Então podemos começar assim: diga-nos o seu nome, local de nascimento e data de nascimento.
Patrícia Santos. Nasci em Vila Flor, a 30 de novembro de 1985. Tenho uma história relacionada com a data de nascimento, nasci a dia 30, mas sou registada a dia 29. Na altura o meu pai foi ao registo e a senhora perguntou: “Quando é que ele nasceu? Sexta-feira?”. Sexta-feira foi dia 29, por isso me confundo às vezes assim aqui com a data, mas é dia 30 de novembro de 1985. Tenho 40 anos.
E os seus pais, como é que se chamam ou chamavam?
O meu pai é Júlio e a minha mãe é Cidália. Residem numa aldeia aqui do concelho, Roios. Tiveram muitos anos emigrados, o meu pai mais, a minha mãe esteve menos tempo. Regressaram eu estava no 12º ano e continuam na aldeia, moram na aldeia.
Emigraram para onde?
Para a Suíça.
Antes de a ter?
O meu pai foi para a Suíça, eu era pequenina. A minha mãe foi para a Suíça quando eu tinha 9 anos.
Ok. E foi também com eles?
Não. Eu tenho mais 2 irmãs e o nosso contacto com a Suíça era nas férias. Nós íamos lá passar das férias. Os meus pais sempre insistiram para que nós fossemos para lá, mas nós nunca quisemos. As minhas irmãs, uma delas, inclusive, quando a minha mãe foi para a Suíça, estava na faculdade, a do meio foi para a faculdade nesse ano. E foi aí que o meu percurso de vida também mudou, porque com a ida dos meus pais para a Suíça e as minhas irmãs na faculdade do Porto, eu não poderia ficar aqui sozinha e então, com 9 anos, tive que ir para o Porto.
Ok. Então, quando ficaram cá, ficaram juntas as irmãs, não foi com avós. Ficou ao cuidado das suas irmãs mais velhas?
Sim. Fiquei ao cuidado da irmã do meio. A mais velhas já estava no Porto, na faculdade a estudar. A do meio estava a terminar o décimo segundo ano. Fiquei com ela, ficamos ali enquanto…
Então têm alguma diferença de idades.
Sim, 9 e 7. 9 anos da mais velha e 7 da do meio, sim.
Portanto, viveu com os seus pais até...
Continuar leituraEntão podemos começar assim: diga-nos o seu nome, local de nascimento e data de nascimento.
Patrícia Santos. Nasci em Vila Flor, a 30 de novembro de 1985. Tenho uma história relacionada com a data de nascimento, nasci a dia 30, mas sou registada a dia 29. Na altura o meu pai foi ao registo e a senhora perguntou: “Quando é que ele nasceu? Sexta-feira?”. Sexta-feira foi dia 29, por isso me confundo às vezes assim aqui com a data, mas é dia 30 de novembro de 1985. Tenho 40 anos.
E os seus pais, como é que se chamam ou chamavam?
O meu pai é Júlio e a minha mãe é Cidália. Residem numa aldeia aqui do concelho, Roios. Tiveram muitos anos emigrados, o meu pai mais, a minha mãe esteve menos tempo. Regressaram eu estava no 12º ano e continuam na aldeia, moram na aldeia.
Emigraram para onde?
Para a Suíça.
Antes de a ter?
O meu pai foi para a Suíça, eu era pequenina. A minha mãe foi para a Suíça quando eu tinha 9 anos.
Ok. E foi também com eles?
Não. Eu tenho mais 2 irmãs e o nosso contacto com a Suíça era nas férias. Nós íamos lá passar das férias. Os meus pais sempre insistiram para que nós fossemos para lá, mas nós nunca quisemos. As minhas irmãs, uma delas, inclusive, quando a minha mãe foi para a Suíça, estava na faculdade, a do meio foi para a faculdade nesse ano. E foi aí que o meu percurso de vida também mudou, porque com a ida dos meus pais para a Suíça e as minhas irmãs na faculdade do Porto, eu não poderia ficar aqui sozinha e então, com 9 anos, tive que ir para o Porto.
Ok. Então, quando ficaram cá, ficaram juntas as irmãs, não foi com avós. Ficou ao cuidado das suas irmãs mais velhas?
Sim. Fiquei ao cuidado da irmã do meio. A mais velhas já estava no Porto, na faculdade a estudar. A do meio estava a terminar o décimo segundo ano. Fiquei com ela, ficamos ali enquanto…
Então têm alguma diferença de idades.
Sim, 9 e 7. 9 anos da mais velha e 7 da do meio, sim.
Portanto, viveu com os seus pais até aos...
Com a minha mãe até aos 8. Com meu pai, era pequenina quando ele emigrou. Com a minha mãe, eu tinha 8 anos, quando ele emigrou para a Suíça. E, entretanto, eu tinha 16 anos quando eles regressaram da Suíça e eu regressei, outra vez, às raízes.
Ok. Já lá vamos. E os seus pais, o que é que faziam cá? E o que é que foram fazer lá?
O meu pai trabalhava na construção civil. E a minha mãe fazia as jeiras, aquelas zonas agrícolas, portanto, tinha a jeira. O meu pai, por intermédio dum familiar, foi para a Suíça, arranjou-lhe um contrato de trabalho. Teve sempre ligado a construção civil. Posteriormente, a minha mãe, quando foi para a Suíça, foi trabalhar para uma fábrica. Uma fábrica onde eram todos portugueses e faziam cotonetes para os hospitais e produtos esterilizados.
Ok. E tem ideia ou lembra-se de ter… como foi ver os seus pais e de repente os seus pais já não vivem consigo…
Com o meu pai, como era pequenina, não tenho essa noção. Recordo-me perfeitamente é quando o meu pai vinha cá no Natal e no Verão, que era sempre um entusiasmo, porque estávamos à espera… para além de estarmos à espera, estávamos sempre à espera da mala recheada de chocolates que ele nos trazia. Quando a minha mãe foi embora, senti mais, porque já tinha 8 anos, senti mais, mas como sempre foi muito ligada às minhas irmãs e tivemos uma relação muito próxima, claro que custou, mas amparávamo-nos umas às outras e eu, mesmo sendo a mais nova, como sentia o porto seguro nelas, portanto, foi uma... digamos assim, uma etapa tranquila.
Muito bem. E os avós, paternos e maternos, viviam perto?
Viviam, uns viviam aqui na aldeia em Roios, onde moramos atualmente, e os outros moram na aldeia em Vale Frechoso. Portanto, a minha mãe é de Vale Frechoso, o meu pai é de Roios. Viviam, mas também já tinham ali alguma idade. Iam dando algum apoio, porque quando eu e a minha irmã ficamos aqui as duas sozinhas só foi um ano. Depois ela entrou na faculdade, estava a terminar o 12.º, e foi quando fomos embora.
