Projeto Diversidade Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Dona Gessi
Entrevistado por Sofia Tapajós, Mariana dos Santos Albuquerque e Flávia dos Santos
Linharinho, 22 de março de 2026
Código DCC_HV011
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Obrigada mais uma vez pelo seu tempo.
R – Nada.
P/1 – Queria começar perguntando o seu nome, local e data de nascimento.
R – Meu nome é Gessi Cassiano, da comunidade Quilombola Linharinho, 20 de abril de 2059.
P/1 – Qual que é o nome dos seus pais?
R – Manuel Cassiano Filho e Dominga da Conceição Cassiano.
P/1 – E o que eles faziam?
R – Era agricultor.
P/1 – Que lembrança você tem?
R – A lembrança do meu pai, pra mim, é um ponto muito forte, porque criou nós todos dentro da comunidade. A minha infância com ele foi uma infância muito aproveitada, muito ensinamento, de muito carinho, de muito amor e também de muita educação.
P/1 – Do que você brincava quando era criança?
R – Dentro da comunidade Quilombola, tradições, a gente brinca de tudo um pouco na infância. Pular corda, jogar bola de gude, brincar de peteca, pique, brincar de roda. Dentro de uma comunidade, eu vou dizer a vocês, uns 40 anos atrás, era muito legal de viver.
P/1 – Você falou de brincar de roda, tem alguma música, alguma cantiga que você lembre?
R – Assim, tinha várias músicas que a gente brincava, né, como ainda tem. A gente cantava muita ciranda, junto da minha avó, da minha mãe, que é uma maneira de se ajuntar todas as crianças. E hoje a gente vê que não tem mais. Era (entrevistada canta): “Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar”. Era muito legal, porque era uma maneira de, a minha avó dizia, transmitir energia, né, que é uma roda dentro de um salão, onde se forma um circo, que hoje as pessoas não existem mais.
P/1 – Você falou da sua avó, você pode falar um pouco mais de...
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Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Dona Gessi
Entrevistado por Sofia Tapajós, Mariana dos Santos Albuquerque e Flávia dos Santos
Linharinho, 22 de março de 2026
Código DCC_HV011
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Obrigada mais uma vez pelo seu tempo.
R – Nada.
P/1 – Queria começar perguntando o seu nome, local e data de nascimento.
R – Meu nome é Gessi Cassiano, da comunidade Quilombola Linharinho, 20 de abril de 2059.
P/1 – Qual que é o nome dos seus pais?
R – Manuel Cassiano Filho e Dominga da Conceição Cassiano.
P/1 – E o que eles faziam?
R – Era agricultor.
P/1 – Que lembrança você tem?
R – A lembrança do meu pai, pra mim, é um ponto muito forte, porque criou nós todos dentro da comunidade. A minha infância com ele foi uma infância muito aproveitada, muito ensinamento, de muito carinho, de muito amor e também de muita educação.
P/1 – Do que você brincava quando era criança?
R – Dentro da comunidade Quilombola, tradições, a gente brinca de tudo um pouco na infância. Pular corda, jogar bola de gude, brincar de peteca, pique, brincar de roda. Dentro de uma comunidade, eu vou dizer a vocês, uns 40 anos atrás, era muito legal de viver.
P/1 – Você falou de brincar de roda, tem alguma música, alguma cantiga que você lembre?
R – Assim, tinha várias músicas que a gente brincava, né, como ainda tem. A gente cantava muita ciranda, junto da minha avó, da minha mãe, que é uma maneira de se ajuntar todas as crianças. E hoje a gente vê que não tem mais. Era (entrevistada canta): “Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar, vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar”. Era muito legal, porque era uma maneira de, a minha avó dizia, transmitir energia, né, que é uma roda dentro de um salão, onde se forma um circo, que hoje as pessoas não existem mais.
P/1 – Você falou da sua avó, você pode falar um pouco mais de como ela era?
R – A minha avó, dentro da comunidade, com as pessoas, até com menos idade do que eu, ela era uma pessoa que não tem como a gente explicar, ela dentro da vida da gente. Porque a minha avó, que a gente não chamava de avó, a gente chamava de Oiôia, porque o nome dela era Aurora Santana Felipe da Vitória. E ela dentro da comunidade, aqui no Sapê do Norte, ela foi tudo, ela era benzedeira, era parteira, era curandeira, era ensinadeira, era professora, era tudo na nossa vida, né? Que hoje, às vezes, eu sempre falo com as meninas, que hoje existe faculdade, mas onde está a memória? Onde guarda tudo isso que nós guardamos? Existe uma grande diferença, porque a minha avó não tinha leitura, meu pai, minha mãe, mas sabia fazer conta, guardava tudo na mente. Hoje, se não tiver um papel, ou um celular, ou um tablet, ou um computador, não que eu sou contra, mas o sistema é bom, mas ele está tirando a memória da juventude, das crianças. O desenho é bom, mas ele está tirando o aprendizado da historinha contada pelos avós, contado pela tia, contado pelo pai, tirando a conversa de dialogar. Acho que é por isso que, às vezes, as pessoas acham a gente diferente, não é diferente, porque o que nós aprendemos não está no livro, o que nós sabemos não está escrito em lugar nenhum, a não ser na nossa memória. É por isso que, muitas vezes, hoje, eu digo pra eles assim, se mandar eles rezar o Pai é nosso, se não tiver o papel na mão, eles não vão rezar. Se reza, como diga minha avó, come palavra, porque não está na memória. Essa palavra memória, pra mim, eu aprendi com minha avó, que tudo ela dizia: “Não escreve no papel não, um bom filho guarda a coisa na memória”. E isso eu guardei que a gente tem que esforçar a mente da gente, a gente tem que buscar. E hoje, a infância que eu vejo dessas crianças é totalmente diferente, porque eles não brincam, as amizades são falsas, hoje as bonecas não são mais construídas pela própria avó, pela própria tia, pela própria mãe e até mesmo pela própria criança. Não que eu sou contra o sistema, mas o sistema tinha que alguma coisa deixar na mente das pessoas e não está deixando. Quanto mais o estudo avança, a sabedoria, eles acham que está avançando, mas está onde mesmo? Porque eu vejo tanta pessoa que diz que trabalha com a gente e da gente não sabe nada. Então, que trabalho é esse? Eu sempre falo assim, sou a favor da lei, né, a lei está aí pra nos proteger, pra nos apoiar, direito de vir, mas que direito é esse? Se tudo nós tinha com abundância, e hoje nós não temos nada, eu me sinto vendida de novo, como escrava, porque nós não temos água, pelo menos a minha avó, meu pai, minhas tias, meu bisa tinham água, com abundância, que dentro desse Sapê do Norte. Hoje se rodasse as comunidades, não tiver poço e se você não carregar a garrafinha de água, você não bebe. Então, que mundo é esse? Antigamente, não tinha proteção pra a natureza e hoje tem, mas que proteção tem essa natureza, que toda comunidade que você roda, está aí a cana e o eucalipto, tirando todo conhecimento, tirando toda sabedoria. Os evangelhos hoje entra dentro das comunidades, ele não pergunta qual é a tradição, como que ele conserva a fé dele, pra resistir e existir dentro de uma ancestralidade. Nós continuamos vendo os nossos ancestrais, esse pessoal, com uma maldição, igual como eles trouxeram nós da África, pra aqui, nos não respeita. Eu sempre falo pra as meninas: “Que tipo de lei nós temos, que ela mesmo nos condena. Qual é o apoio que nós temos da lei?”. Quando cai lá na cadeia pra os Direitos Humanos ir lá, tirar nós de lá, porque se prende um negro, pra mim está me prendendo, se tortura um negro, pra mim está torturando, porque faz parte do meu povo. Eu sempre falo pra as meninas e eu, pra mim, já vivi e já vim aqui, Eu me sinto uma pessoa assim, porque às vezes eu vejo coisas que, na minha infância, eu não vi, mas hoje eu vi. A minha avó era dona de terreiro, além de ser parteira, ela foi perseguida, pelas duas partes, por ser parteira e por ser mãe. Ela não dizia que ela era mãe, como ninguém é mãe de santo, é filho, porque se eu ser mãe de Ogum, Iemanjá, Iansã, Xangô, o que eles são pra mim? Eu sou filha. Se eu disser que sou mãe de Oxalá, o que ele é pra mim? E isso eu aprendi vindo da minha avó. Às vezes, as pessoas me perguntam quem me ensinou as coisas que eu sei. A minha avó, porque são coisas que vêm da memória ou até mesmo a gente faz sem entender, depois que a gente vai entender o que está fazendo, o porquê está fazendo. E eu digo a vocês, morar dentro do quilombo, é todo mundo de fora acha que vive numa paz, mas a gente já teve paz. Hoje, a gente não tem mais. A gente já teve tanta paz que eu achava que carregar água na cabeça, no porungo, na lata, no balde ou no tacho não era um meio de vida. E era um meio de vida melhor, porque era a água saudável. Hoje, todo mundo tem poço, mas que tipo de água está bebendo? Porque se a gente não tem mata, só tem eucalipto e eles põem veneno, quando chove, aquilo vai tudo pro solo. Então, que tipo de água nós estamos bebendo? Isso é uma maneira de tirar as pessoas de dentro das comunidades, porque eu digo a vocês, assim, eu sempre lutei, eu nunca tive vida fácil, desde pequena, porque desde