Projeto Memória Petrobras
Depoimento de Paulo Sérgio Souza
Entrevistado por Márcia de Paiva
Rio de Janeiro, 27 de abril de 2005
Realização Museu da Pessoa
Entrevista número PETRO_CB699
Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha
P – Vamos ver também a sua trajetória e tentar explorar um pouco da própria Petrobras Internacional. Bom dia.
R – Bom dia, Márcia.
P – Eu gostaria de começar a entrevista pedindo que você nos diga seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Muito bem. O meu nome é Paulo Sérgio de Souza, tenho 58 anos de idade. Nasci em 9 de julho de 1946. Sou natural do Rio de Janeiro, aqui mesmo.
P – Qual é a sua formação?
R – A minha formação, Márcia, eu sou advogado formado pela PUC em 1970, aqui no Rio de Janeiro, e eu tenho uma licenciatura em Língua Inglesa pela antiga UEG, também de 1970.
P – E como é que foi o seu ingresso na Petrobras?
R – O meu ingresso na Petrobras, vamos chamar de ingresso na Braspetro. Eu participei de um processo seletivo em dezembro de 1980 para entrar para o Departamento Jurídico da Braspetro. Era uma vaga disponível. Na ocasião eram 10 candidatos que foram apresentados. Quando eu cheguei na sala lá eu fiquei espantado. Quase todo mundo era gente que tinha prestado prova pro Instituto Rio Branco junto comigo. Eu falei: “O negócio vai ser difícil”. Eu me lembro da prova, foi bem difícil, escrever de próprio punho, no momento, um contrato de exploração de perfuração de água no deserto da Líbia. O contrato seria entre uma companhia brasileira e uma companhia local, com as condições aplicáveis no local, com a legislação reinante em Londres e com todo pagamento no paraíso fiscal. Do próprio punho, língua inglesa, sem poder consultar nada. E eu consegui o lugar.
P – Maravilha, que foi um provão, né?
R – Na ocasião foi bem difícil. Eu trazia uma experiência de escritório internacional de advocacia, eu trazia uma experiência de...
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Depoimento de Paulo Sérgio Souza
Entrevistado por Márcia de Paiva
Rio de Janeiro, 27 de abril de 2005
Realização Museu da Pessoa
Entrevista número PETRO_CB699
Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha
P – Vamos ver também a sua trajetória e tentar explorar um pouco da própria Petrobras Internacional. Bom dia.
R – Bom dia, Márcia.
P – Eu gostaria de começar a entrevista pedindo que você nos diga seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Muito bem. O meu nome é Paulo Sérgio de Souza, tenho 58 anos de idade. Nasci em 9 de julho de 1946. Sou natural do Rio de Janeiro, aqui mesmo.
P – Qual é a sua formação?
R – A minha formação, Márcia, eu sou advogado formado pela PUC em 1970, aqui no Rio de Janeiro, e eu tenho uma licenciatura em Língua Inglesa pela antiga UEG, também de 1970.
P – E como é que foi o seu ingresso na Petrobras?
R – O meu ingresso na Petrobras, vamos chamar de ingresso na Braspetro. Eu participei de um processo seletivo em dezembro de 1980 para entrar para o Departamento Jurídico da Braspetro. Era uma vaga disponível. Na ocasião eram 10 candidatos que foram apresentados. Quando eu cheguei na sala lá eu fiquei espantado. Quase todo mundo era gente que tinha prestado prova pro Instituto Rio Branco junto comigo. Eu falei: “O negócio vai ser difícil”. Eu me lembro da prova, foi bem difícil, escrever de próprio punho, no momento, um contrato de exploração de perfuração de água no deserto da Líbia. O contrato seria entre uma companhia brasileira e uma companhia local, com as condições aplicáveis no local, com a legislação reinante em Londres e com todo pagamento no paraíso fiscal. Do próprio punho, língua inglesa, sem poder consultar nada. E eu consegui o lugar.
P – Maravilha, que foi um provão, né?
