Deslocações – Lugar, Memória e Identidade Social na Cidade do Porto
Entrevista 3, 27 de janeiro de 2025
José Renato Sousa
Então, começando, tu tens que idade?
50.
50. Portanto, nasceste em 1975?
74.
Aqui no Porto?
Certo.
Aqui nesta zona?
Tripeiro de gema. Maternidade Júlio Dinis e Bairro da Pasteleira. Portanto, vivi toda a minha juventude, a minha infância, no Bairro da Pasteleira, até ter casado, e depois é que saí do bairro, portanto, já com quase 29.
Viveste com os teus pais?
Sim, vivi. Exato. Com a minha mãe, principalmente, porque o meu pai faleceu quando eu tinha 10 anos, portanto, sobretudo com a minha mãe e com a minha irmã.
E como é que eles tinham ido viver para lá? Já era a tua avó que vivia lá?
Não, não. Portanto, foi assim, a minha mãe foi viver para uma casa lá na Pasteleira, que era muito comum, senhoras que estavam sozinhas, e que pediam a outras pessoas para tomar conta delas, e depois ficavam com o direito à habitação. Pronto, foi um pouco a situação da minha mãe.
Ela era de onde? Era daqui do Porto também?
Não, a minha mãe é natural de Famalicão, só que depois veio trabalhar muito jovem, muito nova, para o Porto, e, pronto, e foi assim dessa forma que resolveu a questão habitacional.
Onde é que ela trabalhava?
Ela trabalhava aqui na Fábrica de Lanifícios do Ouro, que já faliu, não é? Há muitos anos.
É perto, certo?
Perto da Pasteleira, perto da fábrica.
E veio de Famalicão para trabalhar…?
Não, não, não. Ela começou a trabalhar...
Era curioso ela vir de Famalicão para trabalhar numa fábrica de lanifícios…
Sim, sim, claro.
Não faltam lá.
Não, não, não, ela veio, pronto, veio por circunstâncias da vida, veio para a cidade, para a grande cidade, não ia para Braga, o Porto é o Porto. E, pronto, depois, com o casamento, foi viver com o meu pai para a casa que ele tinha. O meu pai também foi um processo… Portanto, eles viviam, o meu pai vivia...
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Entrevista 3, 27 de janeiro de 2025
José Renato Sousa
Então, começando, tu tens que idade?
50.
50. Portanto, nasceste em 1975?
74.
Aqui no Porto?
Certo.
Aqui nesta zona?
Tripeiro de gema. Maternidade Júlio Dinis e Bairro da Pasteleira. Portanto, vivi toda a minha juventude, a minha infância, no Bairro da Pasteleira, até ter casado, e depois é que saí do bairro, portanto, já com quase 29.
Viveste com os teus pais?
Sim, vivi. Exato. Com a minha mãe, principalmente, porque o meu pai faleceu quando eu tinha 10 anos, portanto, sobretudo com a minha mãe e com a minha irmã.
E como é que eles tinham ido viver para lá? Já era a tua avó que vivia lá?
Não, não. Portanto, foi assim, a minha mãe foi viver para uma casa lá na Pasteleira, que era muito comum, senhoras que estavam sozinhas, e que pediam a outras pessoas para tomar conta delas, e depois ficavam com o direito à habitação. Pronto, foi um pouco a situação da minha mãe.
Ela era de onde? Era daqui do Porto também?
Não, a minha mãe é natural de Famalicão, só que depois veio trabalhar muito jovem, muito nova, para o Porto, e, pronto, e foi assim dessa forma que resolveu a questão habitacional.
Onde é que ela trabalhava?
Ela trabalhava aqui na Fábrica de Lanifícios do Ouro, que já faliu, não é? Há muitos anos.
É perto, certo?
Perto da Pasteleira, perto da fábrica.
E veio de Famalicão para trabalhar…?
Não, não, não. Ela começou a trabalhar...
Era curioso ela vir de Famalicão para trabalhar numa fábrica de lanifícios…
Sim, sim, claro.
Não faltam lá.
Não, não, não, ela veio, pronto, veio por circunstâncias da vida, veio para a cidade, para a grande cidade, não ia para Braga, o Porto é o Porto. E, pronto, depois, com o casamento, foi viver com o meu pai para a casa que ele tinha. O meu pai também foi um processo… Portanto, eles viviam, o meu pai vivia em Santos Pousada, salvo erro. E, portanto, também um processo de…
De realojamento?
Sim, sim, foi, foi... devia ser nas ilhas.
Claro. O Bairro da Pasteleira foi precisamente construído no âmbito do Plano de Melhoramentos [para a Cidade do Porto de 1956], que visava precisamente erradicar as ilhas, e muita gente do centro da cidade veio aqui parar.
Ele foi para lá viver, mas pronto, foram estas as circunstâncias em que eu nasci.
Já eles viviam lá.
Sim, exatamente. A minha mãe ficou com aquela senhora durante um bom tempo, não sei precisar quanto. E depois, quando se casaram, foi com o meu pai, que o meu pai tinha a casa na Pasteleira.
Como é que era essa altura na Pasteleira?
É, pronto... era muito diferente. É a infância, não é? Portanto, recorda-me dos jogos de futebol, em frente ao prédio tínhamos um grande pátio, jogávamos à bola quase o dia todo, das brincadeiras que tínhamos, eram, desde muito miúdos que éramos, assim, sei lá, muito engenhocas, porque lembro-me que tínhamos uma cidade, que era a Reta. Porque é que era a Reta? Porque tínhamos um grande passeio, onde brincávamos, em frente à Reta, depois começámos, criámos leis, moeda [risos], código civil… Eu tenho um amigo, que ele é juiz, e, portanto, ele era mais velho um bocadinho, portanto, ele era um pouco o líder, assim, dessas ideias patéticas, que, ao fim e ao cabo, eram o embrião daquilo que ele iria ser um dia mais tarde. Pronto, era engraçado. A moeda eram as caricas, depois eram as senhas do autocarro. Por exemplo, quando íamos, sei lá, ao Hospital de São João, que eram as viagens mais longas, aquelas senhas de quatro zonas, portanto, essas senhas eram as tinham maior valor, [eram] as notas mais raras e mais valiosas [risos]. E depois, por exemplo, lá nos levou para criar até um clube, já mais crescido, já mais na adolescência, porque também esse nosso amigo, pronto, os pais viviam melhor, a mãe trabalhava no comércio, o pai era escriturário, portanto, tinham acesso mais cedo a alguns meios materiais, portanto, eles foram os primeiros a ter VHS. E os pais organizavam assim umas matinés, com filmes de vídeo, nós íamos todos para casa dele ver o filme, e depois lembrámo-nos, porque é que nós não nos quotizámos e passámos nós a pagar o filme? E assim foi, criámos um clube para vídeo; depois, à medida que o tempo foi passando, com estatutos, e com tudo, com presidente, com eleições, com assembleias gerais, com trafulhices [risos], era muito engraçado. Portanto, isto tudo na minha adolescência, 16, 17 anos, já até quase aos 18. Depois, o clube passou a ser uma caixa, quando nós já éramos mais crescidinhos, portanto, cada um dava um valor e depois reuníamos para manter isso, mas, entretanto, cada um foi à sua vida e, pronto, o clube desfez-se. Mas isso, parece que não, mas também me criou assim ali algum bichinho pelo associativismo.
Fizeste escola aqui?
Fiz em Lordelo, fiz no Leonardo Coimbra.
A primária era aqui na Pasteleira?
A primária eu fiz na Pasteleira, na Escola 115, e depois o natural era fazer a escola preparatória; no 5º e 6º anos fui para o Leonardo, e depois no 7º fui para o Garcia [da Orta], fui para o Garcia fazer do 7º ao 12º.
E esse percurso escolar, essa transição? Porque, entre outras coisas, o Leonardo é aqui mais uma escola local, o Garcia já era uma escola mais...
Ah, sim.
Era muito diferente, não era?
Muito diferente, muito, sim, sim. Passei assim um mau bocado, porque nunca me senti, só me senti verdadeiramente integrado no Garcia, a partir do 11º, 10º e 11º. Foram todos os amigos, o grupo de amigos que tinha, porque, até ao 7º, 8º e 9º, foi muito difícil, porque eu vinha de um meio social completamente diferente dos meus colegas e, portanto, nunca me senti verdadeiramente integrado, pelo contrário até. E, pronto, isso marcou-me de alguma maneira, portanto, aquela fase, não digo que tenha sofrido bullying, mas também não era muito acarinhado. Recordo-me de uma vez, um episódio de um desses meus colegas, que passou de carro e viu-me, viu que eu morava na Pasteleira. A partir daí as coisas mudaram, porque... mudaram no sentido em que passei a ter mais respeito, porque eu também não me ia afirmar, dizer assim, “Ah, eu sou do Bairro da Pasteleira, eu faço, eu aconteço…”. Pá, pronto, nunca usei esse tipo de... Em boa verdade, até tinha vergonha, não vou dizer que não, até tinha vergonha, eu procurava omitir um pouco as minhas origens, para poder de alguma forma ser aceite e estar integrado no grupo. Só que, a partir do 10º, 11º, já começamos a ser mais crescidos, e, pronto, essas coisas passaram para trás das costas. Ainda hoje nós fazemos um almoço, fizemos o último almoço no dia 30 de dezembro, com os colegas desse tempo, a turma, a nossa turma, rapazes e raparigas, e, pronto, ainda bem que as coisas lá se recompuseram.
É, mas isso é sempre uma experiência interessante, passar aqui de um meio mais de bairro, mais fechado, com uns amigos aqui, depois abrir para esse…
Também é assim, na Pasteleira, nós, no 22, que era o nosso bloco, passámos por isso, [era] um bocadinho diferente, porque o bloco era mesmo em frente ao campo de futebol, portanto, estava quase, por assim dizer…
No limite do bairro.
…no limite do bairro. E nós, se calhar, estávamos mais virados para a frente.
Até há ao lado edifícios de habitação privada de alto standard, não é?
Exatamente, estávamos mais virados para a frente, isto é, para fora, do que para dentro do bairro. E, se calhar...
Achas que havia essa distinção?
Havia.
Costumava haver, dentro dos bairros, essas zonas “de baixo” e zonas “de cima”…
Pronto, porque, por exemplo, ali o núcleo central da Pasteleira, é um bairro muito grande, com 27 blocos, e, portanto, ali o núcleo, o centro do bairro, aqueles blocos mais… onde se vivia de forma mais arraigada o sentimento do bairro, não era o que eu tinha no 22. Nós, no 22, vivíamos ali, era o 22. Dávamo-nos muito bem com o 21. Quando já éramos mais crescidos, até fazíamos jogos de futebol, o 22 contra o 21. Mas... Isso fazia o quê? Os outros também olhavam assim um bocado para nós, éramos, tipo, os betos da Pasteleira [risos]. Não sei se esse conceito pudesse existir, mas era um bocado assim.
Ali sempre foi uma zona bastante… até há literatura sobre isso, não é?
Sim, o Simões.
Era um bocado diverso, apesar de tudo, não é? Com alguma…
O pai dele foi o picheleiro que fez as obras em minha casa. É, pronto, é assim, é, portanto, um bairro também com as suas particularidades, com diferentes… Todos eles têm as suas coisas.
E havia, já agora, a relação com os outros [bairros], isto até para nos aproximarmos da questão do Aleixo, havia relação com os outros bairros; como é que era vista essa... Porque já existia aqui o Pinheiro Torres, Lordelo…
Sim, sim, sim. A Associação Desportiva e Recreativa da Pasteleira, o clube de futebol, organizava todos os verões o torneio de futebol, com equipas amadoras, portanto, grupos de pessoas que se inscreviam. E aquilo era muito engraçado, porque aquele tempo, antes do início da época, era vivido de uma forma muito intensa. Porquê? Porque aquilo era mesmo a sério! Rapazes, homens já feitos, que faziam os seus clubes. Aleixo, Pasteleira, Pinheiro Torres, Ribeira. Por isso, aquilo era uma festa, porque não me lembro de um torneio a ter acabado, não é?... Aquilo era sempre pancadaria [risos]… era uma festa! E, portanto, nós tínhamos sempre aquela ideia, o Aleixo tinha sempre um peso, um peso que impunha respeito. Já até mesmo n[a escola] Leonardo [Coimbra], quando nós estávamos no Leonardo, aquilo era preciso... tínhamos que ter, era sempre respeitinho. Isso aí do Aleixo, sempre teve essa conotação negativa. Há um episódio engraçado, estava eu a estudar no Leonardo, no 6º ano, e o nosso professor de Educação Visual, que era o diretor de turma, pegou assim na turma, e “Vamos para o Aleixo desenhar as torres”. Numa altura em que não era preciso pedir autorizações a ninguém. Lá fomos todos, chegámos ao Aleixo, para desenhar as torres, e não fomos lá muito bem recebidos. Viemos todos outra vez para trás, ele defendeu-nos ali, até marcou ali uma posição, ficámos todos até a olhar para o professor de uma maneira bem diferente, porque ele impôs-se. Mas depois ele próprio entendeu que, se calhar, era melhor não termos ido lá. E é engraçado, esse meu primeiro contacto, que fiz para aí com 11, 12 anos, com o Bairro do Aleixo, e que veio reforçar essa ideia, que o Aleixo... era preciso ter muito respeitinho com o Aleixo, porque tinha assim muito peso, não é? No conjunto dos outros bairros, aqui de Lordelo, era significativo.
