IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é Pedro de Alcantara Tavolaro Neto. Tenho 49 anos e nasci em São Sebastião.
INGRESSO NA PETROBRAS
Eu ingressei aqui no dia 11 de fevereiro de 1983. Eu trabalhei 20 anos em navio petroleiro, na Fronape [Frota Nacional de Petroleiros]. Eu sofri um acidente e não pude mais trabalhar. Procurei me adequar no quadro de terra, trabalhar mais em terra. Arrumei uma oportunidade de trabalhar na refinaria de Cubatão, na RPBC [Refinaria Presidente Bernardes Cubatão]. Eles me deram essa oportunidade e eu fiquei durante dois anos lá; eles queriam que eu ficasse mais tempo. Como eu morava em São Sebastião, preferi arrumar uma oportunidade aqui. Eu trabalho há dois anos aqui, onde pretendo me aposentar.
COTIDIANO DE TRABALHO
Eu comecei na companhia como taifeiro. Exerci isso durante dez anos. Eu deveria ter mudado de categoria antes, mas o comandante não deixou, porque eu era o braço direito dele. Eu fui na onda dele e acabei não mudando de posição. Até valia a pena, porque eu ganhava bem, melhor do que muita gente, quase toda semana tinha um dinheirinho por fora. Eu fui me enjoando dessa profissão, porque eu era castigado demais. Mudei de profissão, pra marinheiro. Fiz um curso de três meses, em Belém, e mudei para marinheiro, o que sou até o momento. No navio tem comandante, piloto, chefe de máquina, segundo maquinista – antigamente tinha até o terceiro maquinista – enfermeiro, condutor, mecânico, bombeador, marinheiro, contramestre, moço de convés, cozinheiro, segundo cozinheiro, terceiro cozinheiro; havia cinco taifeiro. O taifeiro tem vários setores. Tinha um taifeiro especial do comandante, só trabalhava com o comandante; aonde o comandante ia o taifeiro ia junto. Eu cuidava da parte do comandante. Mas depois eu vi que não era muito legal. Eu não gostava daquele negócio de ficar ali. Meu negócio é ficar isolado num lugar que o pessoal venha trabalhar. Então eu peguei o paiol, trabalhei no paiol de...
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Meu nome é Pedro de Alcantara Tavolaro Neto. Tenho 49 anos e nasci em São Sebastião.
INGRESSO NA PETROBRAS
Eu ingressei aqui no dia 11 de fevereiro de 1983. Eu trabalhei 20 anos em navio petroleiro, na Fronape [Frota Nacional de Petroleiros]. Eu sofri um acidente e não pude mais trabalhar. Procurei me adequar no quadro de terra, trabalhar mais em terra. Arrumei uma oportunidade de trabalhar na refinaria de Cubatão, na RPBC [Refinaria Presidente Bernardes Cubatão]. Eles me deram essa oportunidade e eu fiquei durante dois anos lá; eles queriam que eu ficasse mais tempo. Como eu morava em São Sebastião, preferi arrumar uma oportunidade aqui. Eu trabalho há dois anos aqui, onde pretendo me aposentar.
COTIDIANO DE TRABALHO
Eu comecei na companhia como taifeiro. Exerci isso durante dez anos. Eu deveria ter mudado de categoria antes, mas o comandante não deixou, porque eu era o braço direito dele. Eu fui na onda dele e acabei não mudando de posição. Até valia a pena, porque eu ganhava bem, melhor do que muita gente, quase toda semana tinha um dinheirinho por fora. Eu fui me enjoando dessa profissão, porque eu era castigado demais. Mudei de profissão, pra marinheiro. Fiz um curso de três meses, em Belém, e mudei para marinheiro, o que sou até o momento. No navio tem comandante, piloto, chefe de máquina, segundo maquinista – antigamente tinha até o terceiro maquinista – enfermeiro, condutor, mecânico, bombeador, marinheiro, contramestre, moço de convés, cozinheiro, segundo cozinheiro, terceiro cozinheiro; havia cinco taifeiro. O taifeiro tem vários setores. Tinha um taifeiro especial do comandante, só trabalhava com o comandante; aonde o comandante ia o taifeiro ia junto. Eu cuidava da parte do comandante. Mas depois eu vi que não era muito legal. Eu não gostava daquele negócio de ficar ali. Meu negócio é ficar isolado num lugar que o pessoal venha trabalhar. Então eu peguei o paiol, trabalhei no paiol de mantimentos, que era bem cuidado por mim, era tudo bem arrumadinho, pintado, eu mesmo fazia tudo. Eu tinha ciúme daquele serviço e ganhava muito bem para fazer aquilo. Eu controlava os materiais do navio, inclusive do frigorífico. Por causa disso eu tive problema no joelho. No começo eu ganhava bem, mas não trabalhava tanto. De alguns anos pra cá, depois de 1990, as coisas começaram a ficar mais difíceis pro marítimo. O salário sempre foi caindo: não é mais aquelas coisas. Na época do Plano Cruzeiro, a gente ganhava melhor; quando mudou a moeda, o salário caiu muito. A gente tinha algumas vantagens, tanto em férias quanto em dinheiro. O navio ficava 30 dias, parado no porto de São Sebastião; mas ele estava pronto, não estava queimado nem nada, estava pronto para operar, mas não tinha vaga na plataforma. Aquilo revertia em oito pontos por dia, ou seja, em 30 dias fazia-se 240 pontos, o que contava pra férias. Isso era uma vantagem enorme pra gente. Era um dinheiro a mais, além das férias. Cheguei a ficar sete meses na minha casa, em férias. Tínhamos tantos pontos que chegávamos a vendê-lo. Contudo, é melhor trabalhar aqui do que dentro do navio. Isso foi desgastando a gente. Uma coisa foi levando à outra. Após ter me tornado marinheiro, eu sofri um acidente no Chile e não voltei mais para a função, não quis mais. Fiquei saturado dessa vida e aqui estou melhor. Estou satisfeito aqui.