pequena eu sempre lidei com criança e adulto. Porque juventude, ele é mais difícil de lidar. Então, você sabe que lidar com adulto, você tem que ter amor. Criança você carrega a paz pra poder transmitir pra ele. E às vezes, hoje, as pessoas não buscam sentar com os mais velhos, pra compreender e entender e buscar saber. Eu digo assim, tô dando essa entrevista, vou logo direto no ponto, por conta da Flávia. E ela sabe disso. Porque eles esperam ir pra faculdade, as pessoas criarem edital, pra poderem procurar os mais velhos dentro da comunidade. Uma coisa que quando criasse o edital: “Não, isso aqui eu mesmo vou fazer”. Eu posso usar uma foto, mas a minha voz tem que ir pra esse papel. A minha voz tem que ir pra esse microfone, porque eu sentei com minha mãe, sentei com minha avó, sentei com minha tia, sentei com a parente minha, pra discutir como era a convivência de cada um dentro da comunidade. Ela sabe do que eu tô dizendo, porque a maioria das pessoas dentro desse Sapê do Norte, os mais velhos, aqueles que já se foram e aqueles que ainda tão aí, eu tenho contato, eu busco, porque é um papel meu, porque ninguém nessa terra veio pra brincar. Isso eu falo pra elas. Às vezes, as pessoas dizem eu tô fazendo isso porque quero. Não é não. Cada um tem a sua missão e muitas vezes não é respeitado. Ninguém faz nada porque quer. Ninguém. Porque quando eu quero, eu não faço. Eu tiro por mim. Essa comunidade pra mim, ela é um espelho de vida pra todo mundo que mora no Sapê do Norte, porque todo o trabalho de refazer esse caminho, buscar o que vocês tão buscando, foi feito dentro dessa comunidade. Toda porta aberta dentro do Sapê do Norte foi feito dentro dessa comunidade. Toda retomada que existe dentro do Sapê do Norte, a comunidade pode não está lá, mas foi criada aqui dentro. E eu estava lá. O primeiro lugar foi mostrar o que a Aracruz, o que a Recap, o que o Ouro Verde, a Flonibra fez com a minha sogra. Foi botar ela com nove dias de resguardo embaixo de um pé de manga, que a casa era de palha, que nós não existia telha, nem também talbinha. Eu não tô falando dessa telha aí não. Era telha francesa, telha cambuca, que era feita de barro, telha francesa já foi depois, que era feita de cimento e areia. Mas nós usávamos a casa de palha mesmo. O que eles fizeram? Ela com nove dias, botou ela pra baixo do pé de manga. Primeiro avisou, deu três dias. Como eles não saíram, botou ela pra baixo do pé de manga, trouxeram gasolina, que era ali em Santana, o posto de gasolina era de Tulu, era ali em Santana, perto da igreja Nossa Senhora Santana. Eles compraram, chegaram, jogaram em cima das palhas e puseram fogo. Isso foi um marco muito dolorido pras comunidades. Um homem chamado Benedito Cosme foi que acolheu ela, botou pra dentro. E foi a primeira porta que nós fizemos foi mostrar pra Aracruz. Eles cercaram do Rio São Domingo ao Colo do Caboclo. Juntou os homens das comunidades, arrebentou a cerca, cortou tudo de facão, de enxadão, arrancou, fizeram caída de fogo e botaram fogo. Alguns foram presos, outros correram, porque eles cometeram crime. Botar fogo na casa não era crime. Agora, cortar a cerca era crime. A minha avó foi perseguida, porque via as mulheres grávidas dentro da comunidade, porque era muita mulher, não era esse tantinho que a gente vê hoje. E aí os médicos, quando as mulheres iam no posto, lá na Barra, em Santana não tinha, era lá na Barra, já ia com a criança no colo, já com dois meses. E aí eles perguntavam: “Oi, a senhora estava grávida? Nem a gente viu. Onde a senhora ganhou esse neném?”. Tinha uma mulher chamada Dora, que era uma parteira, pensa, ela não tinha alma, ela não tinha alma, porque ela era ruim, ruim. Se a mulher gemesse e gritasse, apanhava, porque ela dizia na cara da pessoa: “Na hora de fazer, estava no bem bom. Por que agora, na hora de botar pra fora, fica com essa agonia? E eu não estou aqui a fim de ouvir grito de mulher, de ninguém, muito menos de mulher. Abaixa esse negrinho, quando você vai botar pra fora, vai ter que chorar no meu ouvido”. Então, ela não tinha alma, era ruim. Era a parteira que nós tinha dentro da Barra, era branca. Então, as negras tinham medo de ir pra lá, porque ela batia. Eu, quando eu ganhei meu primeiro filho, que a gente não ia no médico, mas aí minha avó não poderia mais fazer parto. Eu tive que ir. E ela: “Vai, minha filha, vai dar tudo certo”. O primeiro eu ganhei sozinha, o segundo eu ganhei na porta do hospital, porque eu só ia na última hora. Quando eu via que não tinha mais jeito, não tinha mais jeito. E outra, hoje, existe acompanhante e antes eles não deixavam, não deixavam. O branco poderia ter, mas o negro, principalmente se viesse daqui da roça, aí é que era sofrimento. E eu digo pra vocês assim, esse lugar, ele me chama muita atenção, muito, porque é onde eu posso ver, lidar, conviver, ouvir, sentir o meu povo, porque todo mundo sabe, falar é fácil, o duro é conviver. O duro é conviver. Todo mundo hoje fala na ancestralidade. E eu convivi muito com a minha avó, que hoje eu não convivo mais com ela, não. Convivo com outras pessoas, que eu sei que ela sempre vai estar ao meu lado, sempre vai estar me orientando, sempre vai estar me dizendo, sempre vai estar intercedendo a meu pai Oxalá, pra nada de ruim acontecer comigo e com as pessoas com quem eu convivo. Hoje, todo mundo fala de ancestralidade. Flávia, essa menina aí, todo, todas duas vêm de povo que tinha, conversa com ancestralidade. Mas por que deixou perder? Muito pela vergonha e muito pela vaidade, que tem muita gente que tem vergonha de ser aquilo que ele é. Eu não tenho não. Eu tenho respeito. Aqui, esse terreno, ele é dividido em nove irmãos e eu fiquei no meio. Eu sou a mais velha, que são coisas que às vezes a gente tem que raciocinar, né? Pensar o porquê eu fui escolhida aqui pela minha mãe, colocada nesse lugar, na beira dessa mata, o qual é o significado? Demorou muito pra mim entender. O meu pai morreu ali, aquele Dendezal, o centro da minha avó fica na direção onde esse Ponto de Memória, do outro lado da estrada. Olha como a vida funciona. Demorou muito pra mim entender. O que é o significado? Porque o acevo de Santa Bárbara fica lá na frente. Só que é um lugar impróprio. Então, eu tive que vir pra aqui, colocado por eles, sem entender nada, pra poder dar continuidade só um pouquinho daquilo que às vezes eu tinha ou tenho que fazer. Não estudei. O meu orgulho é de ser quem eu sou. A maioria das coisas eu já aprendo não sei porquê. Muitas vezes, elas mesmo que está lá é o sistema, né, elas que me ensinam, orientam e os meus netos que me orientam. Eu digo às vezes, assim, eu sou muito feliz. Não guardo mágoa, não guardo rancor. Sou desse jeito assim, extrema, como a Flávia diga. Gente, eu carrego um karma de entidade muito forte, muito forte. Então, às vezes tem hora que eu saio do _______ [risos]. Não tem jeito não, menina, porque esses pessoal que mexem muito com fogo, então ele não é caminho. Eu tiro por mim. Eu tiro por mim. Não é uma pessoa assim de está maciando e eu não consigo. Eu queria, eu queria, mas eu não consigo. É uma coisa que eu não consigo. Se eu tiver que dizer, eu digo logo pra elas e elas vai entender o que eu tô dizendo. Muitas vezes, não entende nada. Às vezes, as pessoas digam a resposta pra eles aí eu já vou tomar as dores, porque às vezes não é comigo. Mas eu digo a vocês assim, sofro muito racismo, mas muito, muito, muito. Só que eu levanto a cabeça e saio, né? Aqui, dentro do Sapé do Norte, todos nós tirava galha, catava ponta de eucalipto, limpava terra Aracruz pra ganhar cem, cento e cinquenta, cem reais dentro. E muitas vezes trocar até por feira. Meninas, e eu digo a vocês assim que eu passei muito mal. Eu dormia, eu acordava sentada na beira da cama com a mão a posto pedindo a meu pai Oxóssi que me desse orientação, porque eu sentia que eu tava fazendo mal pras pessoas. E isso até hoje isso me dói, porque eu botei na minha cabeça, não sei se era ele, não sei. Se nós discutimos um território e nós recebíamos a cesta básica do governo, e o governo que nos vendeu pras firmas. Então, que tipo de alimento nós tava comendo do governo? Como nós via aquele alimento ele dando pra nós, eu me sentia como fosse porco. Como o governo que dava a cesta básica, tava criando porco, e é o que me doía isso. E às vezes eu ia pra reunião, não entendia de nada e queria: “Gente, vamos plantar”, “Plantar não dá, a terra não vai dar mais. A terra está toda consumida, já tirou todo o ouro da terra”. Eu não me sentia bem, eu falei: “Eu tenho que afastar e começar a trabalhar sozinha”. E aí, eu comecei… a minha vida é muito complicada, e eu indo pra a igreja de Santa Bárbara, que é do outro lado, e aí eu topei um... Não, primeiro eu fui a uma reunião da escolinha política que tinha aqui, feita pela Fase [Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional]. E quando eu cheguei lá, a Fase sempre trazia as pessoas de fora pra estar conversando com a gente. Era um trabalho da Fase, que você deve conhecer.
P/1 – O que é Fase?