R – Na ocasião foi bem difícil. Eu trazia uma experiência de escritório internacional de advocacia, eu trazia uma experiência de Departamento de Contratos da extinta Nuclebras. Participamos da negociação dos contratos do enriquecimento nuclear com a Alemanha, e isso tudo acho que me ajudou muito. Quando eu saí da Nuclebras os superintendentes todos foram na minha sala me dar os parabéns por estar entrando pela companhia que, no momento, era a mais importante que existia no país em termos de avanço, em termos de qualquer outra coisa, que era a Braspetro. Muito orgulho.
P – E quando você, você então, qual foi o ano?
R – Dezembro de 80.
P – Dezembro de 80. Como é que estava a Braspetro nesse momento? Quando você entrou o quê que você encontrou?
R – A Braspetro nessa época, Márcia, era uma companhia pequena. Ela era composta de um quadro de empregados próprios que tinham sido recrutados no mercado local como eu, e também era composta por, principalmente, técnicos da Petrobras que tinham sido escolhidos a dedo pela sua qualificação profissional, pela sua elevada formação acadêmica e que tinham sido preparados pra poderem enfrentar o desafio que era iniciar um trabalho de exploração e produção de petróleo fora do Brasil. Ninguém sabia o que era isso. A Petrobras tinha a tecnologia brasileira, era a maior companhia do Brasil como é hoje. Mas lá fora era apenas mais uma companhia que estava começando, era mais uma companhia com brasileiros. Era um bicho meio esquisito, o pessoal não sabia direito o quê que era isso, meio aventureiros. Mas a gente tinha um trunfo, né? Eu entrei em 80. Em meados dessa década de 70, que estava acabando ali, nós tínhamos feito a descoberta do que tinha sido considerado o maior campo de petróleo do mundo, que era o Campo de Majnoon. Junto com Majnoon...
P – Isso no Iraque?
R – No Iraque, exatamente. Foi um trabalho da Petrobras, porém feito através da Braspetro. E aí era interessante explicar uma coisa. O profissional da Petrobras, altamente qualificado, vestindo a camisa de Petrobras, quando era cedido a Braspetro ele vestia a camisa da Braspetro e entrava pra equipes e se considerava Braspetro. E muita gente foi pra Braspetro e ficou durante 15, 20 anos, e a Petrobras era só de onde vinha o contra-cheque. O resto era se apresentando com Petrobras International Braspetro. O nome que a gente apresentava era este. As equipes eram extremamente unidas. A camaradagem era muito grande e todo mundo se sentia muito bem em trabalhar junto com um objetivo muito forte, muito comum, que era representar não só a Petrobras e Braspetro, como principalmente representar o Brasil. Eu vi um ponto muito de contato com o que eu queria fazer que era entrar pro serviço diplomático brasileiro. Eu me senti muito realizado com isso.
P – Qual foi a missão da Braspetro que você pegou, mais desafiadora?
R – Quase todas eram desafiadoras. No jurídico, Márcia, nós acompanhávamos, fosse do local ou fosse aqui no Brasil, as equipes de negociação para ingressar em países para celebrar os contratos, primeiro de concessão ou outra maneira qual fosse, e depois fazemos outros contratos de associação com os parceiros que entravam conosco na aventura. Só que tem uma particularidade. Onde a gente encontrava petróleo, ou a gente procurava petróleo, eram países muito diferentes da nossa cultura como nós a conhecemos. Os países no mundo árabe muitas vezes não tinham legislação codificada. Muitas vezes a base da legislação era o Corão. Então, a criatividade que o nosso grupo tinha que ter para escrever um contrato que pudesse reger as obrigações entre as partes e os direitos durante a vida do campo, que seria 20 anos, era imaginar tudo que pudesse acontecer de estranho durante 20 anos e providenciar o remédio ali dentro, sabendo que esse contrato seria regido muitas vezes pela lei do local onde você não tinha garantia de uma legislação aplicável internacionalmente como se fosse num foro estrangeiro na Suíça, na Inglaterra ou qualquer outro lugar. E a gente negociava esses contratos colocando essas condições dentro do documento. Depois da negociação, que sempre era extremamente cansativa, um lá tentando alcançar o outro, sempre, tentando conseguir as melhores condições. Esse contrato muitas vezes era aprovado por uma lei específica e virava lei por causa do contrato. Ai você partia pro campo, pra começar a sísmica, por exemplo. E você encontrava num bloco contíguo ao seu outras companhias estrangeiras fazendo o mesmo trabalho, mas com condições absolutamente distintas daquelas que tinham no seu contrato mas tinham sidos aprovados por uma outra lei. Então não tinha referencial. E coisas do tipo, a última cláusula dizendo: “Os ministros tais, tais e tais responderão pessoalmente pela execução desse contrato”. Que até hoje eu tenho medo de pensar o que isso quer dizer.
