bichos?
R - Ah, sempre. Eu sempre tive gato, sempre tive cachorro. Nunca deixei de ter um bichinho.
P/2 - Na sua casa de infância tinha bicho em casa?
R - Olha, minha mãe não gostava muito, porque toda dona de casa implica com bicho, fazem xixi nos cantos, fazem outras coisas, e o cuidado da dona de casa é redobrado. Ela não era muito fã não. Meu pai gostava mais. Eu tinha macacos, eu tive uma coruja, que era o xodó da gente aqui. Ela ficava aqui na cadeira e frequentava os concertos.
P/2 - Quanto tempo você teve essa coruja?
R - Ah, muito tempo. Chamava-se Morgana. Nome de bruxa.
P/2 - Você que deu o nome?
R - Depois tive outras também. Tive a Agripina. Elas tinham nomes. Até as minhas galinhas tinham nome. Nome de gente. Me lembro que uma enfermeira do hospital veio me dar um pega e disse “Roberto, eu soube que no seu sítio você tem uma galinha, uma galinha com o meu nome”. Eu disse, “olha, desculpa, não tive intenção nenhuma, mas porque quando eu dei o nome era um pintinho muito gracioso. Se virou galinha depois, a culpa não é minha”.
P/2 - Como que era o nome?
R - Nem lembro. Tinha uma infinidade. Todos eles batizados.
P/2 - E a coruja, de quem você comprou, a primeira, Morgana?
R - Quem?
P/2 - De quem você comprava as corujas, por exemplo?
R - Não, a coruja foi uma senhora que mora no interior que veio aqui e eu dei um filhote de um outro bichinho pra ela, um patinho ou um gansinho, não me lembro o que foi, e ela, em retribuição, me mandou um filhote de coruja. Era um pomponzinho todo branco. Depois ela ficou marrom. Era da raça Murucututu. Uma coruja marrom. Mas ela era muito querida. Ela viria, vivia aqui pelas casas. A gente fazia assim de longe, ela já abaixava a cabeça. Era pra gente coçar. A Morgana. Mas eu tive bichos incríveis. Eu tive uma ararazinha, uma jandaia, no viveiro. E o empregado que tratava dela, né? Um dia ela fugiu do viveiro, e em vez de ir embora, ela ficou procurando o caseiro pra ficar no ombro dele todo o tempo. E daí ela passou a frequentar o ombro de todo mundo da casa. Eu me lembro que a minha cozinheira, às vezes, chegava na porta da cozinha e fazia assim pra espantar a periquitinha da cabeça dela. E um dia ele, esse empregado, foi a Campo Grande, pegou a lotação aí. Não é que o danado do bicho foi atrás dele, entrou pela janela da lotação e foi no ombro dele até Campo Grande. E lá ele ficou preocupado, mas ele correu a feira e a ararazinha ia atrás dele, de barraco em barraco, foi um acontecimento lá. E aí ele pegou o ônibus, e ela pegou o ônibus com ele, voltou e chegou em casa. Isso foi uma história conhecida aqui. E o bicho sempre dá margem a muita história curiosa, né? O comportamento deles.
[comentário externo] R - Bom, esse ganso, olha, eu nem sei dele, eu não sei se já morreu, porque ele estava impossibilitado já de andar. Mas ele era meu companheiro, porque eles são muito apegados aos seus pares, né? E alguns deles morreram aí, e ele ficou sozinho. E ele, quando ficou sozinho, se apegou comigo. Onde eu vivia, ele ia atrás. Uma vez eu fui lá naquela construção atender uns operários, que eles queriam não sei o quê, e o ganso do meu lado, assim. Um deles avançou e chegou perto de mim. O ganso atacou ele. Não admitia que ninguém me cercasse. E tem uma gravação de uma peça de cravo que eu toco, em que eu passeio pelo sítio com o ganso atrás. Eu tenho essa gravação. [interrupção]
P/2 - Esse som dos bichos que tem aqui é como se fosse também uma sinfonia? Você não encara, assim, essa sensação dos sons que tem aqui?