Era diferente.
Era diferente, sim.
E de onde é que achas que vinha essa diferença? Depois conseguiste compreender?
Depois, com o tempo, consegui compreender. Tem a ver com a própria configuração do bairro. Portanto, lá está, nós, na Pasteleira, no 22, estávamos afastados do Bloco 1. Portanto, o Bloco 1 estava no outro lado do bairro. No Aleixo, não. No Aleixo, aquela concentração tornava o bairro muito mais uno. E fazia do Aleixo um bairro diferente dos demais. E, depois, também acredito que a própria dinâmica, desde muito cedo, a forma como várias questões... Mas isto, quer dizer, eu já estou aqui a fugir um bocadinho. É porque isto, se calhar, não explica essa tal ideia que nós, que não éramos do Aleixo, tínhamos relativamente ao Aleixo, de temer os rapazes da nossa idade, não é?
Eu, quando fiz o trabalho aqui, havia uma opinião, até de alguns vizinhos do Aleixo – também falei com algumas pessoas que não eram residentes, que eram vizinhas, não é?, até ali da Arrábida e tudo mais –, segundo a qual estas pessoas, tendo vindo do centro histórico [do Porto], e da Ribeira-Barredo em particular, trouxeram um pouco uma conotação, uma imagem, que era a imagem aguerrida e até, vamos dizer, agressiva daquelas pessoas; ou, pelo menos, foi interpretado assim por muita gente que vivia aqui nesta zona.
Pois, eu acredito. Nós aí, quer dizer, eu, com os meus 17, 18 anos, na Pasteleira, estava muito longe de sonhar quais eram as origens das pessoas do Aleixo. O que nós sabíamos é que, pronto, aqueles rapazes que iam ali jogar à Pasteleira, portanto, eram bravos, eram rijos, isso via-se até no próprio jogo. E, depois, é claro, que os outros que viviam nos outros bairros, e que também tinham as suas equipas, também não se deixavam ficar para trás. Era por isso que não havia torneio que acabasse [risos]. Portanto, era por aí.
Tu fizeste, então, escola no Garcia de Orta, de alguma forma também te diferenciaste, ou saíste um pouco daquele ambiente, mas não deixas de ter essa relação com este espaço, com esta zona, e depois acabas por ir parar ao Bairro do Aleixo, certo?
Pronto, é, curiosamente. Portanto, eu terminei o ensino secundário, não consigo logo ingressar no ensino superior. Portanto, eu estive ali um ano, eu tinha que fazer qualquer coisa, e então surgiu uma oportunidade de fazer um curso de agentes de prevenção social. Um curso que foi promovido aqui pela Junta de Freguesia local, por Lordelo do Ouro. Portanto, eu inscrevi-me, fiz esse curso, e depois, no fim do curso, a Junta de Freguesia colocou estes agentes, agentes de prevenção social, assim uma ideia romântica de nos colocar pelos bairros como um agente da mudança. Pronto, é claro que... e, curiosamente, o Dr. Agostinho Rodrigues, da Junta de Freguesia de Lordelo do Ouro, achou que eu tinha perfil para o Aleixo. E lá, eu e mais dois, lá fomos cair de paraquedas no Bairro do Aleixo. Também foi complicadíssimo, porque, portanto, por toda a formação teórica que tínhamos recebido, chegar depois ali ao terreno e tentar fazer algo, é, tipo, era quase de loucos, porque não estávamos minimamente preparados. Pronto, lá depois, com alguma dificuldade, realizámos um concurso de fotografia. Também não correu lá muito bem, porque ir com máquinas fotográficas para o Bairro do Aleixo, pessoas estranhas, que éramos nós os três, mesmo com outros rapazitos que, entretanto, tínhamos feito amizades, ali a jogar à bola, e tudo, no ringue, mas também não foi lá muito bem aceite. E rapidamente passámos do espaço público do Bairro para a Associação [de Promoção Social da População do Bairro do Aleixo], e nós começámos a intervir, por assim dizer, no ATL. Começámos a intervir no ATL.
E estávamos em que ano?
Ora bem, é fazer contas, isto foi por [19]93, [19]94. Era uma coisa de pararmos agora um bocadinho e fazer contas.
Pois, talvez [19]93…
Portanto, eu nasci em [19]74, portanto, tinha 19, 20, fazendo uma conta redonda, [19]93, [19]94. Foi assim por essa altura.
Terminaste com 18 anos o secundário.
Exatamente. Fiz o curso entre os 19 e os 20.
[19]93, [19]94…
É isso.
Portanto, nesta altura, a Junta promove este curso, Agente de Prevenção Social, e coloca estes agentes de prevenção social em diversos contextos aqui da zona, não é?
Sim.
Tu vais parar ao Aleixo. já existe lá a Associação, há uns anos, obviamente, não é? Quem é que… Era a Rosa Teixeira que era a presidente?
A Dona Rosa era a Presidente da Direção, exatamente.
E a Associação acaba por integrar, digamos, estes agentes de prevenção social.
Não era esse o objetivo inicial da Junta de Freguesia. Depois também nós percebemos, entretanto, que havia ali uns certos atritos com a Junta de Freguesia. O objetivo inicial não era esse. O objetivo inicial é nós irmos para o Bairro e trabalharmos no terreno com os jovens do Bairro. Um bocado romântico. Muito romântico, mesmo. É uma ideia, assim, um bocado difícil de concretizar. Então, a Associação acabou por nos dar ali um enquadramento institucional, porque também podíamos fazer esse trabalho a partir do ATL. Podíamos. Mas nós rapidamente nos transformámos de agentes [de prevenção social] para monitores do ATL. Pronto. Os meus dois colegas, depois, entretanto, também, por circunstâncias da vida deles, quando acabou o projeto... Estes projetos eram financiados pelo Instituto da Juventude. Depois, eu, já na Associação, nessa altura, também promovi uma candidatura… Eu não, mas promovemos uma candidatura ao Instituto da Juventude, e a própria Associação começou a enquadrar-me, a mim e a outros jovens. E eu fui lá ficando. Fui lá continuando. Depois, no ano seguinte, comecei o meu percurso no ensino superior. Comecei a estudar, fiz o curso de História. Consegui conciliar as duas coisas, o ATL e o curso. E fui ficando, fui permanecendo no ATL, mas também passando um pouco para o interior, para os serviços administrativos. Porque uma coisa que eu sempre tive um gosto muito especial é trabalhar, tratar com papéis e tudo, desde muito miúdo. E lá está, nessas brincadeiras, a pessoa depois nem se apercebe. Nós tínhamos um jornal, que era o Jornal da Cidade. E, a certa altura, lembro-me que uma das minhas primeiras prendas de Natal foi uma máquina de escrever manual. Portanto, o jornal começou a ser uma coisa mais séria. Depois, um senhor, que era polícia reformado, e vivia ali na Marechal Gomes da Costa, precisava de alguém que passasse à máquina os seus escritos. E eu tinha esse trabalho. Depois fiz o investimento para uma máquina eletrónica. E, quando entrei na faculdade, computador. Portanto, eu, ao fim e ao cabo, tinha aqui alguns conhecimentos, tinha aqui algumas competências, que a Associação do Aleixo, naquela altura, quando eu lá cheguei, estava muito carenciada. Muito carenciada mesmo. Portanto, comecei também, porque era o gosto que eu tinha, a fazer os planos de atividade a computador, a fazer ofícios a computador, a fazer panfletos, a fazer os programas dos aniversários, das atividades. E, parece que não, comecei a revelar algum valor, porque as pessoas viam este fulano, se calhar, interessa-nos que se vá mantendo, porque nos dá aqui uma ajuda preciosa. Penso eu que foi por essa razão que eu fui sempre continuando, até terminar o curso, e mesmo depois, quando comecei a lecionar, porque eu sou professor do ensino básico, naqueles primeiros anos é que tinha horários incompletos, e conseguia conciliar, e fui mantendo sempre a minha ligação à Associação.
Foi ininterrupta desde essa altura?
Foi.
Há 30 anos.
Sim, exato. Há 30 anos.
Queria falar de duas coisas, ainda sobre esse período inicial, [19]93, [19]94, que acho que são importantes. Uma é: como é que vias o Bairro naquela altura, depois de uma infância e adolescência em que observavas a realidade do Aleixo um pouco à distância, e com aquelas notas que dizias, que o Bairro tinha uma certa diferença e uma certa particularidade aqui na zona? Quando chegaste lá, como é que viste o Bairro, que impressões é que tiveste nesses primeiros tempos? E, depois, falar um pouco mais sobre como era a vida associativa e a realidade da Associação naquele momento.
Eu acho que, de uma maneira geral, estes meios, a Pasteleira também é igual ao Aleixo, são meios muito fechados sobre si próprios, e, portanto, quem vem de fora é sempre olhado de soslaio, não é? Eu senti isso, e os meus colegas, quando fomos para lá naquele primeiro momento, fazer o curso de fotografia. Foi muito difícil, porque… “O que é que estão estes fulanos aqui a fazer?!”, há sempre esse pé atrás na receção. Depois, o passar para o ATL foi uma mudança, porquê? Porque nós começámos a lidar com os miúdos, e tínhamos o respaldo de quem já lá trabalhava, tínhamos o respaldo dos próprios membros da direção, a Dona Rosa e outras pessoas, portanto, fomos criando ali uma ligação, e o facto de eu me manter, ia-me mantendo, ia reforçando mais esses laços, depois com as próprias famílias, e rapidamente comecei a ser um elemento aceite, perfeitamente integrado na comunidade. Isso é claro que, como dizia há bocadinho, pronto, eu acabo por perceber depois a particularidade do Aleixo, e se calhar o facto de estar construído da forma como estava, as torres, criava ali uma unidade, por torre, mas depois, como não estavam muito dispersas… E depois havia outra particularidade, o bairro, sendo fechado muito em si mesmo, isso acontecia nos outros, bastava ver o exemplo da minha mãe e do meu pai, mas havia muitas vezes as relações, os namoros, os casamentos, faziam-se no bairro, as famílias… E podíamos ter elementos da primeira torre, da segunda, da terceira, da quarta, as pessoas tinham sempre familiares, e estavam ali, estavam próximos, quer dizer, famílias numerosas, porque eram muito numerosas, e isso tudo dava ali assim um determinado estatuto de respeito. Depois, isso eu percebo mais tarde, aquele sentimento muito arraigado [de ligação] ao centro histórico, portanto, às origens da cidade, portanto, ao âmago da cidade, a zona histórica, o centro histórico, e esse sentimento que nunca foi abandonado, eu também acredito que explica toda esta diferença relativamente aos outros bairros, cujas origens das pessoas eram muito, muito díspares. Nem de propósito, começámos por falar disso, a minha mãe tinha vindo de Famalicão, o meu pai era de Santos Pousada, portanto, não havia ali nenhuma ligação, enquanto que toda aquela gente que tinha vindo da zona histórica trazia esse registo. Eles mudaram de lugar, pronto, mas traziam esse registo muito incorporado. Depois, não sei se já podemos passar à questão do associativismo, a Associação do Aleixo, para mim, foi assim uma novidade, porque eu de associativismo não sabia nada, portanto, claro que as brincadeiras que tínhamos feito, eram brincadeiras, mas o melhor exemplo era o Pasteleira, era o clube de futebol, pronto, que estava mais virado para o desporto, para o futebol. Depois também havia ali uma outra associação de moradores, que era das Torres Vermelhas, e tudo, mas também não conseguia percecionar que tipo de trabalho é que eles eventualmente faziam, para além também do desporto. Já a Associação do Aleixo, o core business, por assim dizer, não era o desporto, era a intervenção social, desde muito cedo, com os equipamentos sociais. O desporto, a cultura, o recreio eram apêndices; portanto, ali, o puro e duro eram as questões da habitação, portanto, aquilo que se batalhava quase todos os dias era a necessidade de desdobramentos. E, atenção, eu cheguei lá numa altura em que o bairro estava em polvorosa, porque a cidade estava toda polvilhada de bairros de lata, barracas, portanto, e ali no Aleixo também havia barracas, e as pessoas viviam em condições incríveis, do ponto de vista humano, nas caves e nas subcaves, naquilo que eram os arrumos, portanto, os prédios tinham, nas caves, uns arrumos, e as pessoas derrubavam as paredes dos arrumos e faziam habitações. Era uma situação social caótica, e eu já apanho uma fase em que a Câmara [Municipal do Porto] começou a intervir, a Câmara já tinha criado a Comissão Camarária Específica para o Bairro do Aleixo, ou tinha acabado de criar, posso não estar aqui a ser preciso em termos de datas, mas o trabalho social da Câmara começava-se a notar naquela altura. E eu acompanhei essa fase, em que a Associação tinha um papel muito interventivo, que eu nunca tinha tido contacto, e era tudo uma novidade, e algo de apaixonante, porque me fez apaixonar, também.