R – A Fase é um trabalho, explica aí, é uma ONG que não é governamental, né? E aí, nesse dia, nós fomos, essa reunião foi lá no São Jorge. Fomos lá sentados, e aí, começamos a apresentar, foi a hora que ele levantou todos os pra ganhados com cigarro de palha na mão, e eu falei: “Louvado seja Deus, que homem”. Só que ele, assim, antes, pra mim, na minha visão, ele era tão perfeito, que, Nossa Senhora, eu olhava pra ele e parecia Jesus. E eu dizia: “Crendios Pai, que homem é esse?”. Mas ficamos por ali, ele explicou o que é que ele veio fazer e tudo, viemos embora, ficamos. Nós ia sexta, sábado e domingo, eram três dias de informação política, passado pela Fase, porque aqui dentro da comunidade, parecia, gente, que igual esse tempo estava assim, parecia uma nuvem preta, a gente não enxergava um palmo adiante do nariz. E era toda a comunidade, toda. De manhã cedo, eram as oito e meia, a gente vai pra a igreja, e eu sempre assim, de manhã cedo, eu agradeço muito a Deus, pela visão que nos dá, pela noite que nos dá, o alimento e por eu estar de pé. E aí, fomos, chegou em cima da ponte, olha o que é que é o poder da água, ele vinha num carro branco, que aquilo vinha rasgando. Falei: “Bina, minha irmã, sai da frente, que ali vai vir um doido, ele vem de Itaúna e assim está drogado”, “Você gosta de falar mal dos outros”. Falei: “Do jeito que ele vem, vem doido”. Ele chegou perto em mim e freou o carro: “Tá me conhecendo, negona?”. Falei: “Mais ou menos”. Ele: “Não fez essa cara não, que é contigo que eu quero conversar. Você não saiu da minha cabeça o que você disse lá ontem”. E o meu pensamento: “Tá queimado em nome de Jesus. Eu não te conheço”. “Você quer trabalhar agroecologia?”. Eu falei: “O que é que é isso?”. Ele falou: “Como seu pai plantava, sua mãe, sua avó. Você não falou lá ontem, no domingo, você não falou?”. Falei: “Falei”. “Então, vamos trabalhar”. Falei: “Tá bom, vamos embora. Se é pra trabalhar, vamos embora”. Ele falou: “Na quarta-feira, eu vou na sua casa”. Falei: “Tá bom, pode ir. Você sabe onde eu moro?”. Falou: “Não, você vai me dizer agora”. Eu falei: “É só virar aqui, ó, pegar essa linha reta, você vai chegar lá em casa”. Ele: “Ainda mais”. Minha irmã: “Você é fácil de morrer. Você nem conhece o homem”. Eu falei: “Mas eu tenho uma antipatia, assim, eu senti uma coisa tão forte com ele, as meninas, e ele sentiu o meu. Quem sabe se não é pra nós casar?”. “Ai, minha Santa Barbara, essa bicha é doida mesmo. Vai morrer cedo”. E aí, fomos pra igreja. Eu falei: “Ai, meu Deus do céu, pra quê? Que eu nem sei quem é aquele homem, ele estava lá na Fase, mas seja o que Deus quiser. Eu sei que Deus não vai deixar”. Falei: “Ai, minha avó, me dê orientação, senhora, mais meu pai, que sempre eu peço a vocês. Na hora dos meus aflitos, eles nunca deixaram”. E eu não sei, fiquei com aquilo. Segunda-feira, levantamos, fomos pro faixo, tirar faixo. Na terça, também, na quarta-feira, eu falei: “Ih, amanhã eu não vou poder ir pro faixo. Oh, Gelson, não vou pro faixo amanhã, não, que o homem vai vir aqui”. “Rapaz, você vai cuidar da sua vida. Deixe de estar envolvendo sua vida com um homem que você nem conhece”. Mas eles falando assim, porque eu falei que ele ia casar comigo, né, e eu ia casar com ele. Aí, ele chegou com a sacola de pão: “Vim tomar café com você, cadê as mulheres?”. Falei: “É agora que eu não avisei ninguém” [risos]. Aí, ele levantou, sentou, ele desceu do carro, veio, sentou na porta: “Toma aí, possa café”. Falei: “Vou botar água no fogo e vou chamar as mulheres agorinha”. Foi onde eu chamei Bina, minha irmã, Tudim, Nazaré, que não tinha ido, Tati, Tainara, só nós mesmos daqui, do núcleo aqui. Fiz o café, botei a mesa lá fora. Falei: “Vou botar esse homem aqui dentro de casa. Não sei qual é a intenção dele”. E as meninas todas assim, desconfiadas, né? Aí, ele: “Vamos tomar café, todo mundo. Traz a faca pra cortar pão”. Sentou, que ele era todo, assim, pra cima, ele é uma pessoa pra cima, sentou e fomos conversar. Aí, ele: “Eu topo”. Eu falei: “Eu topo. Bina, a gente tem que ver, né?”. Ele: “Você tem associações?”. “Não. Nós não temos associação”. “É, mas o trabalho que eu quero desenvolver é através de associação. E a última comunidade que tinha uma associação de viveiro era lá no Angelim 2, na comunidade de Flávia”. Falei: “Puta que pariu, minha avó. E agora?”. Ele falou: “É, desse jeito não dá pra trabalhar, não”. Falei: “Mas eu faço associação”. Ele falou: “Não é tão fácil assim, não, Gessi”. Falei: “É, esse não demora, não. Se todo mundo tiver interessado, a gente vai fazer”. Olha, menina, eu andei de jegue, de bicicleta, de pé, juntando essas mulheres. Ah, daqui da comunidade foi 36 mulheres. E eu não sei se vocês me explicaram como que eu consegui fazer associação, Eu não sei explicar pra vocês. A última coisa que veio me ajudar a fazer, como é, não é a ata, não, é o estatuto, foi Jailson, porque eu também não sabia e nem as mulheres sabiam como montar o estatuto. Aí eu conversei com o Marcelo. O Marcelo olhou pra mim: “Ó, Gessi, eu também não sei, não, mas eu posso arrumar alguém”. Mas bem que ele sabia, né? Mas ele não queria assumir o compromisso. Aí, trouxe Jailson, que é lá da Bahia, trabalha na Rodovia Federal. Montamos essa associação. Depois da associação pronta, falei: “Ó, meninas, está pronta a associação”, 36 mulheres. Fizemos café e tudo. Quando eu disse que estava pronta, duas mulheres levantaram: “Eu posso falar, Gessi?”, “Pode. Aqui, nós estamos pra discutir”, “Montar associação é fácil. Eu quero ver você fazer ela funcionar”. E eu joguei um balde de água fria, falei: “Agora deu meio mundo. Como que eu vou trabalhar? É verdade”. Aí fui procurar Demétrio. Ele foi: “Procura em (Cape?), que está aberto edital pra entregar merenda escolar. Tanto faz na Conac, como… tanto faz o PA, como no PNAE. Você vai trabalhar esses dois órgãos dentro do município. Já começa a pegar pesado dentro do município”. Eu fiz o primeiro projeto pra Conac. Pra Conac, não passou. Passou o Angelim 1. Fiz o 2. A merenda escolar, a gente conseguiu. Nossa Senhora. Ali, foi sofrimento. Na barra, foi sofrimento. Eles discutiam. Primeiro, três homens, que foi seu Luiz, do Paulo Vinha, e seu Zé Jerônimo, lá do Jundiá, e Sigão: “Você não garante de botar merenda no colégio. Por que que você vai entrar com essa associação? Tomar lugar dos outros. Você não tem peito pra isso”. Nossa Senhora. Eu dei um murro em cima da mesa. Depois pedi perdão. Pedi a Agô misericórdia. Ele: “O que que significa isso? Você tem que pedir desculpa”, “Mas eu já tô te pedindo, Agô. Eu tô te pedindo misericórdia. Pra você só se usar a palavra licença. Por que, Agô? Eu tô redimindo o erro que eu fiz, que eu causei. Misericórdia. Porque está só eu de mulher aqui no meio de seis homens. Então, qualquer um de vocês pode me bater”. Foi onde seu Luiz, seu Zé Jerônimo e Sigão levantou: “Não. Se ela está aqui, porque ela garante o que ela está dizendo. Eu confio muito”. E eles nem me conheciam. Na força que tem uma mulher, quando ela quer ser mulher de verdade, quando ela quer ser mulher de verdade ela impõe, ela toma posição. “Ela vai entregar a merenda, se ela trouxe o projeto”. Quem tinha feito o projeto pra mim foi Marcelino da Incapé. E nós não tinha um maço de cebola plantado, um maço de cebola. Eu vim de lá e falei: “Olha, meninas, passamos, mas tem um problema. Nós passamos em dezembro e em março que começava a entrega da merenda. Até março nós vamos ter alface, nós vamos ter couve, nós vamos ter o quê? Planta de três meses nós vamos ter. Agora, o problema é que o aipim nós não temos, nem a farinha. Nós compra a mandioca e nós faz”. Tudo eu consegui dar jeito. A primeira horta que a gente fez foi aqui na casa da minha irmã. Por isso que eu digo assim a mulher ela é tudo. Às vezes, o homem ele impõe, mas se não tiver mulher ele não é homem, porque o homem é saído da mulher e às vezes a gente está vendo as condições. E nós conseguimos entregar a merenda. Acho que 5 anos foi, 5 anos, com cinco anos aí eu saí. Quando eu saí, a comunidade fez assim saiu também. E hoje a gente não deixa o projeto parar não, porque tudo que acontecia a nossa farinha era preta que nem a terra, a farinha grossa, era grossa que nem nossa cara. O beiju era duro que nem um pedaço de pau e o que nós fazia também, ainda botamos feira, botamos feira. O mesmo alimento que nós vendia na feira nós entregava no colégio. Tinha duas mulheres que ainda trabalham dentro do município de Conceição da Barra que elas não conhecem o que é vida, nem sabem o que é sofrimento. Elas sofrem, mas elas não sabem o que é sofrimento. E eu lhe digo a vocês o primeiro pagamento que eu recebi eu comprei tudo de mantimento pra Oxóssi, sem entender, e vim na mata e botei. Cheguei em casa, mas me deu uma dor no coração e eu chorei das meninas me dar água, sem entender o que é, porque tudo que a gente devolve a gente tem que saber agradecer saber rezar saber falar, não é chegar e colocar. Mas eu não entendia, porque na época a minha avó não sabia. Eu via eles lá colocar e eu ia lá saber como é que era, mas eu fiz, eu fiz. E aí as meninas eu tive que, pra poder chegar aqui fazer tudo isso, reformar a igreja pra não fechar. Não é reformar, pintar, não. Reformar, mudar. E eu peguei a igreja não tinha dez centavos para comprar uma vela. Primeiro pacote de vela já morreu. Fui comadre Dorinha que deu, dois pacotes de vela número dois. Eu fui buscar, porque eu sou muito assim, eu gosto de entender. O que é que significa o dois na nossa vida? Porque ninguém trabalha sozinho, ninguém. Então, o número dois era pra mim entender que eu não estava ali sozinha, além de eu tinha outro, tinha outras pessoas. E eu consegui dentro