R - Não. Sons da natureza, né? Eu tenho, assim, o Saracuras do Brejo, que tem um canto incrível. Ele canta em dueto sempre. Eles são perdidos por aí, não sei nem onde moram. Mas toda manhã, às 5, 4, 5, 6 horas da manhã, eles começam a cantar.
P/2 - Quem são?
R - O Saracuras do Brejo. Apareceram aí, eu nunca vi. E tem muito passarinho, vários tipos de aves, né? E de manhã eles cantam muito. Mas é típico, né? De quem mora, assim, um pouquinho afastado do movimento do homem. E aqui eu tenho muito barulho de pavão, de ganso, de passarinho.
P/2 - O Sérgio mora aqui? Também mora você ou todo o Sérgio?
R - Não. O Sérgio mora na cidade. Ele veio para ajudar. Ele é um colaborador nosso. Faz muita coisa tratando de assuntos do sítio junto à prefeitura, né? Negócio de IPTU, essas coisas. Inclusive nós estamos pagando duas vezes a mesma inscrição. Ele descobriu agora. Estamos pagando duas vezes. Além de ser um absurdo, ainda pagamos duas vezes. Mas ele está consertando isso tudo.
P/2 - E com o Ronaldo? O Ronaldo mora com você?
R - O Ronaldo mora aqui há 40 anos. Ele veio de Curitiba porque a mãe dele morreu. Ele não se dá com o irmão, que é uma pessoa completamente diferente dele. Ele tem parentes, mas ele veio pra cá, gostou, e ele assumiu um trabalho. Ele fez uma dupla comigo que nós constituímos uma empresa. Eu faço a parte musical, artística, tudo, museu, e ele toma conta de tudo. Empregado, compras, grama, tudo isso. Se não fosse o Ronaldo, eu estava perdido. Eu sou muito dependente dele, porque ele já morou num administrador de Curitiba, não é carioca, não.
P/2 - Você conheceu ele lá?
R - Conheci lá. Ele frequentava o nosso grupo.
P/2 - Por que aconteceu em Curitiba esse movimento? Por que teve esse chamado de Curitiba?
R - O negócio é o seguinte, Curitiba é um outro país. Está no Brasil, mas é um outro país, uma etnia polonesa, alemã e italiana. Então, um povo que gosta de música, um povo muito mais organizado. Tudo lá funciona. Tudo funciona. Não é como aqui, que às vezes a gente quer um papel, é uma odisseia que a gente conseguiu. Mas lá não, lá é tudo nos eixos. Por enquanto. Então, ele veio para cá, viu o meu trabalho e se encantou com isso. Ele estava em fim de carreira. Em vez de procurar um emprego, veio trabalhar comigo. Então, ele é o chefe aqui do sítio. E ele é super eficiente, viu? Qualquer coisa que eu precise, “Ronaldo”.Até um vício chamar o nome dele. Qualquer coisa que a gente precisa, sim. E ele é muito querido. Ele tem um círculo de amizades. Ele frequenta aí um grupinho fora daqui do sítio. E ele é queridíssimo. As pessoas ligam pra cá, falam dele. Ele largou Curitiba e fez a vida nova aqui no Rio de Janeiro. No princípio, ele estranhou muito, porque ele ia lá para o barzinho dele, de sapato, paletó, e o pessoal até criticava, porque aqui é sandália de dedo e short, né? A maioria do pessoal. E ele não, ele ia para o grupo como um gentleman. Agora não, ele está mais “carioquizado”. Mas é isso.
P/2 - Você sai, vai para o Leblon das suas sobrinhas?
