P - Eu queria que você começasse com o seu nome completo, local e
data de nascimento.
R - O meu nome completo é Ariane Lumena Andrade Dalla Dea. O local de
nascimento é cidade de São Paulo, onde eu moro. Atualmente eu estou
aqui em São Paulo fazendo uma pesquisa de trabalho de campo na cidade
de Santo André. Eu, na realidade, a minha residência é na Califórnia onde eu moro e eu estudo
pela Universidade da Califórnia, fazendo doutorado em Antropologia. Esse trabalho de campo é
minha tese de Antropologia. Eu acompanho todos os eventos que a cidade de Santo André, a
prefeitura de Santo André, o pessoal participativo. Eu tenho muito orgulho
de estar aqui, de estar no meio de tanta gente, de tanta coisa linda.
Pra mim, estar aqui no meio do povão é o que há.
P - Me diz uma coisa. Qual foi o seu primeiro emprego?
R - Meu primeiro emprego, Jesus Foi operária. Eu tinha 14 anos,
trabalhava numa fábrica de doce. Tinha que levantar 5h da manhã pra
começar às 6h. Trabalhava das 6h às 14h. E por isso que esse é meu
povo. Isso aqui é minha gente, de onde eu vim. Não troco isso nem à
pau.
P - E você, onde era essa fábrica de doce e o que você fazia lá?
R - Trabalhava em Sorocaba. O que eu fazia? Pegar aquelas paçoquinhas
bonitinhas e botar bonitinho pra ir na esteira pra ser embrulhadinha.
Comia paçoca o tempo todo.
P - E você se lembra do seu primeiro salário? O que você fez com ele?
R - O quê que eu fiz com o meu salário? Dei pra minha mãe, em casa. Era
pra fazer isso aí.
P - E depois disso você foi trabalhar em que?
R - Eu fui, trabalhei em loja, trabalhei de auxiliar de escritório.
Olha, antes de eu sair daqui eu trabalhei na USP. Trabalhei um
ano e pouco na USP. Aí saí, trabalhei numa empresa de publicidade. Aí
saí e fui embora pros Estados Unidos. É o José Dirceu. Quase fui atropelada aqui.
P - Desculpa, você...
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P - Eu queria que você começasse com o seu nome completo, local e
data de nascimento.
R - O meu nome completo é Ariane Lumena Andrade Dalla Dea. O local de
nascimento é cidade de São Paulo, onde eu moro. Atualmente eu estou
aqui em São Paulo fazendo uma pesquisa de trabalho de campo na cidade
de Santo André. Eu, na realidade, a minha residência é na Califórnia onde eu moro e eu estudo
pela Universidade da Califórnia, fazendo doutorado em Antropologia. Esse trabalho de campo é
minha tese de Antropologia. Eu acompanho todos os eventos que a cidade de Santo André, a
prefeitura de Santo André, o pessoal participativo. Eu tenho muito orgulho
de estar aqui, de estar no meio de tanta gente, de tanta coisa linda.
Pra mim, estar aqui no meio do povão é o que há.
P - Me diz uma coisa. Qual foi o seu primeiro emprego?
R - Meu primeiro emprego, Jesus Foi operária. Eu tinha 14 anos,
trabalhava numa fábrica de doce. Tinha que levantar 5h da manhã pra
começar às 6h. Trabalhava das 6h às 14h. E por isso que esse é meu
povo. Isso aqui é minha gente, de onde eu vim. Não troco isso nem à
pau.
P - E você, onde era essa fábrica de doce e o que você fazia lá?
R - Trabalhava em Sorocaba. O que eu fazia? Pegar aquelas paçoquinhas
bonitinhas e botar bonitinho pra ir na esteira pra ser embrulhadinha.
Comia paçoca o tempo todo.
P - E você se lembra do seu primeiro salário? O que você fez com ele?
R - O quê que eu fiz com o meu salário? Dei pra minha mãe, em casa. Era
pra fazer isso aí.
P - E depois disso você foi trabalhar em que?
R - Eu fui, trabalhei em loja, trabalhei de auxiliar de escritório.
Olha, antes de eu sair daqui eu trabalhei na USP. Trabalhei um
ano e pouco na USP. Aí saí, trabalhei numa empresa de publicidade. Aí
saí e fui embora pros Estados Unidos. É o José Dirceu. Quase fui atropelada aqui.
P - Desculpa, você parou onde?
R - Ah, sim. Eu trabalhei numa empresa de publicidade.
P - Você estava na USP?