de dois anos a igreja está lá, banco, altar que era uma mesa. Agora, se vocês me perguntarem como que as pessoas doou, eu não sei. Só sei que a gratidão até hoje eu tenho. Quando eu fiz a igreja, fiz a festa todinha voltada pra as crianças. Falei: “Agora, eu tô livre. Graças a Deus, minha missão acabou”. Com três meses, eita! Tem que ir pra o São Cristóvão pra fazer jongo, refazer o jongo dentro das comunidades. “Hoje, Gessi, você é uma convidada”. Falei: “Eu?”, “Sim. Pela UFES lá de Vitória que foi Osvaldo, Raissa, Patrícia, essa turma. Você é uma convidada”. Cida de Verninho nesse tempo namorava dentro da comunidade. Falei: “Cida, por que eu sou convidada?”, “Minha filha, eu não sei. Só sei que está aqui o convite na sua mão”. E o São Cristóvão é outra comunidade que mora do outro lado do Rio. Lá vai eu pra dentro dessa comunidade. Nessa época, Maria Amélia… era o jongo de São Bartolomeu, e Maria Amélia dançava no jongo São Bartolomeu. E o jongo São Bartolomeu é o jongo mais velho do município, que ele foi criado dentro do terreiro de Santa Bárbara. Uma promessa que Mãe Tininha fez. É o jongo mais velho. É azul e branco. O que significa pra vocês? Vocês estão estudando. O que significa azul e branco? Aí a gente foi pra lá pra o São Cristóvão. Chegamos lá, fomos rodar essa roda de jongo e aí foi fazer uma roda grande onde todo mundo entrou. Quando terminou de lá Osvaldo e Raissa falou: “Ó, Gessi, o jongo vai pra a comunidade lá do Linharinho e você vai entrar”. Eu falei: “Por quê?”, “Porque você vai, Gessi. Eu acho que é você”. Falei: “Não, bota a Miúda”, “Não, pelo amor de Deus, bota a Miúda, não. Quem vai é você mesmo”, que Miúda é minha prima. Falei: “Então, tá bom”. Fomos. O primeiro ensaio pra dar no colégio, trancar o colégio. Aí vamos pra o telecentro, que é a pé da casa de Miúda. Vamos embora. Eu, seu Antônio, seu Anísio, eu digo a vocês assim, a pessoa que tem, ele já nasce, quando a pessoa tem que ser, ele vai ser. A gente não deve copiar nada dos outros, nada. A gente tem que obedecer. Seu Anísio e seu Antônio vêm pra cá, vinham pra cá ensinar os meninos a bater tambor: “Vim pra cá ensinar as meninas a cantar. Você vai ajudar, Gessi?”, “Não, depois que vocês me ajudarem, eu vou”. Passamos as meninas a tarde todinhas, seu Antônio, mas seu Anísio tentando ver se botava as meninas pra dançar. Falei: “No outro dia, eu vou entrar”. Entrou eu e uma irmã minha de criação na cabeceira. Ela falou: “Hoje o Jongo vai andar. Falei: “Por quê?”, “Nós duas estamos de frente. Depois você sai e você me diz”. Porque uma coisa é criada por criar e outra coisa você já carregar no DNA, porque o Jongo de Santa Bárbara, toda vez que acabava a missa, nós botávamos o tambor na porta da igreja e todo mundo ia dançar. Todo mundo, quem não aguentasse caía, mas que todo mundo queria dançar, ia. E eles dois entraram como eles que estavam trazendo. Vocês entenderam que quando eu digo as pessoas que tem, já tem, as pessoas que é, já é? Cada um tem uma maneira de ver dentro da sua comunidade, a maneira de enxergar cada passo, ou quando eu não respeito. E aí, meninas, esse Jongo de Santa Bárbara, foi um Jongo que refez todos nós e desarticulou, ele não ficou. Às vezes, as pessoas procuram fotos desse Jongo por aí, mas é tão sigilo que Oswaldo não solta, porque é a última pessoa que tem. O começo é Oswaldo, é Sandrão e é Jefferson. Só que não vai servir pra eles. Seria muito bem que eles chegassem e entregassem a juventude, não vai, porque se eles expandir, toma pau, é por desobediência. Então, eles travam. Eles botam tudo quanto é Jongo, de Bibi, o de Maria Amélia, o de o São Bartolomeu também eles não bolham. Por quê? Todo Jongo, ele tem um significado que ele vem de sanzala. O Jongo é criado dentro da sanzala pra não ouvir a dor, pra não ouvir os gritos do outro, a tortura. Então, ele criou o Jongo pra isso. As pessoas hoje estão fazendo o Jongo de demonstração como fosse carnaval, mas tambor é respeitado, tambor tem limite. Tambor de terreiro, ele é vivo. E muitas vezes, as pessoas estão pecando por não respeitar as ancestralidades, que muito fala sem entender. Aí eu venho dos meus ancestrais, mas que tipo de ancestral ele é? O que é ancestralidade na vida de quem não tem o conhecimento ou não busca? Porque o conhecimento é buscando, é ouvindo, é você buscar entender, até mesmo você ver a diferença em você. Hoje, as pessoas assim, eu vejo, né, esse caminho ancestral na vida das pessoas, ele tocar uma coisa que ele não busca a realidade. Hoje, qualquer um cria uma personagem: “Ah, eu sou pai de santo”, mas pai de santo não é olhar. Filho de santo ele não é de qualquer maneira. Eu nasci dentro do terreiro, me batizei com… minha mãe fala que eu estava com… Olha, desde o ventre da minha mãe eu já venho dançando dentro do terreiro, né, já venho ouvindo o baque do tambor, já desde o ventre da minha mãe. E eu quando eu inteirei 40, parece que foi 45 dias, eu tive que vir pra mesa pra minha madrinha e meu tio me batizar, que é uma assim uma tradição que nós temos. Os meus filhos mais velhos tudo é batizado no terreiro, tudo. Já os meus netos só têm dois, que é Wesley e Rafael que é batizado no terreiro. Já os outros não é e o bisneto também não é. E aí são coisas que tradição eu digo que é convivência. Se eu convivo, eu não moro na comunidade de Flávia, mas eu convivo com Flávia, né? Mais ou menos a minha convivência com ela eu sei um pouco como ela é, como a mãe dela é, como ela passa dentro da comunidade, um pouco o trabalho dela, porque o trabalho dentro da comunidade requer uma porção de coisas, que às vezes quem está lá fora dizendo que está nos representando não sabe. E tudo criado dentro do Sapê do Norte é criado pelas mulheres, trabalho forte criado dentro do Sapê do Norte é criado dentro de terreiro. Nós temos mais de 300 mulheres. Começamos por conta. Eu acho que se tivesse umas 15 no dia da reunião, umas dez, umas dez mulheres dentro do terreiro, e hoje nós tomamos a última reunião de umas 300 ou assim. Só da comunidade fora os que vem de fora criando curiosidade pra ver e a gente tem que perceber que está um ano político, né? Muitas vezes vem pra preparar o terreno, como eles digam, pra votação. E é um cuidado que nós mulheres temos que ter dentro do nosso território em geral. Quem são? Quem vai ser? Quem é? Como vai ser o nosso trabalho na política? Porque eu não sou política, mas eu gosto de fazer politicagem com quem trabalha a política, porque tudo o que nós quer, nós temos que formar. E, às vezes, nós passamos decepção, nós somos jogadas pra trás, porque nós levam a nossa feira, uma coisa que eles proibiram. Não aceitavam, queriam que nós fôssemos pra praça do Papa. Não, nós fomos pra aqui, onde passou o nosso povo. E, a primeira, nós sofremos pra caramba, a segunda, nós sofremos pra caramba, pra poder manter aquilo ali, mas nós temos pessoas que trabalham a política. E tudo o que nós queremos dentro da nossa comunidade somos nós que temos que buscar, nós que temos que correr atrás. Eu tenho esse Ponto de Memória, que não é meu, é do Sapé do Norte. Eu digo a vocês assim, é um lugar ancestral, tem o coração da África desenhado, a gente nem sabia por quê, né? O que que queria dizer pra nós. Hoje, todo mundo é devoto de São Benedito, né, Santo Antônio, mas o que é eles mesmos na nossa vida? Todo mundo é devoto de mamãe Oxum, que é Nossa Senhora Aparecida. Como que nós vemos? Todo mundo é devoto de São Jorge, que é Ogum. Como que nós vemos? Eu digo a vocês assim, eu sofro muito, mas sou feliz, porque trabalhar aqui no Sapé do Norte, disser que não sofre racismo, está mentindo. Eu aqui é onde vocês estão, eu já fui atacada três vezes, mas não baixo a guarda, porque eu sei que se me matar, não vai comer, quem vai comer é minha mãe terra. Se jogar na água, eu tenho certeza de que vai ser alimento pra peixe. Então, por que eu tremer? O meu menino mais velho, ele diga: “Mãe, desde a hora que a gente nasce, está fodido. Nascemos pra morrer”. E é verdade, porque aqui é um lugar e eu não perturbo ninguém. Ninguém vê eu na casa de ninguém. Quando eu saio, é pra resolver alguma coisa, mas eu vivo aqui tribulada. Primeiro Ponto de Memória, eu recebi a mensagem que é uma coisa incrível, ali no porto, cima da ponte. Eu quase morri com o meu menino caçula. Eu fui fazer veste pro Jongo, junto com o Guinê. Chegou lá no Guinê: “Guinê, não, não é roupa não, Guinê. Não é roupa não. Eu vi que não é roupa, você está ficando louco”. Nessa época, o padre Rodolfo, que era um padre africano, ele entendia um pouco, entendeu? Mas ele escolheu trabalhar os dois, porque diz ele que todo padre trabalha os dois galhos, né? Ele é filósofo, então, ele tem que aprender de tudo um pouco. O padre, ele tem que aprender de tudo um pouco. E aí ele falou: “Fica assim, não, dona Gessi, não lhe conheço, mas não fica assim aflita não. Na hora, vai dar tudo certo. Guinê vai saber o que a senhora vai querer”. Eu tomei água, fumei, sentei lá fora. Guinê: “Gessi, está na hora de eu pegar minhas duas crianças”, que as duas crianças dele estudavam, “Vamos sentar logo”. E aí foi escolhido o Ponto de Memória. Ele falou: “Pelo amor de Deus, Gessi, você com 20 reais não vai fazer nada. Como que você vai construir o Ponto de Memória? Aqui, não é pra construção, aqui é pra reforma”. Falei: “É isso aí mesmo que eu quero. Você vai reformar o quê? Atrás da igreja tem uma casa, está lá”. Falei: “Eu vou reformar aquela casa lá atrás da igreja, fazer um Ponto de Memória lá atrás da igreja”. Fizemos tudo pra reforma lá atrás da igreja. Quando eu cheguei em casa de noite, muito pelo contrário, esse lugar aqui, três casas. Uma feita pela ancestralidade, uma feita por nós e outra feita por homem, que