Ok. E os seus pais conheceram-se e depois vieram viver para aqui?
Os meus pais são de aldeias relativamente próximas. Conheceram-se nas festas que antigamente se faziam, nos bailes, nos bailaricos. O meu pai costumava correr muitos bailaricos e conheceram-se e casaram. Quando casaram foram morar para Roios. A minha mãe saiu da aldeia dela e foi para Roios. Inclusive ela, houve uma altura, porque há lá uma fonte de Roios, que diziam que quem bebesse lá água, que casava lá. E ela dizia: “isso é mito, eu não acredito em nada disso”. Ela bebeu água e do grupo de raparigas que veio ,foi a única que casou lá em Roios e ficou em Roios [risos]
[risos] E, então, a sua casa de infância era essa?
Sim.
Como é que era a casa? Como é que foi crescer lá?
Foi bom, porque era um ambiente tranquilo. A aldeia é uma aldeia pequena, com poucos habitantes, portanto, tínhamos o máximo de liberdade, para andar na rua e irmos para a escola. A minha primária foi feita em Roios, nós íamos para a escola com os miúdos e íamos todos a pé, sozinhos, sem que ninguém tivesse necessidade de nos levar. A minha casa tinha, tinha e tem, um espaço grande à volta, e então os meus amigos, dois vizinhos meus, iam sempre brincar comigo lá para casa. Brincávamos às bonecas, andávamos a apanhar grilos…. Pronto, tínhamos assim muitas atividades, e fazíamos muitas brincadeiras ao ar livre, mas a minha casa sempre foi um aconchego e um porto-seguro.
Bom, e a família mais alargada? Tios, primos também estavam ali à volta?
Tínhamos mais família, mais tios e primos na aldeia da minha mãe, Vale Frechoso. Ali em Roios, tinha menos. Mas, efetivamente, a família da parte da minha mãe, o lado materno era muito maior. Os natais, enquanto os meus avós foram vivos, sempre cheios de gente em casa. Da parte do meu pai são menos, depois o meu tio também estava emigrado na Suíça, pronto, não tínhamos tanta proximidade, mas tínhamos sempre ali a tia, que se fosse preciso alguma coisa, estava lá.
Mas nessas festas juntavam-se todos?
Sim, principalmente com a família materna. Estávamos juntos todos, sim. Eramos 40 e tal.
E as festas da Vila também? Era uma tradição virem sempre?
Sim, por norma, sim. Vinham, juntávamo-nos todos, almoçávamos, quando era ali em Roios almoçávamos em nossa casa, depois íamos à procissão e ao bailarico.
Quando era pequena, ouvia histórias sobre a sua família, os seus pais contavam-lhe? Os avós faziam isto, ou os bisavós faziam isto, nós viemos desta família assim…
Sobretudo das dificuldades. Sobretudo das dificuldades que passaram. Lembro-me, a minha mãe contava sempre do meu avô, a mãe dele faleceu no parto, e o pai dele também faleceu ele era pequenino, portanto ele ficou, assim, entregue ali a uns senhores, mas nunca teve ali uma família, digamos assim. E ele sempre se desenrascou, e, entretanto, começou a trabalhar muito cedo, casou, teve os filhos e o esforço para os criar, que eram famílias humildes… E a minha mãe também me conta, eram novos, não é? 10 ou 11 anos, faziam o 4.º ano e já não estudavam mais, e os quilómetros que tinham de percorrer, para ir à azeitona, para ir à jeira, apanhar a azeitona, apanhar a amêndoa, as dificuldades que passavam, não é? Também, muito para nos alertar, que o que eles tinham, nada tem a ver com aquilo que nos conseguiram dar hoje.
Sim, sim. Portanto, falamos da casa, da aldeia sossegada, o aconchego do ambiente comunitário…
Sim, sim, e tranquilo, podíamos andar nas brincadeiras e fazer muitas coisas pela aldeia, sem qualquer tipo de insegurança, não é? E, portanto, toda a gente nos conhecia, toda a gente se conhece, conhecemos toda a gente depois há aquela coisa: “Anda cá à minha casa, anda cá comer qualquer coisa, queres comer alguma coisa, minha filha?”, esta comunidade, toda a gente acaba por tomar conta…
E o que mais gostava de fazer quando era criança?
Gostava de andar de bicicleta, gostava de jogar futebol. Tudo o que fosse ao ar livre. Acho que nós não sabíamos brincar de outra maneira, no meu tempo, sem ser cá fora, e arranjar, às vezes, montar uns carrinhos e fazer algumas coisas que apanhávamos para brincarmos.
E era principalmente com os vizinhos.
Sim, sim. Eram os meus amigos… somos do mesmo ano.
Sim, sim. E nessa altura, quando era criança ainda, já pensava no que queria fazer, de trabalho...
Sempre... Sempre quis fazer algo que tivesse relacionado com pessoas, lidar com pessoas. Até que cheguei ali a uma uma fase em que fiquei muito na dúvida entre psicologia, serviço social… mas o que eu queria era a proximidade e o contacto com as pessoas.
Mas quando era pequenina? Se calhar não pensava assim, quero trabalhar com pessoas, ou era mesmo?
Sim, sim, sim. Nunca tive aquela questão de eu quero ser médica, ou querer ser... Não! Sempre aqui a relação com o outro. Sim. Desde pequenina.
Na escola, não sei se fez o pré-escolar, o infantário, quando é que entrou na escola?
Andei no infantário, mas depois, ao fim de uma semana a minha mãe teve que me tirar, porque eu passava o dia, de manhã até à noite, a olhar para o edifício onde as minhas irmãs andavam a estudar, que era a preparatória, a chorar. E eu estava habituada à liberdade e passar o infantário foi complicado. Portanto, fui para a escola quando tinha cinco anos, a fazer seis. Fui para a escola em setembro com 5 anos, a fazer 6, fazia seis em novembro. O primeiro ciclo foi em Roios. Na altura, éramos sete ou oito miúdos, desde o primeiro até o quarto ano, éramos pouquinhos, tínhamos uma professora apenas para todos, para a turma toda. Era engraçado, porque a professora fazia assim: de manhã fazíamos as fichas e trabalhávamos, depois havia, pelo menos, um dia para a semana em que à tarde íamos ajudá-la a limpar o carro [risos].
Mas esse grupo, não sei se percebi bem, tinha alunos de anos diferentes?
Era uma professora do primeiro ao quarto ano.
E todos na mesma sala?
Todos.
E ela fazia a distribuição das tarefas…
Sim. E lembra-me, na altura eu e outra amiga, que era a Bia, que ela nos dava fichas e, principalmente quando não era matemática, que eram sempre mais morosas, mas por exemplo, Português e Estudo do Meio, nós fazíamos aquilo muito rápido. Então, depois ela distribuía-nos outras tarefas, pronto.
