Qual é o seu nome?
Rita Gonçalves.
Onde é que nasceu?
Em Mirandela.
Em que ano?
85. 28 de julho de 85.
E os seus pais, como é que se chamam?
Paula Martinho e Moisés Gonçalves.
E o que é que os seus pais fazem ou faziam?
O meu pai era bancário, a minha mãe teve uma papelaria, livraria durante muitos anos, e agora é artesã.
Aqui?
Sim, aqui.
Continuam a exercer?
A minha mãe agora é artesã e o meu pai está reformado.
Está ainda a exercer a sua arte.
Vamos falar um bocadinho da infância, lembra-se da casa onde passou a infância?
Era uma casa antiga, centenária, daqui de Vila Flor. Grande…
Tinha um quarto só para si? Tinha irmãos?
Dormia com a minha mãe, mas tinha um quarto só para mim.
E ela contava-lhe histórias?
Sim, sim. E lia muito para mim, também.
Que tipo de livros, lembra-se?
Infantis, na altura. Mas eu sempre li muito, fui criada no meio de livros. Sempre li muito.
E contava-lhe histórias da família, da terra?
Os meus avós, sim. Isso era mais os meus avós, histórias daqui.
Ai era?
Sim.
Lembra-se de alguma?
Sei lá… dos lobos que havia na serra, que as meninas não podiam ir para lá sozinhas. Coisas do género, só para meter medo.
A sua família tinha algum costume em particular, alguma tradição? Juntavam-se…
Sim, nas festas, ou para fazer enchidos, para fazer folares.
E com que regularidade?
Duas, três vezes por ano.
E era um convívio de família? Depois vendiam, ou…
Não, era só família e vizinhos.
Tinha muitos primos?
Sim, alguns, mas nunca fomos muito próximos.
E o que é que se lembra desses momentos?
Tentavam que eu fizesse as funções das mulheres [risos]. Mas como eu sempre fui maria-rapaz, não gostava disso.
E até que idade se lembra desses ajuntamentos?
Aí até aos 12 anos, por aí. 8 a 12, mais ou menos.
E então quais eram as tarefas de mulher que lhe atribuíam e que não queria fazer? [risos]
Quase todas, eu só queria jogar futebol e andar de bicicleta.
E o que era suposto fazer, então?
Era...
Continuar leituraQual é o seu nome?
Rita Gonçalves.
Onde é que nasceu?
Em Mirandela.
Em que ano?
85. 28 de julho de 85.
E os seus pais, como é que se chamam?
Paula Martinho e Moisés Gonçalves.
E o que é que os seus pais fazem ou faziam?
O meu pai era bancário, a minha mãe teve uma papelaria, livraria durante muitos anos, e agora é artesã.
Aqui?
Sim, aqui.
Continuam a exercer?
A minha mãe agora é artesã e o meu pai está reformado.
Está ainda a exercer a sua arte.
Vamos falar um bocadinho da infância, lembra-se da casa onde passou a infância?
Era uma casa antiga, centenária, daqui de Vila Flor. Grande…
Tinha um quarto só para si? Tinha irmãos?
Dormia com a minha mãe, mas tinha um quarto só para mim.
E ela contava-lhe histórias?
Sim, sim. E lia muito para mim, também.
Que tipo de livros, lembra-se?
Infantis, na altura. Mas eu sempre li muito, fui criada no meio de livros. Sempre li muito.
E contava-lhe histórias da família, da terra?
Os meus avós, sim. Isso era mais os meus avós, histórias daqui.
Ai era?
Sim.
Lembra-se de alguma?
Sei lá… dos lobos que havia na serra, que as meninas não podiam ir para lá sozinhas. Coisas do género, só para meter medo.
A sua família tinha algum costume em particular, alguma tradição? Juntavam-se…
Sim, nas festas, ou para fazer enchidos, para fazer folares.
E com que regularidade?
Duas, três vezes por ano.
E era um convívio de família? Depois vendiam, ou…
Não, era só família e vizinhos.
Tinha muitos primos?
Sim, alguns, mas nunca fomos muito próximos.
E o que é que se lembra desses momentos?
Tentavam que eu fizesse as funções das mulheres [risos]. Mas como eu sempre fui maria-rapaz, não gostava disso.
E até que idade se lembra desses ajuntamentos?
Aí até aos 12 anos, por aí. 8 a 12, mais ou menos.
E então quais eram as tarefas de mulher que lhe atribuíam e que não queria fazer? [risos]
Quase todas, eu só queria jogar futebol e andar de bicicleta.
E o que era suposto fazer, então?