é de lajota isso aí. Por isso, quando eu digo assim, vocês vêm me perguntar como que é a minha infância, minha convivência, eu… se eu parar pra falar tudo, eu digo a vocês que um dia é pouco. A minha trajetória de vida é curta e, no mesmo instante, é muito longa, porque eu falo pra minhas irmãs, assim, eu, Gessi, eu me sinto que eu já vivi 200 anos e me sinto que eu tenho mais de 100 anos. Por quê? Tudo que eu já fiz e vejo elas de boa, não faz nada. Eu já entrei no fogo pra salvar gente e não me queimei. Eu já criei não sei quantas crianças e elas nada. Essa criança que vocês estão vendo aí, a entidade que trouxe. Está aí, eu fico só o veneno: “Leva. Eu vou entregar”. O meu menino que convive aqui comigo: “Você tem coragem, nada, mãe. A senhora vai entregar, mas depois dela grande”. Aí eu vou e penso na minha avó. A minha avó criou tanta criança que não era dela igual a tia de Flávia, criou tanta criança. Qual o significado na vida da gente? A gente humilde, morando dentro da comunidade, trabalha pra manter, ninguém ganha nada do governo, a não ser se não se lascar pra trabalhar. Ainda apanha criança pra criar. Eu já vou fazer 70 anos com uma menina de 6 anos. Olha a loucura. E eu apanhei essa criança, ela tinha 5 anos. Agora dia 24 de março, ela faz 7 anos. Então, o que é que nós íamos fazer mesmo aqui? Dona Maria Laurinda, até o velório, até a cova da mãe dela, ela teve que fazer, e olha quantos anos Dona Maria tem. E eu penso assim, se nós passar por tudo isso, meu bisneto, meus netos, o que eles vão ser na vida? O que eles vão passar? Porque cada dia que passa, as coisas estão pesando, porque a gente sabe que já está no fim do mundo, né? Querendo ou não, já era pra ter acabado mesmo. Já era, já era pra ter acabado. Se você somar o tanto de gente que já foi, não pela guerra, mas pela água, é só raciocinar. Qualquer chuva que tem hoje é tragédia. Ontem deu um tempo, cada estralo, minha menina está ligando: “O que é que é?”, “Mãe, a senhora está bem?”, “Eu tô”, “A senhora está vendo o estralo?”, “Desliga esse telefone, que eu vou desligar aqui. Não é hora de estar conversando”. O respeito está aí. O cientista quer descobrir tudo, mas por que que não descobre o trovão no céu? O que que significa o relâmpago? Quer descobrir tudo. Minha avó dizia que, pra gente: “Olha, Deus falou que não é minha palavra. Isso aí já é milenar. Que quando o homem quisesse descobrir tudo, o mundo iria. Vai criar divisão, minha filha. Uma parte em fogo, uma parte em água”. Só está faltando um pouco do fogo, porque a água, o nego está vendo o exemplo. Porque todo mundo hoje corre atrás da riqueza e antigamente corria atrás da sobrevivência, porque você morre, não leva nada. Você entrou lá atrás. O nosso terreno vai até lá em cima. Papai morreu, levou o quê? Quatro tábuas, fundo, lateral e tampa. E aí?
P/1 – Dona Gessi, eu queria muito te perguntar sobre a igreja. Como que ela era? Como que você lembra dela?
R – A igreja não tinha, a igreja dentro da comunidade. Aparecia um bispo, eu não vou insinuar o nome, isso vai pra longe. E esse bispo começou a perturbar as pessoas dentro da comunidade, porque da comunidade todo mundo vivia de reza, que era ladainha, ofício, né, e banho e o contato com a natureza. E aí eles começaram a perseguir as pessoas dentro da comunidade. Nesse correio aqui, ó, era o mais perseguido. Fez a igreja Nossa Senhora Santana, fez a igreja de São Bom Jesus da Lapa, lá no Angelim II, como aqui era a minha avó e Maria de Pedro, e tinha outro senhorzinho. Naliozinho também, que era a prima da minha avó. Esses eram, como ele dizia, né, os bruxos, porque conhecia a força da natureza, conhecia as ervas. Então, eles foram pra lá e vieram de lá pra cá. Chegou aqui e procurou os homens da comunidade e a comunidade do Sapê Norte, em geral, funciona com as palavras das mulheres. Não que os homens não tenham palavras, mas se a mulher disser isso, pronto, a mulher falou, está falado. E aí, eles começaram a perseguir as pessoas, fazer celebração lá de fora, rezar, igual os crentes hoje fazem. Oração, oração. Aí foi, sentou com as mulheres e os homens. Essa igreja, ela é criada com impacto, desde que na hora da celebração, o tambor ecoasse poderia fazer a igreja. E ele concordou, porque ele achava que ele ia tirar os orixás de estar ali no meio. E outra, Santa Bárbara na igreja, ela continua sendo em Iansã. É a última igreja que não aceitamos tirar a veste, porque ela vai continuar sendo em Iansã, no Sapê Norte, porque já tentaram. Acho que o terceiro padre agora que veio, sem ser esse que está aí, foi a maior confusão que os pessoal vieram aqui. Disseram assim: O padre está querendo tirar, minha irmã, querendo tirar a roupa da santa”. Falei: “Ele não vai tirar, não, filho. Ele está querendo ver a fraqueza de vocês. Se vocês botarem quente, ele não vai tirar nunca. Ele não tem esse poder. Ele já chegou, encontrou”. Já chega, meninas. A gente está baixando a cabeça pras pessoas virem achar que nós temos que obedecer a eles. Onde está o nosso respeito? E aí, continua a igreja, foi feita. Todo mundo que fez essa igreja já veio falecer. O último faleceu agora que tem três anos, que foi meu irmão, mas de mais, o resto, todo, já faleceu. Meu pai de Itajim, Bino Cosmo, Muduca, compadre Domingo, Tijonzinho, tio Adão, Domingo, o finado Calixto. A maioria, só quem está vivo, acho que é Domingo Abrão, Zezão já veio falecer, a maioria. Acho que Domingo Abrão e Darinha Abrão que estão vivos. Claudionor já veio a falecer. Eu acho que só tem dois homens. Não, (Bindaora?) está vivo, três, que (Bindaora?) era novo também na construção da igreja. E a gente vê que a igreja do Linharinho é a última que não fechou e de São Francisco, né, Flávia? A igreja de São Francisco. Porque demais a igreja todas fecharam, porque eu acho que isso tem uma hierarquia, né, tem que ter um respeito. Porque, quando eu não obedeço, eu corto, entendeu? Quando eu não obedeço, eu corto. É a última igreja que bate tambor, é a última igreja que o Iansã bota a roupa e tem que trocar ela. E é bem delicado, é um trabalho bem delicado, com todo amor, com todo carinho, com todo respeito, porque já roubaram ela, botaram no mato, puseram fogo, só que o fogo rodou ela e ela ficou intacta. Igual fizeram aqui no Ponto de Memória. Aí eu tive que fazer esse trabalho de novo, como eu estou dizendo a vocês, tive que montar esse Ponto de Memória. E aí, eu queria saber o porquê, porque tudo que nós fala em ancestralidade é uma memória. Não é o que nós estamos vendo aqui e aqui tem vários, estão tudo olhando aí, vocês não estão percebendo. São coisas que não são nós que criamos. Nós só damos continuidade um pouquinho, só um pouquinho, porque, além deles deixou já pronto, eles, por mais que eles levaram a sabedoria, mas eles deixaram muita coisa vista, muita coisa vista. Pra quem busca, pra quem conhece, pra quem entende ou queira entender, aqui eu tive que passar pelo caminho estreitinho, né, que é o caminho da prova. Quando fala a palavra resistência, ela vai além do que a gente imagina, essa palavra, pra mim, ela vai além do que a gente imagina. Eu tive que ficar doida, porque eu não aceitava o que era o meu caminho. Eu tive que ir pro mato. O meu primo foi quem me encontrou, ele mora do outro lado lá. E aí, ele conhecia uma mulher. E essa mulher, ela teve que passar na minha mão, uma por dívida e outra por missão. Eu olho o lado mais da missão, né? Ela teve que passar. Dentro desse passamento, como ela entendia e ela sabia qual era a minha missão, que eu não sabia direito e também não sei direito, né? Eu passei umas provas boas na mão deles, mas não baixei a cabeça, de jeito nenhum. Assim, a coisa mais bonita que eu sinto é quando a gente, diante da dificuldade, diante do transtorno, você ergue a cabeça. A minha avó dizia: “Quando você vai caminhando, você toca uma pedra no meio do caminho, se você não quer tirar, arrodeia, porque ela está ali pra empatar, não que ela mora ali. Então, quando você arrodeia, que sai lá na frente, ela ficou pra trás”. E tudo que fica pra trás, existe só recordação. Você não está vivendo aquilo. E assim foi. Passei prova, pai, mãe, irmão, nos momentos mais difíceis, que é o acolhimento do... vou dizer, de Oxalá, né, o acolhimento das pessoas. E aí, você ser escolhida pra estar presente, que não é fácil. E eu passei por isso no acolhimento do meu pai. Ele mandou me chamar, eu tive que estar presente. No acolhimento da minha mãe, ela mandou me chamar, eu tive que estar presente. No acolhimento do meu irmão, que foi no meio da pandemia que todo mundo estava correndo de hospital, e eu assinando o terno pra ficar no hospital, se eu pegasse o Covid e morresse, o hospital não era responsável. E eu com toda tranquilidade: “Não vou pegar, porque eu não tô com medo. Eu só não vou deixar meu irmão sozinho. Ele está precisando de mim”. E foi uma passagem, assim, maravilhosa. Foi diferente de mamãe. Eu digo que cada um tem uma maneira, né, de se acalmar, sair, ser acolhido. Dele foi uma coisa muito... eu não sei se é porque eu rezava muito junto com ele, foi uma coisa muito serena, muito serena. Só que depois me abalou, porque eu mais ele era muito ligado. Nossa Senhora, muito ligado. Depois que eu construí a igreja, meninas, que eu recebi essa missão pra fazer isso aqui, isso criou tanto transtorno na minha vida. A mulher saiu, acho que com uns três meses que ela saiu, vieram aqui pro Zero Fogo. E aí, assim, as pessoas são tão idiotas, que eles acham que eu, quebrando a imagem, eu tô destruindo o ancestral. Eu tô criando força, eu não tô destruindo. E aí, vieram, o que fizeram? Só buscaram... Eu digo assim, né, no meu pensamento, e eles não reclamam nada, não falam nada, eles só vieram aqui buscar Guerreiro, só vieram aqui buscar Guerreiro, e a imagem que eles mais destruíram foi a de Iansã, porque Ogum resistiu, e Nanã também eles destruíram. E aí, eu digo a vocês, assim, eles criaram mais resistência, eles criaram mais força aqui pra dentro. Eles deram mais, vamos supor, mais vida, eu digo assim, porque aqui eles vieram, furaram um buraco na parede, trouxeram óleo diesel e trouxeram o gasolina, misturou a gasolina com óleo diesel. Aí, nessa frente, era uma cozinha, que era amarrada por fora a cozinha. Eles entraram, botaram fogo, primeiro, na mesa. Se vocês procurarem lá no Ponto de Memória do Jongo do Santa Bárbara, vocês vão ver do que eu tô falando. E aí, vieram e destruíram o fogão de lenha que eu tinha. São tão burros até nisso. Eu tinha um carrinho de mão grandão, maior do que esse, que ele era feito de tábua. Os meninos ficam em caixote, com oito caixas de dendê dentro pra fazer. Eles jogaram a gasolina pro Zero Fogo. Eu tinha vinte sacos de cimento, que era pra fazer o piso aí do chão e do quarto lá. Tinha três sacos de adubo, tudo no canto, dentro da... Tudo isso eles puseram fogo. Era cinco e meia, não, era umas cinco e meia da tarde, eu tomei banho, depois que eu saí do banheiro, me deu uma sensação estranha. Eu falei: “Meu Deus do céu, será que eu vou morrer?”