COTIDIANO DE TRABALHO
Na refinaria, eu deixei muitos amigos. O setor que eu trabalhava era o RH [Recursos Humanos]. Eu tinha tanto amigo, quanto amiga. A dona Roseli, a Gleice, gerente; a Rosa. Um bocado de gente que me tratou muito bem. Gostaram tanto de mim que não queriam que eu saísse. A própria Gleice falou pra mim: “Pedro, nós não queremos que você saia. Todo mundo gosta de você aqui. Você se deu muito bem aqui. Nós queríamos muito que você ficasse, mas a gente tem que ver o lado seu, você não é daqui.” Eu ia de viagem toda segunda-feira, saía às cinco horas da manhã pra chegar dez minutos para sete. Eu abria todo o setor de treinamento, abria a sala todinha, deixava tudo preparado. Eu chegava de viagem e fazia isso. Não entrava pela frente, entrava pelos fundos. Eu fiquei ali dois anos, em hotel. Aquilo me saturou e eu não consegui mais ficar ali. Não era por causa do pessoal, era por causa das viagens, que eram um pouco arriscadas, porque o percurso para Santos tem muitas curvas, tem morros. Eu vi muitas coisas acontecerem, mas comigo não aconteceu nada, graças a Deus. Mas poderia ter acontecido. Aqui é melhor, eu estou em casa, pertinho, ando na praia, é mais tranquilo.
TEBAR / OBRAS
Eu já conhecia esse Terminal. Eu nasci aqui. Quando eu nasci, já tinha estaca aqui. Quando pequeno, eu não saía da Rua da Praia. Era tudo terra, chão batido, não tinha asfalto, era tudo mato. Quando começou a construir, eu tinha apenas cinco anos de idade; eu fui pra Suzano, morar com minhas tias. Elas eram professoras e queriam me levar pra lá. Fiquei um bom tempo lá; cerca de um ano. Então, eu não vi muita coisa [das obras da Terminal]. Quando a gente é pequeno, não se lembra de muita coisa. Eu via que se batia estaca e que faziam o acesso pro píer da frente, para os dois do Píer Super Norte. Primeiro vieram os navios, aqueles mais antigos. Os primeiros navios dela. Primeiro nasceram os navios, depois o Terminal.
INGRESSO NA PETROBRAS
Eu sempre tive vontade de trabalhar na Petrobras, por incrível que pareça. Pra se ter uma ideia, eu tentei entrar na Petrobras em 1978. Muita gente entrou na Petrobras naquela época. O pessoal fazia um laço assim e jogava: “Vem, você vai trabalhar na Petrobras” Jogavam laço. Quem tinha segundo grau se dava bem aqui na Petrobras. Eu fui tentar. Eu trabalhava no posto de gasolina, eu 15 ou 16 anos. Então, um dos instrutores [do concurso] olhou para a minha cara e falou: “Não é porque você trabalha num posto de gasolina que a Petrobras é a mesma coisa”. Aqui tinha um posto de gasolina e eu sabia que aquele pessoal deveria ser remanejado, porque eram da Petrobras. Então eu falei: “Caramba, acho que não vou entrar nessa Petrobras, o cara já falou isso pra mim e eu não vou conseguir entrar”. Eu não tinha segundo grau nessa época, não tinha. Eu era muito fraco nos estudos, tinha vários problemas com a família. Resultado: eu não consegui entrar. Aí eu parti para o navio. Chegou um comandante no posto de gasolina que falou: “Pedro, você tem carteira marítima?”, “Não tenho.”, “Então faz um curso que eu vou levar você pro navio.” Apenas eu abastecia o seu carro. Eu o tratava bem. Ele me disse: “Se você tiver a carteira, você vai trabalhar comigo” Isso me incentivou. Aí eu fui trabalhar. Precisei da ajuda da minha mãe; tive que correr atrás pra embarcar no navio. Para se ter uma ideia, quando eu estava na Rua da Praia, no quebra mar, e olhava para o navio, para a chaminé do navio, via que saía fumaça, então pensava: “É dez horas da manhã e o cozinheiro está fazendo o almoço” Nem imaginava o que era um navio, eu só olhava de longe. Eu embarquei num navio com os meus 22 ou 23 anos. Fiquei dez anos nele. Entrei contratado, interino. Quando eu entrei no navio, a cozinha era totalmente diferente do que eu imaginava, totalmente. Vi que aquela chaminé era a caldeira do navio, que jogava fumaça pra cima. A cozinha é toda diferente. É legal Foi legal No começo foi meio difícil pra mim, mas depois foi ótimo.