Eu acho que até o próprio nome da Associação dá conta de uma Associação que nasce pretendendo ser um pouco diferente da associação cultural, desportiva e recreativa que tipicamente existia na maior parte dos bairros, não é?
Isso, isso.
E mesmo muitas associações de moradores, que até tinham esta designação, tinham sido comissões e depois tinham-se transformado em associações, acabavam por ter muitas vezes um papel mais ligado ao desporto, à cultura e ao recreio do que propriamente à promoção social da população local, ou às questões da habitação. Tens ideia de qual é a origem disto? Porque é que aquela Associação tinha essa diferença?
Acho que a Associação sempre esteve muito politizada. Lá está, estamos a falar do nome, mas e o símbolo? A estrela vermelha, certo? Tem todo um significado, tem todo um contexto. O próprio símbolo é revelador. No centro está a cultura, um livro que representa a cultura, portanto, o símbolo olímpico, o desporto, e depois a torre, [que] representa a habitação. Mas tem a ver com os fundadores, isto tem a ver com os fundadores, que eram pessoas que… E, mesmo não tendo sido fundador, nós estávamos aqui [no outro dia] a ouvir o senhor Zeferino, portanto, são pessoas que têm passado sindical… A Associação nasce em pleno 25 de Abril [de 1974], o próprio processo de reabilitação da zona histórica, nascido em [19]68, com o arquiteto Távora, e, portanto, isso, e com a assistente social Rosa Correia de Sousa, eram pessoas também já politizadas, e que também foram lançando essas sementes. Pessoas como o Cândido [Venceslau Mendes], que eu conheço, e outros, que, não conhecendo, tenho a ideia de que depois levaram todas essas aprendizagens para a Associação. E, perante problemas concretos que eles foram encontrar no Bairro, problemas como, por exemplo, a questão das crianças, porque havia muita criança que, tendo vindo na zona histórica, passava a viver no Aleixo, e continuava a frequentar as escolas na zona histórica, como é que elas iam para a escola? A pé, com certeza que sim, mas foi logo uma das primeiras lutas, [uma das primeiras] batalhas, [ter] uma escola no Bairro. Depois, a questão dos equipamentos de apoio à infância no Bairro, que foram criados de forma amadora, portanto, vamos para a frente, vamos criar aqui uma sala para acolher crianças, pronto, depois a Segurança Social que venha atrás de nós. E, portanto, era também um tempo em que tudo isto se fazia de forma… [risos]. Aqui há dias vieram aqui umas senhoras propor criar aqui uma creche. Vocês têm aqui espaços, podíamos fazer aqui uma creche, nós até nos oferecemos, portanto, eu ouço isto, assim com sorriso nos lábios, porque hoje em dia íamos presos todos no dia seguinte, não é? Éramos cancelados, íamos todos presos, mas naquele tempo era assim que as coisas se faziam, e acho que os tempos eram outros, eram mais apaixonantes [risos].
E isso prolonga-se… tem essa génese, tem essa origem, nos anos [19]70, prolonga-se pelos anos [19]80, e chega-se aos anos [19]90 e há ainda essa visão, essa vontade?
Sempre.
Agravada também por algumas situações, se calhar, relativas às questões da habitação, com a presença ali das barracas, a ocupação de parte das torres...
Eu acho que depois, já no século XXI, as coisas vão-se perdendo, portanto, vai-se começando a esvaziar este sentimento, sobretudo porque quem são os guardiões deste sentir, também vão saindo, vão abandonando o bairro, as pessoas vão envelhecendo, não há grande mudança, não há uma preocupação de passar aos mais novos… Não é que isso seja de forma intencional, mas, pronto, não há essa preocupação. Ou os mais jovens é que não estão de para aí virados, de quererem aprender como, de... Não sei, é difícil tentar encontrar a razão, mas ainda noto, noto. Por exemplo, há momentos que são impactantes, por exemplo, a questão do anúncio da demolição do Aleixo pelo Engenheiro Nuno Cardoso. A Associação ainda teve o poder e a força de fazer recuar o executivo da Câmara, coisa que depois já não conseguiu fazer, com o Rui Rio. O Engenheiro Nuno Cardoso ainda refez o que disse, fez um comunicado a dizer que “não é bem assim, aquilo que eu disse foi mal interpretado”, depois foi ao bairro, foi no célebre aniversário, dar a cara. Isto era preciso… Eu penso assim: quem é que hoje, qual é a Associação, e não é no Porto, é no país, que tem este poder de influenciar os dirigentes políticos? Eu recordo, por exemplo, foi uma perda tremenda não termos recebido o Presidente Jorge Sampaio no bairro. Estivemos ali em negociações. E não recebemos porque, na altura, a direção bateu o pé e disse: “Ah, o Presidente Jorge Sampaio vem, mas nós não queremos o Rui Rio cá”. E o Presidente é claro que não podia ir ao Bairro. Pronto, foi mal julgado, porque eu tinha a certeza absoluta de que se nós convidássemos o Rui Rio, o Rui Rio é que ia dizer que estava indisposto e que não podia comparecer, e tínhamos recebido a visita do Jorge Sampaio como Presidente da República. Recebemos o Mário Soares, mas já era como candidato a Presidente da República. Recebemos também… recebemos muitos políticos. Isso era outra coisa, pronto, lá está, esse dinamismo, de qualquer político que se prezasse, qualquer candidato à Câmara, a deputado, passava pelo Aleixo. E, é claro, tinha que passar ali pela entrevista com a dona Rosa. Era uma coisa que nem se consegue entender.
Porque é um bairro que tem características únicas, nasce num momento também único, tem uma Associação com essas características únicas… Mas, apesar de tudo, nem sequer é um bairro muito grande. É um bairro com 320 casas. Há bairros bem maiores aqui no Porto…
Há, exatamente, sim.
Mais antigos, também.
Acho que chegou a ter ali uma população, assim, nos tempos áureos, andava à volta de duas mil pessoas. Pronto. Há por aí freguesias que não têm tantos eleitores. Ali não tinham dois mil eleitores, obviamente. Mas passou ali gente… Miguel Portas, Francisco Louçã, Paulo Portas… Miguel e Paulo. E tanta gente, tantos candidatos à Câmara, o Pacheco Pereira, por exemplo… E agora era uma questão de eu pôr-me aqui a pensar nos nomes que lá iam ao Bairro, e que, pronto, acabavam, também eles próprios, acabavam por reforçar o estatuto da própria Associação e do Aleixo.
Nessa altura, [1]93, [19]94, [19]95, por aí fora, já existiam esses equipamentos sociais, era um foco grande da Associação…
Sim. A Associação tinha, nessa altura, o Jardim da Infância, o ATL, e tinha o Centro de Convívio para a Terceira Idade. E era alguma coisa do outro mundo, pronto, aquele Centro de Convívio, protagonizavam-se lá festas… O aniversário da Associação era uma coisa que ficava marcada, porque era um mês sempre de intensas iniciativas, e pronto, havia sempre o corolário, era o dia, o dia do aniversário. Era o dia 13 de maio, que é uma coisa engraçada, que eu nunca percebi. Havia também esta questão, portanto, aquilo... De um lado, esta característica tão política, a estrela vermelha, tudo, que nos leva para as ideias mais radicais; e, depois, o dia 13 de maio, que é o dia das aparições em Fátima. Portanto, eu nunca percebi exatamente porque é que... Eu acho que tem a ver com isso: é preciso não estar de mal com Deus [risos]… porque precisamos sempre da sua bênção. E o dia 13 de maio era assim, era uma festança, em que se convidavam os cantores de fado, Mário Rui, por exemplo. O Mário Rui era o nome máximo. Sempre aquelas cantigas muito ao sentimento, da mãezinha, da Ribeira, e as velhotas todas choravam baba e ranho. E depois, no fim, lá vinha ele com a mala com as cassetes, para fazer o negócio. Era uma coisa... As fotografias, que depois também era outro negócio… Outra coisa que é engraçada, não era a Associação que promovia estes negócios; a Associação não era… “Vamos fazer aqui um merchandising”. Não. Ou, por exemplo, as festas do Natal na escola primária. Fazíamos a festa do aniversário, e depois distribuíamos os lanches da Dancake. E depois, lá está, vinha a Maria José Azevedo, por exemplo, vereadora da Câmara do Porto. Depois fazia o discurso da praxe, também, dos dirigentes da Associação, dos políticos. Aquele polivalente, que era a cantina, enchia-se, estava lá o Bairro em peso. E eu nunca tinha presenciado assim nada, pronto, também porque, se calhar, a minha infância e juventude foi muito limitada, mas eu nunca tinha presenciado nada assim. Nunca tinha visto uma organização com aquela dinâmica. E, pronto, temos que reconhecer que a alma mater era a dona Rosa. É uma pessoa com as suas características, mas era uma líder, era uma líder nata. Há coisas que nascem connosco. Há outros que podem trabalhar muito, muito, muito, muito, e nunca lá chegam. E ela tem características próprias, que depois imprimia às suas realizações, pronto, às realizações da Associação. E todos cometemos erros, mas isso, adiante. O que interessa é que todos nós os cometemos.
Nessa altura também, nos anos [19]90, há, e tu até já me falaste disso noutras ocasiões, da parte da Câmara, precisamente, algum reinvestimento e algum...
Há, há. A Câmara criou uma comissão camarária específica para o Bairro do Aleixo, precisamente para resolver essas questões relacionadas com a questão da habitação, de que falava há pouco, das pessoas que viviam nas caves e nas subcaves, e nos barracos. E também os casos de sobreocupação, muita gente que vivia nos apartamentos. Portanto, mas também outro tipo de intervenção, [em torno] de outros problemas difíceis de resolver. O problema da toxicodependência, do tráfico e consumo de droga. O Aleixo também já era conhecido e era notícia por esse problema, na altura. Fez-se um trabalho... Eu digo o seguinte: eu, nessa altura, não estive obviamente presente, mas há um jantar de aniversário em que foi convidada a Dr.ª Maria José Azevedo, vereadora da Câmara do Porto. E ela, nesse jantar, terá dito que o Aleixo era a sua menina dos olhos. Eu não estive presente, não sei, nunca vi, mas eu acredito que ela terá mesmo dito isto. E depois, no fim do seu mandato, já no final dos anos [19]90, no início do século XXI, dizia, quando nós colocávamos os problemas do bairro, dizia “O Aleixo é mais um dos 50 bairros de que eu tenho necessidades para tratar”. Parece que não, mas houve aqui uma desilusão muito grande. Nota-se aqui, nestas palavras, que houve uma grande desilusão. Penso eu... Eu acredito que o investimento da Câmara deu frutos logo na questão, por exemplo, das barracas, e da questão das caves e subcaves. Resolveu-se. Paralelamente, a Câmara, na altura, fez aquele esforço tremendo com o PER, com o plano de erradicação das barracas, que resolveu por toda a cidade [muitas situações] e deu muitas oportunidades de mudança, de transferência. Isso também aliviou aquela pressão que existia no Bairro.
Saiu gente nessa altura?
Saiu, saiu.
Realojamento para outros bairros?