R - Olha, eu era muito andarilho. Eu gostava de andar. Mas agora, ultimamente, eu já estou bem mais aposentado. Olha, eu odeio sair de casa. Eu digo, eu saio de casa para salvar uma alma. Assim mesmo, eu preciso fazer uma sindicância para ver se ela merece. Então é isso. Não gosto de sair. Outro dia eu estive fazendo um curso de metragem, cineasta, fazendo um curso de metragem chamado “ O Cravista”, sobre o meu trabalho. E houve um baile de época lá numa casa histórica que tem no Flamengo, de um colecionador de arte antiga, que é um palacete maravilhoso. Então, a filmagem foi feita lá. E eu fui chamado, porque eu tinha que entrar lá numa determinada cena. Mas, olha, cada vez que eu saio daqui tem duas surpresas: como está crescendo o Rio de Janeiro e como está ficando bonito de verde. Estão plantando muito verde. A barra está sendo uma coisa, né? A gente vai andando, o que a gente vê de árvores diferentes. Então, eu estou gostando de ver isso. Mas, ao mesmo tempo, estou assustado, porque a cidade da qual eu fugi está chegando perto de mim. Isso aqui tudo está se desenvolvendo incrivelmente. Cada vez que eu vou à Barra, tem um condomínio novo, um prédio novo. Eu me lembro quando eu comprei meu primeiro carro, um Corcelzinho, e eu me aventurava. Eu saía do Leblon, passava o túnel, chegava na Barra, via aquela estrada aberta e ia embora. Mas não tinha ninguém, a Barra era vazia. Uma ocasião, inclusive, houve uma reportagem sobre o meu trabalho, desse meu amigo inglês. Ele era jornalista que escrevia artigos para a sua revista. E ele escreveu a minha história, então ele fotografa aqui o meu ambiente. E houve uma fotografia nessa revista, uma coisa que era incrível. Ele fez uma fotografia do princípio da Barra para o fim. E era uma estrada que não tinha fim. E tinha um modelo posando nua no meio da estrada. Incrível. Nenhuma bicicleta, nenhuma pessoa. Não tinha nada. A ponto de uma modelo para o poder pousar nua no meio da estrada, que hoje a gente tem que tomar cuidado para atravessar. Não é incrível? Eu assisti a essa evolução. E um pouco com medo, né? Porque a cidade vai chegar aqui. Aí eu vou ter que ir para Timbuktu. Lugar bem enorme. Mas tem que levar tanta coisa, tem que levar todas as minhas árvores, tem que levar meus bichos. Vai ser um problema. Tem uma novela na Globo que o Ronaldo está vendo. Eu não sou muito noveleiro, não, mas eu assisto, às vezes, alguns capítulos. Uma produção fantástica. A história de uns modelos, uma que ficou paraplégica, enfim dramalhões. Mas eles filmaram um desfile, sabe aonde? Em Petra. Armaram um cenário com aquele fundo de pedra, com passarelas enormes. A Ana Botafogo dançou. Depois o desfile aconteceu. Mas os desfiles eram, meu Deus, que se entrecruzavam naquele cenário. Olha, uma produção digna de Hollywood. Então, às vezes, a gente gosta de ver isso. Como a televisão às vezes faz uns gols.
P/2 - O senhor assistia filme? Assiste ou assistia?
R - É claro, sempre gostei de cinema.
P/2 - Desde quando você começou a gostar de cinema?
R - Ah, desde criança. Tinha matinê, a garotada toda ia. Era uma gritaria. A gente olhava pra cima o que tinha de molecada pelas galerias do cinema. E quando havia brigas, era uma gritaria que a gente ficava surdo.
P/2 - Durante a sessão? Essa gritaria era durante o filme?
R - Não, quando havia brigas.
P/2 - Que cinema que o senhor ia quando era pequeno?
R - Bom, só tinha um cinema lá em Bariri. Aliás, era um cinema muito bem montado. Grande. E ainda havia projetores do cinema mudo, guardados lá em cima. E tinha um piano de cauda, assim, tinha um palco, o cinema, a tela, aí um palco atrás e um piano de cauda encostado assim. Piano de cauda desse. Armário, né? Era para aqueles pianistas que tocavam durante o filme mudo. Eu não peguei isso, mas peguei os vestígios. Essa história do cinema. Interessante. E os discos que eles usavam nos projetores eram discos de 16 polegadas. Eram imensos. O disco manual tem 12, né? 12 polegadas, o long play, o vinil. Esse tinha 16 polegadas. E era o disco que era acoplado ao projetor para o cinema, os albores do cinema falado. E era muito engraçado, porque às vezes o disco enguiçava e ficava... aquela coisa, repetição, e os atores estavam fazendo outra coisa. Era muito engraçado.
P/2 - E aqui no Rio de Janeiro, que cinemas que o senhor via?