TEBAR / MUDANÇAS
Mudou muita coisa aqui. Hoje em dia a tecnologia está em primeiro lugar, assim como a segurança e o meio ambiente. A Petrobras visa muito o meio ambiente, ela procura evitar muitas coisas, como o derramamento de óleo. Hoje, se derramar óleo, a imprensa cai matando em cima. A Petrobras procura cuidar muito dessas coisas, principalmente o meio ambiente. Por isso, ela busca mais tecnologia, pra evitar muitos acidentes. A Petrobras busca muita renovação. Ela investe muito nessas coisas.
CIDADES / SÃO SEBASTIÃO / SÃO PAULO
[O maior benefício que o Terminal trouxe para a cidade de São Sebastião foi a] renda, o royalties. Infelizmente, nossos políticos usam isso pra outros fins, não usa pra cidade. A intenção do Prefeito Juan era mudar o centro todinho da cidade; coisa que nenhum prefeito teve a ousadia de fazer. Infelizmente, ele perdeu, mas ele faria uma coisa muito bonita aqui na cidade.
COTIDIANO DE TRABALHO / TEBAR
Atualmente, estou como auxiliar técnico administrativo. Eu cuido da parte de documentação, da parte de malote, tanto interna como externa. Eu ando muito, praticamente o dia todo. Vou a vários setores, faço serviço para todos eles. Presto serviço para cliente interno e cliente externo. Eu pego o documento aqui e levo ali. Como sou re-classificado para o quadro de terra, tenho que fazer mais coisas ainda, coisas que eu não fazia. Mas eu acho muito legal, interessante. Tomara que tudo dê certo. Eu ando no Terminal durante a manhã. Eu chego aqui às seis e meia. A primeira coisa que eu faço é ir ao Píer-Sul e ao Píer-Norte pegar os documentos. Quando o navio sai, eu tenho que pegar os documentos. Depois, eu venho pra cá, quando dá oito horas, eu rodo aqui tudinho. Quando dá nove horas, eu junto todos os documentos e levo pra cidade, para entregar pra algum setor ou para o correio. Eu pego os documentos na parte de operação, não entro no navio. Só entro no navio quando o comandante – com quem trabalhei – me convida: “Pedro, vamos tomar um cafezinho” Ele ainda trabalha lá, no navio Stavanger; eu conheço a sua mulher, conheço todo mundo. De manhãzinha não tem o que fazer, por isso eu aceito tomar um cafezinho com ele. Não dá saudade de embarcar, entro só pra tomar um cafezinho e nada mais.