Era ajudar a mãe a fazer os bolinhos ao domingo, ou ao sábado. Ou a avó com os enchidos, e assim, para aprender, que era a função das meninas.
Só das meninas?
Claro. Os senhores estavam a beber o seu copinho, sossegados.
Não era preciso matar um animal?.. [risos]
Não, não. Isso por acaso não fazíamos.
E levava algum raspanete por não fazer as coisas?
Claro [risos].
[risos]
Constantemente, porque as meninas não eram para jogar à bola, essas coisas.
Sim. E havia outras primas da sua idade, na altura, nesses convívios?
Sim, era mais principalmente uma vizinha minha, com idade muito próxima.
E ela juntava-se às outras mulheres ou brincava consigo?
Um meio-meio. Eu sempre fui mais maria-rapaz que ela, mas íamos dividindo as tarefas.
Irmãos, tem?
Não, não.
Como é que foi crescer como filha única? Pensava nisso, na altura?
Pois, para mim era o normal. Mas não, sempre fui muito sozinha também com as leituras, era um bocadinho diferente. Sempre tive muitos vizinhos, na altura, a minha rua tinha algumas pessoas da minha idade, então, éramos quase como irmãos, só que no fim do dia cada um ia para sua casa.
Convivia, então, com outras crianças.
Sim, sim.
Os seus pais de onde é que são?
A minha mãe é daqui, o meu pai é de uma aldeia de Bragança.
Sabe quando é que ele se mudou para cá?
Não sei muito bem, porque sou filha de mãe solteira, então há coisas da história que eu não sei muito bem.
Então não é muito próxima do seu pai.
Não, não.
Muito bem… Então, já falamos da casa e da vizinhança. O que é que fazia?
Aqui era brincadeiras de miúdos, de berlindes, jogávamos ao elástico… futebol, bicicleta.
E onde é que jogava futebol?
Ali no mercado municipal, que era o espaço que era mais resguardado para nós. E também no meio da rua, não tínhamos grande problema. Agora é que há problemas com isso, na altura não havia.
Disse-me que gostava muito de ler já desde criança.
Hum, hum.
Lembra-se quando é que iniciou o gosto pela leitura?
Eu sempre cresci no meio de livros, portanto, não tenho bem noção…
Da parte da sua mãe? Ou dos avós?
De ambas as partes, mas mais da minha mãe por causa da livraria, porque antes de ela ter a dela, já trabalhava numa. Então eu fui sempre habituada a estar com livros.
Que tipo de livros é que lia quando era criança?
Um bocadinho de tudo. Comecei a ler alguns fora da minha idade. Por exemplo, eu li os Mais para aí com 12 anos, 13.
OK. Antecipou-se [risos].
[Risos] Custou-me mais a ler quando tive que o estudar.
E como é que correu a escola?
Bem.
Sim?
Sim, bastante bem, até.
Fez o pré-escolar?
Fiz, fui para o infantário, pré-escolar. O normal, depois primária aos 6 anos. Fiz aqui até ao 12º e depois fui para Coimbra, 4 anos.
Lembra-se de alguma coisa do 1º ciclo, 2º ciclo? Se gostava, se não gostava?
Sempre gostei, sempre gostei. Sempre me meti em muita coisa, também.
Em quê?
Ser maria-rapaz, dava confusão.
Ah.
Mas sempre me portei bem na escola, sempre fui muito distraída, mas sempre fui boa aluna.
Então, confusão era disso, de ser distraída?
Não, era nos intervalos.
Ah, OK. Com os coleguinhas?
Sim, aí sim. Ainda tive a minha parte de bullying, de o sofrer e de o fazer.
Oh.
Agora chama-se bullying, atenção, na altura não era.
Mas há algum episódio que a tenha marcado, dessa fase?
Não… assim nada de especial.
E teve algum professor ou professora que a tenha marcado?
Alguns, sim. A professora Manuela, de português… a professora Cristina, de filosofia. E, depois, na faculdade, mais duas ou três.
OK.
Na altura, História Medieval, por exemplo.
Como é que ia para a escola?
A pé.
Ia sozinha?
Ia, ia. A correr [risos], sempre atrasada.
Era pertinho…
É. Um quilómetro, talvez nem tanto. Sempre a descer.
Voltando aqui aos professores que a marcaram, português e filosofia, terá a ver com o seu gosto pela leitura? Eram as pessoas em si?
Também, sim. Mas também pela leitura, principalmente a de português, sim. Mas as próprias pessoas em si, por acaso, Aliás, ainda hoje me dou bem com uma, principalmente, que está cá.