. Voltei, fui lá, bebi água, me deu aquele aperto no coração. Eu fui lá, bebi água, sentei no sofá, que é aquele sofá que está lá fora, aquele velho, era aqui dentro. E aquilo foi indo, eu respirando, melhorou. Falei: “Meu Deus do céu, coisa boa não é”. E aqui do lado de fora, esse pé de manga era pequeno, eu tinha um pitbull, que eu saía, botava ele, de dia, eu botava ele pra cá, de noite, eu botava ele ali. Fui lá, apanhei o cachorro, botei, né, e tinha uma casinha de tábua que o meu menino tinha feito, botei perto. Falei: “Se chover, você não vai ficar aí, tá, bebê?”. Aí ele deitado, bateu o cabo assim, eu alisei a cabeça dele, entrei pra dentro, falei: “Mas eu não tô com fome, eu não vou jantar agora”. Era umas seis e pouco. Falei, botei na vazia e desci, pra ir dormir lá na casa da minha irmã. Eu ficava aqui, eu e Deus. Desci, fui lá pra casa da minha irmã, que ela é irmã minha só por parte de pai, né, fui pra lá, pra casa dela. Cheguei lá, falei: “Bina”. Ela: “Hein?”, “Ai, minha irmã, ainda agora me deu uma sensação tão ruim e eu não tô legal”. Ela: “Você tomou remédio de pressão?”, “Tomei”, “E o que que você está sentindo?”, “Não sei explicar”, “Ai, vocês tem uma besteira, Gessi. Tomou água?”, “Tomei”, “Ah, espera aí, vou fazer um chá pra você”. Fui lá, trouxe um mato lá, não sei nem que mato era, fez o chá. Falei: “Não bota açúcar não. Dá puro”. Ela: “Toma, toma”. E eu bebi e nisso a noite já vinha, né, de noite eu não consegui jantar. Ela: “Você não vai jantar não, Gessi”. Falei: “Não”, “Tem peixe, janta peixe”. E eu cheguei na panela, aquilo estava cheirando. Falei: “Ah, Bina, eu tô sem fome. Eu acho que é porque eu comi tarde”. Fui lá, peguei um gole de café, bebi, peguei um cigarro, debrucei. Olha, meninas, um calor, um calor, uma agonia, uma agonia, uma agonia. Eu falei: “Bina, eu não tô legal”. Ela: “Você quer que eu leve você pro médico?”. Falei: “Mas não é sensação de médico. Eu acho que eu vou saber alguma notícia ruim”, porque a gente que tem filho e vive, assim, fora, a gente só pensa coisa ruim. A gente é fraco até nisso. E aí, a noite foi pesando, eu ia assistir novela, eu não conseguia, aquela agonia. Eles foram deitar, que o menino dela sai quatro horas da manhã pra trabalhar, foi deitar e deitou. E eu deitei, mas não conseguia ficar deitada. E assim, o corpo nervoso, aquela quentura, aquela quentura. Aí ele acordou: “Tia Gessi, a senhora está passando mal?”, ele falou. “Desde cedo, eu tô com o corpo meu pegando fogo, uma sensação muito estranha”. Ele: “A senhora ligou pra padrinho? Ligou pra Russo?”. Falei: “Liguei”. “Tá todo mundo bem?”. Falei: “Está”. “Mas a senhora não fica assim, não. Toda hora a senhora tem uma novidade”. Aí foi no banheiro, voltou e deitou. Quando o celular dele despertou, eram três e trinta e cinco. Ele disse: “A senhora não dormiu. Se a senhora quiser, eu vou levar a senhora pra o médico e ligo lá pra o meu trabalho que eu tô com a senhora no médico”. Falei: “Não precisa. Você não vai perder dia de serviço, não. Se eu não melhorar, oito horas eu vou pra o médico, que aí eu já está de dia. Eu pego o circular aqui e vou”. Ele: “Mas a senhora não vai sozinha, não”. Falei: “Tá bom” e fiquei por ali, ele saiu o dia ruim de amanhecer e eu olhava, Bina levantou: “Já está pronta pra ir embora?”. Falei: “Não, menina, eu estava achando que está cedo”, “É, eu não sei o que você tem não, hein?”. Eu falei: “Eu também não sei, não”. Aí o que aconteceu? Deu seis horas, ela ferrou no sono, sentada no sofá, assistindo o jornal da SBT. Eu peguei minha bolsinha, apanhei meu facão, dobrei a coberta e poquei, vim embora. Quando eu cheguei naquela caixa d'água que vocês estão ali, que estava tudo limpo, meu menino tinha roçado, o Ponto de Memória está assim. E eu gritei: “Valei-me, minha Santa Bárbara. O Ponto de Memória caiu, o que aconteceu?”. Mas não tinha fogo. Aí eu vim, cheguei ali, meu corpo mais tremeu, tremeu, tremeu, da cancela pra cá, passando o bambuzal. Eu parei, falei: “Ai, meu Deus, o que que está acontecendo?”. Não tinha um cachorro. E nessa época, eu tinha uns 15 cachorros adultos. É um animal que eu gosto muito, muito de cachorro. E eu não quero ter um não, quero ter um monte. E aí, eu cheguei, vim por aqui, eu cheguei aqui, a minha avó estava em pé [choro, entrevistada levanta-se emocionada]. Porque às vezes a gente acha que hoje a gente sofre, né? Mas o quanto eles sofreram pra hoje nós estar aqui, né? Eu digo a vocês assim que hoje tem carro, tem trator, tem motosserra, né? Ninguém trabalha hoje com enxadão, com machado, com foice, né? Até mesmo pra plantar hoje tem facilidade. E eu vejo antes dos nossos ancestrais, tudo isso pra poder eles resistir, era trabalho esforçado. Era um trabalho, eu não digo nem escravo, era uma tortura que tinha que fazer. O que o branco, em diáspora, queria e ainda quer que nós façamos, como que eles veem? Se hoje nós gritamos a liberdade, nós exclamamos os nossos direitos, mas porque eles já deixaram esse caminho aberto, já deixaram essa convivência aberta pra nós lutar? Por quê? Que ainda fala em libertação, fala em direito, fala em lei, e a gente tem que está lutando pra poder a gente não voltar pro tronco. A gente está lutando pra poder a gente sobreviver. E pensando já na semente que a gente está deixando, que a gente está implantando. Hoje está tudo fácil, hoje ninguém anda a cavalo, ninguém caminha a pé, tudo é de carro. Por isso que eu digo assim, eu tenho muito carinho, muito amor pelas pessoas mais velhas e as crianças. Os mais velhos pelo sofrimento e as crianças que está aí por não entender esse mundo pesado que está, porque correm o risco, com esse sistema que está aí, neto, sobrinho, bisneto, como eu já tenho, sofrer a ditadura de novo, ser escravizado. Porque eu até hoje não vejo muitos jovens voltados pra nossa Mãe Terra. Eu vejo eles muito buscando o celular, até no estudo, porque a juventude não sabe plantar arroz, não sabe plantar feijão, não sabe plantar mandiba, não sabe plantar nada. Então, como que está sendo a juventude criada? Como eles estão vendo o valor que tem uma vida? Como que está sendo trabalhado? Eu me emociono assim, porque eu vejo o sofrimento deles. E é ruim quando a gente vê certas coisas que a gente não quer ver, mas cada um tem o seu caminho, cada um tem o seu galho. Não é pra qualquer um, mas é pra todos nós. Eu vejo, meninas, nós continuamos sendo estudo, porque nós podemos falar tudo, podemos dar entrevista, criar livro, mas nós continuamos sendo estudo. Ninguém quer buscar como que o branco torturava, como que o branco fazia, o nosso alimento na mesa, como é que era feito. Não, como é o sofrimento de vocês? Como que era a tradição de vocês? Eu vejo nós continuamos de maneira abafada, continuamos sendo estudo, mas lá em cima tem alguém que nos representa. Mas será que conhece mesmo o nosso sofrimento? Será que busca mesmo depositar o que nós temos? Porque tirar já tirou tudo, mas será que traz de volta pra nós? Dentro das comunidades? Dentro da nossa tradição? Será que nós paramos de sofrer racismo? Ou o racismo mudou a maneira de lidar com nós? E hoje o racismo é tratado até com tapinha na costa. “Ai, não queria falar isso, desculpa”, mas está usando. Por isso que eu digo a vocês, a palavra resistência pra nós dentro da comunidade, ela tem que ser mais olhada com mais carinho. Quem resistiu pra nós estar aqui? Quando eu disse a vocês que aqui já foi um lugar de três pontos de memória, que antigamente era terreiro, né? Mudou pra terreiro, barracão, casa de oração, casa de macumba, mas antigamente era terreiro. Uma que a celebração, que eram os cultos, não era celebrado dentro de casa. Era embaixo de árvores, era na mata. Mudou, mudou. E hoje a gente pode cultuar dentro de uma casa. O que eu conheci, as imagens eram das madeiras. As imagens eram uma pedra. Hoje, todo mundo tem medo do trovão no céu. Uma pedra de corisco na terra, ela faz arraso, mas também ela faz limpeza. De maneira hoje diferente? Sim, porque todo alimento que nós temos vem da terra e todo alimento que vai pra mesa tem um significado muito grande, alimentar nossa alma, nosso espírito, nossa saúde, né, valorizar nossa vida. E eu digo a vocês, assim, eu não gosto de comida no lixo. Eu prefiro que joga na natureza, porque a natureza precisa de alimento. É gritante isso. O nosso corpo é formado de água. Eu falei no começo. Nós temos um meio