R - Ah, no meu tempo de estudante, eu ia muito ao... A Cinelândia era uma coisa, tinha cinema em tudo que é canto. Daí o nome Cinelândia, tinha o Plaza, Vitória, enfim... 500 mil cinemas. E a gente ia lá. Eu vi, me lembro, A premiere da Branca de Neve, da Walt Disney, com a minha mãe, me levou ao cinema Odeon para ver esse filme. Eu fiquei impressionadíssimo. Era guri. Foi em 30 e... 37, né? Por aí, 37, 38. Vi Pinóquio também, do Cinema Vitória, já era uma outra técnica, o cinema estava mais avançado. E, quando passou, "E o vento levou" foi um acontecimento na Cinelândia. O filme durava quatro horas. Era uma coisa impressionante. E eu me lembro que eu fui assistir. No lançamento, hein? "E o vento levou". Gostava de cinema.
P/2 - E continua assistindo durante a vida filmes? Olha, hoje em dia a gente vê pela televisão, né?
R - Então a gente compra o DVD. Comprava, que não existe mais. E eu tenho uma galeria de filmes imensa de gravações. Eu tenho em vinil "E o vento levou", gravado em vinil. E tem um outro filme, que é o making of do Vento Levou. Toda a produção do filme, desde a Margaret Mitchell, o romance dela. Então você vê no filme uma cidadezinha todo mundo da cidade quer esteja sentado em uma praça, quer esteja andando, quer esteja na condução, todo mundo lendo "E o vento levou". É um romance que fez um furor, não é? E as expectativas da estreia... Então, as viandas perguntam, quem será a Scarlett O´Hara? Quem será o Rhett Buttler Buster? Então, eu assisti tudo isso. O making of de E Vento Levou. E tem um vinil grandão com o making of dele. Então, eu acompanhei o cinema. Em 1939 foi o ano áureo do cinema. Filmes importantíssimos lançados nesse ano. E tinha as fofocas das atrizes, as histórias de Hollywood.
P/2 - Que fofocas o senhor lembra?
R - Ah, casamentos de estrelas, rompimentos de casais, é tipo de disse-me-disse. Mas era tudo publicado. Tinha revista de cinema, né? Tinha “A Cena Muda”. A Cena Muda, o nome da revista. Era tão antiga que ainda fazia alusão ao cinema não falado, né? A Cena Muda. E era uma revista que todo mundo via. Trazia tudo. Foi Um tempo bonito.
P/2 - Que outro filme assim tenha te marcado, teve “E o vento levou” e outros?
R - Bom... Tinha uns dramalhões, né, que todo mundo chorava no cinema. Akim Tamiroff fez um filme, assim, muito chamado “Seu Único Pecado”. Era um dramalhão dos mais lancinantes possíveis. E a gente frequentava, meus amigos, todo mundo ia ao cinema. E muitas vezes virava um assunto, né?
P/2 - E os discos das trilhas sonoras?
R - Não me interessava muito, não. Não havia. Eles não comercializavam. Os vinis eram sinfonias, música erudita, óperas, mas não havia filmes, discos sobre os filmes. Tenho esse, que é a fatura de uma legenda, que é o making of do “E o vento levou”, de vinis grandes com a história do “E o vento levou”. Engraçado que a Scarlett O'Hara não era inglesa, não era americana, desculpe. Ela era nascida na Inglaterra, mas tinha uma ascendência, eu não me lembro. E não era uma pessoa assim popular, mas ela marcou. O teste que ela fez, que foi fundamental. E quantas estrelas fizeram testes para Scarlett O'Hara? Eu tenho isso tudo em filme. A Bette Davis, a Greta Garbo, todas fizeram testes para Scarlett. Incrível, não é? A estreia do “E o vento levou” nos Estados Unidos foi uma surpresa. Havia uma cidade onde havia um cinema e tinha uma sessão de dia, uma matinê. Então houve um aviso. “Vocês vão assistir esse filme, mas ninguém vai poder sair do cinema”. E o pessoal foi assistir o filme e depois do filme, sem ninguém esperar, Pão glaçado, passaram “E o vento levou”. Foi um Deus os acusa. Engraçado isso, né? Essas histórias a gente sabia tudo, porque era muito noticiado. Hoje a gente compra séries, compra filmes gravados. Eu tenho uma série gravada, uma série de origem alemã. Sabe qual é o assunto? A vida de Bach. Ele é o principal personagem dessa série. Então conta tudo, como é que ele ficou cego, o fim da vida dele. Um filme muito impressionante, com muita música, uma série alemã. Foi prensado e vendido aqui. Eu tenho ele aí.