E tinha boas notas? Era empenhada?
Sim, sempre tive. Nunca fui muito empenhada, mas sempre tive boas notas.
Sei que foi para a faculdade. Que curso e onde?
História, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Hum, hum.
A vertente de investigação.
Que era o curso que sempre quis fazer.
Era? Porquê?
Não sei muito bem, lá está, se calhar também por causa disso, eu sempre passei muito tempo aqui no museu e muita leitura, também. Sempre foi entre Arqueologia ou História. Depois foi uma questão de optar.
Então, quando é que passou muito tempo no Museu? Vamos aqui recuar um pouco.
Nas férias, principalmente, ou nos sábados à tarde. Ou ia para os escuteiros, ou estava enfiada no Museu.
E o que é que fazia no Museu?
Também lia, porque eles tinham ali uma mini-biblioteca, antes de abrir aqui a biblioteca, e estava lá com o senhor à conversa sobre as peças que lá estavam. Sempre gostei muito de coisas antigas, velharias…
De onde é que isso vem, sabe?
Não… mas lembro-me disso. A verdade é que acho que queria seguir história para aí desde o 6º ano, ou 7º, portanto.
Ah, então soube cedo.
Sim, acho que sim. Não me serviu de muito, deu para o desemprego na mesma, mas sim.
Sempre soube que era para investigação?
Sim. Era rato de biblioteca.
Não era para dar aulas?
Não. Se calhar também um bocado por causa do Indiana Jones e aquelas aventuras de arqueologia.
Gostava de cinema?
Sim, de alguns filmes, alguns géneros.
Mas esses marcaram-na?
Talvez, porque na altura estavam muito na moda. Se calhar pode ter ajudado um bocado [risos]. Pensar que a arqueologia eram aquelas aventuras [risos].
Foi uma confluência de coisas, não é?
Acho que sim.
Como é que foi a transição para o secundário? A escola era perto, não era?
Bem, aqui é tudo perto. Mas sim, essa custou um bocadinho mais, porque já era muito maior, já com alunos muito mais velhos. Fiz o quinto ano numa escola e depois passei para a secundária no sétimo. Quando houve a transição, foi no sexto.
Ah, passou no sexto.
Passamos todos para a mesma, para a secundária. E aí sim, passas de, sei lá, 100 alunos, 150, para 600, 700.
Era uma escola muito grande.
Era, na altura, sim. Agora tem 200 e tal.
Sempre quis então ir para o ensino superior, não foi uma coisa que questionou?
Não.
Nem a mãe, nem a avó…. incentivaram?
Sim, sempre fui boa aluna. Também acho que se deu o passo lógico de tomar.
Na altura os professores falavam consigo sobre o facto de ser boa aluna, de ter expectativas sobre os seus estudos fora?
Sim, sim, sim.
E porquê Coimbra?
A minha avó sempre gostou que eu fosse estudar para Coimbra, porque Coimbra tinha aquela aura - tinha e tem – de cidade estudantil. E fui lá uma vez, tinha para aí uns 15 anos, talvez, na Queima das Fitas, e decidi que ia para lá estudar [risos].
E com quem é que foi, com amigos?
Numa excursão aqui da escola, que coincidiu com a Queima das Fitas.
OK. E foram autorizados a ir?
Um bocadinho, um bocadinho.
E o que é que mais a marcou na faculdade?
Talvez a parte da política estudantil. Coimbra é uma escola mais de vida do que a universidade em si. Meti-me em muita coisa e aprendi muita coisa.
O quê? Fale-me um bocadinho disso.
Eh…
Como é que era, havia uma espécie de recrutamento das pessoas?
Era, e eu sempre gostei de política.
Sim.
Mas depois lá é outra coisa, eles começam logo com o núcleo de estudantes quando se entra como caloiro. E eu, como gostava, fui andando para a frente. Fiz parte do núcleo, da Assembleia dos Representantes. Ah... fui da comissão de curso. Sempre me meti muito nessas… tudo o que era manifestações, eu estava lá. Para não estar nas aulas [risos].
Não era só por causa disso…
Não, não era.
Quais eram os principais desafios nessa altura? Ou a principal luta, lembra-se?
Principalmente propinas e falta de residências para estudantes. As propinas é a luta que vamos ter sempre. Não há hipótese. É anticonstitucional, mas continuamos a cobrar.
Na Constituição tem que ser tendencialmente gratuito.
Mas é tendencialmente mais caro. E para além desses momentos mais da ligação à parte mais ativa, das associações… o que é que a marcou mais na altura na faculdade?
