Meu nome é Ricardo Cortez Lopes. Nasci em Porto Alegre, em 1987, sou sociólogo, professor e pesquisador. Também sou o fundador da Represontologia, uma ciência que desenvolvi para estudar a representação como objeto autônomo, com foco em seu comportamento e composição. Mas, neste texto, resolvi fazer algo diferente: falar diretamente sobre mim. Até posso falar um pouco sobre algumas coisas que fiz, mas o foco sou eu.
Sou filho de camponeses que migraram de Piratini, no sul do Rio Grande do Sul, para Porto Alegre durante o êxodo rural da década de 1970. Fui criado num lar simples, onde os valores eram rígidos, mas havia muito afeto — e, felizmente, bastante incentivo (até uma ortodoxia!) ao estudo. Fui da última geração que cresceu com a televisão como principal fonte de entretenimento, antes da popularização da internet. Ali conheci muitas produções audiovisuais clássicas — especialmente americanas e japonesas — e fui fisgado por aquele universo. Minha primeira palavra, aliás, foi “Xuxa”, e o mundo era bastante mágico para mim naquela época.
Desde cedo, passei bastante tempo diante da TV, e hoje em dia eu vi que tem até consequências cognitivas - mas não sabíamos na época. Meus pais, mesmo com poucos recursos, sempre valorizaram minha educação (se esforçavam para pagar uma escola partiular) e permitiram que eu organizasse meu tempo. Isso me deu liberdade para explorar conteúdos diversos, me familiarizar com roteiros, animações e as técnicas por trás das reprises, pois a repetição me ajudava a perceber os detalhes. Eu era uma criança teimosa, e talvez tenha tido sorte de nascer num ambiente rígido com algumas questões, pois a disciplina que aprendi lá me permite trabalhar mesmo sem ver a recompensa imediata.
Fiz toda minha educação básica numa escola católica. Essa longa permanência numa mesma instituição teve prós e contras. Por um lado, me permitiu compreender melhor a dinâmica interna de uma...
Continuar leitura
Meu nome é Ricardo Cortez Lopes. Nasci em Porto Alegre, em 1987, sou sociólogo, professor e pesquisador. Também sou o fundador da Represontologia, uma ciência que desenvolvi para estudar a representação como objeto autônomo, com foco em seu comportamento e composição. Mas, neste texto, resolvi fazer algo diferente: falar diretamente sobre mim. Até posso falar um pouco sobre algumas coisas que fiz, mas o foco sou eu.
Sou filho de camponeses que migraram de Piratini, no sul do Rio Grande do Sul, para Porto Alegre durante o êxodo rural da década de 1970. Fui criado num lar simples, onde os valores eram rígidos, mas havia muito afeto — e, felizmente, bastante incentivo (até uma ortodoxia!) ao estudo. Fui da última geração que cresceu com a televisão como principal fonte de entretenimento, antes da popularização da internet. Ali conheci muitas produções audiovisuais clássicas — especialmente americanas e japonesas — e fui fisgado por aquele universo. Minha primeira palavra, aliás, foi “Xuxa”, e o mundo era bastante mágico para mim naquela época.
Desde cedo, passei bastante tempo diante da TV, e hoje em dia eu vi que tem até consequências cognitivas - mas não sabíamos na época. Meus pais, mesmo com poucos recursos, sempre valorizaram minha educação (se esforçavam para pagar uma escola partiular) e permitiram que eu organizasse meu tempo. Isso me deu liberdade para explorar conteúdos diversos, me familiarizar com roteiros, animações e as técnicas por trás das reprises, pois a repetição me ajudava a perceber os detalhes. Eu era uma criança teimosa, e talvez tenha tido sorte de nascer num ambiente rígido com algumas questões, pois a disciplina que aprendi lá me permite trabalhar mesmo sem ver a recompensa imediata.
Fiz toda minha educação básica numa escola católica. Essa longa permanência numa mesma instituição teve prós e contras. Por um lado, me permitiu compreender melhor a dinâmica interna de uma escola; por outro, acabou criando uma associação forte entre educação e aquela estrutura específica, sem conhecer outras culturas escolares. Isso, anos depois, acabou influenciando minha escolha de ser professor — uma forma de permanecer em um ambiente que eu já conhecia. Hoje percebo isso.
Nos primeiros anos do ensino fundamental, sempre tive bom desempenho escolar, apesar de certa dificuldade com matemática. Aos poucos, entendi o que minhas professoras esperavam e consegui superar essa barreira. Mais tarde, com a entrada de vários professores diferentes, tive mais dificuldades — afinal, era preciso entender o estilo de cada um e me adaptar a eles. Foi nessa época que conheci meu melhor amigo, Maurício. Ele tinha uma habilidade que eu não possuía: conseguia observar e se interessar genuinamente pelas pessoas. Isso me marcou profundamente. Por influência dele, comecei a pensar na divulgação de conhecimento de forma mais acessível e agregadora — não como um instrumento de distinção social. Tem gente que usa seu conhecimento para diminuir quem não sabe, tenho muito nojo disso.