E lá, na escola, que brincadeiras é que faziam?
Jogávamos a macaca, jogávamos às escondidas, ao apanha-apanha, portanto, eram essas brincadeiras que me lembro… jogávamos ao elástico, e eram essas brincadeiras que fazíamos todos.
E alguma coisa que a tenha marcado, aí no infantário, no primeiro ciclo?
Eu acho que o espírito do grupo que acabávamos todos por criar, eramos pouquinhos, e mesmo com alguma diferença de idade, não muito, mas havia alguma diferença de idades, mas o espírito do grupo e a união, acho que isso ficou.
Essa professora, portanto, teve vários anos consigo, tirando essa parte de lavar o carro dela, gostou, foi uma pessoa que a tenha…?
Sim, marcou-me, era muito rigorosa. Ainda era do tempo em que às vezes havia uma régua, uma vara, pronto. Era assim muito rigorosa, mas também, ao mesmo tempo, era muito cuidadora. E ainda hoje recordo-a com muito carinho, passo por ela com muito carinho, também, e falo com ela. E, pois, lá está, o facto de sermos pouquinhos, também acaba por se criar ali outro tipo de relação, que nos dias de hoje poderá ser um bocadinho mais difícil, não é? Ela já era professora há muitos anos lá. Antes de entrar para a primária, a minha mãe foi logo dizer: “Olhe que a minha filha escreve com a esquerda”, porque ela às vezes obrigava a escrever com a direita. “
Eu lembro-me, no primeiro dia, quando entrei: “A tua mãe já me disse que tu escreves com a esquerda. Pronto, vá! Vou deixar-te escrever com a esquerda”. Foram bons momentos e boas recordações.
Então, depois do primeiro ciclo?
Vim fazer o quinto ano para aqui, para a Escola Básica de Vila Flor, que era o antigo ciclo. Foi no final do quarto ano que a minha mãe foi embora. Nesse quinto ano, foi para a Suíça, fiquei com a minha irmã do meio, que estava a terminar o décimo segundo ano, e apenas fiz aqui o quinto ano.
Ficaram só as duas?
Ficamos só as duas.
Durante o ano?
Durante o ano. A minha irmã mais velha, que já estava na Faculdade de Letras, no Porto, vinha aos fins-de-semana e estávamos as três, mas durante a semana estava eu e minha irmã, que estava no décimo segundo ano, a minha tia também nos ia dando algum suporte, mas estávamos as duas sozinhas.
Mas sentiu a saída da irmã mais velha?
Não.
Ela voltava ao fim-de-semana também…
Sim, sim. Tínhamos uma ligação muito próxima. Como vinha aos fins-de-semana, durante a semana eu ia para a escola, estava entretida e não senti. Acho que senti mais depois, quando ela se casou [risos].
Ok, ok. Fez o décimo segundo, portanto estava a dizer...
Do sexto, até ao nono estive numa escola em Gaia.
Desculpe-me por a ter interrompido. Mudou para ir viver com as suas irmãs. Então, como é que foi esse processo?
Uma já estava em Gaia, morava co, uma tia nossa, uma irmã da minha mãe. Entretanto, quando a minha irmã acabou o décimo segundo ano e eu terminei o quinto ano, a minha mãe disse: “Já que a tua irmã vai para a faculdade, vamos arranjar um apartamento para as três no Porto”. Compraram o apartamento e nós fomos. Foi uma experiência assustadora. Eu lembro-me de... as aulas iniciavam numa segunda-feira e no domingo com a minha irmã fazer o trajeto, ela e o namorado e dizer qual o percurso que ia fazer de autocarro. Tinha que apanhar ali o autocarro, sair ali… Eu não estava habituada a ir ao Porto… aqui no mundo, no meu mundo, na minha bolha, sem confusão, sem vermos muitos carros quando se atravessava a rua, poder andar à liberdade. E, entretanto, achei estranho, o primeiro dia de escola foi horrível, foi uma sensação de impotência, de medo e tudo junto. Porque tinha também a pronúncia de cá e quando os professores me perguntavam de onde é que eu vinha, a pronúncia que eu tinha foi alvo de chacota por parte dos colegas. Eu lembro-me, no primeiro intervalo, estar atrás de um pavilhão a chorar desalmadamente, e dizer que me queria vir embora. Mas a adaptação foi aos poucos, e tive nessa escola até ao nono ano, e no Porto até ao décimo primeiro.
Ok. Então, do sexto ao nono ano, não houve ali nenhuma figura que tenha apoiado nessa transição.
As minhas irmãs.
Mas dentro da escola, não…
Dentro da escola, não.
Nem professores, auxiliares?
Não.
Foram uns anos difíceis…
Foi o primeiro ano. Foi o sexto ano, e foi ali aquele primeiro mês. Porque depois, consegui... consegui começar a adaptar-me, começar a fazer amigos. Depois daquele mês que foi completamente avassalador, porque foi do meio rural para o meio urbano. Eu estava habituada a brincar na rua, e andar e correr e tudo mais, sem ter qualquer tipo de preocupação. E eu apanhava o autocarro de manhã quando vinha para o quinto ano, não é? E vinha aqui para a escola, e nós até, inclusive, estudávamos em cima, no antigo ciclo, e vínhamos no quinto ano, pequenitos, almoçar à escola secundária, porque não havia refeitório em cima, vínhamos a correr por ali abaixo. E cheguei a Gaia, o choque foi...
É Gaia centro, não é?
Eu estudei na escola, na Teixeira Lopes. Morava ali, na zona do Candal, e foi complicado. Foi. Ali aquele primeiro mês, mas acho que consegui ser resiliente, ou seja, eu acho que acabei por ganhar aqui algumas capacidades. Ganhar aqui, e leva-las para lá, e naquele período, também acho que acabei por ganhar algumas capacidades que me fizeram crescer mais depressa.
E que capacidade é que levou daqui?
Eu acho que... nós somos uns resistentes e uns resilientes, também. E somos uns sortudos por morar neste cantinho tão bom, que eu naquela altura não via tanto assim, mas a qualidade de vida, o sossego, sobretudo a paz, a tranquilidade que eu ganhei aqui, fez-me se calhar gerir as coisas de forma, não que fosse fácil, mas de uma forma mais tranquila. E isso veio daqui. Isso veio daqui. Agora, a capacidade de resistência, de resiliência mais vincada foi lá. Mas aqui a questão da tranquilidade, do sossego, d às vezes, relaxar, e isto vai passar, isto é uma fase, foi deste cantinho.
Muito bem. E disse que depois que se mudou para o Porto?
