QUEM NÃO GOSTA DE HISTÓRIA DE AMOR, CONTINUA SE QUISER.
QUEM GOSTA, NÃO SE ARREPENDERÁ
Carlos Macena
\"Tinha dezesseis, quase dezessete anos. O Exército tinha transferido meu pai para Brasília em janeiro e ganhamos um apê top na 316 Sul. Carioca, Portela e, antes que perguntem, loira dona duma tão odiosa quanto farta coma aleoninalhada tipo Farrah Fawcett, irritantemente bronzeável, peitinhos piramidais soltos na sala de aula, terceiro ano, cidade, amigos e escola novos, tudo, \"pathos\", \"ethos\", lindo de azul como o céu de abril no Planalto Central do Brasil.\"
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\"Não sei por quê \"Ana Banana\". Todas nós, Ana Cláudia, Ana Laura, Ana Lúcia, Ana Maria, Ana Paula - não adianta, em algum momento a gente será \"Ana Banana\". Legal pra mim foi ter durado só um ano e, no apoio, tinha a Wilma à direita, a Zizi à esquerda e o Carlinhos CDF na última carteira, colado na parede, do primeiro ao último dia de aula.
Eu, Ana, era a mais alta, Wilma a mais esperta e rica e a Zizi, disparadaça, \"a\" gata do colégio. Até hoje não sei como, nós quatro ficamos melhores amigos e donos da primeira fila da sala do início ao fim do ano, sem chance para mais ninguém. E não me esqueço de nenhum daqueles \"days of glory in the chariots of fire\". Carpe diem\".
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\"Não queria de jeito nenhum mas meu pai insistia que, sem ter o segundo grau completo nunca iria ganhar o controle das empresas, \"às minhas costas, os moleques não vão nunca te respeitar, Wilma, o mundo é assim, acostuma logo e aprende a tirar o melhor de tudo, sempre\". Saco! De tanto kleng-kleng-klen, cheguei ao colégio com ar de santa que perdeu o altar.
Tampinha, gordinha, cachos em caracól mal-disfarçados, protótipo da não-amiga, quem iria querer andar comigo, se nem morava no Plano Piloto e sim numa mansão \"country\" no MSPW?
Contudo, logo entendi que chegar de carro era coisa para poucos. Daí em diante, descia do banco de trás do Corcel verde-abacate...
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QUEM NÃO GOSTA DE HISTÓRIA DE AMOR, CONTINUA SE QUISER.
QUEM GOSTA, NÃO SE ARREPENDERÁ
Carlos Macena
\"Tinha dezesseis, quase dezessete anos. O Exército tinha transferido meu pai para Brasília em janeiro e ganhamos um apê top na 316 Sul. Carioca, Portela e, antes que perguntem, loira dona duma tão odiosa quanto farta coma aleoninalhada tipo Farrah Fawcett, irritantemente bronzeável, peitinhos piramidais soltos na sala de aula, terceiro ano, cidade, amigos e escola novos, tudo, \"pathos\", \"ethos\", lindo de azul como o céu de abril no Planalto Central do Brasil.\"
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\"Não sei por quê \"Ana Banana\". Todas nós, Ana Cláudia, Ana Laura, Ana Lúcia, Ana Maria, Ana Paula - não adianta, em algum momento a gente será \"Ana Banana\". Legal pra mim foi ter durado só um ano e, no apoio, tinha a Wilma à direita, a Zizi à esquerda e o Carlinhos CDF na última carteira, colado na parede, do primeiro ao último dia de aula.
Eu, Ana, era a mais alta, Wilma a mais esperta e rica e a Zizi, disparadaça, \"a\" gata do colégio. Até hoje não sei como, nós quatro ficamos melhores amigos e donos da primeira fila da sala do início ao fim do ano, sem chance para mais ninguém. E não me esqueço de nenhum daqueles \"days of glory in the chariots of fire\". Carpe diem\".
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\"Não queria de jeito nenhum mas meu pai insistia que, sem ter o segundo grau completo nunca iria ganhar o controle das empresas, \"às minhas costas, os moleques não vão nunca te respeitar, Wilma, o mundo é assim, acostuma logo e aprende a tirar o melhor de tudo, sempre\". Saco! De tanto kleng-kleng-klen, cheguei ao colégio com ar de santa que perdeu o altar.