P – Os ministros daqui?
R – Lá.
P – De lá?
R – Exatamente. Ou seja, cumpre ou então você sabe o que vai acontecer com eles. Era muito interessante.
P – E você viajava? Você ia fazer as negociações também, esses contratos?
R – Tanto a gente viajava, a gente ia pro local, a gente fazia o trabalho aqui na retaguarda. Apareciam missões de repente que você tinha que estar preparado em 24 horas pra poder partir pra um país estranhíssimo pra fazer uma coisa que você não tinha a mínima idéia do quê que era. Tinha que tomar conhecimento de tudo através de documentos que você lia no avião. E se não fosse, Márcia, isso eu tenho que falar sempre, se não fosse a vontade tão grande que nós tínhamos de fazer o trabalho da melhor maneira possível, o grupo onde você confiava estritamente, na pessoa que estava junto com você, teria sido muito mais difícil. A união era muito grande.
P – Me conta uma história desses anos de trabalho, que tenha te marcado especialmente.
R – Uma história desses anos de trabalho? Uma porção. Uma não aconteceu comigo, uma aconteceu com dirigentes da nossa companhia, que eu não me lembro quais eram, que partiram numa das primeiras missões pra fazer o nosso ingresso em Angola, onde nós iniciamos entrando no bloco 12, a associação com a Texaco e outras companhias. Mas muitas vezes a negociação tinha que ser feita de última hora. Primeiro iam os dirigentes e depois ia a equipe de apoio. Acabava indo nós em seguida. E a burocracia pra você conseguir um visto pra entrar em Angola era um negócio muito complicado porque dependia da embaixada em Brasília, que abria um dia durante a semana, não se conseguia nada. Então a Petrobras, Braspetro, com o prestígio que tinha adquirido, muitas vezes a pessoa saia de avião e falava: “Vamos conseguir esse visto lá no Aeroporto Quatro de Fevereiro. A gente fala na hora com o pessoal, tudo isso”. Um grupo de dirigentes uma vez chegou no aeroporto, desembarcou do avião, se apresentaram. E a autoridade presente, era um país socialista como ainda é hoje, a autoridade presente era um oficial, equivalente à nossa polícia marítima portuária, eles disseram: “Olha, viemos aqui pra fazer um contato, fazer uma reunião com os dirigentes da Sonangol, a companhia estatal deles. Mas não deu tempo de tirar o visto, vamos ver se a gente consegue uma facilidade”. E o oficial chegou na hora e falou: “Quando a gente vai visitar os vizinhos, a gente bate primeiro na porta pra saber se vamos ser bem recebidos. Vocês nem bateram na nossa porta. Pega o seu avião e volta pra casa”. E foi preciso muito jeitinho brasileiro pra, nessa ocasião, o pessoal conseguir entrar pra poder continuar a negociação. Era coisa que a gente nunca pensava que podia acontecer. Foram fatos muito interessantes. Um outro também que eu tenho uma lembrança foi quando nós estávamos entrando no bloco 17, no equador. Nós éramos operadores em associação com a antiga Elf Aquitaine, que hoje é outra companhia muito maior, Total Fina Elf E o local onde íamos começar o trabalho de sísmica era bem exatamente, era uma selva muito fechada habitada por indígenas não pacificados. Então nós engajamos o auxílio. Tinha um bispo católico que estava fazendo um trabalho de catequese lá, que tinha um contato bom com os índios. Ele falou: “Não, deixa a gente continuar o nosso trabalho aqui, vamos dar sinal verde pra vocês. Quando vocês começarem a chegar com as equipes sísmicas nós começamos a fazer o trabalho”. Um belo dia veio a notícia que o bispo tinha sido assassinado. Um helicóptero passou por cima do local, tem fotografias disponíveis aqui do corpo dele, talvez com umas 25, 30 flechadas no corpo. Coisa de faroeste, né?