Na Teixeira Lopes era só até a terceiro ciclo. Sempre tive francês, fui uma aluna que iniciou francês no quinto ano, e, mesmo em Gaia, tive que ir para Arcozelo, muito longe de casa, fazer o 10º, 11º, fazer o secundário. Porque era o único que tinha continuidade de francês, a única escola, ali à volta, era a única. E fiz o 10º, 11º ano, mudei de escola, mas aí a adaptação foi completamente tranquila.
Como é que eram os amigos? O que é que faziam?
Faltávamos às aulas de vez em quando, jogávamos muito à bola… ainda nessa altura, os primeiros telemóveis, mas ainda estávamos muito tempo sentados a falar e a conversar dos namoriscos e de algumas aventuras que íamos tendo.
E chegou a trabalhar, durante esse período?
Não.
E as suas irmãs, uma estava a estudar e outra estava ao trabalhar?
Nessa altura, a do meio estava a estudar e a trabalhar, e a mais velha se não tinha terminado... acho que já tinha terminado a licenciatura, porque ela ainda deu aulas antes de terminar a licenciatura.
Ok. O que é que elas estudaram? O que que faziam?
A mais velha é professora de Geografia. Sempre foi. A minha outra irmã tirou o curso de Relações Internacionais, entretanto foi trabalhar para a Sonae e trabalha lá ainda atualmente.
Ok. E onde é que entra Porto para si?
O Porto foi na faculdade.
Ah, pronto. Então vamos passar para a faculdade.
Porque eu o 11º fiz lá, mas depois os meus pais vieram nesse ano da Suíça, no fim do meu 11º. E começaram a dizer que iam ficar aqui sozinhos, porque as minhas irmãs já não regressavam, tinham lá os trabalhos. “E agora viemos da Suíça, e agora ninguém nos faz companhia”. E eu disse, “pronto, então, ok, eu venho fazer o 12.º ano para aqui”. E regressei. Lembro-me, na altura, eu quando fui para Arcozelo, no décimo ano, por causa do francês, depois escolhi espanhol. E tive 10.º, 11.º ano espanhol, e tinha décimo segundo, só que depois também aqui não tinha. Tive que anular a matrícula, fiz exame nacional, e vim para cá, para não deixar os pais sozinhos. Estavam contentes de terem regressado definitivamente da Suíça e queriam alguém ao pé deles. E eu vim para aqui. Fiz aqui o 12.º ano, e inclusive até calhei na turma dos meus colegas de quinto ano. Depois ingressei na faculdade e tive que sair outra vez.
Como é que foi voltar? Agora estou aqui, e vou voltar para lá, sentiu entusiasmo, sentiu… como é que foi?
Eu fiquei tão... Eu fiquei tão emocionada com a vinda definitiva dos meus pais, porque só nos víamos no Natal. E houve, pelo menos um Natal que marcou. Eles não vieram, passamos no Natal, as três, lá em baixo no Porto, e foi muito difícil. E senti que eles estavam cá e que iam ficar cá e eu também acho que tenho que aproveitar.
Correu bem?
Correu bem, sim. Porque quando cheguei ao primeiro dia, quando vi a turma, eram colegas que me lembrava do quinto ano.
E então, depois, na altura de escolher o curso, já tinha escolhido o agrupamento, não é, humanidades?
Sim, sim, sim. E, depois, o curso, como eu sempre quis algo que tivesse relacionado com pessoas. Eu estava indecisa entre Psicologia e Serviço Social. Era qualquer coisa relacionada com pessoas. E desisti da Psicologia e optei pelo Serviço Social. Entretanto, como tínhamos casa no Porto, tínhamos a mesma casa que os meus pais tinham comprado quando eu fui para lá, a primeira vez, em Gaia. Entretanto, os meus pais começaram a dizer, e eu na altura, não pesquisei bem… Lembro-me de quando terminei o meu 12.º ano, a minha mãe disse assim “Olha queres ir para algum sítio? Queres fazer uma viagem?”. Eu tinha uma prima na Madeira e eu disse “olha, então vou”. E lembro-me, na altura, de nem ter concorrido ao Ensino Superior Público, porque sabia que havia a Universidade Fernando Pessoa no Porto. Tinha Serviço Social, era uma área que eu gostava. E, a minha mãe tinha dito que preferia que eu fosse para lá e já não tinha a despesa da casa. Portanto, depois candidatei-me, fiquei e tirei a licenciatura na Fernando Pessoa, no Porto.
Quantos anos é que era na altura?
Quatro. Sendo que o último era estágio durante o dia e aulas à noite.
Como é que foi, esse ano?
Foi, foi… desgastante. Eu fiz estágio no Centro de Saúde, em Soares dos Reis e morava lá em Gaia. Comecei a fazer estágio e depois tinha aulas até às 11h da noite. Tinha um trabalho de estágio durante o dia, e depois, à noite ia ter aulas, foi muito intenso.
E voltava, vinha aqui a Vila Flor?
Sim, vinha. De 15 em 15 dias vinha cá. Até porque, depois, a minha mãe tinha uma loja aqui em Vila Flor quando vieram da Suíça. Ficou com uma loja aqui em Vila Flor, e quando vinha aqui ao fim-de-semana, era para a libertar a ela também um bocadinho da loja. Eu ficava ao sábado para que ela, depois, também pudesse ir ajudar o meu pai na agricultura, porque o meu pai… ainda vieram a trabalhar, ainda veio na idade ativa, e o meu pai trabalhava, então, ao fim-de-semana, tinha terrenos agrícolas. Eu vinha, ficava na loja para minha mãe ficar um bocadinho aliviada.
E quando foi estudar para o Porto, no ensino superior, uma vez que já tinha voltado para cá no 12.º, custou-lhe sair outra vez?
Não, nessa altura não me custou. Não, não me custou. Não senti o que senti depois, mais à frente, quando regressei novamente ao Porto. A minha vida foi um misto de Roios, Gaia, Gaia, Roios, e voltei agora, em 2017. Aí é que sim. Mas nessa altura não foi complicado. Uma jovem, não é? Aqui foi um ano bom, mas.... Morei desde os 9, até aos 15, 16, no Porto e em Gaia. E estava habituada a uma rotina diferente, não é? Aqui, aquele ano foi assim de calma e tranquilidade, mas faltava-me… faltava-me uma adrenalina e a confusão. Nessa altura, sim, fazia-me falta. E quando fui senti-me bem. Regressei novamente à cidade.
E os pais... O seu pai voltou a fazer a mesma coisa quando voltou...
Sim, sim, sim.
E a loja da sua mãe era...
A loja da minha mãe era uma loja… um misto de loja dos 300. Naquela altura usava-se as lojas dos 300, com muitos artigos de decoração, também tapeçaria. Atualmente estão reformados, mas continuam a trabalhar na agricultura.