ambiente. De que maneira ele vê a gente? Tem uma lei. Trabalhar o meio ambiente, criar os parques, lugar, corredor de rio, eles botam aí, mas no fundo, no fundo, retornar, reconhecer o erro que eles causou. Na natureza eles não voltam. O meio ambiente hoje proíbe a caça, a pesca, os animais. Proíbe. Eu fui criada, meu alimento era caça, peixe. E hoje não tem mais. Você chega na beira de um córrego, você tem até medo. O rio São Domingo aí era três metros de fundura. Hoje, ele não dá meio metro. Se seca um tanto, acabou. O rio Angelim, Nossa Senhora, essa menina foi criada com peixe lá do rio. Hoje, existe aí o rompimento da barragem, mas será que as pessoas estão olhando a destruição que fez esse rompimento? Não só na água doce, como no mar, que é um lugar sagrado. O que faz o mundo faz o mar. “Ah, está só ali naquele lugar”, não, o mundo ele gira. A água que veio desse minério, com essa barragem, está o mundo todo, está o mundo todo. Ela não está ali parada, sentada, quietinha, não. E é só nós chegarmos na beira da praia, nós vermos. Ela vem com toda a força, mas quando ela vai varrendo, ela vai levando tudo, mas leva com um silêncio tão bonito que as pessoas não olham isso. “Eu quero tomar um banho de mar. Ah, eu quero limpar, eu quero tomar um banho de mar”, mas como que vê o mar? “Ah, como é bom tomar um banho de água doce. Quero tomar um banho numa cachoeira”. Como que vê a natureza? A purificação está no lugar que Deus deixou. E cada um, o seu ponto de cuidamento. E hoje nós não temos. Hoje nós não temos onde oferecer um alimento pra o Oxóssi que não seja... Ah, nós queremos oferecer num lugar mais preservado, que ninguém vá lá entregar a natureza, entregar pra o Oxóssi. Você anda quilômetro e não consegue olhar. Não consegue ver uma mata fechada. Se você for pra dentro de um parque: “Você não vai botar aí não, porque você está botando bruxaria. Você não vai botar isso não, porque você vai botar fogo”. Então, como que vê essa visão? Como que antes não botava fogo e agora bota? Como que antes entrava numa mata dessa? Todo mundo conhecia os mais velhos: “Esse mato serve pra coisa assim. Esse cipó serve pra fazer isso assim”. Hoje, se você perguntar, juventude não sabe. É muito dolorida essa fase desse sistema que está aí criado, tirando todo conhecimento, tanto faz indígena como quilombola. Existe um lado ruim? Existe desde o começo do mundo. Isso aí não é criado agora, mas cada um faz no seu olhar. Se eu desejo bem, eu quero o mal, eu quero ver o Sapê do Norte subir, por que eu vou pensar o mal? Se a lei está lá na mão do homem, então traga. A minha avó dizia: “Quando a gente não pode com um inimigo, apareia ele, porque ele não vai ter tempo de olhar pra você e estar te comendo. Você está junto, qualquer motivo que ele fizer, você está olhando”. E faz pergunta: “Pra que serve isso? Pra que isso aqui?”. Se você confia primeiramente em Deus, segundo os orixás, se ele estiver fazendo erro, você vai ver, porque você tem um clareamento na sua visão. O ensinamento ancestral, ele não vem de qualquer maneira. E não é pra qualquer um. Se existe o escolhido, o escolhido tem que ter o ensinamento. É igual ver, nós estamos aqui conversando, vocês não estão entendendo muita coisa do que eu estou dizendo, mas no pouco vocês estão percebendo. Manter dentro das comunidades a ancestralidade, na diversidade cultural, na diversidade ancestral, não é fácil, porque sofre muito.
P/1 – E o que te dá força pra continuar?
R – Os guerreiros. E as pessoas que convivem comigo, que é criança, acreditam e sabem, porque aqui eu só trabalho criança. Tem adulto? Tem. Aqui, eu recebo escola da Serra, de Aracruz, Pinheiro, de São Gabriel da Paia, da Barra, menos da comunidade. Recebo aluno que vem de comunidade, mas porque estuda na Barra, mas as escolas que atuam dentro das comunidades, não pode falar em ancestralidade. Sabe que tem, mas não vem. Aqui, a gente desenvolveu um trabalho com o professor, porque o trabalho dele foi pra a Ufes [Universidade Federal do Espírito Santo]. Eu participei, fui na Ufes, eu e uma pessoa que trabalha aqui, que é o Natan, e mais duas pessoas, o Lucas e outra mulher. Só que eles não convivem aqui, mas o que convive aqui foi o Natan. E o trabalho dele foi tão bacana, tão bacana que ele quase morreu por um diretor. A Barra é de diversidade de cultura, diversidade de cultura. Eu trabalhei em todo levantamento. Se vocês me perguntarem por que eles me procuraram, eu não sei. A Barra tem o título de diversidade, mas não criado pelo município, criado pelas comunidades. Onde eu tive essa oportunidade, eu digo que é oportunidade, de estar junto dessas pessoas fazendo esse levantamento. E ele foi escolhido pra fazer um livro, onde ele trouxe os alunos, mais de três meses, ele fazendo aula aqui no Ponto de Memória. E naquele pé de Oba-Oba, que é uma árvore sagrada da África, todos vocês sabem. Até isso, pra mim chegar aqui, eu tive que receber aquela árvore e plantar. Porém, eu vou morar dentro dela, porque ela está tomando conta da minha casa. A raiz já está lá dentro de casa. Eu não sabia que ela era tão... E aí fui, plantei ela ali. Fui do lado e fiz a minha casa. “Vou plantar aqui porque ela vai vir de sombra pra a gente sentar”. Daqui a uns dois anos, se eu não morrer, que eu não vou aturar muito tempo mais, e aí é onde eu digo que vou morar dentro dela. E ela diz eles que ela arrebenta a casa, então eu faço um buraco dentro dela e aí dá pra mim morar. Então, tudo o que vocês veem aqui dentro, tudo o que vocês olharem aqui dentro, onde a vista de vocês está, tem um significado. Cada planta que vocês veem aqui tem um significado. Começando pelos Dendezal. Para construir esse Ponto de Memória, eu tive que fazer um trabalho, “Senhora do Dendê”, está no YouTube. Porque a Aracruz, que era fibra, que pra mim ela vai continuar sendo a Aracruz, ela só muda de ser CNPJ quando ela vê que a carga está pesando. E aí, o que eles faziam? Furavam o pé de dendê, aplicavam o remédio e tampavam o pé de dendê. Eu tinha um companheiro que só vivia no mato. Às vezes, ele não queria e eu digo a vocês assim, é complicado. Eu dava na cabeça: “Vamos passear por dentro desse mato, na beira desse brejo, estou cansada. Vamos embora lá, menino, deixa de ser ruim”. E foi onde eu descobri. Aqui, do outro lado da estrada, beirando o outro brejo, que é o Congo do Caboclo, onde vocês travessam. Gente, é uma coisa muito incrível. Quando eu cheguei lá, o pé de dendê estava com a folha caída, porque tudo que atinge o olhar da gente, atinge o coração e a memória. E eu entrei, tudo pra mim eu entro em pânico, como vocês veem aqui. Eu entrei em pânico, eles disseram: “Você está ficando doida, menina? Um pé de dendê?”. Rapaz, é mais uma vida. É mais uma vida, porque, pra mim, é uma paeira, mas ela contém o sangue negro. Ela não precisa de corante pra tampar. E quando os meus ancestrais vieram, da África pra cá, o meu povo, trazidos às forças, foi o alimento que eles trouxeram, porque o dendezeiro não é do Brasil. E aí, eu tive a capacidade de fazer uma reunião com eles. Nessa época era jovem, tinha um rapaz chamado Douglas. É Douglas, né, Flávia? Ele era muito assim, trabalhava, você via que ele trabalhava, mas ele era muito chegado, porque ele era indígena. E eu tive essa capacidade de conseguir juntar um pouco deles e é onde eu botei na mesa, e eles falaram pra mim que o dendê não fazia parte do Brasil, que o dendê era exótico. E eu fui e perguntei pra ele: “Se o dendezeiro não faz parte do Brasil, e nós? Se o dendê invadiu, nós somos o quê na visão deles?”. Porque o dendê é um alimento tão sagrado que ele não precisa e era o alimento que nós cozinhávamos com óleo. Tudo o nosso preparamento era feito no dendê. Não existia óleo. O óleo veio pra cá depois da fibra, da Aracruz. Ela que veio trazer essa tentação, porque o dendê é um alimento tão sagrado, ele não cria colesterol, ele não cria diabetes, ele não cria nada. E aí, eu tive que fazer esse trabalho lá no Angelim 2, no Angelim 1, pra poder esse trabalho expandir, como ele expandiu, porque eu não tinha noção do que eu estava fazendo, junto com o Jeff, Dentinas e Irinha, Geane, Maria Bárbara e Valdentor, que chama de Baiquinha. Com os terreiros, que foi de Pai Geraldinho, Mãe Neia e uma mulher que trabalhava lá no Areal. Eu tive que fazer esse trabalho. Eu não conhecia Pai Geraldinho, não conhecia Mãe Neia, e a ancestralidade fez essa escolha daqui pra lá. E eles vieram. Por isso que eu digo a vocês, assim, ancestralidade não é uma palavra, ela vai além do que nós imaginamos. Primeiro, a mulher do Areal veio, fez a abertura, lá em Dentina, que no dia não foi fácil, mas a gente tem que erguer a cabeça. Depois, veio Pai Geraldinho, já foi mais equilibrado, foi até ótimo, aí veio por último a Neia. No dia que Mãe a Neia era pra vir, tomou uma queda na calçada, abriu a frente da perna. E aí, ela foi procurar o porquê, pra poder ela não vir, mas ela ponteou, fez o curativo e veio, porque tudo tem a demonstração, é só o que estamos a entender. Porque, às vezes, você dá vontade de um lugar, depois: “Ah, não vou não”, porque Deus livra, se você não pode insistir naquilo que digo “Eu não vou”. Quando você insiste, pode dar errado. São uns trabalhos dentro do Sapê do Norte, muito de resistência. E a gente tem que ter muita força, botada primeiramente pra o Pai Oxalá, que é Deus, e pelos guerreiros que a gente tem dentro das comunidades, porque todo trabalho é batalha. Todo trabalho você tem que guerrear, é batalha, porque, se não fosse, vocês não estavam enfrentando o que vocês estão enfrentando. Muitas vezes, pra botar comida na mesa, pagar as suas coisas, sua água, pagar a sua energia, até mesmo comprar o remédio, né?