P/2 - Você achou ela bem feita, você que é um conhecedor de Bach, você achou que a série, essa série alemã, vou até assistir, ela dá conta de contar essa história?
R - Olha, ela é bem dramática, viu? Os atores muito bons. Tem cenas incríveis do Rei Frederico da Prússia, aquela visita que ele forçou Bach a fazer, e ele pediu que Bach improvisava um tema, uma fuga a seis vozes. Coisa impossível de fazer, né? Então, Bach não improvisou, improvisou a três vozes. E depois ele mandou para o rei uma peça que até hoje o rei deve estar dando voltas no caixão para poder entender, chamada “Oferenda Musical”, onde ele pega o tema que o rei deu a ele, fez uma fuga a seis vozes e um conjunto de peças complicadíssimas, usando o máximo da técnica do contraponto em música. É um presente de grego, porque o rei nunca deve ter saboreado isso. A oferenda... Como é que é? A oferenda Musical, "Das musikalische Opfer”. É música para quem é maluco. Esses jovens assim que... Então, meio na estratosfera, meio em outro planeta e meio aqui, é o tipo de gente que gosta disso. Aliás, falando nisso, eu vou desencavar esse filme para a gente passar aqui no cinema. É interessante porque nunca mais ninguém falou sobre ele. E é importante, né? Eu costumo fazer esses sonhos de cinema aqui. Por exemplo, na Semana Santa, todo ano, eu projeto “A Paixão Segundo São Mateus", que tem legendas em português. No Natal, eu projeto “O Oratório do Natal”, também com legendas. E um dia eu vou passar este filme, “A Vida de Bach”, vai ser um chamariz. E sempre vem gente, sabe? Não cobro nada. Entrada franca. Tem um barzinho pros intervalos, mas é bem concorrido. Chama-se “Cine Lanterna Mágica”, nosso cinema.
P/2 - Essa ideia de receber e fazer concerto e ter a refeição, ou do cinema que o senhor falou agora, é a ideia do senhor, o senhor que cria esses movimentos?
R - Porque eu comprei esse projetor, achei maravilhoso, é uma projeção muito boa. E eu falei, “vamos lá, né?”. E aí eu anunciei. O primeiro foi o “Oratório do Natal". Eu me lembro que era assim, alternando com o público que veio, porque quando tinha os textos em português, dos corais, porque Bach usava muito o coral alemão, né? Era a música que todo mundo podia cantar, eram os hinos tradicionais compilados por Lutero. E Bach usa muito esses hinos na sua obra. Então, quando havia esses hinos, eu chamava uma pessoa para ler o texto e todo mundo acompanhava. Era muito legal. E eu com uma ideia de, o ano que vem, fazer um ciclo dos cinco anos que Bach, na Igreja de São Tomás, em Leipzig. Em 1723, ele entrou para essa igreja como músico e escrevia uma cantata para cada domingo. Ele chegou a escrever 200 cantatas. E eu estou com vontade de ano que vem fazer uma série, todos os domingos a gente faz as cantatas com o povo acompanhando, lendo o texto, fazendo uma análise da obra e ouvindo a obra. Já tem gente inscrita.
02:37:21
P/2 - Já teve patrocínio aqui, ou vocês buscaram para esse espaço cultural?
R - Nenhum. Houve, assim, por exemplo, circuitos de concertos nas igrejas. Não tinha nada a ver com a capela, mas eu fui convidado. Dei consenso em “N” igrejas por aí. Desde lá na cidade até Santa Cruz e tal. Foi patrocinado pela Coca-Cola, mas aqui nunca foi patrocinado.