Para outros bairros, sim. Para o Bairro de Santa Luzia, por exemplo. Para a Mouteira. As pessoas foram saindo, para as Condominhas, por exemplo. As pessoas foram saindo, foram tendo essa oportunidade de resolver o seu problema. Depois, também outra questão, uma estratégia que foi usada, que era aquela estratégia de, tínhamos aqui uma habitação que era habitada por apenas uma pessoa, uma pessoa assim já idosa, sozinha, isolada. Então, muitas vezes, permitia-se que um casal jovem, ou alguém, fosse tomar conta daquela senhora, e depois ganhavam o direito a fazer parte daquele agregado e, no dia em que a senhora falecesse, podia ficar com a habitação. Isso também foi uma forma de se resolver. Portanto, houve uma intervenção. As reuniões que se faziam quase todos os meses, com todos os serviços da Câmara, os projetos de zelação dos espaços comuns, havia um morador que era o zelador da torre, que era responsável pela limpeza. Havia estas tais reuniões, em que estavam quase os setores mais importantes da Câmara a representar; estavam as obras, estava o setor social e, portanto, tratava-se de questões concretas. Falava-se até, muitas vezes, de problemas. Identificavam-se situações de risco. Falava-se de problemas, identificavam-se situações de risco. As informações chegavam, as informações eram comunicadas. Era tudo tratado com um enorme profissionalismo, porque não havia cá fugas de informação. Até era uma coisa que… eu assisti a algumas dessas reuniões.
Sempre com a Associação como parceira?
Sempre com a Associação. A Associação, no início, não foi parceira. Não sei, é sempre polémico, mas acho que tinha a ver com a forma como a Associação sempre geriu as coisas, de uma forma muito interventiva, sempre muito crítica. Se calhar, às vezes, é preciso ter uma posição mais diplomática. Acho que a Associação nunca teve muito... nunca fez muito esse caminho. Era mais um caminho de contestação. É claro que quem... Portanto, se, numa fase inicial, esse caminho era o caminho que tinha que ser, por força das circunstâncias revolucionárias, o processo revolucionário em curso, e depois do tempo que se seguiu a esse processo, havia respeito pela opinião das pessoas, havia uma democracia mais direta e tudo isso. À medida que a nossa democracia foi crescendo, também se foi, portanto, centrando mais nos momentos das eleições – a democracia é mais uma democracia de eleições, não tanto dar a palavra e dar a oportunidade às pessoas de resolver os problemas. É um bocado… É difícil. É sempre difícil ouvir as pessoas e integrar aquilo que elas querem. É sempre mais fácil governar a partir do gabinete. E a Associação nunca largou aquela sua intervenção inicial. E, portanto, eu acredito que isso também trazia problemas. E, inicialmente, a Associação não foi chamada ao processo. Não era chamada por essa razão. Mas não se conseguia fazer nada no Bairro sem a Associação. Isso... nem que não fosse por causa da Associação, depois, também, se fosse preciso, também poderia minar. Portanto, a Associação tinha que participar, que estar sempre envolvida. Porque era também a porta, era também a porta para as pessoas, para os problemas. Mesmo no tempo em que o Rui Rio foi presidente, doze anos, portanto, as relações ao alto nível não existiam. Mas, na base, continuaram sempre a existir. Portanto, quando qualquer técnico da Câmara queria resolver um problema no Bairro, era pela Associação. Portanto, eles não conseguiam intervir no Bairro sem terem a Associação. Portanto, a Associação depois foi chamada a participar e acho que se fez muita coisa. Depois, a própria Comissão transformou-se em projeto integrado do Bairro do Aleixo. Portanto, era financiado pel[os projetos de] luta contra a pobreza. A Câmara passou a ser um parceiro. Portanto, aí também houve uma alteração na dinâmica da intervenção.
Isso explica um certo esmorecimento? O que é que explica aquele esmorecimento da perspetiva da própria Câmara? Há bocado falavas nas declarações da Maria José Azevedo…
Eu não sei até que ponto qual era o desejo de resolver, quase por um passe de mágica, os problemas do Bairro. E depois, quando se vê que afinal as coisas continuam iguais… Não continuavam, não estavam iguais; mas, de quem vê de fora, continuava a haver os mesmos problemas. Os problemas continuavam a ser os mesmos. O problema principal era o tráfico e o consumo de droga. E, por isso, houve um certo, sei lá, acho que também um certo cansaço. Os próprios políticos também, acho eu, que se deviam cansar de estar sempre a fazer a mesma coisa [risos]. Às vezes, é preciso energia nova. A transformação da comissão camarária no Projeto Integrado do Bairro do Aleixo foi uma forma, acho eu, de encontrarem financiamento comunitário para muitas das intervenções que eles queriam continuar a exercer sem ter que ser diretamente do orçamento da Câmara. Foi um pouco por aí. Mas, pronto, também, se calhar, está relacionado com o passar dos anos.
E há depois essa declaração ou essa proposta do Nuno Cardoso, no final dos anos [19]90…
Certo.
…quando ele está como presidente da Câmara…
Exato.
…que, de alguma forma, também muda completamente a perspetiva, ou, pelo menos, introduz uma nova perspetiva…
Sim, isto foi em 2000 ou 2001.
Sim, ele esteve em 2000, 2001 como presidente, de 1999 a 2001.
Ele fez uma visita ali na zona de Ramalde, salvo erro, e disse que havia nos bairros problemas estruturais que só se resolviam com a demolição. Portanto, já não sei quem foi o jornalista que lhe fez a pergunta, “Então, e sobre que bairro é que, por exemplo, podia cair essa decisão?”. E ele disse o Aleixo. Portanto, aí criou-se quase uma bomba atómica a cair sobre o Bairro. Não é que não se tenha falado, e não se dissesse, que já outros tinham pensado na demolição do Aleixo. Havia quem sugerisse que o Ipanema, o Hotel Ipanema, poderia eventualmente ser construído ali na zona onde estava o Aleixo, e o Aleixo teria que ser demolido. Bem, nessa altura, isto foi alguém que teve assim essa ideia, não sei se isto é verdade, não é? Alguém teve essa ideia, e todos os outros acharam que era impossível pôr isso em prática. Com o Nuno Cardoso também aconteceu um pouco isso, porque ele faz aquela declaração e cai-lhe todo o mundo em cima. É porque foi um facto político aproveitado por todos os partidos políticos da oposição, que estavam na oposição da Câmara, e pela própria Associação. Portanto, aí, e mais o Partido Social Democrata, que já estava afastado da Câmara há tantos anos, aproveitou aquilo para, juntamente com aqueles escândalos todos, do Parque da Cidade e tudo isso… Na altura, a cidade, não sei se te lembras, mas estava muito em volta dessas escandaleiras da corrupção, ligada aos projetos imobiliários. Portanto, o Aleixo acabou por ser mais um exemplo de “Estes malandros querem acabar com o Bairro, porque querem contruir aqui habitação de luxo. Vejam lá se isto é possível, isto é inaceitável!”. E, portanto, foi esse o caminho que o Rui Rio, depois, como candidato, cavalgou, e fez ali, foi a partir do Aleixo, também, que ele quase que lança a sua candidatura à Câmara do Porto. Faz uma célebre visita ao Bairro do Aleixo, em que as pessoas queriam saber o que é que ele pensava sobre a demolição, e ele comprometeu-se: “Não há cá demolição nenhuma, isto é para entrar em obras, vamos fazer obras no Bairro, vamos requalificar o bairro, não há demolição”. E, quando ele venceu as eleições, numa das primeiras visitas… As visitas que ele fez foram premonitórias [risos], porque ele visitou, salvo erro, o São João de Deus, foram as duas primeiras visitas, exatamente, São João de Deus, que foi demolido, passado um tempo, e depois o Aleixo. E, portanto, ele, na visita no Aleixo, voltou a reiterar o que tinha dito em campanha, porque é um homem sério, é essa a imagem que ele sempre construiu enquanto político, e mandou passar a escrito. Pronto. E, homem sério que é, quando foi confrontado com isso, passados uns anos, quando veio anunciar a demolição… Foi assim, uma jornalista ligou à dona Rosa, na altura, a dizer, “Olhe, sabe, fomos chamados para uma conferência de imprensa, a Câmara do Porto acho que vai denunciar a demolição do Aleixo”. E a dona Rosa disse “Então, olhe, vou-lhe mandar já o compromisso que ele celebrou, vou-lhe mandar a carta, assim sabe…”. E, quando ele foi confrontado, na conferência de imprensa, engasgou-se logo. Mas já não podia dar o dito pelo não dito. E, nas eleições autárquicas, portanto, no final desse mandato, ele fez um acordo com o parceiro, suspendeu, por assim dizer, o compromisso, e submeteu às eleições. Foi também um ato político muito inteligente, porque, ao fim e ao cabo, ele perdeu essa luta, porque o que ele dizia era “Quem for a favor da demolição, não vota em mim. Quem for, vota em mim”. E ele perdeu. Porque, se somarmos os votos de todos os outros que eram contra a demolição, o candidato do PS, Elisa Ferreira, o engenheiro Rui Sá, da CDU, e todos os outros, se somarmos os votos, ele aí, se isso fosse um referendo, ele teria perdido, por referendo. Mas, como ganhou as eleições, pronto, deu continuidade ao processo.
Essa parte é muito importante, porque nos permite não apenas falar dos últimos anos do Bairro, mas, também, ao mesmo tempo, da maneira como a Associação teve que lidar com essa situação, que fez também mudar muito a Associação e a própria maneira como foi conduzido o trabalho. [Mas, voltando ainda atrás, obviamente que a] Associação tinha essa atividade toda de âmbito mais político, vamos dizer assim, quanto às questões da habitação, quanto às questões da vida do Bairro, da reabilitação do Bairro, da intervenção social que ali era feita; mas também tinha esta parte de cultura, de desporto, de recreio muito enraizada. Vamos falar um pouco disso. O que é que faziam? As festas, os passeios…
Os passeios. Por acaso, nunca participei em nenhum, mas eram históricos. Portanto, as pessoas faziam passeios com o apoio da Câmara. A Câmara disponibilizava o transporte e todos os anos iam a Fátima. Pronto, essa visita a Fátima era sempre um dos passeios, a parte religiosa, os comes e bebes. Depois era engraçado, as senhoras, as velhotas, o que faziam, [falavam] dos que guardavam a comida na mala [risos], os tupperwares, essas coisas todas. Era assim uma diversão tremenda. Portanto, os passeios, as festas dos aniversários, a festa de Natal, todas as oportunidades eram o momento de fazer uma festa. O plano de atividades eram as festas, era organizado em razão do Natal, da Páscoa, do Carnaval, do São João, do aniversário, portanto, aqui, começávamos mais ou menos em fevereiro e só terminávamos no mês das férias. Depois, havia também a colónia balnear… A colónia balnear também era uma coisa… Depois, também metia as crianças, quinze dias para a praia, mais uma vez com a camioneta da Câmara. Tudo isso acabou, a partir do ano 2000, acabou. Agora, estava a tentar lembrar o nome do vereador que tinha o pelouro… Luís Oliveira Dias. Também é outra coisa, quando vamos falar das questões políticas, o que fosse preciso, era fazer um telefonema e as coisas apareciam, assim [estala os dedos]. Estavam sempre todos disponíveis, portanto, tínhamos sempre aquelas camionetas reservadas, lá íamos nós para a Praia da Memória, ou para Gaia, ou para onde quer que fosse, e era uma dinâmica... que nós hoje tentamos replicar, mas não, já não tem comparação.
O desporto também era muito importante.
O desporto, sim. Os troféus que ali temos… o desporto era outra coisa. Ou aquele rinque onde nasceram grandes talentos, o maior deles todos o Fernando Cardinal, o jogador da seleção [de futsal], mas muitos outros. E havia ali miúdos, o Fernando Cardinal que me perdoe, mas tínhamos ali alguns miúdos que também tinham um talento, só que, pronto, lá está, nisto do desporto, não vale a pena nascer com o jeitinho, é preciso trabalhar. Não chega, não é? E o Fernando trabalhou e chegou onde chegou com o mérito que teve. Mas havia ali outros, e muitos outros que fizeram, e que jogam, ainda jogam, e tudo. E os próprios torneios que nós organizávamos, e nos torneios que participávamos, também. A Associação também tinha as suas equipas. Depois também tínhamos, obviamente, os carolas [risos], que dinamizavam esses setores, os treinadores, desde o Fernando Pinguim, o Jorge Amaral, e tantos outros. O senhor Joaquim, que depois roubou uma parte daqueles miúdos para o Miramar, que era um clube que estava a espoletar no futsal. E muitos outros, estava lá o Filipe Martins, que era filho do senhor Joaquim, que jogou também e que agora é treinador. Há todo esse dinamismo. E, por exemplo, os Rapazes do Aleixo, que participam agora até com os torneios de futebol, organizados, até bem organizados, e tudo mais, e há uma equipa, que são os Rapazes do Aleixo, que ainda representam o Bairro, que não têm nenhuma ligação à Associação, mas que continuam essa vertente mais desportiva.