O próprio envolvimento da cidade em si com os estudantes, porque a verdade é que Coimbra só é cidade por causa dos estudantes, porque só na UC somos 20 mil. Numa cidade isso faz a diferença… tirando politécnicos e privados.
Portanto, e as pessoas da cidade, efetivamente, tinham essa noção, precisavam dos estudantes. E acolhem, é diferente de estar a estudar no Porto ou em Lisboa, que é só mais um. Ali ser estudante tem outro peso. Acho que todo esse envolvimento é engraçado, por acaso.
E vinda de um meio pequeno, ainda é melhor, porque sente-se mais apoiada, depois.
E amizades? Fez boas amizades?
Fiz, fiz, fiz. Ainda hoje mantenho.
Ok. E vinha a casa aos fins-de-semana?
Sim, quase todos, sim.
Já tinha carro ou vinha de transportes?
Não, não, vinha de autocarro.
Era uma viagem longa?
Eram 3 horas e meia, 4.
O que fazia, lia?
Não, não consigo ler em andamento. Vinha a ouvir música ou assim.
Muito bem.
Ou dormia.
E pronto, continuava também a ter uma vida social, ia à queima das fitas, durante a faculdade, essa parte também...
Sim, isso sempre participei em tudo. Convívios, queimas das fitas.
Mas antes de ir para a faculdade já saía?
Já.
Aqui?
Sim.
Ou até se deslocavam?
Não, não, isso não. Era mais perigoso. Mas aqui sim, sempre saí. Eu saio para aí desde os 14 ou 15 anos.
Porque aqui não… não há grande problema, para sair à noite.
Claro, mas não iam para outros sítios.
Não, muito raro. Só se forem festas nas aldeias ou coisas assim do jeito.
As festas eram momentos importantes na altura da adolescência?
Eram, claro que sim. Só para conhecer pessoas novas e diferentes. E dá sempre jeito de estar fora de casa umas horinhas. E fora da escola.
O que se lembra dessa altura? Dançava?
Dançava. Aí dançava, agora não danço. Mas na altura dançava, sim. Não, era mesmo de convívio, estávamos com o pessoal, estávamos até mais tarde.
Eram dias felizes, não é? Quando eram adolescentes.
Isso é.
Voltando agora à faculdade, mais à parte daquilo que seria, no fundo, a entrada no mercado de trabalho, depois de terminar o curso, fez o curso facilmente, nos anos...
Nos anos devidos, sim. Eu sou pré-Bolonha, são quatro anos.
E depois como é que foi logo a seguir?
Depois vim para aqui, supostamente ia ter um estágio, e que me dava jeito, mas claro, quando eu cheguei aqui já não havia lugar para estar.
Oh.
Pois, promessas políticas. Entretanto, como eu já estava cá, fui ficando e… trabalho em História é complicado, não é? Fui trabalhar para uma secretaria de um Lagar de azeite.
Foi o seu primeiro emprego?
Foi.
Nunca tinha trabalhado quando era mais jovem?
Sempre ajudei a minha mãe na papelaria, as minhas férias eram lá a trabalhar, mas trabalho, trabalho, não.
Chegou e começou logo essas funções?
Não, quatro ou cinco meses depois. Talvez quatro ou cinco meses.
Como é que foi essa primeira experiência?
Foi bom, foi engraçado. Era secretaria, para mim estava-se bem, era com contas, também.
Foi tranquilo?
Foi, foi. Pena o frio, porque em dezembro e janeiro é complicado estar a trabalhar, estar a trabalhar das 8 às 8.
Mas foi o primeiro dinheiro que ganhou.
Sim, sim.
E então, o que é que fazia com esse dinheiro?
Aí já estava a morar com o meu companheiro e, então, já era para pagar rendas e despesas da casa e tal, e sair à noite, logicamente.
Então, quando voltou já não foi viver com a mãe?
Não, morei para aí um mês. Morámos os dois já em casa dela, para aí um mês. Até arranjarmos casa.
Ok. Que outros trabalhos é que fez? Quanto é que durou esse trabalho? Queria perceber um bocadinho a sua trajetória profissional.
Esse trabalho foram dois ou três meses, que é um trabalho sazonal. Depois continuei a trabalhar para ele, mas em engarrafamento e rotulagem de azeite. Entretanto, eu fui trabalhar para o Parque de Campismo, quatro meses, que é o tempo do verão, que é o normal aqui.
O que é que fazia?
Estava na receção do parque. São quatro meses, foi de junho ou de outubro, se não me engano.