P/2 - É, olhando aqui a capela eu lembrei, que ontem a gente falou, quem chamou de capela Sistina Tupiniquim?
R - Foi um amigo meu. Ele chegou aqui, ele olhou, olhou e disse, “Roberto, isso aqui é a Sistina Tupiniquim”. Achei muito engraçado.
P/2 - Por que você escolheu essas figuras?
R - Tudo que me caía na mão, eu fui compondo. Aquele painel foi o primeiro que eu pintei. Depois eu pintei esse aqui. Aí esses valiosos ficaram vazios, né? Aí eu fui fazendo essa, pintei meus pais, depois eu fiz aquela, e depois fiz o teto.
P/2 - O que está escrito aqui?
R - É o Te Deum. Te Deum, Laudamus, Te Dominum, Confitemur. Aqui, os serafins, os querubins, incessavelmente chama “Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos Exércitos, Deus Salvador. Os céus e terras estão cheios de vossa glória”. Aí termina aqui, não tem mais porta pra continuar o texto.
P/2 - Aqueles dois lá?
R - Aquela primeira, são essas quatro portas.
P/2 - E todas repetem?
R - Não, é um tema muito longo, o Te Deum, é uma cerimônia demorada. O texto é longo.
P/2 - Você lembra mais partes dele? Tem mais partes dele?
R - Tem, tem ele completo aí, mas não deu pra terminar. E eu usei a letra mais como decorativo, decoração, sabe? Porque a letra é bem decorativa, né? Em vez de fazer caretinhas ou bichinhos, eu escrevi um texto, que é uma cerimônia importantíssima na igreja, né? O Te Deum era celebrado quando vinham visitas oficiais. É uma coisa histórica mesmo, de grande importância.
P/2 - Seu Roberto, qual foi o primeiro título do senhor? O senhor lembra que o senhor recebeu?
R - Não. Não sei. Pode ser que tenha havido qualquer homenagem, mas foi tanta história, tanta, tanta, que eu me perco. Eu não tenho lembrança de tudo, entendeu? E como eu sempre fui muito desorganizado, eu não registrei qualquer coisa que tivesse uma importância.
P/2 - Essa homenagem que o senhor vai receber agora na Academia Brasileira de Artes, como foi feito o contato com o senhor?
R - Não. A presidenta, a presidente, veio assistir um concerto e me conheceu. Conheceu o meu trabalho, ela acompanhou e tal. Então, ela resolveu presentear com essa matrícula como membro honoris causa da academia. Eu não esperava isso. E vai haver uma cerimônia que eu nem sei como é que vai ser. Sei que tem umas exigências, que o pessoal tem que ir de terno preto. E o Ronaldo tá preocupado que ele vai ter que comprar um terno preto pra não usar. Vc aluga ué, né? E eu botei aquele fardão, com aquela comenda, que custou uma nota. E a gente que tem que pagar. Quer dizer, um presente meio de grego.
P/2 - E o senhor que pagou?
R - Você tem que contribuir, porque é uma comenda que leva ouro mesmo, grande assim.
P/2 - Como na Academia Brasileira de Letras.
R - Bom, mas eles lá têm um fardão bordado, né? Na Academia Brasileira de Letras, eu não conheço ninguém.
P/2 - E a sua relação com livros? O senhor lê, lia? A literatura, ela teve presente na sua vida? É presente?
R - Claro que a gente lia, né? Claro. Mas não era assim uma tradição contínua. Um livro ou outro que caía nas mãos, ou era comentado, a gente lia.
P/2 - Que livro que marcou o senhor?
R - Ora, foi há tanto tempo. Porque o meu avô tinha tal livraria, né? E o meu pai me trazia, de vez em quando, uns volumes pra me dar de presente, porque ele apanhava na livraria do pai. Então, nesse meio tempo, deve ter me trazido algum romance, algum livro famoso, né?
P/2 - O “Memórias do Sargento de Milícias”, você leu?
R - Olha, eu peguei esse livro, comecei a ler, mas não terminei, porque eu tive que... concerto fora. E sempre que eu estou fazendo alguma coisa, eu sempre tenho uma sagrada, sagrados motivos para interromper. Mas ele está no meu... Está a tiracolo.