Gostam?
Gostam, gostam, gostam. Gostam e faz-lhes bem, também! Nós às vezes estamos a mandar vir com eles, mas acho que no dia em que pararem vai ser complicado. Eles agora andam e gostam.
E então, terminou o curso, o que é que se segue?
Terminei o curso, tínhamos que apresentar uma monografia, que era uma espécie de hoje tese de mestrado, mas era uma monografia que tínhamos que fazer. E, entretanto, também fui trabalhando ao longo deste projeto no estágio, mas depois tive ali algum tempo para a entrega e, como estudava no Porto, tive a trabalhar. Iniciei na Vodafone, no Gaia Shopping. Trabalhei lá 1 ou 2 anos, 2 anos, salvo erro. Entretanto, depois, entreguei a monografia, concluí a licenciatura e voltei a regressar, sempre a morar em Roios, mas fui trabalhar para Mirandela, para uma casa de acolhimento de jovens.
Em termos de distância, só para eu me situar….
Daqui a Mirandela, que sejam um 35 km, mais ou menos. Ia e vinha a todos os dias, fiz estágio profissional lá durante um ano. No final do estágio profissional, aí foi complicado. Nessa fase, quando regressei, foi difícil. Eu dizia sempre: “Vim aqui mais uma vez ao Porto, para apanhar um ar, um ar da civilização.” Estava habituada a ter tudo e nessa altura é que me meteu um bocadinho mais de confusão, depois de ter terminado a faculdade e já ter ingressado também no mercado de trabalho. Quando cheguei aqui, só ao fim-de-semana é que podia fazer alguma coisa diferente. Tinha a carta, mas não tinha carro e, portanto, não podia…. E para ir para a Vila Real também ainda demorava um bocadinho… e Mirandela também não tinha shoppings, não tinha a praia…
E as amizades na altura da faculdade, como era o seu grupo de amigos? O que é que faziam?
Olha, saiamos à noite, estudávamos, às vezes estudávamos juntas. Estudávamos juntas, eu ia dormir a casa delas. Fazíamos serões e conversávamos sobre o que que nos esperaria e as dificuldades que às vezes enfrentávamos, e falávamos das cadeiras e dos professores.
Ainda tem algumas amizades dessa altura?
Tenho, ainda mantenho contacto.
O que é que acontece a seguir ao estágio?
A seguir ao estágio concorri para um concurso da Câmara, para Assistente Operacional para a escola, e fiquei. Estive a trabalhar durante mais de dez anos aqui na escola, no agrupamento. Trabalhei lá, sempre a tentar e fui sempre concorrendo para a minha área, para a ver se conseguia alguma oportunidade na minha área profissional, mas entrei na função pública na altura e fiquei algum tempo, cerca dez anos.
Como é que foi esse período? Condições de trabalho relações de sociabilidade no trabalho…
O mais gratificante era poder estar com os miúdos. As relações que acabavam por se criar, de proximidade e não só, e de confiança, com muitos miúdos que ainda hoje me veem e tratam com carinho. Isso era o mais motivador, e também o facto de eu ter tirado a licenciatura e sempre querer estar ligada a pessoas e estar em contato com pessoas. E ser mais nova, de ter outro tipo de atitude e postura perante os miúdos. Se calhar havia pessoas com mais alguma idade, que trabalhavam há muitos anos, que não aceitavam ou que eram intolerantes. Era gratificante esse trabalho com os miúdos. O agrupamento pertencia à Câmara, na altura entrei no contrato e algumas situações que eu pude acompanhar de perto e pude quase… como se estivesse a trabalhar na minha área, não era a minha função, mas conseguia ajudar.
As suas funções eram?
A vigilância e a limpeza dos espaços. Entretanto, depois, estive num sítio, num bloco, onde decorriam aulas e depois tive, os últimos tempos, no bar dos alunos.
Ok, então 10 anos como assistente operacional e depois?
E depois eis o dia em que resolvo fazer um pedido de mobilidade. Sabia que ia abrir uma vaga… ou seja a transferência de competências da segurança social ia ocorrer para os municípios, então fiz um pedido para a mobilidade intercarreiras para o município. No início de 2020 fiz o pedido. Entretanto ninguém me disse nada, continuei lá em baixo, até que em março me ligam, uma colega minha, que trabalhava numa casa de acolhimento em Pereira, que são mais ou menos 60 e poucos km, a convidar-me para fazer parte da equipa como Assistente Social. Pedi licença sem vencimento aqui na Câmara e fui trabalhar para Pereira em maio. Foi extremamente gratificante, a área, crianças, pronto, pela experiência que tinha do estágio profissional, era de meninos, em Pereira é de meninas. Foram uns meses desafiantes, mas muito enriquecedores. E, entretanto, em outubro liguei para o município, para questionar como estava a minha situação do meu pedido de mobilidade, e disseram para ter uma reunião. Cheguei aqui e disseram para começar em novembro como Assistente Social, que a minha mobilidade tinha sido concedida. De assistente operacional coloquei licença sem vencimento para ir para Pereira e, ao mesmo tempo, tinha a mobilidade. Entretanto, a transferência de competências ia ocorrer, era preciso técnicos para fazer a formação, e fiquei. E, portanto, em novembro iniciei em funções aqui no município como Assistente Social.
Mas custou-lhe sair ali das meninas?
Custou, custou. Porque lá está, nestes trabalhos de proximidade as relações que se criam depois é difícil… Custou, custou muito. Mantenho contacto com algumas delas e é difícil.
E vinha todos os dias, também?
Sim, sim.
Era uma viagem tranquila?
Primeiro não era muito tranquila, porque eu tinha sido mãe e, portanto, meu pequeno resolvia acordar de 2 em 2 horas de noite, mas fora isso sim.
Vamos “encaixar” o bebé aqui na história…
Eu desde pequenina sempre disse que não queria ser mãe, sempre! Todas as minhas amigas: “Ah, quero ser mãe”. E eu: “Não quero ser mãe”. Inclusive comecei a namorar com o meu atual marido em 2003 e eu sempre disse… As minhas irmãs casaram no Porto e eu sempre disse “eu também vou casar no Porto”. Eu casar com alguém de lá de cima? Nem pensar! Fui a única que vim casar aqui. Conheci meu marido, comecei a namorar com o meu marido…
Ele é de onde?
É daqui de uma aldeia. Conheci-o aqui numas férias. Comecei a namorar com ele em 2003. Portanto, namorávamos aqui um bocadinho à distância, porque eu estava na faculdade. E, entretanto, com o avançar da relação eu sempre disse a ele também que não queria ter filhos, e ele perdeu a esperança e a expectativa dessa possibilidade. Casamos em 2010. Foi na altura em que entramos para a função pública, porque ele também trabalhava nos Bombeiros e depois também entrou para a Câmara.