Depois... ah, entretanto, o meu marido já estava a trabalhar no bar e nós, depois, ficamos com esse bar logo a seguir. Ficamos lá quase 17 anos. E agora, tenho mais roulotte de comida.
Muito bem. E com o bar, como é que correu?
Foram muitos anos. Foram anos demais, até. Mas correu bem, principalmente no início, mas depois com o Covid a coisa tornou-se mais complicada. Aí foi a machadada, já.
E a ideia da roulotte surgiu nessa altura da pandemia?
Não, já lá depois da pandemia. E o meu marido sempre gostou muito de cozinhar, portanto, seria o passo de continuarmos a trabalhar na noite, que é o que nós gostamos, efetivamente, e com comida, pronto.
E a roulotte está parada ou anda mesmo?
Andamos nas festas aqui da zona. E está parada o ano todo, tirando os meses de julho, agosto, por aí. Aí é que vamos circulando.
E funciona todos os dias?
Sim. Sim. Para já ainda não decidimos um dia de folga [risos].
Então, gosta do que faz?
Gosto, gosto. Prefiro a parte mais noturna, mas gosto de que faço.
Mais noturna?
Mais de bar, isso eu prefiro, do que comida, mas bem.
Aos fins-de-semana faz até mais tarde?
Sim, sim, sim. Também servem bebidas e assim?
Ali sim, também, mas é mais limitada, não é? É diferente. Eu, por mim, continuava a vender shots, mas não.
Então, gostava dessa parte da noite, mais animada. Ok, muito bem. E em termos de condições de trabalho, teve aí algumas experiências mais curtinhas, mas diria que teve boas condições de trabalho, tinha contrato?
Sim, sim, acho que dos dois, três que tive, sim. Porque ali pelo meio também dei umas explicações e tal, mas isso... sempre tive boas condições de trabalho.
Ok. E no café também correu tudo bem?
Sim, sim.
Ainda hoje nos damos com que quase todas as pessoas que trabalharam connosco. É diferente depois, também, ser patrão ou empregada, mas sim.
Mas isso das explicações estava a dizer que não tinha importância, mas tem, é uma coisa interessante. Quando é que deu explicações? E de quê?
Dei de história, dei de português. E dei na primária também, que há miúdos que têm explicações na primária. Dei de matemática até ao sétimo ano. Mas foi durante um ano, dois anos, por aí. Depois, com o bar, já não tinha grande disponibilidade para isso.
Ah, então foi aqui dentro do período do café, do bar? Ali pelo meio…
Foi mais ou menos antes do café. Foi entre terminar o curso e depois ficarmos com o café, que se passaram para dois anos, mais ou menos.
E gostou de fazer isso?
Das explicações? Era mais uma forma de ganhar dinheiro do que outra coisa.
Podia ter sentido aí...
Não, eu para ensino a coisa não, não. Não tenho grande jeito para isso, a verdade é essa.
Mas foi importante, se calhar, para ter algum dinheiro, nessa parte?
Claro, claro. Dá sempre jeito E não custa nada quando é assim, tipo, coisas básicas, matemática de quinto ano ou de sexto.
Sim.
Não custa nada.
Teve períodos de desemprego? Disse-me quatro meses antes de começar o primeiro emprego e depois entre os outros? Teve algum momento desempregada?
Sim, porque depois aquele primeiro emprego até para o parque de campismo, tirando, lá está, as explicações aí no meio… foram para aí 6 meses. Foram mais 6 meses, talvez.
Hum, hum.
Depois saí do parque, foi quando fiquei com o bar passado talvez dois meses. Acho que no total nem nunca estive um ano desempregada.
OK, pronto, nunca viveu assim essa...
Não, porque sempre fui fazendo alguma coisa aqui, não é?
Sempre viveu aqui?
Sim, tirando os quatro anos em Coimbra.
Foi com 18 anos…
Voltei com 21, ainda nem tinha feito os 22.
E lá, viveu com quem?
Lá, durante dois anos, era uma espécie de residência privada. Éramos 22 mulheres ou 21, em três andares. E depois foi quando o meu companheiro se mudou para lá, e ficamos dois anos lá morar juntos, antes de vir para cá.
Então, ele era daqui...
Não, ele é de Lisboa, mas os pais são de Valpaços.
Então como é que se conheceram?
No autocarro. A sermos multados pela PSP [risos]. Por bom comportamento.
[risos] Então?
Fomos assustados do grupo. A PSP multou o autocarro onde nós íamos e nós não estávamos contentes com a situação.
Ah.
