Cinco Horas
Um ensaio biográfico sobre a ativista e refugiada política no Brasil, Reina Malak Elhamidy — mulher trans marroquina, defensora dos direitos humanos, especialista em políticas públicas e desenvolvimento comunitário.
Conheci Reina muito antes de conhecer sua história.
Ao longo dos anos, acompanhei de perto seu trabalho político, suas viagens, suas reuniões, seus discursos e sua capacidade de transformar dor em mobilização. Vi seu compromisso diário com a promoção dos direitos das pessoas LGBTQIA+, das mulheres, das pessoas refugiadas e das trabalhadoras e trabalhadores do sexo, tanto no Marrocos quanto em espaços internacionais e, posteriormente, no Brasil.
Reina pertence a uma geração de lideranças trans marroquinas que escolheram a visibilidade em vez do silêncio. Em um contexto onde a simples existência pública já representa um risco, tornou-se uma das poucas mulheres trans marroquinas a exercer uma atuação política visível dentro do Marrocos e também em espaços internacionais de direitos humanos. Sua trajetória a levou a dialogar com movimentos sociais, organismos internacionais e redes de advocacy voltadas aos direitos humanos, ao refúgio, à justiça de gênero e à descriminalização do trabalho sexual.
Mas nenhuma trajetória começa pelo reconhecimento.
Ela começa pela sobrevivência.
Reina nasceu no Marrocos, onde sua existência como mulher trans nunca foi considerada neutra. Cada passo em direção à própria identidade também era um passo em direção à resistência política.
Seu ativismo não começou em um único protesto. Foi construído ao longo de anos de organização comunitária ao lado de pessoas historicamente marginalizadas, defendendo os direitos da população LGBTQIA+, das trabalhadoras e trabalhadores do sexo e de todas aquelas pessoas cujas vozes foram sistematicamente apagadas.
Ela aprendeu muito cedo que os direitos humanos nunca são simplesmente...
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Cinco Horas
Um ensaio biográfico sobre a ativista e refugiada política no Brasil, Reina Malak Elhamidy — mulher trans marroquina, defensora dos direitos humanos, especialista em políticas públicas e desenvolvimento comunitário.
Conheci Reina muito antes de conhecer sua história.
Ao longo dos anos, acompanhei de perto seu trabalho político, suas viagens, suas reuniões, seus discursos e sua capacidade de transformar dor em mobilização. Vi seu compromisso diário com a promoção dos direitos das pessoas LGBTQIA+, das mulheres, das pessoas refugiadas e das trabalhadoras e trabalhadores do sexo, tanto no Marrocos quanto em espaços internacionais e, posteriormente, no Brasil.
Reina pertence a uma geração de lideranças trans marroquinas que escolheram a visibilidade em vez do silêncio. Em um contexto onde a simples existência pública já representa um risco, tornou-se uma das poucas mulheres trans marroquinas a exercer uma atuação política visível dentro do Marrocos e também em espaços internacionais de direitos humanos. Sua trajetória a levou a dialogar com movimentos sociais, organismos internacionais e redes de advocacy voltadas aos direitos humanos, ao refúgio, à justiça de gênero e à descriminalização do trabalho sexual.
Mas nenhuma trajetória começa pelo reconhecimento.
Ela começa pela sobrevivência.
Reina nasceu no Marrocos, onde sua existência como mulher trans nunca foi considerada neutra. Cada passo em direção à própria identidade também era um passo em direção à resistência política.
Seu ativismo não começou em um único protesto. Foi construído ao longo de anos de organização comunitária ao lado de pessoas historicamente marginalizadas, defendendo os direitos da população LGBTQIA+, das trabalhadoras e trabalhadores do sexo e de todas aquelas pessoas cujas vozes foram sistematicamente apagadas.
Ela aprendeu muito cedo que os direitos humanos nunca são simplesmente concedidos.
São reivindicados.
Defendidos.
E, muitas vezes, pagos com um preço alto.
Em 25 de junho de 2023, sua vida mudou para sempre.
Durante uma manifestação pública por direitos humanos, em Casablanca, Reina ergueu a bandeira LGBTQIA+ em defesa da descriminalização do amor, da liberdade e do direito de existir.
Foi a primeira vez que a bandeira LGBTQIA+ foi levantada publicamente durante um protesto político no Marrocos.
O gesto durou apenas alguns instantes.