Ele era…?
Ele estava a trabalhar nos Bombeiros, entretanto também na mesma altura abriu concurso para motoristas e ele concorreu para a Câmara e entramos os dois na função pública na mesma altura.
Na mesma altura. E ele é mesmo de Vila Flor?
É do Arco, pertence aqui. Casamos em 2010 e a possibilidade de ter filhos nem nos passava pela cabeça. Ele já é bombeiro há muitos anos. Eu, em 2017, também ingressei aqui no Corpo de Bombeiros, portanto, fazíamos uma vida a dois sem pensar sequer em ter filhos. Mas olhe, em 2020, em novembro de 2020, nasce o pequeno. Nasce o pequeno que veio abanar a nossa vida. Porque acho que é das maiores aventuras… também uma prova de superação a todos os níveis e, portanto, olha, está cá, está cá com cinco anitos. Com cinco anitos e é um fervor e um turbilhão, mas é bom, é bom.
Portanto, depois de ser contratada aqui para a função pública não voltou a sair de Vila Flor?
Voltei.
Ah, então?
Eu entrei em 2010 para a escola. Entretanto, em 2017, abriu um concurso de mobilidade para o INEM. Já estava casada e disse ao meu marido: “estou farta disto, não encontro…”. Andava sempre em concursos e ia para aqui e ia para ali. Eu disse: “Olha, eu vou concorrer para o INEM e seja lá o que for! Olha, eu consigo fazer turnos, a gente passa a organizar-se e eu venho cá…”. Eu concorri, estava a trabalhar na função pública aqui na escola, era assistente operacional só que, entretanto, já estava ali há sete anos e eu disse: “Não! Tenho que fazer outra coisa”. Abriu um concurso de mobilidade e eu candidatei-me, e lá fui eu para o INEM, trabalhar no Porto, no edifício à beira do Jornal Notícias. Mais acima tem o edifício de INEM, fui trabalhar para o CODU.
O que é que fazia?
Atendimento. É duro, mas eu já fazia a rua, porque eu ingressei aqui nos Bombeiros, comecei a fazer serviço de INEM pela minha formação, estou nos Bombeiros ainda, desde 2017.
Porquê decidiu…?
Porque eu já tinha tentado entrar, quando estive cá no 12.º ano, eu tinha tentado entrar, mas na altura o Comandante disse-me assim: “Não aceitamos ninguém que não seja de Vila Flor, das aldeias não queremos cá ninguém”. E não me deixaram ingressar. E depois, em Coimbrões, que é perto da zona onde eu morava em Gaia, inscrevi-me e ainda andei lá e fiz um período de formação.
Se eu puxar aqui o fio aparecem imensas coisas… tudo relacionado com pessoas, estou a ver.
Sim, e em 2017 inscrevi-me aqui, pedi a transferência dos Bombeiros de Coimbrões para aqui, e inscrevi-me aqui, e fiz o curso mais avançado de socorrismo para o que é o “TAS”, Técnico de Ambulância e Socorro. Entretanto, quando fui aceite para o INEM, para ir trabalhar para o CODU, fizemos a formação de atendimento, fizemos uma formação de acionamento e depois comecei a trabalhar lá no CODU, estive lá 8 meses. Fazíamos turnos rotativos. O que é que eu fazia para estar aqui mais tempo com o marido? Muitas das vezes fazia turnos das 4h até às 8h da manhã, que era para depois conseguir ter mais dias de folga e estar aqui em Vila Flor. Mas acho que, de todos os trabalhos, foi o mais… vamos dizer, o mais desafiante, foi o mais desgastante. Porque uma coisa é nós trabalharmos com as pessoas e estarmos com as pessoas na rua, e eu dizia sempre isto, mesmo em contexto de INEM, o toque, o estar presente, o olhar… E através da chamada telefónica isso não é possível. E o desespero do outro lado… e durante 8 horas atender não sei quantas chamadas… a sensação de impotência… Estive lá 8 meses, e é interessante… o cansaço e o facto de pensar: “Mas o que que eu estou…?” Comecei a pensar “Eu lá não demoro tempo nenhum para ir para o trabalho, eu não apanho trânsito, e não tenho que pensar “ah, agora saí às 4h, apanhei um acidente, ui, só lá para as 6h é que vou chegar a casa, só para atravessar a ponte da Arrábida...”. Depois o facto do meu marido estar aqui, não é? E nunca ponderamos a questão de ele ir. E então resolvi regressar, e regressei para a escola. Depois, entretanto, passados 2, 3 anos, pedi mobilidade, foi depois que comecei o percurso para o centro de acolhimento e regressei, e subo ao município, que é onde estou atualmente.
Depois dessa mobilidade já ficou cá.
Já fiquei cá sempre, sim.
E tem vontade de sair outra vez?
Não.
Como é que é com um filho aqui em Vila Flor?
É uma sensação de segurança, paz, tranquilidade. E o facto de ele poder crescer neste sossego, é uma mais-valia. O meu pequeno tem 5 anos e ele diz “Mãe, vamos à avó?”. E a minha mãe ainda mora um bocadinho distante. “Olha, a mãe esta a fazer uma coisa, já vamos os dois”. Quando vou ver: “Oh mãe, olha, então eu vou indo”. Ele tem 5 anos e vai a pé até casa da minha mãe, ele brinca cá fora, portanto é… é sobretudo segurança.
Como é que se chama o filho?
Gonçalo.
E fez assim um casamento grande, com a família…?
Não! Eu nem me queria casar. Só que era aquela questão, o meu pai “Ai, agora vais-te juntar…”. Eu e o meu marido fomos, numa quinta-feira, ao Registo Civil, aqui em Vila Flor. Só fomos os dois e só me lembro de dizerem assim: “Olha, só temos que esperar mais um bocadinho para o senhor aqui começar, só temos que esperar mais um bocadinho”.
Mas porquê, por causa das testemunhas?
Não, já não era preciso, mas, entretanto, vinham duas amigas, duas das minhas melhores amigas do Porto. Vieram cá e fizeram-me uma surpresa e, portanto, eu não sabia. Foram as únicas convidadas para o casamento e para o jantar, porque depois fomos jantar os 4. Elas até ficaram aqui a dormir, foi assim uma coisa muito simples, e foi mesmo, sobretudo, porque o meu pai tinha aquela questão “Ai! Moras aqui agora vais te juntar…” pronto, pronto.