E como estávamos os dois a reclamar fomos afastados do grupo, para não ser toda a gente a reclamar.
E aí?
E depois continuamos com essa conversa. Até hoje, 20 anos depois.
Muito, muito curioso. A PSP a arranjar um relacionamento, não é? Engraçado.
Se calhar, ainda bem que aconteceu aquela operação.
Sim, possivelmente não tinha mais falado se não fosse isso, não.
E, entretanto, casou?
Não, não, é união de facto.
Muito bem. Tem filhos?
Não.
Voltou para cá e em pouco tempo foi viver com o seu companheiro, até hoje. Estão na mesma casa, desde sempre?
Estamos, sim. 20 aninhos.
E como é que é a casa?
É um T3, é uma casa já mais antiga, mas está remodelada.
É curioso, porque uma das primeiras coisas que até falou, nesta conversa, foi dizer que era maria-rapaz.
Sim.
Uma mulher maria-rapaz, essa expressão que ainda se usa. Mas que significado tem para si ser mulher?
Hum-hum… Força. Luta… e resiliência. Acho que define bem. Acho que só as mulheres é que são assim. E multifunções. Uma coisa essencial, que só as mulheres é que são, garantidamente.
Porque é que associa essas características…
Porque nós sempre tivemos que contar o dobro por qualquer coisa que se faça. Seja por aquilo que for. Se não for para ser dona de casa, claro. Tudo o resto sempre tivemos que lutar em dobro, para que emprego seja, para que função seja. Por isso, acho que é um bocado por aí que infelizmente continua a ser a realidade.
Imagino que assista a isso, não é? E não tem a ver só com a sua experiência, não é?
Não, porque aqui na zona interior é muito mais do que numa cidade, nesse aspeto.
Mas viveu alguma coisa mais marcante?
Não, não, não é pessoal, é do que vejo à minha volta. Não é pessoal, eu nunca liguei muito a isso, de qualquer das formas, portanto é-me um bocado indiferente, mas do que vejo à minha volta, é a realidade.
Hum, hum.
Uma mulher trabalhar, ainda agora aqui, se puder ser dona de casa, é o ideal.
É?
Mesmo para a minha geração, que é uma coisa estranha.
Então, em termos de valores... mais familiares ou profissionais associados ao género feminino, não se identifica tanto aqui com a…
Não, porque na minha família, as mulheres sempre fizeram o que tinham a fazer para trabalhar, para ganhar a vida. Tirando as funções domésticas, porque vêm por acréscimo, mas sempre fizeram, sempre foram independentes, portanto comigo, não, mas do que vejo à minha volta ainda acontece muito. Infelizmente.
Para além de trabalhar, hoje, continua a ler?
Menos. Mas sim, continuo a ler. Tenho os meus livrinhos na roulotte, enquanto estou na pausa.
É mesmo uma característica sua, não é? A leitura.
É. Vou-me mantendo.
E para além disso, o que é que gosta de fazer nos seus tempos livres?
Quase não tenho tempos livres. Basicamente é só trabalho, senão, vou ajudar a minha sogra no terreno que tem.
Hum, hum.
E pouco mais que isso, não temos grandes tempos livres. E férias, agora nem pensar, para já.
Ah, ok.
Por isso...
Não tem assim pequenos momentos de diversão ou de...
Temos, mas é mais que quando saímos de trabalho, implica quase ir a um bar, bebermos um copo e vamos para casa, basicamente. Um jantar de vez em quando fora. E pronto.
E as principais tarefas do seu dia-a-dia são à volta da roulotte. Abre à hora do almoço?
Não, só à tarde.
À tarde e depois à noite?
Sim, depois saímos, normalmente fecho meia-noite, uma da manhã. No fim de semana, às quatro, quatro e pouco, porque os bares aqui fecham às quatro. E, então temos que aproveitar o pessoal que sai dos bares.
É uma noite animada, aqui?
Já foi melhor, muito melhor. E agora vai tendo os seus momentos.
O que é que mudou? Para não ser tão bom agora?
Menos dinheiro para gastar, de qualquer das formas. E perdeu-se muito o vício de sair quando foi do confinamento. Porque até ali as pessoas saiam para tomar café, para ver futebol. Confinamento, não, toda a gente já tem máquina de café em casa. Toda a gente tem Sport TV ilegal em casa e então ninguém sai... A verdade é essa.
E disse-me que o seu companheiro cozinha muito bem e sempre quis fazer isso. Quais são as vossas tarefas? Como é que dividem as tarefas ali?
Basicamente, o cozinheiro é ele e eu faço a montagem depois do produto final. Cozinhar, 90% é ele.