Depois, então, a partir dos anos 2000, há essa mudança. Falámos sobre a questão da proposta do Nuno Cardoso, que de alguma forma cria aqui um cenário possível, um horizonte para o bairro diferente, não é?...
Sim.
E depois isso é de alguma forma rejeitado, num primeiro momento, por Rui Rio. Mas, sobretudo depois da segunda vitória eleitoral, isso começa a ganhar...
Exato.
Entre 2001 e 2005 o bairro não tinha... pairava um pouco a ameaça, mas não se concretizou…
Exato. Portanto, ele depois, no final desse primeiro mandato, cumpriu finalmente o compromisso que tinha feito. Tinha feito o tal compromisso, que não havia demolição, e o Bairro seria sujeito a obras de requalificação. As obras de requalificação foram assim, por exemplo, pronto, só para inglês ver, colocou umas tijoleiras nos patamares, fez uma intervenção ao nível da distribuição da água, mudou ali a canalização, o sistema de canalização, mas pouco mais. Assim, de repente, que me recorde, foi uma coisa só mesmo para dizer “Eu fiz, está feito”, mas não era a obra de requalificação do Bairro que se pretendia. Quer dizer, às vezes, eu ponho-me assim a pensar, do ponto de vista da teoria da conspiração, o Nuno Cardoso falou na demolição, mas depois comprometeu-se com algo que até, inclusivamente, quando o Nuno Cardoso foi candidato, depois, a Associação, até conversando com o Nuno Cardoso, portanto, o Bairro até ser demolido, mas, no mesmo lugar, ser construído um novo Bairro. E, inclusivamente, foi esse o compromisso que ele estabeleceu com a Associação, em 2001. Foi, portanto, que só se avançaria com a demolição se fosse possível construir no mesmo lugar um novo bairro. Um bairro que não fosse em altura, portanto, basicamente, a ideia era pegar nas torres e deitá-las. E, se isso fosse possível, mantendo a mesma densidade, por assim dizer, se calhar não era, não sei agora, o projeto que está agora, tudo é possível, não é?, mas, naquela altura, até se olhava para o desenho das torres, deitar as torres, como é que isso era possível ali naquela zona, calhar não era possível manter as 320 casas, havia esse cuidado da densidade ali, que agora já, passados tantos e tantos anos, já não há problema nenhum. Portanto, já se pode construir o que se vai construir. Não sei se se vai construir, mas isso depois veremos.
Mas, de qualquer maneira, qualquer proposta de demolição abria um pouco a porta a mudanças muito significativas. Isto é, mesmo a proposta que quisesse ser demolir o Bairro para construir no mesmo local é uma proposta que, geralmente, não sai bem, não resulta bem, no sentido em que são a porta aberta para realmente remover as pessoas e elas não voltarem mais…
Claro, claro. Por exemplo, no Bairro Rainha D. Leonor, mais próximo daqui, é evidente, é evidente que isso estava sempre... É por isso, quando eu estava a falar que depois quando o Nuno Cardoso foi candidato, supostamente algumas conversas que podem ter existido, era num cenário de poder, obviamente, partindo desse princípio, dar a possibilidade às pessoas de escolher. Havia muita gente que, eventualmente, queria sair. Portanto, como muitas dessas pessoas, quando tiveram a oportunidade, saíram. Portanto, isso também… ninguém quer prender as pessoas no Bairro. Portanto, essa liberdade acho que deve sempre existir. Podia-se encontrar várias formas, podem-se encontrar várias formas de acautelar o direito que eu acho que os moradores dos bairros também têm. Porque há aqui uma ideia que os moradores dos bairros estão ali, então, por favor; o Estado-Providência dá aqui a esta gente pobrezinha a oportunidade de viver numa casa. Portanto, as pessoas têm que estar gratas, estar sempre ali a viver, até porque pagam uma renda simbólica, e não têm direitos nenhuns. Portanto, quando o senhorio, o senhorio todo poderoso, o senhor feudal, pegar no inquilino, agora tu vais daqui, pum, para ali, o coitadinho tem que se submeter à vontade. É um pouco esta visão, que se, no início, portanto, na vida do Bairro, era impensável, à medida que o tempo foi passando, isto foi fazendo o caminho. E hoje, isto é o caminho. Nós continuamos a ter alguns problemas de habitação que nos vêm calhar aqui assim à mão. Há coisas que eu não entendo, por exemplo, imagine-se uma família que vive no Bairro do Cerco, mas que tem toda a sua vida aqui em Lordelo, e a pessoa vai à Câmara e pede: “Uma transferência para Lordelo, por favor”. “Ah, não pode. Não, não. Não, porque quando você aceitou a casa no Cerco, já sabia que era para ficar no Cerro”. “Mas eu largo a casa do Cerco, e vocês depois ocupam a casa do Cerco com outra família. E eu vou para uma casa velha em Lordelo”. Qual é a dificuldade? Se tenho os filhos a estudar nas escolas de Lordelo, se o apoio, a retaguarda familiar, está em Lordelo, qual é a dificuldade de fazer isto? É abrir uma porta? É dar trabalho aos técnicos de fazer aquilo que acho que é a sua competência? Portanto, isto, a Domus Social transformou-se num organismo quase sem coração. Coisa que não era assim. Acho que isto começa a acontecer desta forma, lá está, também nesse processo de mudança, ali no início do século...
A questão da habitação é transferida para uma empresa municipal…
É.
…quando estava dentro da Câmara, até à altura da criação da Domus Social.
Sim. Portanto, antes disso, não se chamava Domus Social. Pronto. O Rui Rio veio à organização da Câmara, veio colocá-la num patamar, assim, eu acho que isso, também, é preciso reconhecer…
Mas numa lógica mais empresarial, também.
Pois, é isso. Portanto, não há sentimento. Há um objetivo. Portanto, os casos, as soluções não são casuísticas. Não se resolve de forma casuística. Isso disse-me uma vez o vereador Paulo de Morais. Eu andava lá atrás dele para lhe entregar uma carta, lá na visita ao Bairro, porque isso era uma coisa… A dona Rosa, “Ah, e tal, tenho que fazer uma carta aqui aos funcionários, não sei o quê, depois vocês vão lá e entreguem uma carta”. Do género, vamos tentar separar, o objetivo era o mesmo, mas separar aqui, nós fazemos o nosso trabalho, vocês fazem o vosso trabalho... Portanto, tinha a ver com o apoio à Associação. Eu andava com a carta, lá lhe disse, “Senhor doutor, tenho aqui uma carta para entregar aos funcionários”, “Mas já sabe qual é a nossa posição”, “Mas não vai receber a carta?”. É uma coisa que não passava pela cabeça de ninguém, não receber a carta. Nem que fosse pegar na carta e rasgar a seguir, sem que eu visse, ele rasgá-la. Mas, não, não. Isso foi um pouco ali, assim, uma postura de frieza, de distância, que se começou a sentir. Isto ainda foi no primeiro mandato [de Rui Rio], porque ainda tínhamos aí relações institucionais com a Câmara. A direção da Associação ainda tinha relações institucionais com a Câmara. Depois, elas deixaram completamente isso.
A Associação tinha os seus serviços, nessa altura, que continua a ter, não é? A creche, o jardim-de-infância, o centro de convívio. E essa relação, digamos, institucional estava a alterar-se, nessa altura…
Tremendamente. Porquê? Porque uma das afirmações do doutor Rui Rio é que era contra a subsidiodependência. São coisas que nos ficam na memória para sempre. Nós éramos todos subsidiodependentes. Nós recebíamos subsídios da Câmara, então éramos subsidiodependentes. Os subsídios que nós recebíamos eram para nos ajudar a fazer o trabalho social. Porquê? Porque, obviamente, nós éramos financiados pela Segurança Social, mas o financiamento da Segurança Social, ainda hoje, a CNIS ainda fez, no dia 15, o seu aniversário, não é? A Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, o Padre Maia, volta a falar das dificuldades. Porque as dificuldades, elas são sempre prementes, existem sempre, por uma razão muito simples: é que nós, se fabricássemos sapatos, aumentávamos o preço do sapato. No caso do serviço que nós prestamos, estamos sempre muito dependentes do financiamento da Segurança Social. Porque aquilo que são as receitas próprias, aquilo que os pais, eventualmente, pagam, ora bem, se nós temos que colocar como critério número um da admissão a pobreza da família, quer dizer, logo aí, estamos a dar um tiro nos pés, não é? Pronto. E, nessa altura, a Câmara o que é que assumia? Assumia que tinha que, como fazia com a Obra Diocesana, não nos deram nada, à Associação do Aleixo, que já não dessem à Obra Diocesana. A Obra Diocesana estava implantada em todos os outros bairros, praticamente todos os outros bairros da cidade. E tinham o financiamento da Câmara. E aquilo que nós pedíamos era, olha, nunca pedíamos de forma formal, mas acho que quem dirigia a Câmara, o Fernando Gomes, durante aqueles anos todos, depois o Nuno Cardoso, dando-lhe continuidade, foi, ora bem, se calhar, este ano merecem ter uma migalha. E, portanto, aquilo que nós recebíamos era apoio para a ação social, depois íamos buscar uns subsidiozecos para a cultura, lá está, para fazer esses passeios, e não sei quê, não sei que mais. Tínhamos o programa de zelação dos espaços comuns, também tínhamos um financiamento, e havia ali, também, umas migalhas que eram destinadas à organização contabilística do projeto. Mas, quer dizer, esta visão era entendida por Rui Rio como subsidiodependência. Então, cortou a direito. Cortou a direito connosco, cortou a direito, não sei se só connosco, cortou a direito pela cidade e também no Projeto Integrado do Bairro da Aleixo. Ele terminou quando terminou, portanto, era aquela última... O projeto tinha uma determinada duração, chegou ao fim e acabou morrendo. Foi substituído pelo quê? Por uma empresa de limpeza que fazia a limpeza, portanto, contrataram uma empresa privada para fazer a limpeza das torres, e por uma empresa de segurança que tinha um carro, que subia a Rua Carvalho Barbosa, ia para a Rua Arnaldo Leite, andavam os seguranças dentro do carro a fazer este percurso. Pronto. Nós éramos subsidiodependentes. Depois, vieram os outros, que se calhar também passaram a sê-lo, não sei. Não é? Porque era preciso também pagar esse trabalho…
A Associação tinha, entretanto, adquirido o estatuto de IPSS?
Já tinha, já tinha desde [19]87.
E era, sobretudo, essa a grande fonte de rendimento, através dos protocolos com a Segurança Social.
O subsídio da Junta também. E eram, portanto, as duas grandes fontes de financiamento: eram a Câmara e a Segurança Social. A Segurança Social, óbvio, de longe, a maior fonte de rendimento.
E isso tem um impacto depois na vida da Associação? Esses cortes têm um impacto nas atividades da Associação?
A Associação teve, de alguma forma, que se reinventar. Portanto, de que forma? Fomos procurar, na altura, outros projetos, por exemplo, o da luta contra a droga, com o IPDT [Instituto Português da Droga e da Toxicodependência]. Realizámos uns dois projetos. Já tínhamos antes feito com a Segurança Social, o Programa Ser Criança. Acabámos também um pouco aí a dar esse salto. E era a maneira de conseguir outro financiamento que nos ajudava a lidar com... E depois também, pronto, acho que a própria gestão tem de se adaptar às circunstâncias.
Talvez mais centrada nas respostas dos equipamentos sociais…
Exatamente. Pois, exatamente. Mas também foi na altura, salvo erro, em que começámos a ter também apoio do Banco Alimentar, não existia antes. Tivemos que ir à procura, obviamente, quem dirigia na altura a Associação, teve de procurar...
Nessa altura ainda era a Rosa Teixeira.
Era. Foi até 2012. 2012, 2013. Houve ali, entre 2012 e 2013, em termos diretivos, as coisas estavam assim…
Mas, ainda nessa altura, estamos a falar de meados da primeira década do século XXI, também havia alguma mudança geracional, se calhar as pessoas estavam a ficar mais velhas, a renovação é difícil…
É muito difícil de existir. É muito difícil de existir, as pessoas cada vez se tornam mais egoístas. Eu acho que nós vemos isso até, quem vive em condomínios, portanto, a primeira coisa que se faz é passar a gestão do condomínio para uma empresa privada e a segunda coisa que se faz é não ir às assembleias gerais. Portanto, isso era um pouco também uma característica da Associação. Das associações. Portanto, eu acho que esse estudo está feito. Basta ver quem é que constitui um tecido diretivo, e a Associação passou por esse processo, e eu, ainda hoje, também sinto essa dificuldade. Porque é preciso sempre dar algum do seu tempo, não é? É sempre preciso dar alguma coisa de nós. As pessoas, pronto, têm as suas rotinas, não estão muito para aí viradas.