Vamos falar também um bocadinho depois do que significa ser mulher aqui, seja… Há aqui uma questão que lhe acontece, que é maternidade, que não estava a contar…
Não estava nos planos… Eu fiquei aterrorizada. E quando eu contei ao Simão, ele olhou para mim, eu pensei que ia ter ali um espaço de conforto, necessidade de ânimo, e ele ficou atormentado porque… não é? Porque durante tantos anos eu sempre disse que não, que não, que não. Foi complicado e depois a gravidez não foi propriamente muito fácil, eu estava habituada a fazer mil e uma coisas. Para além do trabalho, depois também tinha os Bombeiros, depois fazia as coisas em casa e tudo mais… Sempre em modo piloto automático, sempre a andar de um lado para o outro e, entretanto, tive mesmo que abrandar, tive que ficar de repouso e isso custou-me imenso. Eu acho que foi o período que mais me custou, que menos gostei, foi o da gravidez.
Foi obrigada a parar?
Sim, sim. Não foi fácil, não foi fácil. Entretanto, pronto, o Gonçalo nasceu e olha, há que arregaçar as mangas, e está aqui, é agora é para a frente…
E teve apoio, alguma retaguarda familiar?
O Gonçalo nasceu em pleno Covid. Era acompanhada no Hospital da Arrábida no Porto, mas, entretanto, a médica chegou uma altura que disse: “Não, não volta mais aqui por causa das viagens, pronto, tem aqui alguns problemas”. E, entretanto, às 34 semanas vou a uma consulta a Vila Real e a médica diz-me “Olhe, trouxe as coisas? É que vai ficar cá internada”. Eu só me lembro de chorar, chorar, ligar ao meu marido e ele dizer: “Calma, calma!”. Tive quatro dias internada, a fazer maturação pulmonar. Toda a gente dizia que eu estava com contrações e que o miúdo ia nascer e qualquer momento e eu nunca senti nada. E o facto de o Simão nunca poder ir lá ver-me… aquilo foi muito doloroso. Eu quando saí do Hospital disse-lhe: “Eu não tenho aqui o Gonçalo. Temos que arranjar outro sítio para o Gonçalo nascer, mas eu aqui, sozinha, não tenho o Gonçalo”. E marquei uma consulta para o Hospital da Trofa, de Vila Real, para uma obstetra que me tinha seguido quando eu estava nas urgências. Isto foi uma quinta-feira, e diz-me ela: “olha, ele já não cresce mais aí dentro, quando é que faz as 37 semanas?”, e eu: “Na terça”. “Ah, então na terça se quiser marcamos cesariana”. E o meu marido foi. Teve no hospital, teve no nascimento comigo, teve no meu quarto e, portanto, aí sim, foi tranquilo, porque acho que seria muito difícil se tivesse de nascer no público naquela altura de pandemia. E depois quando vim para cá, não tive muito apoio porque, como era a altura de Covid, eu também não queria que ninguém se aproximasse muito dele, não é? Nem queria expor o miúdo, então ficamos ali muito os três na bolha. Foi muito difícil. Tive com o Gonçalo até aos 10 meses. Tive a possibilidade de conseguir ficar com ele até aos 10 meses de idade. E foi difícil, foi revoltante, porque o meu marido começou a fazer a vida normal. O trabalho, e depois Bombeiros… Mas nós, adiando, não é? Nós vamos sempre adiando, vamos sempre adiando. Tive durante 10 meses, praticamente 24 horas sobre 24 horas com o Gonçalo. Depois quando comecei a trabalhar... uff.
E depois, entretanto, o Gonçalo foi para a creche?
Sim. O Gonçalo foi para a creche em setembro, com 10 meses. E eu retomei o meu trabalho.
Ele nasceu em dezembro?
Novembro. A 3 de novembro.
E depois, entretanto, retomou o trabalho, no horário normal?
Na escola estive até o Gonçalo ter um ano, 2021. Tinha a redução da amamentação e eles fizeram um horário seguido. Entrava às oito e meia e saía à uma e meia. Então, toda gente me dizia “sais à uma e meia, vais para casa, almoças, descansas um bocadinho depois vens buscar o Gonçalo”, mas eu “Não!”. Saía à uma e meia, ia buscar Gonçalo, chegava a casa, ele só queria mamar. Até aos dois anos foi desafiante.
Agora, hoje em dia, daquilo que faz, o que é que considera que é mais importante para si, na sua vida?
A minha família e o meu trabalho. O meu trabalho porque, felizmente, tenho a oportunidade de criar relações de proximidade. E... Pessoas e relações sempre foram o meu foco, mas sobretudo a minha família é o mais importante. E o facto de poder conseguir desempenhar a minha profissão, no sítio onde nasci e no sítio onde efetivamente quero ficar. Porque, hoje em dia, vamos ao Porto, já não com tanta regularidade, chego lá e o trânsito confusão, carros... “Não, não, não. Quero me ir embora”. Portanto, já nem tenho tanta vontade de ir. Porque, efetivamente, este sossego, e esta calma, não haver trânsito, não haver stress como há na cidade. Podem não haver tantos serviços, como há nos meios urbanos, mas hoje, felizmente, também estamos próximos, temos aqui os hospitais próximos. Mas só esta calma, só esta paz, esta tranquilidade, qualidade de vida que nós temos, é incomparável.
Pensando no Gonçalo, na escolaridade dele, projeta assim alguma uma coisa para ele?
Assusta-me um bocadinho a escolaridade dele. Então, ele vai começar em setembro na Escola Primária, e não sei se, eventualmente, aqui poderá ter tanto apoio como teria se estivesse no Porto, por exemplo. Estou a dizer apoio, mas não é apoio, mas se calhar.... Há aqui um corpo docente mais envelhecido que às vezes acaba por não estimular, ou, se calhar, não acompanhar as necessidades dos miúdos. Os miúdos são estimulados desde muito cedo, não é? Se nós também não mudarmos a nossa forma de trabalhar com eles, e se fizemos o mesmo que fazemos há 20 anos atrás... Isso assusta-me um bocadinho. Futuramente, não sei, pelo menos até ao 9º ano, a perspetiva é ficar aqui. Depois, como eu também tenho retaguarda das minhas irmãs, as duas em Gaia, depois logo se vê...
E sem ser o futuro do Gonçalo, em relação ao seu. Tem algum sonho?
[Risos] Tenho. Gostava de fazer voluntariado, fora. Sempre disse isto, e a pessoas inclusive, que já não estão em cá, que diziam: “Ah, Patrícia tens que ir.” Nós, entretanto, depois vamos adiando… Eu pegava numa mochila e ia… e ia! Ia até onde, onde a intuição, ou o destino, ou o que quer que fosse, me levasse. Posso vir a concretizar ainda, eu sou nova, portanto, o Gonçalo também há de crescer e há de voar, e é para isso que nós também temos que o orientar e, portanto, é um dos sonhos que gostava, gostava. Gostava muito. Tirar um ano de licença sem vencimento e ir para um país, para outro país, e fazer voluntariado.
Está dentro de si essa…
Está!
