OS GALOS E AS ALFACES O bairro Praia de Iracema tem um encanto todo seu, famoso por sua vida noturna efervescente. No passado, era o ponto mais animado de Fortaleza, onde a boemia dava o tom das madrugadas. Hoje, mesmo com ares mais sofisticados, já não se parece em nada com o que foi antes dos anos 1970. Em tempos ainda mais remotos, era uma área nobre da cidade, reduto da aristocracia cearense. Ainda hoje, em meio às modernidades, resistem — empoeirados e cansados — alguns sobrados em ruínas, testemunhas silenciosas de uma era próspera. Nessa região morava Zequinha, que vivia com sua avó, viúva de longas datas. Ainda na adolescência, ele abandonou os estudos e entregou-se à doce perdição da vadiagem. Criou para si um mundo torto e sem brilho — uma realidade paralela, cheia de artimanhas frágeis e ilusões açucaradas, habitada por figuras sem talento e sem rumo. Naquele universo, o pecado era exaltado como salvação. Zequinha era o clássico exemplo do sujeito que, como se dizia antigamente, "nunca pregou um prego numa barra de sabão". Trabalho, para ele, era palavrão. Vivendo inteiramente à custa da avó, era olhado de soslaio pela vizinhança. Ao lado esquerdo, morava dona Rosa, senhora esforçada que mantinha, com esmero, uma horta no quintal. Fazia render sua escassa pensão com o que colhia da terra: tomates viçosos, couve-flor, cebolinha, coentro e, sobretudo, alfaces de uma beleza digna de vitrine. Separava os quintais um muro de alvenaria, com dois metros de altura. Mas não havia muro que segurasse os galos de Zequinha, passatempo recente, incentivado por más companhias. Eram galos de briga — especialmente da raça indiana — num cercado improvisado no jardim da casa da avó. Os bichos, bem alimentados e treinados, passaram a render lucros nas rinhas populares de Fortaleza. Em pouco tempo, Zequinha tinha mais de cinquenta animais no quintal. Com os bolsos forrados, ria à toa e se esbaldava nos luxuosos cabarés do centro da...
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OS GALOS E AS ALFACES O bairro Praia de Iracema tem um encanto todo seu, famoso por sua vida noturna efervescente. No passado, era o ponto mais animado de Fortaleza, onde a boemia dava o tom das madrugadas. Hoje, mesmo com ares mais sofisticados, já não se parece em nada com o que foi antes dos anos 1970. Em tempos ainda mais remotos, era uma área nobre da cidade, reduto da aristocracia cearense. Ainda hoje, em meio às modernidades, resistem — empoeirados e cansados — alguns sobrados em ruínas, testemunhas silenciosas de uma era próspera. Nessa região morava Zequinha, que vivia com sua avó, viúva de longas datas. Ainda na adolescência, ele abandonou os estudos e entregou-se à doce perdição da vadiagem. Criou para si um mundo torto e sem brilho — uma realidade paralela, cheia de artimanhas frágeis e ilusões açucaradas, habitada por figuras sem talento e sem rumo. Naquele universo, o pecado era exaltado como salvação. Zequinha era o clássico exemplo do sujeito que, como se dizia antigamente, "nunca pregou um prego numa barra de sabão". Trabalho, para ele, era palavrão. Vivendo inteiramente à custa da avó, era olhado de soslaio pela vizinhança. Ao lado esquerdo, morava dona Rosa, senhora esforçada que mantinha, com esmero, uma horta no quintal. Fazia render sua escassa pensão com o que colhia da terra: tomates viçosos, couve-flor, cebolinha, coentro e, sobretudo, alfaces de uma beleza digna de vitrine. Separava os quintais um muro de alvenaria, com dois metros de altura. Mas não havia muro que segurasse os galos de Zequinha, passatempo recente, incentivado por más companhias. Eram galos de briga — especialmente da raça indiana — num cercado improvisado no jardim da casa da avó. Os bichos, bem alimentados e treinados, passaram a render lucros nas rinhas populares de Fortaleza. Em pouco tempo, Zequinha tinha mais de cinquenta animais no quintal. Com os bolsos forrados, ria à toa e se esbaldava nos luxuosos cabarés do centro da cidade. Os galos, inquietos e curiosos, logo descobriram como escalar o muro e invadir a horta de dona Rosa. Quando ela percebia, os enxotava com vassouradas (sem maldade, apenas para afugentá-los). Mas, quando estava fora, era festa feita: os galos se empanturravam de pepinos, pimentões, couves-flores e, principalmente, de alfaces — verdinhas, tenras e irresistíveis. Para ser justo, é preciso dizer: Zequinha não sabia das escapadas. Só achava estranho o desempenho vigoroso dos seus galos, que cresciam bonitos, fortes e destemidos, sem que ele mudasse nada em sua rotina. Viraram os galos mais bonitos e valentes da cidade! Mas um dia, no cair da tarde, apareceu seu melhor galo com a perna quebrada. Era seu xodó: um espécime mexicano de plumagem escura, campeão invicto de diversas rinhas. Foi antes do governo Jânio Quadros — época em que esse tipo de combate ainda não era crime. Zequinha ficou transtornado. Tentava entender o que acontecera. Descartou logo a ideia de acidente no quintal de dona Rosa. Sua cabeça fervilhava: teria sido sabotagem? Um golpe sujo de seu maior rival? A verdade veio alguns dias depois. Zequinha descobriu que dona Rosa tinha, de fato, quebrado a perna do galo. Estava cansada de ver suas hortaliças sumindo. Ambos se sentiam lesados. O conflito cresceu. Mas, em nome da amizade antiga, não houve queixa na polícia. Zequinha até se ofereceu para resolver a situação. Mas, como muitos dos seus atos, a promessa ficou apenas na intenção. A situação só piorava. Um dia, dona Rosa, já de saco cheio, foi falar com Zequinha — dessa vez, com firmeza: — Zequinha, os seus galos estão pulando o muro e entrando no meu quintal pra devorar minhas alfaces! Isso é um absurdo! E ele, com um sorriso maroto no canto da boca, respondeu com a cara mais lavada do mundo: — Absurdo, dona Rosa, seria se suas alfaces pulassem o muro pra comer os meus galos! José Nilton Fernandes 11 de março de 2026
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