P/2 - Quando foi a ideia que você teve de escrever o seu livro?
R - Olha, desde que eu me entendo com gente, todo mundo buzinava no meu ouvido. “Roberto, você tem que escrever um livro, você tem que fazer sua biografia”. E eu achava isso uma ideia absurda. Primeiro porque eu não me achava merecedor de ter uma biografia. Eu disse, “não, para gente consagrada, artistas famosos. Escrever o quê?”. Então, mas olha, a insistência era tanta que um dia eu falei, “tá bem, eu vou escrever”. Comecei a rabiscar, fui escrevendo, tomei gosto, e quando vi, o livro estava pronto. São coisas, né? E já me pediram o segundo volume.
02:47:48
P/2 - Quando o livro ficou pronto?
R - Olha, como eu te falei, eu não sou organizado. Ficou pronto há um ano e pouco, ou dois anos, uma coisa assim, no máximo.
P/2 - Quanto tempo você demorou para escrever?
R - Olha, também não faço muita ideia, não. Mas não foi um tempo demorado, não. Foi mais ou menos rápido. Menos de um ano. Aí eu tive problemas. Tem que achar um corretor, tem uma pessoa que faça uma revisão. Tentei vários corretores e revisores, mas nenhum funcionou direito. Até que apareceu um que realmente pegou, escreveu um prefácio e fez uma revisão e uma correção toda. Aí ele foi para o ______. Agora nós estamos querendo uma segunda edição.
P/2 - A primeira está esgotada?
R - Tá esgotado.
P/2 - Se a gente quiser comprar não dá?
R - Não tem. Mas eu vou ver esse arranjo aí. [interrupção] A TV Senado me procurou e me disse que ela poderia estar interessada em fazer a segunda edição.
P/2 - É, eles têm uma gráfica lá. [interrupção externa]
R - Olha, a variedade de músicos de Scarlatti não tem fim. Ele às vezes é lírico, é romântico, é heróico, é humorístico. Então, varia muito, sabe? São peças curtas, onde ele faz... Vou ver se eu me lembro de uma. [Ele toca cravo]. Eu tô com a mão fria.
02:51:09 [música]
R - É nesse tipo de música. Umas muito mais difíceis, que é a gente sua, tem umas românticas, tem muita coisa. Tem uma que eu chamei de tempo de baile. [Ele toca]. Está falhando nota aqui embaixo. São coisas. [toca]
R - Eu me lembro dessas duas. São 550, não é?
[Voz não identificada] - Lindas.
R - Há um cravista chamado… Não me lembro o nome dele agora. Ele gravava todas as 550. E na casa onde ele gravou, a cidade colocou uma placa. “Aqui foram gravadas as 550 sonatas por fulano de tal, no ano tal”. Então tá tudo gravado. 550, já pensou?
O senhor Cravo está ficando cada vez pior. Agora começou a falhar a nota aqui em cima.
[Voz não identificada] Obrigada por tocar para nós, seu Roberto.
R - Três sonatas Scarlatti. Faltam 557.
P/2 - Sr. Roberto, queria agradecer aos senhores que a gente acaba assim...
R - Olha, eu sinto não poder fazer melhor, mas...
P/2 - Fazer melhor o quê, Sr. Roberto?
R - Não, fazer melhor, oferecer mais coisas interessantes.
P/2 - Mais interessantes do que você já está oferecendo?
R - Como vocês acham? Eu tenho minhas dúvidas. Porque são coisas de rotina.
P/2 - O que o senhor acha de estar contando a sua história de vida para fazer parte de um lugar que se chama Museu da Pessoa?
R - Bom, eu acho que é interessante, porque amanhã ou depois, tudo que eu estou fazendo vai ser esquecido, né? E se há algum registro, pelo menos ela vai ter um alcance maior. Eu acho muito bom isso, não é verdade? Muitas pessoas que não me conhecem vão passar a me conhecer. Mas eu quero sempre dizer, as minhas portas estão abertas para as pessoas que querem beliscar um pouquinho das coisas que a gente vem garimpando há tanto tempo, né? Que a gente quer compartilhar.
[ Fim da entrevista]
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