Durante minha adolescência, nos anos 2000, tive meus primeiros contatos com a internet, ainda no modelo discado e por meio de colegas com mais recursos. A televisão, porém, ainda era minha principal companhia. Na escola, comecei a me interessar pelas ciências humanas e pela literatura — algo incomum na minha família, que não tinha muita afinidade com as letras. Confesso que, apesar do interesse por essas áreas, fui um aluno desmotivado. Minhas notas não eram boas, exceto nas disciplinas que me cativavam. Ainda assim, antes dos 15 anos, já havia lido toda a trilogia O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo — uma leitura que me marcou profundamente. Eu até cheguei a escrever um livro de ficção, mas como ele flopou muito eu nem falo dele.
Concluí o ensino médio em 2004 e passei dois anos em cursinho pré-vestibular até ser aprovado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no último vestibular antes da implementação das cotas. Nunca foi fácil para mim — quase nada veio de primeira. Inicialmente, pensei em cursar Letras, mas desisti com receio das exigências em análise sintática. Escolhi então História, buscando algo “o mais humano possível”. No terceiro ano da graduação, quis trocar de curso, mas primeiro concluí a licenciatura para manter algumas portas abertas. Depois disso, permaneci no bacharelado. Foi durante um trabalho de campo, numa disciplina de Antropologia da Religião, que conheci minha futura (e muito amada) esposa.
Decidi fazer mestrado, mas mais uma vez enfrentei dificuldades. Tentei em História, depois em Filosofia, Psicologia Social… e foi em uma disciplina desta última área que encontrei meu ponto de virada. A professora era especialista em Serge Moscovici e, embora isso tenha limitado um pouco minha formação mais ampla na disciplina, foi ali que conheci a teoria das representações sociais — algo que mudou meu olhar para a sociologia. Pela primeira vez, compreendi um Durkheim menos estereotipado: o da sociologia da moral. A partir dali, deixei de ser só um aluno reprodutor e passei a dialogar com a teoria, inclusive entendendo melhor a abstração.
Numa caminhada pelo campus, vi um cartaz anunciando uma seleção para doutorado em Sociologia. Resolvi me inscrever, pensando que era da UFRGS, mas depois descobri que era da UFPEL. Usei os documentos que já havia preparado para a seleção da Psicologia Social e me inscrevi, sem grandes expectativas. Para minha surpresa, fui aprovado. Mais tarde, iniciei também a licenciatura em Ciências Sociais, que só concluí durante o doutorado.
O mestrado foi um divisor de águas. Com a bolsa, tive pela primeira vez dedicação exclusiva aos estudos. Escolhi trabalhar com sociologia da moral — uma área pouco explorada, com pouca bibliografia e quase nenhuma disciplina específica. Li os clássicos, cursei disciplinas em diferentes áreas, escrevi sobre diversos temas e dei aulas de Sociologia numa ONG chamada ONGEP. Quando chegou a hora do doutorado… não passei de primeira. Mas, como no vestibular, passei na segunda tentativa. Nesse período, minha noiva precisou ir ao Japão por dois anos e meio, e prometemos nos casar quando ela voltasse. Foi um tempo difícil, de muito trabalho e solidão.
Durante o doutorado, sem bolsa, precisei trabalhar de tudo: em institutos de pesquisa, como professor, freelancer, e fundei a Semente Consultoria Acadêmica. Casei ainda durante o doutorado e meu filho, ainda na barriga da mãe, esteve presente na defesa da minha tese. Aliás, a tese precisou mudar de rumo por questões internas do programa, mas ironicamente foi muito bem recebida. A teoria que desenvolvi inicialmente deu origem ao que chamei de teoria dos contextos representativos, que alguns colegas chegaram a considerar o início de uma nova fase da minha trajetória. Essa teoria permitiu pensar as representações sociais para além da mente humana — e, mais tarde, serviu de base para a Represontologia.
Depois disso, atuei na gestão educacional, mas aos poucos fui retornando para a sala de aula. O sonho agora é consolidar a ciência que desenvolvi como um campo de pesquisa legítimo. Escrevi o livro fundamental dessa ciência enquanto trabalhava como técnico, entre reuniões, no ônibus, nos intervalos — um pouco como Euclides da Cunha em Os Sertões. Considero esse livro minha obra-prima até aqui. Desde então, escrevi mais dois livros para consolidar o campo, mas ainda não os publiquei.
Olhando para trás, percebo que sou alguém que sempre precisou de um tempo inicial para se adaptar — e isso se repetiu em cada fase da minha vida. Também não fui criado num ambiente intelectual e também um tanto ruralizado. A socialização nunca foi meu forte, mas sempre tive uma habilidade particular para a reflexão, sempre fui muito introspectivo. Quando criança, passava horas brincando com os mesmos bonecos, que representavam personagens diferentes em histórias que eu mesmo inventava, sempre seguindo as regras do meu próprio mundo. De certa forma, acho que foi aí que tudo começou, mas espero que tenha muita história pela frente ainda e que tenha mais coisas para compartilhar aqui nessa página.
Recolher