RACISMO ESTRUTUTAL
Eu sou o oitavo filho de 18 filhos de uma mulher empregada doméstica, casada com um pedreiro. A vida da minha mãe foi trabalhar como empregada doméstica, e o tempo todo eu via as humilhações. Minha mãe não tinha horário de chegar: tinha hora de sair e hora de chegar, mas não tinha folgas. Sempre trabalhou em casa de família.
Eu quis estudar. Entrei na escola tarde, mas estudava para que as histórias não se repetissem. Fui pai muito precoce e tinha muito medo de ficar desempregado. No início dos anos 2000, em vez de ir para a universidade, eu tive que trabalhar como empregado doméstico: eu fui caseiro. E nessa casa eu vivenciei todo tipo de humilhação. Mas sempre fui firme nos meus posicionamentos. As regras e as orientações eu seguia, mas eles podiam me humilhar — eu é que não me fazia humilhado.
Havia uma regra na casa: no fim de semana, quando eles viajavam, a gente não podia sair. Lá eu ocupetizei muitas meninas. Eu vi meninas sendo estupradas. Ao mesmo tempo, eu vivia maus-tratos. A casa era pensada como uma casa de engenho: a casa do patrão ficava bem acima; depois vinha o quarto das empregadas domésticas (a babá e a cozinheira); depois o canil; e depois, só então, a minha casa, o quartinho. Era tudo bem pensado. Qualquer barulho ou movimento de violação passava primeiro pelo meu quarto. Os cachorros ainda estavam em situação de privilegiados em relação a mim.
Mas eu sempre observava a estrutura e dizia: “Isso não vai ser pra mim.”
Quando era feriado prolongado — por exemplo, a partir de uma quinta-feira —, na quarta-feira à noite começava o ritual do “separativo”: eu descia mochilas e malas para o carro do patrão. Eles deixavam minhas comidas congeladas de quinta, sexta, sábado e domingo. Quando ele saía, me mostrava as regras, e eu observava. Depois que ele partia, eu dava uma hora, tirava galinha, frango ou carne para descongelar e fazia o meu almoço: meu banquete....
Continuar leitura
RACISMO ESTRUTUTAL
Eu sou o oitavo filho de 18 filhos de uma mulher empregada doméstica, casada com um pedreiro. A vida da minha mãe foi trabalhar como empregada doméstica, e o tempo todo eu via as humilhações. Minha mãe não tinha horário de chegar: tinha hora de sair e hora de chegar, mas não tinha folgas. Sempre trabalhou em casa de família.
Eu quis estudar. Entrei na escola tarde, mas estudava para que as histórias não se repetissem. Fui pai muito precoce e tinha muito medo de ficar desempregado. No início dos anos 2000, em vez de ir para a universidade, eu tive que trabalhar como empregado doméstico: eu fui caseiro. E nessa casa eu vivenciei todo tipo de humilhação. Mas sempre fui firme nos meus posicionamentos. As regras e as orientações eu seguia, mas eles podiam me humilhar — eu é que não me fazia humilhado.
Havia uma regra na casa: no fim de semana, quando eles viajavam, a gente não podia sair. Lá eu ocupetizei muitas meninas. Eu vi meninas sendo estupradas. Ao mesmo tempo, eu vivia maus-tratos. A casa era pensada como uma casa de engenho: a casa do patrão ficava bem acima; depois vinha o quarto das empregadas domésticas (a babá e a cozinheira); depois o canil; e depois, só então, a minha casa, o quartinho. Era tudo bem pensado. Qualquer barulho ou movimento de violação passava primeiro pelo meu quarto. Os cachorros ainda estavam em situação de privilegiados em relação a mim.
Mas eu sempre observava a estrutura e dizia: “Isso não vai ser pra mim.”
Quando era feriado prolongado — por exemplo, a partir de uma quinta-feira —, na quarta-feira à noite começava o ritual do “separativo”: eu descia mochilas e malas para o carro do patrão. Eles deixavam minhas comidas congeladas de quinta, sexta, sábado e domingo. Quando ele saía, me mostrava as regras, e eu observava. Depois que ele partia, eu dava uma hora, tirava galinha, frango ou carne para descongelar e fazia o meu almoço: meu banquete. Sentava para comer feito rei todos os dias em que eles estavam fora.
Quando eles voltavam e abriam o freezer ou a geladeira, viam que a comida deixada estava intacta e outra comida havia sido feita. Eles faziam sermões, e eu dizia: “Se quiser que eu fique na sua casa, eu preciso comer bem. Eu já fico aqui sozinho tomando conta da sua mansão; então, eu preciso comer bem.” E comecei a peitar, a enfrentar. Tenho orgulho disso, porque meus colegas que trabalharam lá sabem que eu fui o funcionário que os peitou — e que fazia as minhas ‘festas’ em pró daquela humilhação.
Foi lá também que eu consegui alfabetizar muitas meninas. Eu vi estupros de meninas que vinham do interior para trabalhar naquela casa. E foi lá que tudo terminou quando eu passei no vestibular e abandonei aquele emprego.
Mas tem uma cena de que me recordo: a casa era pensada nessa estrutura, e eu ficava num quartinho escuro, no fundo. A réplica da casa-grande se exalava ali. Faltava só a chicotada. Mas eu nunca baixei a cabeça; nunca fui subversivo a ponto de provocar mais torturas.
Um dia ele fez uma reunião e disse que, a partir daquele momento, ia me chamar com um sininho, porque eu ficava muito distante do quarto dele. Eu respondi: “O senhor não vai me chamar por sininho de jeito nenhum. Eu não aceito.” As meninas baixaram a cabeça, e eu reafirmei: “Eu não vou aceitar ser chamado por sininho. Se me chamar assim, eu não vou. Eu não sou gado. Eu não sou animal. Pode me chamar pela voz, porque eu tenho duas orelhas grandes — minha mãe sempre disse que eu tinha ouvido de tuberculoso.” Não aceitei. Depois, as meninas começaram a rir. Elas perceberam que esse tipo de conduta, essa manifestação de mais humilhação, eu não admitiria.
Depois me tornei professor. Dei aula para a filha do meu antigo patrão. Anos depois, trabalhando na rede particular, encontrei essa garota, e ainda cheguei a ser babá dela nas horas vagas. Tenho muito orgulho da minha história. Acredito que isso ainda acontece em muitos lugares. Fico triste porque sei que esse ciclo ainda se repete pelo Brasil afora. Mas fico feliz e orgulhoso por não ter continuado nele e por ter mudado a minha própria história — e a de muitos amigos e muitas meninas que trabalharam lá.
Infelizmente, esse ainda é um recorte que muita gente desconhece ou acha que é ficção. Mas ainda existe por todo o Brasil, assim como eu tive a necessidade de trabalhar. Eu dizia: “Eu estou empregado doméstico, mas eu não serei empregado doméstico.”
Essa é a minha história. Uma história que me entristece porque ainda é o mapa de vida de muita gente, mas que também me orgulha por eu ter enfrentado a humilhação e transformado a minha trajetória.
Eu sou Jilvan Batista. Sou professor, jornalista, cientista social e doutorando em Ciências Políticas.
Tenho muito orgulho da minha história — e de poder contá-la como denúncia e como afirmação de dignidade.
.
Recolher