De que forma é que, ter nascido nesta zona do país, em Trás-os-Montes, e aqui, especificamente, em Vila Flor, influenciou a sua trajetória de vida, as suas opções… a sua personalidade, como é que associa o território a si?
Essa é difícil, essa tenho que pensar [risos]. Eu acho que nós aqui também acabamos por ser mais resistentes, e temos, acho, que uma atitude e uma visão para com os outros que não se têm noutros territórios maiores, não é? E, lá está, o facto de eu falar nesta questão da proximidade e dos outros, isso também nasceu do facto de ter nascido numa aldeia pequena, onde todos se conhecem, e onde, na altura que eu nasci, havia esta relação de interajuda e companheirismo, e se aquela pessoa tem... eu tenho muitas batatas o meu vizinho até nem tem tantas batatas, e eu vou e dou. E, infelizmente, acho que hoje em dia já não se vê tanto, mas, se calhar, o facto de ter nascido neste meio rural, e nesta comunidade, não é? É no sentido mesmo da palavra Comunidade, de partilha, de união e de estar próximo, se calhar fez com que eu, depois, também, tivesse este percurso, e que alineasse esta área. E eu acho que nós aqui somos mais resistentes, mais combatentes, e mais resilientes, e esta força de ir e de fazer… Eu tinha colegas minhas, no meu décimo ano, que me diziam, por exemplo, “ah, tenho que ir com minha mãe… a minha mãe vai comigo a uma consulta ao Centro de Saúde” Eu nessa altura já ia sozinha ao Centro de Saúde. Tinha que fazer compras? Eu ia fazer compras. Acho que também foi daqui, deste… acho que às vezes nós termos que, não queria bem usar este termo, o desenrascar, não é? Que também me fez crescer e que me fez ser mais forte. E aqui, também, o sentido de proximidade é muito… as minhas irmãs, a ligação muito forte que eu tenho com as minhas irmãs… gosto dos meus pais, tenho com os meus pais, mas as minhas irmãs, principalmente a mais velha foi sempre um porto seguro. E tem a haver com o facto de ter nascido aqui neste meio pequeno, também acho que essa partilha, essa dinâmica, essa proximidade.
Estava a ouvi-la e a pensar que quando falou em desenrascar, também tem a ver com, se calhar, havendo segurança, havendo uma rede comunitária, as crianças, desde cedo tornam-se mais independentes, e depois as jovens também são mais independentes para ir à consulta, para ir às compras, e etc., não é?
Sim. E acho que aqui há mais liberdade para nós também nos tornarmos independentes, porque eu, quando morei em Gaia, entretanto nasceu o meu sobrinho, o meu primeiro sobrinho, e passei três anos com ele, e a minha irmã, houve um desses períodos que até foi para Lisboa, e, portanto, estava eu e o meu cunhado e o pequenino. E sinto muita diferença em relação ao Gonçalo, com a mesma idade. Eu estou em casa e o Gonçalo anda cá fora, a brincar, se for preciso vou bater a porta de casa do vizinho, para perguntar se está tudo bem. Se eu disser para ele fazer alguma coisa, ou para me buscar qualquer coisa, vai sem qualquer tipo de problema, e eu acho que este sentimento de segurança também faz com que ele cresça e com que seja muito mais desenrascado e muito mais hábil nalgumas coisas que, comparativamente aos meus sobrinhos que sempre moraram lá, não eram. Mesmo esta questão: a minha sobrinha, se vier cá, tem um pavor a certos animais. O Gonçalo, se for preciso, anda atrás dos bichinhos, não é?
E costumam vir muito cá, a sua sobrinha, os seus sobrinhos?
Sim, sim, sim. E gostam. Um inclusive até é padrinho do Gonçalo. Também tenho a minha outra sobrinha, que também é mais velha. Também é madrinha, mas ela está na Islândia, a trabalhar. E costumam vir cá com regularidade. São as únicas pessoas com quem fica o Gonçalo, quando vêm cá os primos e os tios e as tias. De resto, é muito pai, muito mãe.
O que é que significa para si, em todo o seu percurso em toda a sua trajetória, ser mulher?
Ser uma mulher daqui é ser uma mulher de garra, uma mulher lutadora e uma mulher resiliente. E uma mulher independente. Independente, desde muito nova também, não é? Por força das circunstâncias, do facto dos meus pais e tudo mais, sempre desde muito nova a fazer as coisas que normalmente só se fazem… ou ainda são acompanhadas pelos pais e eu já as fazia sozinha.
Mas sentia que era por ser mulher, não teve irmãos rapazes, não tem essa comparação, não é? Em termos ou de tarefas, ou do seu cargo, etc. Mas a sua consciência de ser mulher, lembra-se quando é que pensou a primeira vez sobre ela?
Não, acho que nunca pensei bem. Acho que nunca pensei. Sinto sempre é que, em todos os sítios que eu passei, eu acho que nós temos sempre de provar mais do que se se for um homem. Acho que nós temos sempre de provar mais. E por exemplo, ainda hoje, e falo aqui relativamente aos Bombeiros, na primeira vez que fizemos o INEM duas raparigas juntas, foi assim uma coisa, e isto não foi há muito tempo, foi uma coisa muito escandalosa. Chegámos à casa da vítima e a senhora vira-se para nós: “onde é que estão os Bombeiros?”. E, portanto, neste meio, especificamente, parece que temos sempre de tentar provar algo mais e a fazer algo mais e a desafiarmos sempre por algo mais para tentar provar alguma coisa.
Mas isso já é refletir…
Sim, agora, agora... Agora mais introspetiva, sim.
Sentiu isso que acabou de me dizer, deu exemplo dos Bombeiros, mas sentiu, assim, em mais algum lado específico, alguma coisa que tenha sido mais evidente, seja nos estudos ou noutro sítio qualquer?
Nos estudos, não, porque sempre tive turmas maioritariamente femininas, o oposto. No meu curso, na faculdade eram dois rapazes, o resto era tudo o universo feminino. Lá está, se calhar, falei na situação dos Bombeiros, porque é o universo onde que estou com mais elementos masculinos a trabalhar, porque mesmo em termos município, somos maioritariamente na equipa do sexo feminino, portanto, não tive essas…
Como é que foi contar estas histórias?
Foi bom, foi bom! Porque depois uma pessoa pensa assim: “Afinal eu já fiz umas coisitas, já andei aqui de um lado para o outro, já experienciei algumas coisas”. Sim, foi bom.
Mas parece que à primeira já não nos lembramos…
Sim, sim, sim… é o que é. É a minha história.
E eu agradeço por isso, porque é um ato de generosidade partilhar a história de vida, e nós agradecemos imenso mesmo. E desejo-lhe o melhor.
Obrigada, obrigada.
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