Se calhar, o próprio ambiente do Bairro, as próprias relações de vizinhança, relações comunitárias, também eram diferentes nessa altura, ou não?
Quer dizer, quando as pessoas começaram a sair do Bairro, isso começou a notar-se cada vez mais. Portanto, à medida que o Bairro se foi esvaziando de pessoas, foi-se também esvaziando de sentimento. Quando foi, depois, o anúncio do Rui Rio, houve ali uma espécie de fulgor que veio ao de cima. E aí muitos jovens quiseram participar. Um deles é o Jorge Amaral. Ele assumiu, a partir dali, a secção desportiva, e organizava torneios com os rapazes lá do Bairro. Era ele que levava as equipas da Associação a fazer intercâmbios. Ir a Coimbra, foi a Coimbra, depois receber a equipa de Coimbra cá no Aleixo… E foi um pouco nessa altura. Nessa altura voltou o Bairro, o “Bairro está aqui!”. Aqueles momentos de aflição, não é? Mas, depois, o que eu notei que aconteceu foi que a estratégia que a Câmara usou foi uma estratégia que lançou dúvida na cabeça das pessoas. Isto é, portanto, havia ali um objetivo, que era o objetivo de nos unirmos todos e de darmos uma resposta, se tivéssemos uma resposta em bloco seria mais difícil, pensávamos nós, que o projeto da Câmara pudesse avançar. Mas, quando a Câmara começa a chamar inquilino a inquilino para tratar do seu assunto pessoal, rapidamente as pessoas esquecem a unidade. Portanto, quer dizer, “Vou resolver o meu problema, depois os outros que resolvam o problema deles”. O que é perfeitamente aceitável, até porque, nessas reuniões, eu nunca estive numa delas, mas acredito que foram… não foram reuniões muito saudáveis, portanto, havia uma certa pressão psicológica que estava implícita no sentido de as coisas serem conduzidas. E, depois, as derrotas que tivemos em tribunal, a primeira providência [cautelar], que acabam por não ser derrotas, mas que as pessoas entenderam como derrotas e foram aproveitadas como derrotas pelo adversário, que era a Câmara.
A decisão fica confirmada depois das eleições de 2009, não é?
Certo.
Rui Rio, em 2008, previamente às eleições, suspende a decisão, digamos, e, ao mesmo tempo, diz que se submete a sufrágio essa decisão, o que acontece em 2009, depois de ganhar as eleições, com maioria absoluta. Isto foi na altura em que eu conheci o Renato e comecei a fazer o trabalho no Bairro. E, portanto, eu, na altura, apanho o Bairro numa situação completamente conturbada, não é? E as pessoas muito alteradas…
E acho que isso ajudou no trabalho.
Sim, ajudou, ainda que... Eu ia à procura de algumas coisas que depois foram muito condicionadas, muitas declarações foram condicionadas por se viver aquele momento…
Sim.
Mesmo quando eu pedia às pessoas, e falo muitas vezes isto, quando pedia às pessoas que falassem um pouco sobre o seu passado, sobre a sua trajetória, desde os tempos da Ribeira-Barredo, as pessoas projetavam muito aquele momento presente, aquela tensão presente, em todas as suas memórias.
Exato.
E contavam uma história que era uma história muito influenciada pela ameaça de saírem dali, sobretudo as pessoas mais velhas, não é? Que era aquela hipótese de uma segunda deslocação.
Sim, uma segunda deslocação, exatamente.
E isso na altura, de alguma forma, afetou o trabalho, mas foi também interessante, porque as pessoas estavam mais disponíveis para falar. Estavam mais disponíveis para falar sobre habitação, para falar sobre...
Ah, outra coisa, não é? Portanto, foi o teu trabalho, o grande trabalho que se fez no Aleixo, mas outra particularidade é que a Associação sempre teve, que é importante dizer também, que é, tudo o que era trabalho proposto para a academia, nunca houve, acho que nunca houve, um “Não” que se dissesse. Portanto, desde o psicólogo Luís Fernandes até ao João Queirós. Portanto, houve muita gente que passou por lá, e que fez os seus trabalhos, as suas teses de licenciatura, os seus trabalhos de mestrado, os seus trabalhos para as cadeiras, disto, daquilo, de vários cursos. Ouviam sempre um “Sim”. Portanto, sempre tiveram essa resposta de favorável e sempre foram acolhidos pela Associação e sempre fizeram lá os seus trabalhos. Portanto, isso também é outro aspeto significativo, outro aspeto muito positivo que é de salientar.
[…] Por outro lado, nessa altura, houve um certo renascimento, um certo fulgor, como dizias, da Associação e da atividade da Associação, até publicamente, não é? Com as providências cautelares e com uma presença mediática mais forte, com uma voz que se quis fazer ali ouvir… Mas sentia-se também que algum deslaçamento das pessoas, algum cansaço, algum...
Eu penso que nós lidámos com o assunto de forma muito amadora. Nós éramos amadores, e nós tínhamos que ter tido um aconselhamento, tínhamos que ter um gabinete de imagem, de comunicação, que nos soubesse orientar. E estávamos a lutar contra um colosso. Quer dizer, o município do Porto tinha todos esses instrumentos, portanto, da própria Câmara, mas também externos, porque os serviços jurídicos a que a Câmara recorreu eram de uma empresa, que tinha sido a empresa, ou o gabinete, ou o escritório de advogados, que tinha feito os estudos, portanto, da Lei do Orçamento de Estado, que abria a porta para estas intervenções, como aquela que foi realizada no Aleixo. Portanto, isto num Orçamento de Estado dos governos de José Sócrates. Portanto, abriu a porta, e era essa sociedade de advogados que respondia aos processos em tribunal. Mas, depois, a própria forma como a assessoria, a imprensa da Câmara tratava tudo isto, as notícias que iam saindo na comunicação social. Era muito simples, era assim: quem estava contra a demolição, é porque tinha interesses escuros, é porque estava a querer defender o tráfico, é porque era assim, porque era assado, portanto, isto é muito difícil, foi muito difícil de lutar contra isto, porque uma pessoa notava que não havia… A própria sociedade civil abandonou completamente o Bairro, completamente. Portanto, houve ali naquele momento o Partido Socialista, e tal, que aproveitou ali umas quezílias internas, e tal, nós tivemos lá na altura, tivemos o Pedro Batista, tivemos o Orlando Gaspar, portanto, que eram candidatos à concelhia, o [Francisco] Assis, foram lá falar com os moradores, mas depois, na Câmara, o Assis, votou a favor da demolição. E depois, na Assembleia [Municipal do Porto, os deputados do PS] abstiveram-se. O Assis, que foi candidato agora, recentemente, para o Parlamento Europeu, veio cá, veio aqui fazer uma visita à Assembleia, e eu disse, “Oh doutor, ainda estamos zangados [risos]. Você veio cá, mas estamos zangados”. “Então porquê?”. “Então, já não se lembra, votou a favor da demolição!”. “É, pá!...”, não sei o quê, não sei que mais. Pronto, foi engraçado. É simpático e muito afável, mas lá deu uma desculpa qualquer, na altura disse “Tens razão, tens razão”. Pronto, mais isto para dizer que a própria sociedade civil, portanto, não se quis… Nós, às vezes, dizíamos assim, quer dizer, houve aí, sei lá, pessoas que até se foram amarrar às árvores, que as queriam cortar, ou que se… ou ali no Coliseu, também, mas, no Aleixo, não. E, aí o que falhou foi a forma como nós lidámos, a forma como se comunicava, fomos completamente amadores, e isto, depois, também passou para os próprios moradores do Bairro. Também, com o passar do tempo, foram saindo, foram às suas vidas… porque havia aqui um bocado a ideia que era o seguinte: “Eu, se for o primeiro a escolher, vou escolher o meu, se não me deixar para o fim; se me deixar para o fim, para onde é que eu vou? Assim, se tenho que ir, e tenho, pá, prefiro ir aqui para perto”, e, porque muitas pessoas tiveram essa oportunidade, foram saindo. E o Bairro foi-se esvaziando, foi-se esvaziando em tudo, em pessoas, em vida, depois o próprio Bairro também se foi degradando muito, muito, muito, muito, porque também não havia assim nenhum cuidado. Saía uma família, a família tirava as caixilharias todas das janelas. Portanto, o vizinho de baixo levava com a chuva toda, porque não havia caixilharias nas janelas. Portanto, o vizinho de baixo era mais um pretexto para acelerar o processo, para ir pedir à Câmara para sair o mais depressa possível.
Falham, também, depois, aquelas iniciativas em tribunal, as providências cautelares…
Sim, falharam. Pronto, e depois já não havia nada a fazer.
…e é demolida, depois, em dezembro de 2011, a primeira torre.
Sim, está aberto o processo que acaba por preparar, também no final do terceiro mandato, ainda bem que há limitação de mandatos, pronto, porque, no terceiro mandato, aí terminou.
Ainda nesse mandato, em 2013, há a demolição de uma segunda torre, a Torre 4.
Depois, quando o doutor Rui Rio… Só não demoliu a primeira torre, porque havia ali várias questões, que, do ponto de vista jurídico, iam atrasar o processo, e tal, porque ele não ia realojar ninguém da primeira torre, portanto, ia ali dar um conflito que não valia a pena, ficava para o próximo, para o próximo [executivo]. E ele próprio dizia, “Só o mais tolinho”… Não, ele dizia assim: “Nem o candidato mais tolinho vai interromper este processo”. Portanto, ele estava convicto que o processo tinha pernas para andar. Houve, de alguma forma, assim uma esperança, com o [novo presidente da Câmara Municipal do Porto] Rui Moreira. Portanto, aqui, nestas instalações, e eu disse ao senhor Presidente que precisávamos falar, precisávamos falar por causa da situação do Bairro, por causa da situação da Associação, e tudo isso, e ele disse “O contrato é para cumprir, mas é para cumprir por ambas as partes, pela Câmara e pelo consórcio”. Portanto, aquilo foi assim, o que é ele quer dizer com isto? Depois, percebemos mais à frente que fez uma auditoria, o processo ficou de alguma forma parado…
Tu tornaste-te Presidente nessa altura?
Sim, tornei-me Presidente em 2013. A Associação também, a própria associação, entre 2011 e 2013, passou por um momento muito complexo.
Um vazio diretivo?
Sim, por assim dizer. Portanto, não havia eleições, isto é, o último mandato terminara em 2011.
Coincide também com a primeira demolição, que também não é um período fácil…
Pois, não era um período fácil, portanto, era difícil ter pessoas que se constituíssem em lista. Portanto, de acordo com os estatutos, os estatutos, nesse aspeto, dizem que o mandato sai prorrogando até que… e o “até que” nunca mais se concretizava. Portanto, as pessoas que eram os dirigentes, ainda se iam mantendo, davam algum quórum para que as coisas se fossem fazendo, não é? Mas, depois, começámos a ter pressões da própria Segurança Social, dos bancos, começavam a olhar para a documentação e começavam a ver que ela estava a passar o prazo. E, então, foi aí que nós, em 2013, com a ameaça da demolição da Torre 4, onde tínhamos o jardim-de-infância, nós sabíamos que, se não encontrássemos uma solução para o jardim-de-infância, nós, os que estávamos, os funcionários, e eu também, como colaborador da Associação, sabíamos que, se não encontrássemos uma solução para o jardim-de-infância, a Associação morria. Porquê? Porque íamos denunciar o acordo de cooperação do jardim-de-infância, portanto, aqueles funcionários passavam todos para o ATL, por uma questão de antiguidade, algumas pessoas tinham que ir à sua vida, portanto, com direito a indemnizações, obviamente a Associação estava numa situação muito complicada do ponto de vista financeiro, porque o fim daqueles apoios começava-se cada vez mais a sentir, ano após ano. Tínhamos ali uma situação muito complexa e, então, foi nessa altura, foi nesse contexto, que pensámos, que tínhamos de ser nós a tomar uma solução, temos de ser nós a tomar isto em mãos, e a avançar. E, portanto, assim fizemos.
Os funcionários e colaboradores tiveram uma...