Tampinha, gordinha, cachos em caracól mal-disfarçados, protótipo da não-amiga, quem iria querer andar comigo, se nem morava no Plano Piloto e sim numa mansão \"country\" no MSPW?
Contudo, logo entendi que chegar de carro era coisa para poucos. Daí em diante, descia do banco de trás do Corcel verde-abacate quatro portas, a minha aberta pelo motorista particular ancha de marra, mais boçal que a ex-mulher do Johnny Depp antes do julgamento. Caíra a ficha da lição do pai.\"
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Aprontão precoce, fora \"convidado a não me matricular\" no Marista, eufemismo para estelionato: prestara o exame final em nome dum \"amigo\", apelido Macarrão, já tendo passado de ano. Desmascarado pela Tia Rosa, professora de Geografia (\"Carlinhos, você já não foi aprovado, porque fez a Prova Final em nome do Marcos Rabelo?\"), dançara. Corria 1978 e, aos catorze anos, ainda era inimputável.\"
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\"Em março de 1979, transferido na marra para o Leonardo da Vinci, me lasquei logo na semana inicial. Primeira aula de Biologia, uma sexta-feira, último tempo. O gaiato palhaço cretino folgado, magricela mal-amanhado, perguntou, mofino, solerte, pérfido: \"Quantos cromossomos tem o ser humano?\" \"São 22\", respondeu da primeira fila, colado na parede, por detrás dos óculos de Magoo, se achando o máximo, este calouro abestado.
\"Só se for mutante, são 23\", tomou nas fuças o anta afoito, metido a sabidão. Caí na roda \"dos afogados\" ali mesmo: Mutante, o apelido, correu o ano inteiro - mas transformou-se em lenda quando souberam que, no vestibular em São Paulo, cometi façanha à altura da caceta do cognome-estigma: entre 200 vagas, \"o Mutante foi aprovado em 78º em Jornalismo na Fuvest-80 para a USP, sem nem ter feito cursinho.\" Chupa, tôxa! E ainda escapei do trote, fiz dezesseis em abril, em SP.\"
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\"Ainda estamos em março de 1979, minhas fuças só arderiam de raiva, ciúme e vergonha no longínquo novembro - e o que me interessava, fora o skate e as 1.500 barras em três séries de 500, cada uma com 5 x 100, todo dia, pela manhã, antes das aulas, à tarde e à noite, era a Zizi. E naquela estrabicazinha cristalina, dia, noite e alma se fundiam.\"
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- Quer ir estudar lá em casa amanhã depois do almoço?
- Acuma?
- Moro na 316, fala pra sua mãe te deixar lá das duas até as seis.
- Ca-ca-calaro..., pode esperar.
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\"Muto séria na sala de jantar do apartamento do meu pai, eu me continha para não rir do quanto ele se torcia pra mergulhar os olhos no meu decote. Um dia, na saída, uma doida de outra turma gritou, no meio da galera, \"Ei, loira, cada dia botando mais peito e bunda, né? Sai dessa, Carlinhos, nem caminhãozinho tu tem\". Vôti, sibila!\"
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\"\"Ao mesmo tempo doce e circunspecto, terno e lesto, Carlinhos parecia querer, por algu processo simbiótico-sideral me inocular com seu jeito implacável para estudar, decorar e me explicar todas as matérias - partenogênese, cissiparidade, briófitas, xerófilas, assifonógamas, binômio de Newton, equação biquadrada, alelos múltiplos, genes recessivos nos livros traduzidos do BSCS, pretérito mais-que-perfeito, oração assindética, zeugma, rebocando Evanildo Bechara e Domingos Paschoal Cegalla, que as tardes doces seriam narradas à Stendhal, se delas Mme. de Stahl desconfiasse - ao fim, tudo era irresistivelmente engraçado porque eu entendia o tamanho do tesão que ele tinha por mim e o quanto lhe exigia, conscientemente ou não, desempenhar com tanto capricho e determinação o papel de amigão desinteressado.\"
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\"Éramos os quatro muito risonhos e dedicados, e teria sido assim o ano inteiro até que, em agosto, rolou a festa na casa do Paulo Ricardo no Lago Sul...\"
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