P/1 – Dona Gessi, qual que é hoje o seu maior sonho?
R – O maior sonho meu, que ainda não está tudo realizado, é ver o meu povo ter vida digna. O maior sonho é que o meu povo pode viver essa tal de liberdade, que possa conhecer, que esse trabalho que vêm duas crianças dentro do Sapê do Norte, junta as mulheres, que dê liberdade, conhecimento, mas que elas possam trabalhar com as próprias mãos, dentro de cada quintal que nós temos. Aí, eu digo, assim, que a minha esperança é que esses dias que eu tô passando aqui, eu possa ver esse sonho realizado. Por quê? Deus me deu casamento, me deu três filhos lindos, né, me deu separação, depois me deu viúves, pra mim é uma felicidade, me deu os filhos tudo com saúde, não tem um. Aí eu quero ver neto, e Deus me deu nove netos. Eu sou tão apaixonada pelo lado das mulheres, porque eu vejo a dificuldade, conheci um pouco a trajetória da minha avó e da minha mãe, da minha tia, só me deu dois netos homens e o resto tudo mulher. Agora, veio o bisneto homem, porque os meus filhos, o primeiro foi homem, veio bisneto homem, mas a minha esperança é que eu conheça uma mulher, uma bisneta mulher [risos], uma bisneta mulher. Depois de tudo isso, é ver esse ponto terminado, que primeiro ele foi feito de barro, tampado de palha, aí veio a destruição, destruiu. Segundo, ele foi feito de barro, tampado de Eternit, veio a destruição, destruiu. E agora terceiro, ele está sendo feito de pedra fria, como eles dizem, né, que é feito de tijolo. Então, eu espero que Deus me abençoe, de eu deixar ele pronto, entendeu? Porque você olhando pensa que é de estuque, né? Ele foi feito de estuque, mas não pode ser embarralado, ele não pode ser rebocado, ele só pode ser embarralado. E todo mundo olha: “Como que o barro segura na lajota?”. É a natureza, porque a lajota não é feita de barro. Todo mundo acha assim: “Se embarralar o barro de novo no lajota, não segura”. E outra coisa que eu vou fazer, uma pergunta a vocês, já que está muito olhando pra mim, quando eu viro pra casa, o que vocês veem na frente desse Ponto de Memória, o formato tirante o coração? Você que está carregando a guia do... É uma pergunta.
P/2 – Que é o que eu vejo?
R – Sim.
P/2 – Além do coração?
R – Além do coração.
P/2 – Não sei te dizer. Eu não vejo o que eu tô vendo aqui, a imagem. Pra mim, o porquês está aqui, pra além do coração que eu vejo, que é o que não está ali, exatamente. A imagem, né?
R – Deixa eu te falar uma coisa, olha. Aqui, é um barro só e uma mão só pra fazer tudo isso. Além dele ficou colorido, ele é baseado numa cruz e ele foi feito assim. Desde o começo que eu comecei a fazer ele de estuque. É um barro só. Olha o colorido. É como a nossa vida. É como nós se vestimos. É como é a natureza, entendeu? É como é o mundo. O mundo é colorido. Na nossa mente, não existe cor no mundo. Nós olhamos pra terra, ela é vermelha, ou é preta, ou é branca? Não. Num lugar só, você pode colher barro com diversas cores.
P/1 – Mas, Gessi, o que você achou de contar a sua história?
R – Eu vou dizer a você, assim, tem momento que é bom, não é ruim, né? Mas tem momento que me deixa um branco na cabeça, porque tanta pesquisa sobre nós. Quando eu digo nós, eu não tô referendo a mim, eu tô falando a diversidade, tanto faz do negro como do indígena. Por isso que eu digo, tem momento que é bom e tem momento que é ruim. Em um lado que é bom, porque, às vezes, a gente guarda pra gente uma coisa que, às vezes, você pode olhar daqui dois dias ou até mesmo uma semana, e eu conheci, eu estive nesse lugar, conversando com essa mulher que eu nunca tinha visto, entendeu? E eu vejo assim, dentro da comunidade, tinha que fazer esse trabalho não só com nós, mas com a juventude, pra perguntar como que ele se vê dentro de uma comunidade, o trabalho que ele desenvolve. Mas que não fosse só um jovem, que ele tem que cair na faculdade pra voltar, pra saber um pouco dele mesmo, dele mesmo. Será porque a palavra é mandada pelo branco? Ou porque eles só vão acreditar? Porque todas as pessoas que, Sandrão, Simone, Patrícia, Raissa, tiveram que passar dentro das comunidades pra poder ser um professor. Eu tô dizendo, Luiz, Renata e vários outros estudantes. E está sendo a mesma coisa da nossa juventude que mora dentro da comunidade. Outra preocupação que eu tenho é a juventude sair de dentro da comunidade pra trabalhar nas firmas, trabalhar na barra, ou São Mateus, ou Vitória. Então, como que está ficando o território? Se os velhos estão morrendo. Então, qual é a visão que essa juventude está tendo? Mas fala de um território, falam da resistência, falam da ancestralidade. Se eu aguentei até agora e hoje, eles não aguentam? Feijão... Nós não comprava carne, comprava só o sal, porque até o arroz era colhido, era o sal e o querosene. Hoje, compra de tudo na cidade, do açúcar, o sabão, que hoje as comunidades não fabricam mais sabão. É o prato, é o copo, tudo é comprado, e antes não era. A gente está com um trabalho aqui, dentro da comunidade, aqui no Ponto de Memória, onde eu venho buscando, né, as crianças e até mesmo o jovem, pra gente estar através de um trabalho que a Flávia, como é o nome das meninas? Simone, né? De uma pesquisa e aí caiu pra gente estar fazendo esse trabalho, que é isso que vocês estão vendo aqui. Isso aqui foi dois dias de trabalho. Mexer com... eu digo com a mente, com a natureza e acreditar que tudo que nós temos vem da terra. É a cerâmica de barro. Fazer copo, panela, cabeça de gente, pé de gente, orelha de gente, de tudo um pouco, porque hoje, dentro das comunidades, é bem pouco que tem panela de barro, que eu mesma não tenho, que a minha quebrou, nunca mais comprei um. E tudo era moqueca, feijão, tudo era feito na panela de barro, feijoada, macarronada, tudo era feito. O que, às vezes, eu fazia na panela de ferro era o mocotó, que era mais duro. E hoje, não existe isso mais. Se não tiver vidro na casa, eu mesma fui na casa de fulano e bebi água na caneca de plástico, e o plástico aqui está derrubando todos nós, todos nós. Você não vê mais sacola de pano, você não vê mais bolsa de pano. Se não fabricar com plástico, não tem. Antigamente, até pra comprar pão, você tinha que ter a sacolinha. Eu lembro que o papai dizia: “Dominga, me dá a sacola de pão pra mim trazer um pão lá da Barra”. Quando não fazia bolo de aipim, bolo de puba, foi dentro da comunidade. “Ah, esse negócio está fedendo por demais”. E é uma delícia o bolo de puba, o mingau de puba. Hoje, tem que estar tudo cheirando.
P/1 – Dona Gessi, tem alguma coisa que a gente não perguntou que você gostaria de deixar registrado também?
R – [risos] Eu acho que o que eu tinha que responder, eu acho que eu já respondi tudo. Eu espero que eu pude contar, colaborar com alguma coisa que vocês vieram buscar, nem tudo, mas o que eu pude falar, eu falei, eu disse, eu tive licença de dizer, eu disse. Porque esse trabalho ancestral, ele não pode ficar calado, porque se não fosse eles, nós não existia. Toda a existência, alguém resistiu por nós.
--- FIM DA ENTREVISTA ---
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