Funcionários, ex-funcionários, dirigentes, por exemplo, o caso do senhor Davide [Duarte], que se manteve. Outros novos, não é? Pronto, apresentámo-nos a eleições, foi uma coisa muito engraçada. Foi engraçada, quer dizer, no sentido em que nós andámos a recolher assinaturas, e aquilo que dissemos às pessoas foi muito claro, o nosso objetivo não é lutar contra o fim do Bairro, realmente já todos estávamos convencidos, era lutar pelos equipamentos sociais.
Ou seja, não se propuseram no sentido de continuar o processo de parar a demolição.
Sim, sim, sim. Pelo menos, não dissemos, não é? Não dissemos uma coisa, nem dissemos a outra. O que nós dizemos é, portanto, o nosso objetivo é salvar a Associação, salvar os equipamentos sociais, é, de alguma forma, dar a estas pessoas que trabalham há tantos anos na Associação, nos equipamentos sociais, dar-lhes alguma garantia de futuro. E essa garantia poderia ser uma morte digna. Portanto, a certa altura, era um pouco a expressão que eu utilizava nas conversas que tinha com os dirigentes da Domus [Social]. Acho que a Associação, por tudo o que tinha feito, merecia ter uma morte digna. E uma vez, quando digo isto, há uma pessoa da Câmara que me diz: “A Associação não precisa de morrer (…), a Associação tem que encontrar um outro caminho”. Portanto, ao fim e ao cabo, o que ele estava a dizer é, se nós nos reinventássemos, com uma nova direção, se calhar, poderíamos... E foi mesmo assim. Portanto, quando nós nos apresentámos, quando dissemos isto, depois de uma reunião seguinte que tivemos, também dissemos, “Vamos fazer uma lista”. A primeira preocupação foi decidir quem que ia ser o presidente. E quem é que vai ser o presidente? Eu disse… “O presidente, bom, vou ter que ser eu, pronto, dadas as circunstâncias”. Portanto, anuíram, concordaram com... (…) Então, nós estávamos... Porque o nosso objetivo, nós éramos muito pouco ambiciosos. Até para se perceber as circunstâncias em que nós estávamos, nós nem tínhamos coragem de pedir este edifício. Este edifício já estava disponível. Eu estava, tinha aqui umas associações, estava disponível. Porque essas associações só aqui estavam ao fim do dia, e tal, à noite, assim, e alguns dias por semana. E nós sabíamos que isto podia vir para cá. Mas nós pedíamos, ainda no Bairro, pedíamos, pedíamos que passássemos o jardim-de-infância da quarta torre para a terceira… E eles diziam, “Não, mas na terceira temos que fazer obras, nós não vamos fazer obras”. E então falámos aqui do edifício. “Vamos ver, vamos conversar”. E, quando eles vieram com a boa nova, foi [suspira]… Isto o jardim-de-infância. Porque ficámos lá com o ATL e com o centro de convívio. O centro de convívio na segunda torre e a ATL na terceira. Então veio para aqui o jardim-de-infância. Foi ali 2013, foi ali uma... assim, respirámos fundo. E depois o alívio foi maior com a mudança no executivo da Câmara. O Manuel Pizarro, como vereador da Habitação, uma pessoa que nós conhecíamos há tantos anos, e éramos amigos… O Rui Moreira não, mas o Manuel Pizarro foi uma agradabilíssima surpresa. Quer dizer, de todos os presidentes, eu tenho de dizer isto, mesmo com o Rui Rio, a Associação sempre teve uma relação muito boa. O Rui Rio, depois, é que as coisas foram noutro caminho. Porque a Associação teve sempre uma boa relação com os presidentes da Câmara. Fernando Gomes, Nuno Cardoso, os primeiros tempos do Rui Rio. Agora o Rui Moreira também, excecional. E depois quando, portanto, para o processo, nós ficámos ali no Bairro, ficámos à espera do que ia acontecer, e isso deu-nos tempo também de organizar as coisas, de pôr as contas da Associação em ordem. A Câmara tem-nos dado um apoio muito grande, porque a Câmara do Rui Moreira, no primeiro ano, fez um apoio, criou um… já não me recorda o nome. Nós fomos escolhidos, a nossa instituição foi escolhida para receber esse apoio. Portanto, isso foi também significativo. E ainda aqui há atrasado, ele esteve aqui, o Rui Moreira, e ele dizia-me assim: “Mas alguma vez eu disse que não a algum dos seus pedidos?!”. E isto a propósito da creche, e eu disse: “Não, não, o presidente, de facto, sempre me disse que sim, também não fiz muitos pedidos!...”. O mais importante é a creche, não é? Nós queremos aqui construir, sempre tivemos o apoio, desde 2019, quando saímos do Bairro e viemos para aqui, já com todos os equipamentos, menos com a terceira idade, portanto, a hipótese de vir para aqui também era uma coisa que nós acalentávamos, essa esperança, e conseguimos, e havia aquele sonho supremo que era a creche. Pronto, primeiro a medo de pedir o edifício todo, porque o edifício era partilhado, porque tinha aqui várias instituições, tinha o Rancho Folclórico de Lordelo, tinha o Núcleo de Defesa do Meio Ambiente, tinha o Povoar, tinha as próprias atividades da ADILO, do Contrato Local do Desenvolvimento Social… Portanto, nós estávamos aqui um bocadinho, tínhamos que partilhar um espaço. Ir para lá com o ATL significava que tínhamos que desalojar alguém, portanto, tínhamos sempre este medo de pedir e de ser mal interpretados. Quando é a própria Câmara que nos diz, nas reuniões que nós realizávamos com a Câmara, já na preparação para a demolição final do Bairro, quando a Câmara nos diz que o espaço vai ser para a Associação e nós vamos encontrar a solução para as instituições que lá estão…
Portanto, em 2013, tinham transitado para aqui com o jardim-de-infância, mantendo lá o ATL e o centro de convívio e, depois, em 2019, o Centro de Convívio fechou e para aqui passou o ATL e centraram aqui as atividades…
Foi isso.
Houve estes seis anos de interregno ainda…
Certo. De vida lá no Bairro e que nós procurámos também...
…entre o Bairro e estas novas instalações.
Sim, sim, exatamente. E que lá procurámos, lá está, voltar a reerguer a Associação. E o senhor Zeferino [dos Santos] teve um papel, como eu estava a dizer, tem um papel muito importante, porque ele foi o scouting, porque ele era um homem já muito dinâmico em certos aspetos no interior do Bairro, na organização de passeios da Associação, e tudo. Foi juntar o útil ao agradável, e voltámos a fazer, voltámos aos passeios. Depois, é claro, volto a dizer, também tem a ver com a personalidade de cada um de nós. Eu não tenho aquela, não tenho a personalidade da dona Rosa. Tenho as minhas limitações, também as reconheço. Procuro sempre tentar delegar em quem, portanto… O Jorge [Amaral] também nos continua a ajudar. O Jorge depois foi viver também para o Bairro da Pasteleira Nova. Essa ligação também acabou por se perder. Ele ainda continua a colaborar connosco, temos sempre cá o Fábio, o Jorge. “Ó Jorge, temos aqui convites da Junta de Freguesia…”, lá está a Associação representada por ele. “Ó Jorge, olha, recebemos aqui uns convites para um espetáculo de desporto”, sei lá, de luta, de MMA, que no outro dia fizeram no Palácio… “Dá-me cem bilhetes”. “Eu não posso pedir cem!”. Portanto, continuamos ligados a essas pessoas que já não vivem no Aleixo. Continuam ligados à Associação.
Então, é uma associação sem bairro…
Mas com gente.
Mas com gente.
O que importa, se calhar, isso é o mais importante, porque, realmente, somos uma associação de bairro sem bairro. Mas continuamos muito ligados a essas pessoas que ainda nos continuam a procurar, nem que não seja só, por exemplo, para matricular o filho no jardim-de-infância. E é uma coisa engraçada, ainda noutro dia comentava aí com uma pessoa, porque recebemos recentemente uma inscrição, de um menino, e tal, que a família era do Aleixo, e a avó era do Aleixo, foi nossa utente no centro de convívio. Vieram buscar a criança e tal, “Ó Sr. Renato”, não sei quê, não sei que mais... Ali aquela ligação àquele passado. E eu dizia a essa pessoa, comentava assim, que cada vez parece mais o Aleixo em ponto pequeno. Porque, portanto, essas crianças do jardim-de-infância, temos, atualmente, para aí quatro ou cinco que são de pais que viveram no Aleixo. No ATL é mais difícil essa ligação. Mas, no jardim-de-infância, as pessoas procuram-nos. Procuram a Associação do Aleixo. Houve também aí uma altura em que nós estávamos assim um bocado na dúvida. Se calhar é melhor começar do zero. Começar com uma coisa nova. E, por outro lado, se calhar é quase um lastro que nos... porque é um nome pesado, pejorativo, Bairro do Aleixo, e tal, nós queremos ter crianças, e assim. Mas também rapidamente nos convencemos que esse não é o caminho, o caminho tem que ser mesmo o de manter, nem que seja… somos a defesa, somos o bastião da memória do Bairro. O nome, esse, não o vamos largar.
Isso remete-nos para a última questão que eu acho que devíamos abordar, que é a do presente e futuro. Perspetivas da Associação. Nos 50 anos, olhamos para trás; mas o que é que se pode pensar para a frente?
Bem, o nosso grande objetivo é pensar assim, como em qualquer organização, fazendo aquela análise SWOT. Nessa análise, nós sabemos que há aqui muitos desafios. Nós estamos muito dependentes dos acordos de cooperação com a Segurança Social. A rede, quer a rede da pré-escola, quer mesmo a questão do ATL, vai muitas vezes da vontade política. Um dia destes, lá vem outra vez um... sei lá, vem por aí abaixo alguém que quer redimensionar a rede. E isso pode-nos trazer problemas de sobrevivência. Portanto, é preciso, nos próximos anos, nós temos que encontrar caminhos alternativos. Portanto, acho que a grande novidade, há duas grandes novidades. A primeira é o programa ProInfância da Fundação La Caixa. Está aqui em Lordelo. Veio para ficar. Tem, cada vez se vai alargando a mais famílias. Nós somos um dos parceiros. A nossa presença nas escolas do primeiro ciclo, na Pasteleira e aqui nas Condominhas, de alguma forma, tem também credibilizado o nosso nome. Portanto, tem que ir por esse caminho. Tem que ir pelo caminho de nos tornarmos cada vez mais uma instituição. Porque nós também passamos por esse preconceito. Sentimos isso. A saída do Bairro, havia muita gente que dizia: “Mas porque é que a Associação não acaba? O bairro acabou, a Associação acaba”. Havia muita gente que defendia isto. E não entendiam: “Porque é que vão dar este espaço à Associação? Mas a que propósito?”. Portanto, esse preconceito nós ainda o fomos sentindo. Mas, à medida que nós vamos afirmando noutras áreas, pelo trabalho que queremos desenvolver, sobretudo agora com a infância, isso acho que é o grande objetivo de futuro. Paralelamente, com a questão da creche, sendo certo que as coisas atrasaram-se… Porque aqui há uns anos atrás, se calhar em 2019, a realidade, a necessidade da creche na cidade… À medida que isto se for atrasando, eu também já tenho dito, se calhar, daqui a nada, não inauguramos uma creche, inauguramos um centro de terceira idade. Porque a creche, isto vai, ano após ano, as coisas vão atrasando. Tivemos agora, recentemente, uma reunião. Já tínhamos tido uma reunião há um ano, mais ou menos em fevereiro. E foram dadas todas as garantias. Portanto, essa reunião, é essa que tinha derivado desse tal encontro que eu tive com o Rui Moreira. Volta e meia, vou falar com o senhor presidente Rui Moreira. Ele diz-me sempre, pronto, ele está comprometido, mas não é ele que vem para cá colocar os tijolos. E, portanto, agora tivemos uma reunião recentemente, e eu acredito que, daquilo que me foi dito, da forma como está orçamentado, das coisas que estão internamente já lá avançadas, vai ser uma realidade. Vai ser uma realidade. E, com a creche, a creche vai-nos dar aqui também alguma garantia de futuro. Porque vai ter uma continuidade. A creche, o jardim-de-infância, o ATL. E depois paralelamente com outras coisas que temos que fazer mais. Uma necessidade que se nota aqui muito é, portanto, está sempre muito direcionado o pensamento para as crianças com dificuldades. E as outras, que não têm dificuldades, mas que não têm oportunidades de, por exemplo, de estudar, para poder ter uma média decente para um curso de economia, ou para medicina, ou engenharia, não sei que mais? Porque é que a solução para esses tem que ser sempre as vias profissionalizantes? Porque é que não se investe? É claro, sabemos que hoje uma explicação de matemática, por exemplo, ou física ou química, é um investimento que estas famílias, muitas vezes, não conseguem lá chegar. Isso é também um desígnio. Temos também que olhar para esses e também lhes dar, se calhar, aqui algum apoio por intermédio da Associação. E, para além de outras atividades, voltar à cultura, ao recreio, ao desporto...