R - Saí da USP e fui pra essa empresa de publicidade. De lá eu fui
embora pros Estados Unidos. Aí eu tinha um namorado que me deu uma mão.
Inclusive, eu entrei legal nos Estados Unidos, que hoje não dá mais.
Mas foi assim, porque a gente atravessou a fronteira
tipo casal de carro. Estava passando o fim de semana lá. Passou pela
fronteira, uma cidadezinha pequenininha chamada Tecat , que hoje não
existe mais essa fronteira ali. Já fecharam porque o negócio ficou feio
mesmo. E passamos por lá. Só o meu namorado na época falou com o cara,
que ele era americano. Eu não falei uma palavra e passamos. Daqui a
pouco estava em San Diego. Foi assim, foi simples. América.
P - Continuando, Ariane. Eu queria só te perguntar. Nos Estados
Unidos, como é tratado o primeiro de maio?
R - O primeiro de maio nos Estados Unidos é tratado muito mal. Hoje
está tendo uma passeata lá. Nas passeatas que eu participei era
proibido cantar, proibido trazer instrumento musical, lá em Los
Angeles é proibido, não sei se em outras cidades. Talvez em Nova York
seja diferente. Mas eu acredito que seja mesmo em Los Angeles e Nova
Iorque só, que está comemorando o primeiro de maio. O resto do país não
comemora. O primeiro de maio não é, não tem, não é tomado conhecimento
do primeiro de maio, apesar de que o primeiro de maio foi criado nos
Estados Unidos, por incrível que pareça. Mas eu sempre acompanhei as
passeatas de primeiro de maio lá e é uma coisa contida. Me lembra muito
o militarismo.
P - E aqui, Ariane, teve algum primeiro de maio que foi marcante pra
sua vida aqui ou lá nos Estados Unidos?
R - O primeiro de maio marcante, esse aqui. Esse primeiro de maio
marcante pra mim. Pra mim, eu acho lindo isso, de ter todos os
trabalhadores aqui, sabe, ter esses trabalhadores aqui, todo mundo
assim junto. É maravilhoso. Uma coisa que me deixou muito indignada,
mas com muita raiva mesmo, foi ver o cantor do KLB com uma camiseta WDW.
Primeiramente, aquela camiseta era uma bandeira dos
Estados Unidos. Eu acho isso uma afronta, primeiramente, que os Estados
Unidos não apóia trabalhador nenhum do mundo. Os trabalhadores
americanos estão começando a definhar. O sindicalismo nos Estados
Unidos está começando a ser atacado de uma forma terrível. E mas pra esse cara vir com uma
camiseta dos Estados Unidos aqui é uma afronta à CUT, é uma afronta ao primeiro de maio,
uma afronta ao povo brasileiro. A Disneyworld, a Disney, tem uma das políticas mais
injustas de trabalho nos Estados Unidos. Eles contratam os
trabalhadores pra trabalhar meio período ou por um tempo indeterminado,
não dão benefícios, mandam embora sem justificativa. Eles usam os
trabalhadores, tanto a Disney quanto a Microsoft, usam os trabalhadores
e jogam fora. Os trabalhadores, como dizem, são descartáveis. E pra
esse cara vim aqui com uma bandeira dessa... Eu joguei uma camiseta lá,
xinguei ele. Joguei camiseta pra ele. Ninguém tomou conhecimento, é
claro. Isso é muito ruim. Pra mim essa experiência de estar aqui,
voltando ao Brasil como híbrida, híbrida realmente que eu sou, é única,
não existe.
P - Quer dizer que pra tua história o primeiro de maio mais marcante
está sendo este.
R - É esse aqui.
P – Mas independente do fato da, enfim, com razão, da camiseta, o que mais tem te marcado
aqui nesse evento além do povo?
R - O povo cantando. E mesmo que possa dizer que as músicas sejam
bregas, eu acho que é essa coisa do povo estar ali cantando feliz,
entende, se unindo, sei lá, essa coisa de estar junto. Olha, eu vi um
baile aí na sexta feira passada que era basicamente elite. Doutores,
executivos. Não me senti bem nem um pouquinho. Não estava a fim de
dançar, não era aquilo que eu queria. 90% do povo lá era branco, 10%
negro, música de negro. Eu falei: “O quê que é isso? Onde é que eu tô?
Não é isso que eu quero.” Aí aqui eu vejo o povão. Isso aqui é, eu
chorei, isso aqui é bonito demais. Eu falei assim: “Eu quero voltar pro
Brasil, eu quero estar aqui no meio do povo.” Vou voltar, olha.
P - Obrigada, Ariane.
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