Daquilo que estamos a falar… de que forma é que ter nascido aqui, em Trás-os-Montes, é que acha que influenciou a sua vida, a sua trajetória, e as suas próprias experiências? …
Portanto, levou Trás-os-Montes consigo para Coimbra, por exemplo, não é?
Não sei… por exemplo, a teimosia é transmontana, garantidamente, porque era complicado estar numa cidade que toda a gente acha que nós aqui somos o fim do mundo. Isso faz-me um bocadinho de espécie.
Quero ouvir falar sobre isso.
Toda a gente tem ideia do interior, principalmente, Trás-os-Montes e a Beira Alta, que aqui não se passa nada, que somos muito isolados, que, pronto. E isso numa cidade faz um bocadinho de diferença. Eu acho que vamos sempre com outra garra diferente. Por exemplo, naquele caso, o coimbrinhas, não tem a mesma força para fazer, a mesma vontade de fazer as coisas como nós. Porque torna-se… como as mulheres, terem que fazer em dobro. Muitas vezes, vindo do interior, também tem que se fazer em dobro, efetivamente. Porque pensam que nós aqui estamos isolados, e estamos, mas não estamos no fim do mundo.
Quem é que pensa?
Os citadinos, a maior parte de citadinos.
Mas já tinha essa ideia antes de ir para lá, ou quando chegou lá e deparou-se com isso até ficou surpreendida?
Não, tinha, porque aqui também sempre tivemos muito turismo. E as pessoas que vêm das cidades para aqui, de turismo, já têm essa mentalidade.
Como é que as pessoas verbalizam isso? Como é que acede a essas ideias pré-concebidas?
Não sei, não é bem o verbalizar, quer dizer, é o verbalizar, mas é as atitudes, mesmo, parece que somos sempre inferiores, somos nós que estamos aqui a recebê-los, somos nós que damos as condições para estarem cá, e somos sempre inferiores que os que vêm do Porto, principalmente do Porto, temos muito turista…
Queria lhe perguntar se alguma zona em particular de pessoas que…
Do Porto, principalmente quando o Parque Campismo estava aberto. Nota-se essa diferença… acham que são os maiores da companhia. Verdade. Não sei se é do Porto, mas é opinião generalizada em Vila Flor [risos].
E em Coimbra, sentiu isso? Aqui sentia com os turistas, e lá?
Há estudantes de todo lado, de todo lado. Mas notava-se alguma coisa, principalmente os de Coimbra, mesmo, de nós virmos aqui do meio do nada e depois gostam de gozar com sotaque e com certas expressões... sei lá, o tacho ou o texto ou os atacadores e cordões, esse tipo de palavras. Gostam muito de gozar. Isso depois passa depressa, mas no início nota-se essa brincadeira, principalmente na praxe.
Na praxe fazem muito isso de... os transmontanos, os que são da beira. Mesmo pela maneira como falam, trocar os Bs e os Vs… e pronto. Depois em Coimbra fala-se muito bem português, e então quem é de fora é que…
Mas sentiu isso como uma brincadeira, ou como um preconceito?
Não, brincadeira, acho que pelo menos comigo nunca passou de... Depois entre eles até podem dizer o que quiserem, mas acho que nunca dei conta do preconceito em si. A nível de estudante, há outro tipo de perceção. Os professores também não dão muita conversa, não temos grande ligação ali, não é? E entre os estudantes somos quase todos da mesma idade, todos... Tirando um ou dois, claro, como tem sempre um ovelha negra, mas não... Porque é diferente de espírito na faculdade, preconceito quase não existe, a verdade é essa. Existe bastante mais fora da faculdade do que depois lá.
Pois é, ia lhe perguntar, e fora da faculdade, não é? Fazia refeições ou outras coisas e…
Lá está, aí a diferença de Coimbra, porque é de tudo estudante. A única diferença que pode dar preconceitos, efetivamente, mas é porque é de letras e o outro é de direito, ou porque é de medicina, e medicina é medicina. Aí é a única coisa que pode dar preconceito.
OK.
Mas é só a nível estudantil, não é…
Mas só lidou com estudantes, quase, não lidou com pessoas…
Pois, é isso, porque as pessoas, a maior parte são mesmo dadas e sentem a necessidade, porque sabem que nós é que fazemos aquilo mexer. É diferente. Por isso é que eu digo que assim preconceitos, não, não.
E como é que vê o futuro? Tem alguma coisa que ainda não fez e que gostava de fazer?