Mas ligar a Associação também, se calhar, aos pais, às pessoas mais velhas…
Certo, isso também. Isso acaba por ser sempre um pouco difícil de fazer. Há essa memória, não é? As pessoas têm essa memória. Nós temos, portanto, a questão dos equipamentos sociais, mas isso é pouco. Isso é pouco. Pronto, também é um desafio. Acho que sim, religar com essas pessoas que foram viver para outros bairros. Como é que podemos fazer, como é que podemos chamar outra vez e fazê-los participar. Agora pode ser uma boa oportunidade, não é? Vamos aí pensar na questão da exposição de fotografia, e tudo mais, que acho que vai ter uma adesão significativa, porque as pessoas estão curiosas de se ver, portanto, de ter esses registos. Pode ser aí um primeiro passo. Nós, às vezes, também estamos um pouco fechados. Estamos, muitas vezes, a pensar no trabalho que fazemos, no trabalho diário. Por exemplo, no jardim-de-infância, nós temos limitação no número de utentes. Portanto, se nós temos as vagas todas preenchidas, não andamos aí a dizer “Venham cá e inscrevam os meninos”. Para quê? Para depois eles virem aqui e não terem vaga? Portanto, nós, nos últimos anos, temos tido essa capacidade de atrair crianças até de outros lugares, não é? Não necessariamente de famílias do Aleixo. E isso leva-nos a ficar também um bocadinho esquecidos. Temos que pensar em outras coisas. Temos que investir também nisso. Estes são desafios, mas este também é o último mandato que eu estou como presidente. Portanto, também tenho limitação de mandatos.
Como é que são as perspetivas da renovação?
Não sei. Tem que ser uma renovação interna. Tem que partir de… porque é sempre difícil. O que eu costumo dizer é que temos que ser nós a tomar isto em mãos. Temos que ser nós, temos que ser nós. Se não, portanto, o nós parte por quem?
Os funcionários...
Exatamente. É assim, de uma maneira geral.
E alguns carolas que se vão mantendo.
Exatamente. Porque, assim, a participação... continuamos com uma participação muito limitada. Portanto, são as pessoas que... Eu, no trabalho, neste trabalho burocrático, costumo tomar o exemplo de uma organização de um outro concelho. Eu não digo qual é a organização. O concelho também não é daqui do Porto, é distante, mas este é um trabalho… Têm tudo publicadinho na Internet. Tudo direitinho. Como se faz tudo. Portanto, temos esse aspeto de transparência, exemplo máximo. Portanto, quem quiser fazer as coisas como deve ser, como é que se convoca um ato eleitoral, fazem os documentos, os prazos, tudo. Eles publicam tudo. Mas, depois, se formos ler... Estamos a falar de, provavelmente, nesse concelho, que é um concelho pequenino, deve ser a instituição mais importante. Se formos ver quantas pessoas é que participam nos atos eleitorais... é pouca gente. É pouca gente. É quase como um candidato a eleições presidenciais que tem menos votos do que os membros da própria lista [risos]. Portanto, aqui acontece um pouco isso, também passamos por esse problema.
Claro.
Que é um problema…
São mais gerais, não têm tanto que ver com a vida da Associação, mas são problemas mais gerais de participação, ainda que, obviamente, aqui com este desafio de não terem bairro, não é?
Sim, mas bairros não faltam.
Ah, sim, sim, sim.
E os bairros que aqui estão, pronto, eles têm associações de moradores, mas, por exemplo, também são dependentes, por exemplo, o Bairro de Pinheiro Torres está dependente do presidente, o senhor José Teixeira, o senhor Teixeira também diz “Ah, não me apetece mais, já estou cansado”. Porque já não se consegue criar aquele lastro. E esse trabalho é que… Em tempos, em tempos muito antigos, a Câmara tinha um programa, que era o “Animar o Associativismo”, de formação dos associativistas, portanto, coisas práticas, e tal. Mas, se calhar, nós precisávamos era de atrair malta jovem para as associações, mas também, quer dizer, para dizer-lhes “Olha, vocês venham cá participar na Assembleia”, ou “Venham pagar a quota, depois venham participar na Assembleia Geral, e, daqui a seis meses, venham outra vez”. Parece quase como as eleições, depois as pessoas não votam, por algum motivo, então, aqui também não participam, por algum motivo. Porque nós, e aqui é uma autocrítica, porque, obviamente, que é muito mais fácil também para mim gerir quase sozinho, não é? Porque é mais fácil do que escolher formas de participação mais ativas, em que as pessoas se pronunciem mais. Pronto, em termos daquilo que é o governo, ou, por exemplo, as autarquias, os orçamentos colaborativos, e tudo isso, mas também, se vamos a ver, são caminhos, ou, nas escolas, a possibilidade de as associações de estudantes também participarem no orçamento, é uma forma de dar aqui alguma responsabilidade, e chamar as pessoas a participar. Mas, se formos a ver quem participa, pelo menos a falar aqui em Lordelo do Ouro, são sempre os mesmos a participar, e até pervertendo um pouco aquilo que é a essência do orçamento colaborativo. Nós também já pervertemos essa essência, que é ir pedir dinheiro para fazer obras para a nossa Associação. Onde é que está aqui o orçamento colaborativo? Portanto, não é…? Mas isso…
Também é interessante que a Associação de Promoção Social da População do Bairro do Aleixo, com as suas respostas, os seus equipamentos, seja agora uma associação para mais do que o Bairro do Aleixo…
Sim, sim.
É um foco engraçado, porque mantém o nome, não tem bairro, não há população do Bairro do Aleixo, no sentido mais estrito do termo, mas continua a trabalhar com pessoas, com as crianças, na zona…
Se calhar, vamos ter que, depois, um dia, quem sabe, mexer nisso, mas aqui é um processo assim um bocado…
Não deixa de ser uma contradição engraçada, que é ser a Associação de Promoção Social da População do Bairro do Aleixo a trabalhar para outras populações.
Nos estatutos, aqueles estatutos iniciais, diz-se mesmo lá que o objetivo, qual é o objetivo, a missão, é a “população do Bairro do Aleixo”. Portanto, isso, um dia destes, vêm cá bater-nos à porta [risos]. Portanto, se calhar, vamos ter que dar aí uma volta. E a volta está pensada, que é a Associação passar-se a chamar Associação de Promoção Social do Bairro do Aleixo. Portanto, o Bairro do Aleixo continuar a ser uma Associação de Promoção Social. Portanto, ou Associação Portuense de Promoção Social do Bairro do Aleixo. E manter essa ligação. Nós também já tivemos aí uma outra ideia, que, lá está, naquela lógica de – não é esconder, não é ter vergonha do nome do Bairro –, mas o querer chegar a outros públicos. Então, era chamar a este espaço CASULO – Centro de Ação Social do Lordelo do Ouro. Pronto, mas era essa forma de... isso, quando, para uns públicos, utilizávamos um naming [risos] e, para os outros, outro… Mas, e não quer dizer que não se possa vir a chamar a este centro social que nós queremos constituir aqui, com estas respostas sociais, com outro trabalho para além das nove horas às dezanove horas, ou das oito horas às dezanove horas, portanto, também aos fins-de-semana, atividades noutros horários, porque, num dos projetos, no projeto da obra da creche, também está, por exemplo, inscrita a possibilidade de fazer aqui à frente um campo desportivo, e nós podemos aproveitar isso para dinamizar, para fazer outro tipo de atividades desportivas, quem sabe, vamos ver.
Ainda uma questão: (…) o facto de seres professor do ensino básico também é bom para as respostas sociais que aqui estão. São respostas educativas.
Exatamente. São respostas educativas, então acho que me dá uma visão abrangente das coisas, da realidade.
Claro. O jardim-de-infância tem uma diretora técnica, não é?
Sim, é educadora de infância. Exatamente. Portanto, esse papel eu não assumo, nem no ATL, é mais na direção. Mas ajuda muito.
Exatamente.
Permite ter essa visão. Apesar de ser numa escola diferente. Isso parece que não, mas as pessoas que estão muito, muito, sempre na mesma escola, ficam ali, não é? Ali também ficam com uma visão muito limitada das coisas. Eu, no ano passado, estive em Braga, numa escola TEIP, com problemas muito específicos, relacionados com a comunidade de etnia cigana. Portanto, eu este ano estou aqui, no Francisco Torrinha. Estou a passar do 8 para o 80. Onde é que eu fui mais feliz? Onde é que eu tenho sido mais feliz? Portanto, são questões que depois derivam ali da massa humana que temos à nossa frente. E eu hoje tenho outro tipo de problemas. Tenho problemas mais do... do paizinho que olha para o professor como mais um servente, mais uma espécie de um criado. E que eu estou ali é para servir e, portanto, tenho que estar ao dispor… coisas assim extraordinárias. Aconteceram-me situações este ano que nunca me tinham acontecido antes. (…)
Mas, apesar de tudo, aqui a Associação permaneces sempre como uma referência, como uma base, digamos, da tua trajetória, não é?
Sim, e com as crianças. Isso é... Eu acho que eu sou uma pessoa afortunada. Porque faço as coisas... Eu gosto do que faço profissionalmente, como professor de ensino básico. Portanto, se me tirassem isso, acho que ainda hoje continuo, espero continuar até ao fim da minha carreira, porque é uma paixão o que faço; e depois tenho a Associação, e, no meio disto tudo, acho que há aqui um elemento comum, que são os miúdos. São os miúdos, que é isso que… Todos os dias dá-se, todos os dias há uma coisa nova. Todos os dias há um cliente novo. Nós tivemos um cliente, um miúdo, portanto, nós temos a ligação da escola para aqui, então os miúdos passam para cá, e vinha lá um, isto foi para aí há dois anos, e ele foi ali ao portão, que é aqui internamente, e disse a funcionária, “Desculpa, este menino não é nosso”. Assim, muito triste, e eu disse “Olha, como te chamas?”. “Salvador”. “Salvador, se queres ir para o ATL, tens que falar com a tua mãe, a tua mãe tem que ir ali para te inscrever”. Assim, dito e feito. No próprio dia, a mãe veio, mas nós não tínhamos vaga, no momento. “Vou pôr aqui o seu nome, contacto, mal tenha uma vaga, eu digo”. O puto, todos os dias, vinha ali: “Já há vaga?” [risos]. E eu disse assim à Teresa, que é a pessoa que também faz parte da direção, “Olha, Teresa, nós temos que arranjar uma vaga para esta criança. Não há vaga, mas passa a existir a vaga”. E ela disse “Ó, Renato, força”. Aceitámos o miúdo. (…) Portanto, assim é, todos os dias… Um miúdo que este ano nos tem dado água pelo caneco, arranja sempre algum problema, e precisa de um segurança [risos] para ver o que é que ele vai fazer a seguir. E depois perceber o que é que está por detrás, o que é que leva muitas vezes a estes atos, a esta revolta, e estes problemas, que são sempre os mesmos, isto não muda. Portanto, este tipo de cenário vai-se repetindo, com protagonistas diferentes, e nota-se muito, é uma necessidade muito grande, as questões da saúde mental, nota-se, de facto, que é uma área, estas crianças estão quase todas medicadas, ou, se não estão medicadas, estão à espera da consulta para, ou depois os próprios pais fazem experiências, tiram, metem, às vezes os pais são mais desesperados. “Não sei o que é que eu vou fazer, porque de caminho ele anda aí feito zombie”. De facto, ele não precisa de medicação, ele precisa de ter regras, ter limites, “Vocês têm que impor regras, impor limites”, mas acaba por ser difícil. Nós próprios temos muitas vezes muita dificuldade, que há dias aí um pequeno, eu não o posso segurar, eu também já não tenho vida [risos], já sei que não tenho vida para ele, então se eles são grandes… Eu aqui há tempos a tentar segurar um, quase que pensei que ia ter um colapso cardíaco, porque, com a força que ele estava a fazer, e eu a fazer a força. Fechámos os dois aqui dentro desta sala, para não deixar, que ele queria bater ao outro, para não deixar chegar a vias de facto, pronto, mas isto é uma animação, isto é uma animação, não há cá momentos mortos, nem tédio, é sempre a abrir.
Muito bem. Muito obrigado.
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