Eu tinha os olhos fitos na toalha quadriculada daquela mesa tão familiar, testemunha das horas felizes e tristes. Naquele momento, sentia-me deprimida, tudo ia mal e parecia que nada de bom surgisse, de tão desanimadora situação. Na época, o Major me falou: ”Não esqueça... por baixo de nós se estendem os braços eternos... você não cairá”. Eu não conhecia dele aquela expressão, e perguntei: “Isso você tirou da Bíblia?” – Claro Palavras que Moisés falou ao povo de Israel. – Mas, como pode essas palavras me ajudarem agora? – Meu anjo, entenda bem, Moisés fala no livro de Deuteronômio, que Deus é nossa habitação.
Corria o mês de Outubro de 1966, estava “grávida”, acho que com quatro ou cinco meses, nesta noite, íamos a uma festa no GRESSE (Grêmio dos Sub-Tenentes e Sargentos do Exército), não sei se era a gravidez, ou se era eu, que via tudo sem ter nada para ver. No GRESSE, dançávamos ao som da “Orquestra Tabajara”, era ditadura... Sentia-me naquele clube como se fosse a continuação de minha casa, mas naquela tarde, já entrando na noite, sentia-me um tanto deslocada no ambiente daquele imenso salão. Muitas das senhoras estavam solenemente com vestidos escuros, presos com “broches”, gola alta, que parecia mais um velório... Que faria eu naquele meio?, pensei... De repente, me senti uma “estranha”, com o pescoço nu, calça capri, blusa de ban-lon e mangas curtas, enfim, estava usando roupas para uma tarde quente de verão. De repente, peguei minha bolsa e saí a procura de um táxi que me levasse embora dali... Ali eu era “uma estranha no ninho”. Em pé, alguém me tocou com as pontas dos dedos e disse-me: “Porque fazes isto comigo?" "Que fiz contigo?" Virei-me e dei com os olhos daquele homem que um dia muito me amou, cheio de lágrimas. Me levou para casa e no caminho eu só fazia chorar. Não sei o que eu tinha... Era vergonha, medo e talvez desprezo... Ainda não tinha falado com ele que eu...
Continuar leitura
Eu tinha os olhos fitos na toalha quadriculada daquela mesa tão familiar, testemunha das horas felizes e tristes. Naquele momento, sentia-me deprimida, tudo ia mal e parecia que nada de bom surgisse, de tão desanimadora situação. Na época, o Major me falou: ”Não esqueça... por baixo de nós se estendem os braços eternos... você não cairá”. Eu não conhecia dele aquela expressão, e perguntei: “Isso você tirou da Bíblia?” – Claro Palavras que Moisés falou ao povo de Israel. – Mas, como pode essas palavras me ajudarem agora? – Meu anjo, entenda bem, Moisés fala no livro de Deuteronômio, que Deus é nossa habitação.
Corria o mês de Outubro de 1966, estava “grávida”, acho que com quatro ou cinco meses, nesta noite, íamos a uma festa no GRESSE (Grêmio dos Sub-Tenentes e Sargentos do Exército), não sei se era a gravidez, ou se era eu, que via tudo sem ter nada para ver. No GRESSE, dançávamos ao som da “Orquestra Tabajara”, era ditadura... Sentia-me naquele clube como se fosse a continuação de minha casa, mas naquela tarde, já entrando na noite, sentia-me um tanto deslocada no ambiente daquele imenso salão. Muitas das senhoras estavam solenemente com vestidos escuros, presos com “broches”, gola alta, que parecia mais um velório... Que faria eu naquele meio?, pensei... De repente, me senti uma “estranha”, com o pescoço nu, calça capri, blusa de ban-lon e mangas curtas, enfim, estava usando roupas para uma tarde quente de verão. De repente, peguei minha bolsa e saí a procura de um táxi que me levasse embora dali... Ali eu era “uma estranha no ninho”. Em pé, alguém me tocou com as pontas dos dedos e disse-me: “Porque fazes isto comigo?" "Que fiz contigo?" Virei-me e dei com os olhos daquele homem que um dia muito me amou, cheio de lágrimas. Me levou para casa e no caminho eu só fazia chorar. Não sei o que eu tinha... Era vergonha, medo e talvez desprezo... Ainda não tinha falado com ele que eu estava grávida. Tinha medo... Medo e vergonha... De meu pai, da sociedade, da faculdade, dos amigos e até dele, talvez ele me abandonasse. Medo de ser apontada como “a outra”, afinal, eu tinha medo de tudo. Não tinha ninguém para compartilhar os acontecimentos, nem a ele eu tinha coragem de contar da minha irresponsabilidade e assim se passaram os anos. Anos de incertezas, anos de sofrimentos, minha vida mudou... Mudou para pior, porque vieram os anos sem ele e sem meu pai, comendo “o pão que o diabo amassou e deixou para mim”. Meu pai foi morto pelo Exército em 06/11/1969. Casei-me com outra pessoa, só para ter um nome e dar satisfação à sociedade. Errei... errei e não pude nunca me perdoar com a “traição” que fiz com ele. Só a ele eu amei, ele veio a falecer em 07/05/2009, no Recife, nunca o esqueci. Estes são alguns poucos “pedaços de minha vida”, são trechos, que um dia talvez eu venha a transformar em um livro. Para vocês, meus agradecimentos sinceros... Pense:
“Há coisas que nunca voltam atrás: O tempo depois de passado, a ocasião depois de perdida; A pedra depois de solta e a palavra depois de proferida”. Campina Grande-PB, Agosto de 2011.
Recolher