P – Isso em qual país?
R – Equador. Hoje a coisa é bem diferente. Agora, a atividade internacional que a Petrobras tem hoje, que todo mundo conhece, todo mundo sabe como é que é, foi iniciada pela Braspetro, foi iniciada por essa equipe de pessoas que vieram da Petrobras para a Braspetro, juntando à nossa equipe pessoal, da própria companhia, pra iniciar tudo isso. Esse trabalho nós tivemos em mais de 100 países onde uns tivemos sucesso, outros tivemos fracasso. Estivemos na Índia, estivemos na China, estivemos em Madagascar. Madagascar teve um blowout gigantesco, um poço que explodiu, foi um negócio complicadíssimo.
P – Mas num poço da Petrobras?
R – Era um poço onde a Braspetro participava da operação, que na ocasião foi controlado, correu tudo direito, mas foram todas experiências que decorreram de atividades que estavam sendo realizadas no exterior onde, eu repito, a Braspetro e Petrobras eram apenas mais uma outra companhia. Não era a companhia que hoje detém tecnologia de águas profundas, não é essa companhia que, depois do acidente com a P-36, procura e está conseguindo obter uma qualificação em termos de segurança das mais avançadas do mundo. E não é a companhia que nós temos hoje. Era um negócio bem diferente.
P – E você, enfim, fala da Braspetro. Como é que foi resolvido essa passagem Braspetro pra Petrobras Internacional?
R – Isso foi parte da internacionalização da Petrobras aonde chegou-se à conclusão que a atividade internacional da Petrobras não poderia ficar restrita a uma subsidiária sua, mesmo porque a experiência que nós temos visto das outras companhias de petróleo fora do Brasil, as grandes, houve uma época em que elas tinham uma subsidiária somente dedicada a trabalho internacional como a Pectan, como outras. Mas com o passar do tempo, Márcia, chegou-se à conclusão que a atividade internacional não é uma atividade à parte da companhia. A companhia toda tem que se considerar internacionalizada. O segurança que está tomando conta da entrada lá é de uma atividade internacional. O contador tem que entender que a contabilidade tem que ser feita levando em conta o trabalho que está sendo feito fora do Brasil. Até a nossa entrada, das nossas ações, na Bolsa de Valores de Nova York é a prova perfeita disso. Nós temos que nos adequar à legislação americana para que possamos continuar tendo a nossa negociação de ações fora do Brasil. Isso implica uma quantidade de salvaguardas, de providências, de exigências legais, contratuais até, judiciais, que acaba acarretando modificações da própria organização da companhia, sempre para melhor, sempre aumentamos os controles, sempre objetivando conseguir um resultado melhor. E nisso você, tem uma hora que você acerta, tem hora que você erra, mas a coisa é assim mesmo. Crescimento sempre é difícil.
P – Então tá, Paulo. Eu queria terminar, perguntar o que você achou dessa iniciativa da gente estar fazendo um Projeto Memória e se você gostou de ter participado.
R – Eu achei sensacional. Eu achei sensacional como eu tenho a certeza que todos os colegas da Braspetro que foram admitidos aqui nessa casa de quase 40 mil pessoas, quê que éramos 300 e poucos aqui no Brasil, sentimos que ganhamos um presente de vocês. Foi a oportunidade de podermos contribuir com o nosso depoimento, com a nossa experiência, sempre objetivando uma vitória comum da Petrobras no mundo inteiro, internacionalizando, não só aqui no Brasil, onde nós temos certeza que a nossa parte também foi muito importante. Meu agradecimento é muito profundo e muito sincero a vocês.
P – A gente é que agradece, Paulo, sua participação, sua generosidade de vir aqui ajudar a gente nesse trabalho.
R – Muito bacana, muito obrigado, Márcia.
P – Obrigado.
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