COTIDIANO DE TRABALHO / MARINHEIRO
Eu trabalho na Petrobras há mais de 20 anos. Tenho a aposentadoria garantida, o meu futuro está aqui, coisa que eu nunca pensava. Eu cheguei a pensar em sair da Petrobras, não queria mais embarcar, pensava em ser investigador de polícia. Inclusive tinha feito inscrição em São José. O navio chegou a Angra e a prova seria no domingo. Eu tinha estudado tudo e falei com o comandante, no sábado, um pouco antes: “Me dá uma licença para eu fazer uma prova, não aguento mais ficar de marítimo, não quero mais ser marítimo. Eu vou sair da Petrobras” Ele não me deixou sair do navio, esse comandante que me convida pra tomar um café, o Comandante Andrade. Eu estava num navio ruim pra caramba. Eu deixava o meu couro naquele navio. Era um navio muito ruim de se trabalhar. Era tudo manual, tudo cansativo, com aqueles cabos grossos. E eu fazia aquilo sozinho, de manhã. Passava a noite todinha em serviço. Eu mesmo arrumava serviço pra não dormir, porque não tinha sono. Não dava sono, era a noite todinha. Já cheguei há ficar 38 horas acordado, direto sem dormir. Eu tomava café direto, café era meu vício, café com Coca-Cola. Eu fiquei em Manaus sete meses, sem vir em casa. Foi a viagem mais longa da minha vida, foi o tempo mais longo que fiquei longe de casa. Isso foi duro. Eu trabalhava de noite, entrava às quatro horas da tarde e saía às sete horas da manhã. Teve uma hora que eu não agüentei. O comandante gostava de mim, queria que eu ficasse depois de sete e meia. Falava: “Pedro, fica aí, entra de férias e volta pro navio”, “Não vou voltar mais pro navio Não quero mais ficar aqui”, “Mas vai ser três por um.”, “Não quero mais. Cansei. Chega” Certa vez, eu falei: “Se o senhor não mandar o meu substituto amanhã, pode ter certeza que eu vou meter um atestado, porque não tenho mais condições de estar aqui no navio. Psicologicamente, eu não estou bem”, “Você não é louco de meter um atestado”, “Quer apostar comigo que amanhã eu desembarco do navio?” Foi dito e feito. Chegou um substituto que não queria embarcar. Fui falar pro comandante: “Comandante, dá pro senhor pedir um vôo pra mim, marcar pra uma hora da manhã?”, “Pedro, fica aí, toma uma Coca-Cola.” Fez tudo para eu ficar. Falei: “Não, comandante” Uma hora da manhã, tinha um vôo pro Rio de Janeiro. Eu disse: “Quero ir nesse vôo”, “Não, você é doido”, “Eu vou nesse vôo. Não agüento mais Se eu ficar aqui, vou brigar com o senhor e eu não quero brigar, quero sair de cabeça erguida.” Ele me arrumou o vôo e eu fui embora. Nunca mais voltei para o navio. Esse navio não existe mais, foi vendido se não me engano. O Chile foi a minha última viagem. Eu me acidentei e fraturei três costelas, bati com o pescoço no ferro. Eu fui ao Valparaíso, no Chile. Os médicos tiraram radiografia, que saiu escura e não constou nada, falou que era uma luxação. Tomei uma injeção desse tamanho e me encheram de comprimido. Ainda fui andar no shopping. Fiquei ainda 12 dias de navio, no trajeto do Chile até o Rio de Janeiro. Continuei trabalhando, não queria ficar parado, me sentia inútil em ficar deitado numa cama. Não dormia no meu beliche, dormia sentado no sofá. Não me senti bem nesses 12 dias. Trabalhava de dia. Fazia meu serviço de pintura, pintava banheiro com rolinho. Eu parecia um robô. Quando chegou ao Rio de Janeiro, o comandante em vez de me levar para o hospital, me levou pra casa dele, no Aterro do Flamengo. Eu falei pro comandante: “Preciso ir ao médico”, “Não, eu vou te levar no médico” Ligaram pra ele, chamando-o para uma vistoria a bordo. Ele me deixou com a enfermeira. O que eu fiz com a enfermeira? Falei: “Enfermeira, vai embora e deixe que eu me cuide.”, “Mas o senhor está legal?”, “Tô, pode deixar, que eu vou ao médico. O taxista vai me levar.” Fui ao médico, ele olhou a chapa do Valparaíso, do hospital, olhou a radiografia e disse: “Aqui não está constando nada, tá escura. Vai e tira mais três radiografias”. Quando fui com o rapaz tirar a radiografia, eu falei para o cara: “Se tiver alguma coisa, quero ser o primeiro a saber.” Ele tirou a radiografia me falou: “Pedro, veja com o médico, mas você tem três fraturas na quinta, sexta e sétima” Fui dormir no hotel e, no outro dia, fui buscar minhas coisas no navio e vim embora. De lá pra cá não embarquei mais. Fiz tudo pra não embarcar mais. “É agora ou nunca”, pensei comigo. Estou sendo bem aproveitado no lugar onde estou atualmente, graças a Deus, graças a esse meu acidente. Eu tinha problema crônico no joelho, por isso caí no navio, não foi porque eu quis; que ninguém é louco de cair em cima de ferro. Eu não tinha articulação nenhuma no joelho, fui passar de dentro de um lugar para outro e falhou.
MEMÓRIA PETROBRAS
Eu vou dizer uma coisa pra você. Se eu tivesse que contar a minha história, precisaria de uma semana. Eu não contei a minha história aqui. Foi uma [entrevista] desse tamanhinho. A história é muito grande. Tem a da tradição da minha família, que é muito grande, uma das famílias tradicionais de São Sebastião, que tinha fazenda. Minha avó foi uma das melhores professores de sua época. Família conhecida, por ser italiana. Mas foi legal. Devia ter mais oportunidade de contar mais história. Eu tenho muita coisa de história de navio pra contar, de viagens, de muitas coisas. Se eu fosse contar, demoraria muito. Dá pra escrever um livro
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