As consequências permanecem até hoje.
Em poucas horas, as imagens haviam circulado por todo o país. As ameaças se multiplicaram. A vigilância policial se intensificou. Amigos e advogados lhe disseram que sua prisão era iminente.
Ela tinha menos de cinco horas para partir.
Saiu levando quase nada.
Deixou para trás sua casa, sua língua, sua comunidade, sua gata Dolce e a possibilidade de uma despedida.
Não deixou seu país em busca de uma vida melhor.
Nem por novas oportunidades.
Partiu porque queria continuar viva.
Naquele momento, existiam apenas duas possibilidades:
A prisão.
Ou o exílio.
Costuma-se dizer que o exílio é atravessar uma fronteira.
Mas a experiência de Reina mostra que o exílio começa depois da travessia, quando é preciso reaprender a existir em um lugar onde tudo — a língua, as leis, a cultura e os afetos — parece desconhecido.
Foi o Brasil que lhe ofereceu proteção quando seu próprio país já não podia fazê-lo.
Aqui foi reconhecida como refugiada política.
O recomeço, no entanto, esteve longe de ser simples.
Recomeçar significou reconstruir uma vida inteira do zero. Aprender uma nova língua. Enfrentar instituições desconhecidas. Conviver com a burocracia, com a incerteza e descobrir que estar em segurança não significa deixar de sentir solidão.
E, como tantas pessoas que atravessam fronteiras carregando apenas esperança, Reina também procurou o amor.
Depois de anos ocupando espaços de liderança, tomando decisões difíceis e sustentando responsabilidades coletivas, desejava apenas encontrar alguém diante de quem pudesse descansar.
Alguém ao lado de quem não precisasse ser, o tempo todo, a ativista.
A líder.
A porta-voz.
Queria apenas ser acolhida.
Em uma das muitas conversas que tivemos ao longo desses anos, fiz a ela uma pergunta movida pela curiosidade.
Depois de acompanhar sua coragem diante de perseguições, ameaças, deslocamentos forçados e violência política, perguntei:
“O que é capaz de derrubar a Reina?”
Ela sorriu.
Por um instante, seus olhos se encheram de lágrimas.
Parecia lutar silenciosamente para impedi-las de cair.
Então respondeu:
“Só o amor pode me destruir. O ódio nunca conseguiu. Contra o ódio eu aprendi a ser forte. Mas diante do amor… eu continuo vulnerável.”
Naquele instante compreendi algo que anos de militância jamais haviam revelado.
O mundo conhecia Reina como uma defensora de direitos humanos, uma organizadora política e uma mulher que enfrentava estruturas de poder.
Mas, antes de qualquer símbolo de resistência, existia uma pessoa.
E talvez sua maior força nunca tenha sido a ausência de fragilidade.
Talvez sua maior força tenha sido continuar amando, mesmo depois de tudo.
Essa experiência lhe ensinou que o amor assume muitas formas.
Ele vive nas amizades.
Nas famílias escolhidas.
Nas comunidades que se recusam a abandonar umas às outras.
No cuidado coletivo.
Na solidariedade.
E nas pessoas que nos lembram quem somos quando a dor tenta apagar nossa identidade.
Hoje, sua luta continua em outro continente.
No Brasil, Reina dedica sua atuação à construção de políticas públicas e mecanismos de proteção para pessoas refugiadas e migrantes LGBTQIA+, especialmente aquelas provenientes da região SWANA, além de pessoas refugiadas envolvidas no trabalho sexual , grupos que permanecem amplamente invisibilizados nas políticas públicas e nos debates institucionais.
Sua história demonstra que a perseguição não encerrou sua trajetória.
Apenas mudou o idioma da luta.
Cada reunião.
Cada audiência.
Cada proposta de política pública.
Cada pesquisa.
Cada escuta comunitária.
Cada articulação.
Tudo isso representa a continuidade daquele gesto iniciado em Casablanca.
Quando perguntam se sente saudades de casa, sua resposta raramente é geográfica.
Porque, para Reina, casa nunca foi apenas um território.
Casa é pertencimento.
Ela vive na língua que continua carregando consigo.
Nas memórias que recusam o esquecimento.
E em cada pessoa que insiste em existir, mesmo quando o mundo lhe diz que não deveria.
Reina perdeu um país.
Mas encontrou um propósito que nenhuma fronteira foi capaz de limitar.
Continua…
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