Gostava de trabalhar na minha área. Mas está cada vez mais complicado. Portanto, acho que vou continuar a trabalhar por mim.
Mas é uma coisa que está aí?
Está, está, está.
Mas foi tentando?
Tentei duas, três vezes, depois desisti durante uma série de anos. Voltei a tentar recentemente, mas não correu tão bem como eu queria.
Ok.
E vamos ver. Vou andando. Vou fazendo os meus trabalhinhos, assim à parte.
E tentou onde? Aqui, só, ou fora?
Aqui, aqui, porque ao ter aqui o negócio, não posso fugir muito daqui.
Claro.
E queria efetivamente ficar aqui em Vila Flor, mas vamos ver.
Pronto, tendo em conta aquilo que disse, o futuro mais profissional vê, para já, a continuar como está, mas ainda com essa ideia.
Sim, sim.
Mas o que é que vê mais para o seu futuro?
Hoje em dia vejo pouco mais do que trabalho, sinceramente, da maneira que está esta crise, vejo pouco mais do que trabalho, não tenho grandes planos para um futuro mais distante. Hoje em dia vou vivendo quase o dia-a-dia, não é? Não penso muito no futuro. Mas espero ter uma roulotte maior para poder circular mais nas festas. É o que realmente gostava.
E assim, num sonho? Aquelas coisas que parecem difíceis de alcançar, mas alguma coisa que... se tivesse condições...
Viajar.
Viajar?
Isso, sim. Para conhecer o mundo, sim. É muito bonito nos livros, mas ir lá era melhor. Ah, eu gostava de viajar bem mais do que já viajei, mas está difícil a coisa… para viajar e para tirar férias, está complicado. Mas lá chegaremos. Lá chegaremos.
Quando pensa na sua vida e na sua trajetória, se tivesse que dizer quais foram os momentos mais felizes, para onde é que vamos, no tempo?
Para Coimbra, garantidamente. Sim. Sem dúvida.
Tem a ver com o quê?
Com tudo. Com tudo. Pelo que passei lá, também foi graças a Coimbra que conheci o meu marido, companheiro. E por tudo que lá passei, mesmo. Aliás, as pessoas aqui fazem a peregrinação a Fátima, anual. Eu faço a Coimbra. Fico um bocadinho antes [risos].
Mas sentiu-se como um peixe na água?
Sim, sim, sim.
Em termos políticos, aquilo que estava a estudar…
Sim, sim. Ainda hoje. E já saí, já terminei o curso, vai fazer 20 anos.
Mas sente essa ligação mais pelo lado intelectual e da investigação?
E mesmo o ambiente. Continuo a ir lá, continuo a visitar professores, continuo a ir à faculdade, continuo a ir aos spots, que eu frequentava antes.
E na faculdade, a parte de ser mulher, homem, estudar a história, como é que era? Havia muitas mulheres no curso?
É, o curso é maioritariamente… era metade-metade, talvez. Também havia muito homem. Mas, normalmente, os cursos de humanidade são mais mulheres que homens, tirando a geografia. A geografia tem do homem, também.
Sim.
Mas era mais ou menos equilibrado.
E se pensar num momento mais complicado da sua vida, para onde é que vai? Para onde recuamos…
Para onde recuamos… a morte da minha avó. E talvez agora, no bar, quando foi do confinamento. Foi muito dura, essa fase. Acho que sim.
Claro.
Acho que sim.
A sua avó era importante para si.
Era, fui praticamente criada por ela.
E que idade é que tinha quando faleceu?
13. Foi em 98, exato. 13.
Então foi marcante, isso.
Foi, então com a adolescência, e tal, a coisa bate um bocado a mal.
Pronto... Como é que foi estar aqui, este bocadinho, a contar a sua história?
Foi engraçado, pensei que ia estar mais atrapalhada [risos], porque eu não gosto muito de câmaras…
Mas pensou assim em alguma coisa em que já não pensava há muito tempo ou…
Dos costumes, quando me perguntou dos costumes da família, realmente comecei a pensar assim um bocadinho, que já há tempo que não pensava nisso. Principalmente na parte da infância. E foi engraçado relembrar algumas coisas, por acaso. Verdade.
Que aí já era um bocadinho rebelde, não é? [risos]
Já. Isso acho que já nasceu… a minha parte comunista do meu pai, de vez em quando veio [risos]
Há alguma coisa que eu quero acrescentar, que acha que complete a sua partilha.
Assim de repente, não me estou a lembrar de nada.
Eu agradeço-lhe imenso, mais uma vez, e peço desculpa pelas questões técnicas.
De nada.
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